Por quem choras Palestina

Por quem choras Palestina

São pessoas como o colunista Sayd Marcos Tenório que afastam qualquer possibilidade de diálogo entre palestinos e israelenses. Suas teses em artigo publicado no Brasil247, recheadas de pérolas antissemitas como: “A ONU aprovou, inclusive com o voto do Brasil, em 1975, a Resolução nº 3.379, que considerou o sionismo uma forma de racismo, mas, em 1991, ela foi revogada por pressão do lobby judeu”, ou seja, os judeus foram capazes de obrigar o mundo a reconhecer que Sionismo não é Racismo. E segue: “Então, se o sionismo é uma ideologia racista e de direita, pode haver um pensamento de esquerda no seu seio?”, para atacar o Sionismo Socialista.

Todo antissemita vive com uma paranoia conspiracionista. Imaginam que nós sionistas socialistas, sionistas de direita e sionistas de todo tipo, somos aqueles caras mencionados nos Protocolos dos Sábios do Sião. Me fazem lembrar um intelectual que depois de ler “Holocausto, Judeu ou Alemão” de Siegfried Elwanger, me disse que era um absurdo tudo aquilo, mas que alguma coisa de verdadeiro devia ter. O que nos leva a Berenice Bento, notória antissemita que tenta fazer todo um exercício psicofilosófico para negar a existência do sionismo socialista, que é claro, tinha de ser mencionada.

De acordo com Sayd, a tragédia palestina tem só um culpado, os sionistas, e só pode ter uma solução, a destruição do Estado de Israel através das forças de resistência palestina. Forças que ele chama de Partidos Armados, uma nova definição na política para grupos armados que atacam civis. Seria como chamar as milícias do Rio de Janeiro, ou o PCC de Partidos Armados.

Mas tem mais antissemitismo na narrativa: “O sionismo é uma ideologia que se apropriou do judaísmo como forma de dar sustentação às suas teses racistas e supremacistas, quando sabemos que nem todos os judeus são sionistas ou apoiam as atrocidades de Israel“. Como assim? Existe Sionismo fora do judaísmo? Claro que nem todos judeus apoiam as atrocidades de Israel, assim como nem todos os palestinos aprovam as atrocidades que foram cometidas pela OLP no passado, e são cometidas pelo Hamas nos dias de hoje.

Segundo Sayd, “O sionismo se baseia na teoria defendida por Herzl no seu livro O estado judeu, de 1896, da existência de um estado nacional judaico independente e soberano no território onde supostamente teria existido o “Reino de Israel”. Para supostamente, eu imagino que ele intencionalmente tenta apagar a história do povo judeu em Israel, que a Bíblia nos relata histórias da carochinha, que todos os historiadores são comprados pelos judeus para contarem mentiras. De verdade, existe o fato de que nunca na história existiu um Estado Palestino.

Para confirmar de que não podem dialogar com a esquerda sionista ele diz: “Essas forças da “esquerda sionista” são responsáveis pela criação do estado de Israel em 1948 e pelos desdobramentos da Nakba (tragédia), pois foram eles que pressionaram a antiga União Soviética a fornecer armas às milícias paramilitares sionistas, como Haganah, Irgun e Stern, por intermédio da Checoslováquia“. De fato, a criação de Israel se deu através da ONU, assim como do Estado Palestino. Deu-se inicio a um conflito armado e um lado saiu vencedor, o Estado de Israel que tinha na época uma maioria parlamentar de esquerda. Mas dizer que a então União Soviética forneceu armas através da Checoslováquia devido a pressão da esquerda sionista é chamar seus leitores de tolos.

Sayd ataca a direita judaica, a esquerda judaica e os judeus em geral. Para ele não existe outro caminho senão o do enfrentamento armado. Poderia ser o porta voz do Hamas. Parece que a esquerda humanista e progressista não se importa quando se referem a destruição de Israel, muito diferente quando se trata de um General Iraniano.

A pergunta que não quer calar é o que de bom existe em um artigo como este. Que proposta de solução para o conflito ele traz? Como seria uma iniciativa de paz entre os dois lados? Quem se sentaria a mesa de negociações para encontrar uma solução definitiva?

Sayd faz o mesmo jogo da direita israelense quando tenta desumanizar a esquerda sionista. A direita trata todos os palestinos como terroristas, ele trata todos os sionistas como iguais, de direita. É incrível como os extremos opostos se tocam.

Eu não preciso que me digam o que sou, ou como devo me definir. Tenho passado, tenho história e sei diferenciar um parceiro para a paz de um antissemita que se passa por antissionista. Os palestinos não merecem a situação em que se encontram. Talvez quando olharem para si mesmos e se perguntarem: “o que fizemos para nos encontramos assim“, comece haver uma luz no final do túnel. Mas enquanto os Sayds continuarem a colocar a culpa nos sionistas, nada vai mudar.

