A sombra

Em 336 antes da era comum, muitos políticos e sábios foram cumprimentar Alexandre em Corinto, onde o jovem rei da Macedônia acabava de chegar, e um homem de Sinope chamado Diógenes preferiu continuar deitado ao sol no subúrbio de Craneion. O rei foi até ele, perguntou se precisava de alguma coisa e ouviu o pedido de que saísse um pouco da frente do sol. Na volta, enquanto os companheiros riam, disse-lhes que, se não fosse Alexandre, seria Diógenes, e continuou a ser Alexandre pelos treze anos seguintes, o bastante para levar o seu exército até a Índia.

Segundo a tradição, Platão chamava Diógenes de Sócrates enlouquecido, e os relatos que sobreviveram descrevem um homem que dormia num jarro de barro e que, perguntado de onde vinha, respondia que era cidadão do mundo, isto é, de lugar nenhum. A felicidade dele cabia num jarro e dispensava qualquer cidade, o homem mais poderoso do seu tempo não tinha nada para lhe dar além de sair da frente do sol, e os dois morreram em 323, no mesmo dia, segundo Plutarco, um na Babilônia e o outro em Corinto.

Em 19 de março deste ano, um centro da Universidade de Oxford, o instituto Gallup e uma rede ligada à ONU publicaram a classificação mundial da felicidade, que nos colocou em oitavo lugar entre 147 países pelo segundo ano seguido e pôs os nossos jovens com menos de 25 anos, a maioria de farda ou na reserva, em terceiro na sua faixa de idade. O levantamento cobre justamente 2023, 2024 e 2025, os três anos da guerra, e uma especialista ouvida pelo Ynet admitiu que o resultado pode parecer absurdo e explicou por que faz sentido, o que não me impede de confessar que um povo feliz debaixo de mísseis tem a aparência de um Sócrates enlouquecido.

Na Universidade Bar-Ilan, a pesquisadora Anat Fanti atribuiu o nosso oitavo lugar a laços de família, comunidade, fé e sentimento de pertencimento, e o Escritório Central de Estatísticas confirmou o fenômeno ao encontrar, nos seus dados até 2024, 91,1% de israelenses de 20 anos ou mais satisfeitos com a vida. A nossa felicidade não cabe num jarro, porque é feita da vida em comum que a outra dispensava, e por isso depende da saúde do país.

O avesso dessa felicidade aparece na mesma classificação, que nos põe em 39º lugar entre os povos que mais sentem preocupação, tristeza e raiva, depois do 119º que ocupávamos antes do 7 de outubro. No fim de agosto, às vésperas do ano novo judaico, o Instituto de Democracia de Israel registrou que 59% dos entrevistados consideram bom o próprio humor e 61%, ruim o humor do país, que só 19,5% dos judeus e 16% dos árabes se dizem otimistas quanto à coesão social, o nível mais baixo do ano, e que 81% dos judeus gostam das refeições de família nos feriados. Eu vejo nesses números uma felicidade que se sustenta à mesa de família enquanto o país de que ela depende perde a confiança em si mesmo.

O Instituto também separou por campo político o humor pessoal dos judeus, e o resultado me deixa numa posição desconfortável, porque 30,5% dos que se dizem de direita descreveram o próprio humor como ruim, contra 52% no centro e 63% na esquerda. Eu sou de esquerda, e se a felicidade servisse de atestado de sanidade o meu campo seria o manicômio do país, enquanto a direita assinaria as internações de jaleco branco e bom humor.

O eleitor de direita dirá que a tristeza da esquerda é despeito de quem perdeu o poder em 2022, e acrescentará que, segundo o Instituto de Política do Povo Judeu, 76% dos judeus do seu campo acreditam que Israel vive uma fase de melhora que vai se aprofundar. Se ele me acompanhou até aqui, eu lhe mostro a pesquisa de agosto, que encontrou na esquerda, no centro e na direita uma maioria que considera ruim o humor do país, e em que pouco mais da metade dos seus correligionários vê grande probabilidade de que parte dos derrotados em 27 de outubro recuse o resultado e reaja com força, um temor que alcança 56% dos israelenses.

O mesmo eleitor pode objetar, por fim, que nenhum governo fabrica felicidade e que o oitavo lugar prova que este não a destruiu, e eu concordo com a primeira metade da frase, porque o poder não tem nada para nos dar, e discordo da segunda, porque o levantamento de março nos põe em 107º na percepção de corrupção, um número que desenha a sombra que o Estado projeta sobre nós.

Em 27 de outubro vamos às urnas felizes em casa e desconfiados da vida pública, e o meu voto vai pedir ao próximo governo apenas que saia da frente do sol e deixe de fazer sombra sobre o país de que a nossa felicidade depende.

Gammadion

Na semana passada, caminhei pelas ruínas de Citópolis, a cidade romana de Beit Shean, com um primo querido que veio da Argentina me ver depois de trinta anos, e encontrei uma cruz de braços dobrados assentada no piso de uma cidade cujas colunas o terremoto do ano setecentos e quarenta e nove derrubou e deixou deitadas onde caíram. Três décadas de ausência encolheram diante de uma figura que jaz ali há mais de doze séculos, posta por um artesão que não podia imaginar o dia em que ela seria bordada nas braçadeiras de quem quis nos exterminar.

