por Gil Mildar | 12 ago, 2026 | Comportamento, Israel, Opinião, Uncategorized
Somos, com alguma folga, o país mais filmado do mundo, uma nação de câmeras em esquinas, drones sobre telhados e celulares apontados para tudo o que se move, inclusive para muita coisa que faria melhor em não se mover, e é por isso que causa admiração o porta-voz do nosso exército ter respondido, quando lhe perguntaram o que houve no posto de Awarta na manhã de 27 de julho, que a alegação de que soldados retiveram uma ambulância é falsa e que nenhuma denúncia a respeito havia chegado. As duas metades se anulam com perfeita compostura, já que quem não foi informado de nada não tem como julgar a falsidade de coisa alguma. A única câmera que importou naquela manhã estava na mão de um motorista palestino, o que talvez explique a demora do correio.
Nenhuma lei nossa proíbe palestinos de rodar pela estrada sessenta, o que seria escandaloso, e proibir é feio. Proíbe-se apenas que cheguem até ela, o que é discreto, sai mais barato e funciona melhor. A ONU contou novecentos e vinte e cinco obstáculos à circulação na Cisjordânia, dos quais cento e vinte e um existem com a única finalidade de fechar os acessos das vilas àquela estrada, aos quais somamos cento e vinte portões novos apenas em 2025, um a cada três dias, produtividade que nenhuma outra repartição nossa alcançou em qualquer área. Motoristas contam que esses portões costumam ficar trancados entre seis e nove da manhã, para que os filhos dos colonos cheguem à escola na hora.
A ambulância de Bashar al-Qaryuti saiu de Qaryut às seis e meia levando uma mulher de vinte e oito anos, grávida de seis meses, entrando e saindo da consciência, com uma hemorragia que Sabreen Atallah, enfermeira nessas estradas desde 2014, diz nunca ter visto igual. Ele achou trancada a única saída da vila, tentou o caminho de terra entre os olivais e achou trancado o segundo, contornou e chegou a Awarta, onde o portão fechado, é preciso reconhecer, era rigorosamente o mesmo para o carro que ia ao mercado e para o que levava uma hemorragia, imparcialidade que muito nos honra.
Dois soldados mandaram desligar o motor e, quando al-Qaryuti explicou, no hebraico rudimentar que se aprende em anos de postos como aquele, que os aparelhos da paciente funcionavam com a energia do motor, ouviu que calasse a boca. As telas apagaram uma depois da outra, e o último número que Atallah leu antes disso foi oitenta e quatro por cento de saturação. Ela avisou em inglês que a paciente podia morrer, e as armas subiram na direção dela, o que no idioma local se chama restabelecer a ordem. Os documentos foram recolhidos e devolvidos meia hora depois. O bebê nasceu pouco antes do posto e morreu. A mãe chegou ao hospital com três unidades de sangue e uma cirurgia de urgência à frente, e sobreviveu. Ela contou a um jornal que estava escolhendo nomes.
Ninguém ordenou a morte daquela criança, e é aí que a dificuldade começa, porque a crueldade convicta ao menos tem autor, enquanto a distraída se dissolve em procedimento, sobrevive a qualquer investigação e nunca aparece na folha de serviço de ninguém. O rapaz de dezenove anos naquele portão, sem dormir, assustado, com uma semana atrás de si em que colonos armados mataram e ninguém os deteve, cumpria uma ordem que não escreveu. Quem a escreveu tem nome. Depois do ataque de colonos de 24 de julho, que deixou dois israelenses e quatro palestinos mortos, Binyamin Netanyahu determinou uma operação de larga escala, e Nablus, Ramallah e Hebron foram trancadas, de modo que o luto foi de todos e o castigo, como de costume, caiu sobre alguns. Chamamos o arranjo de defesa, uso inventivo de uma palavra bonita, já que ninguém explicou de que exatamente a hemorragia daquela mulher nos defendia.
Nossos bisavós conheciam portões por dentro, sabiam a hora em que abriam, o nome do homem que tinha a chave e o preço corrente do favor, e foi com essa competência amarga que escreveram, em maio de 1948, a promessa de igualdade de direitos a todos os habitantes sem distinção de religião, raça ou sexo. Não escreveram aquilo por bondade. Escreveram porque tinham acabado de ser o carro parado na fila. Setenta e oito anos depois, o que se pedia em Awarta era menos do que qualquer coisa que já nos foi negada. Pedia-se um motor ligado.
