A sua dor é a minha dor

A sua dor é a minha dor

As cenas da morte da jornalista da Al Jazeera, a palestina-americana Shireen Abu Akleh correu o mundo como fogo em palha. Em todas as difusões jornalísticas a acusação de que ela teria sido morta por forças israelenses. Sem dúvida uma possibilidade, mas não a única.

Soldados israelense e militantes palestinos trocaram tiros em uma área onde não havia ângulo para acertar Shireen e outros colegas que se encontravam próximos. Todos vestiam capacete e coletes a prova de balas que os identificavam como jornalistas. Quem atirou foi um profissional que acertou o olho esquerdo da jornalista a uma distância ainda não identificada.

O mundo se apressou em acusar Israel pela morte, o que até pode vir a ser confirmado pelas investigações em andamento. No entanto, não seria a primeira vez que fatos como estes tivessem um resultado diferente daquele inicialmente tido como verdadeiro.

Em 13 de maio, Giora Eilad, publicou no jornal Yediot Hacharonot que em 2001, durante os primeiros dias da Segunda Intifada, Muhammad al-Durrah, de 12 anos, foi morto durante um violento tiroteio em Gaza entre forças da IDF e militantes palestinos.

Logo um repórter de TV francês, que filmou o momento em que o menino foi baleado, testemunhou que ele foi morto por soldados do exército de Israel.

Naquela época, ele era o chefe da Diretoria de Planejamento do Exército e devido às inúmeras trocas de tiros que ocorreram no momento do incidente, e porque foi relatado por um canal de mídia europeu e não árabe, acabou presumindo que o relato de testemunha ocular estava correto.

Foi quando, segundo ele, cometeu um erro imperdoável ao assumir a responsabilidade pública pela morte do menino frente a mídia estrangeira. Explicou que o incidente foi precedido por tiros palestinos maciços em direção a um assentamento israelense, e os palestinos deliberadamente empurraram a criança para a linha de frente. Achou que bastaria como explicação. Ele estava tremendamente errado.

Uma investigação completa do incidente conduzida pelo exército revelou que o menino quase certamente foi morto pelo fogo palestino. Além disso, fortes evidências começaram a surgir, apontando para a possibilidade de que o menino sequer tenha morrido, e que todo o calvário pode ter sido encenado.

Claro que cada episódio de violência deve ser condenado. Mais do que isto, a ocupação dos territórios palestinos são a causa de todos os ciclos de mortes conhecidos no conflito. Tivera sido encontrada uma solução para viabilizar um Estado Palestino e muitas vidas teriam sido salvas.

Neste caso em especial, a morte da jornalista tem servido de combustível para antissemitas e antissionistas despejarem todo o seu ódio aos judeus e a Israel. A tentativa de saírem do hospital com o caixão nos ombros para o funeral deflagou uma forte reação de parte da polícia. Algo que poderia ser evitado com diálogo, se diálogo houvesse. Todos os funerais em Jerusalém devem ser realizados com o corpo sendo transportado em um veículo apropriado, o que acabou acontecendo. Aqui uma imagem valeu mais do que mil palavras.

Israel propôs uma investigação conjunta com a Autoridade Palestina, o que não foi aceito. Desta maneira, uma investigação está acontecendo por cada uma das partes. Infelizmente esta tragédia não une israelenses e palestinos.

Shireen, devido a sua militância e importância como jornalista despertou os defensores dos Direitos Humanos e a todos que prezam pela liberdade de trabalho e divulgação independente de todas as mídias para um fato que teria passado despercebido, não fosse ela.

Os cidadãos de Israel estão vivendo um terror há cerca de dois meses com o assassinato de cidadãos inocentes e indefesos por militantes palestinos e do ISIS. Na cidade onde eu vivo, no caminho quase diário por onde eu passo ocorreu um atentado. No mais recente, dois jovens mataram quatro cidadãos da pequena cidade de Elhad e feriram outros tantos com o uso de machados. O primeiro a ser morto foi o motorista judeu que deu carona para eles. Civis palestinos também são vítimas de balas perdidas em operações do exército israelense nos territórios ocupados e a mídia não dá a eles uma linha sequer em seus noticiários.

Eu não vou entrar numa discussão do porquê não escutamos das mesmas mídias e Defensores dos Direitos Humanos uma única condenação a estas mortes. Não se trata de uma disputa entre quem tem mais ou menos mortos para mostrar. Trata-se de deixar claro que famílias judias e palestinas estão sofrendo os males causados pela falta de diálogo entre aqueles que deveriam estar sentados em uma mesa de negociações para tratar do fim do conflito e da criação de um Estado Palestino.

Eu como judeu, como sionista-socialista condeno toda forma de violência. Mais do que isso, como ser humano e como israelense, não posso admitir o uso da força para ocupar um território que não nos pertence e subjugar todo um povo as nossas leis e costumes contra sua vontade.

Quem realmente deseja que palestinos e israelense possam viver em paz com justiça, deveriam estar pressionando as partes para se reunirem e chegarem a um acordo. Ficarem apontando dedos não vai resolver nada e apenas nos colocam a horas da próxima vítima.

 

 

 

 

Então, mais história, mais verdade, e menos loucura osmótica (em função do conflito Israel-Hamás de 2014)

Então, mais história, mais verdade, e menos loucura osmótica (em função do conflito Israel-Hamás de 2014)

Tenho lido alguma coisa das muitas coisas (e coisinhas) que se publicam, tanto na Internet quanto em jornais impressos do mundo, da Europa e alguns da América Latina, sobre o conflito (sempre brutal), entre Israel e Hamás. Depois de ler tanto, chego a uma primeira conclusão, aliás, duas:

1) As pessoas do mundo todo, entre as quais, italianos, judeus, árabes e latino-americanos, enfim, as tantas pessoas que se manifestam, das quais li alguma coisa (ou coisinha) nada sabem da História Judaica, História Árabe, Judaísmo e Islamismo, bem como das Línguas hebraica e árabe (e suas variações). Nada sabem sobre os movimentos emancipatórios judaicos e árabes e quase nada sobre o antes e o depois de 1948. A ignorância, nesse caso, é mais nefasta que o conflito atual, pois não apenas mata corpos, mas, sobretudo, cérebros, mentes, corações, consciências e possibilidades de entendimento!

