Israel, Palestina e minha resposta ao meu amigo não judeu

Caro Martonio Mont’Alverne Barreto Lima, antes de tudo, muito obrigado por sua resposta ao meu artigo “Meu Amigo Judeu”, publicado no Brasil 247. É sempre um prazer conversar com alguém que antes de tudo procura mostrar o que temos em comum, e depois apresentar o que discorda. Tudo de maneira respeitosa, e mesmo assim contundente.

Faço também questão de dizer que nós os dois, apesar dos inúmeros casos citados de falta de manifestações da esquerda, ainda estamos longe de mostrar tudo o que acontece e fica restrito a poucas linhas de um jornal, ou em sites que precisam ser acessados por quem se interessa pelo que verdadeiramente acontece em nosso planeta. Infelizmente a maioria destes tristes episódios da vida real não transita nas redes sociais.

Concordamos plenamente de que Bibi e o Hamas são um obstáculo para a paz. De que se deve criticar as atitudes do governo israelense com relação à ocupação e ao tratamento desigual que dá aos árabes israelenses. Da mesma forma o tratamento que o Hamas e o mundo árabe em geral, dá aos LGBTs e tantas outras minorias.

Eu estou ao lado da esquerda que critica Bibi desde sempre. Por tudo que ele fez e principalmente pelo que deixou de fazer. Me é trágica a visão da situação em que nos encontramos, especialmente sabendo que a violência traz mais violência e o ciclo se renova a cada par de anos. Não discordo em nada. Saliento ainda que mesmo tendo sido o Hamas o responsável por este último ciclo com o lançamento de foguetes contra Jerusalém, não concordo com o uso desproporcional da força. Mas que fique claro que a dor da morte, da perda de entes queridos é a mesma dos dois lados da fronteira. As lágrimas derramadas pelas mães palestinas são iguais as lágrimas derramadas pelas mães israelenses.

Em nenhum momento do meu texto escrevi que toda a esquerda é antissemita. Jamais diria uma coisa destas porque não é verdade. O que eu disse e reafirmo, é que parte da esquerda é antissemita. Infelizmente o preconceito é um flagelo humano, independe de ideologias e abrange todo o espectro político.

Eu o convido, caro Martonio a uma simples reflexão. Vamos imaginar, apenas para fins desta conversa, que Israel não existisse, aliás que nunca existiu. Concordamos que a esquerda silencia, ou quase não se manifesta contra as tragédias humanas que acontecem ao redor do mundo. Neste caso seria correto supor então que não existiriam mais manifestações contra Israel? Sim e não. Explico: não contra Israel que nesta nossa reflexão não existe, mas parte da esquerda continuaria se manifestando contra os judeus que “querem dominar o mundo, que dominam a economia mundial, a imprensa internacional” etc.

Mas então vamos um passo adiante e vamos imaginar que não existissem judeus também. Então, sim, o silêncio seria quase completo. O problema nunca foi Israel, o problema são os judeus. A isto eu chamo antissemitismo da esquerda.

Agora dentro deste mesmo quadro alguém poderia achar que existiria um Estado Palestino. Ledo engano. Se não existisse Israel, aquele território seria parte da Jordânia, da Síria ou do Egito. Talvez estivesse dividido entre eles. O mesmo que acontece com os curdos e o Curdistão.

Voltando à realidade eu creio que parte da esquerda que se manifesta de maneira antissemita, o faz pela simples razão de que Israel é um Estado Judaico. Tire os judeus da equação e eles passam a fazer parte da maioria da esquerda que faz ouvidos moucos às tantas mazelas humanas que já mencionamos. Outra parte faz as críticas certas e com razão sobre o que acontece aqui.

Eu hoje estou com 63 anos. Sempre militei na esquerda. Trafeguei sem problemas nos mais diversos fóruns antissionistas. Tenho o bom senso de diferenciar um antissionista de um antissemita. Já fui alvo de ataques dentro da comunidade judaica em discussões sobre isso. Já me acusaram de traidor, de antissemita, de anti-israelense, esquerdista e me chamaram de tudo que possas imaginar. Ser de esquerda na comunidade judaica não é fácil. Por outro lado, parte da esquerda me chama de imperialista, de assassino, de genocida, sionista. Ser judeu na esquerda não é fácil. Da direita não chegam menos desaforos.

O fato é que sempre fui um sionista socialista e aprendi a conviver com isso. Vivi o socialismo no Kibutz (fazendas coletivas) e hoje vivo na cidade. Não compactuo com o sionismo religioso, nem mesmo com o sionismo da direita. Algo muito parecido com o Peronismo na Argentina. Como se sabe, lá sempre existiram Peronistas de esquerda, de centro e de direita. Ser antiperonista lá é quase como ser anti-Argentina.

Nós, judeus sionistas socialistas somos a linha de frente na luta por um Estado Palestino. A nossa voz é necessária, é o contraponto às ambições das facções fascistas da sociedade israelense que desejam anexar todo o território ocupado.

Eu acredito que ninguém melhor que um negro para me explicar o que é o racismo. Ninguém melhor que um homossexual para me explicar a homofobia. Assim sendo, ninguém melhor que uma mulher para me explicar o que seja a misoginia. Por que seria diferente com relação aos judeus? Por que não pedir a um judeu que explique o que é antissemitismo? Por que as pessoas se acham no direito, e digo isso sabendo que muitos o fazem de boa vontade, de me dizer o que de fato é uma agressão à minha condição como judeu e o que é de fato uma agressão restrita a Israel? Acham realmente que depois de todas as perseguições, de todas as tentativas de sermos varridos do mapa, do Holocausto, chegamos até os dias de hoje sem saber quem é um antissemita?

Meu querido Martonio, nunca vais escutar de minha pessoa que toda crítica a Israel é antissemitismo. De fato, seria muito comodismo e uma falta de bom senso de minha parte. Sempre fui muito cuidadoso neste sentido. Tenho mais de 45 anos de militância nas costas para saber que quando estamos diante de uma pessoa que odeia judeus, se comporta como antissemita, fala como antissemita, ela é antissemita. Simples assim.

