FALTOU COMBINAR COM OS RUSSOS – IMPRENSA E POLÍTICA NO BRASIL (fevereiro de 2021)

“FALTOU COMBINAR COM OS RUSSOS”.

SOBRE A IMPRENSA E A POLÍTICA.

O grande encontro promovido na semana que passou, que reuniu em uma bela live, o jornalista Reinaldo Azevedo, Gustavo Conde, linguista, músico e ativista político e o historiador Fernando Horta, estabeleceu um marco no período recente, tão talhado por divisões tidas como insuperáveis e bolhas de aço, na medida em que houve de fato um diálogo do qual germinaram propostas para o enfrentamento do momento político. Entre os destaques da fala de Reinaldo, sua convicção de que o deputado Daniel Silveira teria que ser preso pelos crimes cometidos, tidos por uma minoria expressiva (nominalmente 26% da Câmara dos deputados) como apenas o exercício da liberdade de expressão. Pois foi que durante a transmissão ao vivo, saiu a notícia da prisão do deputado por ordem do Minstro Alexandre de Moraes, do STF.

Desta live, conduzida por gente corajosa que soube estabelecer um ambiente de respeito sem preconceitos ou ranços do passado, muitas reflexões podem emergir nos dias seguintes, e que me estimularam a sintetizar aqui numerosas ideias que cultivei ao longo dos últimos anos.

Reza a lenda, que pelos idos de 1958, na Copa da Suécia de futebol, o técnico Vicente Feola fazia uma preleção logo antes do jogo com a Rússia, na qual detalhava a melhor sequência de jogo, os papéis e movimentos de cada jogador, descrevendo quase que uma coreografia que levaria o Brasil à vitória. Imediatamente após a fala de Feola, o genial Garrincha teria dito: – Já combinamos com os russos?

A sábia fala de Garrincha era no fundo uma forma simples e prosaica de “desenhar” a teoria dos jogos, um corpo matemático formulado por John Von Neumann, um dos maiores cérebros que habitou o planeta.

Desenhando de outra forma, imaginem que um determinado time de futebol memorize toda uma coreografia que será executada da mesma forma com 4 adversários diferentes. Pergunta-se: os resultados dos jogos será igual pelo fato do time programar-se a fazer as mesmas coisas? Claro que não. Ainda que o jogo seja previamente “combinado com os russos”, fatores de acaso poderão interferir no resultado.

O jogo da política não é diferente sob esse aspecto, e diante do número de elementos envolvidos, infinitamente mais complexo e exigente.

Em uma palestra do professor Carlos Melo que assisti no início de 2010, perguntei (já antecipando mentalmente a resposta) ao douto cientista político sobre o que o PSDB, que governouo o país por 8 anos, teria feito no período de 2003 a 2010 e no ato da pergunta já antecipei publicamente o meu voto que seria dado à Dilma, para a perplexidade da audiência pertencente à elite financeira paulistana. A resposta do professor foi exatamente a que eu imaginava ser a verdade e ao mesmo tempo o que eu queria ouvir. Ou seja, nada. O PSDB ficou, no nível federal, fazendo uma oposição sem qualquer proposição e jogando cascas de banana acreditando que Lula nelas pisaria ingenuamente, além de nutrir uma dilatada esperança de que o governo Lula cairia diante do mensalão, da crise de 2008 e outras mazelas. E assim, o partido não produziu nada nos 8 anos seguintes a governar o Brasil, e por isso mesmo, jamais mereceria a vitória eleitoral, política, moral e até mesmo ética. O comportamento do PSDB seria extensivo a 2014, quando, para a minha perplexidade, em abril daquele ano, Aécio Neves anunciava os convites para a elaboração de um plano de governo. Sim, perplexidade, pois desta vez, o partido e seu candidato confessavam que em 12 anos de oposição não teriam construído um único esboço de projeto para o país. Esta era a principal oposição ao governo PT.

Tudo isso até agora para dizer quem eram os russos do grande pleito político nacional neste um pouco mais de década.

E tudo isso até agora para colocar a imprensa em campo aqui no nosso jogo, e convidando o Reinaldo Azevedo a comentá-lo.

Em um outro texto recente, contestei a tese de Millôr Fernandes que dizia que imprensa que não é oposição não é imprensa, e em meus argumentos, digo que tenho para mim que a função da imprensa é informar de forma equilibrada, e ainda que opinativa, preservando o conjunto de parâmetros que permita ao leitor a formação de opinião própria.

