Antissemitismo “progressista”

Antissemitismo “progressista”

O conhecido site de esquerda 247 outra coisa não é do que uma Rede Globo com sinal trocado. Infinitamente menor e menos influente, mas igualmente mal-intencionado.

Trata-se de pura manipulação disfarçada de jornalismo. O veículo é instrumento de militância política em prol das convicções de seu comandante, Leonardo Attuch. Não permite qualquer contraditório. Se a pessoa for vinculada ao canal e discordar, rua, sumariamente. Se não for, é inimigo.

Há exemplos de todo tipo. Mas vou focar em um específico.

O antissemitismo é um dos mais antigos e resilientes racismos que mancham a espécie humana. Expulso da Judeia pelos romanos no ano 70 d.C., o povo judeu se espalhou pelo mundo. Mas jamais abriu mão de sua identidade.

Não há nenhum outro exemplo, na História, de um grupo humano desprovido de território que tenha se mantido unido por cultura, religião e tradição. E isso por dois milênios.

A contradição, privativa do judeu, entre nacionalidade e etnia, eternizou-o como “estrangeiro dos estrangeiros”, em todo e qualquer lugar que habitasse. Isso o tornou alvo preferencial dos ódios chauvinistas irracionais. Porém, explicar esse fenômeno não é meu objetivo aqui.

Em 1948 a humanidade tentou solucionar a questão, e deu aos judeus uma pátria nacional. Isso gerou um dos mais longos e cruéis confrontos bélicos de todos os tempos. Tampouco, e pela mesma razão, me deterei nessa questão.

Não faltam historiadores e cientistas sociais que abordam ambos os pontos com propriedade.

Minha intenção é tentar demonstrar que a simples existência do Estado de Israel constitui um divisor de águas histórico sobre a natureza do antissemitismo.

Esse país nasce quase que simultaneamente com a Guerra Fria. O mundo se resumia a dois polos. Ou se estava com o lado socialista, chefiado pela União Soviética, ou com o capitalista, sob a liderança dos Estados Unidos. Era impossível ser neutro.

Com o tempo, Israel tornou-se aliado preferencial dos EUA, e peça-chave da estratégia ocidental para a Ásia e o Oriente Médio.

Paralelamente, recrudescia o conflito árabe-israelense. Como tudo era preto ou branco, se o ocidente apoiava Israel, carregando consigo toda a direita do mundo, então o bloco socialista e a esquerda mundial passaram a estar ao lado dos árabes.

Mas a equação ainda se complicou mais. Em determinado momento a direita radical tomou o poder em Israel, para não mais deixá-lo – pelo menos até hoje.

Ocorre que a sociedade israelense está dividida rigorosamente ao meio. Para manter o controle, os fascistas necessitam do apoio dos religiosos fanáticos, os quais julgam possuir uma escritura divina que lhes confere propriedade sobre todo o território.

A aliança do ódio de uns com a cegueira dos outros, determina uma política de desprezo às resoluções internacionais que conferem ao povo palestino o mesmo direito que possuem os judeus, a um Estado Soberano. O resultado é a ocupação crescente, implacável e ilegal, dos espaços físicos nos quais esse ente nacional deveria ser construído.

Ora, e o 247 com isso?

Explico. Há que se considerar a existência de três elementos.

O primeiro se chama sionismo. Trata-se do movimento político-ideológico, surgido no século XIX, que defendia a criação, na então Palestina, de um estado nacional para o povo judeu.

Em segundo lugar, o contexto histórico e geopolítico já mencionado. Desde o início da Guerra Fria a esquerda se colocou a favor do Estado Palestino e contra as posições israelenses, sempre fiéis aos EUA. Isso só piorou, posteriormente, quando a extrema direita se apossou do governo israelense e acirrou sem peias as políticas de agressão ao povo palestino. Necessário observar que muito recentemente foi empossada no governo uma composição esdrúxula, mas um pouco mais moderada, composta de representantes de várias tendências. Eventuais alterações nas políticas referentes aos palestinos ainda são uma incógnita.

Por fim, temos a esquerda judia, com suas várias facetas (como, aliás, ocorre com todas as esquerdas do mundo), inclusive uma que é sionista. Ela atua tanto dentro quanto fora de Israel e, embora esteja alijada da capacidade de tomar decisões que influenciem as políticas expansionistas e irracionais adotadas por ele, desenvolve uma luta diária, hercúlea e incessante, pela reversão deste cenário.

A esquerda judia sionista é defensora da resolução da ONU que, em 1948, partilhou o território do então mandato britânico, a fim de que nele se constituíssem dois estados: um para abrigar o povo judeu, e outro para abrigar o povo palestino.

Ou seja, o sionismo da esquerda se resume a defender a existência do Estado de Israel, e o direito do povo judeu a um lar nacional soberano, tal como, desde o início, pretendia o movimento sionista. Ele não sustenta, e jamais sustentará, a ideia de que este direito extrapole os limites territoriais traçados originariamente. É, portanto, e será sempre, contrário à ocupação de todo e qualquer pedaço de terra que se localize além de tais limites.

A combinação desses três elementos gerou um quarto, que eu resolvi denominar como esquerda bitolada. São todos aqueles esquerdistas que abriram mão do mais básico dentre todos os atributos característicos de quem é progressista: o de pensar criticamente.

É que existem sionistas para preencher todos os campos do espectro ideológico. A única coisa que o sionista de centro ou de direita possui em comum com o sionista de esquerda é que todos defendem a existência de Israel. E só. Todo o resto é divergência. Como já se viu, e por incrível que possa parecer a contradição, há até mesmo judeu sionista que se posiciona com a extrema direita fascista!

Não precisamos ir longe: há judeus brasileiros que apoiaram e ainda apoiam Bolsonaro, não há? Então!

O pecado da esquerda bitolada é colocar todo e qualquer sionista debaixo do mesmo guarda-chuva. De novo: ser sionista é apenas e exclusivamente defender o direito do povo judeu a um lar nacional. A partir daí, é necessária uma qualificação específica para cada um. Há sionista para condenar energicamente a política israelense em relação ao conflito com os palestinos, assim como há sionista para apoiá-la incondicionalmente. E há sionista em todos os pontos que ficam no meio entre essas duas posições.

Mas, para os bitolados, é tudo igual. Ser sionista implica em apoiar as ocupações ilegais, o apartheid, a violência, a intransigência, a intolerância e o ódio.

Com isso, colocam os sionistas de esquerda em um limbo não apenas equivocado como, pior, contraproducente. A invés de tê-los como os preciosos aliados que de fato são, praticam em relação a eles uma discriminação tão odiosa quanto estúpida.

Sabe-se que a raiz do preconceito é a generalização. Ou seja, entender que qualquer grupo de pessoas possui pensamento, comportamento ou caráter uniforme, e então classificar automaticamente todos os integrantes desse grupo dentro de tal compartimento [1].