Não é o sionismo que está destruindo a Palestina, são os radicais e extremistas dos dois lados que não permitem aos dois povos uma conciliação e convivência pacífica com dois Estados lado a lado. Vocês sobrevivem do conflito, se alimentam do ódio e são incapazes de aceitar a paz.

Que tal uma Live ao vivo com debatedores sionistas socialistas e vocês?

Precisamos falar sobre o Antissemitismo na Esquerda

Depois de um artigo publicado a cerca de 20 dias, “Meu amigo judeu”, para instigar o debate sobre o antissemitismo na esquerda, fui mencionado em uma publicação apócrifa no site www.causaoperaria.org.br. O linguajar do autor não deixa dúvidas de que se trata de um pretenso comunista de biblioteca burguês. De operário não tem nada. Aquele tipo que a direita chama de comunista caviar.

O artigo é um festival de clichês que me remeteu aos anos 70. De inicio uma foto do que seriam soldados israelenses prendendo um jovem palestino. Existem milhares de fotos como esta, mas o autor escolheu justo uma que não é o caso. Os soldados em questão não são israelenses, e o preso provavelmente não é palestino. Seria um erro involuntário, mas ele continua errando quando diz que o grupo que administro no Facebook, “Resistência Democrática Judaica” é de sionistas socialistas. Agora já não se trata de erro, mas de interesse na crítica. Na verdade trata-se de um grupo judaico com membros de todo espectro político que em comum são antifascistas e portanto antibolsonaro. Nele existem membros até mesmo antissionistas.

Já de início o autor chama o Estado de Israel de Nazista, uma ofensa inominável a qualquer judeu. Todos nós perdemos familiares no Holocausto. O nazismo pretendeu nos exterminar da face da Terra. Montou uma indústria de morte com esta finalidade que chamaram da “Solução Final”. Israel comete crimes de guerra, mas dizer que se trata de um regime nazista é encerrar qualquer debate viável e civilizado.

Ele distorce minhas palavras em relação as vítimas do recente conflito de Gaza. Usa dos mesmos números que menciono, mas monstruosamente trata as mães que perderam seus filhos de forma diferente. Para ele as mães das 66 crianças palestinas são diferentes das duas mães israelenses. Talvez ele não tenha ouvido falar do atentado de Maalot. Em 15 de maio de 1974, três palestinos da Frente Democrática para Libertação da Palestina se infiltraram vindos do Líbano, tomando de assalto a escola de Maalot, uma pequena cidade ao Norte de Israel. No caminho para a escola os três palestinos mataram duas árabes israelenses, entraram em um apartamento de um prédio e mataram o casal e seu filho de 4 anos. Deixaram o prédio e foram para a escola Netiv Meir fazendo lá 115 reféns, entre eles 105 crianças. O resultado desta ação foi de 25 reféns assassinados, sendo 22 crianças e 68 feridos. Os três palestinos foram mortos pelas forças de segurança. Neste caso, as mães palestinas também eram diferentes das mães israelenses?

A extrema direita israelense tenta sempre desumanizar os palestinos, uma tática que dá ao opressor uma justificativa moral para manter a ocupação. Parte da esquerda faz a mesma coisa com os israelenses, mas neste caso trata-se de uma justificativa moral para expressar seu antissemitismo.

A intenção do autor não foi discutir o antissemitismo de esquerda proposto por mim.

Para ele o Estado de Israel não deveria existir. Para os nazistas não deveriam existir judeus. Percebem a semelhança? Eu utilizei o conflito recente em Gaza para mostrar como os antissemitas na esquerda se aproveitam do conflito para externar seu preconceito. Ele, vestindo a carapuça, se aproveitou do conflito para demonstrar que tenho razão.

Ele desdenha minha solidariedade, como sionista socialista, a causa de um Estado Palestino  e exalta os milhões de árabes que seriam solidários. Um momento de reflexão: além do Qatar, quem mais se preocupa com eles atualmente? O Irã que não é árabe e pensa como o autor, em destruir Israel. A União Europeia que não é árabe, e é a favor de uma solução de dois Estados. Em que país árabe os refugiados palestinos receberam cidadania? Vamos ser realistas, a tragédia palestina está perdendo o trem da história e isto não pode acontecer. Para constar, esta parte doentia da esquerda tem culpa neste processo.

