O novo ciclo do terrorismo

O novo ciclo do terrorismo

A população civil israelense está sendo vítima de uma onda de atentados sem precedentes em termos de espaço de tempo. Até agora em pouco mais de um mês já fizeram 14 vítimas.

Começou com um ataque na cidade de Beer Sheva em 22 de março. Um terrorista com uso de uma faca matou 4 cidadãos. Depois disso, menos de uma semana depois em 27 de março, novo atentado, desta vez em Hedera, cidade onde vivo, com dois mortos. Apenas 2 dias depois, outro atentado, desta vez em Bnei Brak com 5 mortos. Por fim, o de ontem em Tel Aviv com 3 mortos.

Entre as vítimas destes atentados, um policial árabe israelense, um soldado druso, dois ucranianos, mulheres e jovens. Acrescento as vidas dos 5 terroristas, e são 19 vidas humanas perdidas.

Os terroristas de Beer Sheva e de Hedera eram ligados ao ISIS e eram cidadãos israelenses. Os demais, palestinos dos territórios sem vínculos com organizações extremistas.

Todos os atentados foram comemorados pelo Hamas e a Jihad Islâmica em Gaza com farta distribuição de doces nas ruas da cidade de Gaza. O atentado de ontem foi comemorado em Jenin, um campo de refugiados nos territórios ocupados, onde vivia o terrorista. O que se pode esperar de gente que comemora o assassinato de seres humanos a sangue frio?

Mahamud Abbas, o presidente da Autoridade Palestina condenou os ataques, uma luz de bom senso.

O que estamos vendo acontecer, e se continuar assim, é uma mudança incrível no modus operandi do terrorismo tradicional, e tremendamente complicada de se lidar. Jovens que nunca estiveram no radar dos órgãos de segurança, estão cometendo estes crimes e são muito difíceis de serem identificados antes que o cometam.

Desde o primeiro atentado, as forças de segurança foram capazes de impedir quase uma centena de atentados, se antecipando a ação dos terroristas. Um deles onde três terroristas, também de Jenin, foram mortos em confronto com o exército quando já estavam a caminho de seus alvos. Não tivessem sido descobertos, um grande atentado teria ocorrido.

O uso do terror contra uma população civil é sempre um ato de covardia. As vítimas são cidadãos, normalmente, sem nenhuma chance de defesa. São pegos de surpresa e muitas vezes nem viram quem as atacou. Gente como a gente que tem suas vidas interrompidas por conta de alguém que nunca conheceram e nada tinham contra ele.

Uma consequência direta do momento que estamos vivendo é o fato de que qualquer árabe israelense, ou não, pode ser o próximo terrorista. Este é o legado destes últimos atentados. A população de Israel está assustada, indignada e os mais radicais pedem vingança. Os extremistas dos dois lados estão em êxtase, e o governo nos informa que não há indícios de que tenhamos chegado ao final do ciclo. A roda da violência ainda está girando. O próximo atentado está por acontecer a qualquer momento.

A população palestina nos territórios e de Gaza necessitam de trabalho. Onde vivem ele não existe e muitos atravessam a fronteira para obter seu sustento. Estes atendados causam um aumento de postos de checagem, quando não acabam impedindo a chegada destes trabalhadores em seus postos de trabalho. Aos terroristas, nada disto importa.

A falta de conversas entre o governo de Israel, atual e passado, com a Autoridade Palestina visando encontrar soluções para o conflito de mais de 70 anos, é uma das causas para o que estamos vivendo. A violência não contribui em nada para mudar este quadro.

No fundo, todos queremos viver e deixar viver em paz. Trabalhar, criar nossos filhos e sermos felizes. Este é o desejo da maioria da população palestina e israelense. Estes radicais que incitam e promovem a violência são uma minoria que faz refém a grande maioria.

