A vila

Era batata. Todo dia, pouco depois das cinco e meia da tarde, a figura miúda, que parecia arrastar fados ardidos, chegava para acionar uma chave. O português de passos lentos iluminava as partes comuns da vila de casas e voltava para sua rotina triste.

As lâmpadas acesas vibravam o toque de recolher. Hora de parar a linha de passe (alívio para o goleiro, que já tinha tomado um saco de gols), guardar as bolas de gude e interromper a caçada aos grilos. Éramos exímios caçadores de grilos. O segredo era identificar o cri-cri dos bichinhos no mato, aproximar-se devagar e, zás!, agarrá-los. Na maioria das vezes, isso resultava na asfixia das pequenas vidas, mas, privilégio da infância, nunca assumimos o crime. De resto, a população de grilos era enorme e a devastação minúscula. Queríamos apenas sentir a vibração de patas e asas nas palmas das mãos e provar que, pelos poderes de Greyskull!, éramos poderosos.

Os adultos, classe média baixa, começavam a chegar do trabalho. O Menino não compreendia as cabeças baixas, os olhos melancólicos, os ombros caídos. Todos moídos. Era assim com o vendedor de margarina, o pequeno comerciante, o dentista, o câmera da TV Tupi. Todos se conheciam pelos nomes, trocavam amarguras e sonhos sentados debaixo de céus estrelados. Minha vila tinha essas intimidades, que os paredões de concreto da cidade embrutecida aniquilaram.

Para os Meninos, as noites nem sempre eram pacíficas. No meu caso, tomar a tabuada em véspera de prova, engolindo uma indesejadíssima sopa de abóbora, trauma quase insuperável, cheirava a filme de Roger Corman estrelado por Bóris Karloff. Em preto e branco, carregado no noir.

Ultrapassado o obstáculo aboboral, restava a esperança de dormir após as 21 horas. Concessão rara. Nesse horário se exibiam episódios de bangue-bangues. Cresci nutrido por Wyatt Earp, Bat Masterson e Paladino do Oeste. Como pós-graduação, histórias de suspense apresentadas por Hitchcock, ficção científica no Além da imaginação (sem efeitos especiais, apenas criatividade), rajadas de metralhadoras nos Intocáveis. Vocês não imaginam a excitação de assistir aquelas imagens para quem, até então, só tivera a companhia das ondas sonoras do rádio. Para aumentar a tensão, a corrente elétrica oscilava, a imagem sambava na horizontal e na vertical, enfrentando os botões de controle com a galhardia colonial do Jim das Selvas.

A vila não era apenas uma fileira de casas modestas, cercada por matagais, pedreira e uma solitária mangueira. Nela existia uma rede delicada de relações, que incluía moradores, leiteiros, padeiros, garrafeiros e ambulantes eventuais. A solidariedade entre aqueles iguais foi vital no momento trágico em que o coração do Grande resolveu implodir numa quarta-feira de cinzas. Os gritos de socorro do Menino atraíram de imediato a vizinhança e alguém tratou de chamar a assistência (ambulância das antigas). Em vão. Naquela hora de estranho vazio, de anestesia, de dor indescritível, uma vizinha fez as vezes de consoladora. Intimidade. A beleza do humano.

A especulação imobiliária, ganância criminosa que desfigurou o Rio, não chegou a demolir aquelas casas. Elas ainda existem. O matagal foi substituído por um paredão do Sesc Tijuca, a área das peladas é estacionamento de moradores, a entrada foi fechada por um portão metálico. O que não derreteu foi a memória de tempos mais amenos, mais pacíficos, que saíram da ribalta junto com as cadeiras de vime das conversas noturnas.

Antes de parir o Stanislaw Ponte Preta, Sérgio Porto escreveu crônicas primorosas, especialmente sobre a Copacabana de sua infância. Ainda vou dividir com vocês pelo menos uma delas. Bem, ele descreve a tristeza de ver sua casa demolida. Conservando o direito de ficar triste, conclui assim um de seus textos: “A gente sempre se sente um pouco mais alegre da alegria que teve”. Não vejo forma melhor de encerrar estas lembranças.

