Não me cansarei!!! Venho, de novo, alertar ao que está acontecendo em Israel e que vocês não conseguem ver ver, talvez porque as mensagens chegam a nós deformadas por parte de ambas as mídias, de ambos os lados, com narrativas de ou nós ou eles, incapacitando a todos de poder ver a complexidade do conflito. Talvez por uma necessidade de defesa contra o antissemitismo atual ou talvez por encarar a verdade que destruiria nosso sonho, nosso ideal sobre o Estado de Israel.
O fato de que a Hamas realizou o maior massacre a judeus desde o Holocausto, que terroristas palestinos realizaram o maior massacre a civis na Austrália, que os palestinos criam fake news, que as mídias as transformam em verdades, não justifica o que este governo fez e está fazendo em Gaza e na Cisjordânia.
Estamos vivendo um momento crucial na história de Israel. Pela primeira vez temos um governo de extrema direita, no qual 25% de seus ministros são religiosos messiânicos, fascistas, 25% são haredim querendo impor leis religiosas a todos e combater o feminismo e a comunidade LGBT+. Os outros 50% dos ministros, pertencentes ao Likud, não são menos extremistas e querem acabar com a liberdade do sistema Judiciário e da Mídia.
Este governo, apesar de ser composto pelos setores mais tradicionais e religiosos da sociedade israelense, estão realizando atos antijudaicos, antissionistas, imorais. De 35 ministros, 15 estão sendo acusados de corrupção, sendo o primeiro deles o 1º ministro, Bibi Natanyahu, Sr. Crime Minister.
Estamos diante de 2 fatos principais. O primeiro pessoal de Bibi Nataniahu, que fez tudo e está fazendo tudo para sobreviver na política, pois caso saia dela , será julgado e incriminado. Há um mês atrás pediu anistia ao presidente, sem reconhecer culpabilidade e sem declarar que deixará o ativismo político. Ou seja, pediu ao presidente que cancele seu julgamento. Estamos diante de mais um ato de corrupção, se não de traição, o Qatargate – os assessores de Bibi Natanyahu, em plena guerra trabalharam para Qatar, recebendo dinheiro. Qatar que sustenta a Hamas e na qual vive a cúpula política da Hamas, em hotéis de 7 estrelas. Esses assessores falsificaram documentos em 2024, que foram usados no artigo no jornal Bild, de maior tiragem na Alemanha,querendo provar assim que a Hamas não quer o acordo de cessar-fogo e retorno dos reféns. Com isso Bibi e seu governo puderam continuar a guerra com a narrativa de que a força é o único meio para a volta dos reféns.
O segundo fator é ideológico. O sionismo judaico messiânico prega o retorno ao Grande Israel, a limpeza étnica. Não ele não prega o genocídio, mas se para haver limpeza étnica é preciso haver genocídio, parte deste governo apoiaria. Assim como o Rabino Eliahu Mali declarou Guerra Santa em Gaza e que temos que matar todos os bebês e crianças, pois serão, no futuro, terroristas. A policia de Ben Gvir, encerrou a investigação de chamada a genocídio.
Precisaria escrever um livro, para descrever as manipulações, mentiras e corrupções que Bibi e seu governo vêm cometendo nestes 3 anos. Mas, meu objetivo vai além disso. Minha intenção é alertar a comunidade de quanto longe nós estamos afastando do judaísmo moderno e de seus valores sejam eles das correntes laicas, humanista, reformistas ou conservadoras. O quanto este governo está se afastando dos valores do sionismo e da carta da independência assinada no ato da declaração do estado de Israel por Ben Gurion. Meu objetivo é alertar a comunidade de que um dos principais fatores da eclosão do antissemitismo é este governo e Bibi Natanyahu. Não o único, mas sem dúvida a calamidade, a opressão em Gaza deu armas nas mãos de antissemitas.
“Não oprimirás o estrangeiro, pois conheces o coração do estrangeiro, visto que fostes estrangeiros na terra do Egito” (Êxodo 23:9) e “Amarás o estrangeiro, porque também tu foste estrangeiro na terra do Egito” (Deuteronômio 10:19).
