Judaísmo e a Tessitura dos Direitos Humanos

Judaísmo e a Tessitura dos Direitos Humanos

O Judaísmo nunca se permitiu à pregação do próprio Judaísmo, mas voltando-se para dentro, fez resistir aqueles dos quais era tirado tudo e, por isso mesmo, a luta pelo direito individual e social ganha aspectos de valor. A mesma coisa se diga dos constantes processos de extermínio de Judeus, dos quais o último (de proporções inimagináveis) foi o Holocausto.

Aqui aparece algo mais a ser ensinado: tolerância, respeito, igualdade e, a partir da Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948, a solidariedade entre os povos. Porque era necessário um movimento de caráter internacional, como o das Nações Unidas, que promovesse convenções internacionais sobre direitos humanos para um novo significado da igualdade entre as pessoas, inclusive Judeus de todo mundo. (Bankier:1982, 11).

Uma igualdade que fosse real, econômica, inclusiva e plena de dignidade humana, e que, sobretudo, partisse do pressuposto de compreensão mútua universal, conforme explica Rehfeld, (Rehfeld: 2003, 279) o que significa não exclusão. O Judaísmo segue com seu monoteísmo compatível com quaisquer outras grandes religiões, e isso deve ser um pressuposto para a solidariedade e fraternidade universais.

O Judaísmo aprendeu em sua longa peregrinação com muitos povos e culturas e desenvolveu uma cultura multicultural, e nisso consiste uma experiência histórica de compreensão do outro. Não é preciso se tornar o que o outro é, por exemplo, Cristão, assim como não é necessário, e nem inteligente, transformar o mundo em um mundo judaico.

O mundo no qual cabe o Judaísmo é plural, e o Judeu deve ser pluralista. Mas, ser pluralista é, antes de tudo, compreender o mundo com sincera compreensão das diferenças e, além disso, saber que as diferenças formam a riqueza da humanidade. A não pluralidade leva à arrogância da única verdade, contra o que faço advertência. Conforme Bonder, essa arrogância da única verdade é violência à Torá, porque se constitui em idolatria. (Bonder: 2001, 167)

E a idolatria é tão contrária ao Judaísmo quanto o fascismo ou qualquer regime de força ou exclusão. Ser pluralista impõe uma atitude proativa a partir do Judaísmo que tem desde as peregrinações dos Patriarcas, uma inclinação pela luta em defesa dos mais fracos e, assim, em linguagem contemporânea, com a luta por direitos civis das minorias, porque esse preceito é central no Judaísmo, a partir da compreensão do amar o próximo, o estrangeiro e ajudar o inimigo (preceitos fundamentais da Torá).

A religião judaica não tem caráter contemplativo, como ensina Lemle, (Lemle: 1967, 151) mas concreto e, desse modo, aplica-se às situações cotidianas. Afirma ele, que o senso de justiça social é indissociável da convicção religiosa, porque o Judaísmo se identifica com a luta humana por direitos.

Sobre a injustiça e a solidariedade, Bernardo Kliksberg,  (Kliksberg: 2001, 29) em seu livro A Justiça Social – Uma Visão Judaica, apresenta alguns pressupostos que demonstraram as afinidades eletivas entre Judaísmo e Direitos Humanos. Porque, segundo ele, o amor ao próximo exige que tenhamos um comportamento de fazer e realizar sobre o outro.

Além disso, é preceito fundamental da Torá que não haja pobres e, para isso, a mesma Torá exige atos de solidariedade e acolhimento. Por outro lado, constitui-se injustiça em face da Torá se alguém for excluído, direta ou indiretamente, dos frutos da terra e, mesmo que não haja culpa de uma pessoa, ela está obrigada a ajudar a fim de livrar as pessoas do peso que lhe enfraquece.