Os oleiros de Atenas já a pintavam nas faixas dos seus vasos no século oitavo antes de Cristo, e os gregos a chamaram de gammadion porque cada braço repete a letra gama, de onde vem, em português, o nome cruz gamada. Os romanos a encadearam nas bordas dos pisos, os judeus desta terra a desenharam nos mosaicos das sinagogas de Beit Alfa e de Ein Gedi, e na Índia ela ainda se chama svastika, palavra sânscrita para bem-estar. Em toda parte ela queria dizer mais ou menos o mesmo, o sol que volta, a sorte, e a roda das estações, e assim atravessou quase três mil anos, até que um partido de Munique que ainda cabia no salão de uma cervejaria a pôs no centro da sua bandeira, em mil novecentos e vinte. Vinte e cinco anos depois, o desenho continuava igual ao dos oleiros, apenas girado sobre uma das pontas, e fora da Ásia ninguém mais conseguia vê-lo como decoração, porque um símbolo carrega para sempre aquilo que se fez à sombra dele.

A figura do piso de Citópolis voltou à minha lembrança na quinta-feira, vinte e quatro de setembro, quando Benjamin Netanyahu subiu à tribuna da Assembleia Geral enquanto dezenas de delegações saíam, entre elas a do país onde nasci, e convidou com um sorriso os covardes morais que restassem no salão a fazer o mesmo. Eu já esperava alguma performance, porque ele raramente atravessa o Atlântico em setembro sem apresentar algo no palco, e o repertório inclui as plantas de Auschwitz em dois mil e nove, a bomba de desenho animado cortada por uma linha vermelha em dois mil e doze, e o código QR na lapela no ano passado. Desta vez ele tirou um pager do bolso e deixou uma antena Starlink com o presidente da Assembleia para a delegação iraniana, que não estava no salão para recebê-la.

Não queria dizer isto, mas, na minha opinião, sempre que se posiciona ou abre a boca, Netanyahu se parece cada vez mais com Labão, entre todos os personagens da Bíblia. Ephraim Ganor escreveu no Maariv, antes do discurso, que o primeiro-ministro usaria o microfone das Nações Unidas para falar aos próprios eleitores a um mês das nossas eleições.

Não trago a cruz gamada para pendurá-la no pescoço de ninguém, e sei com que facilidade o mundo vira essa comparação contra nós. Trago-a porque Netanyahu conhece tão bem o peso de um símbolo que nesta semana comparou aos nazistas os sequestradores de Entebbe, e porque o discurso de quinta-feira tinha o seu próprio refrão, uma frase que ele fora buscar num laranjal.

O trecho mais bem escrito do discurso se passa nos pomares em volta de Ramla, em junho de mil novecentos e sessenta e sete, quando um rapaz de dezessete anos que terminava o ensino médio nos arredores da Filadélfia voou para casa cinco dias antes da guerra, encontrou o país às escuras, e saiu à procura do irmão entre os paraquedistas acampados nos laranjais. Achou-o no fim de uma fileira de árvores, um oficial de vinte e um anos espantado com a visita, e os dois dividiram um café de campanha até que o mais novo perguntou o que ia acontecer e ouviu de Yoni, depois de uma pausa, que iam vencer porque não tinham outra escolha. Nove anos depois, em Entebbe, Yoni comandou o grupo que invadiu o terminal e foi o único soldado morto na operação. Acredito em cada palavra do relato e reconheço a quem perdeu um irmão desse modo o direito de repetir pelo resto da vida a frase que guardou daquele dia.

O primeiro-ministro exerceu esse direito pelo menos seis vezes num único discurso, do relato de sessenta e sete à última linha, depois de Mark Twain e do versículo sobre a eternidade de Israel, incluído o juramento a um reservista ferido nesta semana. Ao fim, a frase já não descrevia guerra nenhuma em particular e servia de moldura para todas, e molduras assim só comportam histórias que terminam bem. Na versão contada em Nova York, os cento e três reféns de Entebbe voltaram todos para casa, enquanto os registros da operação contam cento e dois resgatados, três mortos no tiroteio do terminal, e uma senhora de setenta e quatro anos, Dora Bloch, levada a um hospital de Kampala e assassinada depois por ordem de Idi Amin.

Os defensores do primeiro-ministro dirão que o que ele descreve é absolutamente verdadeiro, e têm a seu favor um país atacado nos últimos três anos pelo Hamas, pelo Hezbollah, pelos houthis, por milícias no Iraque e na Síria, e pelo próprio Irã, cujos mil mísseis balísticos foram disparados, segundo Netanyahu, contra um território do tamanho de Nova Jersey ou de Sergipe, o menor estado do Brasil. Quem já fez de madrugada o caminho até o abrigo sabe que ali ninguém escolhe nada, porque a sirene não oferece alternativa, e o sete de outubro ensinou a todos nós quanto custa acreditar que o Hamas não fizesse o que sempre disse que queria fazer. Não conheço israelense que ouça a frase de Yoni com indiferença, e não me conformo em vê-la transformada em pedido de voto justamente porque ela ainda nos alcança.