Em Pessach lemos “Em cada geração, cada pessoa tem a obrigação de se ver como se tivesse saído do Egito”
Ao que parece, a religião “judaica” de Bibi Natanyahi, Ben Gvir, Smotrich, Rav Gafni, Rav Edri e todos os 68 membros da atual coalizão se difere daquela que durante mais de 3000 anos, desde que recebemos a Torá em Har Sinai, pois para eles o estrangeiro tem que ser morto e expulso. .
Em Gaza morreram 70 mil pessoas, 40 mil civis. Gaza foi totalmente destruída, em uma guerra desproporcional, gerada por vingança e por interesses pessoais e ideológicos. Na Cisjordânia todos os dias estão sendo cometidos atos terroristas por colonos judeus, chamados de “Noar Hagvaot” (Jovens das Colinas). Casas e aldeias são incendiadas, plantações arrancadas (principalmente oliveiras, que também é proibido na Tora), mulheres, jovens e idosos são espancados e seus rebanhos roubados. A organização de Rabinos pelos direitos humanos e centenas de voluntários, inclusive eu, vão aos territorios ocupados, a Cisjordania Palestina, para ajudar aos palestinos fazerem a colheita das olivas. Mas, o exercito de Smotrich está impedindo que cheguem ao seu destino.
Smotrich, sendo ministro da Cisjordania, está permitindo e apoiando economicamente a criação de dezenas de colonias ilegais em terras particulares de palestinos.
Este governo, que parte dele passa 24/7 estudando a Tora, parece que sofrem de “invertologia” , isto é a doença de inverter a leitura, lendo assim o texto acima desta forma: Oprimirás o estrangeiro, pois conheces o coração do estrangeiro, visto que fostes estrangeiros na terra do Egito” (Êxodo 23:9) e “Nãoamarás o estrangeiro, porque também tu foste estrangeiro na terra do Egito” (Deuteronômio 10:19).
A inversão de valores judaicos, o fanatismo é descrito em uma palavra – fundamentalismo. Vivemos hoje em Israel, um fundamentalismo judaico, que não aceita nenhuma outra forma de judaísmo, repudiando qualquer religião que não essa na qual eles acreditam. Vocês podem achar que estou exagerando. Convido-os a uma conversa na qual poderei expor as leis que estão sendo impostas atualmente na Knesset, verbas sendo desviadas para as escolas harediot, que não cumprem com a lei e as normas de curriculum, segregação de meninas sfaradiot em escolas de meninas ashkenaziot, leis contra organizações laicas, ataques a organizações anti-religiosas e que lutam pela paz e o estabelecimento de 2 estados, etc.
Israel não está ameaçada pelas forças inimigas, por mais brutais, bárbaras e sanguíneas que sejam. Somos fortes e bem armados para combatê-las. Por mais pacifista que seja, acredito que quando forças asim surgem temos que combate-las com força. Mas existe uma diferença entre usar a força proporcionalmente, humanamente e não nos assemelharmos àqueles que nos atacaram de forma deshumana. Em terra de olho por olho, os povos e os lideres se tornam-se cegos.
Israel está ameaçada pelas forças internas do fundamentalismo judaico. Do fanatismo que tenta destruir a democracia que criamos com tanto esforço durante 77 anos, mais de 100 anos de sionismo. O governo está impondo leis para fragilisar o sistema judiciario, fechando os canais públicos de radio e TV, criando um sistema de censura para o cinema e documentários, retirando apoio economico a produção local que critique o governo, o exercito e a religião.
Milhares de crianças foram mortas nesta guerra, muito mais que milhares de crianças sofrem de pós-trauma em Gaza e em Israel, pelo menos 3000 crianças em Gaza estão mutiladas. Elas não são culpadas pelo fanatismo de ambos os lados.
A.D. Gordon disse “ Não combatam a escuridão, apoderem a luz”. A comunidade judaica no Brasil pode apoderar a luz e em vez de lutar contra a extrema esquerda brasileira e mundial e a extrema direita em Israel, mostrar que existe um outro Israel. Àquele que apoia uma solução de paz, que reconhece os direitos legitimos do povo palestino a um Estado livre, ao lado do Estado de Israel. Judeus sionistas que apoiam os palestinos que queiram viver em paz e que juntos ajudam a reconstrução de Gaza destruida. Judeus sionistas que apoiam projetos como o PIS, Palestine Israel Solidarity, projeto com o objetivo de construir um centro comunitário em Gaza e na Galileia para crianças palestinas e israelenses, judias, muçulmanas, cristãs e drusas. Centros que trarão uma mensagem de paz e reconciliação. Centros que em algum momento falarão entre sí, criando uma corrente de esperança para a nova geração, que até o momento só conheceu o medo, o odio, a violência.