Nós, judeus sionistas de esquerda sempre apontamos o caminho da convivência pacífica e da reconciliação entre os dois povos. Um Estado Palestino convivendo em paz com justiça e segurança, lado a lado ao Estado de Israel, sempre foi nossa bandeira. Nenhum extremista, de qualquer lado, vai nos impedir de seguir trilhando este caminho.

Revelações da Guerra de Independência de Israel, o outro lado da moeda

Revelações da Guerra de Independência de Israel, o outro lado da moeda

Semana passada escrevi sofre os massacres cometidos pelo recém criado Exército de Israel e milícias de extrema direita contra a população civil árabe durante a Guerra de Independência. Vamos agora ao outro lado da moeda.

No final de maio de 1948, a fazenda coletiva Yehiam estava sendo bombardeada. Um comboio de ajuda com ajuda médica tentou chegar ao local para socorrê-los. Próximos da vila Kabri foram atacados por milícias árabes. Dos 86 passageiros, apenas 39 sobreviveram. Muitos corpos não puderam ser identificados devido a mutilações dos corpos.

Naqueles dias Jerusalém Ocidental se encontrava sitiada. Um comboio deixou a cidade em 13 de abril de 1948 em direção ao Monte Scopus que abrigava o Hospital Hadassah e o campus da Universidade Hebraica. Era composto de ambulâncias, caminhões com mantimentos, veículos blindados e ônibus transportando médicos, enfermeiras, estudantes de medicina e acadêmicos. No caminho, próximo da vila de Sheikh Jarrah, o comboio passou por uma mina, teve de parar e foi atacado. Os ônibus transportando civis foram metralhados e incendiados deixando 80, dos 105 passageiros, mortos.

Um dia antes do fim do mandato, a fazenda coletiva Kfar Etzion caiu. Entre membros da fazenda e das milícias judaicas da Palmach e do Hish, 242 foram massacrados por combatentes palestinos depois que a batalha havia terminado. Somente quatro escaparam. Nesta mesma zona, outras três fazendas se renderam e seus membros se salvaram graças a intervenção da Legião Jordaniana que os transferiram para campos de prisioneiros na Jordânia. Todas as quatro fazendas foram totalmente destruídas.

São algumas das histórias de uma guerra cruel e sanguinária com atrocidades cometidas por todos os lados envolvidos. Muitas delas como vingança de parte a parte. Para se ter uma ideia, Israel tinha 600.000 habitantes judeus, 6.000 morreram nesta guerra.

Quando nos voltamos para aqueles dias é preciso colocar os fatos dentro do contexto no que se refere aos acontecimentos que são trazidos ao nosso conhecimento. Havia uma guerra por sobrevivência. Uma nação recém formada que graças a ajuda soviética com armas e munições através da então Tcheco-eslováquia, conseguiu vencer 6 exércitos que pretendiam sua aniquilação.

Convém lembrar que em nenhum momento, qualquer dos países árabes que participaram da guerra, pretenderam a criação de um Estado Palestino. Mesmo aqueles que ficaram com parte do território, a Jordânia com a Cisjordânia e o Egito com Gaza, aceitaram que ali fosse criado um Estado Palestino.

Campos de refugiados para a população árabe-palestina que deixaram o território espontaneamente, ou a força, surgiram nos países árabes circundantes. Nunca, em nenhum deles, até os dias de hoje, foi oferecida a cidadania a eles e seus descendentes.

Nada disso, no entanto, serve de consolo para ninguém. A questão palestina permanece viva e somente a criação do Estado Palestino pode reparar estes erros históricos. Não existe outra solução para o problema, mas como chegar a ele tem sido um caminho cheio de obstáculos.

Mesmo passando uma régua no passado, os dias presentes se mostram ainda recheados de ódio e sede de vingança. Neste ano 75 palestinos foram mortos pelas forças de Israel nos territórios ocupados. Uma série de atentados contra civis, cometidos até por menores de idade palestinos tem acontecido quase que semanalmente neste final de ano. É um círculo de violência difícil de ser quebrado.

