Torá: Bereshit-Israel

Torá: Bereshit-Israel

I
A Torá não é um livro de salvação, não é um livro para um mundo futuro e messiânico, não é um livro de moral ou que apresente aspectos metafísicos.
II
A Torá é um Livro de “viver a vida na estrada”, de “atravessar mares e desertos reais”, de ponderação sobre processos de formação do mundo e de formação de um Povo, desde suas origens semíticas, mesopotâmicas, egípcias, canaanitas e, então, hebraicas, israelitas e judaicas.
III
A Torá é isso: Bereshit (reflexões de origem e fundamentos éticos e abraâmicos dos hebreus); Shemot (os nomes, direitos principiológicos e vidas fundantes dos israelitas); Vayikrá (o chamamento para processos religiosos dos antigos cultos sacrificiais e regramentos sacerdotais); Bamidbar (a experiência do deserto e a vida como ela é) e; Devarim (as palavras que retomam e estabelecem princípios que constituem o mundo judaico).
IV
Não tem metafísica ou projeção celestial na Torá, tem experiências reais do aqui e agora. Não tem moral, tem Ética e princípios de convivência! Não tem nada de messiânico e nada do “céu e além-mar”. Na Torá, há as lições primeiras de dignidade humana, de direitos humanos e de direitos para a convivência.
V
A Torá não é Velho Testamento ou Antigo Testamento, pois não precede a qualquer texto. A Torá é! A Torá é a ligação de Bereshit (primeira palavra) e de Israel (última palavra).
VI
Enfim, a Torá não é um livro de “chegada”, é um livro de processos abraâmicos, hebraicos, israelitas e judaicos. É livro de partida e de caminhada…
VII
É isso, resumidamente, e um pouco mais..
.
*
(Pietro Nardella-Dellova)
NOTAS
1. Extratos de textos de Pietro Nardella-Dellova, in A Crise Sacrificial do Direito, (USP, 2000); A Morte do Poeta nos Penhascos (2009) e; Judaísmo e Direitos Humanos (PUC/SP, 2020).
2. Foto: Eu e a Torá na Sinagoga Massoret
Jesus – Judeu e Rabi – não é o outro, mas um Tu no contexto judaico da melhor e mais elevada cultura e estudo

Jesus – Judeu e Rabi – não é o outro, mas um Tu no contexto judaico da melhor e mais elevada cultura e estudo

(…)

Jesus não é o outro, mas um Tu no contexto judaico da melhor e mais elevada cultura e estudo. Se a Igreja deve descobrir seu elemento judaico, também a Sinagoga, por seu lado, deve descobrir a importância de Jesus, o Judeu, para o Judaísmo e para o mundo.

Não fosse por outro motivo, seria, ao menos, para o cumprimento da Mitzvá positiva 209, que resume o motivo pelo qual se estabeleceram Sinagogas pelo mundo: “diante dos Eruditos e dos Mestres, te levantarás e honrarás suas faces”!

Se com o termo Mestre devemos reconhecer, não apenas quaisquer pessoas do mundo acadêmico, mas, no contexto judaico quem ensina o Judaísmo, principalmente a Torá e os Profetas, Jesus, então, merece um lugar de honra indiscutível.

O que fez ele? Não apenas confirmou a Torá em sua integridade, mas, também, em consonância ao que fez Hilel, deu os fundamentos do Judaísmo.

O Judaísmo de Jesus, como de outros Mestres de sua envergadura e, antes deles, dos Profetas e Patriarcas, resume-se em uma palavra proferida por Jesus bastante significativa: “ensinarei coisas ocultas desde a fundação do mundo”.

Também foi ele quem esclarecera, depois de confirmar a validade e permanência de toda Torá e dos Profetas, que isso tudo resume-se em dois mandamentos: “amarás o Senhor teu Deus com toda a tua força e amarás teu próximo como a ti mesmo”. Destes dois mandamentos dependem toda a Torá e os Profetas”.

Recuperar Jesus é, por isso mesmo, recuperar aquele Judaísmo de amor que forma a força mais sutil do mundo. Para propor esta substância nas relações principalmente na que respeita à emancipação da pessoa humana.

Talvez consigamos compreender que resgatar Jesus, em ambos os ambientes, bem como sua experiência de vida e a dos seus discípulos imediatos, ou seja, da comunidade primitiva, aproveitando-os para que se lancem luzes, quiçá novas, ajuda na organização social dos tempos atuais, como o Sermão da Montanha já considerado como uma das pérolas do Judaísmo hillelista tanto por Pinkuss, quanto por Walter Rehfeld e J. Guinsburg, todos aqui mencionados.