Tenho um amigo de infância que faz parte da ABJD e nutro o maior respeito pela instituição e seus membros. Sei que ali ao seu lado se encontram pessoas progressistas, muitas de esquerda com alta envergadura intelectual e uma enorme preocupação com o Brasil, sua gente, suas instituições e a democracia. Apreciei muito suas palavras e agradeço muito por ter nos colocado na posição de dialogar.

O Brasil247 dá não só a mim, como ao meu amigo e companheiro Jean Goldenbaum, também um judeu sionista socialista a oportunidade de publicar nossos textos no portal conhecendo nossa vida de lutas por um mundo melhor. O Jean inclusive possui um programa na TV247. Invariavelmente recebemos comentários antissemitas e até de baixo calão de parte de leitores. Todos se dizem de esquerda, humanistas, progressistas e alguns até pedem o nosso banimento. Não estou me referindo a comentários com sugestões, cumprimentos, discordâncias, críticas etc. Algo normal para se ler em relação ao que escrevemos e que todo autor de um texto precisa receber. Estou falando de ataques virulentos e às vezes contendo ameaças a ponto de solicitar que sejam retirados. Isto faz do Brasil247 um portal antissemita? Claro que não.

Não podemos tapar o sol com a peneira e acreditar que toda a esquerda é de paz e amor. O preconceito também existe do lado de cá. Quem transita nas redes sociais conhece bem isso. Mulheres são assediadas em grupos de esquerda. Homossexuais são humilhados em grupos de esquerda. Negros são maltratados em grupos de esquerda. Porque seria diferente com os judeus, não é verdade?

Bem meu caro amigo, mais uma vez obrigado por sua resposta a minha instigação. Fico muito honrado com o que escrevestes e em saber que concordamos na maioria das coisas, podendo respeitosamente discordar de outras. Isto nos faz pensar e mostra que o assunto não se esgota nesta troca de textos, podendo ser discutido honestamente quando cada um percebe qual é a percepção do outro para o tema e pode, mesmo que por alguns instantes, se colocar no lugar dele.

 

Bibi e o Hamas, mais unidos do que nunca

Mais uma vez a violência explodiu em Israel. Desta vez o conflito começou em Jerusalém e arrastou o resto do país e Gaza com ele. O que aconteceu agora, diferente das outras vezes é que estivemos muito próximos de ter um governo sem o Likud e seus aliados religiosos.

Os problemas com Gaza são conhecidos. O Hamas governa a região e diferentemente da Autoridade Palestina que governa a Cisjordânia, não aceita a existência do Estado de Israel e se compromete com a sua destruição para a criação do Estado da Palestina.

A cada par de meses o Hamas, ou a Jihad Islâmica, lançam esporadicamente foguetes contra Israel. De tempos em tempos a coisa sai do controle e temos um conflito de maiores proporções, como em 2014.

O ano passado tivemos o verão dos balões incendiários jogados contra Israel, antes disso, as manifestações diárias na linha de fronteira com dezenas de palestinos mortos. A crise com Gaza é constante e a fronteira abre e fecha a todo momento. Israel mantém o território como uma grande prisão a céu aberto.

Israel até agora tinha evitado uma escalada maior de violência, mesmo diante de disparos de foguetes por parte do Hamas ou seus aliados. As respostas aos disparos eram pontuais contra postos de observação e alvos sem grande importância. De repente tudo mudou. Estamos vendo o desenrolar de um novo conflito de grandes proporções.

Para se compreender como chegamos a este ponto é preciso voltar um pouco no tempo. Israel depois de 4 eleições em 2 anos, não consegue formar um governo estável. A proporção de forças de direita e esquerda não permitem. A direita tem mais votos, mas não se acertam entre eles. Bibi criou tantos desafetos que eles, junto com a esquerda, acabam formando um bloco que não permite a Bibi constituir um governo.

Desta vez, ele bem que tentou, mas foi incapaz de juntar uma maioria de pelo menos 61 apoiadores. Precisava incluir um partido de extrema direita radical e obter o apoio de um partido árabe para chegar a 61 mandatos. Algo como tentar misturar água e óleo de soja. Não conseguiu e teve de entregar a incumbência para seu inimigo político, Yair Lapid.

São três partidos de direita que se tornaram desafetos do Likud de Bibi. O Israel Beiteinu de Avigdor Liberman com 7 mandatos, Tikvá Chadashá de Guidon Saar com 6 mandatos e o Iemina de Naftali Bennett com 7 mandatos.  Os dois primeiros prometeram aos seus eleitores, antes das eleições, que não se sentariam com Bibi. O terceiro prometeu aos seus eleitores, antes das eleições, que não se sentaria com Yair Lapid, mas que também não desejavam sentar com o Likud.

Ao receber do presidente a tarefa de tentar formar um governo, Lapid foi em busca de parceiros. Os partidos tradicionais de oposição como o Avodá e o Meretz fecharam com ele. O Kachol Lavan de Gantz também. Isarel Beiteinu e Tikvá Chadashá também se somaram. Faltava o Iemina de Bennett que foi contemplado com a indicação de se tornar Primeiro Ministro por dois anos, cedendo o lugar depois para lapid. Contudo, somados todos os mandados, Lapid chegou a 58. Faltavam pelo menos mais 3.

Começaram as tratativas com o partido Árabe Raam de Mansur Abaas que até pouco tempo fazia parte da Lista Árabe Unida, com seus 4 mandatos. Lapid tratou de aproximar Abaas de Bennett e tudo indicava que o Raam apoiaria o governo de fora em um esquema assinado entre as partes. Os cargos e ministérios já estava sendo divididos e a formação do novo governo era coisa de dias.

Enquanto isso Bibi incitava seus apoiadores a pressionarem Saar e Bennett para não aceitarem fazer parte de um governo de “esquerda”, como são chamados qualquer um que não seja do Likud. Manifestações em frente as casas dos parlamentares eleitos se tornaram uma rotina. Um deles eleito pelo Iemina cedeu e anunciou que não votaria a favor do Governo da Mudança. Ainda assim, com o apoio da Abaas era possível formar a coalizão.