O homem que fundou o partido de Netanyahu recusou essa moldura diante de oficiais do exército em oito de agosto de mil novecentos e oitenta e dois, dois meses depois de mandá-lo ao Líbano. Menachem Begin foi ao Colégio de Defesa Nacional explicar a diferença entre guerras sem escolha e guerras escolhidas e disse que em junho de sessenta e sete também tínhamos tido escolha, que as concentrações de tropas egípcias no Sinai não provavam que Nasser estivesse prestes a atacar, e que era preciso ser honesto conosco mesmos, porque nós tínhamos decidido atacá-lo. Ele considerava aquela guerra legítima defesa no sentido mais nobre e falava para justificar a sua própria, que acabaria por consumi-lo, mas pôs a palavra escolha sobre a mesa com o próprio nome ao lado. Um ano depois, viúvo e com os mortos do Líbano mais pesados do que conseguia carregar, disse aos ministros que não podia continuar e passou os quase nove anos que lhe restavam praticamente sem sair de casa.

A diferença entre Begin e Netanyahu cabe inteira na palavra escolha, porque quem diz que escolheu fica com o peso nos próprios ombros, e quem repete que nunca teve escolha o reparte entre nós, o inimigo, e a história, e sai de mãos livres para não depor diante de comissão alguma. Mesmo quando a guerra não pode ser evitada, a frase de Yoni resolve apenas se é preciso lutar e nada diz sobre como, e quem governa decide esse como todos os dias e, com ele, quem morre e quantos morrem.

Netanyahu exibiu o pager em Nova York como suvenir, com a piada de que o Hezbollah certamente se lembrava daquilo, e o aparelho era parecido com o que tocou em dezessete de setembro de dois mil e vinte e quatro sobre a mesa de uma cozinha em Saraain, no Vale do Bekaa. Fatima Abdullah acabava de voltar do primeiro dia de aula do quarto ano, pegou-o para levá-lo ao pai e ainda o segurava no momento da explosão. O ataque daquele dia matou doze pessoas e feriu perto de duas mil e oitocentas, a maioria no rosto, nas mãos, e no abdômen, e boa parte das vítimas era de terroristas do Hezbollah, mas duas crianças estavam entre os mortos.

Em Gaza o Ministério da Saúde registra quase setenta e quatro mil mortos, número que o nosso governo contesta e que um levantamento independente publicado na revista Lancet considerou abaixo da realidade nos primeiros quinze meses da guerra. Muitos eram terroristas do Hamas, mas não setenta e quatro mil, e o nosso próprio exército falava no ano passado em pouco mais de vinte e dois mil. Do nosso lado a conta começa numa manhã de sábado, com mil e duzentos mortos num país que ele já governava, e ficará em aberto enquanto o governo dele recusar, três anos depois, a comissão estatal de inquérito que mais de setenta por cento de nós pedimos nas pesquisas. Netanyahu nunca assumiu coisa alguma, e quando lhe cobraram o sete de outubro, no começo deste ano, lembrou que o ex-chefe do Shin Bet, o ex-chefe do Estado-Maior, e o ex-chefe da inteligência militar não tinham comparecido à Controladoria do Estado, e ele sim. Esqueceu-se de acrescentar que os três tinham assumido a parte que lhes cabia e deixado os seus postos, enquanto ele continua no dele. Nenhuma dessas mortes cabe numa frase dita às vésperas de outra guerra, e todas passaram, uma por uma, por decisões tomadas por gente que tinha escolha, o próprio Netanyahu inclusive.

Não arrisco um palpite sobre o que o país vai decidir no dia vinte e sete de outubro, mas sei o que gostaria de ouvir de quem vier pedir o meu voto, uma frase tão honesta quanto a de Begin em oitenta e dois. Netanyahu nos pediu que erguêssemos a cabeça, e eu peço a cada israelense que a erga diante da urna nesse dia, porque desta vez nenhum de nós poderá dizer que não teve escolha. A frase de Yoni pertence ao oficial que de fato não tinha escolha debaixo de uma laranjeira perto de Ramla, porque quem está no pomar recebe a guerra já decidida por outros, e por isso mesmo ela não serve a um primeiro-ministro, cujo ofício inteiro é decidir. O artesão de Citópolis não tinha como escolher o que o mundo faria com o gammadion que assentou naquele piso, e Netanyahu repetiu por escolha própria a história do irmão até fazer dela um símbolo, e, como já sabemos, um símbolo carrega para sempre aquilo que se fez à sombra dele.

Der jüdische Selbsthass (O ódio judaico de si mesmo)

Na noite de trinta de agosto de mil novecentos e trinta e três, três alemães dos Sudetos simpatizantes do nazismo dispararam pela janela do escritório do andar de cima onde Theodor Lessing trabalhava, na Villa Edelweiss, a casa em Marienbad em que ele havia se refugiado, e Lessing, que fugira da Alemanha em março e participara naquele verão do Congresso Sionista de Praga, morreu no dia seguinte, aos sessenta e um anos, com a fama de ter sido um dos homens mais odiados da Alemanha de Weimar. Três anos antes, ele havia publicado Der jüdische Selbsthass, o livro que deu forma moderna à ideia do ódio judaico de si mesmo e examinou os casos de seis judeus infelizes, entre eles Otto Weininger e Arthur Trebitsch, os dois que passaram a enxergar no judaísmo a origem do mal do mundo e a alimentar, com a autoridade de quem falava de dentro, o antissemitismo dirigido ao próprio povo. Foi esse livro que pôs em circulação o rótulo do judeu que odeia a si mesmo, ao qual recorremos com uma frequência que deveria nos preocupar sempre que um judeu da Diáspora critica Israel.

