A Geometria do Abandono

Há uma cena captada em vídeo em que um homem palestino grita em duas línguas ao mesmo tempo. Primeiro em árabe, para que os seus vizinhos tragam água. Depois em hebraico, para que os soldados israelenses presentes no fundo do quadro entendam que há crianças dentro da casa que está pegando fogo. O homem fala em duas línguas porque aprendeu, ao longo de décadas, que a sua própria não é suficiente para ser ouvido. E ainda assim, em ambas, não é ouvido.
Assisti a esse vídeo várias vezes. Não porque goste de me castigar, mas porque sinto que há, naquele instante de vinte e poucos segundos, gravado anteontem à noite na aldeia de Susiya, ao sul de Hebron, algo que nenhum relatório técnico consegue alcançar: a geometria do abandono. A forma como um ser humano aprende, em tempo real, que as instituições criadas para protegê-lo estão presentes mas não disponíveis. Uniformizadas mas não comprometidas. Armadas, mas não com a intenção de usar as armas a seu favor.
Os soldados não se movem. O fogo continua.
Existem eventos que os analistas chamam de pontos de inflexão e que outros, se forem honestos, deveriam chamar de momentos de revelação. A diferença não é apenas de vocabulário. Um ponto de inflexão é uma mudança de trajetória. Uma revelação é um instante em que aquilo que sempre existiu finalmente se torna impossível de ignorar. O que aconteceu em Susiya na segunda-feira é ambos, mas sobretudo o segundo.
A violência dos colonos na Cisjordânia não é nova. Os incêndios não são novos. A passividade das forças militares diante deles tampouco é nova. O que é novo é a formalização burocrática dessa violência. Em 8 e 9 de fevereiro, o gabinete de segurança israelense aprovou medidas que revogam restrições históricas à compra de terras palestinas por cidadãos israelenses, e retomaram o registro de propriedades na Área C. Para quem estuda a história colonial comparada, o gesto é familiar: o fogo vem antes, o título de propriedade vem depois. O medo desbasta o terreno; a lei o formaliza.
Hannah Arendt escreveu em Origens do Totalitarismo que a privação dos direitos começa sempre pela privação do direito a ter direitos. O que está sendo construído em Masafer Yatta não é apenas a ausência de proteção; é a construção jurídica de uma categoria de pessoa para quem a proteção não se aplica, e a simultânea aceitação dessa categoria na linguagem dos relatórios militares, na cobertura da mídia que descreve incêndios como atrito entre populações.
Atrito. Como se o fogo fosse uma força da natureza. Como se os incendiários fossem partículas em colisão.
Hamdan Ballal, cujo irmão foi agredido até a cianose facial, cujos familiares foram algemados e depois abandonados à noite em uma estrada frequentada por colonos armados, co-dirigiu com o israelense Yuval Abraham o documentário No Other Land, vencedor do Oscar de Melhor Documentário em março de 2025. Na cerimônia em Los Angeles, Abraham usou o palco para falar sobre a desigualdade entre ele, cidadão israelense com direitos plenos, e Ballal, que vive sob ocupação militar. Houve vaias. Houve aplausos. O mundo assistiu a dois homens, um israelense e um palestino, que fizeram um filme juntos sobre a destruição de um lugar, e não conseguiu decidir se isso era coragem ou traição.
Em Israel, a resposta foi mais direta. O filme não recebeu distribuição comercial. Exibições universitárias e independentes enfrentaram pressão para serem canceladas. Políticos da coalizão governante classificaram Abraham publicamente como traidor. Houve pedidos formais de investigação contra ele. Nas redes sociais e em certos meios profissionais, citar o filme ou expressar solidariedade com seus diretores passou a ter consequências reais. Um país que pune os seus próprios cidadãos por documentar o que acontece dentro do território que controla não está apenas suprimindo uma narrativa externa. Está suprimindo o testemunho interno. E quando o testemunho se torna traição, o que resta não é segurança. É silêncio administrado.
É nesse contexto que se deve ler o que aconteceu com a família Ballal nas semanas seguintes ao Oscar. A agressão contra Mohammed Ballal, a detenção dos familiares, o abandono deles à noite em uma estrada frequentada por colonos armados, esses eventos não ocorreram apesar da visibilidade internacional do filme. Ocorreram por causa dela. A violência em Masafer Yatta tem sempre tido como alvo os corpos que estão no terreno. Depois do Oscar, passou a ter também como alvo a voz que os representa fora dele.