De modo resumido, ele os apresenta da seguinte forma:

  1. O Judaísmo exige o compromisso com o outro e com a ação;
  2. Para o Judaísmo, a pobreza não é inevitável;
  3. O Judaísmo tem se preocupado com a injustiça desde as suas origens;
  4. A sociedade deve intervir ativamente na solução dos problemas sociais;
  5. Cada pessoa deve assumir responsabilidade frente aos problemas sociais;
  6. O Judaísmo procura educar o coração para a solidariedade;
  7. O Judaísmo tem uma proposta contra a pobreza e a desigualdade;

Por fim, Kliksberg destaca uma solidariedade ativa, proativa e combativa, conforme a tradição judaica e, em especial, dos antigos Profetas, (Nangeroni: 2000, 11) e, sintetiza esse movimento ao recordar – e completar, uma análise feita pelo historiador Edward Gibbon, segundo quem a história da humanidade não é mais do que uma série de crimes, de loucuras e de desastres cometidos por nossa espécie. Segundo Kliskberg, (p. 78) isso é verdade, mas não toda verdade, porque além do retrato feito por Gibbon, sempre houve luta para combater tais crimes, loucuras e desastres. É essa permanente luta e combate que amiúde torna-se o elemento caracterizador judaico na história da humanidade.

Dezembro de 2020

Prof. Dr. Pietro Nardella-Dellova

 

Obs.:

  • O presente texto é parte da Tese de Doutorado JUDAÍSMO E DIREITOS HUMANOS: UM ESTUDO DAS CONTRIBUIÇÕES JUDAICAS NA TESSITURA DOS DIREITOS HUMANOS, apresentada, defendida e aprovada no Programa de Estudos Pós-graduados da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – PUC/SP, 2020;

 

Bibliografia Consultada

BANKIER, David (ed.). La Emancipacion Judia. Jerusalém: Publicaciones Monte Scopus, 1983;

BONDER, Nilton e SORJ, Bernardo. Judaísmo para o Século XXI. RJ: Zahar, 2001;

KLIKSBERG, Bernardo. A Justiça Social – A Visão Judaica. Trad. D. Mensch. SP: Maayanot, 2001;

LEMLE, Henrique. O Judeu e seu Mundo. RJ: Ed. B’nai B’rith, 1967;

NANGERONI, Alessandro. La Fisolofia Ebraica. Milano: Xenia Edizioni, 2000;

REHFELD, Walter I.. Nas Sendas do Judaismo (organização de J. Guinsburg e Margarida Goldsztajn). São Paulo: Perspectiva, 2003;

 

 