O rótulo atravessou quase um século e chegou intacto, e pronto para o uso, em outubro do ano passado, quando o Washington Post publicou uma pesquisa, feita entre dois e nove de setembro com oitocentos e quinze judeus americanos, na qual sessenta e um em cada cem disseram que Israel havia cometido crimes de guerra em Gaza e trinta e nove disseram que havia cometido genocídio, proporção que subia para a metade entre os que tinham de dezoito a trinta e quatro anos. Uma das entrevistadas, Julia Seidman, moradora de Washington de quarenta e dois anos, disse ao jornal que no início Israel não tivera escolha, já que nenhum país poderia aceitar uma ameaça daquele tamanho, e que dois anos depois nada podia justificar o sofrimento a que ela vinha assistindo e que a deixava enojada.

Antes de decidir o que fazer com Julia Seidman, o leitor talvez queira saber que, no mesmo questionário, noventa e quatro em cada cem disseram que o Hamas havia cometido crimes de guerra contra israelenses, setenta e seis disseram que a existência de Israel era vital para o futuro do povo judeu e cinquenta e oito disseram sentir algum vínculo cultural ou emocional com os israelenses, o que significa, como confirma um minuto de lápis na mão, que pelo menos quinze em cada cem entrevistados acusaram Israel de genocídio e o declararam indispensável na mesma conversa. Preferiríamos que esses quinze fossem mais fáceis de classificar, porque o rótulo de Lessing, o do judeu que odeia a si mesmo, nos ocorre antes de terminarmos de ler a reportagem, e porque tem a enorme vantagem de dispensar quem o usa de ouvir o resto da frase do outro.

Não adianta fingir que nunca o usamos, ou que sempre o usamos com justiça, e quando tentei entender por que ele nos vem tão depressa, encontrei o contorno de um sistema que montamos peça por peça, um sistema em que o estrangeiro que critica Israel é antissemita, o judeu da Diáspora que critica Israel odeia a si mesmo e o israelense que critica Israel é traidor, de modo que todo mensageiro chega desqualificado pela categoria antes de dizer uma palavra e nós ficamos dispensados de ouvir qualquer um deles. Enquanto os acusadores eram quase todos gente de fora, o sistema funcionava como defesa, mas quando o acusador é um judeu que chama Israel de indispensável, ou uma mulher que começa concedendo que Israel não teve escolha e termina nauseada pelo sofrimento em Gaza, a desqualificação deixa de proteger quem quer que seja e passa a amputar um pedaço da família de que dependemos, e é diante deles, muito mais do que diante das manchetes hostis que chegam de tantas capitais, que começo a entender que há algo errado na nossa relação com o mundo, porque um sistema incapaz de distinguir Julia Seidman de Otto Weininger já não consegue distinguir ninguém.

Seria desonesto não reconhecer que o sistema nasceu de uma experiência real e que Weininger e Trebitsch ainda têm sucessores, judeus que marcham ao lado de gente que chamou o sete de outubro de ato de resistência e que negam aos judeus o direito de se considerarem um povo, assim como seria ingênuo ignorar que muito do que se diz sobre Israel no mundo vem, desconfio, de pessoas que não se interessariam por Gaza se os soldados não fossem judeus. O leitor que passou os últimos anos descendo ao abrigo no meio da noite tem direito a essa desconfiança, que também é minha, e nenhuma pessoa sensata nos pediria, depois da perda de cerca de mil e duzentas pessoas num único dia, que recebêssemos cada acusação como conselho de amigo. Mesmo esses sucessores, porém, quando se multiplicam, como se multiplicaram nos Estados Unidos desde o início da guerra os grupos de oração que se dizem antissionistas, dizem algo sobre nós, e não apenas sobre si mesmos.

O problema é que o rótulo foi cortado para caber em Weininger e Trebitsch e cai muito mal numa mulher que concede a Israel, antes de qualquer crítica, que não teve escolha, e mesmo nas mãos do próprio Lessing a expressão nunca foi arma, porque ele tratava esse ódio como um fenômeno histórico e psicológico da vida judaica como minoria na Diáspora, uma ferida antes de ser uma culpa, com a compaixão que todo diagnóstico sério pressupõe. Aplicado a trinta e nove em cada cem judeus americanos e à metade dos seus jovens, o rótulo acaba descrevendo uma população inteira em vez de uma patologia, e quando metade dos jovens de uma comunidade recebe o mesmo diagnóstico, o médico sensato começa a desconfiar do próprio instrumento.

Lessing talvez tivesse apreciado, se lhe tivessem dado tempo, mais uma ironia, a de que o homem que deu nome ao judeu que odeia a si mesmo passou os últimos anos de vida sendo tratado pelos patriotas alemães como o alemão que odiava a Alemanha, desde que publicou, em mil novecentos e vinte e cinco, um artigo contra Hindenburg, o marechal de campo que o país venerava como um santo e que, anos antes, tinha sido paciente de seu pai, que era médico, um texto que levou estudantes nacionalistas a cercar suas aulas em Hanôver até que, no ano seguinte, o ministério o afastou delas. Lessing sabia, portanto, por experiência própria, o que acontece quando uma nação ferida conclui que o crítico de dentro é mais perigoso do que o inimigo de fora, e não traço nenhuma comparação com a Alemanha daquela época quando digo que a lição vale para qualquer povo que se sinta sitiado.