E por fim temos o Hamas. Eu menciono em minha tréplica ao artigo inicial, que o Hamas é um regime totalitário onde não existe o menor respeito aos direitos humanos e que em muitos outros países árabes, não é diferente. Como um bom cidadão do mundo ele concorda com estes fatos, mas na sua ótica, tais desrespeitos são menos importantes no momento, afinal estão lutando contra o inimigo sionista e toda violência é justificável, inclusive contra seu próprio povo em Gaza. Diferentemente dele, eu acho que são parte do problema. O Hamas é uma organização que, diferentemente da Autoridade Palestina, não aceita a existência do Estado de Israel. Sua pretensão é a mesma do Irã, exilar os israelenses, trazer de volta os refugiados palestinos e criar um Estado Palestino em substituição ao Estado de Israel. Ainda assim, temos de encontrar uma maneira de sentar com eles a mesa de negociações.

Dado a um problema de interpretação de texto, ele me acusa de comparar Bibi e o Hamas, como Lula e Bolsonaro. Coisas incomparáveis. Eu concordo, tanto que não foi o que eu escrevi. Não há comparação em meu texto. Na verdade, digo e repito que o recente conflito foi do interesse de Bibi e o Hamas, serviu aos interesses de ambos.

Eu me permito aqui sugerir ao autor do artigo alguns temas para novos artigos: por exemplo, a invasão da Criméia e sua anexação ao território da Rússia. Outro tema , não menos importante para nós de esquerda são os Campos de Concentração na China, ou de Reeducação, como eles preferem, em que milhares de muçulmanos da etnia Uigur são mantidos. São fatos também recentes que parecem não sensibilizar a esquerda em geral e especialmente a parte antissemita, talvez por não envolverem judeus.

Ao contrário desta parte da esquerda, a direita é mais explícita em seu antissemitismo. Não se importa em desfraldar a bandeira nazista, de publicar obras antissemitas como os Protocolos dos Sábios do Sião, de apontar os judeus como donos da mídia internacional, de dominarem o sistema financeiro mundial e há entre eles quem diga, inclusive, serem os judeus os verdadeiros criadores do Covid-19 para ganharem dinheiro com as vacinas. Claro que não soa nada estranho algumas pessoas de esquerda que pensam a mesma coisa, afinal de contas, em matéria de antissemitismo, eles concordam uns com os outros.

Que tal vocês saírem deste mundinho e ajudarem de fato famílias palestinas que necessitam? Ajudem famílias palestinas clicando aqui.

Israel, Palestina e minha resposta ao meu amigo não judeu

Caro Martonio Mont’Alverne Barreto Lima, antes de tudo, muito obrigado por sua resposta ao meu artigo “Meu Amigo Judeu”, publicado no Brasil 247. É sempre um prazer conversar com alguém que antes de tudo procura mostrar o que temos em comum, e depois apresentar o que discorda. Tudo de maneira respeitosa, e mesmo assim contundente.

Faço também questão de dizer que nós os dois, apesar dos inúmeros casos citados de falta de manifestações da esquerda, ainda estamos longe de mostrar tudo o que acontece e fica restrito a poucas linhas de um jornal, ou em sites que precisam ser acessados por quem se interessa pelo que verdadeiramente acontece em nosso planeta. Infelizmente a maioria destes tristes episódios da vida real não transita nas redes sociais.

Concordamos plenamente de que Bibi e o Hamas são um obstáculo para a paz. De que se deve criticar as atitudes do governo israelense com relação à ocupação e ao tratamento desigual que dá aos árabes israelenses. Da mesma forma o tratamento que o Hamas e o mundo árabe em geral, dá aos LGBTs e tantas outras minorias.

Eu estou ao lado da esquerda que critica Bibi desde sempre. Por tudo que ele fez e principalmente pelo que deixou de fazer. Me é trágica a visão da situação em que nos encontramos, especialmente sabendo que a violência traz mais violência e o ciclo se renova a cada par de anos. Não discordo em nada. Saliento ainda que mesmo tendo sido o Hamas o responsável por este último ciclo com o lançamento de foguetes contra Jerusalém, não concordo com o uso desproporcional da força. Mas que fique claro que a dor da morte, da perda de entes queridos é a mesma dos dois lados da fronteira. As lágrimas derramadas pelas mães palestinas são iguais as lágrimas derramadas pelas mães israelenses.

Em nenhum momento do meu texto escrevi que toda a esquerda é antissemita. Jamais diria uma coisa destas porque não é verdade. O que eu disse e reafirmo, é que parte da esquerda é antissemita. Infelizmente o preconceito é um flagelo humano, independe de ideologias e abrange todo o espectro político.

