10 de Novembro de 1975: General Ernesto Geisel – o antissemita global!
Há 50 anos (10 de novembro de 1975), Ernesto Geisel (de origem alemã, registre-se!), protestante, Presidente da Ditadura Militar, elemento da extrema-direita, antissemita, manifestou seu ódio ao Povo de Israel e ao Povo Judeu e votou, ao lado de países antissemitas, a favor da Resolução 3379 para declarar o Sionismo como racismo.
Seus motivos deveram-se ao fato de o Sionismo ser originalmente Socialista e Anarquista (combatidos pela Ditadura Militar). Alias, a mesma Ditadura que matou (ASSASSINOU) Vladimir Herzog.
Da extrema-direita porca militar (ou não) à extrema-esquerda fétida stalinista quem é antissemita (hoje, antissionista) não esconde!
Essa Resolução estupidamente antissemita foi revogada em 1991 pela Resolução 46/86.
Algo sobre antissionismo, antissemitismo e as dez fontes de antissemitismo
Alergia ao diálogo: a epidemia de intolerância antijudaica na USP
Na Universidade de São Paulo, alastra-se uma estranha epidemia: uma dermatite moral, urticária antijudaica que acomete certos estudantes ao menor contato com ideias vindas de judeus.
Bastou o anúncio de que o cientista político André Lajst participaria de um debate na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco neste dia 13 para que alunos do Centro Acadêmico XI de Agosto irrompessem em surtos de intolerância.
Erupções cutâneas discriminatórias se espalharam por todo campus.
Emitiram nota de repúdio à presença de judeus ou israelenses que defendem o direito de Israel existir, o direito de autodeterminação do povo judeu.
“Inaceitável dividir espaço com sionistas”, disseram, o que nada mais é que advogar pela destruição do Estado de Israel, deslegitimando.
Como se conviver em uma mesma sala com um judeu ou israelense, liberasse algum tipo de agente infeccioso no ar. O espírito nazista mais elementar reaparece, agora travestido de virtude.
Esses novos puritanos instados a dialogar com judeus ou israelenses, a conviverem em um mesmo ambiente para um debate acadêmico, logo são acometidos de colapsos cutâneos, irrompem em bolhas, pústulas, borbulham em surtos, estouram em brotoejas, latejam em vergões e espocam em exantemas.
Dermatites de toda sorte, que corrompem a consciência e aviltam o caráter — sob risco de morte moral.
Argumentar pelo direito e Israel existir, pela da autodeterminação do povo judeu é inaceitável, perigoso.
No templo da razão, onde se ensina lógica e liberdade, hoje reina o medo higiênico do contraditório.
Em um local onde se supõe que a razão e o debate devam prevalecer, o contato com judeus e israelenses causa aversão e medo, como se uma nova praga estivesse por contaminá-los.
A medicina ainda não nomeou essa moléstia; proponho “psoríase moral”: doença autoimune que faz a mente atacar a si mesma quando exposta ao oxigênio do debate de ideias.
Os sintomas são claros: eczema ideológico, vergões dogmáticos, urticária performática e coceira intelectual diante do nome “Israel”.
Por baixo destas escamas acadêmicas, o velho vírus do racismo e do antissemitismo resistem — agora com camiseta de causas sociais e selfies indignadas.
Por Charles Schaffer Argelazi
Foto: Faculdade de Direito da Universidade de Direito da Universidade São Paulo – Largo São Francisco.
Acima, foto do Salão Nobre.
Os muitos Sionismos Judaicos
Nos tempos atuais, é importante revisitarmos o conceito e evolução do sionismo ou, como preferimos, sionismos, um dos movimentos políticos e multifacetados mais legitimamente expressivos e eficazes. Não há qualquer dúvida de que os sionismos têm a ver com o espírito do Judaísmo e com o Povo Judeu em sua Galut.
Enquanto movimento, os sionismos têm um caráter emancipatório, de resistência, reafirmação da identidade judaica e resiliência de um Povo, forçado a estar no mundo com o qual nem sempre se sente integrado. Aliás, não se sente integrado por ser constantemente repelido, acusado do alto dos púlpitos, católicos ou luteranos e, também, no eco de muitas mesquitas, de deicídio, desvios e outras narrativas falaciosas. E, pior, massacrado sob pogroms, guetização, discriminação cultural e religiosa, marginalização e extermínio nazifascista, sob o silêncio dos templos e das mesquitas.
