Sobre tolerância e respeito `as diversidades

Sobre tolerância e respeito `as diversidades

No mês em que se celebra o orgulho, deparo-me com manifestações de pseudorreligiosos em retaliação a uma marca de fast food, que nos brinda com uma campanha de marketing com a abordagem LGBTQIA+, com o foco na pureza das crianças, sim porque as crianças são puras, e não enxergam maldade no amor. Respeitar todas as formas de amar deveria ser uma bandeira do cristianismo, porém, os neopentecostais se comportam de forma avessa ao que prega a sua própria religião, são apenas fundamentalistas que desejam impor seus pensamentos e comportamentos a toda sociedade.

Há muito tempo sinto-me sufocada pelo rumo que o Brasil tomou, enchendo-se de um conservadorismo pré-histórico, trazendo toda sorte de mazelas para um povo. Essa gente que hoje vai às redes sociais gritar contra essa empresa de fast food é a mesma que colocou no cargo de mandatário da nação brasileira, um genocida, negacionista, incapaz de sentir empatia pelo sofrimento de um povo, que ele deveria cuidar, o Brasil tornou-se palco internacional de espetáculos diários de intolerância, arbitrariedades, homofobia, destruição de direitos. E tudo isso tendo como pano de fundo pilhas e pilhas de mortos, seres humanos asfixiados pelo fundamentalismo de muitos, pelo nazi fascismo de outros.

Esses cidadãos de “bem”, sabem criticar outros fundamentalistas que matam os missionários cristãos em seus países, mas não se enxergam como responsáveis pelos assassinatos diários de homossexuais no Brasil, pois desde que Bolsonaro foi eleito presidente, os homofóbicos sentiram-se a vontade pera exacerbar toda sorte de comportamentos desprezíveis.

Respeitar as diferenças é obrigação de todos, independente de seguimento religioso, e falo como religiosa que sou. Não somos iguais nem nas digitais, por que teríamos que seguir padrões de comportamento impostos por uma parcela da sociedade?

Viva as liberdades de orientação sexual, de culto religioso, ou de ausência de religião!