2) Sinto-me um “ausente” ou, como disse Sartre nos anos 60 sobre a questão Israel-Árabe, um “ausente”, pois até agora não tive a predisposição de escrever algo mais científico e histórico, ou mesmo de proferir alguma palestra ou promover algum encontro para tratar do tema, exceto minhas nas aulas de Direito Hebraico, em colaboração com a Cadeira de História do Direito da Faculdade de Direito da USP.

Por um lado, fiquei um tanto ausente, porque quando quis me manifestar em 2009, fui violenta e injustamente atacado por alguns dos meus colegas professores de Direito do Brasil, de certa “agremiação de professores de Direito“, sob o argumento de que eu, enquanto Judeu, não poderia me manifestar, pois havia certo “pertencimento” (argumento usado por eles à época). Estranho, se não posso falar porque sou Judeu, então a oposição a mim é antissemita e nada tem a ver com Israel e Palestina.

Sem desmerecer a pessoa (uma Professora) que usou tal argumento (a quem respeito muito), mas é um argumento flagrantemente pobre (para dizer o mínimo), pois eu, eu mesmo, como Judeu, tenho, junto com Árabes e Muçulmanos, Israelenses ou Palestinos, a legitimidade “a priori“, além do dever, para falar sobre isso. Por outro lado, fui (e sou) muito criticado pela comunidade judaica (mais a brasileira e muito menos a italiana), sob o argumento de que eu, assumidamente anarquista, não teria razão para falar do assunto que envolva “Estado”.

Enfim, o estado de “ausência” neste assunto, apenas contribui para o alargamento da ignorância, da proliferação de juízos miseráveis e, finalmente, para um crescente – e assustador- antissemitismo e islamofobia, observáveis a olho nu em cada postagem ou artigo!
 Resolvi, então, desenvolver ações concretas, ao menos no que respeita ao mundo acadêmico, universitário, incluindo, textos, palestras, grupos e encontros, para esclarecer e lançar algum tipo de referência para ajudar no que mais desejamos, a paz duradoura entre Israelenses e Palestinos. Mas, ainda, tenho dois outros objetivos, a saber, colocar-me contra, frontalmente contra, às falas antissemitas e islamofóbicas (substrato da maioria das manifestações).

Começo aqui, agora, trazendo alguns esclarecimentos (mais adiante, produzirei textos e artigos, bem como organizarei grupos de pesquisa e de estudo e, também, palestras e conferências a este respeito. Também, comecei o contato com vários professores e pesquisadores “do mundo”: judeus, muçulmanos, árabes, não judeus, não árabes etc, para a elaboração de um livro sob minha organização e coordenação com esta temática). Eis, então, alguns esclarecimentos sintéticos:

a) Por “Sionismo“, devemos entender um movimento filosófico, de filosofia política, não religioso, de 1897, cujo objetivo era a emancipação dos judeus que viviam principalmente na Europa, sem segurança. O fim último do “sionismo” era a constituição de um lar judaico, sob a proteção da lei internacional. O que era ideia encontrou um terreno propício no Oriente Médio, em face dos Judeus que lá moravam fazia milênios (são chamados judeus do Eshuv, ou seja, judeus que nunca saíram daquelas terras). O chamado movimento sionista encontrou seu objetivo, concretizando-se no estabelecimento do Estado de Israel, em 1948, com a proteção do Direito Internacional. Desde então não há movimento sionista nem, muito menos Estado “sionista”, a menos que utilizemos esta expressão com muita impropriedade, porque o Estado de Israel é formado, hoje, entre outros, por grupos judaicos, árabes muçulmanos, árabes cristãos, africanos (negros), e drusos. Israel é uma realidade, não um projeto. A menos que utilizemos a expressão “sionismo/sionista” (sem mais sentido) para nos referirmos a grupos radicais da direita israelense (mas, grupos de direita não contam, devem ser combatidos, assim como grupos antissemitas, teocráticos etc!)

b) Antes de 1948, aquelas terras eram chamadas de “Palestina”. Os romanos assim chamaram aquela região “Syria Palaestina”, no século II e. c. (era comum), nome não inventado pelos romanos, mas de origem grega “Philistia” designando uma região que abrangia, no século XII a.e.c. (antes desta era comum) o que hoje vai de Tel Aviv até Gaza. Portanto, uma região dos filisteus (Philistia) que não eram, por sua vez, semitas, ou seja, nem árabes nem judeus. Os filisteus eram originados de Creta e ocuparam vários pontos do Mar Mediterrâneo, incluindo Gaza (todos conhecem o mito de Sansão e Dalila? Dalila era filisteia!). Portanto, Palestina não se refere, até então, a um país ou povo específico, mas a uma região geográfica, administrativa, romana.

c) Antes de 1948, a então região chamada Palestina não era um país, era um lugar, onde existiam judeus, árabes, drusos, ingleses, cristãos, muçulmanos etc. Estava sob “mandato” internacional da Inglaterra. As relações eram entre judeus-árabes-muçulmanos-drusos-cristãos e, como maior número, especialmente, entre judeus e árabes. Não havia Israelenses nem o que chamamos hoje “Palestinos” (como povo). Os judeus viviam comumente em Kibutzim, da agricultura, enquanto os árabes e outros, também, da agricultura familiar.

d) Com a criação do Estado de Israel, houve oposição de todo o mundo árabe. Isso é história, não conversa facebookiana. E, desde logo, guerra entre os recém-nascidos Israelenses e os Árabes (não era guerra entre Israelenses e Palestinos). Por isso mesmo, nesta ocasião, todos os jornais, livros, artigos etc, mencionam apenas o conflito “israelo-árabe”. Após a primeira guerra, de 1948, vencida por Israel contra a coligação Síria-Líbano-Jordânia-Egito-Iraque, começada no dia 15.5.1948, com a invasão destes países, um dia depois da Declaração de Independência de Israel, o conflito passou a ser chamado Israel-Árabe. Também não é mais apropriado (desde os anos 70) utilizar os termos “pan-arabismo ou pan-islamismo”, excetuando os grupos radicais (mas, grupos radicais de qualquer ideologia não contam!)

e) Apenas a partir do final dos anos 60, os árabes da resistência que lá ficaram (ou estavam em campos de refugiados), abandonados pelos países árabes, estes, vencidos em todas as guerras, começaram a ser identificados como árabes Palestinianos. Todos os outros passaram a ser chamados de árabes Israelenses (inseridos nos contexto do Estado de Israel, assim como, drusos israelenses, cristãos israelenses…).