Há uma distinção que vale guardar: entre espaço e lugar. O espaço é abstrato, mensurável, permutável. O lugar é vivido, carregado de história, de cheiros, de mortos enterrados e de filhos nascidos. O que a estratégia de deslocamento em Masafer Yatta ataca, através dos incêndios, das demolições, do corte de tubulações de água, da destruição de painéis solares nas escolas, não é o espaço. É o lugar. É a teia de relações entre pessoas e terra que torna a vida não apenas possível mas com sentido.
Quando se destrói o caminhão que transporta água, não se está apenas privando pessoas de hidratação. Está-se destruindo a prova material de que amanhã será possível, de que haverá um amanhã suficientemente parecido com hoje para que valha a pena insistir.
É tentador separar o que está acontecendo em Susiya da geopolítica regional, e desta dos grandes jogos de poder entre Washington, Teerã e Damasco. Os analistas adoram essas separações. Elas permitem que se fale de cada coisa sem falar de todas ao mesmo tempo. Mas o homem que grita em duas línguas não tem esse luxo.
A queda do regime de Assad na Síria, a atenção americana voltada para o programa nuclear iraniano, os porta-aviões no Golfo, tudo isso é real e tudo isso importa. Mas importa também, e isso é o que os relatórios geopolíticos frequentemente deixam de fora por uma espécie de pudor técnico, que a atenção é um recurso finito, e que quem controla onde ela é dirigida controla, em alguma medida, o que pode ser feito enquanto o mundo olha para outro lado.
A cobertura da mídia documenta este fenômeno sem nomeá-lo com clareza. Enquanto a mídia israelense trata os incêndios de Susiya como relatos palestinos aguardando confirmação, e enquanto a ocidental os insere dentro de uma tendência de longo prazo, o que é verdade mas tem o efeito de torná-los esperados, portanto menos urgentes, os incêndios continuam. A contextualização, quando não é acompanhada de indignação, torna-se uma forma sofisticada de anestesia.
Existe uma estatística que persiste: 94% das investigações sobre crimes cometidos por colonos contra palestinos na Cisjordânia são encerradas sem indiciamento. Apenas 3% resultam em condenação.
Sei que números em sistemas jurídicos são complicados. Sei que encerrado sem indiciamento não é automaticamente equivalente a crime impune. Existem razões processuais, lacunas probatórias, complexidades de jurisdição. Mas sei também que quando os números são tão consistentes ao longo de duas décadas, deixam de ser acidentais e tornam-se estruturais. Uma taxa de impunidade de 94% não é uma falha do sistema. É o sistema.
E quando o sistema funciona desta maneira, quando o agressor sabe por experiência estatisticamente fundamentada que não haverá consequências, a violência deixa de ser um ato individual e passa a ser uma política. Não necessariamente declarada, não formalizada em nenhuma circular governamental. Mas política no sentido mais concreto: uma forma de organizar o mundo de acordo com uma hierarquia de quem merece ser protegido.
Os soldados que observaram o fogo em Susiya não tomaram uma decisão anteontem à noite. Seguiram uma norma não escrita mas perfeitamente compreendida por todos os presentes. A sedimentação de décadas.
Susiya existe. As pessoas que vivem em Susiya têm nomes. Mohammed Ballal, cujo pescoço foi pressionado com força suficiente para provocar cianose, tem um nome. As quatro pessoas que inalaram fumaça na noite de segunda-feira têm nomes. As crianças que estavam dentro da casa enquanto o portão ardia têm nomes.
Há um tipo de crueldade que opera através da abstração. Que transforma pessoas em populações, e populações em problemas demográficos, e problemas demográficos em questões de planejamento territorial. Cada passo nessa escada torna o próximo ato de violência um pouco mais administrável, um pouco mais técnico, um pouco menos parecido com o que é.
O homem que gritou em duas línguas recusou-se a ser abstrato. Ele gritou porque havia crianças concretas, num lugar concreto, com fogo concreto chegando perto. E os soldados, concretos, uniformizados, presentes, não se moveram.
Essa imobilidade é o escândalo. É o momento em que a pretensão de uma ordem jurídica que protege a todos igualmente encontra o teste da realidade e o reprova, às 21h54 de uma segunda-feira em fevereiro, com o céu alaranjado sobre Susiya e alguém gritando em duas línguas ao mesmo tempo.
O fogo apaga. A pergunta, quem teria apagado se tivesse querido, permanece acesa.​​​​​​​​​​​​​​​​