Na minha opinião, sem uma intervenção internacional, a causa palestina é uma causa perdida. Sem entrar no mérito das consequências disto, eu vejo que a cada dia, menos importa as nações o futuro da população dos territórios ocupados e de Gaza. Nem mesmo os países árabes parecem mais querer se envolver. O planeta enfrenta desafios maiores e urgentes como o Clima e a Pandemia.

Revelações da Guerra de Independência de Israel

Revelações da Guerra de Independência de Israel

Esta semana o jornal Haaretz de Israel, publicou artigo sobre informações de assassinatos cometidos por soldados das forças armadas em 1948 durante a guerra de independência. Os relatos dão uma ideia das atrocidades e do acobertamento que se seguiu.

Até agora o que se sabia dizia respeito a alguns excessos de guerra. Aquilo que os militares costumam chamar de efeito colateral, mas não havia evidências oficiais suficientes que pudessem corroborar o que de fato havia acontecido. Tudo isso começa a ser esmiuçado e o que fica-se sabendo envergonha a todos nós.

Quero deixar claro que não existe guerra limpa. Em todas as guerras do mundo, civis são mortos, prisioneiros são assassinados, roubo, pilhagem e estupros são cometidos. Normalmente a parte vencedora tende a jogar para baixo do tapete os seus crimes de guerra e enaltecer os crimes cometidos pelo lado perdedor.

Os fatos falam por si só e documentos que só agora estão vindo a público descrevem aqueles dias em que Israel lutava contra 6 exércitos árabes para permanecer como nação. Não bastava declarar a Independência, era preciso resistir e sobreviver.

Tradução livre de trechos da matéria:

Em outubro de 1948, duas grandes operações foram lançadas, a Operação Yoav no sul e a Operação Hiram no norte. Em menos de três dias, o exército ocupou a região da Galiléia. Em um período de 30 horas, dezenas de aldeias árabes no norte foram ocupadas e dezenas de milhares de residentes fugiram de suas casas.  Cerca de 120.000 árabes permaneceram da Galiléia, a grande maioria não participou dos combates.

Os relatos de soldados falam de assassinatos de homens, mulheres, idosos e crianças. Na maioria das vezes, eram colocados dentro de uma casa que depois era explodida. Os bens de algum valos eram espoliados.

Em um destes testemunhos, Shmuel Mykonis, membro do Conselho de Estado Provisório em nome do Partido Comunista, relata atos horríveis de terrorismo acontecidos. O relato de Mykonis contornou a censura em tempo real ao enviar uma pergunta ao primeiro-ministro, localizada nos arquivos do Knesset. Em seu apelo a Ben-Gurion, ele exigiu saber sobre atos cometidos, segundo ele, por membros do Irgun (uma milícia de extrema direita): “A. usou uma metralhadora para matar 35 árabes que se entregavam com uma bandeira branca em suas mãos. B. capturou moradores pacíficos – entre eles mulheres e crianças, ordenou-lhes que cavassem um buraco, depois utilizou longas baionetas francesas para os empurrar nele e atirou nos infelizes até que todos fossem mortos inclusive um com um bebê em seus braços C. Crianças árabes de 13 a 14 anos que brincavam com granadas foram todas baleadas.”

Um documento encontrado nos arquivos do Yad Yaari fala sobre um caso desconhecido ocorrido em al-Burj (agora Modi’in). Após a conquista da aldeia, alguns poucos idosos lá  permaneceram. “Três deles, duas idosas e um idoso foram levados para uma casa. Seis granadas de mão foram atiradas para dentro da casa, e mataram o idoso e uma idosa. Eles mataram a terceira idosa com uma arma, depois incendiaram a casa e queimaram o corpos.”

Milhões de documentos dos primeiros anos do país estão armazenados em arquivos do governo e o público não tem acesso a eles. Soma-se a isso a censura em vigor em Israel: nos últimos anos, o Malamav (Comissário de Defesa) tem examinado arquivos em todo o país e ocultado evidências de crimes de guerra, conforme revelado anteriormente na investigação do Haaretz .