Muitos intelectuais judeus perceberam que, mesmo sendo integrados (muitos até assimilados!) em determinados países, obtendo a sua plena nacionalidade e falando a língua daquele povo, seriam discriminados pelo fato de serem judeus. Ser judeu era o problema! Por isso, desenvolveu-se a ideia de que o judeu só estaria livre e protegido se, e quando, em seu próprio país: um Estado Judeu. O objetivo somente seria alcançado com o sionismo!
O sionismo etimologicamente tem a ver com Sion (Tziyon), um dos nomes de Jerusalém, mas especialmente o monte, o lugar elevado, epicentro da história judaica, especialmente davídica e salomônica. Logo, sionismo é o elemento subjetivo, real ou imaginário, cultural ou político, religioso ou histórico, que emerge da alma judia em estar em Jerusalém, sua cidade de eterna identidade, epicentro de sua vida e de seu desenvolvimento político, assim como estar em seu país. Jerusalém, Sion, foi o último lugar no qual os judeus estiveram, antes da expulsão; a última cidade destruída pelos romanos.
Lembremos que, após a destruição de Jerusalém nos anos 70, os Judeus sobreviventes foram espalhados para a circunvizinhança de Jerusalém e pela região do Oriente Médio, como Iraque e Líbano e lugares distantes como Egito, Marrocos, Atenas, Roma, mantendo, contudo, um constante sonho de retorno à Cidade de Davi. Ao longo de dois milênios, em algumas Festas Judaicas, em especial, Pessach (Páscoa judaica), se diz; Leshaná Habaá BiYerushalaim Habnuiá! (no próximo ano em Jerusalém Reconstruída!). É mais que uma reza, é um gemido da imensidão da alma judaica!
Jerusalém tornou-se o reino da utopia judaica, da ideia de retorno como nos tempos dos cativeiros, da reconstrução da cultura, ancestralidade e nacionalidade judaicas. É necessário entender que Sion, ou seja, Jerusalém, povoa o imaginário judaico desde a Antiguidade. É, no sentido do Judaísmo anarquista europeu, uma expressão do messianismo-romântico que alcança, entre outros, o filósofo judeu Martin Buber. É, ainda, um tipo de u-topos (Jerusalém, lugar para se chegar e realizar um ideal), saindo de um topos (seja Ur dos Caldeus, Egito, Cativeiro babilônico, Império Romano, Europa ou Alemanha).
Modernamente, diante do antissemitismo europeu (que propiciou o Holocausto), o sentimento de emancipação judaica e a busca de concretização da liberdade judaica se fortaleceram. Criou-se, em termos políticos (para além do sentimento de dois milênios), o sionismo ou movimento sionista.
Qualquer judeu que buscava a emancipação e resistia à perseguição antissemita reconheceu-se como sionista. Porém, o termo sionista, no sentido de movimento revolucionário, foi utilizado pela primeira vez, em 1885, por Natan Birenboim, estudante da Europa Oriental, em caráter político (Sionismo Político). Aliás, como disse Theodor Herzl, o século XIX foi o despertar de nacionalidades e, com razão diaspórica, os judeus também tiveram o despertamento do seu nacionalismo (judaico) o que, em termos ideológicos e políticos, refere-se ao sionismo – o elemento objetivo e político de proteção do Judaísmo e dos Judeus.
Birenboim fundou um Jornal cujo tema era mesmo a emancipação dos judeus. Após Birenboim, vários grupos de jovens judeus se formaram na Áustria, Alemanha, Inglaterra, França, Estados Unidos, Itália etc. Em 1893, ele publicou um pequeno livro, conclamando para o renascimento em Eretz Israel (terra de Israel) e incentivou a criação de um Congresso Sionista Internacional para discutir a questão da emancipação judaica.