Lottenberg não me representa

Lottenberg não me representa

Se existe um conjunto de valores que o judaísmo transporta em sua história que por ele é definida e definidora, são os valores éticos. A ética não trata de letra fria de lei. A ética trata de tudo aquilo que começa com “Quero? Posso? Devo?”, questionamentos internos permanentes e indeléveis a qualquer ser minimamente equipado de intelecto que queira pertencer a uma sociedade estável, justa, igualitária, e desejosa de progresso em todas as dimensões harmonicamente entremeadas.
Mais adiante, as questões “Onde? Quando? Como? Por que? Para quê” preenchem de substância moral nossos atos do dia-a-dia.
Pessoas que galgam posições de poder, supostamente são aparelhadas por este exercício constante de reflexão e autocrítica, dado que o poder que exercem, especialmente aquele conquistado de forma meritória e democrática, afeta a vida de seus representados e deixa marcas históricas que falarão pelos representados no futuro.
Claudio Lottenberg, presidente da Confederação Israelita Brasileira (CONIB) parece mesmo ter desistido da ética, esquecido suas origens (e compromissos implícitos derivados da história), quando, sob o subterfúgio de exercer um duvidoso dever cívico e de “abrir o espaço ao diálogo respeitoso com os diferentes” comparece voluntariamente a um convescote extraoficial com o presidente da República que hoje representa o renascimento do fascismo, da violência institucional e factual, da negação da ciência, o genocídio de seu próprio povo, a irresponsabilidade, a insensibilidade, a ignorância, em uma carreira precedida por 28 anos de puro obscurantismo nos quais propôs, entre outras coisas, que seria necessário à ditadura militar ter matado pelo menos 30.000 pessoas (nos quais se incluía o então presidente Fernando Henrique Cardoso) para “consertar o Brasil”, que era um sonegador contumaz por considerar tal atitude instrumento de defesa contra o estado, que “não estupraria a Deputada Maria do Rosário por que ela era feia e não merecia”, tendo defendido o armamentismo e tendo feito parte de um movimento que criminaliza as correntes políticas à esquerda. Em síntese, não se encontra, em 28 anos de mandato como deputado federal e em pouco mais de dois anos à frente da nação um único ato que se identifique com os valores judaicos – e ao contrário, Bolsonaro cristaliza em sua existência tudo aquilo que se opõe ao judaísmo em qualquer de suas dimensões. Ressalte-se ainda, que Bolsonaro pensa que o judaísmo é uma seita cristã, e apenas por esta ignorância, diz ter alguma afinidade com Israel e os judeus.
Quando Lottenberg comparece ao jantar informal imaginando que pode ser portador apenas de seus interesses pessoais e empresariais, mostra que não é instruído ou não compreende sobre algo que se chama de liturgia do cargo, valor ético que norteia o comportamento de pessoas investidas de cargo e/ou representatividade. Se ele é presidente da CONIB, como tal deve se comportar integralmente quando deixa o seu lar, até o momento de a ele retornar, onde a sua intimidade e desejos estão protegidas pelos nossos valores constitucionais. Mostra ainda que é absolutamente impermeável às lições da história, antiga e recente, com essa pseudoingenuidade de acreditar que Bolsonaro seja alguém apto a um diálogo minimamente racional. Ele não passa de uma versão burra de Hitler.
As posições de poder exigem responsabilidade e conhecimento, pois cada lugar, tempo e função faz parte de um complexo emaranhado de relações pessoais e institucionais, que ao desavisado, incompetente ou arrogante, expõe a condições de riscos e danos de extensão às vezes incalculável, podendo funcionar como estopim ou catalisador de processos às vezes explosivos.
Talvez em nenhum momento da história recente um conjunto de fatores tenha estado presente como naquela noite, em que se relembrava os horrores do Holocausto, em que o Brasil atingia o recorde de mortes (aproximadamente 4.200) em um só dia por uma epidemia que contou com esforços pela disseminação da doença por parte do homenageado da noite, em um momento onde as categorias da saúde encontram-se em estado de guerra e sob trauma grave e intenso Pois foi este o momento que o médico, empresário, judeu e representante da CONIB Claudio Lottenberg escolheu para encontrar e homenagear o líder da maior carnificina já produzida no Brasil, o líder da antimedicina e da anticiência, da antidemocracia, da anti-institucionalidade, um verdadeiro cão raivoso.
Sr. Claudio Lottenberg, o senhor não me representa, e espero que a CONIB tenha a mínima sensibilidade, junto às suas confederadas, de removê-lo do cargo, para que assim provar que há dignidade nesta instituição que já teve sim seus momentos de glória e orgulho para todos nós judeus.

Lottenberg não me representa

Existe algo de podre na Conib (Confederação Israelita Brasileira). Quando o seu presidente, no dia da lembrança dos mortos e heróis do holocausto, atende convite para jantar com Bolsonaro, o fedor é insuportável.

A mensagem que Claudio Lottenberg passou para a sociedade é diferente de seus pares. Enquanto cada um é mencionado como empresário dono deste, ou daquele negócio, Lottenberg foi relacionado por toda a mídia como presidente da Conib. Para bom entendedor, os judeus representados por ele, foram aclamar as presunções negacionistas do genocida com relação a pandemia e os futuros caminhos para o Brasil.

Como disse Napoleão Bonaparte, “Do sublime ao ridículo, é só um passo”. Lottenberg se achou digno de uma honra negada ao papagaio da Havan, mas para nós judeus ele foi mais um dos ridículos apoiadores de um presidente inepto que segue menosprezando a ciência e todos as recomendações da OMS para estancar a incrível média de mortes diárias no Brasil em consequência do Covid.