Sobre o mesmo Sermão da Montanha, disse Gandhi, na obra organizada por Louis Fischer, certa vez: “se naquela oportunidade eu tivesse de enfrentar somente o Sermão da Montanha e minha própria interpretação dele, não hesitaria em dizer: oh, sim, sou cristão… mas, negativamente, posso dizer-vos que muita coisa que passa por cristianismo é uma negação do Sermão da Montanha…” (1984:190)

E com Buber, o filósofo Judeu do diálogo, que compreendeu o pensamento de Jesus como inteiramente formado pelo Judaísmo do amor, não simplesmente por sentimentos que acompanham o amor, que não podem ser confundidos com ele. Este amor judaico é indivisível e clama sua atenção sobre toda a humanidade: “a los sentimientos se los tiene; el amor es un hecho que se produce … el sentimiento de Jesús para con el poseso es otro que su sentimiento para el discípulo bienamado; pero el amor es uno … aquel que toda su vida está clavado sobre la cruz de este mundo porque pide y exige esta cosa tremenda: amar a todos los hombres” (1969:19)

(…)

Pietro Nardella-Dellova. Judaísmo in Judaísmo, Cristianismo e Islam. Rio de Janeiro: Editora Vozes, 2023, p. 116 e segs.

 

Algo sobre antissionismo, antissemitismo e as dez fontes de antissemitismo

Algo sobre antissionismo, antissemitismo e as dez fontes de antissemitismo

1
Reafirmo que a Esquerda antissionista não é, e nunca foi, apenas antissionista, mas antissemita, na exata medida de negar ao Povo Judeu a sua autodeterminação e o direito inegociável de viver na sua terra ancestral. Stalin era antissemita (e antissionista)!
2
Na Direita, Mussolini e Hitler eram antissemitas (e antissionistas). Getúlio Vargas era antissemita (e antissionista).
3
Há entre o antissionismo e o antissemitismo uma estreita relação de causa e efeito. O Sionismo nasceu para ser movimento de autoafirmação judaica em resposta ao antissemitismo. Uma das propostas sionistas era dar ao Povo Judeu a sua Pátria e, em especial, sua antiga e histórica terra de Israel (as raízes disso contam 4000 anos!).
4
O atual antissionista sequer esconde seu antissemitismo, aliás nem dá para esconder: é um fato!
5
Por outro lado, é inteligente e honesto não confundir Sionismo com Judaísmo. Judaísmo é a identidade milenar de um Povo; Sionismo, um movimento emancipador judaico de luta contra o antissemitismo.
6
Porém, ser Sionista não é a mesma coisa de ser pró-Netanyahu (ele é a negação do Sionismo histórico). Na Democracia de qualquer país, escolhem-se governos. O governo Netanyahu pode ser aceito ou combatido – faz parte do campo político!
7
Ser antissionista, hoje, representa o discurso fácil, osmótico e agressivo de eliminação do Estado de Israel e, com ele, do Povo Judeu-Israelense.
8
No que respeita aos ataques, diretos e indiretos, sofridos por Judeus nos últimos tempos (e eu sou um deles), são ataques antissemitas travestidos de antissionismo. O antissemitismo tenta (mas não consegue) esconder-se no antissionismo.
9
Dirão, como dizem em flagrante tentativa de silenciamento, que escrevo isso porque sou Judeu. Escrevo também por ser Judeu.
10
Escrevo sobre antissionismo e antissemitismo da mesma forma que abordo outras facetas da iniquidade: o racismo, a misoginia, a homofobia, a transfobia, o etarismo, a exploração do trabalhador, a financeirização, a islamofobia, o anti-cristianismo, o antiumbandismo, o anti-candomblecismo e outras formas de destruição humana.
*
*
DEZ FONTES DE ANTISSEMITISMO
Há nove tipos de antissemitismo e um décimo como sintoma de psicose:
1
o antissemitismo iraniano!
2
o antissemitismo do antissionista!
3
o antissemitismo do idiota da rede social!
4
o antissemitismo de quem morre de inveja dos Judeus (conf. Freud, Sartre e Adorno)!
5
o antissemitismo hitlerista!
6
o antissemitismo mussolinista!
7
o antissemitismo stalinista!
8
o antissemitismo esquerdopata universitário!
9
o antissemitismo osmótico!
10
e o antissemitismo do judeu que odeia o próprio espelho!
*
Para todos eles tenho um sonoro VAFFANCULO e a lei penal!
*
Pietro Nardella-Dellova, novembro de 2025
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Imagem: Open-air gathering of the Bundist Youth Organization, Warsaw, June 1932. Courtesy Bund Archives of Jewish Labor Movement, New York
Rav Giam – HaZaken, e a Caneca d’água: aos pés e nas asas de um Mestre para a vida