Em 1894, o caso emblemático de Dreyfus fortaleceu o sentimento sionista. Dreyfus foi acusado injustamente e condenado à prisão perpétua. Provou-se depois (1897) que a acusação era falsa. Tal a percepção de injustiça, que o escritor Emile Zolá, também judeu, publicou, em defesa de Dreyfus, a Carta J’Accuse (eu acuso) ao Presidente da República. Ao final, Dreyfus foi julgado novamente e declarado inocente. Theodor Herzl, judeu, formado em Direito, jornalista, acompanhou o caso Dreyfus e sua degradação pública, pois sabiam da inocência, mas mantinham a acusação em caráter antissemita. Disse ele mais tarde: o julgamento de Dreyfus, 1894, fez de mim um sionista. Para Herzl, a questão era o antissemitismo e sua contraposição lógica e efetiva era o sionismo político.
Depois disso, Herzl organizou o Primeiro Congresso Sionista, na Basiléia, de 29 a 31 de agosto de 1897, momento em que foi aprovado o Programa Sionista (Programa de Basiléia). De caráter político, dizia o documento: o sionismo pretende criar um abrigo para o povo judeu em Israel, garantido por um documento político público, reconhecido internacionalmente. Herzl foi eleito presidente do Congresso Sionista e Presidente da Organização Sionista Mundial, com a adoção do Hino Hatikvah e uma Bandeira Judaica.
Em 1901, em oposição ao sionismo político de Herzl, criou-se, com Chaim Weizmann e Martin Buber, a facção sionista democrática, com alguma base nacionalista judaica do sionismo, democratização interna da organização e uma certa visão anarquista religiosa.
Logo depois, em 1902, criou-se um novo grupo sionista, agora de oposição a Herzl e a Buber. Tratava-se dos Mizrachi, organizado por judeus ortodoxos. Chamou-se Centro Espiritual – Mizrachi. Foi a base do sionismo religioso (ortodoxo). Segundo Michael Lövy, tratava-se do messianismo judeu e utopias libertárias na Europa Central (1905-1923), com os seguintes aspectos: a) Judeus religiosos anarquizantes; b) Messianismo judeu e modernas ideias revolucionárias: corrente utópica e corrente restauradora, ou seja, conceito hebraico de tikun: restauração, reparação e reforma.
O pensamento libertário em Gustav Landauer, um dos pais do anarquismo judaico, é a relação entre a topia e utopia, ou seja, combinação entre conservantismo e revolução emancipatória. Registra Löwy, que a utopia messiânica não era o sionismo, mas o anarquismo. O ideal sionista é uma coisa; o ideal messiânico, outra.
Há, entretanto, afinidades eletivas entre tradição messiânica judaica e utopias revolucionárias. Mas, na Europa do final do século XIX, as afinidades eletivas entre redenção, messianismo e sionismo vão tomando forma com grupos judaicos: a) Anarquistas religiosos judaizantes; b) Judeus assimilados (diferente de integrados), ateus-religiosos, anarco-bolchevistas; c) Judeu religioso anarquista sionista, como Buber.
Martin Buber, um sionista originalmente anarquista, será um crítico da direção do sionismo oficial israelense (estatizante). Ao chegar nos arredores de Jerusalém, em 1938, Buber foi um dos idealizados e incentivadores do movimento de fraternização judio-árabe ichud (união). Buber, enquanto judeu sionista anarquista, recusava um Estado exclusivamente judeu, pois, para ele, o sionismo não se tratava apenas de emancipação de um povo, mas de redenção do mundo. Ele, como outros judeus sionistas e anarquistas de sua época, imaginava uma organização política plural árabe-israelense, ou árabe-judaico e, no limite político, de caráter binacional.
O território palestinense (nome dado pelos romanos como região administrativa) não foi o único imaginado pelos judeus para o processo sionista de emancipação. Depois da morte de Herzl, propôs-se que se buscassem outros lugares, pois seria melhor o Sionismo sem Sion do que Sion sem o Sionismo. Em outras palavras, sionismo como emancipação e liberdade. Qualquer lugar poderia ser estabelecido como ambiente judaico, desde que com garantia internacional e autodeterminação. Este sionismo seria conhecido como sionismo territorialista ou, sionismo em qualquer lugar. Em oposição, os sionistas em Sion defendiam o renascimento e fortalecimento dos grupos judaicos em Eretz Israel, na construção e organização de fazendas, fundamental para os Kibutzim judaicos.
