O dia 8 de janeiro deve ser preservado na memória coletiva como o epifenômeno de uma tentativa de golpe de Estado conduzida pelo ex-Presidente da República, com a participação de seus ex-ministros de Estado, oficiais-generais e grupos organizados de apoio.
A invasão e depredação do Supremo Tribunal Federal, do Congresso Nacional e do Palácio do Planalto, naquela manhã, por grupos que exigiam intervenção militar, a derrubada do Presidente recém-eleito, não foram fatos isolados. Representou apenas a face visível e derradeira de uma sequência coordenada de atos destinados à ruptura da ordem constitucional.
Os líderes dessa articulação — ausentes fisicamente dos ataques, mas que o financiaram — apostavam na decretação de uma Garantia da Lei e da Ordem (GLO), sob o pretexto de conter uma suposta “convulsão social”, criando uma janela institucional para nova ruptura democrática.
Não é juridicamente razoável reduzir tais condutas à categoria de mero vandalismo. Cartazes pedindo intervenção militar, a deposição do Presidente eleito e a recondução do ex-Presidente ao cargo não configuram desordem comum, mas insurgência contra o Estado Democrático de Direito.
O contexto revela múltiplos atos convergentes na tentativa de romper o equilíbrio institucional para impor uma nova ditadura militar: a) explosivos no aeroporto de Brasília; ataque a hotel onde se encontrava o Presidente eleito; b) elaboração de documento formal de ruptura institucional; c) concentração em frente a quartéis com pauta explícita de intervenção; c) campanhas de desinformação sobre eleições e fraudes; e) bloqueios de rodovias, acampamentos e pressão popular organizada por intervenção militar; f) monitoramento de autoridades e desafetos pela ABIN; g) conspiração de militares para assassinar o Presidente e seu vice-Presidente — hipótese que geraria vacância e novas eleições —, além de; h) intentona contra o ministro relator do caso no Supremo Tribunal Federal. E há mais.
Este texto, contudo, detém-se em um único ato paradigmático, a reunião do então com Presidente com seus ministros militares, suficiente para afastar qualquer tentativa de descaracterização penal da conduta.
No Direito Penal, o que importa é a conduta, não o êxito do empreendimento criminoso.
De plano, afasta-se a tese da cogitação, impunível por permanecer apenas no plano mental — o que não ocorreu. Tampouco se trata de atos preparatórios.
Houve reuniões formais, elaboração de minuta escrita, interlocução direta com ministros de Estado e comandantes militares e pedido explícito de adesão armada. A execução já estava em curso.
O avanço do plano apenas não se concretizou por circunstâncias alheias à vontade do agente, conceito clássico de tentativa penal.
O artigo 14, inciso II, do Código Penal dispõe: “Diz-se o crime tentado quando, iniciada a execução, não se consuma por circunstâncias alheias à vontade do agente.”
Na manhã de 7 de dezembro de 2022, com o resultado eleitoral já definido e ainda no exercício do cargo, o então Presidente reuniu-se com seus ministros comandantes da Marinha, do Exército e da Aeronáutica, levando uma minuta pronta para assinatura, com destinatário nominalmente indicado.
O documento — atribuído ao ex-assessor Filipe Martins e outros — descrevia, de forma minuciosa, atos destinados à ruptura institucional, reproduzindo a lógica e a estrutura dos antigos atos institucionais do regime militar, notadamente o AI-5.
Previa, entre outros pontos:
(i) a intervenção e o fechamento do Supremo Tribunal Federal, com cassação de ministros;
(ii) a criação de uma “comissão eleitoral”, formada por autoridades nomeadas pelo próprio Presidente, com o objetivo de declarar a nulidade das eleições;
(iii) poderes discricionários para prisões por supostos “crimes contra o Estado”, a critério do executor da medida — o próprio signatário.
Diante da apresentação da chamada “minuta do golpe”, o então comandante da Marinha manifestou concordância e prontidão. Já os comandantes do Exército e da Aeronáutica recusaram adesão à iniciativa.
A tentativa foi frustrada não por arrependimento do então Presidente, mas pela ausência de apoio essencial, necessário a consecução da intentona, circunstância esta alheia à vontade do agente. Aqui se configura, de modo inequívoco, o início dos atos executórios: apresentação da minuta, pedido formal de adesão e mobilização do aparato armado do Estado.