A base foi lançada na década de 1980 pelo historiador Benny Morris, que conduziu um estudo pioneiro abrangente nos arquivos. Posteriormente, outros estudos se juntaram, incluindo o trabalho do historiador Adel Manaa, que se especializou em documentação oral e pesquisou o passado dos árabes de Haifa e da Galiléia. Manaa descreveu, entre outras coisas, os esquadrões de execução que massacraram nove residentes de Majd al-Krum durante a Operação Hiram. Publicações adicionais ao longo dos anos gradualmente preenchem o quebra-cabeça que faltava.

Morris contou anteriormente 24 massacres durante a guerra. Hoje já se pode dizer que o número é maior, podendo chegar a várias dezenas de casos. Em alguns deles uns poucos mortos, em outros algumas dezenas, e também há casos em que o número de vítimas ultrapassou cem. Além do massacre em Deir Yassin, que ocorreu em abril de 1948 e causou comoção ao longo dos anos, parece que este triste pedaço da história foi suprimido e afastado do discurso público em Israel.

Entre os massacres proeminentes durante os dias da Operação Yoav e da Operação Hiram estão os eventos nas aldeias de Tslha, Tzafatzaf e Davima. No vilarejo de Tzalha, localizado próximo à fronteira com o Líbano (hoje Kibutz Yaron), a 7ª Brigada executou entre 60 e 80 moradores em uma prática que foi usada várias vezes durante a guerra: concentrar moradores em um prédio do vilarejo e explodi-lo enquanto as pessoas estão dentro.

Na aldeia de Tzafatzaf perto de Safed (hoje Moshav Safsufa), soldados da 7ª Brigada massacraram dezenas de residentes. De acordo com um depoimento, que os homens do MALMB ordenaram que ocultassem ilegalmente, eles “prenderam 52 homens, amarraram-nos uns aos outros, cavaram um fosso e atiraram neles. Mais 10 form mortos. As mulheres vieram, implorando por misericórdia. Foram encontrados 6 cadáveres antigos. Havia 61 cadáveres. Três casos de estupro ”.

Na aldeia de Davima, na região de Lachish (hoje Moshav Amatzia), soldados da 8ª Brigada massacraram cerca de 100 pessoas. Um soldado que testemunhou os acontecimentos  os descreveu a um homem do Mapam: “Não houve batalha nem resistência. Os primeiros ocupantes mataram cerca de 80 a 100 árabes, mulheres e crianças. Eles mataram as crianças enquanto esmagavam seus crânios com varas. Não havia casa sem os mortos. “De acordo com um oficial de inteligência estacionado na aldeia dois dias depois, o número de mortos chegou a 120.”

No que foi publicado na revista “Ner” imediatamente após a guerra por um soldado anônimo, foi dito que o fenômeno de matar pessoas inocentes se espalhou no exército. O escritor contou como um membro da unidade assassinou uma mulher árabe que ficou para trás durante a ocupação da aldeia de Lubia, que se localizava na baixa Galiléia: “Isso virou uma espécie de moda.”  E quando reclamei com o comandante do batalhão sobre o que estava acontecendo e pedi que parasse com essa violência, que não tem justificativa militar, ele deu de ombros e disse: “não há ordem de cima para impedir isso”. E desde então o batalhão está em declínio. “Suas conquistas militares continuaram, mas as atrocidades abundaram.”

Em novembro-dezembro de 1948, quando a pressão da guerra cedeu, o governo aproveitou a oportunidade para discutir os relatos dos massacres, que chegaram aos ministros de várias formas. O exame das transcrições das discussões não deixa margem para dúvidas: a elite política soube em tempo real das atrocidades que muitas vezes acompanharam a ocupação das aldeias árabes.

