Não há espaço para «mas»

Não há espaço para «mas»

Há momentos em que não há meio-termo possível, em que somos obrigados a tomar partido, sem ambiguidade e sem “mas”. Este momento é agora. Estamos mergulhados num desses tempos de plena mutação, em que as decisões que tomamos definirão o rumo da História. Nós, que vivemos em democracia, temos a chance de nos manifestar, negada a bilhões de cidadãos no mundo inteiro. É por isso que não temos desculpa, não temos, porém. Somos livres e por isso não temos direito ao silêncio ou à indiferença.

É assim com relação à guerra, é assim com relação à política. A questão que se coloca é queremos ser livres, donos do nosso destino? Ou preferimos enfiar a cabeça na areia tal qual os avestruzes esperando que tudo se « resolva » por si só?

A hipótese do avestruz parece ser a preferida de muitos, mais ainda no que tange à política. O populismo extremista, apesar de todos os pesares, continua a ganhar terreno, com a reeleição de Viktor Orbán, na Hungria, o crescimento da extrema-direita na França e do inominável no Brasil.
Caímos facilmente na ilusão de dizer que ao final de um mandato, ou daqui a seis meses, um ano, o pesadelo terá passado e poderemos regressar tranquilamente à vida que vivíamos antes, inclusive antes da guerra de Putin. Ela diz presente todas as noites, na hora dos telejornais, que transmitem as imagens de horror que nos chegam continuamente da Ucrânia. É inegável que sentimos um soco no estômago, revolta, sentimento de angústia. Mas também sabemos que os efeitos da violência pouco a pouco se banalizam, sobretudo quando estamos longe. A barbárie acaba se transformando em simples imagens.

Hoje, a informação em tempo real nos dá, a cada um de nós, uma responsabilidade muito maior, a de sabermos. Hoje não podemos negar o que se passa porque vemos praticamente ao vivo a bestialidade do massacre de Bucha, a lembrar o de Serebrenica, na Bósnia, em 1995. Não temos desculpas. Não há MAS possível. Nem sequer diante das patéticas explicações de comentaristas militares nas nossas telas. Dizer que Bucha pode ser uma encenação é dizer o mesmo que Putin, é dizer aquilo que a consciência humana não pode nem deve tolerar. É o mesmo que apagar das fotografias os dirigentes soviéticos que tinham sido abatidos sumariamente por Stalin. É o mesmo que não querer ver as provas dos campos de extermínio nazistas antes de serem libertados. É o mesmo que virar de costas para os corpos queimados por napalm no Vietnã.

Esta brutalidade não é de hoje, nem pode ser legitimada pela simples circunstância de uma guerra. Não temos o direito de dizer que, em guerra, é sempre assim, porque não é. Precisamos recuar à Chechênia, no final dos anos 1990 e início deste século, ou à guerra na Síria a partir de 2015, para entender que esta brutalidade e esta crueldade fazem parte da doutrina militar da Rússia.

Não há relativismos possíveis, nem pretensas comparações entre “imperialismos”, sempre evocadas por uma certa esquerda nestas circunstâncias.
Evoquemos a guerra do Vietnã. Os EUA perderam a guerra, em grande parte por força da sua opinião pública e da liberdade de informar, totalmente ausente da Rússia do autocrata Vladimir Putin. O argumento da “equivalência” entre dois imperialismos é uma das razões para esta tal « esquerda » torcer para as tropas do czar, como se estivesse na arquibancada do Maracanã. O mesmo acontece com a extrema-direita, que vê em Putin um “líder” capaz de impor a autoridade que falta às democracias.

É também por isso que temos de tomar partido. Sem “mas”. Dizer que há um invasor e um invadido não basta. É preciso ir além, ter a coragem de afirmar que a democracia – palavra que os dois extremos odeiam – está sendo atacada e que a liberdade não é uma utopia e sim um objetivo.

O medo é outro argumento de peso, do qual precisamos nos livrar. Mesmo se é um elemento fundamental em todas as guerras, temos de compreendê-lo nas suas consequências, sob pena de termos de viver com ele por tempo indefinido.