Samba Perdido – Capítulo 31 – parte 01

Capítulo 31

 

“A gente somos inútil.”
Inútil - Ultraje a Rigor

 

Voltei para casa exausto. Dois dias depois, quando me recuperei, ao invés de estar contente por ter vivido uma viagem épica e de poder me deleitar novamente nos confortos que sempre tinha considerado como dados, a sensação foi de estranhamento. Ter uma empregada para arrumar minhas coisas, um quarto só para mim e comida sempre à disposição sem que precisasse trabalhar para nada daquilo parecia errado. Apesar da mordomia, me sentia como um animal enjaulado numa existência protegida que agora parecia limitada e limitante. 

O clima estava péssimo. Renée e Rafael, ansiosos e um tanto decepcionados comigo, achavam que minhas aventuras tinham ido longe demais. estava perdendo um tempo precioso; precisava tomar um rumo na vida, fazer sentido, mudar de visual e de atitude. Para um casal já idoso e com o passado complicado deles, ver o filho largado daquela maneira era difícil . O método paterno de mostrar descontentamento foi o de sempre; passar semanas sem me dirigir uma palavra, uma postura passivo-agressiva à qual já tinha me acostumado. Do lado da materno, muita gritaria e ofensas. 

A liberdade que vivi no Nordeste era incompatível com aquela realidade. Não era só em casa; na faculdade e nos outros círculos era como se todos tivessem voltado para a sala de aula menos eu. Nada me interessava e passei a achar tudo e todos insuportáveis. Me sentia como Ícaro, caído dos céus por ter voado alto demais, ou Gulliver, imobilizado por liliputianos por não caber em seu mundinho. 

Lá fora a situação também estava pesada. Por conta da crise econômica, o instinto de gado era rei e todos estavam mais caretas do que nunca. Para manter minha identidade e meus princípios vivos, tinha que nadar contra uma corrente de medo e de conformismo. Visto de fora, parecia que havia perdido o contato com o que se considerava a realidade do dia a dia; um cidadão de segunda classe a ser evitado.

Foi difícil voltar às aulas. O curso estava se aprofundando em teorias micro e macroeconômicas, cálculo e outras matérias exigentes. Completamente fora de sintonia, não tinha nem a concentração nem a vontade para continuar. A necessidade de digerir o que estava acontecendo, meu sonho antigo de ser diretor de cinema, a descoberta da música, a falta de pessoas com quem me identificasse, a distância da minha família e dos amigos, a falta de um relacionamento amoroso para ajudar a amenizar o caos; tudo era difícil. 

Precisava de tempo e espaço para refocar. Pedi a meus pais para que me deixassem passar um ano trabalhando em um kibutz, um tipo de comunidade agrícola anarquista em Israel, mas a resposta foi um sonoro não. Para eles, o tempo de diversão e divagações tinha se esgotado. Agora era hora de virar homem e trabalhar duro para construir um futuro. É claro que os argumentos faziam sentido mas não encontrava nem forças, nem razão para pairar acima daquele mar de confusão e capitular.

Para complicar as coisas, um dia Rafael, já nos seus 80 anos, passou mal ao sair para almoçar no escritório, desmaiou no elevador e seus funcionários, assustados, o levaram depressa a um hospital. Quando fomos vê-lo no CTI, os médicos disseram que seu coração estava fraco. Ainda que em retrospecto isso fosse previsível dado ao stress que estava passando, o episódia e a notícia pegaram a família de surpresa. 

Meu velho estava enfrentando o caos econômico aos trancos e barrancos. Continuava com suas andadas solitárias de madrugada na praia de Ipanema durante a semana e nos fins de semana repousava na tranquilidade de Teresópolis. Isso, e uma dieta saudável o tinham levado a uma idade avançada com saúde e lucidez, mas estava difícil. O paraíso tropical onde havia desembarcado trinta anos atrás estava irreconhecível. Após tantas conquistas, o Brasil parecia agora estar reclamando tudo que lhe havia dado. Com uma inflação mensal beirando os trinta por cento ao mês e uma estagnação econômica devorando o país, tudo parecia de cabeça para baixo. 