Rav Giam – HaZaken, e a Caneca d’água: aos pés e nas asas de um Mestre para a vida

HaZaken e a Caneca d’água

Após a retomada de fôlego, lembrei-me das visitas que recebi na noite anterior, à margem do Tirreno. Há pessoas que me legaram bênçãos e alegria, força e lucidez para caminhar constante, sem detrimento de mim mesmo. Ao deixar a Sinagoga do Quartiere Ebraico, fui à torneira de água bem no meio daquele pátio beber um pouco e me refrescar e, ao ver aquela água jorrando, tão clara e natural, recordei-me, com afeto e respeito, do Rav Giam, HaZaken que, havia alguns anos, ensinou-me muitas coisas sobre a vida e sobre D’us.

Rav Giam foi um bom homem com profundo apreço pela vida e pelas pequenas criaturas da natureza…

Lembrei-me de folhagens viçosas, arbustos verdejantes e árvores imponentes: o limoeiro, a figueira, a palmeira, o cafeeiro, a amoreira, o bambual, a bananeira, a goiabeira, a laranjeira.

E as flores perfumosas do seu jardim, entrecortado por passagens, bancos e muretas de paralelepípedos – tudo plantado e feito pelo seu coração!

Caminhei tantas vezes, na minha última infância e primeira juventude, de um lado para o outro, preso à sua mão, pulando o caminho das formigas, emudecendo-me, atônito, diante dos beija-flores. E descobrindo, a cada canto, a santidade do mundo das larvas, casulos e borboletas, a sabedoria das aranhas coloridas, no alto das árvores, o calor dos ninhos de passarinhos e a vida em sementes explodindo ao vento.

Naquele tempo, convidava-me a estar diante do poço e beber uma canecada de água fresca, e me orientava, também, a ver tudo ao redor porque o poço no rancho daquele bom Mestre era o centro de tudo, mostrando como a natureza e o homem são o corpo e a alma da Terra.

E os olhos iluminados pela bondade podem encontrar Poesia e música puras, e harmonia, e afeto, e respeito pela vida.

Jamais me esquecerei daquela ponte que ele fez entre uma árvore e outra com um galho ressequido para que as formigas pudessem passar pelo alto, protegidas!

E com aquela caneca à mão, meio que derramando água fresca, descobri, para sempre, que estes são os milagres mais próximos da manifestação de D’us!

Então, entendi por que ele se comovia com os cães enxotados, sarnentos e famintos nas calçadas, e os tomava nos braços sarando suas feridas com carinho, banhando-os e alimentando-os, dando-lhes nomes: Zé, Caçula, Preta, Marrom. E, dava-lhes, sobretudo, a amizade e a proteção de sua casa.

Entendi, também, por que arrebanhava das ruas para a pequena varanda tantos gatos quantos podia salvar do veneno da vizinhança. E por que alimentava centenas de pombos, recebendo-os na palma da mão, medicando asas e pés quebrados pela violência das pedras da ignorância.

                                 Tudo

                                     que eu

                             quero é aprender a misericórdia

                          e banhar-me às águas tranquilas da humildade,

                                           chorar, quem sabe, com os que choram

                           e sentir-me feliz com o sorriso alheio…

                                   tudo que eu quero é o tempo vivido e aproveitado

                                  com coisas de alma e sentimento

                         a semente que germina calada,

                                           o rio que corre incontrolável,

                                  a chuva, e o sol e a brisa…

                             tudo que eu quero é abraçar a humanidade

                                           e derrubar barreiras – tantas levantadas –

                            voar a espaços sem termo e conhecer infinitos rumos

                                      desacreditados e estar solto e leve…

                                               tudo que eu quero é o tempo presente

                                  pleno na vida presente e não desconfiar

                                               nem tecer planos

                                            que me conduzam a prisões

                                              irreparáveis

                                                         da existência.

Com aquela caneca de água à mão, compreendi por que ele dava morada ao sapo à direita da porta, e por que mantinha uma tampinha com açúcar para as grandes formigas pretas e, mais adiante, um vaso com água limpa para os passarinhos se refrescarem.

Certa vez, ele chorou compulsivamente, durante uma semana, a morte do besouro grudado à tinta nova que ele deixou no portal em sua horta. Afinal, cada vida perdida tem mesmo que ser pranteada, pois causa desequilíbrio na ordem das coisas. Compreendi em toda a dimensão o choro do Rav, do meu querido Rav Giam. Porque as mãos de um homem bom foram feitas para abençoar a terra, pois é com mãos e atos de bondade que abençoamos – e não com palavras!