Por compreensível que seja, o medo de Putin e das suas ameaças nucleares não pode condicionar nossa postura sobre esta guerra. As ameaças tenderão a aumentar, mesmo porque Putin não precisa de pretextos para utilizar armas de destruição de massa, como fez na Chechênia e na Síria. Recorrerá a estas armas porque esta é a sua visão apocalíptica do mundo ou então por instinto de sobrevivência.

É também por isso que não pode haver um “mas”. Devemos dizer claramente de que lado estamos: da invasão da Ucrânia pela Rússia, com a sua miríade de mortos, ou contra esta guerra absurda. O que nada tem a ver com um alegado apoio à OTAN ou ao imperialismo americano.

Neste combate que os ucranianos travam está a democracia. A deles, mas também a nossa. Esta democracia temos de defender sem “poréns”.
Como lembra a colunista Teresa de Sousa, no Público, de Lisboa, há momentos em que a velha frase de Churchill ganha todo o seu significado – “a democracia é o pior dos regimes à exceção de todos os outros.” Para o grande estadista britânico, não havia, mas possível face a Hitler. Por isso lhe devemos tanto. Por isso não há “mas” possível face a Putin.

Às favas os ideais

Às favas os ideais

Não há como ser de esquerda e desconhecer o princípio da Autodeterminação dos Povos. Se quem me lê não sabe nada sobre isso, desculpe, mas você pode ser um humanista, um progressista, um bom sujeito, entretanto, você não é de esquerda.

De acordo com os ensinamentos do professor Carlos Alberto Husek (*), o princípio da autodeterminação dos povos deve ser analisado em conjunto com os princípios da soberania e da independência nacional. Com base nele, entende-se que é possível contrariar a existência de uma ordem internacional superior, continuando os Estados a figurar como sujeitos principais e primários do sistema internacional.

O princípio da autodeterminação dos povos confere a eles o direito de autogoverno e de decidirem livremente a sua situação política, bem como aos Estados o direito de defender a sua existência e condição de independente.

Autodeterminação significa o direito que os povos de todos os Estados possuem, de determinar a forma que será legitimado seu direito interno, sem que haja influência de qualquer outro país. Assim, os países possuem o direito de se autogovernar, sendo, portanto, considerados soberanos.

No Artigo primeiro, tanto no PIDESC – Pacto Internacional sobre Direitos Econômicos, Sociais e Culturais, como no PIDCP – Pacto Internacional sobre Direitos Civis e Políticos – consta a seguinte afirmação: “Todos os povos têm o direito de autodeterminação. Em virtude desse direito, determinam livremente sua condição política e perseguem livremente seu desenvolvimento econômico, social e cultural “.

A primeira vez que se ouviu falar deste princípio foi na obra Marxismo e Problema Nacional, publicada em 1913 pelo futuro secretário geral da União Soviética, Joseph Stálin. Esta noção tem origem nas lutas anticoloniais e anticapitalistas da Revolução Comunista de 1917.

No início da segunda guerra, os Estados Unidos e Grã-Bretanha assinaram uma declaração onde foram declarados os objetivos do mundo pós-guerra e a definição de vários princípios, entre eles o Princípio da Autodeterminação dos Povos. No mesmo ano os Aliados também assinaram a Carta do Atlântico. Em janeiro de 1942, 26 países assinaram a Declaração das Nações Unidas, que ratificaram esses princípios. A ratificação da Carta das Nações Unidas em 1945, depois do fim da Segunda Guerra Mundial, inseriu o direito de autodeterminação no âmbito do direito internacional e diplomático.

