Marighella, um herói brasileiro

Marighella, um herói brasileiro

Finalmente pude assistir ontem ao filme. Não há como deixar de voltar no tempo e recordar os anos que vivi durante a ditadura. Quando aconteceu o golpe eu tinha apenas 6 anos, minha militância começou a partir dos anos 70.

Minha única lembrança viva do golpe militar é de correr com minha mãe para casa. Por alguma razão, nos encontrávamos na rua e ela agarrou minha mão, entrou em um Bonde. Da janela eu lembro de ver aglomerações de pessoas de um lado para outro. Descemos e fomos direto para casa.

Já na adolescência eu frequentava um movimento juvenil judaico sionista socialista. Todo nosso material didático havia sido escondido depois de informações de que o Dops poderia bater na nossa porta. O material era de pensadores judeus socialistas e sobre os Kibutz, fazendas coletivas socialistas de Israel. Ninguém achava que eles iriam entender, e que bastaria verem a palavra socialismo escrita para levar todo mundo em cana.

A gente tinha pleno conhecimento do que estava acontecendo, da censura e dos desaparecimentos de militantes. Naquele tempo estas conversas só podiam acontecer entre amigos. Eu frequentava um grupo de resistência secundarista que se reunia em uma sala cedida pelo então MDB na Assembleia Legislativa do RS, o IEPS – Instituto de Estudos Políticos e Sociais do MDB.

Naquele tempo a gente se dividia entre porras loucas e alienados. Os porras loucas eram os que achavam preciso combater a ditadura militar e devolver a democracia para o país. Os alienados eram aqueles que não se envolviam com política, viviam e deixavam viver sem se importar com nada. Eu era um daqueles porra loucas.

O filme me trouxe várias lembranças, mas uma em especial. Corria o ano de 1974, o ano do fim da luta armada no Araguaia e da Copa do Mundo. Junto com a copa a maior epidemia de Meningite que a censura procurava esconder da população. Em dias de jogo do Brasil os porras loucas torciam contra, os alienados a favor do Brasil.

Na minha cabeça era incompreensível que alguém pudesse se importar com um jogo de futebol enquanto dezenas de brasileiros eram torturados até a morte ao som da narração dos jogos. E eles eram a maioria da população.

Quando Marighella morreu eu estava fazendo 11 anos de idade. Só fui saber de sua luta muitos anos depois já na militância contra a ditadura. Sua trajetória era uma inspiração. Eu sabia que a luta armada não tinha a menor chance de dar certo, mas resistir de todas as formas era a minha maneira de humildemente  honrar aquele que foi um herói brasileiro e todos que deram suas vidas para libertar o Brasil da ditadura militar.

O filme também é grandioso ao mostrar cenas comedidas de tortura sem fazer delas o ponto principal. No entanto, são suficientes para mostrar o erro colossal que foi anistiar torturadores. Todos eles cometeram terrorismo de estado e crimes contra a humanidade. Sua impunidade é uma ferida aberta que jamais irá cicatrizar.

A cena final do filme é enigmática. Não vou fazer spoiler, mas é uma cena onde a falta de um personagem e o cântico dos demais, entrelaçados e abraçados, do Hino Nacional, nos comove como brasileiros e patriotas. Eu me senti agradecido, como se aqueles que pereceram na luta estivessem dizendo “Muito Obrigado” porras loucas.

Marighella não foi o único herói a enfrentar a ditadura. Ainda precisamos contar a história de tantos outros patriotas que deram suas vidas por um Brasil livre e que diante do quadro atual devem estar dando voltas em suas sepulturas. A história de outro Calos também precisa ser contada, Carlos Lamarca.

A luta continua, Marighella presente!

Lutas e Lutas

Lutas e Lutas

Mês que vem completo 70 anos. Vivi todo o período da ditadura militar brasileira. Em 1964, quando ela começou, eu estava na pré-adolescência, e pouco compreendi do que ocorria. Mas dois anos depois já estava na rua, combatendo-a. Fiz isso de muitas maneiras, com variados graus de consciência e informação, e em diversos graus de intensidade, durante todo o tempo em que ela durou.

Seu fim coincidiu com o nascimento de meu filho caçula, a quem dei, em hebraico, o nome equivalente a “amanhecer”.

Minha militância – que permanece até hoje, e na mesma direção ideológica – não incluiu, sequer em cogitação, pegar em armas. A uma porque pouca luta armada se deu no Paraná, onde sempre atuei. E a duas porque, desde que pude refletir a respeito, alinhei-me entre aqueles que a consideravam equivocada.