O que vai acontecer a seguir pode parecer uma teoria conspiratória, mas quem conhece Benjamin Netanyahu, sabe que do que ele é capaz para se manter no poder. Bibi é conhecido como um gênio na arte da política, ótimo em prometer, péssimo em cumprir. Não é por nada que ele sobrevive há cerca de 20 anos como primeiro-ministro.

Este ano o final do Ramadan coincidiu com o Dia de Jerusalém, uma comemoração pela unidade da cidade e sua indivisibilidade. Normalmente uma festa com paradas e manifestações nacionalistas xenófobas levadas a cabo pelos partidos de extrema direita e seus apoiadores.

Pouco antes do Ramadan, jovens árabes de Jerusalém começaram a postar no Tik Tok, vídeos onde cometiam algum ato violento contra um judeu, ou grupo de judeus. Empurrões, tapas na cara, derramamento de café, tudo valia para aparecer no aplicativo e logo estes fatos começaram a esquentar os ânimos entre jovens judeus.

A festividade do Ramadan dura um mês quando os muçulmanos jejuam durante o dia. A noite uma janta comemorativa depois das orações e tudo se repete nos dias seguintes. Em Jerusalém as orações são feitas principalmente nas Mesquitas do Monte do Templo. Após a janta, as pessoas se reúnem para confraternizar e não foi diferente em Jerusalém. Porém agora, a polícia começou a intervir chegando a invadir o Monte do Templo com toda violência típica de qualquer polícia do mundo.

Ao mesmo tempo, um longo processo de desocupação de 4 casas no bairro árabe de Sheick Jarrad, em Jerusalém Oriental, chega ao final com a decisão a favor dos demandantes. Sem entrar no mérito, famílias judias moravam e tinham a propriedade das casas neste local antes de 1948. Com a guerra de Independência em 1948, elas foram expulsas e famílias árabes as ocuparam. Em 1967 Israel retoma este território e uma lei israelense passa a aceitar que judeus que possuam certificados de propriedade de terras nestes territórios, possam retomá-los. Cidadãos árabes israelenses que vivem em Israel e foram expulsos de suas casas em Yafo, Tel Aviv, Haifa etc, no mesmo período, mesmo possuindo os certificados de propriedade, não podem pedir a retomada delas.

Para colocar mais gasolina onde já havia fogo, grupos nacionalistas extremistas resolvem se manifestar em Jerusalém e o partido Kahanista monta uma barraca na rua em frente ao local do despejo eminente. Para coroar, a famosa Marcha das Bandeiras é liberada, desde que não passe pelo portão de Shchem na Cidade Velha. Esta marcha lembra em tudo a Marcha de Orange em Belfast na Irlanda, quando grupos protestantes passam por bairros católicos em pura provocação.

O tribunal israelense resolveu adiar a ação de despejo e os kahanistas foram atacados a pedradas e expulsos do local. No entanto, no Monte do Templo, no local das Mesquitas a polícia continuou agindo chegando a invadir El Aqsa atrás de manifestantes.

Tudo o que está acontecendo, tem uma ação da polícia claramente mais violenta contra os grupos de manifestantes árabes. Ela passa a agir de maneira displicente. Parece que a ordem é deixar acontecer e se envolver minimamente quando se trata de judeus contra árabes. Quando se trata do oposto, agir com todo o rigor da lei.

Então o Hamas chega para completar o quadro de violência. Intima Israel a retirar a polícia do Monte do Templo, ou aguentar as consequências. Ao final do ultimato, cumpre o que prometeu e lança a primeira saraivada de foguetes contra Israel, escalonando a violência e acendendo o pavio do conflito.

Os foguetes atirados pelo Hamas são dirigidos as cidades israelenses, ou seja, para matarem civis. Eles têm uma autonomia de quilômetros antes de caírem, não possuem um alvo fixo. O sistema de defesa israelense é capaz de barrar 90% do que é disparado. Os que passam, na maioria das vezes, caem em campos abertos, mas alguns atingem seu propósito. O disparo destes foguetes constitui crime de guerra.

Israel por sua vez também ataca cidades. Com a desculpa de que algum morador é membro do Hamas, ou simpatizante, todo o prédio onde ele reside é destruído. Antes do bombardeio os moradores são comunicados para que deixem o local. Israel já derrubou pelo menos cinco prédios altos deixando centenas de famílias desabrigadas. Isto também constitui crime de guerra.

Bibi a tudo assistia e foi premiado com sua ação belicosa. O Raam se retirou das negociações enquanto durar o conflito e agora Naftali Bennett também deixou as negociações para formação do governo e se reuniu novamente com Bibi. Por enquanto, nem Gantz e nem Saar aceitaram se juntar a ele. Tudo leva a crer que vamos ter novas eleições em novembro.

No entanto, uma outra violência eclodiu em Israel, muito mais destrutiva e nunca vista antes. Nas cidades de população mista de judeus e árabes, grupos de jovens passaram a se enfrentar diariamente. Linchamento, apedrejamento e incêndios de automóveis, casas e sinagogas acontecem sem que a polícia seja capaz de impedir. Reservistas foram convocados para tentar conter os ânimos, sem sucesso até aqui. Esta nova ferida será de difícil cicatrização.

Toda esta violência favorece diretamente a Bibi e ao Hamas. Bibi porque conseguiu impedir a formação do Governo da Mudança, e o Hamas que se destaca como o defensor de Jerusalém e do Estado Palestino, enquanto a Autoridade Palestina permanece longe de intervir no conflito.

Obviamente que este artigo não tem a pretensão de explicar isoladamente tudo o que está acontecendo. É tão somente a opinião de um observador dos fatos mostrando a realidade sob a minha ótica e a minha percepção dos acontecimentos.

Toda violência atrai mais violência. Enquanto Bibi e o Hamas se deleitam em alcançar seus objetivos políticos de poder, os dois povos estão pagando a conta. A crueldade acontece de ambos os lados. Nenhum lado respeita a vida de civis.

Em 3 dias já fui 5 vezes para o abrigo quando as sirenes de aviso de ataque de mísseis tocaram. Quando ela começa a tocar, temos 1,5 minuto para nos abrigar. É o tempo para a queda do foguete. Devemos permanecer 10 minutos no abrigo para ter certeza de que é seguro sair.