Como tantos outros, o negócio dele estava em dificuldades. Do seu ponto de vista, a família estava em frangalhos; eu tinha enlouquecido e, apesar da Sarah – ainda a sua grande esperança – estar indo bem em sua carreira de dentista, tinha entrado em um relacionamento tóxico e não estava falando com nenhum de nós. O sítio em Teresópolis, que deveria ser o lugar onde aproveitaria sua aposentadoria, tinha se tornado um problema de manutenção sem fim, um ralo financeiro e mais uma pedra no seu sapato.

Apesar das recomendações do médico, meu velho não se permitia descansar. Se parasse de trabalhar o estilo de vida da família desapareceria. Viciados que estávamos no seu esforço, a gente achava ele estaria ali para sempre provendo o nosso sustento e nao davamos valor ao seu martírio. Quanto a mim, estava absorvido demais comigo mesmo para oferecer qualquer tipo de ajuda e, de qualquer forma, ele descartava de cara qualquer sugestão que eu desse – como a de vender o negócio e a casa para que pudesse aproveitar seus últimos anos em paz.

Embora pensasse muito a respeito, sair de casa e mandar tudo para “aquele lugar” não era uma opção. Naquele tempo, jovens de classe média no Brasil só saíam de casa quando achavam um bom trabalho ou quando se casavam. Na Zona Sul carioca, ninguém jamais consideraria dividir um apartamento com amigos ou alugar um quarto na casa de estranhos. Mesmo se tivesse resolvido, pesquisando os classificados nos jornais descobri que os poucos empregos disponíveis para gente sem qualificação e sem experiência pagavam menos que a minha mesada. 

A tensão em casa foi escalando até chegar a um patamar insano. Quando ficou insuportável, conseguimos chegar a um acordo. Eu abandonaria meu curso de Economia para seguir meu plano original de estudar cinema. Para mim, essa escolha me colocaria minimamente de volta nos trilhos, para eles a opção era melhor do que eu largar tudo e ficar em casa de vagabundagem. O plano era tentar uma vaga em uma faculdade de cinema em São Paulo.

*

Alheia aos dramas familiares, meus e os de muitos outros, a intensidade da vida no Rio seguiu em frente. havia novidades e a estrela da hora era o grupo de teatro Asdrúbal Trouxe o Trombone. De várias maneiras, eram o que a nova geração estava precisando: uma voz própria. Sua inovação é que eram “gente como a gente”, meninos e meninas de classe média aprendendo a viver e a lidar com as dificuldades dentro e fora de casa. Diferente do que rolou em gerações passadas e o que ainda rolava nas universidades, eram totalmente apolíticos. 

Esse grupo era icônico para as mudanças que estavam acontecendo na cena cultural carioca e, consequentemente, na de todo o Brasil. Influenciados por Monty Python e pela contracultura em geral, o Asdrúbal era uma versão mais inteligente, inclusiva e bem humorada dos surfistas e dos roqueiros. A trupe, em sua maioria era formada por atores e diretores amadores da Zona Sul carioca, se lançou com a peça “Trate-me Leão”. Por sua postura atrevida e engraçada, tocando em assuntos fáceis de se identificar, a peça foi um tremendo sucesso e viajou pelo Brasil afora.

O Asdrubal entrou – ou melhor, não entrou – na minha vida da seguinte maneira:

Estava em casa já de calção preparando para ir ao Nove num glorioso sábado de praia. Meus pais tinham ido para Teresópolis e estava batendo papo com Dona Isabel na cozinha almoçando o meu habitual bife acebolado com arroz e feijão. A televisão estava ligada e, de relance, vi alguns dos atores do já famoso Asdrúbal dando uma entrevista. No final, anunciaram que estavam oferecendo aulas de teatro grátis e pedindo a todos que  participassem.