Não me entendam mal. Não houve, jamais, qualquer tipo de avaliação moral. Naquela época eu me considerava um revolucionário, e como tal, jamais descartei, em teoria, a violência revolucionária como instrumento de luta pelo fim da opressão. O julgamento era, e sempre foi, político. Ou seja, relativo à adequação e eficácia dessa ferramenta dentro da conjuntura real na qual se situava concretamente nossa luta. Nós a julgávamos, naquele tempo e contexto, inadequada e ineficaz.

Ontem, após dois anos, voltei a uma sala de cinema. Fui assistir “Marighella”.

Tive três camadas de reação, todas muito fortes.

Não restou em meu corpo um único pelo em repouso. Senti-me dentro do filme. Sou parte –pequena, talvez insignificante mesmo, mas ainda assim, parte – daquela história. Vivi aquele tempo, debati aqueles temas no calor dos próprios momentos. Ainda que em outra trincheira, travei o mesmo combate, e, o que é mais importante, do mesmo lado em que estavam os personagens da obra.

Carlos Marighella foi, sem dúvida, um herói do Brasil, e a História já está lhe fazendo a merecida justiça. Como ele, foram heróis todos aqueles brasileiros que colocaram a própria vida na linha de tiro, em defesa da liberdade e contra a tirania. Admiro-os a todos, e a cada um.

Ao nível da emoção, portanto, “Marighella” foi uma redenção catártica.  Saí do cinema impactado, abalado e, principalmente, consolado. Convencido de ter estado sempre no lado certo da História.

Em segundo lugar, o filme como tal. Cinema no estado da arte. Não sou técnico no assunto, mas, como espectador experiente e exigente, fui excepcionalmente bem servido. Já li o livro que baseou o roteiro, e entendo que um está à altura do outro. É uma obra audiovisual belíssima, em forma e conteúdo. Cada detalhe se sobressai.

Acho relevante destacar, nesta parte, dois deles. Refiro-me à pertinência, a meu ver, de duas peculiaridades do filme que ouso classificar como licenças poéticas. Marighella não era negro, mas mulato, filho de pai italiano de pele branca, e mãe negra, filha de escravos. Se, porém, sua pele era clara e seus traços amplamente caucasianos, o fato é que, como bem frisou sua neta Maria Marighella (que é branca), preta era a cor de sua luta!

Por isso, a escalação de um negro retinto para representá-lo na telona não poderia ter sido mais feliz, não apenas do ponto de vista artístico (Seu Jorge, aliás, está soberbo no papel), mas também do simbólico.

A segunda licença poética está no antagonista. O policial Lúcio (Bruno Gagliasso, igualmente magistral) na verdade se chamava Sérgio. Por que a mudança? Não sei, mas minha opinião é a de que Wagner Moura, o diretor, não quis dar ibope para um dos mais execráveis brasileiros que já viveu. Se é assim, acertou também.

Por fim a terceira camada, a histórica. Nela, minha identificação fica com Jorge Sales, o do Partidão, personagem de Herson Capri, outro destaque.

A primeira cena dele com Marighella me representa por completo. A luta armada, naquele contexto, era não apenas uma aventura, mas uma aventura suicida. A realidade é a medida da razão. E a História é a juíza dos juízes.

São inúmeros os exemplos. Se a revolução cubana tivesse fracassado, Fidel e Che não passariam de vilões. Outros que tentaram o mesmo, mas sem sucesso, terminaram como notas de rodapé históricas.

É impossível prever quem vai ganhar ou perder. Mas a vida é implacável. Quem aposta e ganha, se consagra. Quem perde, paga caro. Um ótimo exemplo é a campanha de Galípoli, na Primeira Guerra Mundial, que só não custou a carreira política de Winston Churchill porque ele era realmente um gigante, e ainda porque, em 1940, ficou no centro de uma combinação anormal e extraordinária de fatores. Mas na ocasião viu-se frente a frente com o opróbio.

No Brasil de 1968 havia abundantes indícios, todos calcados em análises abalizadas e desapaixonadas, de que a aposta na resistência armada era um erro. Tanto que muitos guerreiros incontestes do povo brasileiro (como, por exemplo, Salomão Malina, herói da Segunda Guerra Mundial, Giocondo Dias, combatente na Revolução Constitucionalista, Dinarco Reis e Roberto Morena, heróis da Guerra Civil Espanhola, e tantos outros, que poderiam ser acusados de tudo, menos de covardia) se posicionaram contra essa orientação. A discussão, então, nada tinha de romântica. Era pura política.