Eu o convido, caro Martonio a uma simples reflexão. Vamos imaginar, apenas para fins desta conversa, que Israel não existisse, aliás que nunca existiu. Concordamos que a esquerda silencia, ou quase não se manifesta contra as tragédias humanas que acontecem ao redor do mundo. Neste caso seria correto supor então que não existiriam mais manifestações contra Israel? Sim e não. Explico: não contra Israel que nesta nossa reflexão não existe, mas parte da esquerda continuaria se manifestando contra os judeus que “querem dominar o mundo, que dominam a economia mundial, a imprensa internacional” etc.

Mas então vamos um passo adiante e vamos imaginar que não existissem judeus também. Então, sim, o silêncio seria quase completo. O problema nunca foi Israel, o problema são os judeus. A isto eu chamo antissemitismo da esquerda.

Agora dentro deste mesmo quadro alguém poderia achar que existiria um Estado Palestino. Ledo engano. Se não existisse Israel, aquele território seria parte da Jordânia, da Síria ou do Egito. Talvez estivesse dividido entre eles. O mesmo que acontece com os curdos e o Curdistão.

Voltando à realidade eu creio que parte da esquerda que se manifesta de maneira antissemita, o faz pela simples razão de que Israel é um Estado Judaico. Tire os judeus da equação e eles passam a fazer parte da maioria da esquerda que faz ouvidos moucos às tantas mazelas humanas que já mencionamos. Outra parte faz as críticas certas e com razão sobre o que acontece aqui.

Eu hoje estou com 63 anos. Sempre militei na esquerda. Trafeguei sem problemas nos mais diversos fóruns antissionistas. Tenho o bom senso de diferenciar um antissionista de um antissemita. Já fui alvo de ataques dentro da comunidade judaica em discussões sobre isso. Já me acusaram de traidor, de antissemita, de anti-israelense, esquerdista e me chamaram de tudo que possas imaginar. Ser de esquerda na comunidade judaica não é fácil. Por outro lado, parte da esquerda me chama de imperialista, de assassino, de genocida, sionista. Ser judeu na esquerda não é fácil. Da direita não chegam menos desaforos.

O fato é que sempre fui um sionista socialista e aprendi a conviver com isso. Vivi o socialismo no Kibutz (fazendas coletivas) e hoje vivo na cidade. Não compactuo com o sionismo religioso, nem mesmo com o sionismo da direita. Algo muito parecido com o Peronismo na Argentina. Como se sabe, lá sempre existiram Peronistas de esquerda, de centro e de direita. Ser antiperonista lá é quase como ser anti-Argentina.

Nós, judeus sionistas socialistas somos a linha de frente na luta por um Estado Palestino. A nossa voz é necessária, é o contraponto às ambições das facções fascistas da sociedade israelense que desejam anexar todo o território ocupado.

Eu acredito que ninguém melhor que um negro para me explicar o que é o racismo. Ninguém melhor que um homossexual para me explicar a homofobia. Assim sendo, ninguém melhor que uma mulher para me explicar o que seja a misoginia. Por que seria diferente com relação aos judeus? Por que não pedir a um judeu que explique o que é antissemitismo? Por que as pessoas se acham no direito, e digo isso sabendo que muitos o fazem de boa vontade, de me dizer o que de fato é uma agressão à minha condição como judeu e o que é de fato uma agressão restrita a Israel? Acham realmente que depois de todas as perseguições, de todas as tentativas de sermos varridos do mapa, do Holocausto, chegamos até os dias de hoje sem saber quem é um antissemita?

Meu querido Martonio, nunca vais escutar de minha pessoa que toda crítica a Israel é antissemitismo. De fato, seria muito comodismo e uma falta de bom senso de minha parte. Sempre fui muito cuidadoso neste sentido. Tenho mais de 45 anos de militância nas costas para saber que quando estamos diante de uma pessoa que odeia judeus, se comporta como antissemita, fala como antissemita, ela é antissemita. Simples assim.

Tenho um amigo de infância que faz parte da ABJD e nutro o maior respeito pela instituição e seus membros. Sei que ali ao seu lado se encontram pessoas progressistas, muitas de esquerda com alta envergadura intelectual e uma enorme preocupação com o Brasil, sua gente, suas instituições e a democracia. Apreciei muito suas palavras e agradeço muito por ter nos colocado na posição de dialogar.

O Brasil247 dá não só a mim, como ao meu amigo e companheiro Jean Goldenbaum, também um judeu sionista socialista a oportunidade de publicar nossos textos no portal conhecendo nossa vida de lutas por um mundo melhor. O Jean inclusive possui um programa na TV247. Invariavelmente recebemos comentários antissemitas e até de baixo calão de parte de leitores. Todos se dizem de esquerda, humanistas, progressistas e alguns até pedem o nosso banimento. Não estou me referindo a comentários com sugestões, cumprimentos, discordâncias, críticas etc. Algo normal para se ler em relação ao que escrevemos e que todo autor de um texto precisa receber. Estou falando de ataques virulentos e às vezes contendo ameaças a ponto de solicitar que sejam retirados. Isto faz do Brasil247 um portal antissemita? Claro que não.