Farda, fralda e fraude

Farda, fralda e fraude

“Tempos estranhos”, a forma que com alguma frequência, gradualmente mais alta, o quase ex-ministro Marco Aurélio Mello define as quadras históricas que vivemos, é uma forma definitivamente corolária se quisermos definir as almas que habitam nestes mesmos tempos e lugares, onde qualquer tentativa de ordenamento e compreensão lógica sobre as trajetórias e narrativas sucumbe escalafobeticamente. Tanto que para dar um pouco mais de sentido a este texto, tive que inserir este primeiro parágrafo que nem trata do tema principal para justamente estabelecer um corolário ao descrever o estranho e ilustre personagem acima, que permite a compreensão daquilo que ele mesmo chama de estranho a partir de sua perspectiva civil sobre assuntos mais atinentes ao polo militar da sociedade brasileira.
Mello, o campeão absoluto de votos vencidos no STF, talvez até em escala global se feito o devido comparativo ponderado com outras supremas cortes ocidentais, pelo menos, parece mesmo querer “encher a fralda” daquilo que jocosamente se diz da “cabeça de juiz”, que por sua vez encontra fundamentos na história das sentenças escatológicas que permeiam a história jurídica brasileira, em especial, quando, nos últimos estertores de seu mandato na suprema corte, dá a Sérgio Moro o status de herói nacional e ao golpe militar de 64 a alcunha de salvação nacional, apoiando-se para esta tese na ideia de uma “possível instalação de uma ditadura comunista”, à época, sobre a qual, ainda que sem qualquer apoio em evidências concretas ou razoáveis, não deveria-se correr o “risco”.
Nem de todo o caos vem a ordem, ou alguma ordem, para ser mais preciso, já que caótico seria um elogio ao “corpus” filosófico do ilustre ministro, que com essas esdrúxulas assertivas finalmente revela a ordem subjacente de seus pesos e contrapesos internos, esta por sua vez marcada pela necessidade intestinal de ser exótico (e de conquistar fama e notoriedade por esta via) e de personalizar uma visão de mundo e de país em uma escala e método antagônicos aos princípios republicanos delineados pela Carta de 1988, a qual nitidamente impôs-lhe um trauma do qual parece não ter se recuperado, e que talvez tenha mesmo sido o ordenador de sua conduta, que a título de exemplo, no passado recente pôs em liberdade um dos mais perigosos e violentos traficantes por questões de formalidade processual, causando um imenso prejuízo ao aparato do estado na medida em que altos recursos são hoje mobilizados para a recaptura, dado que este aparentemente fugiu rapidamente do país, e pelo seu brilhante diagnóstico sobre a atuação do juiz que talvez tenha sido o maior usurpador de direitos fundamentais e não fundamentais de nossa história recente, pelo menos.
Tudo isso para dizer que Hamilton Mourão não habita solitário nestes estranhos tempos onde as reputações são tratadas como fardas e fraldas, ou seja, como objetos de uso temporário, sujeitas a lavagens e descartes sistemáticos como se necessário fosse. O por muitos admirado general é tido como pessoa bem formada, articulado, disciplinado e culto, o que de imediato estabelece um paradoxo com seu perfil político de primeira viagem embarcado nesta nau autoritária e obscurantista que certamente ajudou a projetar, tendo o cardo de vice-presidente como prêmio de consolação a alguém que dificilmente alcançaria esta posição pelas vias civis e partidárias comuns.
De fato, Mourão é dotado de algo que em algum tempo e lugar poderia ser chamado de fino senso de humor, mas que hoje não ultrapassa as fronteiras do simples exacerbar preconceitos, abusar dos falsos pressupostos e abandonar os verdadeiros à própria sorte. Quem viu ou ouviu suas últimas entrevistas e tem uma mínima formação em lógica, história, economia e ciência política pode observar a patética desarticulação entre ideias, valores, objetivos e dos elementos da realidade, curiosamente recheadas de um otimismo cínico, de justificativas que fariam corar um adolescente ainda que inundado de hormônios, e do tal senso de humor que no contexto atual só pode ser percebido como as chacotas que seu chefe propaga quando fala das vítimas da COVID-19.
Ao tentar justificar-se com os princípios da obediência, da hierarquia e de um “patriotismo”, Mourão esquece-se que não está na ativa e que a vida civil não submete-se primariamente a estes princípios, e sua resistência a entender sua função e lugar é sintoma de perfil psicológico. Isto para não dizer de seu desprezo pela soberania nacional na medida em que serve a um governo entregacionista e sabujo do capital internacional mais selvagem em circulação. Suas justificativas em relação à sua submissão sumária, rasa e vergonhosa ao verdadeiro maluco que ocupa o Planalto tentam convencer o ouvinte de que é o caminho a ser seguido, e tenta dizer isso por uma boca sorridente e relaxada, tentando trazer ao interlocutor a sensação de ser um netinho no colo do vovô aprendendo sobre a vida com os ditos em voz doce, amorosa e paciente. Também a título de exemplo, na mesma entrevista dada a Roberto d’Ávila na GloboNews, lamenta as imensas desigualdades que nos definem e adoecem como se o projeto político que abraçou nada tivesse de responsabilidade histórica e atualíssima com o fenômeno, e aprofunda o destrato com sua farda e patente ao se colocar como cumpridor fiel e acrítico das ordens emanadas pelo seu superior hierárquico, olvidando-se do antigo adágio militar fundacional que reza pelo não cumprimento de ordens absurdas.
Fraude também seria elogioso se como adjetivo dos comportamentos que vimos observando por parte daqueles que teriam que primar pela coerência interna de suas proposições e atos. Isto por que até a fraude exige uma arquitetura intelectual e uma metodologia passível de exame e desmonte pelo ferramental lógico, jurídico, filosófico e ético que nossa civilização tenta construir e sustentar. A estrutura do comportamento destas figuras é tão absurda que nos faz sentir como que se areia tivesse sido jogada nos nossos olhos. A cada assertiva, uma rajada, e a cada rajada, a nossa cegueira reflexa e temporária. Parece mesmo não haver ferramenta ou método para desarmar essa gente. O que revela-se nesses tempos estranhos é por demais vil, covarde, cínico e aterrorizante, deixando-nos às vezes com o amargo desejo de tempos ainda mais estranhos como forma de sairmos disso que mais parece um horizonte de eventos dos buracos negros.