A objeção de que “apenas um comandante concordou” não altera o enquadramento jurídico. É relevante: a) a intenção manifesta de romper a ordem constitucional, o dolo; b) busca ativa de apoio armado, que caracteriza o início da execução; c) a idoneidade do meio, pois as Forças Armadas são instrumento apto à consumação, ainda que insuficiente no caso concreto. Não há que se falar em crime impossível.
A adesão parcial, longe de enfraquecer a imputação, reforça a materialidade da tentativa, ao demonstrar que o plano não era retórico, que havia expectativa real de execução e divisão consciente de papéis.
Golpes de Estado não exigem unanimidade. Exigem ruptura suficiente. O Direito não aguarda “tanques nas ruas” para reconhecer a consumação do ilícito penal.
O dia 8 de janeiro deve, portanto, ser lembrado como advertência histórica. A separação e independência dos Poderes, o respeito à Constituição, a proteção das minorias, a alternância no poder, o voto livre e secreto e eleições periódicas são fundamentos inegociáveis do Estado Democrático de Direito — e só se preservam com memória, responsabilidade e Direito.
Charles Schaffer Argelazi
Advogado e Antropólogo
Sócio da Argelazi Advocacia
Na Universidade de São Paulo, alastra-se uma estranha epidemia: uma dermatite moral, urticária antijudaica que acomete certos estudantes ao menor contato com ideias vindas de judeus.
Bastou o anúncio de que o cientista político André Lajst participaria de um debate na Faculdade de Direito do Largo de São Francisco neste dia 13 para que alunos do Centro Acadêmico XI de Agosto irrompessem em surtos de intolerância.
Erupções cutâneas discriminatórias se espalharam por todo campus.
Emitiram nota de repúdio à presença de judeus ou israelenses que defendem o direito de Israel existir, o direito de autodeterminação do povo judeu.
“Inaceitável dividir espaço com sionistas”, disseram, o que nada mais é que advogar pela destruição do Estado de Israel, deslegitimando.
Como se conviver em uma mesma sala com um judeu ou israelense, liberasse algum tipo de agente infeccioso no ar. O espírito nazista mais elementar reaparece, agora travestido de virtude.
Esses novos puritanos instados a dialogar com judeus ou israelenses, a conviverem em um mesmo ambiente para um debate acadêmico, logo são acometidos de colapsos cutâneos, irrompem em bolhas, pústulas, borbulham em surtos, estouram em brotoejas, latejam em vergões e espocam em exantemas.
Dermatites de toda sorte, que corrompem a consciência e aviltam o caráter — sob risco de morte moral.
Argumentar pelo direito e Israel existir, pela da autodeterminação do povo judeu é inaceitável, perigoso.
No templo da razão, onde se ensina lógica e liberdade, hoje reina o medo higiênico do contraditório.
Em um local onde se supõe que a razão e o debate devam prevalecer, o contato com judeus e israelenses causa aversão e medo, como se uma nova praga estivesse por contaminá-los.
A medicina ainda não nomeou essa moléstia; proponho “psoríase moral”: doença autoimune que faz a mente atacar a si mesma quando exposta ao oxigênio do debate de ideias.
Os sintomas são claros: eczema ideológico, vergões dogmáticos, urticária performática e coceira intelectual diante do nome “Israel”.
Por baixo destas escamas acadêmicas, o velho vírus do racismo e do antissemitismo resistem — agora com camiseta de causas sociais e selfies indignadas.
Por Charles Schaffer Argelazi
Foto: Faculdade de Direito da Universidade de Direito da Universidade São Paulo – Largo São Francisco.
Pois, senhores, a política brasileira, e, em especial, a política baiana de hoje, inverteu esse princípio elementar. Em lugar de verdade, verdade e mais verdade, mentira, mentira e mais mentira: só mentira, mentira e mentira. Mentira nas instituições. Na administração, mentira. Na tribuna e no telégrafo, e nos jornais, mentira, rementira e arquimentira.”
— Rui Barbosa, A Imprensa e o Dever da Verdade, Edições do Senado Federal, Vol. 272, pág. 43.
“Ao derredor do poder formigueja a multidão venal, e os governos, se algum embaraço topam, é em dar vazão ao número de mascates da palavra escrita.”