Embora as atas das reuniões tenham sido abertas para revisão já em 1995, as seções dedicadas ao “comportamento militar na Galiléia e no Negev” – como foram chamadas na agenda do governo – permaneceram censuradas até hoje. A publicação agora é possível após solicitações do Traces Institute for State Archives para divulgar totalmente as discussões do governo de 1949-1948. Mas embora grandes seções tenham sido liberadas para publicação, outras seções permaneceram censuradas. É claro que as referências diretas a crimes de guerra ainda estão entre as seções censuradas. Mas a discussão entre os ministros sobre a investigação ou não dos crimes, que estão ocultos há 73 anos, agora está à disposição de investigadores, jornalistas e cidadãos curiosos.

As conclusões dos comitês criados após a guerra para investigar os excessos e suas recomendações não foram implementadas. Poucos foram julgados e condenados. Mesmo estes poucos que não gostaram do silêncio e do acobertamento e foram condenados por crimes de guerra, finalmente receberam a isenção da punição. Em fevereiro de 1949, um perdão retroativo geral foi concedido para crimes cometidos durante a campanha. Aqui é importante notar que os massacres ocorreram nos dias em que o Judiciário das FDI foi formado.Talvez por isso uma cultura organizacional foi assimilada no exército que facilita a matança de palestinos em condições operacionais.

Uma publicação como esta deveria trazer comoção em qualquer país moderno e democrático dos nossos dias. Não é o que acontece em Israel. Fora o Haaretz, nenhuma outra mídia deu voz as novas descobertas. Existem muitas razões para isso, mas entre elas os mais recentes ataques contra civis judeus. Foram cinco nas últimas duas semanas, dois deles perpetrados por menores de idade.

No último, uma menina palestina de apenas 14 anos, esfaqueou com uma faca de cozinha uma vizinha judia de seu bairro. O ataque aconteceu na rua a luz do dia quando ela empurrava o carrinho de bebê junto com seus dois filhos pequenos.

Os exércitos árabes também cometeram atrocidades durante a guerra, mas este é um tema para outro artigo no futuro.

Vida e Morte na terra Santa

Vida e Morte na terra Santa

No inicio desta semana, dois homens que não se conheciam, foram protagonistas de um evento em Jerusalém. Um jovem judeu israelense imigrado da África do Sul chamado Elyahu David Kaie, conhecido pelos amigos como Ely K, e Fadi  Abu Shkhaydam, um palestino, pai de 3 filhos.

Eliyahu David Kay chegou em Israel sozinho em 2016 para estudar na escola religiosa do Chabad-Lubavitch em Kiryat Gat. Depois de completar seus estudos, ele serviu como pára-quedista no exército de Israel onde se tornou sargento. Trabalhou a seguir em um kibutz (fazenda coletiva) perto da fronteira de Gaza e, em seguida, como um guia turístico para a Western Wall Heritage Foundation. Sua família recentemente se juntou a ele em Israel.

Fadi Abu Shkhaydam, um professor de 42 anos do campo de refugiados de Shuafat em Jerusalém, pai de família era conhecido pela polícia como membro do braço político do Hamas, mas não era considerado uma ameaça terrorista. Ele ia todos os dias orar no Monte do Templo.

No domingo último, cerca de 9:00h da manhã os dois se cruzaram. Ely se encaminhava para mais um dia de trabalho como guia no Muro das Lamentações. Fadi recém havia concluído suas preces no Monte do Templo. Armado com uma metralhadora, abriu fogo matando Ely instantaneamente e ferindo outras 4 pessoas antes de ser morto pelas forças de segurança.

Descrito por seus amigos como um “estudioso islâmico”,  Fadi era um pregador conhecido nas mesquitas de Jerusalém Oriental, incluindo a mesquita de Al-Aqsa onde costumava fazer sermões.

Um amigo de Ely o elogiou no funeral, dizendo: “Lutei com Ely pela minha vida, pela minha saúde mental e física. Ele era um cara que não dizia “não” a nada. Ele se curou de feridas milagrosamente, e acima de tudo, ele amava as pessoas.”

