Vamos viver

Vamos viver

Estamos vivendo um mundo cheio de mudanças que nos são anunciadas dia a dia. Enquanto a maioria de nós ainda não pode usufruir das redes de celular 5G, já falam dos benefícios da 6G. Computadores quânticos voltaram a ser tema de vários artigos e o Metaverso parece que vai revolucionar as relações entre o mundo físico e o virtual.

Claro que tudo isto ainda é, ou será inicialmente para poucos.  Como todo avanço tecnológico, leva um certo tempo até que a maioria da população possa usufruir. Houve um tempo em que ter uma linha telefônica custava uma fortuna, os primeiros celulares eram proibitivos e as TVs de parede custavam o preço de um carro.

Como tudo neste mundo capitalista em que vivemos, as coisas se resumem entre oferta e demanda. Novos lançamentos começam com pouca oferta e alta demanda. É o momento paradisíaco de todo capitalista, quando ele obtém rapidamente o retorno do seu investimento e depois, quando a oferta aumenta, tudo é lucro.

Isto também vale para o momento em que estamos vivendo. A pandemia mostra perfeitamente a frieza capital do mundo em que vivemos. No começo uma simples máscara custava alguns dólares a unidade! Hoje custam centavos. O mesmo com tudo que se relaciona ao Covid, incluindo aí as vacinas que salvam vidas. Não seria diferente com a desgraça humana.

Se o mundo é assim, temos nossa parcela de culpa. Não importa se vivemos em países democráticos, ditaduras, sob regimes de esquerda ou de direita. A maioria dos seres humanos é consumista e seu desejo por conforto (em todos os sentidos), é igual para todos. O lançamento do último modelo de um aparelho celular atrai multidões. Eventos grandiosos para seu lançamento e pré-vendas do que ainda não chegou ao mercado são anunciadas, as vezes com meses de antecedência, sempre com interessados.

Enquanto tentamos manter o mínimo da vida que tivemos há dois anos atrás, o danado do vírus insiste em nos lembrar quem é o dono do pedaço atualmente. Sem nenhuma vergonha ele vai mudando sua aparência como alguém que troca de roupa, e se faz anunciar com toda pompa que ainda está aqui. Como um vizinho indesejável, ele sabe fazer barulho.

Nem bem acabamos de tomar nossa valiosa dose de vacina e já nos dizem que temos de tomar mais uma dose. Eu tomei a primeira e na sequência a segunda como programado. Então me avisaram que deveria tomar um reforço como terceira dose e agora, como indicado aos maiores de 60 anos, mais um reforço, ou quarta dose. Se continuar assim, serão três doses ao ano, uma a cada quatro meses.

Nada contra continuar tomando picadas de injeção, desde que eu continue prevenindo a doença na sua forma mais grave. As vacinas atuais não previnem totalmente o Ômicron, mas a diferença entre vacinados e não vacinados é grande. Por enquanto, praticamente todos que foram a óbito são não vacinados. Quem se vacinou, tem sintomas leves e passageiros sem sequelas.

Eu continuo fazendo o possível para ser parte do grupo que no futuro vai contar que não ficou doente. Sigo as orientações de vacinação e não saio de casa sem máscara, uso até mesmo para caminhar na rua. Estou trabalhando de casa faz uma semana e pretendo continuar por mais uma ou duas, a depender da situação aqui em Israel. Atualmente nos aproximamos dos 50.000 novos casos ao dia, mas os pessimistas já nos falam de que podemos chegar a 300.000!

Muito já se aprendeu com esta pandemia. Infelizmente ainda não é suficiente, mas para alguém que aprende a dirigir já sentado na direção e acelerando, muito deste aprendizado já ajuda os especialistas e responsáveis na tomada de decisões. O que aconteceu é que se antes o carro andava devagar e permitia um aprendizado mais confortável, agora ele está acelerado a 120 k/h e os experts precisam reagir rapidamente aos percalços do caminho. Eles fazem o que podem.

Estou recebendo notícias de amigos e conhecidos que se infectaram recentemente com esta nova onda. Pessoas vacinadas, que se cuidam e se achavam protegidas. Muitas ainda sem compreender como se contagiaram. O importante é que até aqui, todas elas falam de sintomas leves e plena recuperação. A lição que fica é de que basta dar uma chance ao azar e o pilantra do ômicron te pega! Não vacile.