— Ibidem, pág. 25.
Dois dias após o Natal, Kakay traz um texto emotivo e melancólico sobre sua cidade materna, Patos de Minas, em Minas Gerais. Fala de suas memórias de aconchego e segurança, conversas sem fim, poesia e serenatas. Uma época sem televisão, de um Natal de alegrias e tristezas injustificadas.
O presépio montado com cuidado pela mãe para um Cristo imerso em um bercinho de palha. Um texto sereno para uma cidade serena. Em sua escrita, como sempre, Kakay cativa o leitor com seu calor humano. Não obstante, interrompe a sua exposição singela para inaugurar um tributo ao governo mais antissemita da história da República no Brasil, desde Getúlio Vargas, que deportou Olga Benário para morrer nas câmaras de gás nazistas, ela e seu filho.
Cita que, “segundo a ONU”, cerca de 14.500 crianças foram mortas na Faixa de Gaza. Por ignorância e viés de confirmação, não faz referência ao fato de que a ONU é fonte secundária e que replica, sem checar, os números do “Ministério da Saúde de Gaza”, que é o próprio Hamas. A fonte primária desses números, o Hamas, é mencionada em letras pequenas, em nota de rodapé. Segundo essa fonte, nenhum terrorista morreu, o que sugere uma falta de pontaria imensa de Israel, ou extrema, que teria como alvo as cabecinhas das crianças.
A própria ONU já revisou os números para 3.500 crianças. Existem apenas duas fontes primárias sobre o conflito em Gaza: o tal “Ministério da Saúde”, controlado pelo Hamas, e as Forças de Defesa de Israel (IDF). Em análise recente, 98% das notícias — incluindo as da ONU, Anistia Internacional, CNN, BBC e agora Kakay — baseiam-se unicamente nos dados do Hamas. Dessas, 20% sequer citam a fonte. Agem como Kakay, que ignora todos os princípios do direito ao utilizar fontes secundárias e deixar de apresentar o outro lado.
Apresentar o contraditório? Nem pensar!
Para Israel, mais de 20 mil terroristas foram mortos, todos identificados com nomes e sobrenomes. Esses terroristas não usam uniformes verdes, mas andam de jeans com RPGs ao braço. O Hamas considera crianças até os 18 anos quando recruta combatentes a partir dos 14 ou 15 anos e utiliza terroristas disfarçados de mulheres para enganar o exército israelense.
Kakay ignora isso.
Nem menciona as dezenas de mulheres estupradas coletivamente pelos terroristas do Hamas em 7 de outubro de 2023, muitas delas sequestradas, feitas escravas sexuais em Gaza e, possivelmente, grávidas. Algumas, tem-se informações, já tiveram filhos dos seus estupradores. Ele também ignora as crianças queimadas vivas, pessoas degoladas pelo Hamas, ou um feto arrancado pelos terroristas da barriga de uma mulher grávida com uma faca. Jovens de uma rave metralhados, habitantes de kibutzim socialistas no sul de Israel executados apenas por serem judeus.
Nenhuma referência aos 250 reféns feitos pelo Hamas, dos quais 100 deles continuam em cativeiro. Outra boa parte foi executada e morta. A meta do Hamas, inscrito em seu próprio Estatuto, é exterminar os judeus. Basta ler. Primeiro o povo do Sábado, depois o povo do Domingo.
Mas Kakay não está nem aí.
A seguir, Kakay fala de Herodes, impõe a ele a identidade judaica que não tem e diz que Israel mataria Jesus se estivesse em guerra, na linha daqueles que dizem que Jesus seria palestino. Trata-se de um verdadeiro clássico do antissemitismo que aponta para os judeus como deicidas e que justificou pogroms russos, massacres durante as cruzadas, expulsão dos judeus da Inglaterra, Espanha, França, Portugal etc., torturas e mortes durante a Inquisição, inclusive no Brasil e na América Espanhola. Kakay não está nem aí.
Remeto à ignorância de Kakay sobre o tema, um jurista de primeira estirpe, mas um verdadeiro bronco em assuntos do Oriente Médio. O viés de confirmação cega, que ataca a verdade.