“O negro é isso”; “o nordestino é aquilo”; “a mulher é inferior”; o judeu é sovina”; “o gay é doente” são algumas das manifestações desse conceito. É exatamente aí que se encaixa a expressão “o sionista é favorável à opressão dos palestinos”.

Os limites entre antissionismo (entendido como crítica à política israelense) e antissemitismo são tênues e difusos. Mas existem.

Você ser contrário às práticas perversas do governo do Estado de Israel em relação ao povo palestino é perfeitamente legítimo, porque se trata de uma posição política.

Contudo, você ignorar que é possível ostentar esta posição mesmo sendo judeu e sionista, é preconceito. E o nome dele é antissemitismo.

Nesta forma, ele difere daquele outro, verificado ao redor do mundo desde antes da criação de Israel. Mas possui a mesma genealogia, e não é nem um pouco menos detestável e/ou deletério.

E é aí, então, que, finalmente, entra o site 247. Ufa!

José Reinaldo Carvalho é um comunista ortodoxo, daqueles estr(e)itamente dogmáticos. Remanescente do velho PCdoB ferrenhamente stalinista, Reinaldo morou e trabalhou na Albânia durante o governo de Enver Hodja, de quem é admirador e era amigo pessoal. Para quem não lembra – ou não sabe –, sob Hodja a Albânia foi o único país comunista do mundo que permaneceu fiel ao sanguinário ditador soviético após a revelação de seus terríveis crimes. Na teoria e também na prática. Quer saber mais? Dê um google. É de arrepiar!

José Reinaldo é o atual editor internacional do 247. Semanas atrás, a pretexto de celebrar o “Dia da Terra Palestina”, afirmou, em programa televisionado do canal, que “os sionistas” brasileiros se infiltram nas organizações de esquerda a fim de, ali, sabotar tanto o movimento palestino em busca de seu direito inalienável, quanto o de solidariedade ao mesmo.

A rigor, tal posição é previsível. De estranhar, partindo de alguém ideologicamente bitolado como o comentarista, seria o contrário. Nuances nunca foram o forte de nenhum stalinista empedernido.

Nem por isso, contudo, o pronunciamento deixa de ser gravíssimo. A par de odiosamente preconceituosa e racista, a acusação é tosca, grotesca, mentirosa e, sobretudo, insultuosa. Incorre de maneira escancarada em todos os crimes acima elencados.

Mas isso nem é o pior. De certo modo, e como já explicado, José Reinaldo Carvalho pode ser considerado quase um inimputável, dadas as limitações impostas pelo reflexo condicionado de que sofre, juntamente com seus pares ideológicos.

O pior é o comportamento autoritário subsequente, da direção do site que o abriga, e que, paradoxalmente, se diz plural e democrático.

Como não poderia deixar de ser, o episódio mencionado gerou forte e enérgica reação, com destaque especial para denúncia pública formulada contra o citado editor pelo coletivo “Judias e Judeus Sionistas de Esquerda”, do qual faz parte o jornalista Milton Blay, então colunista fixo do 247.

Este último, ao invés de examinar o tema à luz do contraditório aberto, e, no mínimo, instaurar um debate, como seria coerente com o que o veículo se reivindica, simplesmente demitiu Blay dos seus quadros, sumariamente, sem qualquer explicação ou justificativa.

E, a não bastar, afundou-se ainda mais em suas próprias arbitrariedade e parcialidade, ao chamar, para comentar o assunto, ninguém menos do que Breno Altman. Para quem não sabe, Breno é judeu, comunista e – surpresa! – também ferrenhamente stalinista. Possui histórico até familiar de militância radicalmente antissionista. Este último predicado, em si, nada tem de condenável, até porque é uma posição política não apenas legítima como até bastante comum.

Mas a outra posição, essa é determinante. Ao chamar Altman, Leonardo Attuch manipulou seus ouvintes duplamente. Em primeiro lugar, porque era um jogo de cartas marcadas. Attuch sabia, previamente, qual partido seu convidado tomaria na querela. Sendo camarada ideológico de Reinaldo, e adversário do sionismo adotado por seus oponentes, não era mistério algum o teor do que diria.

E em segundo, por tal convidado ser judeu. A mensagem, de um teor de má-fé altíssimo, é clara. Endossado por um militante da própria etnia dos acusadores, o delinquente virtual faz pose de imparcial e probo, quando, em verdade, é exatamente o contrário.

Quanto a Breno Altman, prestou-se de bom grado ao papel patético que a ele se solicitou. Formulou raciocínios claramente sofísticos e, pior que tudo, utilizou um método criado por ninguém menos do que o nazista Joseph Goebbels. Acusou os oponentes de Reinaldo exatamente do que ele próprio, Altman, estava a fazer. Disse que eles se refugiam em uma generalização típica do sionista: quando se lhe aponta qualquer erro, imediatamente assaca contra quem o faz a pecha de antissemita.

Na verdade, não é isso o que fez o coletivo sionista. Mostrou com argumentos lógicos e articulados a raiz racista do pronunciamento de José Reinaldo; apontou, de forma clara e fundamentada, a diferença entre o conteúdo do mesmo, preconceituoso porque generalizador, e uma posição contrária ao expansionismo e à violência praticados pelo Estado de Israel sob o domínio de extremistas de direita, com o apoio de sionistas da mesma tendência.

Altman ignorou solenemente tudo isso. Não rebateu um único argumento. Não abordou um único fato. Pior, tampouco forneceu, de seu lado, uma única linha que sustentasse sua afirmativa. Pelo contrário. Limitou-se a dizer, sem oferecer qualquer fundamentação, que “sionista de esquerda é algo tão impossível quanto um boi voador”. Com isso, enveredou pelo mesmo caminho de seu correligionário e protegido: englobou todos “os sionistas” em um mesmo rótulo e, assim, cometeu, ele sim, o pecado de que acusou seus oponentes: basta que se aponte um comportamento antissemita, mesmo que se o faça com argumentos irrefutáveis, e lá vêm os antissionistas recorrer ao surrado, fácil e imbecil argumento generalizador.

[1] Devo essa noção a Tânia Maria Baibich, pesquisadora e professora do tema, reconhecida internacionalmente.

Errei ao pedir o fim do PCO

Errei ao pedir o fim do PCO

Reconheço que errei ao pedir o fim do PCO, não se pode pedir a extinção do que de fato nem existe. Isto não é um partido, é um amontoado de clichês do século passado completamente desconectados da realidade.

Em meu artigo anterior, não me referi à pessoa de Rui Pimenta em nenhuma linha. No entanto, Pimenta se refere a mim, pessoalmente, oito vezes em defesa da sua causa. Como todo articulista com falta de argumentos, começa desqualificando o mensageiro, só depois então tenta menosprezar meus argumentos, que se diga de passagem, são os mais óbvios possíveis, com uma linguagem acessível a qualquer um.