Em Gaza o Hamas não construiu abrigos para a população. Eles sabem que Israel não bombardeia diretamente os civis, e as mortes acontecem como eventuais efeitos colaterais. Aparentemente, o dinheiro é investido somente na fabricação de foguetes para matarem civis do outro lado da fronteira.

Espero que esta sandice termine o quanto antes. Que Bibi não consiga formar nenhum governo, mesmo nas próximas eleições. E que o povo palestino perceba que o Hamas não está trazendo nada de bom para eles.

Somos todos seres humanos. Já foram mais de 100 mortes até agora, incluindo mulheres e crianças. Basta de violência.

Tomara possamos conviver em paz com um Estado de Israel e um Estado Palestino lado a lado em um futuro próximo.

 

Novamente o velho

Há certas coisas que parecem mesmo não quererem evoluir. As cenas brutais do conflito Israel-Palestina repetem-se mais uma vez com um quase cânon histórico, um pesadelo repetitivo, um refrão de um mau e inacabado poema humano.
A imutabilidade de sua forma e conteúdo reflete invariavelmente a rigidez da estrutura subjacente que no plano do indivíduo chamaríamos de neurose no modelo freudiano de estudo do inconsciente. No modelo coletivo, embora o termo neurose fosse difícil de aplicar, certamente a análise baseada nos mitos fundadores dessas duas sociedades certamente se aplica.
A história das nações em geral traz no seu passado às vezes não tão longínquo cenas semelhantes e estruturas de pensamento e ação dentro desse padrão. Será difícil encontrar um país moderno que não tenha passado por conflitos das mais variadas formas físicas e temporais, com as mais variadas formas de interferência externa ou como frutos de conflitos internos mal ou não resolvidos. Voltando ao plano do indivíduo, a prática médica nos ensina que os conflitos internos mal sanados levam os indivíduos à doença, à disfunção, e às vezes a desfechos violentos sejam eles auto-inflingidos ou hetero-inflingidos, traduzidos na realidade como sofrimento pessoal, automutilação e eventualmente suicídio por um lado, e por outro lado, as cenas horripilantes que afrontam a dignidade de nossa espécie e que recheiam o noticiário dioturnamente envolvendo feminicídios, homicídios, infanticídios e ataques em massa a escolas e outros agrupamentos de vítimas escolhidas pelo seu peso simbólico e capacidade de gerar terror.
As sociedades, assim como os organismos humanos, adoecem seguindo uma somatória de modelos individuais de patologia, ação e dano. A atual pandemia é um bom modelo de estudo. Talvez metade das mortes pelo coronavírus seja causada por um sistema imunológico disfuncional, onde a “turma do deixa disso” falha ou a turma da “tropa de choque” não tem medida de ação, reproduzindo fielmente os fenômenos do macrocosmo social, seguindo um modelo quase espelho.
A etiologia do conflito Israel-Palestina é de compreensão difícil pela sua complexidade que talvez derive de um sem fim de narrativas em disputa, todas aparentemente válidas, que exigem a resolução de um paradoxo que confronta o ínfimo tamanho do território em que se dá com a significância simbólica que toma nossas almas em mais que óbvia desproporção se comparado com processos de territorialidade, sofrimento e dano infinitamente maiores.
Infelizmente essa complexidade não recebe o devido investimento intelectual por parte de setores da sociedade que terminam por formar juízo por um conjunto de valores carente das devidas ponderações contextuais que deveriam ser aplicadas. Por exemplo, Israel é acusado de ser “genocida” sem se considerar que a população palestina só cresce incessantemente desde o início do conflito em 1948, e também sem se considerar por exemplo, que fosse a guerra de 1973 perdida por Israel teríamos certamente uma guerra de extermínio com medidas reais de genocídio e destruição.
Que Israel e seus últimos governos cometem erros graves na sua política para o conflito é inegável e constrangedor para judeus como eu, que enxergam a existência desse estado como um resgate histórico e simbólico que poderia ter seguido outros caminhos. Mas a grande questão em curso atual é que não foi Israel o único a cometer erros nessa condução, e de um lado, pelo menos, todas as narrativas excluem do radar as brutais disfuncionalidades da sociedade palestina que sustentam no poder, através de meios que aqui consideraríamos ilegítimos, um aparato bélico e um sistema de governo corrupto e que preocupa-se apenas com o status quo em detrimento dos legítimos interesses de seu povo.
O olhar brasileiro, em especial, o da esquerda brasileira sobre o conflito Israel-Palestina poderia se enriquecer pelo estudo profundo das raízes dos conflitos internos brasileiros que levou à eleição de Jair Bolsonaro e que não obstante o amplo espectro de crimes e genocídio praticado não sofre deposição ou sanção minimamente significativa. Outros conflitos crônicos e de territorialidade infinitamente maior, como o recente massacre em Jacarezinho também oferecem oportunidade para uma reflexão sobre como esses fenômenos são difíceis e complexos em sua resolução, estando seus vetores profundamente arraigados em nossa sociedade, desde a viela da comunidade periférica até as mais altas esferas de poder, institucional ou não.
Como judeu de esquerda, confesso-me também constrangido pela postura de setores dos diversos partidos de esquerda brasileiros frente ao conflito Israel-Palestina, que abraçam uma narrativa unilateral sem qualquer ponderação ou crítica sobre os métodos de instituições como o Hamas, Hezbollah e suas conexões externas com outras nações e grupos que explicitamente pregam “apagar Israel do mapa”. Ou, que deliberadamente abraçam a tese indefensável de “extermínio” do povo palestino, que se dotada de mínima realidade seria levado a cabo com facilidade e rapidez entorpecedoras. Deveria sim a nossa esquerda recorrer à sabedoria de quem esteve lá de fato e dedicou-se a estudar de forma isenta a realidade como o deputado Jean Wyllys, ou mesmo o Presidente Lula que sentou à mesa com Ahmedinejad e seus assessores e experimentou as dificuldades locais.
Argumentando com o absurdo para fins meramente ilustrativos, como seria se em um espaço de dois dias a comunidade da Rocinha, no Rio de Janeiro, disparasse mais de mil foguetes com bombas sobre os prédios do Leblon e Copacabana? Seríamos capazes de romantizar o ato sob uma narrativa de resistência? Seríamos capazes de nenhuma tentação de reação e neutralização da capacidade bélica daquela comunidade? O que temos visto recentemente diz que não. Por muito menos que mil foguetes com bombas promovemos massacres proporcionalmente ainda mais brutais. O número de vítimas e a brutalidade do recente episódio em Jacarezinho são também constrangedores e nos denunciam como incapazes de promover a paz aqui ou no Oriente Médio, e com este humilde reconhecimento deveríamos quedar-nos silentes, talvez em prece por um mundo melhor onde ninguém se arrogue a estabelecer acusações e culpas estando completamente fora do contexto e repetindo, neuroticamente, os comportamentos determinados também pelos nossos mitos fundadores, por nossas crenças pessoais e eventualmente grupais, o que apenas sustenta o velho onde deveria surgir o novo.