A narrativa que insistem silenciar

A narrativa que insistem silenciar

A narrativa que insistem em silenciar

por David Windholz| 14.02.26| Artigo

 

Ao contrário da atual narrativa de extremistas palestinos e israelenses de que só um lado pode vencer neste conflito, a situação W-L (winner-loser) só levará a uma situação L-L, nenhum lado sairá ganhando. Os palestinos não terão sua liberdade e nação e os israelenses não terão segurança. No contexto atual no qual o governo de Bibi Netanyahu, governo de extrema direita, fascista, anti-democrático, messiânico e fundamentalista por um lado e os governos da Hamas-Hizbollah-Hutis-Irã, fundamentalistas, anti-democráticos e que podem ser definidos de fascistas e de extrema direita por sua postura policial, dominam o espaço político com estratégia do medo e ódio, gerando a violência, se torna impossível a busca a uma solução pacífica, que levaria a uma situação de W-W – a autodeterminação ao povo palestino e segurança ao povo de Israel.

Durante todos esses anos venho dizendo que existem correntes em ambos os lados a favor de uma solução W-W. São mais de 150 organizações israelenses e palestinas que trabalham juntas na tentativa de caminhar para a reconciliação e a paz. Já propus várias vezes às lideranças da comunidade de realizar um documentário sobre isso. Infelizmente não consigo encontrar as vozes que poderiam apoiar tal projeto. Mas, a esperança é a última que morre, e eu sempre caminharei neste caminho pela paz. “Caminhante não há caminho , caminho se faz ao andar” e “Vem vamos embora que esperar não é saber, quem sabe faz a hora não espera acontecer”, são minhas duas mantras para não perder a esperança.

Nos meus contatos na Palestina, venho há 12 anos mantendo contato com os embaixadores do Brasil na Palestina e em Israel. Com o embaixador Alessandro Candeas realizamos uma série de encontros entre algumas dessas organizações e embaixadores da América Latina, em Ramallah, na embaixada. Esse contato segue, mesmo tendo ele sido transferido a Portugal. Através dele, no início do ano deu uma entrevista a Henrique Barbi do jornal O Globo. A entrevista foi sobre duas ativistas da Organização Family Circle – famílias palestinos e israelenses que perderam um ente querido na guerra e decidiram encaminhar pela reconciliação, esperança e paz. Uma entrevista emocionante e que reflete uma nova narrativa na mídia – organizações palestinas e israelenses trabalhando juntas, sendo chamadas de traidoras pelos extremistas de cada uma das sociedades. Mas, sem ter medo transmitem a mensagem que existe a possibilidade da Paz e da reconciliação entre os povos. No mais doloroso deste conflito, pessoas que perderam seus filhos e filhas, maridos e esposas, irmãos e irmãs, resgatam todas as forças do bem, pelo reconhecimento e compaixão pela dor do outro, e são capazes de dialogar e criar laços inimagináveis de amizade.

Nesta caminhada para mudar a narrativa atual trago mais um depoimento. De um palestino, Samer Sinijlawi, sobre o dia de hoje em Gaza. Depoimento de esperança de um futuro no qual os palestinos de Gaza possam reconstruir Gaza em todos os sentidos – físico, econômico, político e principalmente humano.

Samer Sinijlawi, um ativista político palestino da Cidade Velha de Jerusalém, passou cinco anos em uma prisão israelense na adolescência por participar da Primeira Intifada, na década de 1980. Ele acaba de escrever um artigo para a edição de dezembro da revista The Atlantic, intitulado “Como Construir um Estado Palestino” na versão impressa e Minha Esperança para a Palestina na versão online. Na prisão, ele aprendeu a negociar e interagir com os israelenses como pessoas, e não simplesmente como carcereiros e opressores. Fora da prisão, tornou-se um importante ativista e membro do Fatah, o principal partido dentro da OLP e da Autoridade Palestina.

Ele escreve como defensor da solução de dois Estados, defendida conjuntamente pelo ex-primeiro-ministro israelense Ehud Olmert e por Nasser al-Kidwa, ex-ministro palestino das Relações Exteriores. Sinijlawi considera necessário que ambos os povos “mudem radicalmente seu pensamento — e sua liderança”. Ao identificar “o primeiro obstáculo [como] Netanyahu e seus aliados racistas”, com a necessidade de os israelenses votarem para tirá-los do poder, ele também passou a ver a liderança do presidente Mahmoud Abbas como “corrupta e ineficaz”. É essa capacidade de enxergar ambos os lados implicados no prolongamento desse conflito sangrento que o torna singular.

“É difícil para o meu próprio povo, oprimido como nos sentimos pelo poder israelense, compreender isso, mas os medos dos israelenses são reais, não exagerados ou inventados. As imagens de 7 de outubro estão gravadas em suas mentes. Especialmente desde o massacre, eles desejam o tipo de segurança que qualquer um de nós desejaria, e jamais negociarão a segurança de suas famílias. Eles não são um povo suicida.”

Este é o DNA, um desejo tanto por segurança quanto por autodeterminação. Ao reconhecer e atender a esses dois desejos — em vez de distinguir o certo do errado ou reviver a história — pessoas de boa vontade podem resolver o conflito. . . . Prevemos um cessar-fogo em Gaza e o retorno dos reféns mantidos pelo Hamas desde 7 de outubro, e elaboramos os detalhes de uma solução de dois Estados, propondo um plano para definir as fronteiras, determinar o status de Jerusalém e reconstruir Gaza.