Os antissemitas de plantão já se alvoroçaram para apontar que os judeus não só elegeram Bolsonaro, como continuam dando a ele o apoio necessário para se manter no poder. Em suas ilações a prova de suas teorias conspiratórias fica estampada nas manchetes dos jornais com as palmas de Lottenberg ao seu anfitrião. A instituição nacional representativa dos judeus ovacionou Bolsonaro.

Somos muitos judeus contra Bolsonaro. Antes das eleições tentamos de todas as formas fazer tudo ao nosso alcance para impedir sua eleição. Com o grupo Judeus Contra Bolsonaro, estivemos presentes ao lado da sociedade que lutou contra aquele que vomitava ódio com suas mensagens racistas, homofóbicas e misóginas. Logo depois de consumada sua vitória, passamos a nos chamar Resistência Democrática Judaica e outros inúmeros grupos judaicos foram criados para resistirem ao nefasto. Não passa um dia sem que sigamos enviando nossas mensagens de repúdio a tudo que este governo fascista representa.

Os judeus não apoiaram Bolsonaro, o correto seria dizer que judeus apoiaram Bolsonaro, os Negros não apoiaram Bolsonaro, Negros apoiaram Bolsonaro, os LGBTs não apoiaram Bolsonaro, LGTBs apoiaram Bolsonaro, as Mulheres não apoiaram Bolsonaro, Mulheres apoiaram Bolsonaro.

O dia do jantar foi o mesmo dia em que nós judeus relembramos os mortos e os heróis do Holocausto. Em Israel, precisamente as 10:00 h da manhã, as sirenes que avisam ataques de mísseis tocam durante dois minutos. O país inteiro para literalmente. Nas ruas, nas casas, no comércio, nas estradas, nas rádios, nas TVs, todos permanecem de pé em silencio reverenciando este acontecimento marcante da nossa história. Nunca vamos esquecer.

Lottenberg tinha a seu dispor a desculpa pronta para não ir a este encontro. Optou por se fazer presente e junto com os demais, prestou seu apoio as sandices de um fascista. Sim, um judeu, presidente da Conib, menosprezou a memória de 6 milhões de judeus assassinados pelos nazistas, em troca de uma refeição grátis entre empresários que não ligam para os mais de 4000 brasileiros que morrem diariamente vítimas do desleixo do seu mito.

Eu como judeu, me sinto envergonhado e compelido a pedir desculpas para a sociedade brasileira pela presença do presidente da Conib neste famigerado jantar. Ele deixou de representar os judeus brasileiros quando adentrou naquela sala. Lottenberg esteve lá como líder da ala fascista da sociedade judaica, como representante de si mesmo e da falta de valores éticos e morais presentes naquele ambiente. Sua atitude não coaduna com o judaísmo, muito menos com nossa posição de resistência a tudo que este governo abjeto representa.

Imaginemos que estamos em 1939 e o país fosse a Alemanha. Fosse Lottenberg presidente da Conia (Confederação Israelita Alemã). O  Chefe de Estado tivesse chamado empresários e o presidente da Conia para um jantar. Pelo que dizem algumas lideranças judaicas ele deveria atender o convite, afinal os judeus não tinham acesso a ele.  O Chefe de Estado da Alemanha se chamava Adolf Hitler. Tem gente que nunca vai aprender com a história.

Que Lottenberg tenha a mínima decência de renunciar ao cargo de Presidente da Conib e pedir desculpas pela atitude ultrajante que cometeu.

Liberdade em tempos de Covid

Finalmente, depois de mais de um ano sob o Covid, vamos ter nossa primeira festa em família sendo comemorada aqui em Israel. Hoje começa o Pessach, a Páscoa Judaica. Como resultado da vacinação, as coisas começam a ter ares de normalidade por aqui, e poder sentar em família é uma delas.