Bolsonaro tua hora está chegando

O que mais se pode dizer sobre Bolsonaro que ainda não foi dito? As notícias e publicações começam a se tornar repetitivas, praticamente todos concordam no desastre de sua presidência, na intimidade com as milícias, na inépcia para o cargo, na incapacidade de gerir crises, na incoerência de seus pronunciamentos, enfim um sujeito que perdeu o respeito dos brasileiros.

Por muito menos do que isto, dois presidentes foram afastados, Collor e Dilma. Ambos sofreram processos de Impeachment quando perderam o apoio político que os sustentavam. As razões alegadas eram mera razão para abertura do processo. Condenados já estavam desde o dia Zero. Afastar um presidente no Brasil obedece um processo teatral, não exige a comprovação do cometimento de nenhum crime.

Bolsonaro não teve ainda a abertura de um processo contra ele por que ainda conta com apoio político, crimes comprovados não faltam. A lista de razões para um Impeachment é longa e todo dia se somam novos pedidos. Já faltam gavetas para guardar tanto papel.

Pelo andar da carruagem, não se espera que ele deixe o cargo pela porta da humilhação. Talvez a próxima eleição em 2022 seja a única via de retirar do cargo máximo da nação o pior presidente da história do Brasil. Isto se houverem eleições já que o flerte com as forças armadas segue de vento em popa.

A sociedade brasileira que elegeu Bolsonaro está dividia. Existem os que votaram contra e os que votaram a favor. Entre estes últimos, os que mantém sua adoração e os arrependidos. Neste grupo os que dizem agora votar em Lula e os que dizem votar em qualquer um, menos nos dois prováveis nomes em um eventual segundo turno.

Desde a última eleição que falo em uma Frente Ampla. Aqui em Israel foi o que aconteceu depois das últimas eleições. Os partidos que compõe o novo governo concorreram de maneira independente, mas o resultado mostrou que uma união da esquerda, centro e direita de partidos anti-Netanyahu era possível. Foi graças a perseverança e a capacidade de compreender o momento histórico que seus líderes foram capazes de chegar a um acordo para formar um governo sem o Likud e sem os partidos religiosos.

Depois de 12 anos com um fascista no poder, Israel respira novos ares. Quem está dizendo que o novo primeiro ministro é um extremista de direita e trocamos alhos por bugalhos, não entende nada de política, menos ainda da política israelense. O que acaba de acontecer aqui é histórico em vários sentidos e deve servir de exemplo para o Brasil. Forças políticas antagônicas podem se unir em nome do bem maior, relevar suas ambições ideológicas para que o país possa reconhecer que é possível ser governado por outro líder.

Existe uma geração que não conheceu outro primeiro-ministro que não fosse Netanyahu. Seus seguidores estão em pânico, inconformados. Para muitos deles a ficha ainda não caiu e sua família ainda segue morando na residência destinada ao primeiro-ministro em exercício. Ainda repetem para quem quiser escutar que tiveram a eleição roubada e que vão voltar em breve. Trump deixou discípulos por todo lado.

Os americanos se livraram de Trump. Nós em Israel nos livramos de Netanyahu, falta os brasileiros se livrarem de Bolsonaro. A eleição americana deixou uma lição, o mesmo aqui em Israel. É preciso aprender com elas e escolher o melhor caminho para se livrar desta chaga.

As manifestações, como a programada para este sábado dia 19, são muito importantes e precisam crescer cada vez mais. As entidades civis e os partidos políticos de oposição a Bolsonaro precisam estar afinados para levar cada vez mais manifestantes as ruas. Cada vez ter mais cidades participando e mostrando que o fim de Bolsonaro está próximo e é apenas uma questão de tempo.