O 7º Congresso Sionista, em 1905, marcou a oposição entre os sionistas políticos que defendiam a defesa dos judeus e seu fortalecimento na região palestinense, com apoio político internacional, e os sionistas práticos, que também defendiam o apoio aos judeus na região, mas sem necessidade de apoio político internacional.
No 8º Congresso Sionista, realizado em Haia, 1907, foi decidido criar um Escritório Israelense e uma Sociedade de preparação do Ishuv, ou seja, de apoio aos judeus que já estavam na região palestinense e outros que ali chegavam fugidos dos pogroms russos e perseguições europeias. Chaim Weizmann, um dos líderes, fez a exigência que se criasse uma síntese entre sionistas políticos e sionistas práticos. Daí surgiu o compromisso de se buscar uma Carta-Patente (político) e de se promover o apoio e estabelecimento judaico em Eretz Israel (prático).
Em 1913, como expressão do sionismo cultural, no 11º Congresso Sionista de Viena, 1913, discutiu-se a criação da Universidade Hebraica de Jerusalém e o ensino do Hebraico como parte da educação judaica diaspórica. O sionismo cultural, fundado, em 1893, por Achad Haam, pregava o renascimento moral e espiritual do povo judeu. A luta era contra a desintegração do povo judeu. Defendia-se a criação de uma comunidade judaica nas terras antigas, e viam no Sionismo o objetivo de salvar o Judaísmo.
Os ortodoxos e haredim hassídicos, ambos sionistas, ao contrário dos haredim antissionistas (radicais teológicos), enxergam no sionismo o caminho de preparação messiânica. Ou seja, o sionismo, ao proteger o judeu em Israel, permite que se possa praticar o judaísmo longe dos pogroms e perseguições antissemitas.
Após 1950, cria-se uma divisão entre judeus sionistas de Esquerda e judeus sionistas de Direita (ambos em Israel). Os judeus sionistas de esquerda defendiam, de início, um Estado binacional com a presença de judeus e árabes. Atualmente, defendem, como solução para os conflitos entre judeus e árabes-palestinos, a formação de dois Estados: Israel e Palestina.
Por outro lado, os sionistas de direita, principalmente, depois de 1970, com um discurso de segurança nacional contra atos terroristas, defendem o estabelecimento israelense completo com a ocupação da Cisjordânia e Gaza, territórios palestinos.
Como movimento emancipatório e de afirmação da cultura e nacionalidade judaicas, assim como resposta ao antissemitismo, pogroms, perseguições e, por último nazifascismo alemão, o sionismo em suas muitas facetas, religiosas ou não, políticas ou culturais, cumpriu um papel importante.
A nosso ver, as ideias básicas dos Sionismos (originais) deixaram de existir em 1948, exatamente por ter chegado ao seu objetivo maior: a criação do Estado de Israel e de um lar nacional judaico contra as enxurradas antissemitas anteriores. A partir disso, tem-se política estatal, desempenho maior ou menor da democracia e grupos de interesse que lutam pelo poder político.
Dizer-se sionista, hoje, não me parece dizer a mesma coisa do que disseram Birenboim, Herzl, Buber e outros. Dizer-se sionista, hoje, é lutar pela preservação de Israel e seus valores democráticos, e isso inclui, igualmente, a defesa de um Estado Palestino – ao lado do Estado de Israel
Os muitos Sionismos Judaicos
© Pietro Nardella-Dellova
Do Preconceito ao “Método Científico”
Assim tem início o primeiro capítulo do meu livro: Os Judeus são a Nossa Desgraça – Antissemitismo e Direita Radical do Século XIX ao XXI
A Tarde que Mudou Tudo
Berlim, novembro de 1879
A neve caía suavemente sobre Berlim naquela tarde, cobrindo as ruas com um manto branco que parecia querer abafar os passos apressados dos estudantes que se dirigiam ao auditório principal da Universidade Humboldt. Entre eles, Marcus Friedmann, um jovem estudante de direito, ajustava seus óculos embaçados pelo contraste entre o frio exterior e o calor dos corredores lotados.