“Como salvar uma solução de dois Estados” – The Atlantic https://www.theatlantic.com/magazine/archive/2024/12/israel-palestine-…

Por fim, ele considera que cabe aos palestinos — como o lado mais fraco que precisa de ajuda com mais urgência — “dar o primeiro passo… para garantir que a Autoridade Palestina criminalize adequadamente a violência cometida pelos palestinos — assim como Israel deve acabar com a violência dos colonos na Cisjordânia e respeitar que as vidas dos palestinos são tão sagradas quanto as vidas dos israelenses. Ambos os lados neste conflito precisam controlar suas tendências violentas.” E, eis sua declaração hoje:

Hoje marca um momento decisivo na história de Gaza. O novo governo tecnocrático da Faixa de Gaza recebeu oficialmente suas cartas de nomeação, assinadas pelo Conselho da Paz, com um anúncio público esperado para as próximas horas.

Este não é um gesto simbólico, mas o início de uma nova fase de governança em Gaza — uma fase definida por profissionalismo, responsabilidade e reconstrução, e não pelo domínio faccional. O que torna este momento histórico não é apenas o que aconteceu, mas também quem este governo representa — e quem ele não representa. Este governo é composto por profissionais independentes de Gaza, que não são afiliados nem à Autoridade Palestina nem ao Hamas. São figuras profundamente enraizadas na sociedade, na economia e nas instituições de Gaza — muitos dos quais vivenciaram a guerra em toda a sua brutalidade, carregaram suas consequências e continuaram a servir sua comunidade mesmo nos meses mais difíceis. Liderança e figuras-chave:

🔸 Dr. Ali Shaath – Chefe do Comitê Administrativo (ex-vice-ministro dos Transportes da Autoridade Palestina)
🔸 Sr. Aad Abu Ramadan – Responsável pela pasta do Comércio e  Economia (Diretor da Câmara de Comércio)
🔸 Eng. Omar Shammali – Responsável pela pasta das Comunicações (Diretor da Companhia Palestina de       Telecomunicações em Gaza)
🔸 Sr. Abdel Karim Assour – Responsável pela pasta da Agricultura (Diretor da Organização de Assistência Agrícola)
🔸 Dr. Aad Yaghi – Responsável pela pasta da Saúde (Diretor da Associação de Assistência Médica)
🔸 Dr. Jaber Al-Daour – Responsável pela pasta da Educação (Presidente da Universidade da Palestina)
🔸 Eng. Bashir Al-Reis – Responsável pela pasta das Finanças (Consultor de engenharia e finanças)
🔸 Eng. Ali Barhoum – Responsável pela pasta da Água e das Autoridades Locais (Consultor da Prefeitura de Rafah)
🔸 Sra. Hanaa Tarzi – Responsável pela pasta do Bem-Estar Social e Assuntos das Mulheres (Advogada)
🔸 Dr. Arabi Abu Shaaban – Responsável pela pasta da Autoridade de Terras
🔸 Sr. Mohammad Basiso – Responsável pela pasta do Sistema Judiciário
🔸 General Mohammad Tawfiq Khalas e Sr. Mohammad Nasman – Responsáveis pela pasta da Polícia e da Segurança

Juntas, essas figuras representam uma nova abordagem de governança: civil, profissional, enraizada localmente e orientada para o futuro.

O que isso significa para Gaza?

Este desenvolvimento não é apenas uma troca de nomes, mas uma profunda mudança estrutural. Gaza entra em uma nova fase que prioriza:

  • Reconstrução em vez de militarização
  • Instituições em vez de facções
  • Prestação de serviços em vez de slogans
  • Revitalização da economia em vez de dependência permanente de ajuda
  • Dignidade, responsabilidade e vida normal em vez de um estado contínuo de emergência

Espera-se que o governo tecnocrático se concentre na reconstrução de infraestruturas essenciais, no restabelecimento dos serviços públicos, na estabilização da economia, na coordenação de esforços humanitários e de desenvolvimento, e na preparação de Gaza para reformas de governança de longo prazo e para uma futura integração regional.

Para além de Gaza

Este momento não é importante apenas para os habitantes de Gaza, nem apenas para os palestinos.

Uma Gaza estável e funcional, administrada por profissionais e não por grupos armados, constitui um pilar fundamental para a estabilidade regional, para a redução da escalada israelense-palestina e para um envolvimento internacional sério e credível. Também abre caminho para vincular os fundos de reconstrução à transparência e ao desempenho, e para reintegrar Gaza em estruturas econômicas regionais — em vez de deixá-la isolada e frágil.