A comunidade judaica pode escolher se faz parte do problema ou da solução. Mas, mais do que a comunidade, você como indivíduo da comunidade, pode tomar a sua própria decisão.
“I can’t sum myself up because it’s impossible to add up a chair and two apples. I’m a chair and two apples. And I don’t add up.”
Clarice Lispector was a Brazilian-Jewish novelist and short story writer. Considered one of Brazil’s most outstanding literary figures, she is internationally acclaimed as one of the greatest women writers of the twentieth century for the singularity of her novels and short stories. She was born this week in 1920.
Pierre-Joseph Proudhon nasceu em Besançon, França, a 15 de janeiro de 1809. Sendo ele o quinto filho de uma família muito pobre, trabalhou desde pequeno com o pai na fabricação de cerveja e, depois, no pastoreio.[1]
Ao conseguir uma bolsa de estudos, começou sua jornada aos onze anos em um colégio de sua cidade, demonstrando, desde então, grande interesse pela leitura, conjugando a vida de pastor com a escola e fugas para a biblioteca da sua cidade. Mas, quando sua família perdeu as terras e a possibilidade de continuar no pastoreio, teve que se retirar dos estudos para ajudar nas despesas da casa não podendo terminar seus estudos. Em 1827, aos treze anos, é enviado para trabalhar na tipografia dos Gauthier. Desde essa época passou a cultivar a imprensa.
Durante os anos seguintes trabalhou como tipógrafo em Neuchâtel, Marselha e Draguignan, tempo em que, como autodidata, estudou hebraico, latim e grego e, em 1830, resolveu mudar-se para Paris, vivendo na casa do seu amigo Gustave Fallot. Neste tempo completa a leitura da Bíblia e de obras teológicas que, como consequência, desperta-lhe aversão à religião dos teólogos. Em 1833, Proudhon retorna a Besançon para dirigir a tipografia dos Gauthier.
Em 1837, escreve Essai de Grammaire Générale, que lhe traz menção honrosa, e lhe dá condições de se candidatar, em 1838, à pensão Suard (atribuída a jovens pobres da região que tivessem vocação para a carreira de letras ou ciências). Para isso apresenta o texto Candidature a la Pension Suard, recebendo a bolsa.
Em 1839, imprime sua primeira obra importante, De l’Utilité de la Célébration du Dimanche, considerée sous les rapports de l’hygiène publique, de la morale, des relations de famille et de cité. No ano seguinte, 1840, publica a obra que lhe fará conhecido e polêmico, Qu’est-ce que la Propriété? ou Recherches sur le príncipe du Droit et du Gouvernement, por conta da qual quase perde sua bolsa, mas tem que responder diante da Academia de Besançon, anota Giampietro Berti (1982, p. 79).
Em 1842, transferindo-se para Lion, vai trabalhar em uma empresa de transportes marítimos, e publica, em 1843, a sua “De La Création de l’ordre dans l’Humanité”. Em 1845, passa o inverno em Paris, onde Marx o conhece. Em 1846, publica o “Système des Contradictions Économiques ou Philosophie de la Misère”.
Em 1848, participa ativamente da Revolução e se elege Deputado na Assembleia Nacional, momento em que propõe reformas radicais na economia, quando recebe o mote de homem-terror, tanto de socialistas quanto da burguesia. Vota contra a Constituição e, após a eleição de Luiz Bonaparte à presidência, passa a atacá-lo com artigos em jornais, em função dos quais será processado, condenado e encarcerado em 1849. Fica preso até 1852, quando encontrou os socialistas desterrados pelo golpe de 1851. Desde então, Proudhon escreverá várias obras, entre as quais, a Théorie de la Propriété, terminada em 1862, e que será publicada apenas em 1865, após sua morte, que se deu a 19 de janeiro de 1865.