Um exército capaz de instalar um portão a cada três dias deveria conseguir abrir um em trinta minutos. Levou trinta e um. Nada neste relato é excepcional, e essa é toda a dificuldade. Tomamos a terra e nos recusamos a tomar os filhos que vinham com ela, e o arranjo funciona tão bem que o dia 27 de julho foi, para quase todos aqui, uma segunda-feira comum. Meus compatriotas podem continuar achando isso normal. Eu me recuso.
por Gil Mildar | 2 ago, 2026 | Israel, Opinião, Uncategorized
“A paz é para as mulheres e para os fracos. Impérios se forjam na guerra.”
É o que Agamêmnon disse ao irmão Menelau, que queria a mulher de volta depois que Páris a levara para Troia, e foi a última frase honesta que alguém pronunciou sobre o assunto. Mil navios zarparam, oficialmente por Helena. Os poetas cantaram a face mais bela da terra, os arautos falaram em honra, e às viúvas disseram que os maridos tinham morrido por amor. Os historiadores, gente menos romântica, duvidam. Troia não guardava uma mulher. Guardava a boca de um estreito, o Helesponto, e quem se sentava naquela margem cobrava do resto do mundo pelo direito de atravessar. Os gregos não cruzaram o mar por um rosto. Cruzaram por uma cabine de pedágio. Helena foi a legenda que a história escreveu debaixo da fatura, e a versão que se leu em voz alta aos que enterravam os mortos.
Três mil anos depois, o truque não envelheceu um dia. Há sempre uma Helena à mão, uma face bela o bastante ou ameaçada o bastante para fazer a ganância parecer romance, ou sobrevivência. Vale perguntar o que de fato se quer na outra ponta da água. Não uma mulher, e não uma nação, mas uma moeda, e por trás dela a coisa mais próxima da feitiçaria que a engenhosidade dos mortais já concebeu, o poder de fazer dinheiro do nada, para sempre.
Houve um tempo em que o dinheiro guardava algum recato. Em 1944, em Bretton Woods, as nações combinaram que trinta e cinco dólares comprariam sempre uma onça de ouro, e que todas as outras moedas ficariam ancoradas ao lado do dólar. Cada nota era uma promessa resgatável em metal, e a promessa segurava a mão de quem imprimia. Funcionou enquanto durou o metal. Vieram então o Vietnã e os apetites da prosperidade em casa, as gráficas despejaram mais dólares do que Fort Knox jamais poderia honrar, e a França, atenta às próprias contas, começou a trocar o papel por barras e a esvaziar o cofre. Numa noite de domingo de agosto de 1971, Nixon apareceu na televisão e anunciou o fim da conversibilidade com o ar de quem remaneja o horário dos trens. Daquela noite em diante, o dólar apoiou-se em dois pilares apenas, a fé e a frota.
A fé precisa de algo em que se firmar, e aqui veio a jogada mais astuta do século passado. Washington e Riad chegaram a um entendimento astuto: o petróleo do mundo seria vendido só em dólar, e, em troca, a superpotência manteria seus navios de guerra entre a Casa de Saud e seus inimigos. A garantia do dólar deixou de ser o ouro no cofre e passou a ser o petróleo sob a areia dos outros, e a marinha que tomava conta dele. Quem quisesse rodar um carro ou girar uma fábrica tinha, antes, de juntar dólares, e os países do petróleo os mandavam de volta comprando a dívida do próprio cliente que estavam cobrando, num esquema capaz de arrancar uma lágrima de qualquer agiota. O círculo se fechava, ouro sem ouro, e girava sozinho.
Os franceses chamaram aquilo de privilégio exorbitante, e o nome era exato. Um país que emite a moeda que todos os demais são obrigados a entesourar pode gastar com uma licença que nega aos outros, acumulando déficits que em qualquer nação comum afundariam a moeda e o gabinete até terça-feira, enquanto o mundo, sedento de dólares, forma fila para comprar a dívida e a chama de refúgio. O padrão de vida estadunidense foi bancado pela sede dos estranhos, e com ele as prateleiras, as garagens e as guerras a um hemisfério de distância. A inflação, quando se mexe, é posta num navio; as quebradeiras chegam em Bangcoc, em Buenos Aires, em Brasília, quase nunca à porta do Tesouro estadunidense. E sobre quem se recusa a jogar paira a única arma que o guardião do dinheiro do mundo dispara sem estrondo, a sanção, o banimento dos canos por onde o comércio respira.