O leitor perguntará o que se ganha ouvindo judeus que usam, para descrever a guerra, uma palavra que ele considera uma calúnia, e a resposta mais honesta que tenho é que ouvi-los não nos obriga a adotar o vocabulário deles, boa parte do qual não assinaríamos, mas nos obriga a admitir que muitos deles disseram duas coisas, como Julia Seidman disse duas, e que nós quisemos ouvir apenas uma. Um país que só consegue ouvir a metade hostil das frases de seus amigos acaba, com os anos, cercado apenas de inimigos, que ao menos têm a virtude de dizer uma coisa só, e perde pelo caminho a única crítica que vinha de gente que queria vê-lo durar.

Lessing morreu sem ver os judeus se tornarem maioria em parte alguma do mundo, e provavelmente estranharia que, tendo enfim um país, tivéssemos passado a usar o rótulo que seu livro pôs em circulação contra aqueles que se afligem com o que esse país faz.

Publico este texto um dia depois do Yom Kipur, que, segundo a tradição, expia nossas transgressões contra o céu, mas não as que cometemos contra o próximo enquanto não tivermos pedido perdão às próprias pessoas que ofendemos, e me parece que a tarefa não termina com o toque do shofar no encerramento do jejum.

Oitenta e Quatro por Cento

Somos, com alguma folga, o país mais filmado do mundo, uma nação de câmeras em esquinas, drones sobre telhados e celulares apontados para tudo o que se move, inclusive para muita coisa que faria melhor em não se mover, e é por isso que causa admiração o porta-voz do nosso exército ter respondido, quando lhe perguntaram o que houve no posto de Awarta na manhã de 27 de julho, que a alegação de que soldados retiveram uma ambulância é falsa e que nenhuma denúncia a respeito havia chegado. As duas metades se anulam com perfeita compostura, já que quem não foi informado de nada não tem como julgar a falsidade de coisa alguma. A única câmera que importou naquela manhã estava na mão de um motorista palestino, o que talvez explique a demora do correio.

Nenhuma lei nossa proíbe palestinos de rodar pela estrada sessenta, o que seria escandaloso, e proibir é feio. Proíbe-se apenas que cheguem até ela, o que é discreto, sai mais barato e funciona melhor. A ONU contou novecentos e vinte e cinco obstáculos à circulação na Cisjordânia, dos quais cento e vinte e um existem com a única finalidade de fechar os acessos das vilas àquela estrada, aos quais somamos cento e vinte portões novos apenas em 2025, um a cada três dias, produtividade que nenhuma outra repartição nossa alcançou em qualquer área. Motoristas contam que esses portões costumam ficar trancados entre seis e nove da manhã, para que os filhos dos colonos cheguem à escola na hora.

A ambulância de Bashar al-Qaryuti saiu de Qaryut às seis e meia levando uma mulher de vinte e oito anos, grávida de seis meses, entrando e saindo da consciência, com uma hemorragia que Sabreen Atallah, enfermeira nessas estradas desde 2014, diz nunca ter visto igual. Ele achou trancada a única saída da vila, tentou o caminho de terra entre os olivais e achou trancado o segundo, contornou e chegou a Awarta, onde o portão fechado, é preciso reconhecer, era rigorosamente o mesmo para o carro que ia ao mercado e para o que levava uma hemorragia, imparcialidade que muito nos honra.

Dois soldados mandaram desligar o motor e, quando al-Qaryuti explicou, no hebraico rudimentar que se aprende em anos de postos como aquele, que os aparelhos da paciente funcionavam com a energia do motor, ouviu que calasse a boca. As telas apagaram uma depois da outra, e o último número que Atallah leu antes disso foi oitenta e quatro por cento de saturação. Ela avisou em inglês que a paciente podia morrer, e as armas subiram na direção dela, o que no idioma local se chama restabelecer a ordem. Os documentos foram recolhidos e devolvidos meia hora depois. O bebê nasceu pouco antes do posto e morreu. A mãe chegou ao hospital com três unidades de sangue e uma cirurgia de urgência à frente, e sobreviveu. Ela contou a um jornal que estava escolhendo nomes.

Ninguém ordenou a morte daquela criança, e é aí que a dificuldade começa, porque a crueldade convicta ao menos tem autor, enquanto a distraída se dissolve em procedimento, sobrevive a qualquer investigação e nunca aparece na folha de serviço de ninguém. O rapaz de dezenove anos naquele portão, sem dormir, assustado, com uma semana atrás de si em que colonos armados mataram e ninguém os deteve, cumpria uma ordem que não escreveu. Quem a escreveu tem nome. Depois do ataque de colonos de 24 de julho, que deixou dois israelenses e quatro palestinos mortos, Binyamin Netanyahu determinou uma operação de larga escala, e Nablus, Ramallah e Hebron foram trancadas, de modo que o luto foi de todos e o castigo, como de costume, caiu sobre alguns. Chamamos o arranjo de defesa, uso inventivo de uma palavra bonita, já que ninguém explicou de que exatamente a hemorragia daquela mulher nos defendia.