Aquilo chamou minha atenção e fiquei tentado. Enquanto fui andando descalço para a praia fiquei pesando os prós e os contras de participar do curso ou não. Aquilo poderia ser uma oportunidade para conhecer gente parecida comigo e, quem sabe, uma chance para me aproximar do objetivo de fazer cinema. Porém, no fim das contas, meu instinto de rato de praia falou mais alto, dizendo que aquilo era coisa de usuário de fio dental e de caretinha tirador de onda do tipo que queria evitar. Além do mais não dava para ator, com e sem trocadilho.

Aquele homofobismo juvenil foi um dos maiores erros da minha vida. Muitos dos maiores atores e roqueiros cariocas da minha geração, como a banda Blitz, o cantor Cazuza, comediantes como Luís Fernando Guimarães, a atriz e apresentadora Regina Casé, entre outros, surgiram daquele curso ou eram os professores lá.

A resposta foi forte e com tantos alunos inscritos separaram a galera em grupos. Bruno, um amigo meu, entrou para um deles. Ainda que não fosse um ator nato, tinha uma câmera de vídeo e talento para filmar e editar. Para o Asdrúbal, os dois atributos foram um presente dos deuses e começaram a lhe pedir que filmasse as peças e outros eventos. O Asdrúbal cresceu e o Bruno cresceu junto. Uma década mais tarde, Bruno tinha ganho vários prêmios como melhor diretor de vídeo musical na MTV Brasil e é hoje um dos maiores produtores do país.

*

Voltar

Início

 

 


 

Laura

Na inocência dos dias, Laura e sua irmã andavam de mãos dadas trocando sonhos pelas ruas do vilarejo quase inóspito.

As duas paravam de vez em quando para colher uma florzinha que teimava nascer entre o meio fio e a calçada. Elas se olhavam e a cumplicidade dessa alegria ingênua as levava a darem um passo alongado e gritavam: um, dois e três! Continuavam…

Como se a flor adivinhasse os sentimentos das duas, as pétalas iniciavam o processo de despedida da beleza que espraiava no concreto da vida, iam caindo e a leve brisa as levava para outros destinos.

Pairava de repente o silêncio do mundo e dos anseios das meninas. Laura apertava com mais força a mão da irmã entre a sua. Elas sabiam que no próximo verão tudo mudaria. O pai já havia determinado o destino de uma delas. A irmã teria que ir para outras plagas para trabalhar e ajudar à família que passava por tempos difíceis. Elas sabiam que não podiam recuar ou até mesmo interferir no assunto. O tio da capital já havia providenciado tudo.

Laura ousou dizer quase em sussurro a sua saudade e que nada mais seria tão venturoso. Ela teria que ler os livros e não ter com quem conversar, pois quem mais a incentivava era a irmã, pois após narrar a história, Laura escrevia uma carta ao personagem que ela mais gostava. Assim, ia desenvolvendo a arte da escrita e sua irmã empolgada com o fato, sempre dizia que ela seria uma grande escritora.

Laura solta a mão da irmã e para quebrar essa sensação de partida, fala: “quem chegar por último vai…” Não terminou a frase, ficou pálida e em um ínfimo segundo, caiu e desfaleceu. Sua irmã grita por socorro, mas nada a acordará.

Apenas três pedras e um livro foram colocados no túmulo de Laura. O verão chegou desalinhando a paisagem e sem muitos desejos, ela pensa mais uma vez em Laura, entra no trem e o vilarejos vai se distanciando sem nenhuma despedida. Apenas a certeza de nunca mais voltar.

Viagem ao redor de mim

Ao Artur Xexeo, pela inspiração involuntária.

E então me junto à confraria dos cronistas. O que fazer na frente da tela branca, da linha vertical que pisca? Tantos e nenhum assunto a enfrentar… Longe da vida que pulsa, ou pulsava, acabo me voltando para dentro. Como era mesmo antes deste apocalipse viral? Do que me despedi e o que tenho pela frente?