Em meio a tudo as pesquisas seguem apontando que Lula é líder absoluto em qualquer cenário, com ou sem ômicron, digo, com ou sem qualquer um dos pretensiosos ao cargo. Uma chance muito grande de levar a faixa no primeiro turno. Para que isto não mude, se cuidem, todo voto conta e vamos precisar de todos os votos. Vacinem-se e continue usando máscara.

A dádiva de poder escrever

A dádiva de poder escrever

Pensei no que deveria escrever no primeiro dia de 2022, o ano que não passou. O calendário diz que sim, mas tudo o que vem acontecendo neste ano que passou ainda vai custar a passar.

É verdade que algumas coisas são definitivas, ficamos um ano mais velhos. Perdemos amigos queridos, gente que não vão mais nos dar o ar da sua companhia. A pandemia continua aí, muda o nome da variante, mas é a mesma Covid-19 com uma nova denominação.

Eu acho que todos tivemos bons e maus momentos neste ano que passou. Em outra época recente as comemorações seriam muito mais intensas, muito mais alegres trazendo esperança de dias melhores que imaginamos chegar com a renovação do ano. A gente aguardaria pela virada para abrir a espumante e bater taças com as pessoas queridas, abraçaria até desconhecidos e desejaria de coração um Feliz Ano Novo.

Vivo em um país onde o calendário mostra nesta data a mudança de ano civil, onde não existe feriado e as comemorações são feitas em grande parte por imigrantes de outros países como eu. Os israelenses se juntam pela festa, e ninguém se importa com o trabalho no dia seguinte. Alguns já avisam antes que vão faltar.

A virada de ano é um acontecimento global de fato. Os telejornais mostram os países que já estão em 2022 e todos fazem sua retrospectiva do ano que passou. No que se refere aos que nos deixaram, melhor nem falar. Tivemos menos guerras, mas as tragédias climáticas nos lembraram que este tema continua sendo urgente a ser melhor tratado por nossos políticos.

Neste restinho de ano no Brasil, mais do mesmo. O presidente que não trabalha saiu para passear sem passar a presidência para o vice. Quem já não fazia nada, continuou e quem não apitava nada, continuou também. Nem as inundações na Bahia tiraram o presidente do seu ócio costumeiro. Enquanto milhares de pessoas continuam desabrigadas, ele passeia de Jet-ski da marinha e visita parque de diversão em Santa Catarina, afinal ninguém é de ferro.

Em Israel, no último dia do ano, um assalto espetacular contra uma empresa privada de cofres privados. Assaltantes invadiram o local, amarraram o vigia e saquearam os cofres. Como na maioria deles existia “dinheiro não contabilizado”, acredita-se que pouca gente vá prestar queixa. Alegria de uns, tristeza de outros.

A gente sempre tenta fazer um balanço do que fizemos, nem todos conseguem, nem todos se prestam a isso. Eu Procurei ser solidário com o próximo nos piores momentos, levantar a moral dos companheiros quando tudo parecia perdido, ajudar com uma palavra amiga quem precisava de um agrado e não deixar de escrever. Escrever me faz sentir vivo, ter um propósito.

Todo sábado pela manhã, salvo raras exceções, me sento no computador para escrever meu artigo do final de semana. As vezes já venho com o assunto pronto na minha cabeça, as vezes um comentário sobre algo que passou e eventualmente me sento com a mente limpa, livre para passear por diversos assuntos que vão surgindo como gotas de uma chuva que vai cair.

Espero neste ano que recém nasceu continuar escrevendo e recebendo críticas a cada texto. Sou daqueles que escreve tudo de uma só vez. Em cerca de 30 minutos já coloquei no papel o que tinha para dizer e em seguida publico.  Não sou de ficar mexendo no texto, escrevo de supetão e as palavras vão sendo escritas como se estivesse me escutando falar. Este é o meu estilo.