Nenhum império ordenha o planeta inteiro sem que o planeta, mais cedo ou mais tarde, pegue a calculadora. Em 2001, um economista de banco cunhou uma sigla para vender quatro mercados famintos, Brasil, Rússia, Índia e China, e os chamou de BRICs; era um slide numa reunião de vendas, e o autor mal suspeitava ter rascunhado um manifesto. O rótulo pegou. Os quatro sentaram-se como bloco, e atrás deles vieram África do Sul, Irã, Egito, Etiópia, Emirados, Indonésia, até que o truque mnemônico de banqueiro passou a abarcar dois quintos da produção do mundo e metade da sua gente. E o bloco fez a pergunta óbvia, aquela que tira o sono do Tesouro: por que negociar na moeda de um estranho, pagando seu pedágio e obedecendo às suas listas negras, quando se pode negociar na própria? E assim os seus países compram e vendem em yuan, em rupia, em real, e assentam linhas de pagamento que contornam o dólar e contornam o Swift, a rede que transmite quase toda transferência entre bancos de países diferentes, aquela que Washington lê por cima do seu ombro e fecha quando quer castigá-lo. Rússia e China já liquidam quase todo o seu comércio sem tocar num dólar; o Irã vende seu petróleo à China em yuan; e cada barril vendido assim é mais uma rachadura no muro.
E aqui voltamos ao estreito, embora não ao que está no mapa. Todo estreito na história acaba, com o tempo, atendendo por um novo nome; o Helesponto virou os Dardanelos, e os Dardanelos viraram Ormuz. Mas o verdadeiro estreito da nossa era não está em carta nenhuma e não hasteia bandeira alguma. É o dólar, e toda carga da terra, seja qual for o oceano que cruze, precisa passar por ele e pagar o homem que guarda o portão. É essa a passagem que importa, e é essa a passagem sob ameaça.
Por isso o Irã, montado sobre o estreito de Ormuz, não é, no fundo, uma história sobre o perigo nuclear. Deixem-me conceder a esse perigo todo o seu peso, porque sou israelense e não vou fingir o contrário: o governo em Teerã é uma ameaça de verdade, jamais deveria ter a bomba, e o fato de que muito provavelmente já a tem basta para tirar o sono de qualquer um. Tudo isso é verdade, e nada disso foi o que moveu as frotas. O Irã vende seu petróleo em outra moeda e ameaça fechar ou taxar o canal por onde escoa um quinto do petróleo do mundo. O perigo nuclear é o motivo apresentável, aquele que um estadista pode berrar ao microfone para colher aplausos; a fatura em yuan é o motivo verdadeiro, e sobre esse um homem prudente fica de boca fechada. Foi por aquela orla, e não por uma ogiva e não por um rosto, que Israel e os Estados Unidos despejaram fogo sobre o Irã em fevereiro passado, em nome da sobrevivência e da derrubada de um regime. O Líder Supremo foi morto. Ormuz se fechou. E o mundo, estremecendo na bomba do posto, lembrou-se de que toda passagem estreita paga dividendo a quem está sentado na margem.
Se a guerra fracassar, o mundo pode trocar de dono, pois quem for capaz de lacrar aquele canal sem a licença do dólar terá mostrado que o poder de Washington afinal tem limite. O que se disputa em Ormuz não é uma ogiva. É a moeda em que a terra vai comprar sua energia pelos próximos cem anos, e portanto quem paga a conta do conforto, das frotas e das guerras distantes. Uma perda ali não seria uma derrota militar. Seria a aposentadoria de um método de fabricar dinheiro.
E Helena. Onde está ela em tudo isto? Onde sempre esteve, no cartaz à porta do cinema. Israel é a face bela e ameaçada cujo nome empresta respeitabilidade a uma ganância antiquíssima, o pretexto que faz o apetite de uma grande potência passar por cavalheirismo. Isto deveria doer em quem ama este lugar, porque um Israel democrático e justo, um país que briga consigo mesmo em voz alta e conta cada um dos seus mortos pelo nome, nada ganha emprestando o próprio rosto às contas de outra nação, deixando que rapazes de dezenove anos em nossas fronteiras sejam gastos como trocado miúdo numa transação cujo lucro se lança num fuso distante. Disseram-nos que éramos Helena, a beldade que as frotas tinham vindo resgatar. Estamos aprendendo, devagar e caro, que a beldade por quem elas de fato navegam nunca teve rosto de gente, e que o nome de Helena, no fim, pertence ao padrão dólar, o nome radiante pregado numa máquina de fazer dinheiro sem fim. Naquela velha história nunca fomos a rainha atrás das muralhas. Fomos a tropa do lado de fora, os descartáveis, gastos para manter uma moeda em seu trono. A crueldade não está só no combate. Está em lançar o sangue na conta de um e o troco no crédito de outro, e em chamar de amor, ou de sobrevivência, o simples pavor de perder o pedágio. Agamêmnon, fosse o que fosse, nunca alegou que a guerra era por Helena.