Israel na mídia

É realmente incrível a importância que tanta gente dá a Israel, um país menor do que Sergipe, com 9 milhões de habitantes, que fica longe do Brasil. Nem mesmo a irrisória comunidade judaica brasileira explica isso.

O fato é que Israel não sai das manchetes. São notícias hora boas, hora ruins dependendo também de que lado da história se encontra a mídia, ou seus leitores. São tantas informações, que as pessoas nem se dão ao cuidado de verificarem a fonte e sua veracidade.

No início da pandemia, por exemplo, se dizia que Israel tinha descoberto a cura, que teria vacinas em poucos dias e todo tipo de exaltação a medicina israelense. Nada disso era verdade. O importante era promover falsas esperanças dando crédito a Israel e as relações de Bolsonaro com Netanyahu.

Hoje com mais de 5.000 mortes, no terceiro Lockdown com cerca de 8.000 novos casos diários, ainda assim somos elevados ao primeiro lugar em termos percentuais de vacinação da população. Provavelmente até o mês de Abril, todos que quiseram, somados aos que tinham permissão, vão estar vacinados. Como todos, estamos pagando o preço.

E sim, esta semana, dois hospitais de ponta aqui de Israel tiveram resultados de cura com o uso de fármacos desenvolvidos por eles em pacientes graves da Covid-19. Estes medicamentos estão sendo testados e ainda vão demorar a chegar ao mercado. No entanto, se confirmado o que está sendo visto até aqui, a equação se fecha com o uso preventivo da vacina e da medicação no caso de infecção.

Muito se falou também nos últimos dias com relação a vacinação dos palestinos, de que seria uma obrigação de Israel que estaria sendo descumprida. Antes de tudo, a Autoridade Palestina nunca pediu oficialmente que Israel fornecesse vacinas. Todas as aquisições feitas por eles, ou recebidas como doação foram recebidas. Antes disso Israel já havia doado material médico e máscaras.

Esta semana Israel doou 5.000 vacinas. Até agora elas vem sendo utilizadas para vacinar o corpo médico e os serviços de segurança. Sim, antes de vacinar os mais necessitados depois do corpo médico, eles estão vacinando a polícia. E a bem da verdade, a pandemia não está tão grave nos territórios e nem em Gaza.

Alguns funcionários brasileiros da Organização de direita americana “Stand With Us”, com estreitas relações com o governo Israelense, pagos para defender Israel de qualquer ataque, ou mesmo suposição de estar fazendo alguma coisa moralmente duvidosa se apressaram em mostrar que de acordo com os acordos de Oslo, que Israel descumpre diariamente, a saúde nos territórios está a cargo da Autoridade Palestina. Uma piada de mau gosto.

Neste momento, a situação nos territórios é melhor do que em Israel, e com certeza do que no Brasil. Portanto, não há razão para maiores preocupações.

A Covid-19 continua se espalhando através das diversas mutações que ocorrem. Isto é totalmente previsível e por enquanto não existe nenhuma razão para se duvidar da eficácia das vacinas com relação a elas. O problema das novas mutações é que elas se espalham mais rapidamente do que a capacidade de se vacinar as populações.

Se o ano que passou foi de incredulidade com o que aconteceu, este ano é de esperança. A maioria dos países vão poder começar a voltar a ter uma vida muito próxima do que existia antes. Uma questão de tempo, mas a solução para ele já existe.

 

 

Guerra de Civilizações, Guerra de Religião

Via de regra, com exceção de pessoas geniais, como Orson Welles, que virou capa da revista Visão, uma entrevista vale por uma ou duas declarações. O resto são banalidades. Foi o caso da exclusiva que fiz com o aiatolá Khomeini, dias antes dele embarcar para Teerã como líder inconteste da maior revolução da segunda metade do século 20.  Após quinze minutos de frases feitas recheadas de citações do Alcorão, desqualificando o xá e seu regime corrupto, o velho de barbas brancas, olhos negros profundos, frieza siberiana, sentiu-se à vontade para falar. Sei lá eu por quê. Após um silêncio constrangedor, olhou nos meus olhos e em um tom pausado e solene declarou:

“Nós não estamos apenas transformando o Irã, não estamos só fundando uma República Islâmica, estamos mudando o mundo. Conosco o islã irá se tornar a religião global. A Revolução Islâmica está destinada a ter um “caráter universal”, a se alastrar para muito além das fronteiras iranianas, para os países muçulmanos obviamente, mas também para o resto do mundo. A existência de um “califado planetário” está prevista no Alcorão. Caberá a nós construí-lo, em nome do profeta, “por todos os meios”.

“Alahu Akbar ! Alá é grande!”

Quatro expressões – revolução islâmica, caráter universal, califado planetário e por todos os meios – me deram calafrios, muito embora na época eu fosse incapaz de compreender a dimensão do que acabara de ser dito. Não podia alcançar, nem intuir, a importância daquelas palavras ameaçadoras. Estava longe de imaginar que naquele instante, naquele vilarejo de Neauphle-le-Château, a 30 quilômetros de Paris, debaixo de uma tenda desconfortável plantada em direção da Meca, meu gravadorzinho de fita cassete estivesse registrando o que viria a ser uma estratégia geopolítica expansionista e sangrenta, que entraria no século 21 e  germinaria a jihad, a guerra santa islâmica.