Na sua entrevista, Reinaldo Azevedo justifica-se neste contexto de forma convincente, no sentido de colocar como valor fundamental a sua independência e autonomia, mostrando que o mesmo nível de oposição que impôs ao PT e seus membros aplica ao governo atual, o que de fato faz, impiedosamente, se podemos assim dizer, e que da mesma forma que criticou o PT por aquilo que teve como erros, critica os desvios e crimes da Lava-a-Jato, expondo as vísceras das ilegalidades que tiraram Lula do jogo político em 2018. Sim, talvez Reinaldo se destaque por esta pureza de princípios e a coragem de ir contra a grande corrente.

Agora chegamos ao cerne do que pretendo expor. Tanto no jogo do Garrincha como no cenário político temos antagonismos permanentes, com a diferença que o jogo político não tem dois tempos e intervalo, e que quem tem que vencer é o país e não os partidos e seus representantes, por mais que o sistema tente corromper esta verdade na mente do eleitor/cidadão.

A imprensa “Millôr” centra o seu fogo no poder em curso ou no poder em exercício. Mas como disse o matemático Garrincha, tem que combinar com os russos. Ou seja, o jogo só pode ser entendido se analisarmos simultaneamente o time que está ganhando (no poder) e o time que está perdendo (disputando o poder). Isto por que o jogo em si mesmo é o resultado do confronto, e não do jogo de um lado só. A qualidade e as características do jogo imposto pelo adversário são também pedras fundamentais da construção política. Em termos mais objetivos, se o jornalismo se estabelece como cego voluntário em relação ao terreno do adversário, a compreensão do jogo fica impossível. Para nos atermos aos “autos”, como podemos imaginar um debate útil ou uma formação de opinião por parte da população que é informada por uma imprensa que ignora os movimentos – ou a inércia, no caso do PSDB – da oposição ou de outros adversários, comportamento este da boca torta do cachimbo de Millôr? Será que se Reinaldo, entre tantos outros analistas, radialistas, televisivos e blogueiros tivessem também centrado fogo na absoluta incapacidade da oposição de formular teses e projetos convincentes e fundamentados dentro do campo democrático e constitucional, estaríamos nesta quadra da história?

Longe de mim querer estabelecer qualquer santidade aos governos PT (ou a qualquer outro), mas sim mostrar que o jogo depende também dos “russos”. Se o adversário joga com canelada e carrinho por trás, dar canelada e carrinho por trás é o mínimo que o lado de cá terá de fazer se quiser realmente disputar a partida. Em todas as fases de qualquer processo político o comportamento do adversário moldará o jogo, esta é a síntese de Garrincha aplicada à política e consagrada previamente pela Teoria dos Jogos de Van Neumann.

Se eu pudesse pedir algo ao Reinaldo Azevedo, e sim, eu pediria isso a ele por que penso que ele é capaz de processar o que digo com tranquilidade (o mesmo seria impossível a Marco Antonio Villa, por exemplo, que usa de seu título acadêmico para ludibriar a opinião pública), eu pediria que doravante e nos momentos oportunos, dedicasse boa parte de sua retórica à análise do adversário. Certamente, se a imprensa tivesse observado o jogo dos “russos” com a mesma vontade e dedicação que usou nos últimos tempos, certamente o fascismo, que é uma síntese do unilateralismo materializado pelo olhar desta imprensa, não estaria hoje no poder e disseminado, ainda que na perigosíssima casa dos 30%, na nossa sociedade.

Se na política (e na atuação da imprensa como atores políticos que são!) não pudermos combinar com os “russos”, o mínimo a fazer é conhecer muito bem o jogo deles.

NELSON NISENBAUM

O LADO DA CIÊNCIA (publicado originalmente em 10/06/2021)

O LADO DA CIÊNCIA

Em compasso afinado com diversas áreas de atraso evolucionário do Brasil, volta, em uma atávica ressonância um debate supostamente superado entre ciência e política, materializado pelas submáximas do tipo “ciência não tem partido”, ou, “ciência não tem lado”.