Segundo Pietro Costa (**), em “DIREITOS HUMANOS” E “AUTODETERMINAÇÃO” DOS POVOS NO PROCESSO DE DESCOLONIZAÇÃO, é no triênio após a Segunda Guerra Mundial – na fase final da parábola colonizadora iniciada com a chamada “descoberta” da América – que o princípio da autodeterminação é sistematicamente utilizado para deslegitimar as últimas, mas tenazes resistências das potências coloniais europeias. Não é, contudo, a primeira vez que vem salientado o potencial “anticolonialista” do princípio de autodeterminação. O nexo entre autodeterminação e anticolonialismo é mais antigo e emerge estando conectado com o projeto de uma nova ordem mundial delineada por Woodrow Wilson, presidente dos Estados Unidos, durante os anos da Primeira Guerra Mundial.

Como bandeira da esquerda, este princípio justificou nossa contrariedade as invasões americanas a diversos países sob os mais diferentes pretextos. Da mesma maneira as intervenções políticas dos Estados Unidos em inúmeras nações.

As tentativas de parte da esquerda em acomodar este princípio de acordo com suas conveniências é patético. Jogar a culpa pela invasão de um país por outro, no país agredido é o mesmo que justificar o estupro culpando a vítima.

Neste disparate vale tudo. Vale trazer a opinião de um membro do partido Neonazista AfD alemão, a opinião de um ex-general americano em declaração na expoente do fascismo midiático americano Fox News e acobertar o fato de que a Rússia tem hoje no poder um ditador sanguinário de extrema direita.

Nem mesmo os inúmeros crimes de guerra cometidos diariamente contra a população civil, demovem estes supostos humanistas de esquerda de sua ortodoxia dogmática. Pararam no tempo e ao escutarem Rússia se imaginam na União Soviética. Os mesmos crimes cometidos pelos EUA, agora cometidos pela Rússia, recebem uma interpretação transcendental. Putin, sendo oriundo da KGB, o serviço secreto da extinta União Soviética, recebe o status de anti-imperialista, mesmo cometendo crime igual. Lamento informar, mas Putin é parte do fim, ele se beneficiou e segue se beneficiando do fim do antigo regime.

Funciona assim: são contra, como princípio, se comemorar a morte de qualquer pessoa, mesmo sendo ela uma pessoa execrável do ponto de vista humano. No entanto fazem festa pela morte de Olavo de Carvalho. Às favas os ideais de um mundo melhor, do humanismo, de não se igualar aqueles fascistas que destilam ódio. Tudo se justifica quando se trata da visão de mundo baseada numa realidade distópica onde o único opressor é o Tio Sam.

Este mundo fantasioso de vocês pode servir bem aos seus propósitos, mas ele não existe, a realidade é outra. Nela os mortos civis no país invadido são reais, a destruição indiscriminada no país invadido é real, a tentativa de ocupação de um país livre é real, a ditadura no país invasor é real, a censura no país invasor é real, a criminalização de manifestações no país invasor é real, e isto vocês não podem esconder.

Vocês são à esquerda do passado. Uma esquerda fundada em mentiras que serviram a propósitos espúrios de líderes preocupados com nada além do seu bem estar e dispostos a sacrificar o povo em epopeias com propostas de odisseias em um mundo utópico.

Judias e Judeus Sionistas de Esquerda

Mauro Nadvorny, Tânia Bilbich, Milton Blain, Pietro Nardella e Jean Goldenbaum

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* Assistente Doutor do Departamento de Direito das Relações Tributárias, Econômicas, Internacionais e Comerciais da Faculdade de Direito do Centro de Ciências Jurídicas, Econômicas e Administrativas da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo

** Professor Catedrático de História do Direito Medieval e Moderno na Universidade de Florença, na Itália. Editor-chefe da revista Quaderni Fiorentini per la Storia del Pensiero Giuridico Moderno.

Pesquisa na Wikipedia.