f) A partir dos anos 70, os árabes não israelenses (da Cisjordânia e Gaza), passaram a ser chamados “Palestinos”, e o conflito, não mais Israel-Árabe, mas Israelense-Palestino que se arrastou, de forma sangrenta, pelos anos 70, 80 e 90. Apenas depois de muitas intervenções diplomáticas internacionais, bem como acomodação de Israelenses e Palestinos, começou algum processo de paz objetivando a criação do Estado da Palestina, processo esse, quase sempre interrompido, seja pela direita israelense, seja por grupos radicais palestinos, entre os quais, a OLP e o Hamás. A partir de 90, o conflito não é exatamente (embora seja ainda em certa medida), entre Israelenses e Palestinos, mas, entre Israel e Hamás.

g) Continuarei este esclarecimento mais adiante, em nova oportunidade… Conforme meus textos anteriores, continuo contra a resposta bélica israelense em face dos ataques do Hamás. Considero que haja outros meios, alternativos, de resposta!

© Pietro Nardella-Dellova, 2014

o presente texto foi primeiramente publicado, em 2014, no Blog Café e Direito https://nardelladellova.blogspot.com/2014/07/entao-mai-historia-mais-verdade-e-menos.html

NOTA FINAL DE ATUALIZAÇÃO:

Após esse texto, escrito e publicado em 2014, escrevi outras centenas de textos sobre o assunto, fiz quatro Palestras sobre o Conflito Israel e Palestina: (1)  Na EMERJ – Escola da Magistratura do Estado do Rio de Janeiro, mediado por uma Juíza de origem árabe, Dra Simone Nacif (disponível no YouTube); 2) Na Faculdade de Direito Damásio de Jesus, São Paulo, com a presença de representantes do Islamismo egípcio; 3) Na Faculdade de Direito da Universidade Nove de Julho, com debate com um Professor de Direito Internacional e, finalmente; 4) Na FURG – Faculdade de Direito da Universidade Federal do Rio Grande, em Mesa com representantes Palestinos). Em 2017, escrevi um livro sobre ANTROPOLOGIA JURÍDICA, em duas edições, 2017 e 2018, dedicando um capítulo inteiro à questão Israel e Palestina, para o qual convidei Palestinos, Ateus e outros para, junto comigo, escrevermos a partir das nossas ideias).

Uma proposta para Israel e Palestina: dois Povos, dois Estados

Uma proposta para Israel e Palestina: dois Povos, dois Estados

Israel e Palestina não é um tema fácil. Eu falo de um tema, pois ambos os povos são indissociáveis enquanto debate e, conforme o que desejamos – diálogo. Antes de 1948, não havia Israel – nem Palestina, exceto pelo nome dado pelos romanos à região, com clara menção aos filisteus que ali viveram em antiguidade remotíssima. Havia, sim, Judeus e Árabes convivendo naquelas plagas.

Curiosamente, quando nasce Israel, a partir da Resolução da ONU, em 1948, nasce com ele um conflito que, por algumas décadas, fora chamado de conflito israelo-árabe (1).

O conceito de povo Palestino vai ser construído conforme desenvolve o conceito Israelense. Pelo que consta em jornais e livros, somente a partir dos anos 70 (século XX) e, em especial, nos anos 80, vai se cunhando um nome aos árabes que ali viviam: Palestinos. De qualquer modo, um povo juridicamente artificial (Israelenses) nasce e, em função disso, outro povo artificial se constrói (Palestinos). (2) A questão e sua solução (alguns apreciam o termo “conflito”) entre israelenses e palestinos (alguns preferem o termo “questão” apenas para se referir aos palestinos) não é insolúvel nem impossível.

Do ponto de vista desse texto (refiro-me ao meu, em respeito a tantos outros) ambos os povos, embora existissem como Judeus e Árabes (do ponto de vista cultural), foram se construindo como Israelenses e Palestinos. Israel e, depois, Palestina, é coisa recente. Por isso mesmo, é possível uma solução: DOIS POVOS, DOIS ESTADOS. É o que Judeus, em um contexto crítico, defendem. Penso que muitos Palestinos, também.

Muitos falam em Estado binacional, a exemplo de outros países, como a Suiça, por exemplo. Mas, não vejo como isso pudesse acontecer no caso Israel-Palestina. A começar pelo nome: seria Israel? Seria Palestina? Seria Israel-Palestina?

As feridas dessas décadas de conflito são profundas e, parece-nos, que não cabe alternativa a não ser a divisão jurídica territorial (como foi determinado pela Resolução da ONU) e o estabelecimento de dois Estados. É preciso dialogar; é preciso que vizinhos dialoguem (para lembrar aqui um pouco de Epicuro), mas para que vizinhos dialoguem é preciso que haja vizinhos e, no caso específico, parte do reconhecimento de ambos os povos à existência plena. Israel deve reconhecer o direito dos Palestinos em se organizarem em uma sua Palestina e, ainda, reconhecer o território palestino. Por sua vez, a Palestina deve reconhecer direitos dos Israelenses viverem em sua Israel. Reconhecidos os vizinhos mutuamente, não há dúvida, metade do caminho já se percorre. Não há dúvida de que Israel deve retirar-se dos territórios ocupados, bem como os Palestinos devem reconhecer Israel e sua integridade.

Palestina e Israel podem, a médio prazo, estabelecer um tipo de acordo econômico e de solidariedade no que respeita aos recursos naturais, a começar da água e, sobretudo, do acesso às vias rodoviárias, ferroviárias e, principalmente, de acesso ao mar e portos. É possível, sim, um Bloco econômico naquela região, como ocorre em outras partes do mundo. Neste caso, tendo Israel, Palestina e demais vizinhos.

Neste texto sobre o olhar em relação a Israel e Palestina, de início, pensei em apontar as dificuldades entre esses dois povos, seus conflitos, seus comportamentos agressivos, rancorosos e vingativos. Mas, parece-me dizer a mesma coisa sempre.(3) Alguns pontos devem, contudo, ser estabelecidos e esclarecidos.

Israel é imperialista? Não há qualquer característica, fato ou prova, que possam levar a essa conclusão e, nesse caso, respondo junto com Jean-Paul Sartre: de forma alguma quero afirmar que Israel seja imperialista ou a criatura do imperialismo; muito exatamente não afirmo nada, a não ser que os Árabes o acusam disso.(4)

O sionismo é mesmo racista? Não é possível dizer isso, pois há diversos sionismos e, entre eles, o de Theodor Herzl, cujo objetivo era exatamente dar ao povo Judeu, que precisava fugir do racismo e, mais tarde, do nazismo, enfim, do antissemitismo e suas muitas faces monstruosas. Portanto, de modo algum é possível afirmar que o sionismo seja racista.