O Pessach é uma festa especial, ela dura uma semana onde não se deve comer pão e nada que contenha fermento. Os mais religiosos chegam a ter jogos de louças, talheres e panelas especialmente para os dias da festa. Os menos religiosos como eu, compram pão para uma semana e guardam no freezer, já que poucas padarias permanecem abertas.

A festa em si é uma recordação da saída do Egito. Moisés depois de muita insistência e 10 pragas contra o Faraó, finalmente consegue com que ele liberte os judeus da escravidão. Na saída apressada, com receio dele voltar atrás, esqueceram de levar fermento e o pão virou uma espécie de bolacha, chamada de Matzá. Ela é consumida durante toda a semana. Na idade média, judeus eram acusados de utilizar o sangue de crianças cristãs para fazerem o Matzá, o que resultou em perseguições e mortes, mas isto é outra história.

Moisés leva o povo em direção a Israel e no caminho recebe de Deus as Tábuas da Lei, também conhecida como os 10 mandamentos. São as primeiras leis de comportamento ético que se tem notícia. Enquanto aguardavam por Moisés retornar de seu encontro com Deus, os judeus tiveram uma recaída e construíram um Bezerro de Ouro para adoração. Quando Moisés chega com as tábuas e percebe o que aconteceu, as quebra em um momento de ira e o povo se arrepende.

Deus não teria ficado nada contente com o que aconteceu. Resolveu que aquela geração contaminada com adorações a outros Deuses, não entraria na Terra Prometida e incluiu Moisés por ter quebrado as tábuas no mesmo castigo. Assim foi que o povo judeu teria permanecido por 40 anos no deserto até que sucumbisse o último dos escravos no Egito.

Voltando lá para o início da história, faltou contar que Moisés, nascido judeu, foi criado pela família do Faraó depois de encontrado por sua filha em um cesto no Rio Nilo ainda bebe de poucos dias. Criado como Egípcio, somente na juventude veio a saber de sua origem. Sua existência, assim como o que se passou com os judeus no Egito, ainda não tem comprovação científica. Não existe nenhum achado arqueológico que comprove esta história. Líder revolucionário, ou figura mítica, o fato é que os judeus comemoram o Pessach com muita comida a mesa, e os cristãos se empanturram de chocolate na Páscoa.

Mesmo que a nada disso tenha acontecido de fato, ficam as lições que são passadas de geração para geração a milhares de anos. Todo judeu deve se sentir como se tivesse sido libertado da escravidão no Egito. Uma lição de humildade e da importância da liberdade.

Retirando-se o aspecto religioso da comemoração, ficam presentes conceitos de grande importância para a humanidade. Os mandamentos das Tábuas da Lei, como não matarás, não cometerás adultério, não cobiçarás a mulher do próximo, nem seus pertences, tudo isto são normas de comportamento ético para tornar o mundo de então, um mundo melhor.

Não menos importante, a lição de que toda tirania chega ao fim. Nenhum déspota é eterno e devemos lutar por nossa liberdade e pela democracia. Todos nascemos livres e iguais, assim deve ser.

Durante a leitura da Hagadá de Pessach, que é o relato dos acontecimentos, são levantados 4 copos de vinho em brindes. Normalmente o primeiro é em memória aos caídos no Gueto de Varsóvia, uma vez que o Gueto sucumbiu diante dos Nazistas, durante o Pessach. Os demais, geralmente também lembram a memória dos que morreram em defesa do povo judeu e nas guerras de Israel.

Eu pessoalmente, mudo de tempos em tempos o último brinde. Neste ano o farei em memória das vítimas do Covid-19 em todo o mundo, e que toda a humanidade possa estar vacinada em breve.

O fascismo judaico existe e nós lutamos contra ele

Pelo visto, para parte da comunidade judaica no Brasil as eleições para prefeitos e vereadores no Brasil, virou um caso diplomático. Uma parte da comunidade acha que os problemas de suas cidades não são nada se comparados ao que acontece com relação a Israel. A questão não é saúde, educação e segurança, isso tudo fica em segundo plano. O que interessa a eles é o que pensam os candidato com relação a Israel. E não apenas eles, seus partidos, os membros dos seus partidos e todos que um dia passaram por ele.