O ultranazismo de Vladimir Putin

O ultranazismo de Vladimir Putin

Muito poucos leram o discurso de 17 páginas de Vladimir Putin às vésperas de fazer o que negou por várias semanas, ou seja, invadir a Ucrânia com a intenção de destroçar o país e a vida de seus habitantes. Uma versão completa está no perfil do Prof. Renato Janine Ribeiro, no Facebook e talvez em outros lugares.
Entre os principais tópicos, um me chama muito à atenção: a intenção declarada de “desnazificar” a Ucrânia. Ora, tal assertiva de que a Ucrânia está “nazificada” não encontra suporte razoável nos dados de realidade. A extrema direita recebeu parcos 2% dos votos e não elegeu deputados. Desconheço qualquer ato de ofício ou discurso de Zelensky com conteúdo ou ideação nazista. As eleições foram monitoradas por entidades internacionais e não pesam suspeitas de fraude ou manipulações. Zelensky é um novato na política, e de fato, talvez a guerra possa ter caído no seu colo como uma oportunidade de ficar realmente (mais) famoso do que já era e tendo que responder a um desafio do tipo “um camundongo contra um urso”.
Se há extrema direita na Ucrânia? Claro que sim, e pode até ser da pior espécie. E falta extrema direita política e miliciana no mundo hoje? Por que a Ucrânia seria uma exceção a nos chamar tanto à atenção? Conflitos territoriais e geopolíticos no Leste contribuíram para o ódio aos russos e a Putin. Mas será que a verdadeira dimensão desse fenômeno é nacional, governamental e encravada no estado? Sinceramente não creio. Doentes graves apresentam sinais e sintomas graves. Desses que vemos com clareza no despotismo de Putin e sua intenção de se estabelecer no poder até 2037, quando por pouco não completará 4 décadas, se isto se concretizar. Mas as intenções estão claramente colocadas.
Putin ataca duramente o sentimento nacional ucraniano, chegando a afirmar, em apertada, mas verdadeira síntese, que “a Ucrânia não existe”, deixando claro a sua avaliação de que o nacionalismo ucraniano e a independência e autonomia desse estado são meras pretensões culturais e étnicas que não se fundamentam na história, na sociologia, na política, constituindo assim uma mera mitologia artificial. As 17 páginas detalham extensamente esta visão.
O termo “nazismo” pode ser aplicado a diferentes contextos, e pode facilmente ser apropriado por manipuladores dos significados e significantes. Outros termos sofreram o mesmo destino, sendo o mais clássico, o termo “sionismo”, que originalmente é o nome do movimento político que defendeu a criação do Estado de Israel como nação judaica, que atualmente é aplicado distorcidamente à aberração de uma política de governo expansionista da direita israelense. O movimento sionista culmina com a declaração da ONU que propôs a partilha da Palestina para dois povos e dois estados. O sionismo claramente abarca esta proposição. O que vem depois disso e alterando esta conformação não pode receber o nome de “sionismo”, devendo receber os nomes apropriados.
Quando Hitler iniciou a grande política nazista a partir de 1933, propagava a ideia (entre outras mais radicais e sombrias) de que a Alemanha precisava de extirpar a cultura judaica de suas estruturas de estado. Isto foi registrado em uma famosa entrevista à imprensa estadunidense, onde ele prometia não perseguir ou destinar judeus à morte ou sofrimento, mas simplesmente “desjudaizar” a Alemanha, lembrando que à época os judeus perfaziam 4% da população alemã, se tanto, e com parca expressão política. Ironicamente, esta população judaica era orgulhosa de sua condição germânica, o que deixa até hoje traços culturais nas comunidades judaicas de todo o mundo.
Usando esta figura histórica como analogia, fica muito claro que quando Putin afirma querer “desnazificar a Ucrânia” ele refere-se a algo muito semelhante ao que Hitler descreveu uma década antes da “solução final”. A intenção clara de Putin é de erradicar o sentimento nacionalista ucraniano, suas pretensões de independência e de integração com a União Europeia, fato que por si mesmo denuncia a mentira no “nazismo ucraniano”, pois sabem eles muito bem que a a entidade é avessa aos totalitarismos e fascismos, sendo que um regime democrático institucional e regular é condição essencial para esta adesão. Assim, Putin considera esse nacionalismo, legítimo a qualquer país – não existiriam países não fosse o legítimo nacionalismo – , como uma “contaminação”, uma doença a ser extirpada a qualquer preço, ficando em absoluto paralelo com o sentimento de Hitler ao querer “desjudaizar” a Alemanha.
Nesta esteira, manipulando a realidade a seu favor e corrompendo o sentido histórico peculiar do nazismo, Putin inaugura algo que ultrapassa as restrições históricas do termo, criando um metanazismo ou um ultranazismo, ou seja, utilizar a mecânica de Hitler e aplicá-la doravante ao contexto que ele considere atender às suas necessidades, fazendo algo muito parecido com o que certos setores de diferentes campos políticos fazem com o sionismo, quando tentam associá-lo aos desvios de governos israelenses e de algumas de suas forças políticas que nada tem a ver com a simples ideia de um estado judeu legítimo e independente projetado pelo verdadeiro sionismo.
Vivemos um período de crise dos significados e significantes, como bem define em suas palestras o Prof. Michel Gherman, quando examina a questão do nazismo infiltrado no Brasil e em seu governo atual. Desta crise, aproveita-se sorrateiramente Vladimir Putin para atingir seus objetivos totalitários e imperialistas, atirando seu belo país em uma guerra que será a sua ruína.
O inimigo mora ao lado