Este tipo de assertiva traz um denso sofisma em seu corpo. Para aquele bem versado em história da ciência, história da filosifia e história geral, a ciência cartesiana (matriz de pensamento cientificista há 5 séculos) traz no seu íntimo o racionalismo como guia de construção do conhecimento e ainda uma metodologia procedimental e matemática que representa uma luta contínua contra tudo aquilo que vindo do indivíduo e de seus desejos pessoais possa interferir no resultado de um experimento ou de uma estatística sobre dados existentes. Além disso, o tratamento matemático estatístico é uma luta constante para que se identifique, nos achados produzidos ou nos dados apurados sobre qualquer realidade, os elementos do acaso que possam obnubilar a percepção da realidade.

Obviamente, quando falamos em “percepção” estamos partindo do pressuposto que qualquer percepção é obra da consciência do indivíduo, e portanto, sujeita aos viéses deste indivíduo, também pressupostamente sempre existentes. Na perspectiva coletiva, esta percepção pode formar conjuntos distintos sobre os mesmos dados de realidade, e assim, o tratamento estatístico persegue também o objetivo de uniformizar esta percepção de forma que a informação ou o conhecimento apurado seja palatável e “aceitável” pela maioria.

Não sou daqueles que cultiva a verdade científica como único ou absoluto critério de verdade. Mas também não sou daqueles que desacreditam nas verdades produzidas pela ciência. Tenho no meu íntimo a plena noção de que muitos conhecimentos não estão ao alcance do método científico ou de certa visão determinista. Exemplos clássicos desta divisão remontam à grande ruptura imposta pela física quântica, que não obstante alicerçada em princípios antideterminísticos (e às vezes, verdadeiramente fantasmagóricos) foi a mais bem sucedida teoria do século XX, cujos frutos entranham-se em cada aspecto de nossa vida cotidiana, e em breve, será incorporada ao mundo da informática no maior salto tecnológico jamais visto nesta área. Ainda assim, a física quântica jamais fracassou em no critério cartesiano da reprodutibilidade, algo que “democraticamente” dá chances verdadeiramente iguais aos que repetirem os experimentos que deram um certo resultado de obter o mesmo resultado.

Toda a construção científica cartesiana, querendo ou não, traz em seu bojo a desconstrução da ligação entre o poder político, ou ainda, o poder de fato, com os critérios de verdade e a determinação dos campos de conhecimento de uma sociedade. Ainda que o cientificismo possa (e deva) receber com dignidade as cáusticas críticas de Paul Feyerabend (“Adeus à Razão), a adoção de seus critérios pelos sistemas culturais e sociais deu-se de forma quase inabalável desde suas origens. Isto chega ao ponto de que a carreira científica traz ao seu ator as sucessivas titulações acadêmicas que na prática terminam por designar posições de poder sobre a verdade, que no limite, servirão de base para as decisões políticas nos respectivos níveis de estado. Assim, o agente de estado moderno faz um pacto implícito com a ciência, pois caso assim não proceda, estará sob o risco de ser classificado como autoritário, totalitário ou obscurantista.

Pobre do cientista que não expande para todos os campos do seu conhecimento e percepções a essência da ciência cartesiana. O que temos visto é um patético espetáculo de suicídio de reputaçãoes perpetrados por pessoas sobre as quais jamais se esperaria isso. Mas, como humanos que são, não são imunes às perversas manifestações dos arquétipos de poder e dominação outrora tão sinônimos de grandeza. E nesta esteira, fazem do seu ego a principal propulsão de suas carreiras que naturalmente os levam às posições de fama e conexão ao poder.

No outro polo, o cientista que no seu amadurecimento consegue incorporar à sua visão de mundo a sabedoria e a humildade que a ciência naturalmente provê, afasta-se cautelosamente de qualquer estrutura totalitária de pensamento, de qualquer sistema de conhecimento simplista, e mais ainda, de qualquer discurso restritivo ao pensamento e à crítica. Ao contrário, engaja-se em um projeto permanente de construção do pensamento crítico (e de sua divulgação) com viés coletivo e não individual ou pessoal. Assim, as visões de mundo providas pela ciência têm uma tendência natural de levar seus praticantes a uma visão mais altruísta, pelo menos muito clara na minha experiência pessoal que confirma a história até onde a conheço.