Este não é o fim do sofrimento de Gaza, mas talvez seja o início de seu processo de recuperação. Pela primeira vez em muitos anos, Gaza recebe uma oportunidade real que lhe foi negada por muito tempo:

Ser governada por seu próprio povo, para seu próprio povo, com os olhos voltados para o futuro.

Na esperança que também em Israel haja uma troca de governo, que acredite em um futuro no qual ambos os povos possam ser livres e viver em segurança e paz. Amém!!!

 

Quando o Luto Encontra o Luto

Maoz Inon estava preparando o café da manhã para a esposa em sua casa em Binyamina, no norte de Israel, quando seu pai escreveu no grupo da família no WhatsApp às 7h30 da manhã de 7 de outubro de 2023. A mensagem dizia que mísseis estavam caindo e que sons de guerra preenchiam Netiv HaAsara, a comunidade agrícola mais próxima da fronteira com Gaza, onde seus pais moravam.

Maoz ligou imediatamente. Seu pai, Yakovi, de setenta e oito anos, atendeu brevemente. Ele e Bilha, a mãe de Maoz, de setenta e seis anos, haviam trancado a casa e estavam no quarto de segurança. Netiv HaAsara fica a apenas cem metros de Gaza. Maoz pensou que fosse mais um episódio da violência recorrente ao longo da fronteira. Disse aos pais que os amava e que ligaria novamente em breve.

Às 7h40, quando ligou outra vez, ninguém atendeu.

O horror se instalou quando Maoz começou a ver imagens nas redes sociais de terroristas do Hamas invadindo comunidades israelenses na fronteira. Ele e suas três irmãs se reuniram na casa de uma delas, enquanto o irmão mais novo vinha de Londres. No fim da tarde, conseguiram falar com o responsável pela segurança da comunidade, que lhes disse que a casa dos pais havia sido queimada até virar cinzas. Dois corpos foram encontrados dentro.

Os irmãos iniciaram o período tradicional de luto judaico. No segundo dia, a pedido do irmão de Maoz, Magen, divulgaram uma declaração conjunta rejeitando a vingança em nome de seus pais. Foram dos primeiros israelenses a se manifestar publicamente sobre a morte de civis em Gaza.

“A vingança não vai trazê-los de volta e só vai intensificar o ciclo em que estamos presos há mais de um século — o ciclo israelense-palestino de derramamento de sangue, vingança e morte.”

Durante três dias após o assassinato de seus pais, Maoz foi tomado pela dor e pelo sofrimento. Numa noite, chorando enquanto dormia, teve o que ele chama de uma visão: toda a humanidade chorava com ele, suas lágrimas curando feridas, purificando terras ensanguentadas, revelando um caminho para a paz. Ao acordar, soube que aquela era a forma de honrar o legado de seus pais.

A primeira ligação de condolências veio de Aziz Abu Sarah, um ativista palestino pela paz que Maoz conhecia apenas de nome. O irmão de Aziz havia morrido em 1990 em decorrência de ferimentos sofridos numa prisão israelense. Quando Aziz sugeriu que continuassem trabalhando juntos pela paz, Maoz não hesitou.

A colegas que demonstraram incredulidade diante da rapidez com que ele intensificou seu ativismo após perder os dois pais, Maoz disse: “Quando uma pessoa se perde no deserto, ela clama por água. Quando uma pessoa se perde nesse tipo de luto, é normal clamar por paz.”

Desde então, Maoz e Aziz têm viajado o mundo juntos. Em maio de 2024, falaram ao papa Francisco e a doze mil construtores da paz em Verona, na Itália. Receberam uma ovação de pé e um abraço do papa. Um ano depois, encontraram-se com o papa Leão XIV no Vaticano. Em dezembro de 2025, Maoz recebeu o prêmio Champion of Shared Society por seu trabalho em prol da convivência pacífica entre judeus e árabes em Israel.

O livro deles, O Futuro é a Paz: Uma Jornada Compartilhada pela Terra Santa, escrito em coautoria com o ativista palestino Hamze Awawde, tem lançamento previsto para abril de 2026.

Antes de 7 de outubro, Maoz havia passado vinte anos construindo pontes. Em 2005, criou uma pousada na Cidade Velha de Nazaré em parceria com uma família árabe local, com o objetivo de revitalizar a área e servir como plataforma de diálogo intercultural. Mais tarde, fundou a rede Abraham Hostel em Jerusalém, que se tornou a maior cadeia de hostels de Israel.

“Durante 20 anos tive parceiros da Palestina, da Jordânia e do Egito. Eu sei que israelenses e palestinos podem viver juntos porque vivi isso.”

Vinte e três anos antes, e centenas de quilômetros ao sul, em Belém, na Cisjordânia, outra história se desenrolava.

Layla Alsheikh nasceu e cresceu na Jordânia. Estudou contabilidade e gestão empresarial. Em 1999, casou-se e se mudou para Belém, realizando o que chamava de seu sonho de vida: retornar à Palestina.