O inimigo mora ao lado

E segue o banho de sangue na Ucrânia protagonizado por Putin. Na falta de alvos militares nas cidades cercadas, o exército russo atira e esmo em bairros residenciais. Prédios de moradia, hospitais, escolas, o grau de destruição é amplo. Quando a guerra acabar, milhares de refugiados não vão ter para onde voltar.

Não existe guerra limpa. Muitas vezes o chamado efeito colateral, aquele que leva um míssil para um alvo errado, ou o bombardeio de uma zona próxima ao alvo desejado, acontecem. É parte do esperado. No entanto, quando as bombas caem propositadamente em locais que estão fora deste espectro, trata-se de crime de guerra.

Putin subiu na árvore e não sabe como descer. As sanções contra seu país aumentam todos os dias. O fechamento e a saída de dezenas de empresas da Rússia deixaram milhares de cidadãos desempregados. A moeda derreteu e com a incapacidade dos bancos de realizarem pagamentos para o exterior, o desabastecimento de matéria prima e outros bens é só uma questão de tempo enquanto durarem os estoques.

Se vai ficar ruim para o povo em geral, muito pior já ficou para os oligarcas que sustentam Putin no poder. Seus bens e seus investimentos no exterior estão sendo apreendidos e congelados. Perderam acesso a eles. A guerra chegou ao bolso destes milionários também.

Sim, a nossa gasolina ficou mais cara. Em muitos países, o custo do combustível vai trazer aumento de preços e uma consequente inflação. Isto tende a se acomodar na medida que os países busquem alternativas. O que não tem volta são as milhares de perdas em vidas na Ucrânia.

Poucas vezes vimos o mundo em sintonia contra uma guerra. Tivessem estes mesmos países se unido em outros momentos, talvez outros conflitos já tivessem terminado e o planeta respirasse melhor.

Talvez a maior surpresa seja sem dúvida a união dos extremos em prol de Putin. Finalmente, depois de tanto ódio e de tantas separações, extremistas de esquerda e de direita confraternizaram apoiando o açougueiro de Moscou. Nunca antes tinha visto uma união destas em torno de um ditador desta estirpe.

Eu sempre acreditei que os extremos se tocam, mas isto sempre foi uma teoria. Finalmente chegou à prova desta minha hipótese. Os apoiadores de Putin, os bajuladores do tirano são os que apoiam Bolsonaro de um lado, e apoiadores de Lula de outro. Nenhuma surpresa aqui, a motivação desta gente é exatamente a mesma.

Como muitos, eu também fiz uma limpeza nas minhas relações quando da eleição de Bolsonaro. Não se tratou de política, sempre convivi com as diferenças, afinal de contas nem todo mundo é gremista. Da mesma maneira, sempre respeitei quem vota em partidos de centro, ou de direita. A alternância de poder é sempre saudável.