O fundador e presidente do PCO defende sua agremiação da minha acusação de antissemitismo, dizendo que “Nosso crítico busca apresentar nossa posição como uma posição de extermínio do povo judeu. Ele busca dizer que liquidar o Estado de Israel seria acabar com o povo judeu, uma completa falsificação. Acontece que eu não escrevi nada disso, ele vestiu a carapuça.”

Diz ele que “O Estado de Israel é um país com religião oficial de Estado, estabelecido em 1948 na Palestina contra a vontade da maioria do povo daquele território naquele momento e com apoio do imperialismo mundial e até mesmo do stalinismo.”

O Vaticano e o Irã, só como exemplos, também são estados com religião oficial e não me consta que você esteja pedindo o fim destes estados. Em 1948 a ONU aprovou a promulgação de dois estados, um judaico e outro palestino, com o apoio da União Soviética e graças às armas enviadas através da então Checoslováquia, Israel sobreviveu à guerra da Independência. Ao final da guerra que envolveu outros 6 países árabes, apenas um estado foi estabelecido, o de Israel. Os territórios que foram tomados pela Jordânia e pelo Egito, que poderiam ter dado origem ao Estado Palestino, ficaram sob a tutela destes países até a Guerra dos 6 dias e hoje são territórios ocupados por Israel.

Segue Pimenta afirmando que “O PCO sempre defendeu o fim do Estado de Israel por ver o óbvio: não somos favoráveis em geral a Estados religiosos e raciais, ou seja, excludentes do restante da população que não pertence a determinada raça ou religião, somos favoráveis a um Estado democrático que represente os interesses de todos, independentemente de credo, de raça ou outras distinções. O Estado de Israel não é nada disso. Os palestinos foram expulsos do seu país e espalhados pelo mundo como há muito o Império Romano fez com os próprios judeus. Uma parte da população palestina vive hoje em uma região administrativa artificial sem quaisquer condições reais de vida, um verdadeiro gueto como o imperialismo alemão fez uma vez com os judeus.”

Acima ele faz uma salada de frutas. Como já disse anteriormente, existem outros países com religião oficial. Israel não é um estado teocrático. Todos os cidadãos têm direito a voto e podem ocupar qualquer cargo público ou privado. Isto se chama democracia. Durante a guerra de Independência, cerca de 600 mil palestinos deixaram a região por vontade própria ou foram expulsos pelas milícias judaicas fascistas. Crimes de guerra foram cometidos por elas e acobertados pelo governo Ben Gurion. Em contrapartida, crimes de guerra também foram cometidos pelas forças jordanianas e milícias palestinas.

Finalmente o autor da resposta ao meu artigo chega aonde interessa: “Só pode haver um Estado Laico, uma república e um sistema de governo que garanta os direitos de todos os grupos étnicos e religiosos sem exceção. Tanto os judeus como os islâmicos têm motivos histórico-religiosos para dizer que aquela terra é deles, mas não se trata de julgar quem está certo e quem está errado. Nenhum lado aceitará ser despossuído do seu território. Trata-se de corrigir uma barbaridade que tem sido feita aos árabes desde 1948, trata-se de acabar com o genocídio palestino e de liquidar um enclave militar do imperialismo na região. Os judeus podem ficar, o Estado genocida tem que ir, tem que ser derrubado, tem que ser destruído e substituído por um Estado democrático.”

O fundador do PCO advoga a si a solução para o conflito. Ele determina que a solução passa por um estado laico e democrático. Não sei se ele já esteve na nossa região, mas vou contar uma verdade: não existe nenhum país árabe democrático, muito menos laico. Isto é básico de quem faz alguma ideia do que seja o Oriente Médio.

Segundo Maria do Céu Ferreira Pinto* Professora Auxiliar no Departamento de Ciência Política e Relações Internacionais da Universidade do Minh, em Democracia no Mundo Árabe, “O debate ocidental sobre a democracia no mundo árabe refere o carácter excepcional da cultura política do Médio Oriente e a sua impermeabilidade às formas democráticas. Explicações de várias ordens são propostas para explicar a persistência de regimes autoritários e repressivos nesta região. Uma refere o aspecto religioso: o Islão como uma barreira ao desenvolvimento, à liberdade e à democracia. Uma visão menos sofisticada atribui as culpas à mentalidade árabe, que é naturalmente inclinada para o autoritarismo e incapaz de aceitar o pluralismo e a crítica. Diz-se com alguma razão que no Médio Oriente falta uma tradição contratual como a que existiu na Europa durante o feudalismo. As cidades do Médio Oriente antigas/medievais representavam mais uma urbs – uma aglomeração física de diferentes grupos sociais – do que uma civitas – um espaço de interação e debate coletivo entre estes grupos2. Nas grandes metrópoles do mundo árabe coexistiam grupos baseados em critérios como o parentesco, a ocupação, etnia ou a religião (os ulama, as corporações, seitas religiosas, grupos étnicos). Mas gozavam de um alto grau de autonomia, não só entre si, mas em relação ao próprio poder central. Havia, assim, uma coexistência baseada na tolerância, não na interação. Tal explicará possivelmente a fraqueza histórica da sociedade civil3 no mundo árabe. Alguns autores também referem que na tradição árabo-islâmica não existe a noção de liberdade assente no conceito de individualismo4 . É que a esfera da liberdade individual é muito reduzida devido ao controle social muito forte que se faz sentir nos círculos mais íntimos, mesmo na esfera do privado por excelência, a família. A cultura árabo-islâmica é, por excelência, orgânica, comunitarista e coletivista.”

Não vou discutir o mérito, mas esta é a realidade desta região. Pimenta pode jogar seus clichês ao vento, que o resultado é nenhum. Me fez recordar do tempo de Libelu na luta contra a ditadura. Sua ideia do que seja melhor para os palestinos, e para os judeus israelenses, é completamente desconectada da realidade e perseguir tal proposta seria condenar o povo palestino ao ostracismo. Cada dia mais países árabes se aproximam de Israel e se distanciam da causa palestina. Não existem soluções mágicas, tampouco propostas mirabolantes de um lunático que vive em um mundo paralelo.

A verdadeira luta por um Estado Palestino se baseia na livre determinação dos povos. O governo de Israel e a Autoridade Palestina precisam voltar à mesa de negociações e encontrar soluções que possam encaminhar a existência do Estado Palestino de fato. A comunidade internacional faria muto bem em pressionar ambos para que isto aconteça.

Pimenta precisa cair na real. Uma escola de samba de qualquer cidadezinha do interior tem mais filiados que vocês no Brasil inteiro. Se apenas 10% de qualquer uma de suas propostas tivesse algum valor para a classe operária brasileira, vocês teriam ao menos um, eu disse UM vereador em um dos 5.565 municípios brasileiros. E olhem que em alguns municípios um vereador se elege apenas com os votos da família.
Vou ser justo, em 2004, no município amazonense de Benjamin Constant, o PCO elegeu seu primeiro e único vereador no país até hoje: João Vieira da Silva recebeu 635 votos graças a uma coligação com mais 3 partidos.
Claro que o autor, que tantas vezes menciona meu nome, foi candidato à presidência do Brasil por duas vezes. Cabo Daciolo recebeu quase três vezes mais votos do que ele na sua única candidatura à presidência. Este é o tamanho da insignificância desta agremiação e a prova real de sua dicotomia com o mundo real. Vocês podem se achar os arautos da causa operária, mas a classe trabalhadora, com toda razão, quer distância de vocês.