Não podemos tapar o sol com a peneira e acreditar que toda a esquerda é de paz e amor. O preconceito também existe do lado de cá. Quem transita nas redes sociais conhece bem isso. Mulheres são assediadas em grupos de esquerda. Homossexuais são humilhados em grupos de esquerda. Negros são maltratados em grupos de esquerda. Porque seria diferente com os judeus, não é verdade?

Bem meu caro amigo, mais uma vez obrigado por sua resposta a minha instigação. Fico muito honrado com o que escrevestes e em saber que concordamos na maioria das coisas, podendo respeitosamente discordar de outras. Isto nos faz pensar e mostra que o assunto não se esgota nesta troca de textos, podendo ser discutido honestamente quando cada um percebe qual é a percepção do outro para o tema e pode, mesmo que por alguns instantes, se colocar no lugar dele.

 

Meu amigo judeu

Meu amigo judeu

Todo antissemita tem um amigo judeu. É uma característica deles. Se dizem contra o Estado Nazista de Israel, contra os judeus que lá vivem, são sempre antissionistas fervorosos. Os de esquerda em especial não sabem que foi graças as armas fornecidas pela Checoslováquia, um satélite comunista da então União Soviética, que Israel pode vencer a guerra da Independência. Mas isto já é outra história.

Mal acabou mais um conflito entre Israel e Gaza e novamente os antissemitas de plantão fizeram a festa carregando consigo os que de boa fé apoiam um Estado Palestino. Foram 219 mortos em Gaza e 10 em Israel, o suficiente para acusar o Estado Sionista de genocídio. O fato de que desta vez tudo explodiu com o lançamento de foguetes contra Jerusalém, é apenas um detalhe. Que o conflito interessava politicamente o atual governo israelense e o Hamas, outro mero detalhe.

Vejamos entretanto o que está acontecendo no mundo para se ter uma ideia da desproporção dos ataques que inundaram o Twitter com a hashtag  #hitlertinharazão. Sim, muita gente de esquerda que se diz apenas antissionista, ajudou a subir esta hashtag.

De acordo com o Programa Mundial de Alimentos, PMA da ONU, Mais de 31 milhões de pessoas devem enfrentar insegurança alimentar na África Ocidental e Central. Ela pede uma ação imediata para evitar que a falta de comida cause uma situação de catástrofe

A agência alerta que a temporada de escassez vai de junho a agosto deste ano, antes da próxima colheita. Vocês sabiam disso? Estão ajudando a evitar a fome deste contingente humano?

Ainda na África, centenas de moçambicanos estão tentando escapar da violência dos recentes ataques de grupos armados extremistas islâmicos, em Palma. Eles estão encontrando abrigos temporários com apoio do governo de Moçambique, da ONU e parceiros internacionais.

A Organização Internacional para Migrações, OIM, informou que até a quinta-feira, quase 14 mil pessoas foram cadastradas num Centro de Trânsito e Acolhimento em Pemba, capital da província de Cabo Delgado. As chegadas aumentam a cada dia. Algum antissemita, ou antissionista está apoiando os grupos extremistas islâmicos contra o governo de Moçambique?

Seis anos de conflito no Iêmen já deixaram 80% da população abaixo da linha da pobreza. O país enfrenta a maior crise humanitária do mundo: 66% da população precisa de assistência para sobreviver e 16 milhões de pessoas sofrem com a fome. O conflito armado já matou e feriu mais de 100.000 pessoas. Vocês que atacam os judeus, estão ajudando a população do Yêmen?

Vamos falar de Myanmar. Segundo o El País, “Mergulhado há décadas em várias guerras civis com guerrilhas formadas por minorias étnicas, Mianmar vê aumentarem as possibilidades de um conflito maior ante a espiral de violência e anarquia gerada após o golpe de Estado de fevereiro passado. Com mais de 500 mortos pelos ataques de policiais e militares contra os manifestantes que pedem a volta da democracia, e a fuga de milhares de birmaneses a países como Tailândia e Índia, o país enfrenta um dilema impossível: ou se opor ao Tatmadaw ―o Exército birmanês― ou se render ante os golpistas. A segunda opção tem sido descartada por algumas das guerrilhas mais poderosas da antiga Birmânia, que, em diálogos com o Governo civil na clandestinidade, concordam em se unir para formar um exército federal que possa afastar do poder as forças armadas do general golpista, Min Aung Hlaing.” Onde está a esquerda para apoiar o povo de Mianmar na sua luta por democracia?