A sua Teoria da Propriedade (Théorie de la Propriété, 1865) é a obra que fecha a trilogia da propriedade, e completa as obras Filosofia da Miséria (Système des Contradictions Économiques ou Philosophie de la Misère, 1846) e sua obra polêmica, O Que é a Propriedade? (Qu’est-ce que la Propriété?, 1840).[2]
No conjunto, sua obra contribuirá, não apenas para a crítica, mas para toda a ciência econômica e social, bem como jurídica. Pontes de Miranda (1972, p. 16), por exemplo, coloca Proudhon como essencial para a crítica da explicação e elaboração do direito, especialmente entre os vários autores da Sociologia e Doutrinas científicas,[3] e Ruy Barbosa (1964, p. 303) utiliza-o elogiosamente em seus textos.[4]
[1] Sugerimos a leitura do nosso Pierre Proudhon e sua Teoria Crítica do Direito Civil, Ed. Scortecci, 2021, a fim de se ampliarem a visão e conhecimento da crítica que Proudhon faz ao mau uso da propriedade, bem como da defesa da sua função libertária. Ademais, a obra ajudará a compreender como Proudhon foi utilizado nos Kibutzim judaicos (Israel) desde 1870.
[2] O pensamento de Proudhon sobre a propriedade não pode ser alcançado e compreendido sem a leitura atenta destas obras (que se completam em verdadeira trilogia). Leituras parciais, rasas ou desonestas, ou o desconhecimento de tais obras, levaram civilistas, liberais, socialistas, comunistas, capitalistas etc., a fazerem afirmações infantis, injustas ou desprovidas de fundamento. Neste capítulo, oferecemos o conhecimento total das obras de Proudhon e, assim, contribuir com a teoria da propriedade.
[3] Pontes de Miranda, no Sistema de Ciência Positiva do Direito, de 1922, republicado em 1972.
[4] Ruy Barbosa, na sua Teoria Política, republicado em 1964, comenta, elogiosamente, a obra de Proudhon De la Célébration du Dimanche (1839).
Jesus não é o outro, mas um Tu no contexto judaico da melhor e mais elevada cultura e estudo. Se a Igreja deve descobrir seu elemento judaico, também a Sinagoga, por seu lado, deve descobrir a importância de Jesus, o Judeu, para o Judaísmo e para o mundo.
Não fosse por outro motivo, seria, ao menos, para o cumprimento da Mitzvá positiva 209, que resume o motivo pelo qual se estabeleceram Sinagogas pelo mundo: “diante dos Eruditos e dos Mestres, te levantarás e honrarás suas faces”!
Se com o termo Mestre devemos reconhecer, não apenas quaisquer pessoas do mundo acadêmico, mas, no contexto judaico quem ensina o Judaísmo, principalmente a Torá e os Profetas, Jesus, então, merece um lugar de honra indiscutível.
O que fez ele? Não apenas confirmou a Torá em sua integridade, mas, também, em consonância ao que fez Hilel, deu os fundamentos do Judaísmo.
O Judaísmo de Jesus, como de outros Mestres de sua envergadura e, antes deles, dos Profetas e Patriarcas, resume-se em uma palavra proferida por Jesus bastante significativa: “ensinarei coisas ocultas desde a fundação do mundo”.
Também foi ele quem esclarecera, depois de confirmar a validade e permanência de toda Torá e dos Profetas, que isso tudo resume-se em dois mandamentos: “amarás o Senhor teu Deus com toda a tua força e amarás teu próximo como a ti mesmo”. Destes dois mandamentos dependem toda a Torá e os Profetas”.
Recuperar Jesus é, por isso mesmo, recuperar aquele Judaísmo de amor que forma a força mais sutil do mundo. Para propor esta substância nas relações principalmente na que respeita à emancipação da pessoa humana.
Talvez consigamos compreender que resgatar Jesus, em ambos os ambientes, bem como sua experiência de vida e a dos seus discípulos imediatos, ou seja, da comunidade primitiva, aproveitando-os para que se lancem luzes, quiçá novas, ajuda na organização social dos tempos atuais, como o Sermão da Montanha já considerado como uma das pérolas do Judaísmo hillelista tanto por Pinkuss, quanto por Walter Rehfeld e J. Guinsburg, todos aqui mencionados.