Hoje, passados 41 anos, olho para trás e compreendo que aquele momento marcou uma transformação profunda e duradoura; mudou o mundo muçulmano e deu início a uma nova cruzada, em que o nome do Jesus da Idade Média foi substituído pelo de Maomé. O islã, com todas as suas vertentes ideológicas, se lançou num projeto de poder. Dentro e fora do espaço muçulmano, como anunciara o aiatolá. No plano “interno”, a cisão entre as diferentes correntes – xiitas e sunitas – transformou-se em guerra aberta, liderada pelas potências regionais, Arábia Saudita e Irã, com a inclusão recente da Turquia. O objetivo é claro: criar espaços de influência em torno do Mediterrâneo.

O terrorismo faz parte dessa estratégia geopolítica. Teerã e Riad ontem, Ancara hoje, foram – e são – os grandes financiadores dos atentados que ensanguentam o mundo.

Num determinado momento, os palestinos foram usados  como justificativa para a violência. Depois, foram abandonados, jogados no lixão do esquecimento. Hoje, os palestinos são ignorados e até desprezados pelos países árabes.

Tanto o Irã como a Arábia Saudita e a Turquia, têm se unido a países ocidentais interessados nas riquezas da região e não hesitam em combater uns aos outros em teatros como a Síria, Líbano, Líbia ou Iêmen.

Durante anos, os conflitos no Oriente Médio giraram em torno de um fator comum: a rivalidade entre Irã e Arábia Saudita. Esse antagonismo inflamou a violência em áreas já devastadas pela guerra e acabou por criar novos campos de batalha, onde anteriormente existia uma relativa paz.

São estratégias de poder hostis que se digladiam. Neste contexto, o combate a Israel, que outrora serviu de pretexto para alicerçar a unidade árabe,  tornou-se uma questão subalterna, como provam os recentes acordos de retomada das relações diplomáticas entre Tel Avive, Cartum, Abu Dhabi e Manama, e o desinteresse pelo conflito israelo-palestino. A própria Arábia Saudita, através de seu príncipe herdeiro Mohammed bin Salman, já reconheceu oficiosamente o direito à existência de Israel em paz e segurança. Só não o fez abertamente porque, como sede dos principais locais sagrados do Islã, isso simbolizaria a normalização das relações de Israel com todo o mundo muçulmano. E tanto o xiismo como parte do sunismo ainda não estão prontos a dar o passo.

Por outro lado, na briga entre as duas vertentes do Islã, o Irã se coloca como o grande defensor dos xiitas na luta pela hegemonia muçulmana. Não nega esforços nesta direção, seja atuando diretamente na guerra síria, seja  armando militar e ideologicamente movimentos terroristas como o Hamas e o Hezbollah.

A Turquia entrou na luta pela conquista regional mais recentemente, a partir do momento em que houve uma tentativa de golpe contra Recep Erdogan (real ou imaginária ?) e que o líder turco fez uma verdadeira purga nas forças armadas, nos tribunais, na polícia  e na sociedade civil em geral, prendendo meio milhão de pessoas e acabando com toda contestação. Conquistou assim a fidelidade do exército e instaurou uma ditadura político-islâmica, lançando-se na busca de seu grande sonho, a refundação do império otomano. Além da influência no Oriente Médio, voltou-se para o Mediterrâneo, criando zonas de conflito com a União Europeia e o norte da África. Para tanto, não hesitou em traçar um estranho diálogo com Vladimir Putin, ora amigo ora adversário,  e desafiar a Aliança Atlântica, da qual a Turquia faz parte. De quase membro, passou a espicaçar a União Europeia.

Erdogan pôs um ponto final no país secular de Kemal Atatürk, inventor da Turquia moderna, para tornar-se um verdadeiro sultão.

Nos três casos, a religião é colocada a serviço da política, da geopolítica e do devaneio de seus líderes. No Irã, a principal autoridade é o chefe dos Guardiães da Revolução, no caso da Arábia Saudita é o príncipe herdeiro, no da Turquia, o presidente-sultão-ditador.  Não há espaço para a separação entre a Igreja e o Estado.

O ocidente e até a China de Xi Jinping são peças nesse xadrez geopolítico, bem como outros grandes países muçulmanos, como o Paquistão. Os Estados Unidos são ao mesmo tempo o Grande Irmão de Riad e o Satanás de Teerã, a Europa (e a França em particular) o infiel dentre os infiéis, a China um possível futuro amigo, ou ao menos aliado.

Se de um lado o mundo muçulmano nem sequer dialoga entre si, de outro os instrumentos para exportar seus projetos de poder são cada dia mais limitados. O fracasso da Primavera Árabe jogou a Irmandade Muçulmana no ostracismo e cada país caminhou numa direção. Os grandes movimentos que alimentavam a violência expansionista – Al Qaeda, Daesh, Al Qaeda do Magreb Islâmico – foram derrotados militarmente e tentam dificilmente se reconstruir para existir através do terror.

Diante desse quadro, uma parcela dos muçulmanos da diáspora voltaram-se para os valores tradicionais. Enquanto os países exportadores da teoria de Khomeini, numa atitude dúbia, passaram a alimentar o ódio aos infiéis, através de uma enorme rede de mesquitas e de associações culturais, esportivas e outras, a exemplo dos evangélicos no Brasil. Optaram por se implantar nos subúrbios dos centros urbanos europeus, onde prosperam conjuntos habitacionais desumanos que com frequência se transformam em guetos, abandonados pelo Estado, onde vivem populações magrebinas.  Semearam em terreno fértil, onde já reinava a xenofobia e a islamofobia plantadas pela extrema-direita. A mesma Europa, que abriu as portas a milhões de refugiados das guerras fraticidas, transformou-se no principal palco, porém não único, da violência islamita.

A respeito, é mister abrir um parêntese para assinalar um erro crasso e frequente dos “analistas” da imprensa brasileira, que se auto-intitulam “experts” em assuntos internacionais. Ao criticar o discurso de Emmanuel Macron após a decapitação do professor Samuel Paty, confundem o termo Islamita, islamiste em francês, com muçulmano. Islamiste não significa muçulmano e sim extremista islâmico, aquele que se radicalizou. Erram ao confundir os dois termos, talvez por ignorância; acabam escorregando num amálgama mal odorante.