E a Síria onde o conflito deixou em 10 anos mais de 380 mil mortos e levou 1,5 milhão de refugiados Sírios a abandonarem o país? Nas eleições presidenciais desta semana, Bashar Al-Assad ganhou com incríveis 95% dos votos. Posso estar equivocado, mas penso não ter visto nenhuma manifestação de qualquer partido político brasileiro, ou de seus líderes contra esta fraude.

Para fechar, que tal a gente falar da Bielorrússia? Lá, Alexander Lukashenko tem sido o seu presidente desde 1994. Em todas as eleições ele ganha sempre com ampla maioria dos votos. Na última, realizada em 2020, venceu com 80% . A população bem que tentou protestar, mas não recebeu nenhum apoio internacional contundente. Esta semana o país voltou as manchetes ao sequestrar um avião da Ryanar para deter um jornalista de oposição e sua companheira. Novamente preciso perguntar aqui quantas manifestações da esquerda contra este ato de terrorismo de estado foram vistas?

Hora de voltar a falar do “Meu Amigo Judeu”. É verdade que existem comunidades judaicas em quase todos os países do mundo, em maior ou menor número. Elas costumam ser organizadas e atuantes em seus países. Os judeus são sempre uma pequena parcela da população, mas parecem representar muito mais do que são de fato. No Brasil são cerca de 100 mil, mas há quem diga que foram eles que elegeram Bolsonaro.

Como todo grupo social, existem judeus de todo tipo: religiosos e laicos; sionistas e não sionistas; de esquerda e de direita; ricos e pobres; torcedores dos mais variados times de futebol; de todos os gêneros; enfim, são iguais a todos os grupos sociais que compõe a sociedade. No entanto, a direita antissemita tradicional e a esquerda antissemita de ocasião enxergam somente o judeu rico que apoia o Estado de Israel que por sua vez estaria cometendo um genocídio contra o Povo Palestino.

Antes de apontarem o dedo para Israel com uma ilação destas, me falem dos Yanomami, dos povos indígenas dizimados por vocês. Amoin Akuká, o último indígena da tribo Juma, morreu aos 86 anos por Covid-19 no início do ano. Milhares de outros indígenas morrem por doenças levadas por garimpeiros que invadem suas terras. Uma tribo inteira deixou de existir. Onde vocês estão enquanto estas coisas acontecem?

Nunca escutei amigos da esquerda me dizerem que tem um amigo índio. Nem que tenham um amigo moçambicano, nem que tenham conhecidos do Yêmen, ou da Síria, tampouco da Bielorrússia. Mas já tive vários que diziam ter “um amigo judeu“, que no caso era eu! Abandonei a amizade de todos eles quando acusaram os judeus pelo genocídio do povo palestino. Uma mentira repetida ao estilo nazista de Joseph Goebbels. E há quem acredite. E de esquerda!

Siegfried Elwanger, o famigerado dono da Editora Revisão dedicada a publicação exclusivamente de literatura antissemita e autor do livro “Holocausto, Judeu ou Alemão:”, em sua defesa no processo em que fui parte contra ele, alegava não ser antissemita e que inclusive tinha “amigos judeus“.

A esquerda antissemita é igual a direita islamofóbica. Muda apenas para quem o preconceito é dirigido. A mesma retórica. O racismo é da natureza humana, não importa a ideologia. Nisto, esquerda e direita, direita e esquerda, são a mesma coisa para quem sofre os ataques. Não existe país no mundo que não sofra deste flagelo.

Para deixar claro: genocídio cometeu a Turquia contra os Armênios com 1,5 milhão de assassinatos. Os Tutsis contra Utus com 800 mil assassinatos em Ruanda. O Kmer Vermelho no Camboja contra seu próprio povo com cerca de 3 milhões de mortos. Os nazistas contra os judeus com 6 milhões de mortos. E mais recentemente, Bolsonaro contra seu próprio povo com 450 mil mortos.

A despeito de tudo, eu sigo acreditando em um futuro Estado Palestino em Gaza e na Cisjordânia. Temos de retomar o diálogo, pois só ele pode trazer a solução para o conflito. A violência só trás mais violência e o ciclo precisa ser quebrado. Precisamos de parceiros para sentar a mesa. Países que não escolhem lado, que não apontam o dedo, que mostrem  o que pode nos unir, não o que nos divide.

Estamos cansados de tudo isso. Não queremos mais seguir enterrando nossos mortos a cada nova batalha de uma guerra que nunca terá um vencedor. Nós israelenses não vamos desaparecer. Eles, os palestinos não vão sumir. Estamos condenados a uma vida em comum, temos uma única escolha a fazer, se ela será em paz, ou em guerra.