Há, em todo Judeu, uma ligação histórica com a terra santa (quero, aqui, evitar chamar simplesmente terra de Israel) e nesse sentimento de pertencimento histórico, de caráter inegável, reside o muito do que se chama sionismo. Isso não significa dizer que em Israel, agora como Estado, não haja leis discriminatórias e, tanto quanto se identifiquem tais leis, as mesmas devam ser combatidas (como em qualquer sociedade, país, sistema jurídico). A questão não é do Estado de Israel, mas de determinados governos e, conforme sejam mais à direita, aliás, como sói acontecer em qualquer parte do mundo, sabemos que há uma tendência, quando não um abuso mesmo, em relação a quaisquer que não sejam considerados nacionais. Vejam-se os casos recentes no mundo: Itália, Estados Unidos, Brasil etc.

Penso que o antissionismo (acrítico) seja realmente a antessala do antissemitismo na região. E, como tal, além de alimentar um ódio incontrolável, alimenta o conflito e, por último, mais violência e derramamento de sangue. Habib Burguiba, presidente da Tunísia, em 1965, havia adiantado o perigo desse discurso. Disse ele:

Dou-me mal com o ódio, e isto não só porque domino esse sentimento, mas porque ele impede qualquer ação lúcida da parte dos árabes. É um álibi à inação. Grita-se, injuria-se, insulta-se, lançam-se imprecações e tem-se, depois, a sensação de ter cumprido o dever, de estar em paz com a consciência. No fundo de tudo isto, encontra-se um complexo de inferioridade: sobrestima-se o adversário. (…) No caso da Palestina este ódio leva a confundir o antissionismo com o antissemitismo, o que provoca, pelos menos nas massas, um fanatismo que se tornará perigoso no dia em que for preciso negociar. (…) Digo que não se deve declarar que se querem atirar os judeus ao mar se não se pode fazê-lo. E deixar de o dizer pode já ajudar a encontrar uma forma de coexistência com eles. (5).

Parece necessário retomar a definição e objetivos do sionismo histórico. Ei-la. A Organização Sionista Mundial foi constituída em 1897 em Basiléia (Suiça), onde realizou o seu primeiro congresso, definindo o sionismo como uma aspiração a estabelecer para o povo judeu, em Eretz Israel, um refúgio permanente garantido pela lei internacional. A Organização Sionista englobava a maior parte dos grupos judeus, que se declaravam de acordo com este objetivo, embora sem ter em conta as suas posições políticas, sociais e religiosas. (6)

Esses são alguns dos milhares de termos utilizados, ora por um lado, ora por outro. De qualquer forma, o que se busca, e se quer, dentro do razoável e do possível, é a coexistência pacífica, aliás, não apenas pacífica, mas proativa dos povos Israelense e Palestino.

É possível um Estado Palestino ao lado do Estado de Israel? E, com essa pergunta, é possível o partilhamento territorial, não como separação, mas como possibilidade de ambos os povos viverem em paz e desenvolverem suas potencialidades culturais, econômicas, políticas etc?

Houve um tempo em que os árabes recusaram essa solução e, ainda, Burguiba o denunciara:

Na Palestina, pelo contrário, os árabes rejeitaram as soluções de compromisso. Recusaram a partilha e as cláusulas do Libro Branco. Lamentaram-no depois. (7)

Sim, é possível – e viável, um Estado Palestino ao lado de um Estado de Israel, com autonomia territorial, política, jurídica, bem como um acordo econômico e (por que não?) um acordo para desenvolvimento turístico e integrativo da região.

© Pietro Nardella-Dellova

in Antropologia Jurídica: uma contribuição sob múltiplos olhares. São Paulo: Editora Scortecci, 2017, pp 361 e segs.

 

NOTAS

  1. Exemplo disso é o livro Dossier do Conflito Israel-Árabe (original “Le Conflit Israelo-Árabe), prefaciado por Jean-Paul Sartre e diversos autores. Tradução portuguesa. Porto: Editorial Inova, 1968;
  2. Tratei disso quando proferi palestra na EMERJ – Escola da Magistratura do Estado do Rio de Janeiro, com o título “Israel e Palestina: um olhar crítico e dialógico”, em 2014: https://www.youtube.com/watch?v=4pczDFBe2A0, acesso em 6/11/2017
  3. Foi assim que dialoguei com Abdel Rahman Abu Hwas, palestino, aliás, convidado por mim a escrever o tópico anterior, por ocasião de nosso encontro em palestra na Universidade Federaldo Rio Grande, FURG, RS, em 2014;
  4. Jean-Paul Sartre, “Pela Verdade”, in Dossier do Conflito Israelo-Árabe. Tradução portuguesa. Porto: Editorial Inova, 1968, p. 16;
  5. Habib Burguiba. “Entrevista”, in Dossier do Conflito Israelo-Árabe. Tradução portuguesa. Porto: Editorial Inova, 1968, pp. 1042-1048;
  6. Dossier do Conflito Israelo-Árabe. Tradução portuguesa. Porto: Editorial Inova, 1968, p. 1049;
  7. Habib Burguiba. “Discurso pronunciado em Jericó, em 3 de março de 1965”, in Dossier do Conflito Israelo-Árabe. Tradução portuguesa. Porto: Editorial Inova, 1968, pp. 1037-1042;