O que nunca aceitei, nem jamais aceitarei é ter junto a mim racistas, antissemitas, homofóbicos, misóginos, gente que promove o ódio, ou quem os apoia. Não me importa suas convicções políticas, se são de esquerda ou de direita. Este tipo de gente é o lixo da humanidade. Representam a barbárie contra a civilização.

Até os dias de hoje eu achava que ao ficar na minha bolha, com relações e amigos que não votaram em Bolsonaro, majoritariamente companheiros de esquerda, eu tivesse finalmente podendo ter junto a mim, humanistas, combatentes contra o racismo, contra o antissemitismo, a homofobia e a misoginia. Putin, mostrou que eu estava equivocado.

Agora vou precisar limpar do meu círculo, apoiadores de mais um fascista. Só não fazia ideia de que eles estavam aqui ao lado. Confesso que não me surpreende, mas ainda assim, me dói. É a dor da constatação de que certas coisas podiam ser diferentes, poderiam ter tomado outro caminho, de que a escuridão que existe neles, ainda afasta a luz que existe em mim.

Convicções são mais fortes que ideologias. Princípios de vida sempre nortearam meu caminho e procurei nunca me afastar deles. Já me reciclei diversas vezes. Compreendi meus erros e meus equívocos para crescer como ser humano e contribuir para a humanidade. Não volto atrás no caminho da civilização.

Ave Putin

Ave Putin

Alguém lembra do termo “Cortina de Ferro”? Ele foi criado criada pelo escritor russo Vasili Rozanov, e se referia à separação estabelecida no Leste Europeu, região controlada pelo antiga União Soviética ao final da Segunda Guerra Mundial.

Nem todos os seus membros concordavam em fazer parte deste bloco, países como Alemanha Oriental, Polônia, Hungria, Tchecoslováquia, Bulgária, Romênia, Ucrânia, Armênia, os países bálticos (Estônia, Lituânia e Letônia) e Cazaquistão, tiveram seus governos impostos pelos respectivos Partidos Comunistas alinhados com Moscou.

Não havia nada parecido com uma democracia. Eleições foram suprimidas e todos estes países foram forçados a se submeterem ao regime comunista com partido único. As tentativas de liberdade foram suprimidas com o uso da força. Assim foi, por exemplo a Primavera de Praga.

A Primavera de Praga ocorreu em 1968. Alexander Dubček afastou, Chefe de Estado e Secretário Geral do Partido Comunista da Tchecoslováquia, afastou as lideranças autoritárias do poder e adotou medidas reformistas que visavam uma abertura política do país. Este movimento contou com o apoio de grande parte da população da Tchecoslováquia, principalmente de estudantes, intelectuais e operários.

O objetivo de Dubček era o de ampliar as liberdades individuais e os direitos civis da população tchecoslovaca. Assim, ele descentralizou parcialmente a economia, democratizou a política, incentivou as ciências e as artes, e aumentou as liberdades de imprensa e de expressão. Tratava-se de uma tentativa de criar uma “social-democracia”, ou um “socialismo com rosto humano”.

A então União Soviética reage e exige o fim das reformas de Dubček. Invade a Tcheco Eslováquia utilizando o exército do Pacto de Varsóvia. Meio milhão de soldados e sete mil tanques de guerra reprimem o movimento.

Alexander Dubček é sendo afastado do Partido Comunista e Gustáv Husák assume o governo. Ele acaba com as reformas e reinstaura um sistema político fechado, burocrático e autoritário.

Menos conhecido, mas não por isso menos importante foi o levante na Hungria em 23 de outubro de 1956. Uma manifestação organizada pelo Círculo Petofi. Estudantes e intelectuais húngaros, contrários as condições de vida e contra o governo comandado pelo Partido Comunista, liderado por Ernö Gerö, pedem a volta de Imre Nagy, figura que representava um distanciamento da URSS e a possibilidade de adoção de algumas medidas democráticas no país.

Nagy é nomeado primeiro-ministro com o objetivo de acalmar os ânimos. O partido comunista passa a ser liderado por Janos Kadar, que fora reabilitado após sofrer pena por crimes políticos.