Na madrugada de 11 de abril de 2002, seu filho Qussay, de seis meses, começou a ter dificuldades para respirar após soldados israelenses lançarem gás lacrimogêneo em sua vila. Layla tentou levá-lo às pressas ao hospital, mas soldados israelenses a impediram de fazê-lo por mais de cinco horas.

Qussay morreu naquela noite por falta de atendimento médico em tempo hábil.

Durante quatorze anos, Layla carregou seu luto em silêncio. Nunca buscou vingança. Nunca contou aos outros filhos como o irmão havia morrido, relutante em arrastá-los para o que chamava de um ciclo de violência.

Em 2016, uma amiga a convidou para uma reunião do Parents Circle–Families Forum, uma organização que reúne famílias israelenses e palestinas que perderam entes queridos no conflito.

A primeira reação de Layla foi: “Você está louca?”

Mesmo assim, ela foi. Na primeira reunião, sentou-se em silêncio, ouvindo outras mães contarem suas histórias: uma mãe que perdeu o filho em um atentado suicida em Jerusalém; uma mãe que perdeu o filho em um bombardeio em Gaza; uma avó que perdeu a neta em um ataque com foguete.

Layla percebeu que todas choravam da mesma forma. Todas tinham o mesmo vazio no peito. Todas acordavam pela manhã e precisavam de alguns segundos para lembrar que aquilo tinha realmente acontecido.

Na segunda reunião, Layla falou. Contou sobre Qussay. Sobre as cinco horas no posto de controle. Sobre segurar o corpo do filho enquanto ele ficava cada vez mais leve em seus braços. Quando terminou, uma mãe israelense atravessou a sala e a abraçou sem dizer uma palavra.

“Uma das mulheres israelenses se levantou e me disse: peço desculpas a você em nome do meu povo. Eu também sou mãe e sinto a sua dor. Ela não sabia que, com essas palavras simples, tinha me trazido de volta à vida.”

Layla voltou para casa e chorou como não chorava havia anos. Mas era diferente. Não apenas dor, havia também um tipo de alívio que ela não conseguia explicar.

Não há indícios de que Maoz e Layla já tenham se encontrado. Eles atuam dentro do mesmo movimento, mas seguem caminhos separados. Maoz viaja o mundo com Aziz, falando para plateias, encontrando papas, escrevendo livros. Layla participa das reuniões do Parents Circle em Belém, senta-se com mães israelenses e se recusa a permitir que a morte do filho sirva de justificativa para que outros filhos morram.

Desde 7 de outubro, as reuniões do Parents Circle tornaram-se mais difíceis. Os membros vivem em mundos distintos, moldados por ambientes midiáticos diferentes. Quase todos os membros palestinos perderam numerosos familiares em Gaza durante a guerra. O governo israelense proibiu o Parents Circle nas escolas, embora muitas escolas tenham desafiado a ordem.

Em um evento recente, alguém perguntou diretamente a Layla como ela conseguia conciliar genocídio e ocupação ao fazer esse trabalho com israelenses.

“Nem tudo eu posso perdoar.”

Ela descreveu suas próprias experiências com a violência de colonos sancionada pelo exército na Cisjordânia. O trabalho do Parents Circle, enfatizou, não exige perdão nem esquecimento. Exige apenas o reconhecimento da humanidade daqueles que estão sentados do outro lado.

Maoz não esqueceu que o Hamas matou seus pais. Layla não esqueceu as cinco horas no posto de controle. Nenhum dos dois perdoou. Mas ambos decidiram que seu luto não será transformado em arma, que sua perda não será usada para justificar mais perdas.

“Durante 60 anos, meu pai foi agricultor. Durante 60 anos, ele semeou trigo nos campos de Israel. E não importava o quão devastador tivesse sido o ano anterior, por enchentes ou por seca. Ele sempre semeava novamente. E eu perguntava: papai, o que você está fazendo? Por que não desiste? Por que não faz outra coisa? E ele sempre me dizia: Maoz, meu filho, o ano que vem será melhor. O ano que vem será melhor. E eu tenho a capacidade de torná-lo melhor.”

Maoz não pode mais semear trigo nos campos do pai. O kibutz ainda está se recuperando. Muitos vizinhos foram embora. Mas ele continua o trabalho em que seus pais acreditavam: construir pontes, conduzir viagens que aproximam israelenses e palestinos, falar para públicos ao redor do mundo.

“A esperança não é um sentimento que eu espero chegar. Eu faço esperança. A esperança é um esforço coletivo, algo que criamos juntos.”

Layla não pode trazer Qussay de volta. Não pode desfazer as cinco horas no posto de controle. Não pode apagar a memória do corpo do filho ficando mais leve em seus braços. Mas ela continua frequentando as reuniões do Parents Circle, continua sentando-se com mães israelenses e continua se recusando a deixar que o trauma defina completamente quem ela é.