Hoje o dia amanheceu cinza aqui em Hadera, onde moro. Nuvens cobrem o céu. Já choveu durante a noite, parou e deve recomeçar a qualquer momento. Deixo a vocês que me leem um abraço apertado, um desejo que 2022 seja um ano com muita saúde, amor e solidariedade. Que tenham mais um pouco de paciência, não percam a esperança por dias melhores e comecem a contagem para a mudança. Lula vem aí.

Brasil: A Disneylândia do Negacionismo

Brasil: A Disneylândia do Negacionismo

Nessa coluna devo começar pedindo desculpas a meus leitores. Sinceramente não entendo como as pessoas podem ficar assustadas quando veem ministros do governo a comemorar o Golpe Militar de 1964. Aliás, não me assusto sequer com os esforços que o Presidente Bolsonaro faz, no meio de uma pandemia mortal, para comemorar o 31 de março.

Acredito que está tudo coerente. Não acho mesmo que sequer podia ser diferente.

Em um dos trechos finais da estupenda obra intitulada K- O Diário de Uma Busca, Bernardo Kucinsky, descreve o pai de Ana, uma professora da Universidade de São Paulo, desaparecida durante a ditadura militar, pensando a memória da ditadura nas ruas do Rio de São Paulo.

Em uma estratégia literária de metanarrativa, o personagem “K” representa o importante intelectual judeu idischista Meir Kucinski. Radicado em São Paulo, Kucinski havia nascido na Polônia e conseguira sobreviver ao genocídio dos judeus na Europa justamente por ter decidido emigrar a tempo para o Brasil.

Ana, a professora desaparecida na ditadura, representa no texto a filha de Meir, Ana Rosa Kucisnski. Os dois são respectivamente o pai e a irmã de Bernardo, o autor do livro. Abaixo, K divaga sobre os nomes das ruas e a memória da ditadura militar no país que escolheu para viver.

No trecho que segue, ele comparece a inauguração de um largo na cidade do Rio de Janeiro que no processo de democratização recebe o nome de uma pessoa morta por lutar contra o regime dos generais. Ao retornar de ônibus para São Paulo, K nota cuidadosamente que os nomes das ruas e avenidas lhe são bastante conhecidos:

“Percorreremos algumas ruas com nomes que ele desconhecia. Depois, para espanto de K., uma Avenida General Milton Tavares de Souza. […] Foi quem criou o DOI-CODI, para onde levaram o Herzog e o mataram. Esse foi o Lavrenti Béria desses canalhas, o Hímmler brasileiro, dizia que para matar subversivos valia tudo; e tem nome de avenida. Avenida principal. Onde já se viu uma coisa dessas? Um vilão, “a menulveldiker roitsech”, ele blasfema em iídiche. […] Tomado pela indignação, K. agora perscrutava cada placa e escandalizou-se ao deparar com o nome Costa e Silva na Ponte Rio–Niterói. Incrível, uma construção majestosa como essa de quase nove quilômetros com o nome do general que baixou o tal do AI-5. […] K. está revoltado. Ainda vitupera mentalmente quando atingem no centro do Rio a grande Avenida Getúlio Vargas. Esse era civil. K. até chegou a simpatizar com ele – o pai dos pobres dos seus primeiros anos de Brasil. Mas foi ditador e seu chefe de polícia, o Filinto Müller, um sanguinário. Matou e torturou muita gente. Só faltava uma rua Filinto Müller. Vai ver, em algum lugar tem, pensou K. […] No ônibus para São Paulo acalmou-se um pouco; a principal autoestrada do país se chama Via Dutra e esse, pelo que ele sabia, foi um presidente democrata, embora também general e também antissemita. Cassou os deputados comunistas e dificultou a entrada dos refugiados da guerra judeus, embora não a dos volksdeutsche. Mas não matou nem desapareceu com ninguém, que se saiba. […] Ao se aproximar de São Paulo, o ônibus passou debaixo de uma ponte que trazia a placa viaduto General Milton Tavares. De novo esse criminoso.” (KUCINSKI, 2014a, p. 162-164).

As ruas pelas quais os ônibus seguiam continuam se chamando da mesma forma. Ditadores, torturadores e facínoras são homenageados na esquina, nas ladeiras, nas quebradas. A ditadura, as ditaduras, não foram revisitadas nas nossas estradas e cidades. Ainda temos nossos Himmlers e Goebels homenageados sem que isso pareça incomodar muita gente.