Porém, os estudantes, operários e soldados não se contentaram com as mudanças. De uma luta política, a revolução passa a ser também uma luta econômica e social.

A liderança do movimento não estava satisfeita e fábricas foram ocupadas com comitês formados por operários para geri-las. Surgiram conselhos revolucionários em Budapeste e em outras cidades, nos dias seguintes, para organizar a população contra a reação soviética que se fazia sentir.

A “Revolução Húngara” era uma clara ameaça para a União Soviética pois poderia alastrar-se para os demais países, ameaçando o Pacto de Varsóvia. Os soviéticos não podiam aceitar a ameaça a seu poder, e em 04 de novembro, os tanques do Exército Vermelho entram em Budapeste, reprimindo brutalmente a revolução. Cerca de 20 mil húngaros foram mortos, contra pouco mais de 700 soldados soviéticos. Era o fim da Revolução Húngara.

Vladimir Putin foi oficial da KGB, o serviço secreto da União Soviética, por 16 anos, chegando à patente de tenente-coronel. Em 1991 se aposenta das atividades militares e ingressa na política, em sua cidade, São Petersburgo. Ele se muda para Moscou em 1996, para fazer parte da administração do então presidente Boris Iéltsin, tornando-se presidente interino em 31 de dezembro de 1999, quando o presidente Iéltsin renunciou ao cargo inesperadamente. No ano seguinte ele vence a eleição e torna-se Presidente da Rússia, sendo reeleito em 2004. Impedido de concorrer para um terceiro mandato em 2008, uma vez que a Constituição russa só permitia dois mandatos consecutivos, ele consegue com que seu aliado Dmitri Medvedev seja eleito e é nomeado primeiro-ministro do país. Em setembro de 2011, Putin anunciou que concorreria a um terceiro mandato nas eleições do ano seguinte e acaba sendo eleito. Muda a Constituição para acabar com o limite de reeleição e permanece no poder até hoje.

Putin, assim como a Rússia, nunca conheceu uma democracia. Os russos saudosos da Grande Rússia jamais aceitaram a perda de seus satélites do Pacto de Varsóvia e suas repúblicas associadas a União Soviética. Putin é o expoente desta linha e se comporta com um Imperador Romano.

Os países que conseguiram sair do jugo russo sabem que não podem confiar no antigo algoz. Não possuem os meios, nem as condições para se defenderem sozinhos, se um dia o antigo império desejar retomar seus dias de glória os incorporando, um a um ao seu jugo.

Cada um à sua maneira, e no seu tempo, tentam fazer parte da Comunidade Econômica Europeia e da OTAN. Desta maneira, em 2004 a união europeia avançou sobre o leste europeu com a adesão de mais dez países, cuja maioria esteve vinculada ao mundo socialista até o final da década de 1980. São eles Estônia, Letônia, Lituânia, Polônia, República Tcheca, Eslováquia, Hungria, Eslovênia, Chipre e Malta. Em 2007, 50 anos após a assinatura do Tratado de Roma, Bulgária e Romênia entraram na UE, ao mesmo tempo em que a Eslovênia passou a integrar a Zona do Euro.

Em 1991, a Otan incorporou a Polônia e República Checa, em 1999, Romênia, Bulgária, Eslováquia, Eslovênia, Estônia, Lituânia e Letônia, em 2004, Albânia e Croácia, em 2009, Montenegro, em 2017, e Macedônia do Norte, em 2020.

Todos estes países são regimes democráticos que em nada se parecem com a Rússia. Todos conheceram no seu passado recente o significado de conviver sob a mira de um canhão russo sobre eles. Fizeram suas escolhas como países independentes e assim devem ser respeitados.

A falácia de que a OTAN, através destes países, representa um perigo para a Rússia não se sustenta. Nenhum deles possui armamento dela capaz de permitir um ataque a ela, muito menos um exército capaz de invadi-la. A OTAN não possui mísseis nestes territórios que possam ameaçar a Rússia. Todos eles pensaram no óbvio, que é justamente o que acontece com a Ucrânia, se garantirem de uma invasão russa contra seus territórios.