E aí está o paradoxo que o nome carrega desde Troia. Toda guerra é justa, pois toda guerra tem a sua Helena. E nenhuma guerra é justa, pois atrás de toda Helena há um pedágio. Os dois veredictos são proferidos sobre as mesmas covas, e os dois valem. O brilho da causa é a única pista. Quanto mais radiante a Helena que uma nação manda à frente, mais escuro e mais sem nome o interesse que ela carrega na retaguarda.
por Gil Mildar | 13 jul, 2026 | Israel, Opinião, Política
Kant saía para caminhar às três e meia da tarde com tamanha exatidão que os vizinhos de Königsberg acertavam os relógios pela passagem dele. Dois séculos e meio depois, é o relógio que me acerta. O aparelho no meu pulso sabe quando dormi mal, sugere que eu respire. O século que prometeu libertar o homem de seus tutores terminou alugando um por vinte dólares mensais, e ainda agradecemos a gentileza.
O iluminismo, dizia o velho professor, era a saída do homem da menoridade de que ele próprio tinha culpa, a coragem de usar o entendimento sem a direção de outrem. “Sapere aude”. Ousa saber. A proposta era simples e escandalosa, e custou caro a quem a levou a sério. Condorcet, que escreveu sobre a perfectibilidade infinita do espírito enquanto se escondia da guilhotina, morreu numa cela da mesma revolução que havia saudado como aurora da razão. O projeto de emancipar o homem sempre teve esse detalhe incômodo, o de devorar os primeiros crentes.
Pois o projeto amadureceu e mudou de endereço. Os herdeiros do século dezoito moram hoje na Califórnia e oferecem como conveniência aquilo que Kant exigia como coragem. E a oferta funciona tão bem que nos dispensa do exercício.
Esta semana perguntei à máquina que carrego no bolso quem tinha escrito certa frase sobre autômatos como herdeiros do iluminismo. Ela confessou que não sabia ao certo. Listou hipóteses, marcou cada uma com o grau de dúvida correspondente, avisou onde não passava de palpite. Num detalhe, errou. Apontei o erro, ela agradeceu, corrigiu na hora e anotou a regra para não tropeçar duas vezes na mesma pedra. Fiquei um instante comovido. Fui tratado como adulto por um software, e o software se deixou ensinar por mim. Há anos não recebo de um governante uma resposta com essa honestidade, e há ainda mais tempo não vejo um deles aceitar correção sem tratar quem o corrige como inimigo.
A frase que eu buscava sustentava que a automação extrema é a culminação do projeto racionalista do século dezoito. Descobri depois que a frase, tal como eu a guardava, não tem dono. A tese tem. Pertence ao ensaísta francês Éric Sadin, que em 2018 publicou A inteligência artificial ou o desafio do século e ali descreveu o regime da verdade algorítmica, a velha razão emancipadora reduzida a um cálculo que decide por nós. O iluminismo apostou tudo na razão como caminho da liberdade, e a aposta venceu com tamanho excesso que a razão virou técnica, a técnica virou produto, e o produto aprendeu a pensar sem pedir licença ao pensador. O século das luzes queria nos tirar da menoridade. Seu herdeiro mais talentoso nos devolve a ela com respostas instantâneas, e a maioria aceita sorrindo. Kant diria que a culpa, outra vez, é inteiramente nossa.
Dias depois assisti a uma aula de três horas do neurocientista brasileiro Miguel Nicolelis. De Nicolelis roubo sem cerimônia um conceito. Ele chama de Brainet a abstração coletiva capaz de pôr milhões de mentes em sincronia, a ideia comum sob a qual uma multidão passa a agir como um único organismo, seja ela uma fé, uma bandeira ou uma promessa. E não se trata de metáfora de palestrante. Antes de levar a palavra à história, ele a provou em laboratório, conectou cérebros de ratos e de macacos em rede e os viu resolver juntos tarefas que nenhum resolveria sozinho. A história das civilizações, sustenta ele, é o embate entre essas redes mentais. Roma ficou de pé enquanto a ideia de Roma convenceu. Quando as legiões começaram a falhar, um vírus informacional novo, a mensagem cristã, ofereceu esperança aos miseráveis e refez o império por dentro.
Vivo num país que é filho direto daquele século e que talvez seja a Brainet mais deliberada da história moderna. Israel foi imaginado em panfletos, votado num congresso em Basileia, debatido em jornais antes de existir em qualquer mapa. Herzl acreditava que a razão pública podia inventar uma nação, e inventou. Gente que não dividia língua nem chão passou a dividir uma abstração, e a abstração virou Estado, com hino, moeda, exército e algoritmos que calculam em milissegundos a parábola de um míssil sobre o norte de Israel.