Quando observo agentes da ciência com suas respectivas titulações aproximarem-se de correntes políticas que reúnem as clássicas características do fascismo, sinto um imenso desgosto pelo fracasso que a academia teve em identificar essas pessoas que não estão prontas para a ciência. Há muito tempo que critico as pós-graduações feitas por gente muito jovem. Acredito mesmo que formação científica exige alguma maturidade, um critério que reconheço difícil de aplicar. E em um círculo vicioso, sabemos o quanto um mestrado e um doutorado são capazes de consumir um jovem estudante e de isolá-lo de diversas vivências de realidade, especialmente a política, transformando assim a carreira acadêmica em uma via de reafirmação de certos valores impregnados nas suas estruturas que abrem o apetite para a sede de poder em sua forma bruta.

No contexto atual brasileiro, temos um fertilíssimo terreno para a análise destes fenômenos sobre os quais porcurei trazer aqui alguns elementos de reflexão. Que no meu sentimento, deixam claro que se a ciência não tem um “lado” como aquele do ideal partidário, ela fundamenta sim uma visão de mundo que predomina nas sociedades verdadeiramente democráticas ou que assim desejam ser. Pelo menos, no nosso caso particular, uma visão profunda sobre nosso texto constitucional deixa claro que a ciência é um valor em si mesmo fortemente introjetada nos valores do constituinte de 1988, e que no cenário atual, aglutina-se fortemente contra a força de oposição aos seus valores que atua com a técnica da destruição da linguagem, algo que deveria alarmar desesperadamente qualquer pessoa com mínima formação científica, o que claramente não ocorre com alguns, que diligentemente são atraídos ao poder atual.

Assim, se a ciência não veio ao mundo para constituir-se explicitamente como um “lado”, as circunstâncias momentâneas do Brasil a obrigam a assumir um, sob pena do seu próprio fim.

NELSON NISENBAUM

Sobre as raízes do nazismo

Sobre as raízes do nazismo

Sigmund Freud, no final de sua vida, escreve “Moisés e a Religião Monoteísta” para explicar o antissemitismo. Freud nem sempre acertou, ainda bem, mas revela no livro sua paixão por Moisés em busca por saber o que é um pai. Sempre acreditou na sua invenção em “Totem e Tabu”, no qual um assassinato do pai onipotente pelos filhos teria mudado a história da humanidade. O “Moisés” de Freud foi escrito entre 1934 e 1938 na ascensão do nazismo. Hoje ainda se pergunta sobre a atualidade desse movimento de extrema direita que gerou o antissemitismo redentor.
O nazismo segue sendo um tema atual, assim como todas as formas de racismo. Aliás, alguns buscam definir os seguidores de Hitler como socialistas, como fizeram aqui um ex-ministro do Exterior e o próprio presidente. Historiadores de Israel e Alemanha escreveram o que todo mundo sabe: o nazismo foi e é de extrema-direita. Aliás, as ditaduras e o autoritarismo usam e abusam das mentiras, e assim o ódio obscurece a razão de boa parte da população.
Uma das raízes do nazismo foi o conflito do cristianismo contra os judeus, por estes não aceitarem Jesus Cristo como messias. Foram séculos de tensões, perseguições como nas Cruzadas, e na longa Inquisição. No caso da Alemanha, tudo piorou quando se publica o livro “Sobre os judeus e suas mentiras”, de Martinho Lutero. Este incomodado porque os judeus não se uniram a ele no combate ao Vaticano, passa a defender a perseguição aos judeus, destruição dos seus bens religiosos, confisco de seu dinheiro. Para Hitler havia três grandes personagens da história alemã: Lutero, Frederico, o grande, e Richard Wagner, como escreveu em seu “Mein Kampf”.
Para conhecer as raízes do nazismo indico a leitura “Os Alemães”, livro que Zygmunt Bauman considera a obra-prima de Norbert Elias. Analisa o comportamento prussiano e depois alemão a partir do “habitus”, que é um saber social incorporado, em especial nos séculos XIX e XX. O “habitus” é a herança cultural adquirida como o hábito da bebida, do duelo, da educação severa nos séculos. Em um filme psicológico, de alta tensão, “Fita Branca”, do diretor austríaco Michael Haneke, esse revela a educação repressiva que antecedeu o regime nazista.
Importante também foi à vingança pela derrota a crise capitalista de 1929, conhecida como a grande depressão, a quinta-feira negra – dia 24 de outubro –, que mudou o mundo. O nazismo foi o beneficiário direto dessa crise, pois nas eleições de 1928 tiveram 2% dos votos, em 1930, 15%, e em 1932, 31,2%. Os votos vieram dos desempregados, da classe média assustada pela insegurança econômica.
Em junho de1934, o ministro da Justiça do Reich, Franz Gürtner, expôs as medidas legais dos Estados Unidos para lidar com os grupos marginais, e proteger os cidadãos brancos. Desejavam institucionalizar o racismo no Terceiro Reich e para isso recorreram nazismo seguiu a extrema direita na lógica da guerra de castas, os humanos e os sub-humanos. Essa paixão racista na Alemanha contra os judeus, ou o racismo estrutural dos Estados Unidos e Brasil revelam o sistema de casta. Desafiar as castas pode ser inglório, mas resignar-se é ser cúmplice da pior das crueldades.
Theodor Adorno escreveu em 1946 sobre os nazistas algo que pode estar presente hoje:“Se excitam com a ideia da ruína inevitável, sem sequer diferenciar claramente entre a destruição de seus inimigos e a de si mesmos”.
Informações e link da pré-venda na livraria Bamboletras: https://bamboletras.com.br/imaginar-o-amanh-pre-venda.html
Sobre tolerância e respeito `as diversidades