Segundo a imprensa palestina, Fadi supostamente teria deixado uma mensagem a sua família onde teria escrito “Desde a primeira vez que caminhei e bebi do Alcorão … sonhei em encontrar Deus como um mártir”.

Duas vidas perdidas que mostram o que movem dois lados quando se trata de uma causa. Ely deixou sua família para vir para Israel. Foi um judeu ortodoxo que abandonou a ortodoxia religiosa para se dedicar a vida como um cidadão comum de Israel. Ele estava com casamento marcado para daqui a seis meses.

Fadi era um excelente professor,segundo seus alunos. Muito religioso dizia que “Devemos dirigir o navio com nosso sangue e servir com o exemplo prático do caminho da jihad.” Com sua atitude deixou uma viúva e três filhos sem o pai.

O efeito prático do que aconteceu é nenhum. Famílias enlutadas, tristeza e consternação são o único resultado do evento. Nenhum benefício a nenhuma causa, apenas lamentos dos amigos e familiares com a perda. Logo será um caso esquecido.

A família de Fadi será aquela que mais vai sofrer. Pela lei de Israel, terá sua casa destruída. Sem o marido, sua esposa terá muita dificuldade em sustentar a família que vai passar a depender de ajuda para sobreviverem.

A vida vai seguir sem a presença destes dois homens que se cruzaram em uma ruela de Jerusalém num domingo pela manhã. Naquele momento venceu o ódio, prevaleceu a barbárie. Sem chance de defesa morreu Ely, e sem razão morreu Fadi.

A lição que fica é de que ainda somos incapazes de apontar uma solução que leve a criação do Estado Palestino. Uma solução aceita pelos dois lados que permita a reconciliação entre os dois povos e a construção de um futuro melhor para todos, sem ódio, sem guerras, com paz e justiça.

Enquanto nossos governantes não encontrarem o caminho, vamos continuar assistindo a perda de vidas em vão, seres humanos iguais com tanto para contribuir para a sociedade tendo seu futuro ceifado. Hoje Fadi matou Ely, amanhã será um Ely a matar um Fadi.

Precisamos romper este ciclo de violência. O extremismo  só trouxe dor e sofrimento para milhares de famílias. Basta!

 

 

Aconteceu em Israel

Aconteceu em Israel

Algumas coisas interessantes aconteceram aqui em Israel nestas últimas semanas e valem ser relatadas.

A NSO, a companhia que desenvolveu o programa spiware Pegasus, sofreu um baque quando o governo americano decidiu que ela é um perigo para a segurança nacional. Finalmente!

O Pegasus uma vez instalado em um celular, transmite tudo o que é feito nele, além de manter a câmera e o microfone disponíveis. É como ter um celular clonado, só que o cara que clonou, na verdade espelhou o seu celular e pode acessar e fazer o quiser sem que você fique sabendo.

O spyware é uma arma magnífica no combate ao crime, não há dúvidas quanto a isso. O problema é que a definição do que é crime, muda de país para país. Nas ditaduras, por exemplo, é crime falar contra ela e aí está o xis da questão. Inúmeros países pouco democráticos, por assim dizer, adquiriram o spyware para monitorar, prender e até matar seus oponentes.

A empresa se coloca como os fabricantes de armas, e repete o mesmo que elas. Não tem culpa se a utilização é para o mal. De fato, quem vende esta tecnologia para uma Arábia Saudita, Azerbaijão, Cazaquistão, Bahrein, Hungria, Marrocos e Ruanda imaginando que o uso será restrito no combate ao tráfico de drogas e a criminalidade, precisa rever seus conceitos urgentemente. Sua atuação agora fica muito prejudicada.