Pelo fim do PCO

Pelo fim do PCO

O Partido da Causa Operária é a favor do fim do Estado de Israel. Este é o mais recente panfleto do PCO chamando a filiação ao partido. O PCO é aquele partido com um Zero com a foice e o martelo como símbolo. Zero representatividade.

O fato é risível sob qualquer aspecto. A classe operária brasileira tem muitas questões importantes por resolver, e depois destes anos sob Bolsonaro, com todos os retrocessos aos trabalhadores, falar da destruição de Israel como uma causa operária é uma piada, daquelas de mau gosto.

Um partido que tenta se insinuar como comunista autêntico, sem nenhuma expressão nacional, estadual ou municipal, que enche uma Kombi quando realiza um congresso, deveria ser mais coerente com sua ideologia.

Claro que a esquerda em geral tem muitas restrições quanto as políticas dos últimos governos israelenses. É legítimo que se discorde e se diga, por exemplo, que cometem uma política de Apartheid nos territórios ocupados. É aceitável que se condenem estas políticas.

Mas quando um partido se coloca pelo fim do Estado de Israel, estamos falando de um partido com uma retórica antissemita. Um dos valores da esquerda é o seu humanismo, sua preocupação com a vida, não desejamos a destruição de nenhum país, de nenhum povo. Lutamos por mudanças que levem a um mundo melhor para todos. Colocar em um panfleto uma mensagem destas é o anúncio de que de esquerda o PCO não tem nada diferente do Partido Nazista. São iguais em número, gênero e grau.

Não é por nada que eles apoiam o Talibã, a invasão da Ucrânia e se dispõe a uma aliança com Bolsonaro. Tudo pela causa operária, evidentemente. Eu fico me perguntando a todo momento que diferença faz para o operário brasileiro a existência, ou não de outros países. Vamos imaginar desejar o fim da Argentina. Talvez isto tirasse um rival dos gramados e consequentemente a seleção canarinho teria um caminho mais fácil na Copa América. Isto traria mais felicidade a classe trabalhadora.

Quem sabe a destruição dos imperialistas americanos. Com o fim dos EUA, os operários comeriam menos junk food, tomariam menos refrigerantes e a saúde dos trabalhadores teria uma melhora substancial.

Agora, vamos imaginar um mundo sem o Estado de Israel. Que diferença isto faria para nosso proletariado? O que de bom traria de proveito para os trabalhadores? Quais seriam os ganhos benéficos aos operários? Eu respondo, nenhum, nadica, nada.

Isto é o que eu chamo de retórica antissemita. Uma panfletagem inconsequente que em nada contribui para a eleição de Lula. Precisamos de todos os votos possíveis, de todas e de todos que possam nos ajudar a vencer estas eleições, e o que vemos é um bando de sem noção insuflando causas fora de contexto, estapafúrdicas e alienadas da realidade. Devem estar tomando muito chá de cogumelo por lá.

Este partido sem causa nenhuma, que só existe no papel, deve ser extinto em breve. E eu lanço a campanha por sua perda de registro. Ninguém, nem mesmo uma agremiação política pode expressar antissemitismo impunemente. Racismo é crime e deve ser combatido.

Neste mês as três maiores religiões monoteístas estão em festa. Os muçulmanos pelo Ramadan quando o profeta Maomé recebeu revelações divinas, os cristãos pela Páscoa quando da ressurreição de Cristo, e os Judeus pelo Pessach quando da saída do Egito até a chegada na Terra Santa.

Durante os anos que levaram até chegar a Terra Santa, Moisés trouxe os 10 Mandamentos. As primeiras leis com princípios éticos que regraram a convivência humana. O mundo começou a mudar ali naquele momento. E para melhor. Não serão estes pulhas que nos farão retroceder.

Ramadan Kalil! Feliz Páscoa! Chag Pessach Sameach!

Nazistas do PCO não passarão! Lula Presidente!

Envie para todos da sua lista de amigos

Envie para todos da sua lista de amigos

Quase todo mundo já escutou falar de estelionatários, popularmente chamados de 171. São sociopatas com a capacidade de tirar o que desejam de pessoas sem uso de armas de qualquer tipo, apenas com sua persuasão.

São muitos os golpes conhecidos aplicados por eles. O que existe em comum, não importa a modalidade, é o fato deles oferecerem algo muito importante, muito valioso, em troca de algo relativamente muito menos considerável. Por exemplo, um prêmio da Sena de um milhão de reais, em troca de dez mil reais. Quem entregar os dez mil, nunca vai ver uma única nota do milhão.

Este é também o modus operandi de quem fabrica uma Fake News. Ele oferece uma grande notícia, daquelas que todos os meios de imprensa do mundo estão tentando esconder de você, e em troca, pede apenas que a passe adiante. Você se sente especial, único, o escolhido e imediatamente envia aquela bobagem para toda sua lista de amigos.

Existe também o estelionato jornalístico. Ele acontece quando, por exemplo, um jornalista publica uma entrevista com alguém que nunca falou com ele. Também é chamado assim quando o jornalista comete plágio, simplesmente copia e cola o trabalho de um colega substituindo seu nome pelo dele.

A pergunta aqui é simples: você confiaria em um estelionatário?

Bem, então vamos falar de um. Este é famoso na esquerda e conhecido por manifestações antissemitas. Não é o único, não será o último, mas é preciso destacar em virtude do texto que vamos tratar.

Esta semana, aqui no Brasil247 foi publicado um artigo com um título interessante de engrandecer novamente o nazismo. No momento em que se escuta falar de nazistas na Ucrânia, com o Batalhão Azov e na Rússia com o Batalhão Sparta, um artigo destes chama nossa atenção. Neste caso ele se ateve, por objetivos óbvios, que vou destacar mais adiante, apenas ao primeiro.

Antes de adentrar ao artigo, preciso falar algumas palavras sobre o autor. Confesso que me é custoso usar de argumentos da linha de raciocínio dele, mas terei de fazê-lo em nome da coerência intelectual.

Explico: o autor aceitou a fala de um deputado do partido neonazista alemão AfD para justificar a invasão russa a Ucrânia. Ele também louvou as palavras de um general americano de extrema direita, em uma entrevista na Fox News, a mídia mais fascista dos Estados Unidos.

Neste caso, me mantendo na mesma linha, vou usar dois documentos mencionados na Wikipédia que o mencionam produzidos pelo Departamento de Estado Americano.