Sobre o mesmo Sermão da Montanha, disse Gandhi, na obra organizada por Louis Fischer, certa vez: “se naquela oportunidade eu tivesse de enfrentar somente o Sermão da Montanha e minha própria interpretação dele, não hesitaria em dizer: oh, sim, sou cristão… mas, negativamente, posso dizer-vos que muita coisa que passa por cristianismo é uma negação do Sermão da Montanha…” (1984:190)
E com Buber, o filósofo Judeu do diálogo, que compreendeu o pensamento de Jesus como inteiramente formado pelo Judaísmo do amor, não simplesmente por sentimentos que acompanham o amor, que não podem ser confundidos com ele. Este amor judaico é indivisível e clama sua atenção sobre toda a humanidade: “a los sentimientos se los tiene; el amor es un hecho que se produce … el sentimiento de Jesús para con el poseso es otro que su sentimiento para el discípulo bienamado; pero el amor es uno … aquel que toda su vida está clavado sobre la cruz de este mundo porque pide y exige esta cosa tremenda: amar a todos los hombres” (1969:19)
(…)
Pietro Nardella-Dellova. Judaísmo in Judaísmo, Cristianismo e Islam. Rio de Janeiro: Editora Vozes, 2023, p. 116 e segs.
Uma das proclamadas colunas da relação matrimonial, do modo como está na Legislação brasileira e nos púlpitos, é a fidelidade conjugal.
Mas, há um erro de origem, porque confundimos relação matrimonial com relação conjugal.
A primeira é simplesmente a relação jurídica, o ato jurídico formal e cartorário e, quiçá, um sacramento religioso católico, aliás, pouco compreensível, considerando que os líderes daquela religião nada sabem de relações matrimoniais e, muito menos, de relações conjugais.
Lembrei-me do encontro entre um padre e um rabino.
A provocação do padre:
– Paz, o senhor não quer um pedacinho da costelinha de porco?
– Como? O senhor não sabe que judeus não comem carne de porco?
– O senhor não sabe o que está perdendo – é uma delícia…
E, ao final do encontro, provocou o rabino:
– Shalom. Recomendações à sua esposa.
– Como? O senhor não sabe que padres não se casam?
– O senhor não sabe o que está perdendo – é uma delícia…
Va bene…
A segunda é a relação humana entre um homem e uma mulher que se permitem ao encontro amoroso, seja ou não pelo casamento. Daí, encontrarmos a relação conjugal, também, na União Estável e, outra vez, é a roupagem jurídica.
A fidelidade aparece em todas, com ou sem compreensão.
Fidelidade é uma palavra cuja raiz fides aponta para uma substância. A substância de uma relação da qual se esperam atitudes, movimentos, cumplicidade!
Pois bem, na interpretação empobrecida, as relações são pautadas pela fidelidade no sentido de esperar que um e outro não se relacionem para além do matrimônio, ou seja, não tenham uma aventura extraconjugal!
Mas, seria isso mesmo a fidelidade? Sim. No sentido jurídico, matrimonial e eclesiástico. É o conceito de fidelidade nestes contextos, e só!
Porém, a resposta pode ser outra. Ou seja, não! A fidelidade não é isso, ainda que se leia assim pela maioria dos juristas ou sacerdotes, ávidos por notícias escandalosas, seja para procedimentos forenses, seja para assunto de púlpito no domingo ou motivadoras de reuniões de oração e vigília!
Ser fiel ao outro é movimentar-se em direção ao encontro de corpos, de sentimentos e de descobertas! Ser fiel ao outro, ou manter-se em uma relação de fidelidade é dar manutenção ao fogo “sagrado” ou à “mesa”, situações em que se mantém uma relação para além da fragilidade religiosa ou formalismo civilístico e jurídico. Refiro-me à relação Eu-Tu! Quando alguém se propõe a uma relação duradouramente conjugal, espera que o outro se movimente, trazendo a doçura, o encanto, a Poesia, o fogo, o amor, a emoção, o ardor – a vida, enfim!
É o que ambos devem portar em suas mãos. A oferta de si a fim de que o outro se torne participante de delícias, que voe e avance, e seja descoberto como humano ao ponto mais alto! Relação em que o ‘outro’ é superado pelo Tu!
Ninguém se casa por amor ao ato jurídico cartorário, ou seja, casamento! Ninguém permanece em uma União Estável, por amor à relação jurídica, atualmente, protegida pelo Direito. Casamento e União Estável são apenas roupagens jurídicas de relações, e não espelham absolutamente nada!
Apenas juristas e sacerdotes conservadores veem o casamento como sagrado. Estão errados! Pois há flagrante inversão por conta da qual passamos a valorizar uma suposta estrutura em detrimento de um conteúdo. Em outras palavras, há uma distância descabida entre uma relação naturalmente humana e o que se propõe como matrimônio ou casamento.