Novamente o velho

Há certas coisas que parecem mesmo não quererem evoluir. As cenas brutais do conflito Israel-Palestina repetem-se mais uma vez com um quase cânon histórico, um pesadelo repetitivo, um refrão de um mau e inacabado poema humano.
A imutabilidade de sua forma e conteúdo reflete invariavelmente a rigidez da estrutura subjacente que no plano do indivíduo chamaríamos de neurose no modelo freudiano de estudo do inconsciente. No modelo coletivo, embora o termo neurose fosse difícil de aplicar, certamente a análise baseada nos mitos fundadores dessas duas sociedades certamente se aplica.
A história das nações em geral traz no seu passado às vezes não tão longínquo cenas semelhantes e estruturas de pensamento e ação dentro desse padrão. Será difícil encontrar um país moderno que não tenha passado por conflitos das mais variadas formas físicas e temporais, com as mais variadas formas de interferência externa ou como frutos de conflitos internos mal ou não resolvidos. Voltando ao plano do indivíduo, a prática médica nos ensina que os conflitos internos mal sanados levam os indivíduos à doença, à disfunção, e às vezes a desfechos violentos sejam eles auto-inflingidos ou hetero-inflingidos, traduzidos na realidade como sofrimento pessoal, automutilação e eventualmente suicídio por um lado, e por outro lado, as cenas horripilantes que afrontam a dignidade de nossa espécie e que recheiam o noticiário dioturnamente envolvendo feminicídios, homicídios, infanticídios e ataques em massa a escolas e outros agrupamentos de vítimas escolhidas pelo seu peso simbólico e capacidade de gerar terror.
As sociedades, assim como os organismos humanos, adoecem seguindo uma somatória de modelos individuais de patologia, ação e dano. A atual pandemia é um bom modelo de estudo. Talvez metade das mortes pelo coronavírus seja causada por um sistema imunológico disfuncional, onde a “turma do deixa disso” falha ou a turma da “tropa de choque” não tem medida de ação, reproduzindo fielmente os fenômenos do macrocosmo social, seguindo um modelo quase espelho.
A etiologia do conflito Israel-Palestina é de compreensão difícil pela sua complexidade que talvez derive de um sem fim de narrativas em disputa, todas aparentemente válidas, que exigem a resolução de um paradoxo que confronta o ínfimo tamanho do território em que se dá com a significância simbólica que toma nossas almas em mais que óbvia desproporção se comparado com processos de territorialidade, sofrimento e dano infinitamente maiores.
Infelizmente essa complexidade não recebe o devido investimento intelectual por parte de setores da sociedade que terminam por formar juízo por um conjunto de valores carente das devidas ponderações contextuais que deveriam ser aplicadas. Por exemplo, Israel é acusado de ser “genocida” sem se considerar que a população palestina só cresce incessantemente desde o início do conflito em 1948, e também sem se considerar por exemplo, que fosse a guerra de 1973 perdida por Israel teríamos certamente uma guerra de extermínio com medidas reais de genocídio e destruição.
Que Israel e seus últimos governos cometem erros graves na sua política para o conflito é inegável e constrangedor para judeus como eu, que enxergam a existência desse estado como um resgate histórico e simbólico que poderia ter seguido outros caminhos. Mas a grande questão em curso atual é que não foi Israel o único a cometer erros nessa condução, e de um lado, pelo menos, todas as narrativas excluem do radar as brutais disfuncionalidades da sociedade palestina que sustentam no poder, através de meios que aqui consideraríamos ilegítimos, um aparato bélico e um sistema de governo corrupto e que preocupa-se apenas com o status quo em detrimento dos legítimos interesses de seu povo.
O olhar brasileiro, em especial, o da esquerda brasileira sobre o conflito Israel-Palestina poderia se enriquecer pelo estudo profundo das raízes dos conflitos internos brasileiros que levou à eleição de Jair Bolsonaro e que não obstante o amplo espectro de crimes e genocídio praticado não sofre deposição ou sanção minimamente significativa. Outros conflitos crônicos e de territorialidade infinitamente maior, como o recente massacre em Jacarezinho também oferecem oportunidade para uma reflexão sobre como esses fenômenos são difíceis e complexos em sua resolução, estando seus vetores profundamente arraigados em nossa sociedade, desde a viela da comunidade periférica até as mais altas esferas de poder, institucional ou não.
Como judeu de esquerda, confesso-me também constrangido pela postura de setores dos diversos partidos de esquerda brasileiros frente ao conflito Israel-Palestina, que abraçam uma narrativa unilateral sem qualquer ponderação ou crítica sobre os métodos de instituições como o Hamas, Hezbollah e suas conexões externas com outras nações e grupos que explicitamente pregam “apagar Israel do mapa”. Ou, que deliberadamente abraçam a tese indefensável de “extermínio” do povo palestino, que se dotada de mínima realidade seria levado a cabo com facilidade e rapidez entorpecedoras. Deveria sim a nossa esquerda recorrer à sabedoria de quem esteve lá de fato e dedicou-se a estudar de forma isenta a realidade como o deputado Jean Wyllys, ou mesmo o Presidente Lula que sentou à mesa com Ahmedinejad e seus assessores e experimentou as dificuldades locais.
Argumentando com o absurdo para fins meramente ilustrativos, como seria se em um espaço de dois dias a comunidade da Rocinha, no Rio de Janeiro, disparasse mais de mil foguetes com bombas sobre os prédios do Leblon e Copacabana? Seríamos capazes de romantizar o ato sob uma narrativa de resistência? Seríamos capazes de nenhuma tentação de reação e neutralização da capacidade bélica daquela comunidade? O que temos visto recentemente diz que não. Por muito menos que mil foguetes com bombas promovemos massacres proporcionalmente ainda mais brutais. O número de vítimas e a brutalidade do recente episódio em Jacarezinho são também constrangedores e nos denunciam como incapazes de promover a paz aqui ou no Oriente Médio, e com este humilde reconhecimento deveríamos quedar-nos silentes, talvez em prece por um mundo melhor onde ninguém se arrogue a estabelecer acusações e culpas estando completamente fora do contexto e repetindo, neuroticamente, os comportamentos determinados também pelos nossos mitos fundadores, por nossas crenças pessoais e eventualmente grupais, o que apenas sustenta o velho onde deveria surgir o novo.

Israel na mídia

É realmente incrível a importância que tanta gente dá a Israel, um país menor do que Sergipe, com 9 milhões de habitantes, que fica longe do Brasil. Nem mesmo a irrisória comunidade judaica brasileira explica isso.

O fato é que Israel não sai das manchetes. São notícias hora boas, hora ruins dependendo também de que lado da história se encontra a mídia, ou seus leitores. São tantas informações, que as pessoas nem se dão ao cuidado de verificarem a fonte e sua veracidade.

No início da pandemia, por exemplo, se dizia que Israel tinha descoberto a cura, que teria vacinas em poucos dias e todo tipo de exaltação a medicina israelense. Nada disso era verdade. O importante era promover falsas esperanças dando crédito a Israel e as relações de Bolsonaro com Netanyahu.