O primeiro documento em que Escobar é referenciado, chamado Pillars of Russia’s Disinformation and Propaganda Ecosystem (‘Pilares do Ecossistema Russo de Desinformação’), é uma análise detalhada do esquema desinformacional e propagandístico russo, suas principais mídias e participantes – incluindo Escobar, que é citado quatro vezes. Dos sete sites de análise geopolítica citados no dossiê como propagadores de mentiras à mando do Kremlin – The Strategic Culture Foundation, Global Research, News Front, SouthFront Katehon, Geopolitica.ru e New Eastern Outlook -, Escobar escreve, já escreveu ou é republicado em seis deles. Mesmo sem publicá-lo, já que é um jornal acadêmico e não jornalístico, o New Eastern Outlook rasga elogios ao brasileiro (“analista geopolítico perspicaz”).

Ainda de acordo com o mapeamento feito, narrativas falsas seriam geradas pelo governo russo, desenvolvida por analistas e jornalistas em publicações financiadas por eles e posteriormente disseminadas por um ecossistema midiático composto de meios mais populares como RT, Sputnik, publicações locais nos países alvo e perfis falsos em redes sociais. O mesmo argumento seria desenvolvido em mais profundidade em um segundo dossiê, Kremlin-Funded Media (‘Mídia financiada pelo Kremlin’), no qual Escobar também é citado. A análise é corroborada pelo Centre for the Analysis of the Radical Right (Centro de Análises da Direita Radical).

Tal rede teria grande influência em narrativas desenvolvidas no campo político da extrema-direita mundial. Refletindo essa ligação, Escobar torna-se amigo pessoal do filósofo ultradireitista Aleksandr Dugin, conselheiro do mandatário russo Vladimir Putin e principal ideólogo por trás da anexação da Crimeia e do recente expansionismo russo. “Somos amigos, nos encontramos. Quando em Moscou, vou ao escritório do Dugin. Quando ele não está, falo com a sua filha, Daria, que é bárbara e me põe a par de tudo que acontece”, diz o jornalista.

Foi preciso mencionar estes trechos da Wikipédia para explicar parte do teor do artigo. Assim vai ficar mais fácil compreender o que o autor tentou dizer em seu artigo. Ele dá a entender que a Ucrânia se tornou nazista depois que o Batalhão foi incorporado as forças de segurança do país.

Este Batalhão teria sua base ideológica em Stepan Bandera, um ultranacionalista ucraniano que se aliou aos nazistas para tentar libertar a Ucrânia do jugo soviético durante a segunda guerra. Seus discípulos e atuais comandantes desta milícia seriam, consequentemente todos nazistas.

A Rússia, por sua vez, estaria em uma missão na Ucrânia para libertar o país destes nazistas. Sim, uma vez que este grupo foi aceito, de alguma forma, todos se tornaram nazistas e eles precisam ser libertados deles mesmos.

Para o autor, agora um compreensível adepto da russofilia, que serve aos interesses de Putin, é preciso deixar claro que seu patrão está tentando desnazificar a Ucrânia. Está mesmo? Incrivelmente ele mesmo confessa com suas palavras de que isto não existe: “O nazismo, portanto, não é exatamente a mesma coisa que o fanatismo banderanista: trata-se, na verdade, de ideologias rivais.

Portanto, quando Putin e as lideranças russas falam de nazismo ucraniano, eles talvez não estejam sendo 100% corretos em termos conceituais, mas o fato é que esse termo cala fundo em todos os russos.”

Em outras palavras o autor diverge dele mesmo.

O autor menciona cerca de 20 pessoas em seu artigo por seus nomes. Mas apenas 3 delas são qualificadas, e como judias:

Quando Putin denunciou que “um bando de neonazistas” estava no poder em Kiev, o comediante respondeu que isso era impossível porque ele era judeu. Bobagem. Zelensky e seu patrono Kolomoysky, para todos os fins práticos, são sio-nazistas.

Juntamente com o agente secreto da OTAN Dmitro Yarosh, Biletsky fundou o Pravy Sektor, financiado pelo chefão da máfia ucraniana e bilionário judeu Ihor Kolomoysky (que mais tarde apadrinharia a meta-conversão de Zelensky de comediante medíocre a presidente medíocre).

Foi ninguém menos que a sinistra distribuidora de biscoitos em Maidan, “F*da-se a UE” Nuland que sugeriu a Zelensky – ambos, por sinal judeus ucranianos – que nomeasse o nazista Yarosh como consultor do Comandante-em-Chefe das Forças Armadas Ucranianas, o General Valerii Zaluzhnyi”

De quem vem essas ilações antissemitas sugerindo que estes judeus seriam nazistas? Vamos voltar a Wikipédia. Lá ficamos sabendo que o autor foi demitido de vários órgãos de imprensa por plágio! Mais ainda, a gente descobre que ele escreveu aqui mesmo no Brasil247 a favor da Hidrocloroxina tecendo elogios ao infectologista francês Didier Raoult. Nas palavras dele: “Ninguém conhece mais sobre doenças transmissíveis no mundo do que ele [Raoult]. Se ele está dizendo que [a cloroquina] funciona, você pode aplicar isso no mundo inteiro”

Guardei o melhor para o fim. Lembra do fabricante de Fake News, uma forma de estelionato: ele escreveu textos insinuando que os Estados Unidos seriam a origem do vírus da COVID-19, que teria saído do Instituto de Pesquisa Médica de Doenças Infecciosas do Exército dos EUA, em Fort Detrick, Maryland, sendo posteriormente levado à China nos Jogos Mundiais Militares de Wuhan de 2019. Copie e cole no seu WhatsApp e mande para todos seus amigos esta informação super, ultra secreta. Já viu isto em algum lugar?

Quando ele traz o termo sio-nazistas quer dizer que sionismo e nazismo sejam a mesma coisa. Esta é uma ofensa inominável a qualquer judeu. Todos nós carregamos a lembrança do Holocausto. Somente antissemitas fazem uso desta expressão.

Pós-modernidade – acerca da hora e vez dos ratos

Pós-modernidade – acerca da hora e vez dos ratos

Os ratos também ficam em pé, sobrinho!

(Mestre Giovanni, em um encontro)

 

Após tantos milênios em busca da própria humanidade, vencendo déspotas de todo gênero, opressores multifacetados, canibais famélicos, aristocratas perdidos na Ágora, homens-deuses enfurecidos, psicóticos medievais, senhores e reis enlouquecidos, descobridores e colonizadores impiedosos, exploradores de mão-de-obra branca, negra, indígena, amarela, azul e verde, manipuladores e destruidores de vidas e famílias inteiras, religiosos obscenos, mentirosos em cátedras, tribunas, púlpitos e praças, legisladores psicopatas, governantes delinquentes e juízes fúteis, finalmente, nos perdemos.

Após todas as lutas, deixando mitos soterrados, reis comendo a grama entre animais, opressores guilhotinados, religiosos limitados a espaços ínfimos e porões de rezas, nós nos perdemos, tristemente, na mediocridade. E as vitórias se transformaram em lixo, resíduo histórico…

                                                                                 se for

                   de Mengele a podre ossada

que estava no descanso do Embu

                                     desfrutando do silêncio dos mortos,

então, não houve pena a isso.