O « pas-de-deux » do capitão e Lula

As estratégias eleitorais para a presidencial 2022 se precisam, partido e candidaturas potenciais se posicionam. Por enquanto, a mais clara é a do ocupante do Palácio, que está em campanha desde o primeiro dia de seu mandato, usa e abusa da máquina do Estado e ultimamente vem desafiando a pandemia ao acelerar à frente de seus fanáticos seguidores motoqueiros. Como é sabido de longa data, ele não admite perder, o que só lhe deixa uma opção: vencer custe o que custar. Ou, em bom português, vencer pelo voto ou tentar o golpe. Que não haja dúvidas quanto à determinação do capitão, que a um ano e meio da eleição avança suas peças no tabuleiro e busca encurralar o adversário com vistas ao xeque-mate , usando e abusando de golpes baixos. Se ele vai ter força e cacife para conseguir são outros quinhentos. Mas que vai tentar, isso vai. 
Com 25 a 30% de apoiadores cegos e surdos Jair Messias é um candidato fortíssimo à sua própria sucessão. Tem todas as chances, senão a quase certeza, de estar no segundo turno e então novamente jogar a carta do antipetismo que, a despeito da massa de decepcionados, sobrevive. Apesar das provas de descaso no combate à pandemia colhidas na CPI da Covid  e de sua responsabilidade direta na morte de cem mil brasileiros, o impeachment não avançou, nem avançará enquanto Augusto Aras for o Procurador Geral da República. O relatório da CPI do Senado, com um eventual pedido de indiciamento do presidente, dependerá de seu crivo para seguir adiante. O que ele não dará. Nunca. Aras é tão responsável pela permanência de seu chefe no poder quanto Moro o foi no resultado eleitoral de 2018, ao  tirar Lula do páreo. Descartado de uma eventual indicação para o STF na vaga do ministro Marco Aurélio , que se aposenta em 5 de julho, o PGR busca desesperadamente assegurar um novo mandato no cargo, a ponto de jogar no lixo, de forma descarada, a Constituição, que deveria ser seu livro de cabeceira.  Em defesa dos “amigos do rei”, ultimamente pediu o arquivamento do inquérito sobre os atos antidemocráticos,  a rejeição da ação de advogados contra a lei de Segurança Nacional, que serve aos interesses autocráticos do governo, e agora quer que os juízes do Supremo sejam obrigados a consultar o Ministério Público antes de atuar em investigações, medida cujo primeiro beneficiado seria o ministro do Meio Ambiente, pego em flagrante de cumplicidade de contrabando de madeira extraída ilegalmente. Sua lealdade ao criminoso é admirável. Aras tem se mostrado um escudo intransponível. 
Quem aposta na fragilização do “Messias que não faz milagres” daqui até a eleição se engana. Ele poderá contar com a vacinação, que tanto combateu, e com o crescimento da economia, puxada pelo resto do mundo. A situação portanto deverá ser um pouco melhor e muitos esquecerão todo ou parte do incomensurável mal que ele fez ao país. Os brasileiros não praticam o exercício da memória, como demonstraram ao eleger um sujeito que defende a ditadura e tem por ídolo um torturador. 
Se mesmo assim não for reeleito, hipótese mais provável, ele imitará seu amigo Trump, a quem jurou amor eterno num rompante linguístico em que gastou seu inglês limitado a três palavras : I love you.
Só que Jair não é Donald e Washington não é Brasília. Trump tentou o golpe alegando fraude maciça e reclamando a anulação do voto; contou para tanto com os supremacistas brancos  e outras organizações neonazistas, mas não teve o apoio das forças armadas nem das polícias. O brasileiro fará a mesmíssima coisa : alegará fraude maciça e reclamará a anulação da eleição. Preparando o caminho, já defendeu o fim da urna eletrônica, de longe o sistema mais seguro e transparente, e sua substituição pelo voto em papel, facilmente manipulável. 
A diferença fundamental no entanto está no fato de que o capitão conta com o apoio de ao menos parte das Forças Armadas (que se negaram a punir o general Pazuello por violação das regras militares), das polícias militares de inúmeros estados, das polícias civis e das milícias, que agem a céu aberto tanto no combate ao crime organizado como no apoio político à família presidencial. Esses grupos paramilitares matam indiscriminadamente traficantes, líderes comunitários, políticos de esquerda como Marielle Franco e até crianças. As chamadas forças de segurança, que foram presenteadas com armas ao bel prazer e impunidade, fecham com o capitão.