É essa rede que o atual governo desfaz, fio por fio, com uma diligência que nega a tudo o mais. Mil dias se passaram desde a manhã mais atroz da nossa história sem que se aceitasse uma comissão estatal de inquérito. Uma comissão de inquérito é o instrumento com que uma nação sincroniza a própria memória, fixa uma versão comum do que sofreu e de quem falhou. Adiá-la é manter o país dessincronizado de propósito, cada tribo com a sua verdade, cada verdade apontando para a tribo ao lado. O gabinete desafia a Suprema Corte como quem ignora um vizinho inconveniente, e remove assim o último nó que obrigava todos os outros a conversar. O atual governo não usa a razão. Governa por instinto de sobrevivência e a combate onde quer que ela apareça, porque ela faz perguntas, exige respostas, e toda resposta honesta ameaçaria o poder.
Há nisso uma crueldade distraída e uma hipocrisia. Os mesmos que discursam sobre a inteligência artificial como futuro da nação tratam a inteligência natural como estorvo e cortam o oxigênio das universidades. Nossa democracia, essa senhora que já respirou melhor, observa tudo da varanda, e ninguém se lembra de lhe medir a pressão.
Kant temia os tutores que nos poupam do trabalho de pensar. Não previu que o último deles nasceria da própria razão, nem que haveria governos dedicados a nos poupar do trabalho de pensar juntos. Em Jerusalém, entre os que mandam, saber segue proibido, e a única tarefa executada com pontualidade prussiana é a demolição da ideia que um dia nos ensinou a caminhar juntos.
por Gil Mildar | 5 jul, 2026 | Comportamento, Israel, Opinião, Política
Todo governante sonha em ser amado pelo seu povo, e a maioria descobre, mais cedo ou mais tarde, que o medo é muito mais fácil de administrar. Foi a lição que Nicolau Maquiavel aprendeu em 1513, depois que seu nome apareceu na lista errada, encontrada no bolso de um conspirador que ele mal conhecia, e o novo governo de Florença o submeteu seis vezes a um suplício conhecido como corda, os pulsos amarrados às costas e presos a um cabo que o içava pelos braços em direção ao teto, para depois soltá-lo numa queda seca que lhe arrancava os ombros do lugar. Dali partiu para o exílio numa propriedade rural, onde à noite começou a escrever um manual de sobrevivência política, oferecido sem o menor pudor ao mesmo clã que o havia torturado e banido. Há algo de delicioso, e um pouco desconfortável para quem escreve sobre o poder vivendo sob ele, no fato de que o retrato mais lúcido da autoridade já posto no papel tenha saído de um cortesão desempregado disposto a recorrer a qualquer bajulação para recuperar o emprego. Se precisasse de trabalho hoje, provavelmente estaria escrevendo a coluna mais servil já publicada em defesa do primeiro-ministro de Israel, e duvido que eu, ou qualquer outro que também dependa da boa vontade de quem manda, tivesse moral para atirar a primeira pedra.
Mas o texto escapou ao autor, o que costuma acontecer com as obras-primas e quase nunca com os bajuladores. Os Médici, registre-se, nunca lhe devolveram o emprego. Ele perguntou se era melhor ser amado do que temido, e respondeu, com a calma de quem viu coisa demais para se dar ao luxo do idealismo, que o ideal seriam as duas coisas, mas que, sendo isso raro, um governante faz melhor em apostar no medo alheio, porque o afeto depende da boa vontade de quem o dá, enquanto o medo depende apenas de quem o inspira, e a boa vontade, como sabe qualquer um que já foi traído, costuma trocar de lado exatamente na hora em que é mais necessária.
Aplicada ao homem que nos governa há mais tempo do que qualquer outro em nossa história, essa distinção deixa de ser teoria. Temos motivos de sobra para temer o míssil que vem de fora. O que soa cada vez mais familiar é o resto do roteiro, o procurador que suaviza a acusação, o juiz que adia o julgamento, a imprensa que modera o tom, e a reforma do próprio tribunal que um dia poderia condenar o líder, vendida ao país como a salvação do Estado. Vale a pena parar para perguntar o que exatamente está sendo salvo. Este é um país cujos juízes mandaram um presidente para a prisão por estupro e um primeiro-ministro para a prisão por suborno, um histórico que não descreve uma democracia frágil precisando de resgate, mas uma democracia sólida que aprendeu a não tratar nenhum cargo como sagrado, e essa solidez é justamente o inconveniente, porque um tribunal capaz de prender os poderosos de nada serve a um homem que pretende nunca deixar de ser poderoso. Os cientistas políticos deram a esse roteiro um nome bonito, democracia iliberal, e o curioso é que ele sempre chega vestido de emergência nacional, nunca de ambição pessoal.