O fato seguinte que merece ser relatado é que o governo da mudança, uma Frente Ampla de partidos de esquerda, centro e direita, continua firme e forte depois da aprovação do orçamento pela Knesset, como é chamado o parlamento. Com uma coalizão de 61 membros, apenas um a mais do que o necessário, tudo fica difícil.

O que mais chama atenção nesta coalizão é a presença do Partido Árabe Raam. Este é um partido religioso que diferentemente dos partidos religiosos judaicos, não se colocam a direita. Eles estão integrados ao governo e dele participam ativamente sempre com olhos em benefícios para o setor árabe da população.

A oposição é formada pelo Likud, partidos religiosos, extremistas de direita e a Lista Unida, a Frente Ampla de partidos árabes. Juntos, votam contra tudo que o governo propõe, não importa a natureza da proposta. Lembram daquela expressão “Hay gobierno, estoy en contra” (existe governo, sou contra). São eles.

Neste caso, eles acusam o atual governo de ser submisso ao Raam que de fato seria quem governa o país, ou seja, estamos sendo governados pelos árabes. O interessante é que por de trás deste ranço racista existe o fato de o Likud ter oferecido mundos e fundos para o Raam formar governo com eles depois das eleições. Não aceitaram. E claro, nada dizem sobre estar votando juntos com a Lista Unida, o partido árabe que mais criticavam quando foram governo.

Um exemplo do que acontece com uma oposição que ainda não entendeu que perderam as eleições e perdeu o senso do ridículo, é o último fato que desejo relatar, o aprisionamento de um casal de turistas israelenses na Turquia e sua libertação.

O casal Oknim, ambos motoristas de ônibus foram para a Turquia passar férias. Milhares de israelense fazem isto atraídos pela cultura, natureza, comida, preços baixos etc., fazendo da Turquia o lugar preferido para curtirem suas férias.

Um dos locais de visita é a Torre de TV que permite uma visão da casa de Erdogan, o presidente do país. Como todos que sobem na torre, eles fotografaram tudo, inclusive a tal casa e postaram nas redes sociais. Nada de mais, mas não foi o que achou um funcionário do serviço secreto que estava por perto. Avisou seus superiores e o casal recebeu voz de prisão por espionagem, crime que poderia, se condenados, receber uma pena de muitos anos de prisão.

Foi uma comoção em Israel. Não preciso nem falar do desespero da família. O governo se manteve discreto e trabalhou por vias diplomáticas até conseguir a libertação do casal que imediatamente embarcou de volta para casa. Tudo isto levou cerca de 10 dias. Neste período o ministro do interior turco dizia se tratar de um caso de espionagem militar e a justiça turca havia prorrogado a prisão do casal por 20 dias até que fossem apresentadas as acusações contra eles. A situação surreal estava se transformando em um  caso sério, mas que teve um final feliz.

Com o casal de volta, o presidente de Israel e o Primeiro Ministro, telefonaram para Erdogan para agradecer sua intervenção no caso. Ressalto aqui, que nossas relações diplomáticas com a Turquia não são das melhores e este fato, talvez, traga um novo alento e permita uma reação que possa beneficiar as negociações de um futuro Estado Palestino, quando acontecerem.

Relatei tudo isso para chegar na reação do Likud da oposição: eles criticaram o governo por ter agradecido Erdogan, aquele que havia de fato sido o “sequestrador” do casal. Temos aqui partidos que se beneficiaram de 20 anos de governos com Netanyahu e que agora se encontram totalmente perdidos fazendo uma oposição ridícula com atitudes vergonhosas.

Por fim o inusitado. A mídia mostrou que a esposa durante as últimas eleições apoiou abertamente o Likud. Mais do que isto, fez postagens chamando o atual primeiro ministro de traidor e usurpador dos votos da direita dados a ele para que formasse um governo de direita. Questionada, se desculpou e se disse agora uma apoiadora incondicional do atual governo. O que não faz uma viagem de férias na Turquia e as voltas que o munda dá.