Quanto às Forças Armadas, recentes episódios deixaram claro que entre a obediência à Constituição, caucionada pelo ex-ministro da Defesa e pelos então comandantes das três armas, e a submissão ao presidente, os quartéis hesitam. 
As cenas que virão a ser filmadas no Brasil pós-eleitoral serão infinitamente mais chocantes que aquelas do Capitólio, em janeiro de 2021. O golpe poderá desembocar num confronto mais amplo e sangrento. A previsão é de que 2022 será um ano violento. 
A cultura autoritária, que estava dispersa após a ditadura, convergiu em direção de Bolsonaro, se organizou em torno do bolsonarismo. É forte e não desaparecerá tão cedo, mesmo que não haja reeleição. 
Para derrotar o fascista adorador da morte e tentar evitar o golpe, o caminho parece ser a formação de uma Frente Ampla, da direita à esquerda, unindo todos os antibolsonaristas. 
Essa estratégia está sendo aplicada com sucesso em Israel, onde se constituiu uma coalisão heteróclita para varrer Bibi Netanyahu, agregando  partidos de extrema-direita, centro, esquerda e até um Partido árabe muçulmano israelense. 
Também na Hungria, uma frente ampla se formou para vencer o direitista radical Viktor Orban, com relativo sucesso. Nas municipais do ano passado, a mais estranha coligação de partidos jamais vista elegeu prefeitos de uma dezena de cidades importantes, inclusive a capital, Budapeste. 
No entanto, a situação nesses dois países governados por hipernacionalistas de direita amigos do capitão (ambos estiveram em sua posse) é muito diferente da brasileira.
Em Israel, o líder centrista Yaïr Lapid, que costurou a união da oposição como uma colcha de retalhos, abriu mão do cargo de primeiro-ministro nos dois primeiros anos do mandato em favor de Naftali Bennett, sionista religioso do partido nacionalista Nova Direita, apesar das diferenças ideológicas entre ambos e do fato de Lapid ter maior número de deputados na Knesset.
Quanto à Hungria, a nova coalisão tem conseguido apresentar candidaturas únicas em todos os níveis . Já está definido que em 2022 haverá um só candidato oposicionista para enfrentar Orban. Hoje, as pesquisas apontam empate.
No Brasil essa estratégia não vinga. Nenhum presidenciável parece disposto a abrir mão da candidatura em prol da união por uma vitória incerta. Pelo menos não no primeiro turno. A recente reaproximação entre Lula e FHC são provas cabais da dificuldade que nos espera. O tucano admitiu publicamente votar no petista no segundo turno e mostrou-se arrependido de não tê-lo feito com Haddad. Mesmo assim, o PSDB apresentará um candidato à presidência, que poderá ser Tasso Jereissati, Doria ou outro que, como os dois primeiros, não terá chance de se eleger. 
No primeiro turno haverá, quando muito, a constituição de federações de partidos de uma mesma família política e não a formação de uma ampla frente antibolsonarista com candidaturas únicas.  As negociações de hoje só serão concretizadas entre os dois turnos, mesmo que a missão seja salvar a democracia.  
No campo progressista, o PSOL se radicaliza, puxa ainda mais para a esquerda em busca do impeachment, sonhando com uma mudança na correlação de forças. Esta estratégia levou à saída de Marcelo Freixo do partido. Ao anunciar sua candidatura ao governo do Rio de Janeiro, ele busca formar ao menos uma aliança dos partidos de esquerda. Missão mais que difícil. 
Ao contrário, o PT quer manter essa correlação, que colocaria face a face Bolsonaro e Lula, com vantagem para o ex-presidente, conforme as pesquisas. Lula conta com seu poder negociador e lança pontes para a direita. Paradoxalmente, esse também é o cenário preferido do capitão, que acredita ainda ser possível capitalizar em cima do antipetismo entre os dois turnos. O « pas-de-deux » é a coreografia mais provável desse balé eleitoral. 
Enfim, Ciro Gomes parece ter se dado conta que não tem nem terá espaço à esquerda. Por isso ataca Lula e o PT, espera ganhar a direita não bolsonarista e entrar na disputa como um candidato híbrido, metamorfoseado em Terceira via. É uma aposta improvável, mas o cearense não tem opção. A direita, também por falta de melhor, ver-se-ia disposta a abrir-lhe os braços. Terceira via é uma falácia.
De qualquer maneira, não veremos no ano que vem Lula e Ciro dividindo palanques, lembrando porém que em política a palavra nunca há muito foi excluída do dicionário.
Assim, tudo leva a crer que a Frente Ampla, se houver, só sairá do papel após o primeiro  turno, com negociações e negociatas de último minuto. Tempo sempre haverá  para uns e outros bandearem para Paris.