                                   e se for o corpo que boiava, inerte,

nas águas do canal de Bertioga

                            sem que soubessem tentaram salvar,

então, não houve morte a isso.

                           nada importa, víbora maldita!

se não houve pena à carne disso,

                    e se não houve morte ao corpo disso,

está no abismo, na treva, demônio!

                        onde quisera mandar pessoas outrora

     está queimando diuturnamente

       sem paz.

Após tanta filosofia, tantos debates acadêmicos, tanto progresso econômico, entregamos, por fim, nossas almas para os nazistas e fascistas, sob as bênçãos das cruzes, dos padre-nossos e das políticas ocidentais. E, depois de tanto sangue derramado, em nome da democracia e da liberdade, deixamos que os fabricantes de armas e comerciantes de petróleo dominassem o mundo.

Enquanto parecia ainda ecoarem as vozes de Luther King e Gandhi, entre as linhas de Imagine, fuzilamos milhões de civis, de todas as cores e credos. Enganamos todos e tudo, e quando a grande bolha financeira imobiliária em 2008 criou feridas nos nossos olhos incautos investimos trilhões de dólares para salvar instituições financeiras que nos matam a cada dia, em cada fatura e em cada extrato! 

Então, vem o esgoto:

É

 preciso beber

                        continuamente sem tréguas nem ressacas                         

é preciso fumar todo cigarro e outras drogas,

é preciso drogar-se – a toda hora-

e frequentar todos os bares todas as noites

e fazer sexo em todos os banheiros

(muito sexo, em todas as camas, de todas as casas)

sexo sem limites com todas as mulheres

       e com todos

os homens doentes, pedófilos, sifilíticos,

negros, brancos, amarelos,

tarados, e com todos os burros,

e todos os cães, e todos os cavalos, e todos os porcos!

é preciso devolver

D’US

aos hebreus no deserto!

e ficar livres, para matar, e roubar, e cobiçar,

e mentir, e desonrar, e blasfemar, e idolatrar,

enquanto estes pais e estas mães fizerem crianças de mentira

e em todo canto existirem mentirosos

sejam padres, pastores, pais-de-santo, babalorixás,

gurus, médiuns, profetas, rabinos, missionários, apóstolos, monges, freis,

dizimistas, mulás, sheikhs, ateus, agnósticos,

guias, santos, sectários, fiéis, ovelhas, governos, políticos, empresários,

professores, jornalistas, sindicalistas, juristas, economistas,

médicos, agricultores, empregadores, empregados,

cientistas, estudantes, artistas, filósofos,

escritores, poetas, transeuntes, mendigos:

porque há

m e n t i r o s o s!

porque existe fome, e peste, e ignorância,

porque fizeram de D’us uma coisa,

porque existem favelas violentadas, criminalizadas,

e genocídios, e avareza,

[n e u r ó t i c o s,   p s i c ó t i c o s,  e s q u i z o f r ê n i c o s]

e não há diálogo

nem fogueira

nem estrelas

nem luz

nem sol

nem direito

nem lágrima

nem sorriso

nem afeto

nem amizade

nem trigo nem leite nem Poesia nem teto nem honra nem sangue

  nem legumes nem misericórdia nem justiça nem arroz

     nem tolerância nem feijão

nem coisa alguma: nada!

Quando pensávamos que Geni e o Zepelim se referissem aos desmandos das marionetes militares, descobrimos que servem, tanto quanto, para o baixo clero, alto clero e respectivos. Enquanto ainda falávamos dos cafés impedidos no Largo de São Francisco, descobrimos que centenas de delinquentes, escondidos sob a vestimenta do inspirador nome de Congresso Nacional, por omissão ou por ação, por negligência, imprudência ou imperícia, violavam o pressuposto básico da boa-fé e destruíam, por completo (e por tempo duradouro) o princípio de não causar prejuízo a outrem! Enquanto ensinávamos o sistema jurídico pouco eficaz, os seus criadores usavam o dinheiro público, tirado de forma violenta e indefensável do salário (que nunca será renda!), para o pagamento das viagens (e das orgias) de suas mães, de seus irmãos, de seus correligionários, dos milicianos, dos com-terra, dos palacianos, dos com-castelo, das namoradas e de suas amantes televisivas!

Transformamos um sonho delicado e poético em concreto sufocante, sufocante, sufocante… O sonho e a Poesia foram de graça, espontâneos; o concreto, roubado!

E medimos o amor pelo tamanho da conta bancária e tudo que era sagrado, humanamente sagrado (jamais religiosamente sagrado!) foi coisificado, reificado, reduzido a coisas! E transformamos o corpo em uma imagem distante e vazia. E trocamos o abraço, próximo e intenso, por salas virtuais, grupos virtuais, encontros virtuais, por bonequinhos idiotas que riem sem parar, sem razão e sem verdade. E tudo o que era suor e saliva, perfume e sons da pele, foi deixado em uma tela, e transformado em resíduo cancerígeno e asfáltico! E o que era sábio e inteligente pulverizou-se e perdeu-se entre milhares de livros-lixo em estantes de mercado. Obras inteiras, pagas com o tempo diuturno de estudiosos dedicados, foram esquecidas e substituídas por resumos, sinopses e cópias de esquina. Conduzimos às cadeiras dos antigos mestres da literatura alguns pervertidos esotéricos, alguns senadores hipócritas e donos de redes de televisão, e deixamos passar velhos poetas, ainda que “passarinho”, e os deixamos morrer em algum quarto do Sul.

E as nossas mentes reduziram-se a pó, plástico, imagens e outras invenções noturnas e bestiais!

Rompemos o diálogo, aberto e pontual, profundo e analítico, programático e ético, com os professores de nossos filhos, porque queremos que eles os elogiem, digam algo que legitime nossas condutas indesculpáveis. Porque precisamos de boletins com notas para justificar o preço das escolas e não importa quais os critérios pelos quais se obtenham tais notas, afinal, os fins justificam os meios! Não queremos saber o quanto nossos filhos cresceram por dentro, o quanto se tornaram éticos ou o quanto podem interromper a destruição do planeta – que iniciamos! O mais importante, afinal, é que sejam melhores do que todos os outros, mais fortes, mais sedutores, com celulares mais modernos, que ostentem o poder de bullying sobre todos os outros, como sinal ariano de superioridade. Por isso mesmo, fazemos fila dupla na frente das escolas e buzinamos (às vezes até gritamos!), para que os guardinhas vejam nossos carros, para que os professores vejam nossos carros e para que todos vejam os nossos carros. A escola foi transformada em um curral!

Esquecemos a noção e o conceito de estudo, de pesquisa, de investigação! Rezamos por iluminação, queremos que a divindade nos ilumine! Tornamo-nos asnos religiosos, pelo cérebro e pelo coice.