Por isso mesmo, eu ficava ali muitas horas e, ao anoitecer dividia o seu pão comigo para depois ficar diante da sua mesa e caminhar, madrugada adentro, por cada uma das letras da Torá, ouvindo do seu peito a angústia e a ansiedade de Avraham, a solidão de Ytzchak, a força de Ya’akov e a determinação de Moshé rabenu pela liberdade.

E depois, fazia-me ouvir o choro de Yirmiahu pelas ruas de Jerusalém, e descer aos infernos de Yoná, e cantar os Tehilim e construir com os Mishlei e Cohélet, e renovar esperanças com Yeshayahu, e descobrir a beleza singular do amor do homem por uma mulher com os Shir Hashirim.

E nessas tantas madrugadas ouvíamos o barulho dos grilos, dos sapos e dos ventos, no seu jardim feito Éden. E, sobre sua mesa, tantos livros abertos, convertendo sua casa numa singular Beit Midrash onde eu era tocado no espírito e inspirado na alma a um verdadeiro Bar Mitzvá e, por tanta assimilação, a uma T’shuvá.

Mas, às vezes, atrás do Mestre aparecia o homem, o poeta e, escondidos entre seus livros, mantinha seus versos, e na profundidade de cada um deles, a sua própria angústia e ansiedade diante de D’us, a sua própria solidão, e força, e fraqueza a sua própria determinação pela liberdade e os seus  pés estrepados, o seu próprio choro e seu próprio grito. O seu próprio inferno, o seu antigo casaco cobrindo as mãos nos tempos de opressão e guerra, o seu próprio amor perdido no passo delicado de uma bailarina espanhola, em algum palco e, sobretudo, a sua própria humanidade!

Porque, segundo Rav Giam, para isto fomos feitos, ou seja, para salvar larvas e nelas, as borboletas, esperando em suas asas encontrar os olhos da mulher amada.

Fomos feitos para estudar a Torá, e esconder entre as páginas sagradas as folhas que ninguém compreende do amor simplesmente humano. Esperando encontrar alguma Dalila, alguma Betsabá, alguma Rainha do Sul, que nos arrebatam no seu encanto, que nos ensinem a amar e nos façam sofrer para, depois, nos fazerem remover colunas, vencer guerras e amar em outras mil oportunidades, procurando atrás de cada coluna, em cada palácio, e em cada dança de uma hebreia o rosto único, o perfume único e a dança única da mulher amada, venha ela de onde vier.

Por isso, a um só tempo, somos tão frágeis e tão fortes. Por isso, nosso jardim é, a um só tempo, Éden e Kaos. Por isso vivemos com um dos pés no leite, no mel, no pão e no vinho da terra prometida, e o outro nos tecidos finíssimos do Egito. 

E transformamos, tantas vezes, nosso Talit, o manto das Mitzvôt, em própria mortalha. Porque somos humanos, a despeito de toda maldade e de toda violência e de tantos obstáculos nestes quatro mil anos, continuamos plenamente humanos. E, como humanos, nos reerguemos, sempre, em nossa Bimá, porque ali se faz iluminar a Torá C’haim.

E é o humano que compreende e salva os cães, os gatos, os pombos, as formigas, os sapos e tudo. Porque queremos descobrir em cada um a amizade e o afeto que humanamente nos falta.

                                                Nas

                                               fachadas

                                    dos prédios

              nas pessoas e nos carros, nas coisas de uso comum,

              na linguagem usual  e na linguagem técnica

                      e na linguagem culta e no verso feito,

                 no peito que aparece no decote, na prece, no dote e no jeito,

                              no olho e no molho que cai sobre o prato

                   e o fato de primeira página que cai no olhar

                molhar dos dedos e os enredos de qualquer carne

                             que se quer sempre e o caminhar, o vestir  e o despir,

                  o par ao parar na ponte e a fronte que se ergue

                             antes que se envergue o altivo

                      cativo falante e a amante que se engraça,

                            a massa humana que divaga

                                              de semana em semana na vaga:

                       tudo parece buscar aparência

                tudo se move em torno do que parece e não há essência

                                 e há ausência de vida

                                              e não há vida

                                                      (e  n ã o  à  vida)

                                                                um não

                                                                        à essência!

Pietro Nardella-Dellova: HaZahen e a Caneca dágua in A Morte do Poeta nos Penhascos e Outros Monólogos. São Paulo: Editora Scortecci, 2009, pp. 46 e segs.