Precisamos falar sobre o Antissemitismo na Esquerda

Depois de um artigo publicado a cerca de 20 dias, “Meu amigo judeu”, para instigar o debate sobre o antissemitismo na esquerda, fui mencionado em uma publicação apócrifa no site www.causaoperaria.org.br. O linguajar do autor não deixa dúvidas de que se trata de um pretenso comunista de biblioteca burguês. De operário não tem nada. Aquele tipo que a direita chama de comunista caviar.

O artigo é um festival de clichês que me remeteu aos anos 70. De inicio uma foto do que seriam soldados israelenses prendendo um jovem palestino. Existem milhares de fotos como esta, mas o autor escolheu justo uma que não é o caso. Os soldados em questão não são israelenses, e o preso provavelmente não é palestino. Seria um erro involuntário, mas ele continua errando quando diz que o grupo que administro no Facebook, “Resistência Democrática Judaica” é de sionistas socialistas. Agora já não se trata de erro, mas de interesse na crítica. Na verdade trata-se de um grupo judaico com membros de todo espectro político que em comum são antifascistas e portanto antibolsonaro. Nele existem membros até mesmo antissionistas.

Já de início o autor chama o Estado de Israel de Nazista, uma ofensa inominável a qualquer judeu. Todos nós perdemos familiares no Holocausto. O nazismo pretendeu nos exterminar da face da Terra. Montou uma indústria de morte com esta finalidade que chamaram da “Solução Final”. Israel comete crimes de guerra, mas dizer que se trata de um regime nazista é encerrar qualquer debate viável e civilizado.

Ele distorce minhas palavras em relação as vítimas do recente conflito de Gaza. Usa dos mesmos números que menciono, mas monstruosamente trata as mães que perderam seus filhos de forma diferente. Para ele as mães das 66 crianças palestinas são diferentes das duas mães israelenses. Talvez ele não tenha ouvido falar do atentado de Maalot. Em 15 de maio de 1974, três palestinos da Frente Democrática para Libertação da Palestina se infiltraram vindos do Líbano, tomando de assalto a escola de Maalot, uma pequena cidade ao Norte de Israel. No caminho para a escola os três palestinos mataram duas árabes israelenses, entraram em um apartamento de um prédio e mataram o casal e seu filho de 4 anos. Deixaram o prédio e foram para a escola Netiv Meir fazendo lá 115 reféns, entre eles 105 crianças. O resultado desta ação foi de 25 reféns assassinados, sendo 22 crianças e 68 feridos. Os três palestinos foram mortos pelas forças de segurança. Neste caso, as mães palestinas também eram diferentes das mães israelenses?

A extrema direita israelense tenta sempre desumanizar os palestinos, uma tática que dá ao opressor uma justificativa moral para manter a ocupação. Parte da esquerda faz a mesma coisa com os israelenses, mas neste caso trata-se de uma justificativa moral para expressar seu antissemitismo.

A intenção do autor não foi discutir o antissemitismo de esquerda proposto por mim.

Para ele o Estado de Israel não deveria existir. Para os nazistas não deveriam existir judeus. Percebem a semelhança? Eu utilizei o conflito recente em Gaza para mostrar como os antissemitas na esquerda se aproveitam do conflito para externar seu preconceito. Ele, vestindo a carapuça, se aproveitou do conflito para demonstrar que tenho razão.

Ele desdenha minha solidariedade, como sionista socialista, a causa de um Estado Palestino  e exalta os milhões de árabes que seriam solidários. Um momento de reflexão: além do Qatar, quem mais se preocupa com eles atualmente? O Irã que não é árabe e pensa como o autor, em destruir Israel. A União Europeia que não é árabe, e é a favor de uma solução de dois Estados. Em que país árabe os refugiados palestinos receberam cidadania? Vamos ser realistas, a tragédia palestina está perdendo o trem da história e isto não pode acontecer. Para constar, esta parte doentia da esquerda tem culpa neste processo.