Nossos bisavós conheciam portões por dentro, sabiam a hora em que abriam, o nome do homem que tinha a chave e o preço corrente do favor, e foi com essa competência amarga que escreveram, em maio de 1948, a promessa de igualdade de direitos a todos os habitantes sem distinção de religião, raça ou sexo. Não escreveram aquilo por bondade. Escreveram porque tinham acabado de ser o carro parado na fila. Setenta e oito anos depois, o que se pedia em Awarta era menos do que qualquer coisa que já nos foi negada. Pedia-se um motor ligado.

Um exército capaz de instalar um portão a cada três dias deveria conseguir abrir um em trinta minutos. Levou trinta e um. Nada neste relato é excepcional, e essa é toda a dificuldade. Tomamos a terra e nos recusamos a tomar os filhos que vinham com ela, e o arranjo funciona tão bem que o dia 27 de julho foi, para quase todos aqui, uma segunda-feira comum. Meus compatriotas podem continuar achando isso normal. Eu me recuso.

O Paradoxo de Helena

“A paz é para as mulheres e para os fracos. Impérios se forjam na guerra.”

É o que Agamêmnon disse ao irmão Menelau, que queria a mulher de volta depois que Páris a levara para Troia, e foi a última frase honesta que alguém pronunciou sobre o assunto. Mil navios zarparam, oficialmente por Helena. Os poetas cantaram a face mais bela da terra, os arautos falaram em honra, e às viúvas disseram que os maridos tinham morrido por amor. Os historiadores, gente menos romântica, duvidam. Troia não guardava uma mulher. Guardava a boca de um estreito, o Helesponto, e quem se sentava naquela margem cobrava do resto do mundo pelo direito de atravessar. Os gregos não cruzaram o mar por um rosto. Cruzaram por uma cabine de pedágio. Helena foi a legenda que a história escreveu debaixo da fatura, e a versão que se leu em voz alta aos que enterravam os mortos.

Três mil anos depois, o truque não envelheceu um dia. Há sempre uma Helena à mão, uma face bela o bastante ou ameaçada o bastante para fazer a ganância parecer romance, ou sobrevivência. Vale perguntar o que de fato se quer na outra ponta da água. Não uma mulher, e não uma nação, mas uma moeda, e por trás dela a coisa mais próxima da feitiçaria que a engenhosidade dos mortais já concebeu, o poder de fazer dinheiro do nada, para sempre.

Houve um tempo em que o dinheiro guardava algum recato. Em 1944, em Bretton Woods, as nações combinaram que trinta e cinco dólares comprariam sempre uma onça de ouro, e que todas as outras moedas ficariam ancoradas ao lado do dólar. Cada nota era uma promessa resgatável em metal, e a promessa segurava a mão de quem imprimia. Funcionou enquanto durou o metal. Vieram então o Vietnã e os apetites da prosperidade em casa, as gráficas despejaram mais dólares do que Fort Knox jamais poderia honrar, e a França, atenta às próprias contas, começou a trocar o papel por barras e a esvaziar o cofre. Numa noite de domingo de agosto de 1971, Nixon apareceu na televisão e anunciou o fim da conversibilidade com o ar de quem remaneja o horário dos trens. Daquela noite em diante, o dólar apoiou-se em dois pilares apenas, a fé e a frota.

A fé precisa de algo em que se firmar, e aqui veio a jogada mais astuta do século passado. Washington e Riad chegaram a um entendimento astuto: o petróleo do mundo seria vendido só em dólar, e, em troca, a superpotência manteria seus navios de guerra entre a Casa de Saud e seus inimigos. A garantia do dólar deixou de ser o ouro no cofre e passou a ser o petróleo sob a areia dos outros, e a marinha que tomava conta dele. Quem quisesse rodar um carro ou girar uma fábrica tinha, antes, de juntar dólares, e os países do petróleo os mandavam de volta comprando a dívida do próprio cliente que estavam cobrando, num esquema capaz de arrancar uma lágrima de qualquer agiota. O círculo se fechava, ouro sem ouro, e girava sozinho.

Os franceses chamaram aquilo de privilégio exorbitante, e o nome era exato. Um país que emite a moeda que todos os demais são obrigados a entesourar pode gastar com uma licença que nega aos outros, acumulando déficits que em qualquer nação comum afundariam a moeda e o gabinete até terça-feira, enquanto o mundo, sedento de dólares, forma fila para comprar a dívida e a chama de refúgio. O padrão de vida estadunidense foi bancado pela sede dos estranhos, e com ele as prateleiras, as garagens e as guerras a um hemisfério de distância. A inflação, quando se mexe, é posta num navio; as quebradeiras chegam em Bangcoc, em Buenos Aires, em Brasília, quase nunca à porta do Tesouro estadunidense. E sobre quem se recusa a jogar paira a única arma que o guardião do dinheiro do mundo dispara sem estrondo, a sanção, o banimento dos canos por onde o comércio respira.