Claro, isso dói na alma dos que tiveram seus queridos arrancados, estuprados e moídos pela ditadura. Mas provavelmente só na deles. Isso pode explicar como um louvador de torturadores tenha sido eleito presidente mesmo depois de homenagear no Congresso Nacional um homem que inseria ratos nos corpos de mulheres suspeitas. Isso explica o negacionismo histórico da ditadura. Enquanto as memórias da cidade mantiverem nomes de torturadores, as portas para o isso estão abertas. Escancaradas na realidade.

Engana-se, entretanto, quem acha que o negacionismo histórico ficará restrito ao tema da ditadura. Quem nega uma história negará tudo. Bolsonaro, ainda candidato, por exemplo, negou, num programa de TV, a escravidão no Brasil. Mais que isso, ele mesmo negou os direitos aos povos indígenas dentro de um clube judaico no Rio, foi capaz de negar a pandemia (lembram-se da gripezinha?) e posteriormente negou a eficácia da vacina.

O Brasil virou uma Disneylândia do negacionismo. Elegemos um negador, que nega a dor que o outro deveras sente. Elegemos negadores que usam a história para fortalecer suas crenças e ideologias. Elegemos pessoas que negam a escravidão e negarão, se alguém ainda dúvida, o genocídio onde os parentes de Meir pereceram. A negação, o negacionismo é a bússola desse governo.

Quando tudo isso passar, mudemos os nomes de quem matou e torturou, por enquanto gritemos que a ditadura existiu, que foi cruel e assassina e lutemos para que ela não volte a acontecer. Nunca mais.

Só não vale ficar surpreso com a negação da ditadura pelo governo Bolsonaro.

Erga omnes ou, o aniquilamento dos cursos de Ciências Jurídicas e Sociais nas Terras da Santa Cruz!

Erga omnes ou, o aniquilamento dos cursos de Ciências Jurídicas e Sociais nas Terras da Santa Cruz!

Há um nexo de causalidade entre o aniquilamento da graduação e, consequentemente, da pós-graduação. Diria que é, mais ou menos, a comparação entre um Resumo/Sinopse e um Manual e, deste com a Doutrina.

Houve um tempo, nestas terras, em que se estudavam as disciplinas do Direito como Ciências Jurídicas e Sociais, com Autores de peso, Doutrinas e Obras substanciais.

Depois, os Manuais, que deveriam apenas servir como “introdução” às verdadeiras Doutrinas, tornaram-se eles próprios a “Doutrina” (embora continuem Manuais!). É o mesmo mal que afeta a Jurisprudência, hoje, confundida, sem mais nem menos, com Acórdãos).

Logo em seguida, os Manuais (fakes de Doutrina, assim como os Acórdãos são fakes da Jurisprudência) foram substituídos por Resumos e, imediatamente, por Sinopses para terminar tudo em um “resumão”, vendido nas bancas de jornal.

Graduação e Pós-graduação andam por este mesmo caminho. A Pós se tornou uma graduação e a Graduação um curso de “despachante”. E tudo se faz “novo”. Ninguém sabe mais o que é um Curso de Ciências Jurídicas e Sociais, e chamam, sem vergonha na cara, a qualquer publicação de “Doutrina” fazendo revirar na tumba Juristas e Doutrinadores como Pontes de Miranda, Orlando Gomes, Savigny, Ihering, Augusto Teixeira de Freitas, Roberto Lyra, Florestan Fernandes e outros “desconhecidos”…

É a centrífuga, que tudo desfaz! É o processo de “fakerização“: os Cursos de Direito usurparam o lugar dos Cursos de Ciências Jurídicas e Sociais. Os Cursos de “Advocacia” usurparam o lugar dos Cursos de Direito. Os Cursos de Despachante usurparam o lugar dos Cursos de “Advocacia”. Os Cursos Preparatórios para OAB usurparam o lugar dos Cursos de Despachante!

E as Comissões de Ensino Jurídico da OAB Federal, Estadual e, pasmem, Municipais, usurparam o lugar das Comissões especializadas do MEC!