Hoje com mais de 5.000 mortes, no terceiro Lockdown com cerca de 8.000 novos casos diários, ainda assim somos elevados ao primeiro lugar em termos percentuais de vacinação da população. Provavelmente até o mês de Abril, todos que quiseram, somados aos que tinham permissão, vão estar vacinados. Como todos, estamos pagando o preço.

E sim, esta semana, dois hospitais de ponta aqui de Israel tiveram resultados de cura com o uso de fármacos desenvolvidos por eles em pacientes graves da Covid-19. Estes medicamentos estão sendo testados e ainda vão demorar a chegar ao mercado. No entanto, se confirmado o que está sendo visto até aqui, a equação se fecha com o uso preventivo da vacina e da medicação no caso de infecção.

Muito se falou também nos últimos dias com relação a vacinação dos palestinos, de que seria uma obrigação de Israel que estaria sendo descumprida. Antes de tudo, a Autoridade Palestina nunca pediu oficialmente que Israel fornecesse vacinas. Todas as aquisições feitas por eles, ou recebidas como doação foram recebidas. Antes disso Israel já havia doado material médico e máscaras.

Esta semana Israel doou 5.000 vacinas. Até agora elas vem sendo utilizadas para vacinar o corpo médico e os serviços de segurança. Sim, antes de vacinar os mais necessitados depois do corpo médico, eles estão vacinando a polícia. E a bem da verdade, a pandemia não está tão grave nos territórios e nem em Gaza.

Alguns funcionários brasileiros da Organização de direita americana “Stand With Us”, com estreitas relações com o governo Israelense, pagos para defender Israel de qualquer ataque, ou mesmo suposição de estar fazendo alguma coisa moralmente duvidosa se apressaram em mostrar que de acordo com os acordos de Oslo, que Israel descumpre diariamente, a saúde nos territórios está a cargo da Autoridade Palestina. Uma piada de mau gosto.

Neste momento, a situação nos territórios é melhor do que em Israel, e com certeza do que no Brasil. Portanto, não há razão para maiores preocupações.

A Covid-19 continua se espalhando através das diversas mutações que ocorrem. Isto é totalmente previsível e por enquanto não existe nenhuma razão para se duvidar da eficácia das vacinas com relação a elas. O problema das novas mutações é que elas se espalham mais rapidamente do que a capacidade de se vacinar as populações.

Se o ano que passou foi de incredulidade com o que aconteceu, este ano é de esperança. A maioria dos países vão poder começar a voltar a ter uma vida muito próxima do que existia antes. Uma questão de tempo, mas a solução para ele já existe.

 

 

Guerra de Civilizações, Guerra de Religião

Via de regra, com exceção de pessoas geniais, como Orson Welles, que virou capa da revista Visão, uma entrevista vale por uma ou duas declarações. O resto são banalidades. Foi o caso da exclusiva que fiz com o aiatolá Khomeini, dias antes dele embarcar para Teerã como líder inconteste da maior revolução da segunda metade do século 20.  Após quinze minutos de frases feitas recheadas de citações do Alcorão, desqualificando o xá e seu regime corrupto, o velho de barbas brancas, olhos negros profundos, frieza siberiana, sentiu-se à vontade para falar. Sei lá eu por quê. Após um silêncio constrangedor, olhou nos meus olhos e em um tom pausado e solene declarou:

“Nós não estamos apenas transformando o Irã, não estamos só fundando uma República Islâmica, estamos mudando o mundo. Conosco o islã irá se tornar a religião global. A Revolução Islâmica está destinada a ter um “caráter universal”, a se alastrar para muito além das fronteiras iranianas, para os países muçulmanos obviamente, mas também para o resto do mundo. A existência de um “califado planetário” está prevista no Alcorão. Caberá a nós construí-lo, em nome do profeta, “por todos os meios”.

“Alahu Akbar ! Alá é grande!”

Quatro expressões – revolução islâmica, caráter universal, califado planetário e por todos os meios – me deram calafrios, muito embora na época eu fosse incapaz de compreender a dimensão do que acabara de ser dito. Não podia alcançar, nem intuir, a importância daquelas palavras ameaçadoras. Estava longe de imaginar que naquele instante, naquele vilarejo de Neauphle-le-Château, a 30 quilômetros de Paris, debaixo de uma tenda desconfortável plantada em direção da Meca, meu gravadorzinho de fita cassete estivesse registrando o que viria a ser uma estratégia geopolítica expansionista e sangrenta, que entraria no século 21 e  germinaria a jihad, a guerra santa islâmica.

Hoje, passados 41 anos, olho para trás e compreendo que aquele momento marcou uma transformação profunda e duradoura; mudou o mundo muçulmano e deu início a uma nova cruzada, em que o nome do Jesus da Idade Média foi substituído pelo de Maomé. O islã, com todas as suas vertentes ideológicas, se lançou num projeto de poder. Dentro e fora do espaço muçulmano, como anunciara o aiatolá. No plano “interno”, a cisão entre as diferentes correntes – xiitas e sunitas – transformou-se em guerra aberta, liderada pelas potências regionais, Arábia Saudita e Irã, com a inclusão recente da Turquia. O objetivo é claro: criar espaços de influência em torno do Mediterrâneo.

O terrorismo faz parte dessa estratégia geopolítica. Teerã e Riad ontem, Ancara hoje, foram – e são – os grandes financiadores dos atentados que ensanguentam o mundo.

Num determinado momento, os palestinos foram usados  como justificativa para a violência. Depois, foram abandonados, jogados no lixão do esquecimento. Hoje, os palestinos são ignorados e até desprezados pelos países árabes.

Tanto o Irã como a Arábia Saudita e a Turquia, têm se unido a países ocidentais interessados nas riquezas da região e não hesitam em combater uns aos outros em teatros como a Síria, Líbano, Líbia ou Iêmen.

Durante anos, os conflitos no Oriente Médio giraram em torno de um fator comum: a rivalidade entre Irã e Arábia Saudita. Esse antagonismo inflamou a violência em áreas já devastadas pela guerra e acabou por criar novos campos de batalha, onde anteriormente existia uma relativa paz.

São estratégias de poder hostis que se digladiam. Neste contexto, o combate a Israel, que outrora serviu de pretexto para alicerçar a unidade árabe,  tornou-se uma questão subalterna, como provam os recentes acordos de retomada das relações diplomáticas entre Tel Avive, Cartum, Abu Dhabi e Manama, e o desinteresse pelo conflito israelo-palestino. A própria Arábia Saudita, através de seu príncipe herdeiro Mohammed bin Salman, já reconheceu oficiosamente o direito à existência de Israel em paz e segurança. Só não o fez abertamente porque, como sede dos principais locais sagrados do Islã, isso simbolizaria a normalização das relações de Israel com todo o mundo muçulmano. E tanto o xiismo como parte do sunismo ainda não estão prontos a dar o passo.