Nenhum império ordenha o planeta inteiro sem que o planeta, mais cedo ou mais tarde, pegue a calculadora. Em 2001, um economista de banco cunhou uma sigla para vender quatro mercados famintos, Brasil, Rússia, Índia e China, e os chamou de BRICs; era um slide numa reunião de vendas, e o autor mal suspeitava ter rascunhado um manifesto. O rótulo pegou. Os quatro sentaram-se como bloco, e atrás deles vieram África do Sul, Irã, Egito, Etiópia, Emirados, Indonésia, até que o truque mnemônico de banqueiro passou a abarcar dois quintos da produção do mundo e metade da sua gente. E o bloco fez a pergunta óbvia, aquela que tira o sono do Tesouro: por que negociar na moeda de um estranho, pagando seu pedágio e obedecendo às suas listas negras, quando se pode negociar na própria? E assim os seus países compram e vendem em yuan, em rupia, em real, e assentam linhas de pagamento que contornam o dólar e contornam o Swift, a rede que transmite quase toda transferência entre bancos de países diferentes, aquela que Washington lê por cima do seu ombro e fecha quando quer castigá-lo. Rússia e China já liquidam quase todo o seu comércio sem tocar num dólar; o Irã vende seu petróleo à China em yuan; e cada barril vendido assim é mais uma rachadura no muro.

E aqui voltamos ao estreito, embora não ao que está no mapa. Todo estreito na história acaba, com o tempo, atendendo por um novo nome; o Helesponto virou os Dardanelos, e os Dardanelos viraram Ormuz. Mas o verdadeiro estreito da nossa era não está em carta nenhuma e não hasteia bandeira alguma. É o dólar, e toda carga da terra, seja qual for o oceano que cruze, precisa passar por ele e pagar o homem que guarda o portão. É essa a passagem que importa, e é essa a passagem sob ameaça.

Por isso o Irã, montado sobre o estreito de Ormuz, não é, no fundo, uma história sobre o perigo nuclear. Deixem-me conceder a esse perigo todo o seu peso, porque sou israelense e não vou fingir o contrário: o governo em Teerã é uma ameaça de verdade, jamais deveria ter a bomba, e o fato de que muito provavelmente já a tem basta para tirar o sono de qualquer um. Tudo isso é verdade, e nada disso foi o que moveu as frotas. O Irã vende seu petróleo em outra moeda e ameaça fechar ou taxar o canal por onde escoa um quinto do petróleo do mundo. O perigo nuclear é o motivo apresentável, aquele que um estadista pode berrar ao microfone para colher aplausos; a fatura em yuan é o motivo verdadeiro, e sobre esse um homem prudente fica de boca fechada. Foi por aquela orla, e não por uma ogiva e não por um rosto, que Israel e os Estados Unidos despejaram fogo sobre o Irã em fevereiro passado, em nome da sobrevivência e da derrubada de um regime. O Líder Supremo foi morto. Ormuz se fechou. E o mundo, estremecendo na bomba do posto, lembrou-se de que toda passagem estreita paga dividendo a quem está sentado na margem.

Se a guerra fracassar, o mundo pode trocar de dono, pois quem for capaz de lacrar aquele canal sem a licença do dólar terá mostrado que o poder de Washington afinal tem limite. O que se disputa em Ormuz não é uma ogiva. É a moeda em que a terra vai comprar sua energia pelos próximos cem anos, e portanto quem paga a conta do conforto, das frotas e das guerras distantes. Uma perda ali não seria uma derrota militar. Seria a aposentadoria de um método de fabricar dinheiro.

E Helena. Onde está ela em tudo isto? Onde sempre esteve, no cartaz à porta do cinema. Israel é a face bela e ameaçada cujo nome empresta respeitabilidade a uma ganância antiquíssima, o pretexto que faz o apetite de uma grande potência passar por cavalheirismo. Isto deveria doer em quem ama este lugar, porque um Israel democrático e justo, um país que briga consigo mesmo em voz alta e conta cada um dos seus mortos pelo nome, nada ganha emprestando o próprio rosto às contas de outra nação, deixando que rapazes de dezenove anos em nossas fronteiras sejam gastos como trocado miúdo numa transação cujo lucro se lança num fuso distante. Disseram-nos que éramos Helena, a beldade que as frotas tinham vindo resgatar. Estamos aprendendo, devagar e caro, que a beldade por quem elas de fato navegam nunca teve rosto de gente, e que o nome de Helena, no fim, pertence ao padrão dólar, o nome radiante pregado numa máquina de fazer dinheiro sem fim. Naquela velha história nunca fomos a rainha atrás das muralhas. Fomos a tropa do lado de fora, os descartáveis, gastos para manter uma moeda em seu trono. A crueldade não está só no combate. Está em lançar o sangue na conta de um e o troco no crédito de outro, e em chamar de amor, ou de sobrevivência, o simples pavor de perder o pedágio. Agamêmnon, fosse o que fosse, nunca alegou que a guerra era por Helena.

E aí está o paradoxo que o nome carrega desde Troia. Toda guerra é justa, pois toda guerra tem a sua Helena. E nenhuma guerra é justa, pois atrás de toda Helena há um pedágio. Os dois veredictos são proferidos sobre as mesmas covas, e os dois valem. O brilho da causa é a única pista. Quanto mais radiante a Helena que uma nação manda à frente, mais escuro e mais sem nome o interesse que ela carrega na retaguarda.

O tutor

Kant saía para caminhar às três e meia da tarde com tamanha exatidão que os vizinhos de Königsberg acertavam os relógios pela passagem dele. Dois séculos e meio depois, é o relógio que me acerta. O aparelho no meu pulso sabe quando dormi mal, sugere que eu respire. O século que prometeu libertar o homem de seus tutores terminou alugando um por vinte dólares mensais, e ainda agradecemos a gentileza.