“Você vai ver, Friedmann, o Professor Treitschke é brilhante!”, exclamou seu colega Hans Weber, enquanto ambos procuravam lugares nas fileiras da frente. Marcus assentiu educadamente, mas algo o incomodava. Nos últimos meses, tinha notado mudanças sutis nas atitudes de alguns professores e colegas. Olhares atravessados, comentários velados, uma frieza que não existia antes.
O burburinho no auditório cessou quando Heinrich von Treitschke, então com 45 anos, emergiu na plataforma. Sua figura imponente, realçada pela barba bem aparada e o olhar penetrante, comandava respeito imediato. Completamente surdo desde a juventude, Treitschke havia desenvolvido uma presença de palco particularmente poderosa, compensando sua incapacidade auditiva com uma voz forte e articulada e uma atenção meticulosa ao ambiente visual. O professor organizou seus papéis com movimentos precisos, quase rituais, enquanto o silêncio expectante crescia.
Na terceira fileira, a Professora Elena Schmidt, da Faculdade de História, observava tudo com olhos críticos. Ela tinha lido os artigos preliminares de Treitschke no Preußische Jahrbücher e pressentia que algo importante – e perturbador – estava prestes a acontecer.
“Prezados colegas…” A voz grave de Treitschke ressoou pelo auditório. Suas primeiras palavras eram medidas, formais, quase entediantes em sua precisão estatística. Números, percentuais, dados sobre distribuição populacional. Marcus relaxou um pouco – parecia apenas mais uma palestra sobre demografia.
Foi então que aconteceu.
“Die Juden sind unser Unglück.”
As palavras caíram no auditório como pedras em um lago plácido, criando ondas que se expandiam em círculos cada vez maiores. Marcus sentiu seu estômago contrair. Ao seu lado, Hans concordava entusiasticamente com a cabeça.
No outro lado do auditório, o professor Heinrich Graetz, historiador judeu respeitado e autor da monumental obra Geschichte der Juden (11 volumes, publicados entre 1853-1875), tomava notas meticulosas. Ele já havia enfrentado Treitschke anteriormente em debates teóricos e, nas semanas seguintes, publicaria uma refutação detalhada deste discurso no jornal alemão-judaico Allgemeine Zeitung des Judentums em 30 de dezembro de 1879, expondo as distorções metodológicas e preconceitos nas teorias de seu colega.
Treitschke continuava, sua voz agora carregada de uma autoridade que transformava preconceito em “teoria científica”. Cada palavra era escolhida com cuidado cirúrgico, cada estatística apresentada com precisão matemática. O veneno era servido em taças de cristal.
“Observe”, dizia ele, “como 9,4% dos estudantes de Direito em Berlim…” Marcus sentiu os olhares se voltarem sutilmente em sua direção. Sua presença ali, percebeu com um aperto no peito, estava prestes a se tornar uma estatística, uma prova da “teoria” que estava sendo construída diante de seus olhos.
A Professora Schmidt rabiscava furiosamente em seu caderno: “Método perigoso – transforma observação em conclusão predeterminada. Usa ciência como máscara.” Ela já tinha visto algo similar em outros contextos, mas nunca tão meticulosamente construído.
Do lado de fora, a neve continuava caindo, indiferente à transformação que ocorria dentro daquelas paredes. Em uma única tarde, o antigo preconceito religioso estava ganhando uma nova e perigosa roupagem. Não mais gritos nas ruas ou acusações religiosas, mas gráficos, estatísticas e linguagem acadêmica refinada.
Quando a palestra terminou, o auditório explodiu em aplausos. Marcus permaneceu sentado, suas mãos imóveis no colo. Hans o cutucou, animado: “Não é fascinante como ele consegue explicar cientificamente o que todos já sabiam?”
A Professora Schmidt guardou seu caderno manchado de tinta e observou os estudantes saindo. Em seus trinta anos de Academia, nunca tinha testemunhado algo tão perturbador: o momento exato em que o preconceito ganhou legitimidade científica.
Marcus foi um dos últimos a sair. Na porta do auditório, olhou para trás uma última vez. Treitschke ainda estava lá, organizando seus papéis com aqueles mesmos gestos precisos, metódicos. O jovem estudante não sabia, mas estava testemunhando o nascimento de algo que mudaria o curso da história – o momento em que o ódio aprendeu a falar a língua da ciência.
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