Quando a Fé Busca Refúgio na Má-Fé


Deixa eu te perguntar uma coisa: quando você escolhe ignorar algo para conseguir focar em outra coisa, isso é sabedoria ou fuga? A resposta não é simples, e é exatamente aí que mora o problema dos ultraortodoxos que protestaram hoje em Jerusalém.
Sydney Smith disse uma vez que precisamos ter coragem de ignorar muitas coisas para não terminarmos ignorantes de tudo. Faz sentido, não? Vivemos em um mundo com infinitamente mais informação do que qualquer cérebro humano consegue processar. Então você precisa escolher. O físico ignora teoria literária, o poeta ignora mecânica quântica, e tudo bem. Ninguém consegue saber tudo.
Mas aqui está a diferença crucial: uma coisa é mapear o território do conhecimento humano, reconhecer seus próprios limites e, então, fazer escolhas estratégicas sobre onde investir sua atenção. Algo completamente diferente é se recusar a olhar o mapa inteiro, construir paredes altíssimas ao redor de um único livro e chamar isso de profundidade.
Os haredim fazem isso. Eles não escolheram profundidade ao invés de amplitude depois de conhecer ambas. Eles escolheram nunca conhecer amplitude nenhuma. E existe uma hipocrisia brutal aí.
Veja: eles afirmam que estudar Torá e Talmud dia e noite é mais importante do que defender Israel militarmente. Dizem que suas orações protegem o país mais do que soldados com fuzis. Certo, vamos aceitar esse argumento por um instante. Se fosse verdade — se eles realmente acreditassem nisso — seriam como monges budistas ou eremitas cristãos do deserto. Autossuficientes. Isolados. Sem pedir nada a ninguém.
Mas não é assim. Eles vivem dentro do Estado moderno de Israel. Usam estradas construídas por engenheiros seculares. Vão a hospitais dirigidos por médicos que estudaram biologia evolutiva. Recebem subsídios do governo financiados por impostos pagos por pessoas que trabalham, e não por quem passa o dia estudando textos religiosos. E quando alguém sugere que talvez — só talvez — eles devessem contribuir defendendo o Estado que os protege e os sustenta, tomam as ruas gritando perseguição.
Percebe a contradição? Querem viver numa bolha pré-moderna, mas sustentada pela modernidade que desprezam. Querem os benefícios da cidadania sem suas obrigações. E não por pacifismo universal — quakers e menonitas também recusam armas, mas como princípio aplicado a todos. Os haredim recusam por excepcionalidade: nós somos especiais, não precisamos, mas vocês sim, e aliás continuem nos financiando enquanto estudamos.
Agora vamos ao argumento filosófico, porque essa hipocrisia política é apenas um sintoma de algo maior.
Heidegger criticou a modernidade por transformar tudo em recurso disponível, peças intercambiáveis dentro de um sistema técnico. A universidade moderna, com suas especializações infinitas, produz expertise sem sabedoria, técnica sem propósito. O físico nuclear não conversa com o filósofo, que não conversa com o poeta. Todos sabem muito sobre quase nada e quase nada sobre o todo. Existe uma nostalgia legítima pela paideia clássica, pela formação que produzia pessoas capazes de pensar sobre tudo.
Os haredim parecem responder a isso. Parecem dizer: vocês se fragmentaram, nós nos concentramos. Vocês sabem um pouco de tudo e nada profundamente; nós sabemos tudo sobre uma coisa. Vocês estão perdidos no caos do conhecimento moderno; nós temos um centro.
Mas essa resposta é falsa. Não é concentração — é clausura. Não é profundidade — é tautologia. Eles não estudam o Talmud para entender o mundo através dele — estudam o Talmud para estudar o Talmud. Hermenêutica circular. O texto explica o texto que explica o texto. Nenhuma realidade externa pode tocar esse circuito fechado.
Pense assim: Wittgenstein disse que os limites da sua linguagem são os limites do seu mundo. Os haredim literalmente limitam a linguagem dos seus filhos. Nada de matemática avançada, nada de ciências naturais, nada de história crítica, nada de filosofia secular. E quando você faz isso, não está escolhendo um mundo menor, porém mais rico — está escolhendo apenas um mundo menor.
E sabe o que mais me incomoda? Isso não é tradição judaica autêntica. A grande tradição rabínica nunca teve medo de perguntas difíceis. Maimônides dialogava com Aristóteles. O Talmud é exercício de argumentação dialética, onde nada é aceito sem questionamento feroz. Os sábios debatiam tudo. A yeshivá original era arena intelectual, não bunker.
Os haredim de hoje pegaram essa tradição viva, dialética, arriscada — e mataram. Mumificaram. Transformaram perguntas em respostas prontas, busca em posse, abertura em fechamento. E chamam isso de fidelidade. Mas mumificar não é preservar — é matar e fingir que está vivo.
O protesto de hoje revela o que está acontecendo: pânico. Medo profundo de que, se esses jovens forem expostos ao mundo real — pelo serviço militar, pelo contato com o mundo secular, pela responsabilidade cívica — todo o edifício de certezas desabe. E provavelmente vai.
E sabe de uma coisa? Deve desabar. Porque uma fé que só sobrevive em condições laboratoriais, isolada da realidade, não é fé profunda — é dogma frágil. Uma tradição que precisa de censura total, isolamento absoluto e ameaça de ostracismo para se perpetuar não é sabedoria milenar — é coerção vestida de santidade.
Voltando à pergunta inicial: existe coragem em ignorar algumas coisas para focar em outras? Sim. Mas isso pressupõe que você poderia ter escolhido diferente. Que conheceu as alternativas e decidiu conscientemente onde investir sua atenção limitada.
Quando você se recusa a aprender algo porque isso ameaçaria suas certezas, isso não é curadoria intelectual — é covardia. E quando constrói instituições inteiras para evitar que seus filhos sejam expostos a ideias incômodas, você não está transmitindo sabedoria — está fabricando fragilidade institucionalizada.
Os haredim não demonstram coragem de ignorar — demonstram medo de saber. E há uma diferença enorme aí.
Então, quando você vê centenas de milhares nas ruas defendendo o direito de não servir, não se deixe enganar pela retórica de profundidade espiritual. Você está vendo uma comunidade dedicando recursos enormes para manter ignorância planejada. Gente que estreitou a atenção não para enxergar melhor, mas para não enxergar nada. E que ainda exige que você pague por esse privilégio.
Isso não é religião — é má-fé. E a má-fé, como Sartre sabia muito bem, é a mentira que você conta para si mesmo — a mais perigosa de todas, porque mentiroso e enganado são a mesma pessoa.