A maioria dos dois povos  sempre escolheu o caminho da paz. Então nos ajudem a encontrá-la. Nos mostrem o caminho e permitam que o tempo do ódio fique no passado e o futuro seja de convivência em harmonia para os dois povos.

Talvez semana que vem surja um novo governo em Israel e Bibi finalmente vá para a oposição. Um governo de união nacional com partidos de esquerda, de centro e de direita apoiados por um partido árabe que vai dar sustentação. Se somos capazes de reunir forças tão distintas, tão diferentes, acredito que sejamos capazes de retomar as negociações de paz em um futuro próximo.

Esta é a melhor resposta para vocês e o seu preconceito.

Joga pedra nos judeus

Caro companheiro Moisés Mendes, posso chamá-lo assim? É que de uma certa forma, somos militantes do mesmo lado que combate Bolsonaro, mas como judeu de esquerda, me surpreende sua publicação para os Jornalistas pela Democracia, sobre o silêncio dos judeus diante dos insultos neonazistas de simpatizantes de Bolsonaro. Felizmente, não é verdade.

Antes de tudo, caso não seja de seu conhecimento, os judeus brasileiros são hoje cerca e 100 mil almas. Uma massa insignificante diante do apoio de 57 milhões de brasileiros que votaram em Bolsonaro. Ainda que todos tivessem feito isso, hás de convir que nosso voto não representou nada. Agora, admitindo que apenas uma parcela dos judeus ajudaram a eleger Bolsonaro, eu concordo que um judeu que se alia a extrema direita é sob a minha ótica, uma aberração e nunca vão existir pedidos de desculpas suficientes que justifiquem esta posição.

Os judeus brasileiros nunca foram majoritariamente de esquerda, mas este alinhamento com Bolsonaro não foi, e não é uma unanimidade. Ele soube explorar muito bem a ligação com Israel fazendo uma promessa que dificilmente será capaz de cumprir, a mudança da embaixada para Jerusalém. Ganhou até mesmo o apoio incondicional do ex-embaixador de Israel. A cegueira destes judeus e do embaixador foi tamanha, que não prestaram atenção que público para quem estava endereçada esta promessa eram os evangélicos, estes sim, poderiam render, e de fato renderam os votos necessários para sua eleição. Os judeus que o apoiaram, foram a cabresto. Idiotas úteis.

A sua indignação contra a eleição de Bolsonaro é a mesma que a nossa, judeus de esquerda. Por isso, quando dizes que: “Quando setores progressistas passaram a denunciar o conluio de judeus com Bolsonaro, a direita do judaísmo brasileiro e até uma certa esquerda decidiu atacar os ‘inimigos’ como antissemitas e antissionistas”, estás me atacando também, e usas a justificativa mais baixa, aquela de que todos os que atacam as atitudes extremistas de Israel, são chamados de antissemitas. E aí eu me pergunto, onde é que isto se enquadra neste texto? O assunto não era judeus e Bolsonaro? Agora estamos falando de ações extremistas do Estado de Israel? Acredito que tenha sido um deslize, mormente algo que muitos antissemitas usam para dizerem que não são antissemitas. Sem ofensa.

Tu cometes uma grande injustiça quando falas do episódio da Hebraica-RJ. Não mencionas que havia uma enorme manifestação de judeus na porta da Hebraica em 2017 contra a sua presença. Te esqueces de dizer que esta foi a primeira manifestação pública contra Bolsonaro. Preferes cometer uma falácia dizendo que os judeus cariocas são amigos de Bolsonaro. Ao invés disso poderias ter dito que não foi a primeira vez que o então deputado debochou de índios e negros, que ele repetiu o que já vinha pregando há muito tempo.

O voto antiPT não veio somente dos judeus, isto é óbvio. A maioria dos brasileiros caiu no canto da sereia e elegeram este genocida. Uma mancha para a nossa história. Uma tragédia da qual nunca esqueceremos.

Claro que não gostamos do gesto de Filipe Martins. Reprovamos com veemência assim como reprovamos o gesto do Ex-Secretário da Cultura Roberto Alvim e mais recentemente da postagem de Roberto Jefferson. Nós não nos calamos e o Observatório Judaico pelos Direitos Humanos, por exemplo, é uma prova disso. O grupo Resistência Democrática Judaica com 6.000 membros é outra. Articulação Judaica, Juprog, Judeus pela Democracia, JPD-Coletivo Democrático, Judias e Judeus com Lula etc, todos são a prova viva da militância judaica contra o Fascismo em geral e Bolsonaro em especial.

Nenhuma outra minoria brasileira possui proporcionalmente ao seu número, tanta militância organizada e combativa como nós. Sempre estivemos na linha de frente, desde antes da eleição e seguimos combatendo este inepto junto as forças progressistas. Quem prefere dar voz a direita judaica é tu e tseus colegas de trabalho, não nós.