O iluminismo, dizia o velho professor, era a saída do homem da menoridade de que ele próprio tinha culpa, a coragem de usar o entendimento sem a direção de outrem. “Sapere aude”. Ousa saber. A proposta era simples e escandalosa, e custou caro a quem a levou a sério. Condorcet, que escreveu sobre a perfectibilidade infinita do espírito enquanto se escondia da guilhotina, morreu numa cela da mesma revolução que havia saudado como aurora da razão. O projeto de emancipar o homem sempre teve esse detalhe incômodo, o de devorar os primeiros crentes.

Pois o projeto amadureceu e mudou de endereço. Os herdeiros do século dezoito moram hoje na Califórnia e oferecem como conveniência aquilo que Kant exigia como coragem. E a oferta funciona tão bem que nos dispensa do exercício.

Esta semana perguntei à máquina que carrego no bolso quem tinha escrito certa frase sobre autômatos como herdeiros do iluminismo. Ela confessou que não sabia ao certo. Listou hipóteses, marcou cada uma com o grau de dúvida correspondente, avisou onde não passava de palpite. Num detalhe, errou. Apontei o erro, ela agradeceu, corrigiu na hora e anotou a regra para não tropeçar duas vezes na mesma pedra. Fiquei um instante comovido. Fui tratado como adulto por um software, e o software se deixou ensinar por mim. Há anos não recebo de um governante uma resposta com essa honestidade, e há ainda mais tempo não vejo um deles aceitar correção sem tratar quem o corrige como inimigo.

A frase que eu buscava sustentava que a automação extrema é a culminação do projeto racionalista do século dezoito. Descobri depois que a frase, tal como eu a guardava, não tem dono. A tese tem. Pertence ao ensaísta francês Éric Sadin, que em 2018 publicou A inteligência artificial ou o desafio do século e ali descreveu o regime da verdade algorítmica, a velha razão emancipadora reduzida a um cálculo que decide por nós. O iluminismo apostou tudo na razão como caminho da liberdade, e a aposta venceu com tamanho excesso que a razão virou técnica, a técnica virou produto, e o produto aprendeu a pensar sem pedir licença ao pensador. O século das luzes queria nos tirar da menoridade. Seu herdeiro mais talentoso nos devolve a ela com respostas instantâneas, e a maioria aceita sorrindo. Kant diria que a culpa, outra vez, é inteiramente nossa.

Dias depois assisti a uma aula de três horas do neurocientista brasileiro Miguel Nicolelis. De Nicolelis roubo sem cerimônia um conceito. Ele chama de Brainet a abstração coletiva capaz de pôr milhões de mentes em sincronia, a ideia comum sob a qual uma multidão passa a agir como um único organismo, seja ela uma fé, uma bandeira ou uma promessa. E não se trata de metáfora de palestrante. Antes de levar a palavra à história, ele a provou em laboratório, conectou cérebros de ratos e de macacos em rede e os viu resolver juntos tarefas que nenhum resolveria sozinho. A história das civilizações, sustenta ele, é o embate entre essas redes mentais. Roma ficou de pé enquanto a ideia de Roma convenceu. Quando as legiões começaram a falhar, um vírus informacional novo, a mensagem cristã, ofereceu esperança aos miseráveis e refez o império por dentro.

Vivo num país que é filho direto daquele século e que talvez seja a Brainet mais deliberada da história moderna. Israel foi imaginado em panfletos, votado num congresso em Basileia, debatido em jornais antes de existir em qualquer mapa. Herzl acreditava que a razão pública podia inventar uma nação, e inventou. Gente que não dividia língua nem chão passou a dividir uma abstração, e a abstração virou Estado, com hino, moeda, exército e algoritmos que calculam em milissegundos a parábola de um míssil sobre o norte de Israel.

É essa rede que o atual governo desfaz, fio por fio, com uma diligência que nega a tudo o mais. Mil dias se passaram desde a manhã mais atroz da nossa história sem que se aceitasse uma comissão estatal de inquérito. Uma comissão de inquérito é o instrumento com que uma nação sincroniza a própria memória, fixa uma versão comum do que sofreu e de quem falhou. Adiá-la é manter o país dessincronizado de propósito, cada tribo com a sua verdade, cada verdade apontando para a tribo ao lado. O gabinete desafia a Suprema Corte como quem ignora um vizinho inconveniente, e remove assim o último nó que obrigava todos os outros a conversar. O atual governo não usa a razão. Governa por instinto de sobrevivência e a combate onde quer que ela apareça, porque ela faz perguntas, exige respostas, e toda resposta honesta ameaçaria o poder.

Há nisso uma crueldade distraída e uma hipocrisia. Os mesmos que discursam sobre a inteligência artificial como futuro da nação tratam a inteligência natural como estorvo e cortam o oxigênio das universidades. Nossa democracia, essa senhora que já respirou melhor, observa tudo da varanda, e ninguém se lembra de lhe medir a pressão.

Kant temia os tutores que nos poupam do trabalho de pensar. Não previu que o último deles nasceria da própria razão, nem que haveria governos dedicados a nos poupar do trabalho de pensar juntos. Em Jerusalém, entre os que mandam, saber segue proibido, e a única tarefa executada com pontualidade prussiana é a demolição da ideia que um dia nos ensinou a caminhar juntos.