(mais…)

Os muitos Sionismos Judaicos

Os muitos Sionismos Judaicos

Nos tempos atuais, é importante revisitarmos o conceito e evolução do sionismo ou, como preferimos, sionismos, um dos movimentos políticos e multifacetados mais legitimamente expressivos e eficazes. Não há qualquer dúvida de que os sionismos têm a ver com o espírito do Judaísmo e com o Povo Judeu em sua Galut.

Enquanto movimento, os sionismos têm um caráter emancipatório, de resistência, reafirmação da identidade judaica e resiliência de um Povo, forçado a estar no mundo com o qual nem sempre se sente integrado. Aliás, não se sente integrado por ser constantemente repelido, acusado do alto dos púlpitos, católicos ou luteranos e, também, no eco de muitas mesquitas, de deicídio, desvios e outras narrativas falaciosas. E, pior, massacrado sob pogroms, guetização, discriminação cultural e religiosa, marginalização e extermínio nazifascista, sob o silêncio dos templos e das mesquitas.

Muitos intelectuais judeus perceberam que, mesmo sendo integrados (muitos até assimilados!) em determinados países, obtendo a sua plena nacionalidade e falando a língua daquele povo, seriam discriminados pelo fato de serem judeus. Ser judeu era o problema! Por isso, desenvolveu-se a ideia de que o judeu só estaria livre e protegido se, e quando, em seu próprio país: um Estado Judeu. O objetivo somente seria alcançado com o sionismo!

O sionismo etimologicamente tem a ver com Sion (Tziyon), um dos nomes de Jerusalém, mas especialmente o monte, o lugar elevado, epicentro da história judaica, especialmente davídica e salomônica. Logo, sionismo é o elemento subjetivo, real ou imaginário, cultural ou político, religioso ou histórico, que emerge da alma judia em estar em Jerusalém, sua cidade de eterna identidade, epicentro de sua vida e de seu desenvolvimento político, assim como estar em seu país. Jerusalém, Sion, foi o último lugar no qual os judeus estiveram, antes da expulsão; a última cidade destruída pelos romanos.

Lembremos que, após a destruição de Jerusalém nos anos 70, os Judeus sobreviventes foram espalhados para a circunvizinhança de Jerusalém e pela região do Oriente Médio, como Iraque e Líbano e lugares distantes como Egito, Marrocos, Atenas, Roma, mantendo, contudo, um constante sonho de retorno à Cidade de Davi. Ao longo de dois milênios, em algumas Festas Judaicas, em especial, Pessach (Páscoa judaica), se diz; Leshaná Habaá BiYerushalaim Habnuiá! (no próximo ano em Jerusalém Reconstruída!). É mais que uma reza, é um gemido da imensidão da alma judaica!

Jerusalém tornou-se o reino da utopia judaica, da ideia de retorno como nos tempos dos cativeiros, da reconstrução da cultura, ancestralidade e nacionalidade judaicas. É necessário entender que Sion, ou seja, Jerusalém, povoa o imaginário judaico desde a Antiguidade. É, no sentido do Judaísmo anarquista europeu, uma expressão do messianismo-romântico que alcança, entre outros, o filósofo judeu Martin Buber. É, ainda, um tipo de u-topos (Jerusalém, lugar para se chegar e realizar um ideal), saindo de um topos (seja Ur dos Caldeus, Egito, Cativeiro babilônico, Império Romano, Europa ou Alemanha).