Queremos títulos, diplomas e certificados de participação em cursos, ainda que tenhamos passado o curso inteiro trocando mensagens ao celular, colando e falando mal uns dos outros (e todos do professor!). Ainda que não tenhamos elaborado uma única questão ou criado uma única ideia original, verdadeiramente original, queremos, mesmo, que o mundo diga que somos instruídos, por isso mesmo investimos nas colações de grau e nos bailes de formatura, nos anéis de formatura (colocados em garras!) e nos álbuns, reais ou virtuais! Por isso mesmo, investimos em becas e togas, para nos cobrirmos e escondermos a vergonha da ignorância e as tendências vampirescas. Não queremos ser esclarecidos, não queremos pensar, não queremos desenvolver nenhum raciocínio crítico.

Não queremos aperfeiçoar nada. Não queremos trabalhar em projeto algum. Queremos o projeto alheio, baixado da internet! Apenas precisamos de uma imagem, de uma fantasia e de uma personagem. Não queremos discutir o direito material, substantivo nem seu sentido nas relações humanas, queremos, apenas, saber como se faz uma petição inicial (para iniciarmos um processo do qual nunca mais nos ocuparemos).

Não queremos explicar a quem nos procura quais sejam os seus direitos, mas queremos que ele saiba profundamente sobre os nossos honorários! Não queremos desenvolver uma inteligência e uma ética social, queremos apenas um emprego público e estável.

Não queremos pagar, queremos apenas receber! Não queremos o café que nos inspira às grandes ideias e projetos, queremos apenas a oportunidade de falar qualquer coisa que seja simplesmente mal da vida alheia. Porque descobrimos, agora, que nada é descartável, mas deletável!

Aliás, precisamos mesmo nos alimentar da maledicência infecciosa, da sujeira que formamos no curral, do pó e do plástico noturnos, do serviço público, do resíduo, da lágrima de quem teve seu direito violado e jamais reparado, das pétalas de flores murchas que entregamos no dia da formatura, do guardinha que esmagamos na porta da escola, dos preservativos usados pelos delinquentes no estupro contra a pobre Geni, da mediocridade e do lixo (ainda que virtual), e das ruínas do Judiciário, usado de forma pessoal, econômica e política, para sentirmos, em plenitude evolutiva, a vida vibrante em nossa longa cauda, escura e escamosa, desprovida de pelos, responsável pelo nosso equilíbrio sobre os varais das roupas socialmente sujas!

A

U

S

        C        

      A  U  S  C  H  W  I  T  Z     

W

I

T

Z

e

venho

de

abismos e profundezas:

do hades onde há ranger de dentes enxofre-resíduo-asfáltico

onde as almas se largam e não há dor nem frio não há sede nem fome,

apenas calor de infernos somados que seca lágrimas remanentes

e as almas se alargam e se espremem

e se dilatam e se transfiguram

e se afiguram a coisas que diluem;

eu

venho

de

lagos-densos-desoxigenados-de-fétidas-misturas-fixas

onde não há coisa alguma

e não se enxerga o azul

e não se ouve qualquer canção

e não se toca com a pele

e não se cheiram perfumes

e

não

se saboreia o mel

a fruta-leite-verdura

apenas,

caindo,

VÊESCUTAAPALPACHEIRARUMINA

o fedor de cadáveres abandonados, o desgosto de abismos

do

delírio-cancro-inserto

n

o

s

coturnos engraxados no ódio.

 Às vezes, agrego pessoas perversas, ignorantes, insensatas e infantis, e as deixo por perto (e com determinadas janelas abertas), por não saber exatamente a diferença entre umas e outras… Às vezes, menciono pessoas perversas, ignorantes, insensatas e infantis, para tentar identificar e diferenciar umas das outras… Às vezes, até elogio pessoas perversas, ignorantes, insensatas e infantis, para que mostrem, em ação ou omissão, as diferenças entre umas e outras… Às vezes, deixo que pessoas perversas, ignorantes, insensatas e infantis se manifestem no meu espaço, para que eu perceba nelas a cor, o peso e o cheiro de sua perversidade, ignorância, insensatez e infantilidade… Às vezes, encontro-me no meio delas, na condição de estudioso e pesquisador, a fim de saber quando e como, umas se transformam em outras!

E

então

D’us

chamou hasatan e lhe perguntou: de onde vieste?

de

rodear

a

terra

(respondeu

hasatan

 sorridente)

 

© Pietro Nardella-Dellova

Fonte: A Morte do Poeta nos Penhascos e Outros Monólogos. SP: Edit. Scortecci, 2009, pp. 276-285

O antissemitismo nosso de todos os dias

O antissemitismo nosso de todos os dias

Se existe uma coisa capaz de unir a esquerda e a direita, é o antissemitismo. No entanto, o combate ao antissemitismo não unifica a esquerda e a direita judaica. O episódio Lúcia Helena Issa é um bom exemplo.

O negacionismo empregado pela jornalista no programa Um Tom de Resistência, em nada se difere de outros utilizados em programas de direita. São os mesmos termos, a mesma narrativa, o mesmo propósito. Só que desta vez, foi em uma mídia de esquerda.

Como os antissemitas fazem isso, está descrito no meu artigo da semana passada, onde mesmo sem nominar o antissemita de ocasião, mostrei como eles se expressam, sempre generalizando e sempre procurando meios de parecerem empáticos. O método é conhecido.

Claro que não poderia faltar a solidariedade da Fepal, uma entidade palestina que sacrifica uma postura representativa dos palestinos brasileiros em nome da defesa das teses antissemitas e conspiracionistas que foram expostas por Lúcia. Mas não foram somente eles, também houve judeus que se manifestaram a favor dela. Talvez aqui a prova maior da diversidade comunitária judaica.

Para quem não sabe, muitos judeus lamentaram a morte de Olavo de Carvalho, um antissemita notório. Ou seja, eles não são a regra, mas a exceção. Todas as entidades judaicas progressistas, ou não, até mesmo a Conib, a entidade máxima, foram unanimes na condenação do que foi ao ar.

O Brasil 247, depois de haver retirado preventivamente o programa do catálogo, manteve a decisão de não trazer de volta. Mais do que isto, além de publicarem as notas de repúdio das entidades judaicas, promoveram um programa com Michel Guerman e Beatriz Kushnir. Nele foram explicadas didaticamente as posições antissemitas que haviam sido colocadas por Lúcia no programa anterior.

Como bem explicaram os convidados, os termos utilizados pela convidada eram antissemitas. Um mix de verdades com meia verdades. Uma confusão de números sem nenhuma prova de sua veracidade. Informações descontextualizadas e pérolas do preconceito contra judeus.

O mote do programa original era uma suposta máfia judaica israelense com 150 anos de atuação no tráfico de mulheres. Aqui já se percebe onde isto vai dar. Se Israel tem 73 anos, como é que já existia uma máfia judaica israelense 77 anos antes? Tudo bem, ela se confundiu, mas onde? Na idade da máfia, na sua composição, na sua atuação, onde está a confusão? E dali em diante, tudo é uma trama conspiratória, digna dos Protocolos dos Sábios do Sião.