É trágico ver os mesmos homens que se apresentam como guardiões do nosso povo e da nossa história recorrerem, sempre que a lei chega perto demais deles, ao mesmo truque, confundindo a sobrevivência do país com a sobrevivência do próprio mandato, como se as duas coisas fossem a mesma coisa, uma equivalência que ninguém além deles jamais chegou a confirmar. A lógica que Maquiavel pôs no papel, embora composta para agradar a um príncipe em particular, não poupa nenhum príncipe que se pareça com ele. Talvez porque seu autor tenha pendido da corda do Estado e aprendido, nos próprios ombros, o que o medo custa a quem o sofre, o livro distingue o príncipe que é temido porque protege do príncipe que é temido porque teme ser substituído, e reserva para o segundo o adjetivo mais duro do seu vocabulário, desprezível. A bajulação fracassou, o livro ficou, e o cortesão desempregado, que queria apenas um emprego, acabou legando a cada geração o instrumento exato para medir o homem que quer apenas não perder o seu. Nosso primeiro-ministro carrega esse adjetivo com a mesma disciplina que aplica a todo o resto. Ele sabe exatamente o que está fazendo, e faz porque sabe, o que é uma maneira bem mais precisa de dizer que a devoção que ele nos vende como amor ao país há muito tempo não passa de amor a si mesmo.
por Gil Mildar | 28 jun, 2026 | Israel, Opinião, Política
Há uma pergunta que pessoas sérias deixaram de fazer talvez porque a resposta tenha se tornado incômoda demais para ser encarada. Pode o progresso ainda ser chamado de progresso se ele abandona nossa capacidade de cuidar?
Não é uma pergunta abstrata. Toda sociedade que avança sem essa capacidade não está progredindo ela está acelerando. E há uma diferença considerável entre as duas coisas. Velocidade sem direção moral não é conquista é fuga. O que se foge invariavelmente é a responsabilidade de governar com algo que vai além da eficiência algo que as democracias mais sérias sempre souberam que não pode ser terceirizado nem automatizado e que por falta de palavra melhor continuamos chamando de cuidado.
Vale a pena deter se nessa palavra. Não como sentimento não como moeda fraca de cartões de felicitações e slogans publicitários mas como alicerce sobre o qual qualquer sociedade que pretenda ser civilizada precisa se sustentar. É o cuidado que faz de um governo algo mais do que um aparato administrativo. É o cuidado que distingue uma democracia de um esquema de proteção. É o cuidado que separa o ato de escrever leis do ato de usá-las como armas contra as pessoas que essas leis supostamente deveriam proteger.
Israel foi fundado na melhor versão que conta de si mesmo como exatamente esse tipo de democracia. Não uma democracia perfeita nenhuma o é e as que reivindicam perfeição são invariavelmente as que mais se deve temer mas uma democracia parlamentar animada por uma convicção específica e duramente conquistada a de que um povo que havia sobrevivido à negação absoluta de sua humanidade construiria um Estado definido pela recusa em negar a humanidade dos outros. Essa era a promessa. Estava escrita na Declaração de Independência de 1948 com uma clareza que relida hoje parece quase ingênua em sua generosidade. Cidadania plena e igualitária para todos os habitantes independentemente de religião raça ou sexo. Um Estado que buscaria a paz e que seria fiel aos princípios da Carta das Nações Unidas.
O que muitos não perceberam então e o que o tempo tornou dolorosamente evidente é que Israel nasceu com promessas liberais sem os mecanismos que as tornariam difíceis de desmantelar. Sem constituição formal sem separação rígida de poderes com a soberania concentrada num parlamento unicameral o Estado israelense construiu sua legitimidade sobre o compromisso moral de seus fundadores e não sobre travas institucionais que numa democracia mais blindada tornariam a captura do poder um projeto de gerações. Não era uma brecha era a arquitetura inteira. E certas pessoas pacientes e bem organizadas esperaram o momento certo para atravessá-la.
O que acontece com esse Estado hoje não é um desvio de um plano é o plano de outras pessoas executado com paciência e sofisticação considerável ao longo de décadas. A coalizão de extrema direita que governa Israel não chegou ao poder por acaso. Chegou porque certos atores políticos compreenderam com uma astúcia que se reluta em admirar que as instituições democráticas são mais vulneráveis não quando atacadas por fora mas quando esvaziadas por dentro quando a máquina do Estado é gradualmente reapropriada ministério por ministério nomeação por nomeação linha orçamentária por linha orçamentária até que ela não sirva mais ao Estado mas a si mesma e aos homens que a operam. O cuidado nesse processo não é esquecido por descuido é removido por design.