Portanto, Marighella apostou errado. E não apenas ele. Lamarca e o PCdoB (no Araguaia), também. E outros. A realidade crua é a de que, malgrado o heroísmo pessoal, a intenção virtuosa, e, mais que tudo, o desperdício de inúmeras vidas, a resistência armada foi ampla e completamente derrotada pelo regime. O fato, duro mas real, é que fracassou. Do ponto de vista histórico, sua influência no sucesso da luta democrática foi nula. Sob um ângulo de abordagem não totalmente inválido, pode-se inclusive entender que a atrasou, ao acirrar a linha-dura militar.

Ao final, revelou-se correta a linha traçada desde o início pelo Partido que Marighella acusou de covarde. A ditadura foi posta de joelhos e derrotada pela luta política (muitas vezes traduzida no embate eleitoral, mesmo dentro dos limites arbitrários por ela impostos), travada em conjunto por todas as forças que a ela se opunham. A democracia foi conquistada através da conscientização, mobilização e organização das massas, feita com paciência de formiguinha, nas ruas, nos debates, no enfrentamento realizado dia-a-dia, todos os dias.

E a pior de todas as consequências foi que Marighella e tantos outros heróis de nosso povo não viveram para conquistá-la, desfrutá-la e, mais que tudo, melhorá-la. Quanto seríamos, hoje, um país mais civilizado, se todos eles pudessem ter contribuído com o aperfeiçoamento da nossa vida, quando a liberdade chegou? O quanto teríamos um Brasil mais próximo da justiça, fraternidade, e solidariedade, se a serviço dessas causas generosas tivessem estado corpos, almas e mentes dessas pessoas excepcionais, que nelas tanto acreditavam, e por elas pereceram inutilmente?

Infelizmente, não sabemos. E não saberemos. Mas que fizeram – e fazem – falta, isso não se discute.

Por que a variante delta da COVID-19 não “explodiu” no Brasil?

Por que a variante delta da COVID-19 não “explodiu” no Brasil?

No momento em que vários países da Europa com boa situação vacinal experimentam o maior “boom” da pandemia, com recordes de casos, o Brasil segue em queda sustentada de casos. O que será que explica a nossa “salvação”?

Tenho as minhas teorias, que já deixo bem claro, não tem valor científico, mas penso serem razoáveis e plausíveis. Vamos lá.

Desde antes do início da vacinação eu defendia que a plataforma da Coronavac seria superior pela sua composição de “vírus inteiro”, em contraposição a todas as outras, que independente da plataforma entregam apenas o antígeno “spike” ao nosso organismo. Este antígeno é o que forma a ponte entre o vírus e nossas células. Ocorre que é justamente este antígeno o que mais sofreu mutações ao longo da pandemia, o que poderia explicar que muitas pessoas com duas doses adquiriram a doença, ainda que com redução de gravidade e mortes em aproximadamente 90%. Os países onde a Coronavac está em alta não receberam Coronavac ou outra vacina de vírus inteiro, ao passo que o Brasil, Uruguai, Chile e Argentina (sem falar da China, obviamente!) usaram a vacina em larga escala. Como os anticorpos e células de defesa induzidos pela Coronavac dirigem-se a vários antígenos ao mesmo tempo, ficaríamos mais protegidos das mutações da proteína Spike. Claro que a Coronavac mostrou fragilidade entre os mais idosos, mas sem dúvida, quando usada em massa produz um bom “escudo imunológico” que protege a todos, inclusive os idosos, e os números mostram isso com clareza.

O segundo ponto, é que quando a nossa vacinação começou, já havia disseminação em massa do vírus em todo o país, especialmente a variante gama, que certamente em meados de março já havia batido em 100 milhões de brasileiros. Mas como fazer esse cálculo? Não é tão simples e nem tão complicado. Basta ter como parâmetro o fato de esta doença ter uma mortalidade “bruta” de 1% ou menos dos infectados. Como a nossa mortalidade chegou a 4,5% dos notificados em alguns momentos, fica claro que há cerca de um ano a subnotificação era em torno de 80%, em números arredondados. Assim, quando a vacinação começou de fato e em ritmo adequado, pelo menos metade dos brasileiros já tinha uma “dose” da vacina, que era a infecção prévia, fazendo com que esta primeira dose funcionasse de fato como segunda, e por sua vez, a segunda, como terceira. Assim, o verdadeiro “escudo imunológico” já estava em formação quando a vacinação começou, colocando o Brasil em uma situação incomparável com a de outros países, onde o vírus não circulou tanto. Isto confirmaria o “sucesso” do projeto de Bolsonaro, que foi o de construir imunidade de rebanho por disseminação do vírus, ao custo de 609.000 mortos pelos números oficiais de hoje. Que fique claro que o termo “sucesso” foi usado aqui em tom de fria ironia.