Os Manuais usurparam o lugar das Doutrinas. Os Acórdãos usurparam o lugar da Jurisprudência. Os Resumos usurparam o lugar dos Manuais. As Sinopses usurparam o lugar dos Resumos. Os Resumões (agora, em uma única folha) usurparam o lugar das Sinopses (e várias Sinopses se juntaram para tentar se transformar em um Manual)!

Biqueiros (que fazem bico!) usurparam o lugar dos Professores! Conversinhas de corredor maledicente usurparam o lugar de Diálogos e Debates de Ideias…

Os Matriculados usurparam o lugar dos Estudantes. Os “churrasqueiros” usurparam o lugar dos militantes estudantis e o “churras”, pqp, o churras!, o lugar dos movimentos legítimos de reivindicação universitária!

Ao vencedor, as batatas – e os “dipromas”! Se a Democracia depender disso, ela será destruída completamente e virará geleia e gosma dos esgotos sociais.

© Pietro Nardella-Dellova, 2011

Doenças e tabus

Doenças e tabus

Dos males humanos, a depressão é a pior das doenças. Existe um tabu imenso que se reflete no imaginário humano em relação às doenças psíquicas. É muito mais aceitável que se tenha problemas cardíacos, renais, hepáticos, que inclusive possam resultar em transplantes, ou mortes, mas os males da mente, esses devem ser escondidos no mais profundo baú, em locais inacessíveis, para que ninguém tome conhecimento, porque sofrer da mente é causa de vergonha, representa fraqueza. Quando uma pessoa assume seus problemas mentais em seu meio social, ela passa a ser estigmatizada, desacreditada, passa a carregar uma marca de vergonha. Os seus semelhantes não conseguem ser solidários com essa pessoa, pelo contrário, buscam a distância máxima, e passam a extirpar o doente da sociedade.

No ambiente de trabalho, essa pessoa é alvo de olhares de dó, de críticas, de medo, menos de compaixão. O depressivo geralmente não apresenta um motivo externo para a sua dor, porque é uma doença interna, e independe de fatores externos. Se o doente está numa situação global favorável, se tem uma família, um cônjuge, um bom emprego, se mora bem, então a pergunta não cala nunca: por que essa pessoa está a fazer drama? E surgem as falas equivocadas, sem qualquer embasamento científico, e dessa forma, o doente fica cada vez mais só.

Eu já fui vítima desse mal, e passei exatamente pelas situações citadas, e eram perguntas que eu ouvia diariamente, perguntas que eu não tinha como responder, porque também eu não conhecia as respostas. Hoje, anos após essa vivência, tenho em mim um novo olhar, um entendimento muito mais amplo, e apesar de admitir ser extremamente difícil conviver com um depressivo, ainda assim,  sei que tenho condições de fazê-lo, pois já trilhei esse caminho, e tenho gratidão pelos anjos com os quais pude contar durante essa difícil jornada.

Como profissional da saúde, eu realmente sonho com o dia em que as doenças mentais sejam vistas apenas como doenças, e que sejamos todos capazes de acolher o doente que está próximo de nós, esquecendo de nosso ego, e nos doando em humanidade.

Ateísmo – uma reflexão judaica!

Ateísmo – uma reflexão judaica!

Um dos aspectos tratados nos grandes temas da Ciência da Religião (que não é Teologia) é o Ateísmo. Tema especialmente interessante para “Direitos Humanos” (e eu nem estou dizendo que sou ateu!). Porque entre as facetas judaicas, há aquela de matriz cultural (registro que é hoje a mais expressiva). Essa matriz cultural defende a tese de que o judaísmo não é uma religião, mas uma cultura no estrito sendo de compreensão. É nessa dimensão que o Judaísmo pode contribuir decisivamente para a tessitura dos Direitos Humanos.

Ao contrário do que se pode imaginar, o ateísmo é um tema recorrente nos grandes debates judaicos, sobremodo nos ciclos judaicos anarquistas (especialmente estadunidense) (Bertolo: 2001). Aliás, não poucas vezes, é tratado como forma de resistência ao processo opressor de teologização de qualquer religião pregacional. Dizer-se ateu ou, como sugere o tema, estar em movimento de ateísmo (a-theos) é tido não poucas vezes como sinônimo de irreligioso e, pior, de ataque ao sentimento religioso ou às religiões.