Necessário sublinhar para que não haja dúvida: a violência vem dos islamitas e não da comunidade muçulmana, cujos representantes a denunciam sistematicamente.

O terrorismo faz parte do projeto de poder e pouco tem a ver, por exemplo, com as caricaturas de Maomé. Até o século 16, as imagens do profeta, hoje proibidas pelos extremistas sunitas, integravam a iconografia islâmica. Centenas de quadros magníficos, representando Maomé, embelezam até hoje as paredes do Palácio Topkapi, de Istambul. A proibição veio de uma reescrita do Alcorão pela seita radical. E é polêmica até hoje entre os estudiosos do islã.

Assim, as caricaturas verdadeiras de Maomé (veja o texto sobre as falsas caricaturas, no final) publicadas inicialmente na Dinamarca e depois no France Soir e finalmente Charlie Hebdo entre outros jornais europeus, são apenas a parte visível do iceberg. Servem de bode expiatório, na medida em que os integristas precisam de uma razão para explicar às suas comunidades atos que não tem nenhuma. Se as caricaturas são tão provocadoras a ponto de explicar a decapitação de um professor, como entender a degola de um sacristão, a morte a facadas de uma dançarina brasileira ou a morte a tiros de várias pessoas diante de uma sinagoga em Viena só para citar os ataques mais recentes? como compreender os atentados islamitas cometidos no Reino Unido, na Alemanha, na Holanda, na Itália, na Noruega, na Espanha e até na longínqua e pacífica Nova Zelândia? como aceitar que os islamitas tenham lançado, via redes sociais, ameaças de morte à comunidade asiática de Paris, sob o argumento de que os chineses, além de terem criado o corona vírus, cometem as piores atrocidades contra os uigures (muçulmanos sunitas de Xian Jiang), escravizando, assassinando, estuprando?

As caricaturas não podem ser usadas como justificativa. A violência como resposta é falta de argumento. Aliás, o jovem que feriu dois jornalistas em frente à antiga sede do Charlie, no final de setembro, confessou a amigos nunca ter visto as tais caricaturas, nem sabia que o jornal satírico tinha mudado de endereço após o massacre de sua redação, cinco anos antes.

Vingar-se da França colonialista? tampouco. Os autores dos recentes atentados são chechenos, paquistaneses, afeganes. Apenas um era de origem tunisiana. O que não exime o país de uma mais que necessária autocrítica, que, diga-se de passagem, está sendo feita, embora tardiamente.

Por que então fazer da França ou de outros países europeus alvos privilegiados do terrorismo islâmico? Porque os atentados cometidos contra populações muçulmanas em países muçulmanos, embora muitíssimo mais numerosos,  não viram notícia na grande imprensa internacional. A repercussão da tentativa de morte da menina Malala, que cometeu o crime de querer estudar, é exceção, apesar da quantidade incontável de Malalas.

O que explica o terrorismo islâmico é o projeto de poder de Erdogan, bin Salman, aiatolá Ali Khamenei pela supremacia no mundo islâmico. Os atentados só são possíveis graças a uma extraordinária e eficaz rede de associações religiosas ou não, instaladas na Europa e financiadas sobretudo por essas três potências islâmicas, mais o Qatar e o Paquistão. Várias mesquitas instaladas em solo europeu, dirigidas por imanes originários e pagos por esses países, defendem abertamente a xaria, a lei islâmica, em detrimento da Constituição local. Nelas, legitima-se desde o casamento forçado de crianças de 10 anos até a morte por apedrejamento de homossexuais ou de mulheres adúlteras. Os frequentadores são instigados a matar os infiéis. Acabam se radicalizando, alguns matando.

Mila, uma estudante adolescente de 16 anos, viu sua vida virar de cabeça para baixo no dia 18 de janeiro, quando publicou um vídeo criticando o islã para se defender do ataque homofóbico de um rapaz muçulmano, que a chamou de “lésbica asquerosa”. Seguiu-se então uma das maiores ondas de mensagens insultantes jamais vista na história da internet na França. Foram cerca de duzentas por minuto nos dias que se seguiram. Desde então Mila recebe ameaças de morte diárias, já foram mais de 35 mil, está sob proteção policial e foi obrigada a deixar de frequentar a escola.

Contra sua vontade, Mila tornou-se um ícone do partido  xenófobo Rassemblement pour la République, de Marine Le Pen, que defende a expulsão de todos os estrangeiros.

Para a divulgação das mensagens hediondas, nada melhor que as redes sociais divulgadoras do ódio, islamita como neofascista.

Face a esse quadro, alguns politólogos europeus não hesitam em falar em guerra de civilizações, enquanto outros veem aí uma guerra de religião. Estamos diante de uma cruzada em que o futuro da democracia e dos direitos humanos está em risco. Se os governos não adotarem uma atitude firme de combate a todas as discriminações, a todos os fundamentalismos – islamita, judaico, cristão – dentro das regras de respeito ao Estado de Direito, a extrema-direita ocupará o espaço. O tempo é agora, se já não for tarde demais.  A pandemia abre uma janela de oportunidade, que se não for aproveitada fará com que a saída do confinamento marque a vitória do populismo fascista e transforme o velho mundo iluminista na antessala do inferno dantesco.  Se abandonarmos nossos valores, expressos na Declaração Universal dos Direitos Humanos, estaremos dando razão aos integristas de todas as religiões e ideologias.

                AS FALSAS CARICATURAS QUE INCENDIARAM O MUNDO

Num texto sobre a história das caricaturas, a jornalista Caroline Fourest, ex-Charlie, conta:

“Em 30 de setembro de 2005, o Jyllands-Posten, principal diário conservador dinamarquês, publicou doze desenhos sobre Maomé nas páginas de cultura, sob o título “Os rostos de Maomé”. Não por provocação gratuita, mas para denunciar uma forma de censura. Meses antes, um autor dinamarquês de esquerda, alérgico ao fundamentalismo, Kare Blutgen, não conseguiu encontrar um só desenhista que aceitasse ilustrar um álbum para crianças contando a vida de Maomé. O horror do assassinato do cineasta de extrema-direita Théo Van Gogh, degolado por um islamita marroquino, em 2004, ainda estava na cabeça de todos.