Nenhum dos dois acredita que esteja mudando o mundo. Nenhum dos dois tem ilusões de resolver o conflito. Mas ambos fizeram uma escolha: recusam-se a deixar que seu luto se transforme em ódio.

Fontes das citações:

  1. The Catholic Register
  2. Emanuel Congregation of New York
  3. France 24
  4. The Amherst Student
  5. Alliance for Middle East Peace (ALLMEP)
  6. Democracy Now!
Torá: Bereshit-Israel

Torá: Bereshit-Israel

I
A Torá não é um livro de salvação, não é um livro para um mundo futuro e messiânico, não é um livro de moral ou que apresente aspectos metafísicos.
II
A Torá é um Livro de “viver a vida na estrada”, de “atravessar mares e desertos reais”, de ponderação sobre processos de formação do mundo e de formação de um Povo, desde suas origens semíticas, mesopotâmicas, egípcias, canaanitas e, então, hebraicas, israelitas e judaicas.
III
A Torá é isso: Bereshit (reflexões de origem e fundamentos éticos e abraâmicos dos hebreus); Shemot (os nomes, direitos principiológicos e vidas fundantes dos israelitas); Vayikrá (o chamamento para processos religiosos dos antigos cultos sacrificiais e regramentos sacerdotais); Bamidbar (a experiência do deserto e a vida como ela é) e; Devarim (as palavras que retomam e estabelecem princípios que constituem o mundo judaico).
IV
Não tem metafísica ou projeção celestial na Torá, tem experiências reais do aqui e agora. Não tem moral, tem Ética e princípios de convivência! Não tem nada de messiânico e nada do “céu e além-mar”. Na Torá, há as lições primeiras de dignidade humana, de direitos humanos e de direitos para a convivência.
V
A Torá não é Velho Testamento ou Antigo Testamento, pois não precede a qualquer texto. A Torá é! A Torá é a ligação de Bereshit (primeira palavra) e de Israel (última palavra).
VI
Enfim, a Torá não é um livro de “chegada”, é um livro de processos abraâmicos, hebraicos, israelitas e judaicos. É livro de partida e de caminhada…
VII
É isso, resumidamente, e um pouco mais..
.
*
(Pietro Nardella-Dellova)
NOTAS
1. Extratos de textos de Pietro Nardella-Dellova, in A Crise Sacrificial do Direito, (USP, 2000); A Morte do Poeta nos Penhascos (2009) e; Judaísmo e Direitos Humanos (PUC/SP, 2020).
2. Foto: Eu e a Torá na Sinagoga Massoret

A Erosão do Nosso Pacto Democrático

 

Existe uma ironia cruel em nosso dilema atual: um povo que vagou apátrida por milênios, que experimentou em primeira mão o que significa viver sem a proteção da lei, que sofreu as consequências do poder arbitrário não controlado pela justiça, agora testemunha seus próprios líderes desmontando as instituições destinadas a garantir que nunca mais estaríamos indefesos diante da tirania. O pedido de Benjamin Netanyahu para encerrar seu próprio julgamento representa não apenas mais um episódio de corrupção política ou abuso de autoridade, mas algo mais profundo e perturbador: a traição ao pacto que fizemos conosco mesmos quando declaramos que este Estado seria diferente, que incorporaria os ideais proféticos de justiça que ecoam por toda a nossa tradição.

Construímos esta democracia das cinzas da catástrofe, da determinação de que criaríamos uma sociedade onde a lei reina suprema, onde nenhum indivíduo está acima da justiça, onde a injunção bíblica de que haverá uma só lei para o cidadão e o estrangeiro seria mais do que meras palavras. Isso não foi ingenuidade, mas uma escolha consciente enraizada nas mais duras lições de nossa história. Sabíamos, talvez melhor do que qualquer outro povo, o que acontece quando o Estado de Direito colapsa, quando líderes afirmam encarnar a vontade da nação, quando instituições protetoras se tornam instrumentos de opressão.

A democracia, como nos ensinou Montesquieu, repousa sobre um equilíbrio delicado e sempre precário entre poderes que mutuamente se vigiam e se limitam. Não é um sistema perfeito, mas um arranjo que reconhece uma verdade fundamental sobre a condição humana: o poder corrompe, e o poder absoluto corrompe absolutamente. Quando um líder sob investigação criminal exige o encerramento de seu próprio julgamento, não comete apenas um ato de arrogância pessoal, mas declara abertamente que se considera acima da lei, que a justiça é um obstáculo inconveniente a ser removido em vez de um princípio universal a ser respeitado. Para nós, com nossa história, isso deveria ser particularmente intolerável.