Por outro lado, na briga entre as duas vertentes do Islã, o Irã se coloca como o grande defensor dos xiitas na luta pela hegemonia muçulmana. Não nega esforços nesta direção, seja atuando diretamente na guerra síria, seja  armando militar e ideologicamente movimentos terroristas como o Hamas e o Hezbollah.

A Turquia entrou na luta pela conquista regional mais recentemente, a partir do momento em que houve uma tentativa de golpe contra Recep Erdogan (real ou imaginária ?) e que o líder turco fez uma verdadeira purga nas forças armadas, nos tribunais, na polícia  e na sociedade civil em geral, prendendo meio milhão de pessoas e acabando com toda contestação. Conquistou assim a fidelidade do exército e instaurou uma ditadura político-islâmica, lançando-se na busca de seu grande sonho, a refundação do império otomano. Além da influência no Oriente Médio, voltou-se para o Mediterrâneo, criando zonas de conflito com a União Europeia e o norte da África. Para tanto, não hesitou em traçar um estranho diálogo com Vladimir Putin, ora amigo ora adversário,  e desafiar a Aliança Atlântica, da qual a Turquia faz parte. De quase membro, passou a espicaçar a União Europeia.

Erdogan pôs um ponto final no país secular de Kemal Atatürk, inventor da Turquia moderna, para tornar-se um verdadeiro sultão.

Nos três casos, a religião é colocada a serviço da política, da geopolítica e do devaneio de seus líderes. No Irã, a principal autoridade é o chefe dos Guardiães da Revolução, no caso da Arábia Saudita é o príncipe herdeiro, no da Turquia, o presidente-sultão-ditador.  Não há espaço para a separação entre a Igreja e o Estado.

O ocidente e até a China de Xi Jinping são peças nesse xadrez geopolítico, bem como outros grandes países muçulmanos, como o Paquistão. Os Estados Unidos são ao mesmo tempo o Grande Irmão de Riad e o Satanás de Teerã, a Europa (e a França em particular) o infiel dentre os infiéis, a China um possível futuro amigo, ou ao menos aliado.

Se de um lado o mundo muçulmano nem sequer dialoga entre si, de outro os instrumentos para exportar seus projetos de poder são cada dia mais limitados. O fracasso da Primavera Árabe jogou a Irmandade Muçulmana no ostracismo e cada país caminhou numa direção. Os grandes movimentos que alimentavam a violência expansionista – Al Qaeda, Daesh, Al Qaeda do Magreb Islâmico – foram derrotados militarmente e tentam dificilmente se reconstruir para existir através do terror.

Diante desse quadro, uma parcela dos muçulmanos da diáspora voltaram-se para os valores tradicionais. Enquanto os países exportadores da teoria de Khomeini, numa atitude dúbia, passaram a alimentar o ódio aos infiéis, através de uma enorme rede de mesquitas e de associações culturais, esportivas e outras, a exemplo dos evangélicos no Brasil. Optaram por se implantar nos subúrbios dos centros urbanos europeus, onde prosperam conjuntos habitacionais desumanos que com frequência se transformam em guetos, abandonados pelo Estado, onde vivem populações magrebinas.  Semearam em terreno fértil, onde já reinava a xenofobia e a islamofobia plantadas pela extrema-direita. A mesma Europa, que abriu as portas a milhões de refugiados das guerras fraticidas, transformou-se no principal palco, porém não único, da violência islamita.

A respeito, é mister abrir um parêntese para assinalar um erro crasso e frequente dos “analistas” da imprensa brasileira, que se auto-intitulam “experts” em assuntos internacionais. Ao criticar o discurso de Emmanuel Macron após a decapitação do professor Samuel Paty, confundem o termo Islamita, islamiste em francês, com muçulmano. Islamiste não significa muçulmano e sim extremista islâmico, aquele que se radicalizou. Erram ao confundir os dois termos, talvez por ignorância; acabam escorregando num amálgama mal odorante.

Necessário sublinhar para que não haja dúvida: a violência vem dos islamitas e não da comunidade muçulmana, cujos representantes a denunciam sistematicamente.

O terrorismo faz parte do projeto de poder e pouco tem a ver, por exemplo, com as caricaturas de Maomé. Até o século 16, as imagens do profeta, hoje proibidas pelos extremistas sunitas, integravam a iconografia islâmica. Centenas de quadros magníficos, representando Maomé, embelezam até hoje as paredes do Palácio Topkapi, de Istambul. A proibição veio de uma reescrita do Alcorão pela seita radical. E é polêmica até hoje entre os estudiosos do islã.

Assim, as caricaturas verdadeiras de Maomé (veja o texto sobre as falsas caricaturas, no final) publicadas inicialmente na Dinamarca e depois no France Soir e finalmente Charlie Hebdo entre outros jornais europeus, são apenas a parte visível do iceberg. Servem de bode expiatório, na medida em que os integristas precisam de uma razão para explicar às suas comunidades atos que não tem nenhuma. Se as caricaturas são tão provocadoras a ponto de explicar a decapitação de um professor, como entender a degola de um sacristão, a morte a facadas de uma dançarina brasileira ou a morte a tiros de várias pessoas diante de uma sinagoga em Viena só para citar os ataques mais recentes? como compreender os atentados islamitas cometidos no Reino Unido, na Alemanha, na Holanda, na Itália, na Noruega, na Espanha e até na longínqua e pacífica Nova Zelândia? como aceitar que os islamitas tenham lançado, via redes sociais, ameaças de morte à comunidade asiática de Paris, sob o argumento de que os chineses, além de terem criado o corona vírus, cometem as piores atrocidades contra os uigures (muçulmanos sunitas de Xian Jiang), escravizando, assassinando, estuprando?

As caricaturas não podem ser usadas como justificativa. A violência como resposta é falta de argumento. Aliás, o jovem que feriu dois jornalistas em frente à antiga sede do Charlie, no final de setembro, confessou a amigos nunca ter visto as tais caricaturas, nem sabia que o jornal satírico tinha mudado de endereço após o massacre de sua redação, cinco anos antes.