Sobre tolerância e respeito `as diversidades

No mês em que se celebra o orgulho, deparo-me com manifestações de pseudorreligiosos em retaliação a uma marca de fast food, que nos brinda com uma campanha de marketing com a abordagem LGBTQIA+, com o foco na pureza das crianças, sim porque as crianças são puras, e não enxergam maldade no amor. Respeitar todas as formas de amar deveria ser uma bandeira do cristianismo, porém, os neopentecostais se comportam de forma avessa ao que prega a sua própria religião, são apenas fundamentalistas que desejam impor seus pensamentos e comportamentos a toda sociedade.

Há muito tempo sinto-me sufocada pelo rumo que o Brasil tomou, enchendo-se de um conservadorismo pré-histórico, trazendo toda sorte de mazelas para um povo. Essa gente que hoje vai às redes sociais gritar contra essa empresa de fast food é a mesma que colocou no cargo de mandatário da nação brasileira, um genocida, negacionista, incapaz de sentir empatia pelo sofrimento de um povo, que ele deveria cuidar, o Brasil tornou-se palco internacional de espetáculos diários de intolerância, arbitrariedades, homofobia, destruição de direitos. E tudo isso tendo como pano de fundo pilhas e pilhas de mortos, seres humanos asfixiados pelo fundamentalismo de muitos, pelo nazi fascismo de outros.

Esses cidadãos de “bem”, sabem criticar outros fundamentalistas que matam os missionários cristãos em seus países, mas não se enxergam como responsáveis pelos assassinatos diários de homossexuais no Brasil, pois desde que Bolsonaro foi eleito presidente, os homofóbicos sentiram-se a vontade pera exacerbar toda sorte de comportamentos desprezíveis.

Respeitar as diferenças é obrigação de todos, independente de seguimento religioso, e falo como religiosa que sou. Não somos iguais nem nas digitais, por que teríamos que seguir padrões de comportamento impostos por uma parcela da sociedade?

Viva as liberdades de orientação sexual, de culto religioso, ou de ausência de religião!