Se houver algo sagrado é o encontro! A descoberta de dois seres, envolvidos pelo afeto, compromissados em entregar algo, como um tesouro trazido de longe! A fidelidade é esta entrega, este despojamento, esta intensidade de seres que se permitem à felicidade do completamento dialógico Eu-Tu!
Há pessoas que se casam para alcançar objetivos materiais. Há pessoas que se casam por aberração religiosa. Há pessoas que se casam para projeções sociais ou profissionais! Mas, em todos estes casos (apenas para citar alguns) dificilmente haverá encontro, cumplicidade!
Na maioria dos casos, a relação fria e jurídica traz apenas desfazimento do ser, desconstituição dos sentimentos, aborrecimento e perversidade, além, lógico, de uma impagável conta de cerimoniais. São relações de autodestruição!
Para além das interpretações horizontais, jurídicas ou religiosas, vale a experiência humana do afeto, do amor, da Poesia e da intensidade. Esta é a experiência da fidelidade que se jura!
Ser fiel, ou viver em fidelidade, é manter a própria humanidade, o amor próprio, a dignidade, a intensidade poética e a integridade física e emocional completamente protegidos – ainda que seja contra a relação matrimonial, pois para além da formalidade jurídica, está a essência humana que busca não o culto ao falso sacramento, mas o vigor afetivo, sem o qual não somos humanos, não estamos vivos e somos infiéis a nós mesmos!
Das muitas relações entre pessoas, a mais complexa e a mais confusa, certamente, é a relação matrimonial. Porque para todas as outras existe uma estrutura adequada ao conteúdo, mas para a relação matrimonial a estrutura está em desarmonia flagrante com o conteúdo.
Os laços de afetividade entre um homem e uma mulher não resistem aos trancos de uma estrutura arcaica e inadequada aos novos tempos, porque simplesmente não houve uma evolução no pensamento e nem uma tomada de consciência matrimonial. Esta relação matrimonial é regida por um conjunto de Leis que, salvo alguns avanços, continua sendo inspirado pelo princípio patriarcal, ou seja, o homem é o chefe da sociedade conjugal, apesar da discutível igualdade determinada pela Constituição Federal (do Brasil) de 1988.
E por que esta relação, que é tão simpática de início, que goza da reputação quase santificada, e que, constitucionalmente, é a base da sociedade, fica perdida num labirinto de angústias e aflições?
Tudo indica, tanto o conhecimento mítico quanto o histórico, no que respeita à base cultural do Ocidente, isto é, o mundo greco-romano, piorado muitas vezes pelos desdobramentos e obscurantismos medievais, que o homem tem um medo tenebroso da mulher, pois, desde os primórdios da humanidade ela se apresenta, aos seus olhos, como se um demônio fosse.
Dois são os motivos básicos de tal medo. Vejamos.
O primeiro refere-se àquele sentimento antigo de virilidade e potência masculinas que, obviamente, não podiam ser disfarçadas. A virilidade e a potência sexuais não podiam ser colocadas em xeque. Para os homens antigos e para tantos outros da atualidade, completamente despreparados ou mal influenciados, a situação masculina não pode ser frustrada.
Daí porque textos da mitologia grega e, por plágio, romana, apresentam a mulher sexualmente ativa e dominante, aquela que procura o homem e o desafia provocativamente, como inadequada, tendo que ficar em redutos “idealizados”. Não é de causar estranhamento que uma das propostas de Platão era a de constituir-se uma comunidade de mulheres que serviriam unicamente ao propósito de reprodução. Também, entre os gregos e romanos e, outra vez, entre os medievais, a mulher não poderia participar de quaisquer atividades públicas.
Não é à toa que o período medieval vai inspirar e influenciar em certa medida todo o movimento romântico europeu, no qual a mulher é vista como deusa ou estrela. Deusa e, assim, intocável. Estrela e, assim, inatingível. Também, não causa estranhamento que os perfis femininos são desenhados e acabados na Idade Média, de um ponto de vista apenas católico, lógico! Ou a mulher é Lilith, a sensual e ativa; ou a mulher é Eva, a pecadora; ou a mulher é Maria, a mãe. Se for uma, conforme esse pensamento medieval, não pode ser outra!