Herodes não era judeu; e os judeus de Jerusalém estavam sob o domínio romano. Jesus (Yeshua), filho de Miriam e Yehoshua, era judeu e religioso, chegando à posição de rabino, estudioso e professor das escrituras judaicas.
Jesus nasceu, cresceu e cumpriu a tradição judaica, incluindo o ´Brit Milá`, cerimônia da circuncisão e o ‘Bar Mitzvá’, rito de passagem à idade adulta.
Mas a ignorância e a omissão não param por aí, nem na nesciedade do texto escrito por Kakay. Ao resgatar a ideia do ‘deicídio judaico’, Kakay dá voz ao antissemitismo histórico que culminou no Holocausto nazista.
Sendo católico, como se apresenta, Kakay deveria saber que o Papa Paulo VI, no Concílio Vaticano II, onde tivemos a Declaração “Nostra Aetate” (Nossa Era). No documento, publicado em 1965, foi recontextualizada a relação entre cristãos e judeus e deixou-se institucionalmente claro pelo Vaticano que Jesus nasceu como judeu e viveu dentro da tradição judaica, que os primeiros seguidores de Jesus eram judeus, assim como os apóstolos.
O Vaticano reconheceu que o cristianismo tem raízes no judaísmo e que a separação entre as duas religiões ocorreu após os eventos da morte de Jesus. Nada fala sobre palestinos, cuja identidade distintiva do povo árabe só surgiu na década de 1940. Mais recentemente, reuniões históricas entre papas e líderes judaicos, como o encontro de Papa João Paulo II com rabinos em Jerusalém, reafirmaram o combate ao antissemitismo. Este documento do Vaticano, que contradiz os discursos de grande parte da esquerda brasileira, que corre desta a presidente do PT até Lula, passando pelo Sr. Genoíno, Frei Betto, Janja e muitos outros. Uma vergonha.
Kakay não está nem aí.
Ele romantiza sua cidade na saudade de uma infância feliz e ataca Israel e os judeus como deicidas. Poderia refletir sobre a história de violência e racismo em Patos de Minas Gerais. Poderia traçar uma crítica histórica à trajetória de sua Patos de Minas Gerais até os dias de hoje. Que ela nasceu como Santo Antônio dos Patos em 1820 e trouxe sua estaca de fundação em um terreno marcado pelos massacres dos indígenas na expansão bandeirante. As Nações Xacriabás, Araxás e outros grupos menores são hoje etnias extintas.
Patos de Minas Gerais, como boa parte das cidades brasileiras, cresceu economicamente pelo trabalho escravo, especialmente na agricultura. Kakay, ao brincar de fazendeiro nesta sua cidade natal, como relatou saudoso, poderia agregar escravos neste seu forte apache à brasileira. Quando do Estado Novo, Patos esteve com Minas Gerais no apoio ao ditador Getúlio Vargas, mantendo inclusive um pequeno grupo de integralistas na região.
A discriminação, violência e racismo em Pato de Minas Gerais não são apenas coisas do passado, é atual: Madalena Gordiano, feita escrava doméstica desde os oito anos de idade, foi liberta apenas em 2020, um dos episódios mais tristes de exploração e de racismo estrutural no Brasil.
Seria mais correto, honesto e útil Kakay cuidar da história de sua cidade, Patos de Minas, das dezenas de Madalenas Giordanos que a sua cidade produziu, ao invés de atravessar dois mares, milhares de quilômetros, para debruçar suas lentes embaçadas pela ignorância e viés preconceituoso sobre aquilo que não conhece, o Oriente Médio, Israel e a Palestina.
Kakay, que fez um trabalho excelente em denunciar a Lava Jato, poderia também estudar um paralelo histórico, o caso Dreyfus, na França, em 1894, quando o oficial de artilharia Alfred Dreyfus, judeu, é julgado por alta traição (espionagem para os alemães) e condenado à prisão perpétua na Ilha do Diabo, na Costa da Guiana Francesa.
Como Émile Zola apresentou na sua denúncia do julgamento injusto, marcado pela perseguição aos judeus, o militar francês foi também chamado de “judeu porco”, “judeu sujo”, entre outras. Rui Barbosa, em “Cartas de Inglaterra”, também dissertou sobre o caso Dreyfus.