E por fim temos o Hamas. Eu menciono em minha tréplica ao artigo inicial, que o Hamas é um regime totalitário onde não existe o menor respeito aos direitos humanos e que em muitos outros países árabes, não é diferente. Como um bom cidadão do mundo ele concorda com estes fatos, mas na sua ótica, tais desrespeitos são menos importantes no momento, afinal estão lutando contra o inimigo sionista e toda violência é justificável, inclusive contra seu próprio povo em Gaza. Diferentemente dele, eu acho que são parte do problema. O Hamas é uma organização que, diferentemente da Autoridade Palestina, não aceita a existência do Estado de Israel. Sua pretensão é a mesma do Irã, exilar os israelenses, trazer de volta os refugiados palestinos e criar um Estado Palestino em substituição ao Estado de Israel. Ainda assim, temos de encontrar uma maneira de sentar com eles a mesa de negociações.

Dado a um problema de interpretação de texto, ele me acusa de comparar Bibi e o Hamas, como Lula e Bolsonaro. Coisas incomparáveis. Eu concordo, tanto que não foi o que eu escrevi. Não há comparação em meu texto. Na verdade, digo e repito que o recente conflito foi do interesse de Bibi e o Hamas, serviu aos interesses de ambos.

Eu me permito aqui sugerir ao autor do artigo alguns temas para novos artigos: por exemplo, a invasão da Criméia e sua anexação ao território da Rússia. Outro tema , não menos importante para nós de esquerda são os Campos de Concentração na China, ou de Reeducação, como eles preferem, em que milhares de muçulmanos da etnia Uigur são mantidos. São fatos também recentes que parecem não sensibilizar a esquerda em geral e especialmente a parte antissemita, talvez por não envolverem judeus.

Ao contrário desta parte da esquerda, a direita é mais explícita em seu antissemitismo. Não se importa em desfraldar a bandeira nazista, de publicar obras antissemitas como os Protocolos dos Sábios do Sião, de apontar os judeus como donos da mídia internacional, de dominarem o sistema financeiro mundial e há entre eles quem diga, inclusive, serem os judeus os verdadeiros criadores do Covid-19 para ganharem dinheiro com as vacinas. Claro que não soa nada estranho algumas pessoas de esquerda que pensam a mesma coisa, afinal de contas, em matéria de antissemitismo, eles concordam uns com os outros.

Que tal vocês saírem deste mundinho e ajudarem de fato famílias palestinas que necessitam? Ajudem famílias palestinas clicando aqui.

Todo brasileiro é fascista

O Brasil teve um governo progressista por 8 anos com o Presidente Lula. Não se pode dizer que o sistema tenha sido socialista, mas pode-se afirmar sem medo de errar, que não foi nada próximo do neoliberalismo. A ele se seguiu o governo de Dilma Rousseff que foi retirada do poder em um golpe branco dado por ex-aliados.

O golpe não só tirou o Partido dos Trabalhadores do poder, como foi responsável pela ascensão e fortalecimento da operação Lava Jato que culminou na prisão de Lula e na vitória de Jair Bolsonaro nas eleições que se seguiram.

Tanto o golpe, como as ações da Lava Jato tiveram o apoio incondicional da mídia brasileira. Mesmo baseado em fatos de duvidosa comprovação, a Presidente Dilma foi deposta com a ovação das ruas. A Lava Jato foi elevada ao patamar da Operação Mãos Limpas na Itália, seus membros aclamados como heróis e o Juiz Sergio Moro proclamado como o Super-Homem no combate a corrupção e endeusado quando da prisão de Lula, sob os aplausos da população. Não foi necessária provar nada, bastaram convicções.

A seguir vocês  elegeram Jair Bolsonaro como novo presidente e abraçaram o fascismo como sua bandeira. Ninguém poderia dizer que desconhecia as intenções de Bolsonaro. Elas eram todas conhecidas desde há muito. Sua expulsão do exército e sua carreira como parlamentar inepto eram de conhecimento público, assim como o que pensava sobre os negros, mulheres e LGBTs. Todos sabiam que ele é um apoiador da  tortura.

Ainda assim, vocês optaram por colocar no poder uma família miliciana e se orgulham de tê-lo feito. Bolsonaro não existe como presidente, faz o que quer, descumpre as leis, incentiva o uso de medicações perigosas e sem nenhum efeito prático para combater a pandemia, ri dos mais de 400 mil mortos, ataca o poder judiciário e ainda assim vocês o adoram.