As lições que vem de Israel

As lições que vem de Israel

Como é possível um governo formado por partidos de direita, de centro, de esquerda e árabe dar certo em Israel? Que lições uma coalizão destas nos traz? Coloque ainda o acordo de troca de primeiro ministros em dois anos e a coisa fica mais surpreendente ainda.

O atual governo de Israel é um verdadeiro saco de gatos. Formado por partidos que até as últimas eleições concorreram de maneira independente, cada um representando um público alinhado ideologicamente as suas raízes e que nunca se imaginaram juntos governando o país.

A primeira lição é a de que em nome do bem maior, é possível encontrar formas de se sentar a mesa com adversários políticos e encontrar pontos em comum. Sim, mesmo separados por ideologias tão diferentes, por crenças tão distintas, por posições contrárias, ainda assim é possível de se encontrar maneiras de superar tudo isto.

O que todos estes partidos têm em comum é a crença de que mais um governo liderado pelo ex-primeiro ministro Benjamin Netanyahu seria uma tragédia para Israel. Todos concordaram que novas eleições não conseguiriam mudar o panorama dos resultados e que para formar um governo de mudança seriam necessárias concessões ideológicas. Em resumo, todos teriam de engolir um sapo.

Passados quatro meses a coalizão de 61 congressistas, exatamente um a mais do necessário, segue para enfrentar a votação e aprovação do orçamento anual. Se até o dia 14 de novembro não acontecer a votação, ou se o orçamento não for aprovado, cai o governo e novas eleições são marcadas.

Netanyahu se empenhou pessoalmente em conseguir a traição de um dos congressistas da coalizão governamental. Ofereceu mundos e fundos para isso. Enviou seus mais próximos seguidores para ajudarem na missão. Sua obstinação por voltar ao poder não tem limites. Contudo, não foi feliz e tudo leva a crer que o orçamento será votado e aprovado esta semana ainda.

A segunda lição é de que cada partido está fazendo em seu ministério, o que é possível ideologicamente falando. Nos ministérios de esquerda vê-se políticas progressistas em prol de todos e especialmente os mais necessitados. Nos de direita, a política neoliberal conhecida e nos de centro, hora aqui, hora ali. O que importa é que existe governabilidade e as coisas estão funcionando.

Como militante de esquerda não é governo dos meus sonhos, mas sendo realista, outro governo exclusivamente de direita, sustentado por partidos religiosos também de direita, seria muito pior em todos os sentidos. Se esta coalizão não atende todos meus anseios, paciência. Num governo fascista como o anterior, nada seria contemplado.

Se este governo vai durar os quatro anos previstos, eu não sei. Muita água ainda vai passar debaixo desta ponte. A oposição joga sujo e tenta diariamente derrubar e afrontar o governo. O acordo de troca de primeiro ministros não será apenas de nomes, vai sair um primeiro ministro de extrema direita e entrar um liberal de centro. Uma mudança significativa que vai mudar a orientação do governo.

Se olharmos para o Brasil, e o que temos diante de nós para as próximas eleições, está na hora de se buscar e garantir todos os meios para derrotar o fascismo. Pessoalmente, o que acontece em Israel pode servir de exemplo. É necessário reunir todas as forças anti-Bolsonaro que aqui são chamadas de “Só não Bibi”.

Vaidades e ideologias vão ter de ser postas de lado. Os pontos em comum encontrados e sobre eles se construir uma Frente Ampla que derrote o fascismo que foi imposto ao Brasil. A mínima hipótese de que ele possa se manter no poder, ou ser substituído por mais do mesmo, será uma tragédia imensurável. Nada pode ser pior.

As cartas estão na mesa e o jogo já começou. Não se fechem em seu círculo de conforto. Olhem adiante, vejam o exemplo de Israel. Todos os que desejam um Brasil diferente sabem que existe apenas um brasileiro capaz disso. Seu nome é Lula e ele precisa liderar uma Frente Ampla capaz de realizar esta mudança de regime.