Há um ano eu estava em Montevidéu, cidade que adoro. A cada vez que circulo por lá, (re)descubro inusitâncias e belezas. Naquele início de 2020, conheci a Fundação Benedetti, o Museu da Memória, uma antiga taberna basca, anexa a um clube de descendentes de emigrantes. Ganhei, sobretudo, o que, em breve, seria proibido.

Procurávamos a casa do avô de minha companheira, quando pedimos informações a uma passante. Percebeu, de imediato, que não éramos de lá. Tava na cara e no sotaque. Um tanto desconfiada, já torcendo o nariz e talvez se preparando para nos mandar pentear macacos, perguntou: Argentinos? Quando respondemos que não, abriu um imenso sorriso e pulou em nosso pescoço, num abraço integral. Passou com prazer a informação, deu adeus e foi-se embora. Mal sabia eu que aquele gesto de carinho seria dos últimos antes de que contatos físicos virassem ameaça letal na pandemia que, dobrando a esquina, arrombaria a porta. Em tempo: nada contra os hermanos argentinos, tudo pelos abraços.

De volta ao Rio, sem perceber a tempestade que se aproximava, fiz as últimas caminhadas na orla de Copacabana antes de cair no isolamento total. Mesmo com as primeiras notícias de infectados, pensei, ou melhor, mais desejei do que pensei, que aquilo seria como chuva de verão. Dor de cabeça de fôlego curto. Ledo e ivo engano. O sol no calçadão talvez pudesse ser comparado, com as devidas e enormes vênias, ao pôr do sol em Varsóvia no dia 31 de agosto de 1939, véspera da invasão nazista à Polônia. Quem podia supor que o êxtase momentâneo seria substituído pelas bombas que arrasariam o país?

O início da encrenca mais parecia um trecho do filme O expresso da meia-noite. O diretor de uma penitenciária turca tenta enlouquecer o prisioneiro norte-americano, fazendo-o andar em círculos junto com outros detentos, sempre no mesmo sentido. Para quebrar o ciclo, o preso começa a andar em sentido contrário ao dos demais. Quando comecei a subir e descer escadas do meu prédio, a andar dentro do meu apartamento, exercícios desintoxicantes, senti o peso da rotina a que não estou habituado. Depois de um tempo, essa carga desembarca no desprazer e na tristeza. É uma guerra diária contra a melancolia e o roteiro repetitivo. Sabem a sina do Bill Murray no Feitiço do tempo? Pois é. Sei que vai passar, mas enquanto isso a batalha é dura.

Há muitas dores no picadeiro, talvez a maior de todas seja a sensação de que estão nos roubando o tempo. Enquanto a Morte sobrevoa, frequentando névoas e brechas, e os demônios assombram as madrugadas, o tempo escapa entre os dedos. Uma perda irrecuperável. Fragmentos de pessoas queridas, igualmente isoladas, igualmente ansiosas, estão perdidos para sempre. O inconsciente é caprichoso. De repente, vi-me relendo fundamentos da química, etapa da minha vida que julgava enterrada. Acho que tentei viajar para um tempo menos sufocante. Em vão, este bonde já passou. A realidade se impõe, implacável.

Para piorar, o sociedade brasileira teima em confirmar, diariamente, que é um projeto que naufraga. Com as exceções de praxe, tem prevalecido o interesse pessoal sobre o coletivo, facilitando a propagação da peste e minando esperanças de uma mobilização nacional contra ela. Quem consegue construir uma comunidade nesta base? O ânimo negacionista-totalitário do governo só agrava o quadro. Raduan Nassar, o enigmático escritor que virou agricultor, acha que “talvez a maior lição da pandemia seja reafirmar que precisamos viver, e conviver, de modo comunitário e solidário”. Compreendo isso como um desejo e uma possibilidade, não confirmados pelas aglomerações, pelo jeitinho dos fura-filas na vacinação, pelas récuas de desmascarados nas ruas, pelos imbecis antivacinas.