Umberto Eco, intelectual italiano, romancista e filósofo, autor de “O pêndulo de Foucault” e “O Nome da Rosa”, morreu em 19 de fevereiro, aos 84 anos, mas nos deixou uma fabulosa contribuição para identificar o fascismo e seus apoiadores no texto “Ur-Fascismo”, produzido originalmente para uma conferência proferida na Universidade Columbia, em abril de 1995, numa celebração da liberação da Europa. São 14 características que em parte, ou na sua totalidade, nos permitem compreender que ele está batendo a porta, ou já entrou.

Eco os convencionou “Ur-Fascismo”, fascismo eterno. Eu adaptei estas características para as convencionar de  “J-Fascismo”. Veja a seguir estes pontos que identificam parte da comunidade judaica como fascista, aquela que apoia o governo Bolsonaro. São eles:

1.   A primeira característica de um “J-Fascismo” é o culto da tradição. Os fascistas judeus são apegados  a uma Israel que um dia no passado distante reinou nas duas margens do Rio Jordão. Um reino há muito desaparecido que permanece vivo no seu imaginário. Nesta Israel, não existe lugar para o Povo Palestino e a própria existência da Jordânia é contestada.

2. O tradicionalismo implica a recusa da modernidade. Esta parte da comunidade, vive do passado e do que foi um dia Israel e da sombra permanente do Holocausto. Não se importam com nada além da fantasia de que o mundo é antissemita, e quem for a favor de um estado Palestino, é contra a existência do Estado de Israel.

3. O irracionalismo depende também do culto da ação pela ação. Estes judeus chamam os demais judeus de traidores, de comunistas e até de antissemitas.  Nas palavras de Eco fazem uso  frequente de expressões como “Porcos intelectuais”, “Cabeças ocas”, “Esnobes radicais”, “As universidades são um ninho de comunistas”. Por isso, agem de maneira atabalhoada, intempestiva e açodada.

4. Nenhuma forma de sincretismo pode aceitar críticas. Ninguém pode criticar o Estado de Israel, nem mesmo a ONU. Eles são incapazes de aceitar a crítica, mesmo que construtiva ou vinda daqueles que se dizem amigos de Israel. Toda crítica é uma forma de traição e todo inimigo deve ser tratado como tal.

5O desacordo é, além disso, um sinal de diversidade.  São solenemente contra a diversidade, preconceituosos convictos. A comunidade precisa ser uníssona e rezar a sua cartilha. As vozes discordantes são consideradas de desgarrados da comunidade e sua identidade judaica é colocada em dúvida.

6. O “J-Fascismo” provém da frustração individual ou social. Os fascistas judeus em boa parte são excluídos sociais da sociedade, seja por sua fé incompreendida, por sua cor, por sua etnia e em muitos casos por sua condição econômica nos dois extremos, muito pobres, ou muito ricos. Seu mundo é a sua comunidade e só ela importa. Em algum momento de suas vidas foram chamados de judeus de maneira ofensiva e isto os marcou para sempre.

7. Privação de qualquer identidade social. Se dizem brasileiros patriotas, mas se identificam com Israel e com tudo que esteja relacionado a este país. Assim sendo, qualquer pessoa, incluindo especialmente candidatos a cargos eletivos, precisa declarar explicitamente seu apoio incondicional a Israel. Uma xenofobia exacerbada  que torna seu inimigo quem não o fizer.

8. Os adeptos devem sentir-se humilhados pela riqueza ostensiva e pela força do inimigo. O fascismo judaico é doentio na sua contradição sociológica. O fato de existirem judeus integrados na sociedade onde vivem, de se importarem com suas comunidades e se identificarem com ela, faz deles traidores de seu povo original, algo inaceitável, principalmente quando se dizem não sionistas, ou pior, antissionistas.