Porém, seguimos aqui o conceito de ateu/ateísmo como movimento de resistência, e não de ataque ao direito religioso de quaisquer pessoas. No caso judaico, é relevante notar que os kibutzim judaicos que existem desde 1870 (chamados, após 1948, de kibutzim israelenses), foram todos anarquistas, marxistas e, em sua grande maioria, ateus (Bulgarelli: 1964). Menciono, a título de ilustração, que um dos livros da Literatura Judaica, chamado Ester, cujo texto narra a história de uma rainha (de origem judaica) que livrou o povo judeu de ser morto pelos assírios (hoje, Irã), não menciona uma única vez a palavra “Deus” ou qualquer termo que possa sugerir “Deus”. É desse Judaísmo ético, cultural, libertário, proativo, que tratamos aqui.

De fato, há um processo de centrífuga unidimensional no que respeita à religião, (digamos, pregacional, salvífica, apocalíptica, milenarista ou até messiânica), em especial aquelas que querem a uniformização do mundo. Trata-se da imposição unilateral de um viés religioso que vai, entre outros aspectos, tomando a sociedade como um todo, e desenhando as relações econômicas e jurídicas.

Afinal, por que chamo o ateísmo de resistência? Pelas mesmas razões que chamo o anarquismo de resistência e, em sua vasta temática, há a da luta contínua contra os processos de imposição ou contextualização religiosa da sociedade. Ateísmo e, também, Anarquismo, não têm a ver com desrespeito às crenças e, muito menos, com desorganização, caos, bagunça. Atacar religiões e agir de modo caótico não têm nada de ateísmo e de anarquismo, mas de crimes comuns. Insisto, Ateísmo e Anarquismo são formas de resistência e, sobretudo, de dizer “não!” às imposições coletivizantes, uniformizadoras, coisificantes, padronizadoras e destruidoras do direito individual e da dignidade da pessoa humana. A dignidade da pessoa humana começa sendo o direito de ser diferente!

Historicamente falando, há inúmeros exemplos de imposição religiosa com nefastas repercussões na vida individual e social. Por exemplo, a justificativa católica da escravidão ou, em outro setor, a imposição de regime matrimonial aprovado pela Igreja contra as relações de afeto. No primeiro caso, da escravidão, milhões de negros foram feitos e mantidos como escravos, como coisas, com a legitimação que a leitura (perversa e erradíssima) da Bíblia (cristã) lhe dava, em especial o episódio de Noé (embriagado) e de seu filho Ham (Cam), então amaldiçoado por seu pai. No outro exemplo, o regime de casamento como “sacramento” que deve ser observado por casais católicos levou a uma das maiores injustiças: a marginalização e criminalização das relações amorosas livres. Criou-se o concubinato no sentido negativo! A criminalização do amor criou gerações de milhares e milhões de pessoas sem direito ao nome, herança e dignidade.

Mas, se em um regime político em que a religião é relevante, digo, determinante para o regramento social e jurídico, por outro lado, em sociedades emancipadas, vale dizer, democráticas, cuja lei maior, a Constituição, e sua opção por Estado Democrático de Direito, bem como a separação entre religião e organização social, deveria ser, não apenas nítida, mas visivelmente nítida. É a falha da Constituição Federal brasil(eira), cuja proposta é de um Estado laico, mas não tanto. Vejamos o preâmbulo da CF/88:

Nós, representantes do povo brasileiro, reunidos em Assembleia Nacional Constituinte para instituir um Estado Democrático, destinado a assegurar o exercício dos direitos sociais e individuais, a liberdade, a segurança, o bem-estar, o desenvolvimento, a igualdade e a justiça como valores supremos de uma sociedade fraterna, pluralista e sem preconceitos, fundada na harmonia social e comprometida, na ordem interna e internacional, com a solução pacífica das controvérsias, promulgamos, sob a proteção de Deus, a seguinte CONSTITUIÇÃO DA REPÚBLICA FEDERATIVA DO BRASIL.