Sigo. Com saudades de mim mesmo, da vida ausente, dos que me dão forma. Por enquanto, sem perder o rebolado.

A beleza da imaginação

A imaginação é a chave mestra que abres as portas da poesia, do erotismo, da aceleração criativa. A imaginação foi indispensável para o homem dominar o fogo, construir a roda, pintar, esculpir, escrever. Na literatura há dois processos imaginativos: um que parte da palavra para chegar à imagem e o que parte da imagem para chegar à expressão verbal. Dante em “A Divina Comédia” busca definir o papel da imaginação, a parte visual da fantasia que precede a imaginação verbal. Aliás, neste ano de 2021 faz setecentos anos da morte desse escritor tão festejado. O grande Otto Maria Carpeaux define “A Divina Comédia” como o maior poema da literatura universal. Ele compara essa obra com as demais que poderiam ser concorrentes, mas conclui que em Dante está o universo literário inteiro. Adverte que é uma obra de difícil leitura, precisa ser lida, relida, e na verdade pode acompanhar a gente ao longo da vida. Foi o que disse Alberto Manguel em recente entrevista à revista “Quatro Cinco Um”, um deleite aos viciados em leitura.
Para se aproximar de Dante, da sua grande obra, é preciso ir devagar, pelas beiras, como se come mingau. Eu não como, mas lembro dos conselhos de Leonel de Moura Brizola, que gostava desse exemplo. Na minha família de agora há um clube do mingau, do qual não faço parte, mas acompanho seus integrantes com interesse. Aprender sobre a imaginação com Dante é uma delícia, e Alberto Manguel tem um livro, “Uma história natural da curiosidade”, que é uma viagem com Dante através de sua vida e obra. A originalidade da “A Divina Comédia” é, como escreveu Erich Auerbach, perceber o homem não como herói remoto, lendário, não como um representante abstrato ou anedótico, mas como um homem tal como o conhecemos na sua realidade histórica.
O canto XVII do Purgatório é sobre a imaginação do leitor: “quem te move, se os sentidos não te incitam”. A imaginação é provocada pela experiência dos sentidos. Na verdade, a fantasia, a imaginação, o sonho, é um mundo de potencialidades no qual transcorre a beleza das experiências. Ler Dante pelas bordas tem sido uma diversão, onde uma frase é uma passagem para viajar junto a ele, a Virgílio, a Beatriz, a Carpeaux. Nesses tempos tensos e difíceis da pandemia, tempos sombrios da política de morte no nosso querido país, precisamos, entre todos, mais e mais da imaginação. Imaginar é voar, imaginar é dar rédea solta aos devaneios, como uma história de experiência escrita por Walter Benjamin.
Benjamin, em “Experiência e pobreza”, relata uma fábula de Esopo: “O velho vinhateiro”. Na fábula, o pai conta a história de que haveria um tesouro na terra e os filhos aram, aram em sua busca. Os filhos fazem uma interpretação errada que leva a uma ação correta; errar tornar-se um ato eficaz, porque a história do pai exigiu um esforço pela parte dos filhos e eles descobrem, ao final, que a vinha era o próprio tesouro. Essa é a sabedoria transmitida pela história do pai, logo, uma vivência, arar a terra, foi transformada em experiência para os filhos. Essa fábula de Esopo repensada por Benjamin é uma experiência, assim como as frases de “A Divina Comédia”. Precisamos de experiências, são elas que enriquecem a vida, transformam, embelezam e potencializam o entusiasmo. Frente ao cansaço, as dores das milhares e milhares de mortes induzidas, é preciso renovar as experiências para viver o reino do espanto mesmo com lágrimas. E sonhar o hoje a partir do ontem, entre dores, amores, e assim excitados iremos imaginar o amanhã.