9. Para o “J-Fascismo” não há luta pela vida, mas antes “vida para a luta”. Pacifismo é coisa de maricas. Eles acreditam que a batalha pela vida é uma luta diária contra o antissemitismo que assola o mundo e está a espreita em cada esquina pronto para atacar. Todo candidato de esquerda em uma eleição é um inimigo a ser combatido juntamente com seus apoiadores, especialmente se forem judeus.

10. O elitismo é um aspecto típico de qualquer ideologia reacionária, enquanto fundamentalmente aristocrática. Para os “J-Fascistas”, aqueles judeus que não se identificam com a sua causa, são a escória da comunidade. Eles sequer tem o direito de se intitularem como judeus, não sendo dignos de pertencerem a elite.

11. Nesta perspectiva, cada um é educado para tornar-se um herói. Para o “J-Fascismo”, Israel é motivo de idolatria permanente. Todo israelense é um herói que luta pela sobrevivência do país para que os judeus tenham um lar nacional e um porto seguro onde chegar quando o antissemitismo vingar. Sendo assim, defender Israel é uma razão para viver e para morrer.

12. Como tanto a guerra permanente como o heroísmo são jogos difíceis de jogar, o “J-Fascista” transfere sua vontade de poder para questões sexuais. Como os “Ur-Fascistas”, eles também são misóginos e sentem prazer em atacar as judias de esquerda. Machistas, não aceitam as mulheres da comunidade que lutam por igualdade social e direitos humanos.

13. O “J-Fascismo” baseia-se em um “populismo qualitativo”. A comunidade judaica precisa ter um formato monolítico onde o pensamento é único, o deles. Não podem existir diferenças e a imagem que deve ser passada é aquela de uma comunidade que comunga dos mesmos ideais. Com o advento da Internet e das mídias sociais, isto tornou-se impossível, portanto os grupos dissonantes precisam ser combatidos.

Por fim, transcrevo na íntegra a última característica, apenas substituindo o “Ur-Fascismo”, por “J-Fascismo”.

14. O “J-Fascismo” fala a “novilíngua”. A “novilíngua” foi inventada por Orwell em 1984, como língua oficial do Ingsoc, o Socialismo Inglês, mas certos elementos de “J-Fascismo” são comuns a diversas formas de ditadura. Todos os textos escolares nazistas ou fascistas baseavam-se em um léxico pobre e em uma sintaxe elementar, com o fim de limitar os instrumentos para um raciocínio complexo e crítico. Devemos, porém estar prontos a identificar outras formas de novilíngua, mesmo quando tomam a forma inocente de um talk-show popular.

Como podemos observar o fascismo judaico, por mais absurdo e contraditório que seja, existe e está presente na comunidade judaica brasileira. Onde nas manchetes da semana escreveram sobre os rachas de grupos judaicos em favor e contra o voto em Boulos, leia-se, os esclarecimentos a sociedade brasileira sobre a existência de fascistas judeus que em nada se diferenciam de seus congêneres não judeus.

A esquerda judaica brasileira está presente nestas eleições apoiando os candidatos progressistas. Estamos engajados em eleger Boulos em SP e Manu em Porto Alegre. Aos fascistas, judeus e não judeus a mesma mensagem: Não Passarão!

Somo a voz dissonante, aquela com um raciocínio complexo e crítico. Somos a luz do judaísmo humanista, orgulho de nossos profetas. Aqueles que lutam por um mundo melhor, por uma sociedade mais justa e combate o fascismo onde ele estiver.

A única saída

Na véspera de Yom Kippur recebi em uma rede social uma prece escrita por uma pessoa querida. A prece fala do momento especial que vivemos por causa do Coronavírus. Na súplica a pessoa confessa que desta vez não pede perdão pelos seus erros, pecados, omissões, e até mesmo para ser inscrita no Livro da Vida. Pede ao Eterno apenas compaixão com a humanidade e que nos livre deste mal que entre outras coisas nos impede de ver e ouvir os cantos nas sinagogas e de abraçar e beijar pessoas queridas.