Vingar-se da França colonialista? tampouco. Os autores dos recentes atentados são chechenos, paquistaneses, afeganes. Apenas um era de origem tunisiana. O que não exime o país de uma mais que necessária autocrítica, que, diga-se de passagem, está sendo feita, embora tardiamente.

Por que então fazer da França ou de outros países europeus alvos privilegiados do terrorismo islâmico? Porque os atentados cometidos contra populações muçulmanas em países muçulmanos, embora muitíssimo mais numerosos,  não viram notícia na grande imprensa internacional. A repercussão da tentativa de morte da menina Malala, que cometeu o crime de querer estudar, é exceção, apesar da quantidade incontável de Malalas.

O que explica o terrorismo islâmico é o projeto de poder de Erdogan, bin Salman, aiatolá Ali Khamenei pela supremacia no mundo islâmico. Os atentados só são possíveis graças a uma extraordinária e eficaz rede de associações religiosas ou não, instaladas na Europa e financiadas sobretudo por essas três potências islâmicas, mais o Qatar e o Paquistão. Várias mesquitas instaladas em solo europeu, dirigidas por imanes originários e pagos por esses países, defendem abertamente a xaria, a lei islâmica, em detrimento da Constituição local. Nelas, legitima-se desde o casamento forçado de crianças de 10 anos até a morte por apedrejamento de homossexuais ou de mulheres adúlteras. Os frequentadores são instigados a matar os infiéis. Acabam se radicalizando, alguns matando.

Mila, uma estudante adolescente de 16 anos, viu sua vida virar de cabeça para baixo no dia 18 de janeiro, quando publicou um vídeo criticando o islã para se defender do ataque homofóbico de um rapaz muçulmano, que a chamou de “lésbica asquerosa”. Seguiu-se então uma das maiores ondas de mensagens insultantes jamais vista na história da internet na França. Foram cerca de duzentas por minuto nos dias que se seguiram. Desde então Mila recebe ameaças de morte diárias, já foram mais de 35 mil, está sob proteção policial e foi obrigada a deixar de frequentar a escola.

Contra sua vontade, Mila tornou-se um ícone do partido  xenófobo Rassemblement pour la République, de Marine Le Pen, que defende a expulsão de todos os estrangeiros.

Para a divulgação das mensagens hediondas, nada melhor que as redes sociais divulgadoras do ódio, islamita como neofascista.

Face a esse quadro, alguns politólogos europeus não hesitam em falar em guerra de civilizações, enquanto outros veem aí uma guerra de religião. Estamos diante de uma cruzada em que o futuro da democracia e dos direitos humanos está em risco. Se os governos não adotarem uma atitude firme de combate a todas as discriminações, a todos os fundamentalismos – islamita, judaico, cristão – dentro das regras de respeito ao Estado de Direito, a extrema-direita ocupará o espaço. O tempo é agora, se já não for tarde demais.  A pandemia abre uma janela de oportunidade, que se não for aproveitada fará com que a saída do confinamento marque a vitória do populismo fascista e transforme o velho mundo iluminista na antessala do inferno dantesco.  Se abandonarmos nossos valores, expressos na Declaração Universal dos Direitos Humanos, estaremos dando razão aos integristas de todas as religiões e ideologias.

                AS FALSAS CARICATURAS QUE INCENDIARAM O MUNDO

Num texto sobre a história das caricaturas, a jornalista Caroline Fourest, ex-Charlie, conta:

“Em 30 de setembro de 2005, o Jyllands-Posten, principal diário conservador dinamarquês, publicou doze desenhos sobre Maomé nas páginas de cultura, sob o título “Os rostos de Maomé”. Não por provocação gratuita, mas para denunciar uma forma de censura. Meses antes, um autor dinamarquês de esquerda, alérgico ao fundamentalismo, Kare Blutgen, não conseguiu encontrar um só desenhista que aceitasse ilustrar um álbum para crianças contando a vida de Maomé. O horror do assassinato do cineasta de extrema-direita Théo Van Gogh, degolado por um islamita marroquino, em 2004, ainda estava na cabeça de todos.

No mesmo Jyllands-Posten, um humorista escreveu: não tem problema urinar na Bíblia na frente das câmeras, mas eu não faria o mesmo com o Alcorão.

Em Londres, após os atentados de 7 de julho na capital britânica (52 mortos e mais de 700 feridos), o diretor da Tate Gallery anulava uma exposição satírica, já programada, sobre o Talmud, a Bíblia e o Alcorão. Na Suécia, meses antes, o museu de Goteborg anulou uma exposição sobre símbolos sexuais e citações do Alcorão.

Foi nesse contexto de autocensura que o editor de Cultura do jornal dinamarquês teve a ideia de realizar um concurso de desenhos sobre a imagem de Maomé.

A maioria dos desenhos apresentados mostrou um profeta estilizado e poético. Alguns satirizavam o jornal. Dois deles eram mais duros: um mostrava Maomé com um facão em companhia de duas mulheres vestindo burca. O outro, um Maomé severo com um turbante em forma de bomba. Era uma forma de denunciar o terrorismo cometido em nome do profeta.”

Até que um grupo islamita paquistanês colocou a cabeça dos desenhistas a prêmio. Mas não por causa das caricaturas publicadas no jornal dinamarquês e sim por causa de falsas charges.

Como assim? eis aqui a verdadeira história, pouco conhecida: com o intuito de colocar ainda mais lenha na fogueira, Abou Laban e Ahmed Akkari, dois paquistaneses de grande prestígio, levaram para uma reunião com líderes do Egito, Turquia, Líbano, Síria e Golfo Pérsico um dossiê contendo caricaturas publicadas em sites fascistas na internet, que nada tinham a ver com aquelas do Jyllands-Post. Dentre elas, uma acusando Maomé de pedófilo, outra mostrando um homem com cabeça de porco, outra ainda com Maomé sendo sodomizado por um cachorro.

Foram estas caricaturas que incendiaram o mundo muçulmano, provocando protestos violentos por multidões no mundo muçulmano e uma onda de atentados, inclusive contra embaixadas da Dinamarca, Áustria, Noruega e França no Oriente Médio.  Furioso, o ministro egípcio das relações exteriores, Ahmed Aboul Gheit, presente à tal reunião, entrou com um projeto de resolução na ONU pedindo a proibição de todo ataque às religiões.

A xaria contra as caricaturas estava lançada.