É neste ponto que o homem passou a controlar a vida da mulher. A mulher deve ser aquela que ele quiser, a que ele escolher e que ele procurar, pois, assim, ele jamais será frustrado sexualmente. A mulher deve, também, ser aquela a quem o homem possa acusar dos males do mundo. Por isso mesmo, a partir da rejeição mítica de Lilith, a mulher adequada ao homem é Eva: feita a partir do homem e para o homem.
Culpada eternamente da maldição divina com o fim da vida edênica, e, igualmente, culpada por ter gerado e dado o nome ao primeiro homicida da Terra: Caim. Como culpada, deverá submeter-se ao homem e aceitar um regime patriarcal de casamento. Deverá abandonar o seu nome e adotar o nome de seu marido (a marca do seu dono). Situação humilhante que só não será pior, porque o homem concederá a ela, do ponto de vista católico, desenvolver uma face singular: a de Maria, a mãe.
Obviamente, todas estas leituras acerca da mulher são equivocadas e feitas, não a partir do Tanach, especialmente, Bereshit, na Torá, mas da base grega e romana, pilares da religiosidade medieval. Pois, qualquer que se dobrar em uma leitura atenta da Torá (sem entulhos), verificará que a mulher ali nada tem a ver com os conceitos demonizadores de Lilith, enquanto aquela leitura persa; ou de Eva (a pecadora) ou, ainda, de Maria (a mãe). Esta última, de origem e desenvolvimento greco-romano e católico-protestante.
E nem falarei aqui do conceito da mulher muçulmana, ao menos, por agora! Ainda não há uma influência determinante islâmica nas relações jurídico-matrimoniais ocidentais!
O segundo motivo é o grau de sensibilidade e inteligência, que na mulher é muitas vezes superior ao do homem.
Normalmente, o homem é apenas força bruta e muscular, rispidez e ignorância. E para sustentar a força bruta, está condenado a levantar barras de ferro, cada vez mais pesadas e, igualmente, condenado a comer incessantemente, como um boi diante do cocho. Ao contrário, a mulher para sustentar a sensibilidade e a inteligência, em vez de musculatura, possui um tecido epitelial que capta quaisquer brisas, e, em vez de cocho, está sempre diante de uma mesa artisticamente preparada. O homem é violência pornográfica; a mulher manifestação poética!
Assim, considerados esses aspectos, que caracterizam o homem e a mulher, é fácil compreender os conflitos de uma relação matrimonial (que realmente é patriarcal).
A estrutura é para o serviço do homem, para atender ao homem, mas não suporta a redescoberta e o renascimento da mulher nestas últimas décadas.
Daí os conflitos constantes, inclusive para a própria mulher, posto não haver possibilidade de um diálogo com homens tradicionalmente abobalhados.
Isso tudo não suporta uma mulher que se descubra na releitura (não religiosa) da Torá, que perceba os valores e aspectos das matriarcas e que exija, entre outras coisas, ser tratada como a amada de Shir HaShirim (Cântico dos Cânticos).
Porque mesmo aqueles que deveriam, por natureza e estudo, conhecer a natureza feminina, acabam, infelizmente, dentro de um cordão de isolamento que os faz tolos, distantes e ridículos.
É preciso que o homem se convença do equívoco na leitura da mulher e dos conceitos em relação a ela, assim como e, principalmente, dos preconceitos.
Cabe uma redescoberta criadora de ambientes propícios para o seu desenvolvimento.
Refiro-me à redescoberta da mulher pelo homem, não como “algo”, ou uma “coisa”, ou um “espírito”, mas uma pessoa completa. Ou, simplesmente, da descoberta de que ela é gente apenas ao seu lado.
Assim, falta ao homem uma melhor leitura, sobremodo, da Torá, não com olhos greco-romanos, mas “davídicos”!
O ponto aqui é a própria sobrevivência do homem, e não da mulher! Porque agora é ela quem deve esperar que o homem saia de sua caverna de idiotice e mediocridade! Afinal, após milênios de patriarcalismo sufocante e religiosidade machista, o resultado é que a mulher reapareceu com todo o seu vigor poético, com toda sua sensibilidade e com toda sua inteligência determinante, e encontrou o homem contemplando e idolatrando, ainda (e por desgraça), os seus próprios órgãos.