Modernamente, diante do antissemitismo europeu (que propiciou o Holocausto), o sentimento de emancipação judaica e a busca de concretização da liberdade judaica se fortaleceram. Criou-se, em termos políticos (para além do sentimento de dois milênios), o sionismo ou movimento sionista.

Qualquer judeu que buscava a emancipação e resistia à perseguição antissemita reconheceu-se como sionista. Porém, o termo sionista, no sentido de movimento revolucionário, foi utilizado pela primeira vez, em 1885, por Natan Birenboim, estudante da Europa Oriental, em caráter político (Sionismo Político). Aliás, como disse Theodor Herzl, o século XIX foi o despertar de nacionalidades e, com razão diaspórica, os judeus também tiveram o despertamento do seu nacionalismo (judaico) o que, em termos ideológicos e políticos, refere-se ao sionismo – o elemento objetivo e político de proteção do Judaísmo e dos Judeus.

Birenboim fundou um Jornal cujo tema era mesmo a emancipação dos judeus. Após Birenboim, vários grupos de jovens judeus se formaram na Áustria, Alemanha, Inglaterra, França, Estados Unidos, Itália etc. Em 1893, ele publicou um pequeno livro, conclamando para o renascimento em Eretz Israel (terra de Israel) e incentivou a criação de um Congresso Sionista Internacional para discutir a questão da emancipação judaica.

Em 1894, o caso emblemático de Dreyfus fortaleceu o sentimento sionista. Dreyfus foi acusado injustamente e condenado à prisão perpétua. Provou-se depois (1897) que a acusação era falsa. Tal a percepção de injustiça, que o escritor Emile Zolá, também judeu, publicou, em defesa de Dreyfus, a Carta J’Accuse (eu acuso) ao Presidente da República. Ao final, Dreyfus foi julgado novamente e declarado inocente. Theodor Herzl, judeu, formado em Direito, jornalista, acompanhou o caso Dreyfus e sua degradação pública, pois sabiam da inocência, mas mantinham a acusação em caráter antissemita. Disse ele mais tarde: o julgamento de Dreyfus, 1894, fez de mim um sionista. Para Herzl, a questão era o antissemitismo e sua contraposição lógica e efetiva era o sionismo político.

Depois disso, Herzl organizou o Primeiro Congresso Sionista, na Basiléia, de 29 a 31 de agosto de 1897, momento em que foi aprovado o Programa Sionista (Programa de Basiléia). De caráter político, dizia o documento: o sionismo pretende criar um abrigo para o povo judeu em Israel, garantido por um documento político público, reconhecido internacionalmente. Herzl foi eleito presidente do Congresso Sionista e Presidente da Organização Sionista Mundial, com a adoção do Hino Hatikvah e uma Bandeira Judaica.

Em 1901, em oposição ao sionismo político de Herzl, criou-se, com Chaim Weizmann e Martin Buber, a facção sionista democrática, com alguma base nacionalista judaica do sionismo, democratização interna da organização e uma certa visão anarquista religiosa.

Logo depois, em 1902, criou-se um novo grupo sionista, agora de oposição a Herzl e a Buber. Tratava-se dos Mizrachi, organizado por judeus ortodoxos. Chamou-se Centro Espiritual – Mizrachi. Foi a base do sionismo religioso (ortodoxo). Segundo Michael Lövy, tratava-se do messianismo judeu e utopias libertárias na Europa Central (1905-1923), com os seguintes aspectos: a) Judeus religiosos anarquizantes; b) Messianismo judeu e modernas ideias revolucionárias: corrente utópica e corrente restauradora, ou seja, conceito hebraico de tikun: restauração, reparação e reforma.

O pensamento libertário em Gustav Landauer, um dos pais do anarquismo judaico, é a relação entre a topia e utopia, ou seja, combinação entre conservantismo e revolução emancipatória. Registra Löwy, que a utopia messiânica não era o sionismo, mas o anarquismo. O ideal sionista é uma coisa; o ideal messiânico, outra.

Há, entretanto, afinidades eletivas entre tradição messiânica judaica e utopias revolucionárias. Mas, na Europa do final do século XIX, as afinidades eletivas entre redenção, messianismo e sionismo vão tomando forma com grupos judaicos: a) Anarquistas religiosos judaizantes; b) Judeus assimilados (diferente de integrados), ateus-religiosos, anarco-bolchevistas; c) Judeu religioso anarquista sionista, como Buber.