Esperança

Tou me guardando pra quando o carnaval chegar (Chico Buarque)

Não faz muito, fiz um comentário lamentando o desrespeito às regras para contenção da Covid-19 no Rio de Janeiro. As imagens de aglomerações são realmente fortes e dão uma sensação do que meus avós chamavam de nish guit, melancolia, desalento. Entre as reações ao que escrevi, ficou claro que a desesperança fez uma entrada triunfal no ambiente em que vivemos. Um gentil leitor chegou mesmo a dizer que o ser humano é um projeto que não deu certo. Não recrimino as reações. A sucessão de crimes, ofensas, baixarias, mentiras, que invadem o cotidiano é descomunal. Parece que estamos mergulhados num monte de lama e que emergir não será possível. É peso demais. Para essas pessoas, o resumo da ópera é o seguinte: no meio da floresta escura, os espectros parecem invencíveis.

Fico especialmente preocupado quando gente das novas gerações baixa a guarda. Nessas horas, é importante lembrar da História, senhora caprichosa que não se rende a vontades individuais. Imaginemos, por exemplo, o período nazista na Alemanha. Como deviam se sentir todos os que, de alguma forma, não se adequavam ao modelo pregado pelos barões do III Reich? Os massacres de dissidentes e “racialmente impuros” ganharam força com as vitórias militares no início dos anos 1940. Asfixia. Até a reviravolta de Stalingrado, resistir parecia não apenas temerário, mas inútil. E, no entanto, a maré virou.

Fiquemos na pátria amada, salve, salve. Durante o regime protofascista de Vargas, pensar diferente ou ser de esquerda era vestibular para a censura ou, pior, a tortura. O DIP, Felinto Müller e seus sabujos não estavam para brincadeira. A descrição das masmorras estadonovistas fazia inveja à eficiência germânica da Gestapo. E, no entanto, a maré virou.

Ainda no país do carnaval. Até pelo menos 1974, a ditadura civil-militar instalada em 1964 navegava em águas relativamente tranquilas. Quero lembrar de dois episódios da fase negra, que acompanhei de perto. Nos anos 1970, foi ministro da Justiça o Armando Falcão. Sinistro personagem que repetia o mantra indecente “nada a declarar”. Criou uma lei eleitoral, rotulada com o seu nome, que proibia os candidatos às eleições legislativas de falar no horário de propaganda da TV. Apareciam fotos dos distintos, com uma voz lendo currículos. Puro picolé de chuchu. Em 1974, Falcão apareceu como xerife de bangue-bangue, posando ao lado de uma gráfica do PCB estourada pela repressão. Tempos de pancadaria. Delfim Neto, Henning Boilesen, Erasmo Dias, Silvio Frota, Sérgio Fleury, Golbery do Couto e Silva, Carlos Alberto Brilhante Ustra, Jarbas Passarinho, toda a milicada, pareciam imbatíveis. E, no entanto, a maré virou.

Claro que a maré não vira por obra e graça do espírito santo. A cada momento o povo encontra as formas adequadas de resistência, gerando uma cadeia de efeitos que vai ganhando densidade. A reunião de vizinhos para protestar contra a escuridão na rua, o fortalecimento da imprensa alternativa, a luta sindical mesmo que dentro de regras arbitrárias, os espaços estudantis, o engajamento nas novas formas de comunicação, o gesto solitário de um não à autoridade, a germinação de formas avançadas de lutas de classes. Tudo lubrifica as rodas da História.

Vou insistir. Compreendo a frustração e o sentimento de impotência que andam circulando por aí. No entanto, é preciso, mais e mais, interpretar e, sobretudo, agir nos movimentos pendulares. Drummond, que um dia foi capaz de escrever que “os homens não melhoraram/matam-se como percevejos”, foi o mesmo que, em outro, conclamou: “Estou preso à vida e olho meus companheiros/não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas”. No fundo, é isso mesmo. E termino com outro poeta, Mario Benedetti: “Lento pero viene/el futuro se acerca/despacio/pero viene”. Repito: lento pero viene. Lento pero viene.

Abraço. E coragem.