Note-se que no preâmbulo, o constituinte, ao promulgar o texto, invoca “Deus”. Não diz qual é o “deus”, que tipo de “deus”. Não diz se é Tupã, Jeová, Alá, entre outros. Além da falha em invocar “deus”, apresenta-se uma pior e terrível falha, ou seja, a de que o “deus” que aparece na Constituição é o “deus” de todos e para todos. Ou seja, todos devem conhecê-lo, até mesmo os ateus. A CF/88 é laica, é democrática e é plural, mas, com o preâmbulo em leve desafinação, não abriu espaço para os ateus.

Na mesma linha falha, o símbolo “crucifixo” encontra-se afixado na parede de vários ambientes públicos, sabidamente, a de fundo do STF – Supremo Tribunal Federal. Outra vez é uma imposição: todos devem prestar reverência não apenas à religião, mas, sobretudo, à religião católica, cujo símbolo maior é mesmo o crucifixo.

Uma das abordagens que faço é acerca do direito do ateu ser ateu e, não apenas de ser ateu, mas ser respeitado e protegido como ateu. A CF/88 protege o direito aos cultos, crenças, lugares de culto etc. Porém, não trata do direito de uma pessoa em nada acreditar e, além disso, de não ser molestado por não acreditar.  E por que aponto isso? Porque o Judaísmo, enquanto cultura, tem algo a oferecer acerca disso, pois não há qualquer obrigação judaica em acreditar em um “deus”. Diga-se mais, sequer a palavra “deus” aparece nos textos da Literatura judaica antiga, mas a ideia (plural) de Elohim.

A questão nesse sentido não é apenas ser ateu, mas viver o ateísmo com a proteção constitucional, em especial, o direito à diversidade, pluralidade e dignidade da pessoa humana. Ademais, ateus e religiosos são fundamentais para uma sociedade livre, igualitária e solidária, além de plural, como quer o texto constitucional.

O ateu foi colocado em um canto discriminatório e, não poucas vezes, vítima de preconceito que lhe retira ou destrói um dos fundamentos constitucionais: a dignidade da pessoa humana. Ser ateu, para o senso comum teologizado e preconceituoso, é sinônimo de desonestidade, imoralidade, fraqueza, leviandade, porque a religião (pregacional) e o discurso religioso se encarregam de, não apenas criar, mas reforçar tais e quais preconceitos reais.

O processo de emancipação passa, necessariamente, pela compreensão do pluralismo não apenas religioso, mas o de ausência religiosa. Se é verdade que toda prática religiosa deve ser protegida, e creio que deva mesmo, não é  menos verdade que a não prática religiosa, aliás, muito mais que não pratica, mas assumir-se ateu, ou em um movimento de ateísmo, exigem a mesma proteção constitucional. Perguntamos: ser ateu não faz parte do elemento sine qua non do pluralismo cultural e diversidade de comportamentos?

Por último, vale dizer que a religião leva à construção de uma ordem moral (mores, no latim), equivocadamente exigida de todos. Mas, o que interessa mesmo, se falarmos em sociedades democráticas, é a ética (ethos, no grego). Moral interessa a uma pessoa ou, no máximo, ao seu pequeno grupo, enquanto ética interessa a todos. A moral, então, tem uma raiz na religião e em seu braço teológico, e deles se alimenta, enquanto a ética tem raiz na racionalidade, na cultura plural, na diversidade, na filosofia crítica e, sobretudo, no anarquismo epistemológico (enquanto uma teoria crítica e libertária). A ética, da qual faz parte o ateísmo, alimenta-se de criticidade, humanismo, solidariedade, respeito, igualdade, liberdade e racionalidade.

© Pietro Nardella-Dellova 

Nota: Texto apresentado e debatido no Programa de Estudos Pós-Graduados em Ciência da Religião da PUC/SP, 2017

INDICAÇÃO BIBLIOGRÁFICA:

 BERTOLO, Amedeo et al. L’anarchico e l’ebreo: Storia di un Incontro. Traduzione di Amedeo Bertolo, Annalisa Bertolo. Milano: Eleuthera, 2001;

BULGARELLI, Waldirio. O Kibutz e a Entidade Cooperativa. SP: Depto Assistência ao Cooperativismo da Secretaria  da Agricultura do Estado de São Paulo, 1964;