Nós os denunciamos desde o princípio e seguimos na luta a despeito de textos como o teu, que insiste em dar destaque a minoria da minoria, quando todos sabem que Bolsonaro foi eleito majoritariamente pelo voto neopentecostal, pela mídia tradicional e o apoio da maior parte do empresariado, com supremo e tudo.

Quem mais, além de nós, ataca Bolsonaro como neonazista? Podemos contar nos dedos quem faz isso. De fato somos uma exceção, somos a voz da resistência judaica quando nesta mesma época, no Pessach de 1943, lutou até o último suspiro enquanto a besta nazista destruía o Gueto de Varsóvia. Nunca nos acovardamos.

Bolsonaro segue tendo seus aliados, 99% deles compostos por não judeus. Sejamos francos, teu artigo não serve a nenhum propósito, outro que não seja Joguem Pedras nos Judeus, não na Geni.

O brasileiro fascista de esquerda

Fazem muitos anos que quando eu digo que sou israelense, o céu desaba sobre a minha cabeça. Invariavelmente as pessoas me acusam de racista, imperialista, de oprimir o povo palestino, assassino, nazista etc. É o preço a ser pago por quem vive sob um regime de extrema direita.

Isto já está acontecendo agora também com quem é brasileiro. Ao sermos identificados como tal, nos chamam de fascistas, de destruidores das florestas, de assassinos dos povos indígenas, de preconceituosos, misóginos etc. É o  preço a ser pago por quem vive sob o regime de Bolsonaro.

Eu tento argumentar que nem todo israelense é de direita. Que a maioria de nós é a favor da solução de dois estados para dois povos. Que eu, pessoalmente apoio esta solução há mais de 50 anos. Que milito nos movimentos pacifistas e sou contra o atual governo israelense.

Se isto me acontecia como israelense, agora já me acontece também como brasileiro e vai acontecer com vocês. Preparem-se para enfrentar o fogo amigo e terem de explicar que nem todo brasileiro votou em Bolsonaro. Que você é de esquerda e condena as queimadas, a destruição das florestas, o genocídio dos povos indígenas, que apoia as minorias e luta contra preconceitos, e que é contra o atual governo brasileiro.

O ser humano tende a ser generalista. Se Trump é um fascista, todo americano é fascista, seja ele um Chomsky ou um Beni Sanders. Temos uma tendência a simplificar as coisas e assim acabamos cometendo, de uma certa forma, o mesmo tipo de preconceito que tanto combatemos.

Assim como nem todo alemão foi um nazista, nem todo israelense ou brasileiro é um fascista. É bom que se diga que tanto em Israel, como no Brasil, os fascistas não representam a maioria do povo.

Mesmo que possamos pensar racionalmente e compreender o óbvio, não é isto o que acontece muitas vezes dentro das nossas próprias fileiras. Eu combato o antissemitismo na esquerda desde os meus 15 anos. Um antissemitismo muitas vezes disfarçado de antissionismo, mas que no fundo tem as mesmas raízes do antissemitismo da direita. Ambos acusam os judeus de quererem dominar o mundo e trazem como prova o apócrifo Protocolos dos Sábios do Sião.

Claro que acusar o atual governo de Israel de fascista é legítimo, assim como o atual governo brasileiro. Condenar as políticas de Bibi em relação aos palestinos, e de Bolsonaro em relação ao meio ambiente, é uma obrigação de quem é progressista. O deve ficar claro, é que estamos na mesma trincheira, do mesmo lado da história. Eu sou antifascista sempre.

Se algo de bom puder ser dito do governo Bolsonaro no futuro, é de que graças a ele a esquerda possa ter aprendido algumas lições. Uma elas é a de saber separar o joio do trigo em cada país. Mesmo naqueles governados por regimes de extrema direita, existem companheiros combatendo com todas as suas forças contra o regime. Estes merecem nosso apoio e nossa solidariedade, somos irmãos da mesma luta por um mundo melhor.

Basta de fogo amigo, chegou o momento de compartilharmos experiências de cada país. De aprender com nossos erros e nossos sucessos. A luta é a mesma, as batalhas são por um mesmo objetivo, derrubar o fascismo onde ele estiver.

Temos um logo caminho comum a ser percorrido. A pandemia, por exemplo, não escolhe lado, mas as políticas de como ser combatida, sim é uma questão política. Priorizar o ser humano, a vida é imperativo. Proteger os menos favorecidos, os mais atingidos pelo vírus é uma opção ideológica. Isto nos une a todos que estamos do mesmo lado e não soltamos a mão de ninguém.