Confesso que fiquei abalado com a proposição teológica modificada. Afinal, o Yom Kippur não é uma data para pedidos de qualquer espécie. Não pelo menos nas concepções que absorvi ao longo dos recém confirmados 60 anos de vida.

Se no início da vida religiosa ou espiritual judaica prevalece a imagem de D’us como um grande legislador e juiz ao mesmo tempo, e talvez até severo demais.

Não tenho mágoas desta fase, embora me seja absolutamente claro que esta imagem não corresponde às minhas atuais expectativas de um Ser Supremo, que habita e manifesta-se desde as partículas sub-atômicas até as incognoscíveis forças expansoras do Universo, convidando-nos a cada segundo da vida à meditação e ao encontro com todas essas forças organizadoras da vida, do pensamento, dos sonhos e significados da vida.

O fato é que encontrei sim, no judaísmo onde nasci, felizmente, fonte permanente de inspiração, motivação e construção do meu ser. E um dos sensos mais fortes que o judaísmo pode despertar em alguém é o de responsabilidade. É o de saber que pensamentos podem se transformar em palavras, palavras em atitudes, atitudes em costumes, e costumes em caráter.

Esta peste do século XXI, o novo Coronavírus esteve ao alcance de ser contido desde o início de sua expansão. Outros vírus piores já vieram, ainda neste século, e foram adequadamente contidos em seu potencial de disseminação e morbimortalidade. Tanto é verdade, que pelo menos uma grande nação, a China, utilizando-se de todas as lições de surtos anteriores, fez o que nunca havia sido feito e venceu espetacularmente a epidemia em suas fronteiras.

Outros países conduzidos por líderes ignorantes, insensíveis, brutais, sendo o melhor exemplo no momento o do Brasil, jogaram a ciência no lixo, e junto com ela, por enquanto, 140.000 vidas e imensos prejuízos ao sistema de saúde, à economia, e mesmo à cultura política local.

A questão é que esses líderes, como o nosso atual, não chegaram lá pelos seus méritos, apenas. Pensamentos, palavras, ações, costumes e caráter o puseram lá. Uma complexa maquinaria que intoxicou uma sociedade – que por sua vez, voluntariou-se ao envenenamento – e golpeou sucessivamente a democracia e suas instituições. No campo da saúde pública, o resultado dessas ações, mais do que anunciado, é o que temos.

Eu confesso que minha capacidade de perdoar pessoas que participaram de tudo o que contribuiu para a ascenção desta besta ao poder é muito pequena. Em especial, aquelas que jactam-se de um judaísmo “superior”, arraigado, pois não vejo, na cultura e história judaica, um único momento, período ou local que nos conte sobre o sucesso de tal empreitada, que encontra um forte comparador na década de 30 do século XX.

Eu confesso que me recuso a pedir a D’us, neste momento, que nos livre de algo que sempre esteve ao nosso alcance e responsabilidade. Sim, lutamos contra isso. Mas talvez não tenha sido o suficiente, é o que os fatos nos mostram.

Se posso (e devo) pedir a D’us alguma coisa neste Yom Kippur, é que desperte na consciência de cada pessoa que tenha movido uma única agulha neste imenso palheiro, que tenha disseminado uma única inverdade, uma única acusação falsa, um único ato de ódio puro e injustificável, uma única renúncia à busca da verdade, uma única indolência intelectual, que tenha contribuído ainda que com uma única “flutuação quântica”, um “efeito borboleta”, que culminou na ascenção do mal aqui e em outros lugares, o devido senso de responsabilidade. Que D’us não permita que fujam de suas consciências. Que D’us não permita que faltem ao seu dever de reparação. Que D’us não permita que a ignorância e o ódio prevaleçam. Que possamos ter saúde sempre, para lutar, lutar e lutar por todo o magnífico patrimônio ético que o judaísmo construiu ao longo destes milênios, pois este patrimônio, sozinho (ainda que não único, evidentemente), poderia sim ter evitado a catástrofe, se devidamente cultivado e reverenciado.

E que assim seja.