A reforma judicial que convulsionou a sociedade israelense em 2023 foi o episódio mais visível dessa história mais longa mas a visibilidade pode enganar. O que tornou aquela crise tão reveladora não foi a legislação em si embora fosse assustadora o suficiente mas a reação do governo às centenas de milhares de israelenses que tomaram as ruas por meses. Um governo que genuinamente acreditasse no povo que governa teria pausado. Teria ouvido. Teria compreendido que quando uma parcela significativa da cidadania se mobiliza semana após semana em números que um país de nove milhões de habitantes mal consegue sustentar algo deu errado e não se conserta simplesmente aprovando a lei de qualquer maneira. O governo não pausou. Recalculou recuou brevemente quando a catástrofe de 7 de outubro tornou o conflito interno politicamente insuportável e nos meses seguintes retomou seu projeto com a eficiência sombria de uma instituição que confundiu resistência com legitimidade.
O que se perdeu é mais difícil de legislar do que a composição dos tribunais ou a independência do Ministério Público embora essas coisas importem enormemente. O que se perdeu ou está em vias de ser perdido é a capacidade dos que estão no poder de governar como se os governados fossem pessoas reais com interesses reais e não variáveis a serem gerenciadas eleitores a serem apaziguados ou inimigos a serem neutralizados. Não é um problema exclusivo de Israel. É o modo característico de falha do nosso tempo visível em Budapeste Varsóvia Washington e diversas outras capitais cujos líderes descobriram que o vocabulário da democracia é perfeitamente compatível com seu desmantelamento sistemático desde que se avance com cuidado palavra que usam com frequência e praticam com nenhuma.
Contudo Israel carrega um peso particular nessa história porque fez uma reivindicação específica. Afirmou ser diferente. Afirmou e essa afirmação foi acreditada por pessoas sérias em todo o espectro político por muito tempo que sua experiência de catástrofe histórica a havia inoculado contra as crueldades banais da política majoritária. O argumento nunca foi inteiramente convincente para os que observavam como essa história era seletivamente instrumentalizada mas tinha força. Tinha a força do sofrimento genuíno transmutado em princípio genuíno. O que se assiste agora é esse princípio sendo transmutado de volta não exatamente em sofrimento mas em algo adjacente a crueldade confortável dos que decidiram que sua própria segurança é mais bem garantida não pela extensão de direitos mas pela sua contração não pelo fortalecimento das instituições mas pela sua captura não pelo exercício da democracia que herdaram mas pela sua substituição de forma incremental e com grande quantidade de papelada processual por algo que conserva a forma enquanto esvazia o conteúdo.
Os israelenses que marcham que renunciam a comissões militares em protesto que escrevem e argumentam e se recusam a calar estão fazendo algo que merece mais do que hashtags de solidariedade. Estão insistindo a um custo pessoal e profissional real que a promessa feita em 1948 não era um floreio retórico mas uma obrigação vinculante. Estão insistindo que um Estado pode ser julgado por se importar com as pessoas que governa todas elas não apenas as que votaram corretamente ou rezam corretamente ou se parecem suficientemente com os que estão no poder. Estão insistindo na proposição mais radical e mais ameaçada da política contemporânea a de que governar é um ato moral e que um governo sem moralidade não é um governo mas uma máquina e as máquinas por mais eficientes que sejam não pensam não sentem e não se importam.
Os que operam essa máquina sabem disso. É precisamente isso que torna sua hipocrisia não apenas insuportável mas clinicamente precisa. Invocam a segurança enquanto desmantelam os tribunais que a garantem. Invocam a tradição enquanto corrompem as instituições que a sustentam. Invocam Deus enquanto praticam com metódica indiferença aquilo que qualquer leitura honesta de qualquer texto sagrado descreveria como crueldade. São homens que aprenderam a falar em nome do povo enquanto trabalham com notável dedicação para tornar esse povo impotente e que descobriram que a melhor maneira de devorar uma democracia não é atacá-la de frente mas convencer seus cidadãos devagar e com muita solenidade de que o que está sendo feito a eles é na verdade feito por eles.