Farda, fralda e fraude

Farda, fralda e fraude

“Tempos estranhos”, a forma que com alguma frequência, gradualmente mais alta, o quase ex-ministro Marco Aurélio Mello define as quadras históricas que vivemos, é uma forma definitivamente corolária se quisermos definir as almas que habitam nestes mesmos tempos e lugares, onde qualquer tentativa de ordenamento e compreensão lógica sobre as trajetórias e narrativas sucumbe escalafobeticamente. Tanto que para dar um pouco mais de sentido a este texto, tive que inserir este primeiro parágrafo que nem trata do tema principal para justamente estabelecer um corolário ao descrever o estranho e ilustre personagem acima, que permite a compreensão daquilo que ele mesmo chama de estranho a partir de sua perspectiva civil sobre assuntos mais atinentes ao polo militar da sociedade brasileira.
Mello, o campeão absoluto de votos vencidos no STF, talvez até em escala global se feito o devido comparativo ponderado com outras supremas cortes ocidentais, pelo menos, parece mesmo querer “encher a fralda” daquilo que jocosamente se diz da “cabeça de juiz”, que por sua vez encontra fundamentos na história das sentenças escatológicas que permeiam a história jurídica brasileira, em especial, quando, nos últimos estertores de seu mandato na suprema corte, dá a Sérgio Moro o status de herói nacional e ao golpe militar de 64 a alcunha de salvação nacional, apoiando-se para esta tese na ideia de uma “possível instalação de uma ditadura comunista”, à época, sobre a qual, ainda que sem qualquer apoio em evidências concretas ou razoáveis, não deveria-se correr o “risco”.
Nem de todo o caos vem a ordem, ou alguma ordem, para ser mais preciso, já que caótico seria um elogio ao “corpus” filosófico do ilustre ministro, que com essas esdrúxulas assertivas finalmente revela a ordem subjacente de seus pesos e contrapesos internos, esta por sua vez marcada pela necessidade intestinal de ser exótico (e de conquistar fama e notoriedade por esta via) e de personalizar uma visão de mundo e de país em uma escala e método antagônicos aos princípios republicanos delineados pela Carta de 1988, a qual nitidamente impôs-lhe um trauma do qual parece não ter se recuperado, e que talvez tenha mesmo sido o ordenador de sua conduta, que a título de exemplo, no passado recente pôs em liberdade um dos mais perigosos e violentos traficantes por questões de formalidade processual, causando um imenso prejuízo ao aparato do estado na medida em que altos recursos são hoje mobilizados para a recaptura, dado que este aparentemente fugiu rapidamente do país, e pelo seu brilhante diagnóstico sobre a atuação do juiz que talvez tenha sido o maior usurpador de direitos fundamentais e não fundamentais de nossa história recente, pelo menos.
Tudo isso para dizer que Hamilton Mourão não habita solitário nestes estranhos tempos onde as reputações são tratadas como fardas e fraldas, ou seja, como objetos de uso temporário, sujeitas a lavagens e descartes sistemáticos como se necessário fosse. O por muitos admirado general é tido como pessoa bem formada, articulado, disciplinado e culto, o que de imediato estabelece um paradoxo com seu perfil político de primeira viagem embarcado nesta nau autoritária e obscurantista que certamente ajudou a projetar, tendo o cardo de vice-presidente como prêmio de consolação a alguém que dificilmente alcançaria esta posição pelas vias civis e partidárias comuns.
De fato, Mourão é dotado de algo que em algum tempo e lugar poderia ser chamado de fino senso de humor, mas que hoje não ultrapassa as fronteiras do simples exacerbar preconceitos, abusar dos falsos pressupostos e abandonar os verdadeiros à própria sorte. Quem viu ou ouviu suas últimas entrevistas e tem uma mínima formação em lógica, história, economia e ciência política pode observar a patética desarticulação entre ideias, valores, objetivos e dos elementos da realidade, curiosamente recheadas de um otimismo cínico, de justificativas que fariam corar um adolescente ainda que inundado de hormônios, e do tal senso de humor que no contexto atual só pode ser percebido como as chacotas que seu chefe propaga quando fala das vítimas da COVID-19.
Ao tentar justificar-se com os princípios da obediência, da hierarquia e de um “patriotismo”, Mourão esquece-se que não está na ativa e que a vida civil não submete-se primariamente a estes princípios, e sua resistência a entender sua função e lugar é sintoma de perfil psicológico. Isto para não dizer de seu desprezo pela soberania nacional na medida em que serve a um governo entregacionista e sabujo do capital internacional mais selvagem em circulação. Suas justificativas em relação à sua submissão sumária, rasa e vergonhosa ao verdadeiro maluco que ocupa o Planalto tentam convencer o ouvinte de que é o caminho a ser seguido, e tenta dizer isso por uma boca sorridente e relaxada, tentando trazer ao interlocutor a sensação de ser um netinho no colo do vovô aprendendo sobre a vida com os ditos em voz doce, amorosa e paciente. Também a título de exemplo, na mesma entrevista dada a Roberto d’Ávila na GloboNews, lamenta as imensas desigualdades que nos definem e adoecem como se o projeto político que abraçou nada tivesse de responsabilidade histórica e atualíssima com o fenômeno, e aprofunda o destrato com sua farda e patente ao se colocar como cumpridor fiel e acrítico das ordens emanadas pelo seu superior hierárquico, olvidando-se do antigo adágio militar fundacional que reza pelo não cumprimento de ordens absurdas.
Fraude também seria elogioso se como adjetivo dos comportamentos que vimos observando por parte daqueles que teriam que primar pela coerência interna de suas proposições e atos. Isto por que até a fraude exige uma arquitetura intelectual e uma metodologia passível de exame e desmonte pelo ferramental lógico, jurídico, filosófico e ético que nossa civilização tenta construir e sustentar. A estrutura do comportamento destas figuras é tão absurda que nos faz sentir como que se areia tivesse sido jogada nos nossos olhos. A cada assertiva, uma rajada, e a cada rajada, a nossa cegueira reflexa e temporária. Parece mesmo não haver ferramenta ou método para desarmar essa gente. O que revela-se nesses tempos estranhos é por demais vil, covarde, cínico e aterrorizante, deixando-nos às vezes com o amargo desejo de tempos ainda mais estranhos como forma de sairmos disso que mais parece um horizonte de eventos dos buracos negros.