Esta guerra absurda que consome vidas inocentes a cada hora, tem um único culpado e ele se chama Vladimir Putin. Nenhum democrata do espectro político que vai da esquerda à direita, pode concordar com esta invasão absurda que aconteceu sem qualquer justificativa plausível. A Ucrânia foi escolhida justamente por não pertencer a União Europeia e nem a OTAN. Uma covardia típica de tiranos.

Tentar encontrar desculpas e culpados, outro que não Putin, para o que estamos vendo, é procurar pelo em ovo. Nem vou me dar ao trabalho de contestar os absurdos como desnazificar a Ucrânia, a culpa dos é dos EUA, da OTAN e outras teorias conspiratórias que sequer merecem ser mencionadas.

Nenhum humanista pode apoiar esta guerra, muito menos encontra justificativas para ela, eu me nego a fazê-lo.

Foram consultados para este artigo os sites Quero Bolsa, História do Mundo, Wikipédia e Valor Econômico.

Nós, Judias e Judeus Sionistas de Esquerda, Condenamos:

Nós, Judias e Judeus Sionistas de Esquerda, Condenamos:

Em nome da coerência e do respeito aos nossos valores e princípios, nós, JJSE – JUDIAS E JUDEUS SIONISTAS DE ESQUERDA, denunciamos como crime de guerra quando um míssil israelense destrói um hospital em Gaza. Do mesmo modo, nós, JJSE, denunciamos quando as forças russas bombardeiam os hospitais de Donetsk e Chernihiv.

Condenamos a absurda violação do território ucraniano pela Rússia, do mesmo modo que condenamos ocupações ilegais e a violação dos territórios palestinos.

Para nós, se trata do mesmo crime de guerra e das mesmas violações do Direito Internacional e dos Direitos Humanos.

Nós, JJSE, denunciamos ataques aéreos israelenses que atingem escolas na Faixa de Gaza, e, da mesma forma, denunciamos os ataques com bombas russas que destroem a escola de Severodonetsk, a universidade da cidade ucraniana de Kharkiv ou o orfanato de Lviv.

Nós, JJSE, consideramos que o ex-primeiro-ministro israelense, Bibi Netanyahu, deveria ser denunciado ao Tribunal Penal Internacional de Haia por crimes de guerra, assim como consideramos que Vladimir Putin deva ser posto no banco dos réus do mesmo TPI.

Do mesmo modo, denunciamos, individualmente, a violência e a ilegalidade do ataque estadunidense contra o Iraque, e os crimes cometidos contra o povo iraquiano. Também condenamos os ataques da Arábia Saudita contra o Iêmen e o uso de drones norte-americanos na Somália.

Nos posicionamos contra o imperialismo desumanizador estadunidense, assim como sua voracidade contra o mundo e contra o expansionismo da OTAN para o leste europeu, tendo em vista que não existem as mesmas condições objetivas de sua criação.

Reconhecemos, e desde sempre denunciamos, a fúria golpista estadunidense na América Latina, em especial no Chile, Argentina, Brasil, e suas conexões com o lavajatismo que levou ao golpe de 2016.

Condenamos veementemente os ataques de garimpeiros contra populações indígenas brasileiras e a violência racista, direta e estrutural, contra negros, verificada diuturnamente.

Denunciamos também a violência contra religiões de matriz africana, a intolerância contra a diversidade cultural e sexual.

Denunciamos, sem negociação, a homofobia contra a população LGBTQIA+ e a misoginia explícita dos grupos Moro-Bolsonaristas.

Nós, Judias e Judeus Sionistas de Esquerda, somos contra todo e qualquer tipo de discriminação e temos como compromisso único o respeito aos Direitos Humanos e ao Direito Internacional, seja onde for, em Israel, Palestina, Somália, Iêmen, Brasil, como na Ucrânia e Rússia.