Pelo que disse Lúcia, uma máfia judaica israelense formada por judeus russos que receberam a cidadania em Israel, seriam responsáveis pelo tráfico de mulheres com a finalidade de as prostituírem. Assim sendo teriam enviado ao Brasil as Polacas, judias polonesas trazidas para o Rio de Janeiro. E no sentido contrário, brasileiras para Israel. Tudo acobertado pela comunidade judaica brasileira e pelo governo de Israel. Em meio a isto e aquilo, nomeou dois judeus pedófilos, um brasileiro e outro americano, para mostrar que esta seria uma característica judaica.

Fora do tema do programa, mas dentro do conceito antissemita geral, adentrou para a questão do sionismo com exemplos de atrocidades cometidas contra os palestinos, cuja crueldade seria outra característica dos judeus. Nenhum antissemita que se preze vai deixar de atacar Israel, isto é uma norma.

Claro que ela não poderia deixar de mencionar seus amigos judeus, outra norma em qualquer exposição antissemita. Também falou sobre o respeito pelos judeus mortos no Holocausto, afinal era preciso mostrar um pouco de humanidade. Pelos judeus vivos, nenhuma empatia, ou em outras palavras para quem ainda não compreendeu: judeu bom é judeu morto.

Cabe então um questionamento óbvio sobre os amigos judeus da Lúcia. Se eles não são religiosos, porque ela os chama de “judeus”? O antissemita é cheio de contradições. Elas existem por sua incapacidade de conectar suas ideias em mundo real. Seu mundo é constituído de uma visão distorcida da realidade que só faz sentido na cabeça deles. Neste mundo, os judeus são uma unidade na qual todas as mazelas humanas existem e por isso lhes deve ser negada a existência.

Mas a cereja do bolo é sua crença de que não existe uma nacionalidade judaica, judaísmo é uma religião. Este é um ponto importante na narrativa dela, pois se assim fosse, Israel não poderia existir e todos nós, judeus ateus, somos uma aberração antropológica. Fora assim e os nazistas não teriam se dado ao trabalho de tentar extirpar o povo judeu da face da terra. E como judeus, entendiam como sendo aqueles descendentes de até 3 gerações, mesmo os convertidos a outras religiões, ou totalmente agnósticos.

Somos apenas 0,2% da população mundial. Mas o antissemita nos faz parecer 99,8%. Para eles, este número ínfimo tem a capacidade e os meios para dominar o mundo. Nos atribuem uma importância desproporcional e disforme. Não existe precedente como este na história da humanidade.

Eu vivo em Israel e posso garantir que é um país como qualquer outro. Aqui existem coisas maravilhosas e outras nem tanto. Corrupção de políticos, temos. Assassinos, temos. Ladrões, temos. Pedófilos, temos. Tráfico de drogas, temos. Cidadãos de segunda categoria, temos. Racismo, temos. Extremistas de direita, temos. E a lista segue.

Mas existe muita coisa boa também. Eleições livres, temos. Preocupação com o meio ambiente, temos. Maior número de veganos no mundo por habitantes, temos. Invenções que beneficiam a humanidade, temos. Tratamento médico universal, temos. Saneamento básico e água tratada para quase toda a população, temos. Tratamento do lixo, temos. Educação gratuita, temos. ONGs e entidades civis por um Estado Palestino, temos. Judiciário independente, temos. E a lista segue.

Tudo isto para dizer que somos um povo como qualquer outro e um país com gente maravilhosa que vive e deixa viver, que se importa com o próximo, com a paz com justiça para o povo palestino e os árabes israelenses. Gente que é militante nos grupos pela conciliação e convivência entre todos os habitantes deste território.

No imaginário da maioria das pessoas, o antissemita é quele sujeito branco, de cabeça raspada, de baixa escolaridade, supremacista que ataca judeus, negros gays etc. Tudo que não esteja de acordo com a sua visão de mundo.

Escutar uma senhora letrada, que escreve para diversos jornais, viajada, escritora etc., falando dos judeus, deve ser verdade o que ela diz. No entanto, quando se presta atenção a suas falas, percebe-se que algo está errado, não se encaixa, não faz sentido.

Um bom exemplo é o que fez o Estadão há poucos dias em seu editorial atacando Lula. O jornal atacou p ex-presidente de maneira torpe, senão vejamos um trecho:

“Considerando tudo o que o PT fez e deixou de fazer ao longo de seus 40 anos de existência –muito especialmente, no período em que Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff estiveram no Palácio do Planalto–, uma nova candidatura petista à Presidência da República não deveria suscitar entusiasmo na população. A legenda que supostamente seria progressista, ética e renovadora da política percorreu um caminho muito diferente, colecionando casos de corrupção, aparelhamento do Estado, apropriação do público para fins privados e políticas econômicas desastradas” …

Vejamos agora desta maneira:

“Considerando tudo o que os judeus fizeram e deixaram de fazer ao longo de seus 3000 anos de existência –muito especialmente, no período recente em que foram aceitos para viver em diversos países–, um novo crime cometido por eles deveria suscitar repúdio na população. Os judeus que supostamente seriam progressistas, éticos e renovadores da ciência percorrem um caminho muito diferente, colecionando casos de corrupção, tráfico de mulheres, pedofilia, apropriação de bens públicos para fins privados a fim de tirarem proveito de políticas econômicas desastradas” …

Como é simples manipular as palavras em proveito próprio. O Estadão “esqueceu” tudo de bom que aconteceu nos governos petistas, e a lista é longa. Poderiam até minimizar parte delas, mas nunca poderiam deixar de mencionar dados que são fatos comprovados.

Da mesma maneira agiu Lúcia. Ela mirou em fatos por vezes verdadeiros, por vezes lendas urbanas para atacar os judeus. Não menciona o que pode ser tomado como algo positivo, e a lista também é longa, para fixar seu ódio na ação de um grupo judeu que representa todos os judeus do mundo. Ela faz com os judeus o que o Estadão fez com Lula e o PT.

Lúcia Helena Issa representa muito bem este papel de uma nova geração antissemita que se encontra na esquerda, mas que poderia muito bem estar do lado de lá. Faz muito tempo que o ódio aos judeus deixou de ser característico da direita e passou a ser parte da esquerda também. Nós, judeus de esquerda vivenciamos isto todos os dias.

Temos os mesmos ideias de mundo e ansiamos por um Brasil livre de Bolsonaro. Lutamos por justiça social, contra as políticas neoliberais que aumentam o fosso entre ricos e pobres. Sonhamos retornar o país ao seio das nações em desenvolvimento. Mas ainda assim, não somos aceitos por uma parcela da esquerda.

Existe um longo caminho ainda a ser percorrido para que o antissemitismo seja compreendido como o preconceito mais antigo do mundo.