A acusação de dupla lealdade em face dos judeus é reconhecida como antissemitismo pela carta da IHRA, da qual dezenas de países são signatários; o Brasil é membro observador, e várias cidades e estados, como São Paulo, Rio de Janeiro etc.
A Sra. Gleisi Hoffmann e os seus, entretanto, vivem de apontar para uma suposta “dupla lealdade” dos judeus brasileiros da diáspora, imputando a pecha de estrangeiros sobre estes. Vai além, ao demarcar aos judeus como responsáveis pela morte de Cristo.
Este é o Brasil antissemita, de um governo antissemita, de partidos antissemitas sob o qual os judeus, uma minoria de não mais de 0,5% da população brasileira, está vivendo.
As manifestações de antissemitismo cresceram mais de mil por cento ao longo do mandato Lula III, com impulso e estímulo do próprio governo. E olha que, sob o governo anterior, base de comparação, não houve economia no Brasil em manifestações antissemitas e nazistas.
Juristas brilhantes e formadores de opinião, como Kakay, o Marco Aurélio Carvalho, Lenio Streck e todo o grupo “Prerrogativas” têm o dever ético e moral de combater o antissemitismo no Brasil. E agora!!!
Mesmo que, na autocrítica, tenham que cortar na própria carne. Ou se tornarão apenas lacaios do ódio.
Como um filho da terra gaúcha, nascido e criado em Porto Alegre, meu coração se aperta ao presenciar a tragédia climática que assola o Rio Grande do Sul. Inundações de proporções épicas, jamais vistas antes, transformam nossa amada terra em um cenário de sofrimento e destruição.
Os números frios da estatística não conseguem traduzir a dor imensa que toma conta de cada gaúcho. Mais de 100 vidas já foram ceifadas por essa fúria da natureza, e esse número tende a aumentar consideravelmente à medida que os corpos soterrados pelas águas forem encontrados.
Milhares de famílias tiveram suas vidas completamente transformadas. Casas, memórias e sonhos foram tragados pela correnteza, deixando para trás um rastro de dor e incerteza. Muitos perderam tudo, outros tantos foram obrigados a abandonar seus lares sem saber quando poderão retornar ou o que encontrarão ao voltar.
A distância física me separa da minha terra natal, mas a dor da minha gente ecoa em meu coração. Acompanho pela mídia os acontecimentos e, por um lado, me sinto aliviado pela onda de solidariedade que toma conta da população. Doações, trabalho voluntário e apoio mútuo demonstram a força e a união do povo gaúcho em um momento tão difícil.
Por outro lado, a notícia de saques e assaltos, inclusive contra socorristas, me deixa estarrecido e indignado. Em meio à tragédia, a ganância e a falta de caráter de alguns indivíduos demonstram o lado mais sombrio da natureza humana.
Pela primeira vez em muitos anos, a desgraça não distingue cores, idades, classes sociais ou times de futebol. A fúria da natureza uniu os gaúchos em um sentimento comum de dor e luto. Neste momento, a única coisa que importa é a vida.
As previsões indicam que mais chuvas estão chegando, o que significa que o pior ainda pode estar por vir. É urgente que as autoridades tomem medidas imediatas para garantir a segurança da população e minimizar os danos. A evacuação de áreas de risco e a busca por abrigos seguros são medidas cruciais para salvar vidas.
Mas a tragédia que assola o Rio Grande do Sul não deve ser vista apenas como um evento isolado. Ela é um lembrete cruel das consequências da ação humana sobre o meio ambiente. O clima está mudando, e eventos extremos como este se tornarão cada vez mais frequentes e intensos.
Precisamos agir agora para evitar que catástrofes como essa se repitam. Investimento em obras de prevenção, educação ambiental e políticas públicas sustentáveis são medidas urgentes para proteger nossa terra e garantir um futuro melhor para as próximas gerações.
Mesmo diante da devastação, a esperança não se apaga. A força e a resiliência do povo gaúcho são notáveis. Juntos, vamos superar este momento difícil e reconstruir nossa terra.
Viva os socorristas e todos os voluntários que estão sendo fundamentais para dirimir o sofrimento de tanta gente.
Sou gaúcho, nascido e criado nas terras do sul. E, mesmo estando longe, meu coração estará sempre com a minha gente. Acredito na força e na união do povo gaúcho para superar essa tragédia e construir um futuro melhor.