Em outros países, políticos eleitos que tiveram atitudes parecidas foram derrubados do poder. Mesmo em meio a pandemia, multidões lutam por seus direitos, mas não no Brasil. Aí as ruas são ocupadas por vocês para apoiar Bolsonaro. O presidente pede, e vocês saem para pedir um golpe militar com ele presidente.

Em todas eleições os mesmo políticos conhecidamente corruptos voltam a ser eleitos. É patético como vocês aceitam com placidez aquela frase de políticos de Repúblicas das Bananas: “Eu roubo, mas faço”. Mesmo aqueles que nada fizeram além de roubar os cofres públicos, são reeleitos.

Por incrível que pareça os abusos policiais são apoiados por vocês. Ações policiais como a do Jacarezinho são admitidas como legítimas. Todo pobre e favelado já foi, é ou será um ladrão. Sendo assim, ladrão bom é ladrão morto. Ninguém se importa com isso e não se vê nenhuma manifestação nas ruas exigindo que os responsáveis sejam punidos.

O Brasil é fascista. O mundo hoje trata o país com desdenho, e por conta do descontrole sobre a pandemia, como um pária internacional. Nenhuma nação quer receber vocês. O seu passaporte se tornou um sinônimo de vergonha.

Aquele país do samba, futebol e carnaval não existe mais. Multinacionais com anos de investimentos no Brasil estão indo embora, e com razão. Elas planejam seu futuro com antecedência e o Brasil não tem nenhum. Hoje todos querem distância de vocês.

Um país que ataca seu principal parceiro comercial e fornecedor de insumos para produção das vacinas contra a Covid-19, não se dá o respeito. Mesmo com a perda de seu principal mentor, Donald Trump, Bolsonaro continua se “pavoneando” como se tivesse alguma relevância no trato diplomático internacional.

O brasileiro é fascista. Um povo que elege e mantém no poder um Jair Bolsonaro, não tem outra denominação que não esta. Vocês o elegeram, vocês o veneram, vocês são o suporte para todos seus devaneios. Ele não teria saído do esgoto de onde veio não fosse com o seu apoio.

O mundo não vai perdoar vocês. Não vai perdoar o que vocês estão fazendo com a Amazônia, não vai perdoar com o que vocês estão fazendo com os povos indígenas, não vai perdoar vocês por assassinarem os que defendem os Direitos Humanos.

Em breve vamos assistir ao surgimento de movimentos que inicialmente vão iniciar o  boicote aos produtos brasileiros para logo boicotarem as universidades, os artistas, os times de futebol e tudo mais que tenha relação com o Brasil. O mundo livre não suporta fascistas.

Não concorda?

Se você, leitor de esquerda chegou até aqui, se acalme. Sei que a esta altura deva estar indignado, afinal de contas você não votou nele, não coaduna com suas ações e muito provavelmente participa de ações contra o seu governo.

Agora você deve fazer uma ideia de como é que nós, israelenses sionistas socialistas, que toda nossas vidas combatemos o fascismo nos sentimos quando você fala de Israel de maneira generalizada. Aqui também combatemos o governo fascista de Benjamin Netanyahu, somos a favor de um Estado Palestino e contra todo tipo de violência.

Quando você acha que Israel está fazendo algo errado, saiba que é muito provável que nós também achamos . Mas nós combatemos o governo, não o país que é composto de cidadãos de todo espectro político.

Assim como existem brasileiros de esquerda resistindo ao governo fascista de Bolsonaro, existem israelenses de esquerda resistindo ao governo de Bibi. Quando Israel é bombardeada, nós também sofremos com isso, somos parte da população. Compreendemos perfeitamente que do outro lado da fronteira o sofrimento é o mesmo.

Não seja mais um antissemita que usa seu discurso antissionista para verbalizar todo seu racismo e seu ódio aos judeus.

Pense nisso na próxima vez que se manifestar contra o conflito. Precisamos de vozes que compreendam os dois lados, que sejam parceiros dos dois povos, que levem as lideranças dos dois povos a buscarem um acordo de paz com justiça. Todos nós deploramos a violência e temos direito a vida.

Finalmente temos um cessar fogo e torcemos para que ele seja permanente. Basta de mortes, basta de terror e destruição. Somos de esquerda, somos antifascistas.