Nos meus cálculos, neste momento, o vírus já infectou pelo menos 75% da nossa população, principalmente nos grandes centros como a cidade de São Paulo, que experimenta no momento mortes diáirias na escala da unidade, e números de casos na casa de poucas centenas em trajetória de queda, o que só se explica, diante da potência da variante delta exibida em outros países, por uma imunidade coletiva muito forte, que somente a conjugação infecção+vacina poderia explicar.

Que venham os cientistas e testem as minhas teorias.

Olha o Moro aí outra vez

Olha o Moro aí outra vez

Previsto para quarta-feira, Sergio Moro vai se filiar ao Podemos e assim ter a possibilidade de concorrer a presidência da república, ou como acham outros, a senador por um estado qualquer. Convenhamos, o cara não tem o menor “sefragol”.

Não é só a esquerda que ojeriza a figura dele, os bolsonaristas e políticos de quase todos os partidos também. Moro arrumou inimigos por onde passou, mas foi na magistratura onde mais se deu mal. Tido como um juiz parcial no caso Lula, e lembrado ainda no caso do Banespa, ele é hostilizado por onde passa.

A hipótese de concorrer a senador parece a melhor opção. Seus adversários vão ficar circunscritos ao estado escolhido para concorrer. Mas se a opção for a presidência, aí o coro vai comer. Sua vida pregressa vai vir a tona e dali não sai muita coisa boa. Um juiz que se corrompe juridicamente, é a pior criminoso do mundo. Seu crime é pior do que vender sentença.

A gente pode pensar em inúmeras razões para um sujeito desta laia entrar numa disputa destas. Todas acabam levando a mesma conclusão de que o ego dele é maior do que o de um argentino. É sabido que para se suicidar um argentino sobe em cima de seu ego, o lugar mais alto que existe. Bem agora eles têm concorrência, e das boas.

Moro não acredita que tenha cometido nenhum crime contra Lula. Ele encontra justificativas morais estapafúrdias para cada ato abjeto que cometeu. Sua prepotência e sua arrogância, dignas dos maiores crápulas da história, fazem dele o personagem de um filme de Tarantino.

A base dos sistemas jurídicos modernos diz que todos são inocentes até que se prove o contrário. O juiz escuta os argumentos e provas da acusação. Também escuta os argumentos e provas da defesa. Da mesma forma ele escuta e inquiri as testemunhas. Tudo isto para poder julgar de maneira imparcial se o acusado é culpado. Sua decisão vem sempre ao final de tudo que viu e escutou.

No caso de Lula ele decidiu pela culpa antes do julgamento iniciar. Depois disso se associou aos membros do MP para encontrar argumentos e provas que substanciassem o veredito. Encontrou ilações, mas nenhuma prova.  Mesmo sem uma única evidência, ele carimbou a culpa, condenou a assinou embaixo.

Não contava com a paciência e perseverança de Lula. O maior presidente da história do Brasil se submeteu ao veredito, mas não se curvou. Lula e seus advogados lutaram bravamente. Não se deixaram abater pela perda das primeiras batalhas e lentamente vieram as primeiras vitórias. Aos poucos Moro foi sendo desnudado e a verdade surgiu aos olhos de todos, até mesmo dos incrédulos.

Agora seu algoz, derrotado e humilhado na justiça, talvez venha a ser seu adversário nas eleições para presidente. Desta vez, Lula não vai precisar de autorização para falar, não terá de ser comedido, tampouco tratá-lo por sua Excelência. Agora vai ser possível dizer tudo que ficou trancado na garganta e colocar Moro no lugar que merece: o esgoto de onde nunca deveria ter saído.

A maior ironia da todas é que ele vai tirar votos principalmente daquele que ajudou a eleger para se tornar Ministro da Justiça. Seu possíveis eleitores são os que imaginam uma terceira via. Aqueles mesmos que elegeram um inepto na esperança de derrotar e acabar com a esquerda para sempre. Desta vez podem também escolher um vice a altura. Dallagnol está livre na praça.