Há pouco mais de um ano, nos braços da minha mulher, em plena madrugada, eu comemorava a vitória de Lula presidente. Como havia dito dias antes Gilberto Gil num show na Île de Ré,” Lula para acabar com o pesadelo”. Naquele noite chorei copiosamente, de felicidade, talvez mais ainda de alívio. Tinha consagrado os últimos dois anos a fazer campanha pela eleição de Lula, criando o Coletivo Judias e Judeus Sionistas de Esquerda e o Comitê de judeus com Lula/Alckmin, atuando em plataformas de esquerda. Derrotar Bolsonaro se transformou em obsessão. Trabalhamos duro na relativamente fácil tarefa de fortalecer a convicção dos progressistas e convencer os indecisos, e na muito mais difícil de trazer para o nosso campo os conservadores avessos a Lula, muitos dos quais denunciavam a ambiguidade com relação aos judeus e a Israel. Lembrávamos então, incansavelmente, que Lula foi o primeiro presidente brasileiro a visitar Israel e sempre defendeu a tese de Dois Estados.
Vencemos!
Pessoalmente, me orgulho de ter conseguido virar o voto de ao menos cinquenta eleitores judeus; uma gota d’água que contou na apertadíssima vitória.
Hoje, me sinto desiludido, envergonhado, ofendido. Peço desculpas a todos aqueles com quem argumentei que Lula tinha provado, em dois mandatos, ser um chefe de Estado equilibrado, moderado. Eu, como todos os judeus que votaram Lula, amplamente majoritários, queiram ou não queiram nossos detratores, estamos todos ofendidos, envergonhados, desiludidos com Lula, que ousou o inimaginável, ao declarar, em Adis Abeba:
“Sabe, o que está acontecendo na Faixa de Gaza com o povo palestino não existe em nenhum outro momento histórico. Aliás, existiu quando Hitler resolveu matar os judeus.”
Entendo que Lula queira passar por um “gauchista” para satisfazer seu eleitorado de esquerda e por um humanista diante daqueles que denunciam os horrores da guerra, no Brasil como no resto do mundo, já que nunca desistiu de ser visto como um líder mundial. Só que agora caiu no discurso fácil do “os judeus estão agindo como os seus algozes.”
Lula realmente ultrapassou a linha vermelha. Comparar o que acontece em Gaza com o Holocausto é revisionismo ignóbil !
Lula não ofendeu “apenas” os 17 milhões de judeus, ofendeu todos os perseguidos, assassinados e gazados nos campos nazistas – ciganos, deficientes, comunistas, homossexuais, testemunhas de Jeová, em nome da raça pura e do pensamento único. Em outras palavras, o presidente do Brasil ofendeu todas as vítimas, as minorias, ofendeu a Humanidade.
Recebeu em contrapartida os elogios merecidos do Hamas. Até então, nenhuma liderança árabe tinha ido tão longe quanto o brasileiro. Que presente ao grupo terrorista!
Domingo, na Etiópia, Lula enterrou seu histórico humanista.
Pode se criticar a ação militar de Israel e os crimes de guerra cometidos, deve se criticar o governo Netanyahu, de extrema-direita, e clamar por um cessar-fogo, mas falar em genocídio e holocausto é uma mentira de quem não quer a paz, de quem, por um motivo ou outro qualquer, quer importar o conflito para tirar benefícios.
A cada fala (sem comparação com esta, que ultrapassou todos os limites da decência) , Lula libera a palavra e os atos dos profissionais da discriminação.
Ao invés de colocar lenha na fogueira do antissemitismo, o presidente deveria se lembrar que como responsável pelo clima reinante no Brasil precisa agir com responsabilidade e não como um mero militante sem papas na língua.
Escrevo-lhe hoje para abordar a sua recente declaração sobre nunca ter escutado da morte de mulheres e crianças em guerras. “O Brasil foi um país que condenou de forma veemente a posição do Hamas no ataque à Israel, mas não tem nenhuma explicação o comportamento de Israel, a pretexto de derrotar o Hamas, estar matando mulheres e crianças, coisas jamais vista em qualquer guerra que eu tenha conhecimento”, foram suas palavras. Acredito que essa declaração, embora compreensível em termos de experiência pessoal, não reflete a realidade brutal dos conflitos armados.