Martin Buber, um sionista originalmente anarquista, será um crítico da direção do sionismo oficial israelense (estatizante). Ao chegar nos arredores de Jerusalém, em 1938, Buber foi um dos idealizados e incentivadores do movimento de fraternização judio-árabe ichud (união). Buber, enquanto judeu sionista anarquista, recusava um Estado exclusivamente judeu, pois, para ele, o sionismo não se tratava apenas de emancipação de um povo, mas de redenção do mundo. Ele, como outros judeus sionistas e anarquistas de sua época, imaginava uma organização política plural árabe-israelense, ou árabe-judaico e, no limite político, de caráter binacional.

O território palestinense (nome dado pelos romanos como região administrativa) não foi o único imaginado pelos judeus para o processo sionista de emancipação. Depois da morte de Herzl, propôs-se que se buscassem outros lugares, pois seria melhor o Sionismo sem Sion do que Sion sem o Sionismo. Em outras palavras, sionismo como emancipação e liberdade. Qualquer lugar poderia ser estabelecido como ambiente judaico, desde que com garantia internacional e autodeterminação. Este sionismo seria conhecido como sionismo territorialista ou, sionismo em qualquer lugar. Em oposição, os sionistas em Sion defendiam o renascimento e fortalecimento dos grupos judaicos em Eretz Israel, na construção e organização de fazendas, fundamental para os Kibutzim judaicos.

O 7º Congresso Sionista, em 1905, marcou a oposição entre os sionistas políticos que defendiam a defesa dos judeus e seu fortalecimento na região palestinense, com apoio político internacional, e os sionistas práticos, que também defendiam o apoio aos judeus na região, mas sem necessidade de apoio político internacional.

No 8º Congresso Sionista, realizado em Haia, 1907, foi decidido criar um Escritório Israelense e uma Sociedade de preparação do Ishuv, ou seja, de apoio aos judeus que já estavam na região palestinense e outros que ali chegavam fugidos dos pogroms russos e perseguições europeias. Chaim Weizmann, um dos líderes, fez a exigência que se criasse uma síntese entre sionistas políticos e sionistas práticos. Daí surgiu o compromisso de se buscar uma Carta-Patente (político) e de se promover o apoio e estabelecimento judaico em Eretz Israel (prático).

Em 1913, como expressão do sionismo cultural, no 11º Congresso Sionista de Viena, 1913, discutiu-se a criação da Universidade Hebraica de Jerusalém e o ensino do Hebraico como parte da educação judaica diaspórica. O sionismo cultural, fundado, em 1893, por Achad Haam, pregava o renascimento moral e espiritual do povo judeu. A luta era contra a desintegração do povo judeu. Defendia-se a criação de uma comunidade judaica nas terras antigas, e viam no Sionismo o objetivo de salvar o Judaísmo.

Os ortodoxos e haredim hassídicos, ambos sionistas, ao contrário dos haredim antissionistas (radicais teológicos), enxergam no sionismo o caminho de preparação messiânica. Ou seja, o sionismo, ao proteger o judeu em Israel, permite que se possa praticar o judaísmo longe dos pogroms e perseguições antissemitas.

Após 1950, cria-se uma divisão entre judeus sionistas de Esquerda e judeus sionistas de Direita (ambos em Israel). Os judeus sionistas de esquerda defendiam, de início, um Estado binacional com a presença de judeus e árabes. Atualmente, defendem, como solução para os conflitos entre judeus e árabes-palestinos, a formação de dois Estados: Israel e Palestina.

Por outro lado, os sionistas de direita, principalmente, depois de 1970, com um discurso de segurança nacional contra atos terroristas, defendem o estabelecimento israelense completo com a ocupação da Cisjordânia e Gaza, territórios palestinos.

Como movimento emancipatório e de afirmação da cultura e nacionalidade judaicas, assim como resposta ao antissemitismo, pogroms, perseguições e, por último nazifascismo alemão, o sionismo em suas muitas facetas, religiosas ou não, políticas ou culturais, cumpriu um papel importante.

A nosso ver, as ideias básicas dos Sionismos (originais) deixaram de existir em 1948, exatamente por ter chegado ao seu objetivo maior: a criação do Estado de Israel e de um lar nacional judaico contra as enxurradas antissemitas anteriores. A partir disso, tem-se política estatal, desempenho maior ou menor da democracia e grupos de interesse que lutam pelo poder político.

Dizer-se sionista, hoje, não me parece dizer a mesma coisa do que disseram Birenboim, Herzl, Buber e outros. Dizer-se sionista, hoje, é lutar pela preservação de Israel e seus valores democráticos, e isso inclui, igualmente, a defesa de um Estado Palestino – ao lado do Estado de Israel

Os muitos Sionismos Judaicos

© Pietro Nardella-Dellova