Eles dizem que sabiam estar elegendo um idiota, mas não imaginavam que fosse o maior de todos. Agora sabem que podem estar votando num criminoso, só não sabem ainda que outros crimes ele é capaz de cometer.

Relações causais

Relações causais

Já antecipo: não se trata de justificativa, legitimação ou concordância. O que aconteceu na Itália, onde jornalistas que foram agredidos na cobertura do evento onde para a nossa desgraça o delinquente da República nos representa, é inaceitável e digno do mais veemente repúdio. Estaca fincada.
Mas, da mesma forma que o TSE “não consegue estabelecer uma relação causal” entre os disparos em massa de fake news, mentiras e ofensas e a vitória eleitoral do delinquente, a nossa “grande imprensa” parece também deliberar pela cegueira sobre o que fizeram nos verões passados, onde funcionaram de forma eficientíssima como caixa de ressonância para todo o tipo de discurso de ódio, discriminação política, criminalização da política e o fascismo contra os governos do PT e a esquerda em geral.
Não sairemos desse atoleiro enquanto a sociedade não elaborar uma visão sólida sobre o que são os fenômenos de escolhas e consequências sob a ótica da história e das ciências sociais e políticas em particular.
Se as mídias sociais podem ser acusadas de, através de seus algoritmos, promover o dissenso, ódio e falsas polarizações em nome do lucro imediato, o que fez a mídia tradicional brasileira nos últimos 20 anos? O que foi aquele infindável pano de fundo do Jornal Nacional (e de outros programas da Globo) onde tubulações da Petrobrás eram representadas como “propinodutos”, dos quais borbotões de dinheiro era derramado? O que foi a máquina de destruir reputações construída pela Lava-a-Jato em conluio criminoso com a imprensa?
A eleição de um governo criminoso, ignorante, brutal, fascista, mentiroso e assassino é mera consequência de tantos anos de destrato com a verdade e da irrresponsabilidade social e cultural da grande imprensa. As verdades que hoje aparecem sobre o que foi o “mensalão”, a Lava-a-Jato e sua gangue, e outras ações partidárias do MP e do judiciário eram muito evidentes já nas origens e objetivos dessas operações, tanto que foram exaustivamente denunciadas por cientistas políticos, historiadores, e pelas valentes defesas dos acusados, e claro, por setores da imprensa não comprometidos com essa máquina de destruição.
Infelizmente muitos inocentes pagarão pelos pecados dos seus patrões, assim como mais de 600.000 brasileiros e suas famílias já pagaram, no último ano e meio pelos pecados de outros, e claro, em muitos casos, pelos seus próprios. O bolsonarismo (e o trumpismo) guardam uma escandalosa relação direta com a mortalidade por COVID-19 entre os seus. A imprensa, por sua vez, apanha pelas suas escolhas imediatistas e inconsequentes. Não por que eu queira ou ache correto. Mas por que a história nos ensina assim.
Pacheco, Aziz e a alma brasileira