É verdade que ninguém é obrigado a ser especialista em todos os assuntos, mas a cautela e o bom senso são essenciais para evitar equívocos e declarações que podem ser interpretadas como desinformação ou falta de sensibilidade.
A guerra, em qualquer forma, não é bela. Mesmo em uma “guerra de travesseiros”, existe o potencial de causar danos, ainda que leves. No entanto, quando falamos de guerras reais, as consequências são infinitamente mais graves.
Infelizmente, a história demonstra que os civis são sempre as maiores vítimas em qualquer conflito. Dados de guerras recentes comprovam essa triste realidade:
Guerra do Iraque (2003-2011): 1 militar para 15 civis mortos.
Guerra do Afeganistão (2001-presente): 1 militar para 24 civis mortos.
Guerra Civil Síria (2011-presente): 1 militar para 9 civis mortos.
As grandes guerras mundiais também evidenciam essa disparidade:
Primeira Guerra Mundial (1914-1918):
Militares: Entre 9 e 10 milhões de mortos (aproximadamente 60% do total).
Civis: Entre 6 e 12 milhões de mortos (aproximadamente 40% do total).
Segunda Guerra Mundial (1939-1945):
Militares: Entre 20 e 25 milhões de mortos (aproximadamente 30% do total).
Civis: Entre 50 e 60 milhões de mortos (aproximadamente 70% do total).
É importante salientar que estas proporções podem variar de acordo com a fonte consultada, mas a mensagem central é clara: os civis pagam o preço mais alto em qualquer guerra.
Quando falamos em civis, incluímos, com pesar, mulheres e crianças – seres humanos indefesos que sofrem as consequências cruéis da violência armada.
Com base em tais dados, torna-se questionável a utilização do termo “genocídio” para descrever a situação em Gaza. Segundo informações das mortes fornecidas pelo grupo terrorista Hamas, o número de mortes seria de 1 terrorista para menos de 3 civis.
É importante lembrar que a guerra é uma tragédia humana que causa sofrimento imenso a todos os envolvidos. As estatísticas de mortes servem apenas como um retrato frio e numérico da devastação, cada vida perdida representa uma história individual e irreparável.
Dando seguimento ao seu contrassenso, você acusou Israel de cometer genocídio contra civis palestinos na Faixa de Gaza e comparou as suas ações em Gaza à campanha de Hitler para exterminar os judeus. “O que está a acontecer em Gaza não é uma guerra, é um genocídio”, disse Lula aos jornalistas em Adis Abeba, onde participa na cimeira da União Africana. “Esta não é uma guerra de soldados contra soldados. É uma guerra entre um exército altamente preparado e mulheres e crianças.”
“O que está acontecendo na Faixa de Gaza com o povo palestino não aconteceu em nenhum outro momento da história. Na verdade, aconteceu: quando Hitler decidiu assassinar judeus”, disse o presidente brasileiro.
Sua comparação é um insulto a memória dos 6 milhões de judeus assassinados pelos nazistas por serem judeus. É uma infâmia, só usada por antissemitas com a clara intenção de despertar antissemitismo. É de uma irresponsabilidade que não condiz com a postura de um estadista e afasta em definitivo o Brasil de qualquer chance de um dia mediar as partes.
Gostaria de salientar alguns pontos adicionais:
A guerra em Gaza não é um conflito isolado. Ela faz parte de um contexto histórico mais amplo de conflito entre Israel e Palestina, que já dura décadas.
A situação em Gaza é complexa e multifacetada. Há diversos fatores que contribuem para a violência, incluindo questões políticas, religiosas e sociais.
É importante buscar soluções justas e duradouras para o conflito. A violência apenas gera mais violência e sofrimento para ambos os lados.
A guerra em Gaza poderia ter um fim rápido se o grupo terrorista Hamas depusesse as armas e libertasse os reféns. A paz é sempre a melhor solução, e a responsabilidade por evitá-la recai sobre os ombros de todos os envolvidos.
Acredito que a sua posição como líder de uma grande nação como o Brasil lhe confere a responsabilidade de defender a paz e o respeito à vida humana. Espero que reflita sobre as informações aqui apresentadas e reconsidere suas declarações sobre a guerra em Gaza.