Bolsonaro tua hora está chegando

O que mais se pode dizer sobre Bolsonaro que ainda não foi dito? As notícias e publicações começam a se tornar repetitivas, praticamente todos concordam no desastre de sua presidência, na intimidade com as milícias, na inépcia para o cargo, na incapacidade de gerir crises, na incoerência de seus pronunciamentos, enfim um sujeito que perdeu o respeito dos brasileiros.

Por muito menos do que isto, dois presidentes foram afastados, Collor e Dilma. Ambos sofreram processos de Impeachment quando perderam o apoio político que os sustentavam. As razões alegadas eram mera razão para abertura do processo. Condenados já estavam desde o dia Zero. Afastar um presidente no Brasil obedece um processo teatral, não exige a comprovação do cometimento de nenhum crime.

Bolsonaro não teve ainda a abertura de um processo contra ele por que ainda conta com apoio político, crimes comprovados não faltam. A lista de razões para um Impeachment é longa e todo dia se somam novos pedidos. Já faltam gavetas para guardar tanto papel.

Pelo andar da carruagem, não se espera que ele deixe o cargo pela porta da humilhação. Talvez a próxima eleição em 2022 seja a única via de retirar do cargo máximo da nação o pior presidente da história do Brasil. Isto se houverem eleições já que o flerte com as forças armadas segue de vento em popa.

A sociedade brasileira que elegeu Bolsonaro está dividia. Existem os que votaram contra e os que votaram a favor. Entre estes últimos, os que mantém sua adoração e os arrependidos. Neste grupo os que dizem agora votar em Lula e os que dizem votar em qualquer um, menos nos dois prováveis nomes em um eventual segundo turno.

Desde a última eleição que falo em uma Frente Ampla. Aqui em Israel foi o que aconteceu depois das últimas eleições. Os partidos que compõe o novo governo concorreram de maneira independente, mas o resultado mostrou que uma união da esquerda, centro e direita de partidos anti-Netanyahu era possível. Foi graças a perseverança e a capacidade de compreender o momento histórico que seus líderes foram capazes de chegar a um acordo para formar um governo sem o Likud e sem os partidos religiosos.

Depois de 12 anos com um fascista no poder, Israel respira novos ares. Quem está dizendo que o novo primeiro ministro é um extremista de direita e trocamos alhos por bugalhos, não entende nada de política, menos ainda da política israelense. O que acaba de acontecer aqui é histórico em vários sentidos e deve servir de exemplo para o Brasil. Forças políticas antagônicas podem se unir em nome do bem maior, relevar suas ambições ideológicas para que o país possa reconhecer que é possível ser governado por outro líder.

Existe uma geração que não conheceu outro primeiro-ministro que não fosse Netanyahu. Seus seguidores estão em pânico, inconformados. Para muitos deles a ficha ainda não caiu e sua família ainda segue morando na residência destinada ao primeiro-ministro em exercício. Ainda repetem para quem quiser escutar que tiveram a eleição roubada e que vão voltar em breve. Trump deixou discípulos por todo lado.

Os americanos se livraram de Trump. Nós em Israel nos livramos de Netanyahu, falta os brasileiros se livrarem de Bolsonaro. A eleição americana deixou uma lição, o mesmo aqui em Israel. É preciso aprender com elas e escolher o melhor caminho para se livrar desta chaga.

As manifestações, como a programada para este sábado dia 19, são muito importantes e precisam crescer cada vez mais. As entidades civis e os partidos políticos de oposição a Bolsonaro precisam estar afinados para levar cada vez mais manifestantes as ruas. Cada vez ter mais cidades participando e mostrando que o fim de Bolsonaro está próximo e é apenas uma questão de tempo.