Pacheco, Aziz e a alma brasileira

Talvez eu seja o primeiro (sem qualquer pretensão) a ligar dois pontos relacionados à CPI da Pandemia, respectivamente localizados nos extremos da linha temporal mas que certamente guardam um certo “emaranhamento quântico”, de forma a serem na realidade uma coisa só. Vamos aos fatos. Em 4 de fevereiro de 2021 o senador Randolfe Rodrigues entregou à mesa do Senado o requerimento para a instalação da CPI da Pandemia.
A provisão constitucional determina, para que seja instalada qualquer CPI, tão somente a formalização do requerimento desde que este preencha os quesitos legais para tal. Era o caso. Qual foi a atitude do presidente do Senado, Rodrigo Pacheco? Em termos coloquiais, “sentou” sobre o pedido e apenas deu andamento mais de dois meses mais tarde, após ordem judicial do Ministro Luiz Roberto Barroso, que lembrou ao presidente do Senado que a Constituição deve ser cumprida que o prazo é zero, pois todos os pré-requisitos estavam conforme a lei.
Não houvesse a ação dos senadores Alessandro Vieira e Jorge Kajuru no STF, qual seria o destino do requerimento? Certamente o mesmo dos mais de 120 pedidos de impeachment que jazem sob as nádegas do presidente da Câmara, Arthur Lira, sem que se decida por sim ou não.
Na outra ponta da história, vimos a paradoxal (e absurda) situação de termos realizado a certamente mais importante e bem conduzida CPI de nossa história – não que perfeita, mas bem feita – e que se transformada em filme seria um arrasador documentário de um genocídio conduzido com dolo, método, frieza e ainda deboche por parte do psicopata-mor da República e sua equipe não menos sinistra e patológica, que deliberadamente dizimou idosos, obesos, diabéticos, hipertensos, cardiopatas, cujas mortes já eram previsíveis antes mesmo da entrada do vírus no Brasil, e que com sua disseminação planejada pelo governo federal terminou por atingir pretos e pobres com muito mais intensidade que a população branca e rica, fechando toda e qualquer equação desenhada pelas 3 décadas de carreira conhecida do delinquente da República. Sim, foi um projeto, que teve ainda a crueldade de eliminar aposentados, talvez uns 450.000, que certamente deram um grande alívio a Paulo Guedes e sua caterva.
Mas no momento da síntese da ópera macabra, surge o senador Aziz, presidente da CPI e articula para que seja removido do relatório da CPI os termos e acusações de genocídio e homicídio, saindo-se vitorioso.
Vamos agora ligar os pontos. A pergunta é, por que Pacheco não queria a CPI e Aziz não quis o termo genocídio? Qual a relação entre estas duas atitudes? Explico.
Amigas e amigos leitores, alguém minimamente esclarecido, e em especial, a classe política do Panalto (deputados federais e senadores) ignorava o que acontecia desde o primeiro caso de morte por COVID-19 no Brasil? Alguém deixou de perceber e compreender as intenções do delinquente-mor e seus nazifascistas associados? Alguém ali poderia se dizer ignorante ou desavisado sobre o trágico porvir, à dependência do governo federal? Não. Os fatos produziram-se na velocidade do fogo em palha seca e a doença ganhou o país sem qualquer resistência no nível das ações federais. O resto da história macabra, todos conhecemos.
Ora, o que faz uma CPI? Apura fatos com o objetivo de identificar ilícitos, crimes de todas as naturezas, e aponta, em seu relatório, a história oficial e estabelece responsabilizações, indica denúncias a serem processadas pelo poder judiciário. Convenhamos: se estivéssemos no lugar do presidente do Senado, a Câmara Alta da República, e ciente do volume escalafobético de crimes e ilegalidades a serem apuradas, qual seria o nosso sentimento? Qual seria a consequência de tal apuração? A resposta é uma só. Um vexame mundial. Uma mácula de dimensão continental em nossa história. Uma tragédia inominável, um sofrimento maior que o de uma guerra ou de qualquer cataclismo já ocorrido nestas paragens. E tudo isso ocorrido sob as barbas de quem? Do Congresso Nacional, parte voluntariamente e parte involuntariamente cúmplice de toda essa tragédia.
Pacheco sabia perfeitamente do tamanho do desastre e das responsabilidades envolvidas, para as quais certamente a nossa sociedade ainda não começou a medir, se é que irá algum dia. Mas a vista da cadeira de presidente do Senado é devastadora. Pacheco embarcou então na covardia de seus colegas Rodrigo Maia e Arthur Lira, que sob o pretexto de “não haver condições políticas”, não deram andamento aos pedidos de impeachment. Sinto muito, senhores, mas a história já não os perdoa, e o peso só vai aumentar pelo menos nos próximos duzentos anos.
Fechando o ciclo, Aziz foge do termo genocídio como o diabo da cruz, pois se todo o ocorrido já pesa o bastante sobre o sistema político, o “selo” genocídio dobra esse peso. Deixar o genocídio no relatório, seria praticamente assumir a cumplicidade da maioria dos deputados e senadores nos crimes, o que o deixaria em uma posição de acusador à qual Pacheco também quis renunciar com todas as forças.
No fundo, a alma dessa gente é corporativista, e no meu entendimento, este é o substrato que liga Pacheco a Aziz. Tanto um como outro tentaram evitar que o maior escândalo ético associado ao maior morticínio criminoso de nossa história tomassem um contorno oficial e passassem para a história, como as horripilantes fotografias e filmes dos campos de extermínio nazistas, cuja realidade foi revelada em imagens ao mundo por que alguns generais ordenaram que se filmasse e que se fotografasse tudo, para que no futuro, ninguém viesse a dizer que aquilo nunca ocorreu.
O genocídio ocorreu, os crimes ocorreram, e o deliquente-mor da República prossegue em sua sanha de cometê-los continuadamente. E o sistema político segue na sua inércia, tolerando-os como se não houvesse amanhã. Tragicamente, não se passará muito tempo até que a história dê o seu diagnóstico sobre a alma brasileira. E não será bom.