No mesmo Jyllands-Posten, um humorista escreveu: não tem problema urinar na Bíblia na frente das câmeras, mas eu não faria o mesmo com o Alcorão.

Em Londres, após os atentados de 7 de julho na capital britânica (52 mortos e mais de 700 feridos), o diretor da Tate Gallery anulava uma exposição satírica, já programada, sobre o Talmud, a Bíblia e o Alcorão. Na Suécia, meses antes, o museu de Goteborg anulou uma exposição sobre símbolos sexuais e citações do Alcorão.

Foi nesse contexto de autocensura que o editor de Cultura do jornal dinamarquês teve a ideia de realizar um concurso de desenhos sobre a imagem de Maomé.

A maioria dos desenhos apresentados mostrou um profeta estilizado e poético. Alguns satirizavam o jornal. Dois deles eram mais duros: um mostrava Maomé com um facão em companhia de duas mulheres vestindo burca. O outro, um Maomé severo com um turbante em forma de bomba. Era uma forma de denunciar o terrorismo cometido em nome do profeta.”

Até que um grupo islamita paquistanês colocou a cabeça dos desenhistas a prêmio. Mas não por causa das caricaturas publicadas no jornal dinamarquês e sim por causa de falsas charges.

Como assim? eis aqui a verdadeira história, pouco conhecida: com o intuito de colocar ainda mais lenha na fogueira, Abou Laban e Ahmed Akkari, dois paquistaneses de grande prestígio, levaram para uma reunião com líderes do Egito, Turquia, Líbano, Síria e Golfo Pérsico um dossiê contendo caricaturas publicadas em sites fascistas na internet, que nada tinham a ver com aquelas do Jyllands-Post. Dentre elas, uma acusando Maomé de pedófilo, outra mostrando um homem com cabeça de porco, outra ainda com Maomé sendo sodomizado por um cachorro.

Foram estas caricaturas que incendiaram o mundo muçulmano, provocando protestos violentos por multidões no mundo muçulmano e uma onda de atentados, inclusive contra embaixadas da Dinamarca, Áustria, Noruega e França no Oriente Médio.  Furioso, o ministro egípcio das relações exteriores, Ahmed Aboul Gheit, presente à tal reunião, entrou com um projeto de resolução na ONU pedindo a proibição de todo ataque às religiões.

A xaria contra as caricaturas estava lançada.

 

Força Beirute

A tragédia no Líbano com a catastrófica explosão em Beirute está sendo o sonho de dos teóricos de conspirações. Eles criam suposições fantásticas apontando culpados a esmo.

Um trágico acidente, que até agora custou a morte de mais de 150 cidadãos, 5 mil feridos, 300 mil desabrigados e um prejuízo que passa de 5 bilhões de dólares. Uma fatalidade causada por negligência. Uma história que remonta o ano de 2013.

Um navio levando uma carga de Nitrato de Amônia a caminho de Moçambique sofre uma pane e entra no Porto de Beirute. As autoridades, diante do tipo de carga e do estado do navio, proíbem que ele siga viagem. A companhia resolve abandonar ambos, carga e navio. Os tripulantes entram na justiça para serem repatriados e a carga é transferida para um armazém, o de número 12.

O que talvez não fosse do conhecimento de todos, é de que aquela carga exigia um armazenamento especial e um cuidado permanente. Uma ignição qualquer, ou um aumento drástico de temperatura, causariam uma explosão. Não seria a primeira vez que isto aconteceu, outros eventos trágicos com o mesmo produto já ocorreram no passado.

Dada a situação no Oriente Médio, onde inúmeros atores aparecem diariamente nos noticiários, não seria de estranhar que surgissem inúmeras suspeitas de atos de sabotagem, de terrorismo, ou até mesmo de vingança. Todos eles descartados pelas autoridades libanesas que compreenderam desde o início de que se tratou de um erro cometido por uma, ou mais, autoridades e funcionários do porto.

A explosão causou uma onda de choque tão violenta, que destruiu praticamente a metade da Capital do Líbano. Praticamente todos os vidros da cidade viraram estilhaços e foram os principais responsáveis pelos ferimentos. A onda atingiu fortemente uma área de 8 km, mas foi sentida muito além. As pessoas fora desta zona contam que pensavam se tratar da queda de um edifício em suas proximidades causada por um terremoto.

Claro que Israel foi a primeira a ser apontada como culpada. Um míssil, ou um atentado planejado no local pelo Mossad, teria causado a explosão. Nesta teoria, a ideia é de que o Hizbolah teria armamento depositado em locais subterrâneos no Porto (sic), e na verdade a explosão seria resultado da destruição deste material que vai desde combustível para foguetes, até explosivos, dependendo do teórico.

Outra teoria interessante é de que se trata de uma advertência do Hizbolah diante do julgamento que se aproxima relacionado ao assassinato do primeiro ministro Rafik Hariri em 2005.

Pode-se criar a teoria conspiratória que se desejar, afinal a livre expressão permite todo tipo de devaneio. Qualquer um com um pouco de conhecimento do que acontece aqui no Oriente Médio, pode escrever sua fantasia e publicá-la na Internet.

Quando achamos que a vida com o Corona estava sendo um inferno, o que dizer da vida agora em Beirute. Onde já existia uma gravíssima crise econômica somada as restrições causadas pela pandemia, uma tragédia desta magnitude nos deixa perplexos, tristes e comovidos.

O governo de Israel ofereceu ajuda humanitária. ONGs israelenses estão fazendo campanhas de doação para ajudar a população de Beirute. A sede da prefeitura de Tel Aviv, colocou a bandeira do Líbano em sua fachada iluminada. Até mesmo o suposto inimigo oferece uma trégua de respeito e empatia em um momento como este.

Aos teóricos de uma boa conspiração, sugiro caírem na real. O Líbano precisa de toda ajuda que puder receber. Menos conspiração e mais compaixão.