Há um nome para isso. Não é governo. É a substituição do cuidado pela performance do cuidado da democracia pela máquina que usa o seu nome da promessa pelo seu cadáver bem vestido. E quando uma sociedade chega a esse ponto quando a distância entre o que os governantes dizem e o que fazem se torna grande demais para ser preenchida por qualquer retórica resta apenas a pergunta com que este texto começou formulada agora não como questão abstrata mas como diagnóstico de uma civilização que escolheu a eficiência e abandonou a compaixão que celebrou a inteligência e esqueceu a gentileza que chamou de progresso o que era na verdade o lento e metódico esquecimento de tudo o que nos tornava humanos. Há quase um século com a lucidez de quem já havia visto esse mecanismo operar Charlie Chaplin disse o que ainda precisa ser dito pensamos demais e sentimos de menos. Mais do que máquina precisamos de humanidade mais do que inteligência precisamos de bondade e gentileza. Sem essas qualidades a vida será violenta e tudo estará perdido.
por Gil Mildar | 23 jun, 2026 | Israel, Opinião, Política
No dia dezoito de junho, o presidente do Líbano, Joseph Aoun, fez o tipo de coisa que os presidentes libaneses historicamente não fazem, que é olhar para a câmera da CNN e se dirigir ao público israelense como se fossem pessoas com quem uma conversa fosse possível, o que, dadas as circunstâncias dos últimos setenta e oito anos, representa uma premissa ao mesmo tempo otimista e factualmente defensável. Ele perguntou se não estávamos cansados de uma guerra que perdura desde mil novecentos e quarenta e oito, se realmente queríamos viver em paz, e disse que se quiséssemos, tudo o que tínhamos a fazer era sentar e conversar, uma formulação tão razoável que sua simplicidade soou, neste contexto específico, quase como radicalismo.
Aoun chegou à presidência criticando a interferência iraniana nos assuntos libaneses, o que no Líbano é uma postura de coragem comparável a defender a moderação climática em uma convenção de incendiários, e defendendo o desarmamento do Hezbollah, o grupo que destrói o próprio país há décadas em nome de uma causa sobre a qual o Líbano nunca foi consultado. O que tornou aquela entrevista diferente não foi o argumento em si, mas o destinatário pretendido. Os presidentes libaneses tendem a falar de Israel como um problema abstrato em declarações destinadas ao consumo interno. Aoun falou de nós como vizinhos que, como os cidadãos do seu lado da fronteira, acordam todas as manhãs dentro de algo que ninguém, em nenhum dos lados, escolheu ao nascer. Ele disse que este era o momento para que o poder da razão prevalecesse sobre a razão do poder, e essa frase ficou comigo por dias.
Mil e duzentas mulheres israelenses responderam à pergunta que nenhum governo respondeu, não por canais diplomáticos ou declarações oficiais, mas com uma carta aberta assinada por integrantes do Women Wage Peace e do Fórum de Famílias Enlutadas Israelo-Palestino, cujos membros fotografaram as palmas das mãos com uma única palavra escrita em hebraico, em inglês e em árabe, porque em cada uma dessas línguas a palavra soa diferente e a exaustão por trás dela é a mesma. O Fórum é formado por israelenses e palestinos que perderam filhos e decidiram, com essa perda ainda dentro de seus corpos, sentar-se ao lado de quem quer que estivesse do outro lado quando o filho morreu, porque chegaram à conclusão, da maneira mais difícil possível, de que a conversa era a única alternativa ao ódio, e de que o ódio, como estratégia de longo prazo, tem um histórico que fala por si só.
Existe uma diferença entre herdar uma guerra e escolher uma que os nascidos dentro dela raramente conseguem enxergar, porque nunca conheceram o antes, e é nessa diferença que vive a pergunta de Aoun, dirigida não a generais ou políticos, mas às pessoas que, como ele colocou, genuinamente querem viver em paz e ainda não encontraram uma maneira de dizer isso em voz alta de forma que mude alguma coisa. Eu vim de fora, escolhi este país com tudo o que vinha junto com ele, e aprendi que escolher um lugar não é o mesmo que aceitar tudo o que acontece dentro dele como um fato da natureza, da mesma forma que amar alguém não significa concordar com cada decisão, especialmente aquelas que afetam os vizinhos.
A pergunta de Aoun ficou comigo porque era também a pergunta que eu vinha fazendo a mim mesmo, em momentos diferentes, com urgências diferentes, da maneira específica como se formula uma pergunta quando a necessidade de fazê-la não cessa e a resposta continua não chegando. Não estamos meramente cansados de uma guerra que dura desde mil novecentos e quarenta e oito, estamos exaustos, que é o estágio além do cansado e se distingue dele pelo fato de que os cansados ainda esperam descansar enquanto os exaustos começam a questionar o caminho, e mil e duzentas mulheres israelenses disseram isso em voz alta enquanto a guerra ainda estava em curso, que é o único momento em que dizer esse tipo de coisa custa algo real e, por essa razão, o único momento em que dizer esse tipo de coisa significa algo.