O que torna isso particularmente grotesco é a inversão completa dos valores que sustentam qualquer sociedade genuinamente livre. O Estado de Direito, aquele princípio segundo o qual todos se submetem às mesmas normas jurídicas, deixa de ser o fundamento da ordem política e torna-se mero instrumento a serviço dos poderosos. As instituições judiciais, que deveriam funcionar como guardiãs imparciais da justiça, são retratadas como inimigas do povo, obstáculos à vontade popular supostamente encarnada no líder. É o discurso clássico do autoritarismo, familiar a todos que estudaram os colapsos democráticos do século XX, e dolorosamente familiar para nós a partir de nossa própria memória coletiva.

Mas há algo ainda mais perverso nessa dinâmica: a gradual normalização do inaceitável. Cada ataque às instituições democráticas prepara o terreno para o próximo, mais ousado. Cada tentativa de minar a independência judicial torna a seguinte menos chocante. O que ontem seria considerado escândalo intolerável torna-se hoje apenas mais uma notícia no ciclo interminável de disputas políticas. A indignação pública se esgota, a capacidade de resistência se desgasta, e a sociedade gradualmente, imperceptivelmente, aceita como normal o que deveria permanecer inaceitável.

Hannah Arendt nos alertou sobre a banalidade do mal, sobre como grandes atrocidades podem resultar não de monstros, mas de pessoas comuns que simplesmente seguem ordens, normalizam o absurdo, param de pensar criticamente. Aqui testemunhamos algo análogo: a banalidade da corrupção institucional, em que a violação sistemática das normas democráticas deixa de chocar porque se torna rotina, em que a população gradualmente perde a capacidade de reconhecer que princípios fundamentais estão sendo destruídos diante de seus olhos.

Nossa democracia, forjada nos ideais de justiça e autodeterminação de um povo historicamente perseguido, encontra-se agora em uma encruzilhada moral e política. Um governo que deveria defender a lei conspira para subvertê-la. Instituições que deveriam proteger os cidadãos são atacadas como inimigas. O discurso público é envenenado por narrativas que transformam a busca por accountability em perseguição política, a defesa da justiça em conspiração, a crítica legítima em traição. Estamos testemunhando a erosão do próprio pacto democrático que nos mantém unidos como sociedade livre e como povo que conheceu em primeira mão o preço da ausência de lei.

E aqui reside talvez o aspecto mais trágico: a erosão da confiança nas instituições democráticas afeta não apenas o presente, mas hipoteca o futuro. Uma geração inteira está aprendendo que as regras são para os fracos, que a justiça é negociável, que o poder é sua própria justificação. Quando as normas jurídicas se tornam instrumentos de conveniência política, quando a verdade factual é substituída por narrativas partidárias, quando os líderes demonstram desprezo explícito pelos limites constitucionais de seu poder, não estamos apenas testemunhando falhas individuais, mas vivenciando o desmonte sistemático do tecido que nos mantém unidos como nação democrática.

A questão que se coloca não é apenas jurídica ou política, mas profundamente ética e existencial: que tipo de sociedade queremos ser? Uma em que todos são iguais perante a lei, ou uma em que alguns são mais iguais que outros? Uma em que as instituições funcionam imparcialmente, ou uma em que servem aos interesses dos poderosos? Uma democracia genuína, com todas suas imperfeições, ou uma fachada democrática que oculta o exercício arbitrário do poder? Essas perguntas ressoam com urgência particular para nós, que construímos um Estado precisamente para garantir que nunca mais estaríamos à mercê da arbitrariedade e da injustiça.

A história nos ensina que democracias raramente morrem por meio de golpes dramáticos; mais frequentemente, definham lentamente, corroídas por dentro, enquanto cidadãos complacentes ou exaustos assistem passivamente. O desafio para nossa sociedade, que valoriza a liberdade e a dignidade humana como fundamentais para nossa própria existência como povo, é reconhecer esses momentos de perigo e encontrar a coragem de resistir, não com violência, mas com a afirmação firme e inabalável dos princípios que tornam possível uma vida comum verdadeiramente humana.

O respeito ao Estado de Direito não é uma formalidade burocrática ou um luxo opcional. É o alicerce sobre o qual construímos nossa democracia e sobre o qual repousa toda possibilidade de justiça, liberdade e coexistência civilizada. Quando esse alicerce é deliberadamente solapado por aqueles que juraram defendê-lo, não se trata apenas de mais um escândalo político, mas de um sinal de alarme que deveria despertar a consciência de todos nós que ainda acreditamos que nossa democracia, nosso pacto nacional, vale a pena ser defendido. A memória de nossa história nos convoca a não permitir que os valores pelos quais lutamos sejam esvaziados por dentro, transformados em retórica vazia enquanto sua substância é destruída.​​​​​​​​​​​​​​​​