Os Femininos, no Filme Vicky Cristina Barcelona, de Wood Allen

Os Femininos, no Filme Vicky Cristina Barcelona, de Wood Allen

Vicky Cristina Barcelona é um filme de desenho poético e substância humana próprios de Woody Allen, seu diretor. Nele, a voz masculina vai soltando o fio narrativo como o de Ariadne, querendo manter o controle ou simplesmente não ser devorado pelo universo feminino, que se impõe com personagens vívidas, vigorosas e intensas, especialmente, as de Maria Elena (Penélope Cruz), Vicky (Rebecca Hall) e Cristina (Scarlett Johansson).

 

Por outro lado, as figuras masculinas são caracterizadas em quatro sentidos. A de Juan Antonio (Javier Bardem), como pintor que depende da inspiração e presença da ex-mulher e de movimentos externos; a de maridos, cujo foco de assuntos gira em torno das futilidades cotidianas das mentes americanizadas e cocacolizadas, criando-lhes um comportamento insensível e impermeável; a de um velho (o pai de Juan) cujos textos servem apenas para demonstrar seu ódio pelo mundo e, lógico, a “voz” que verbaliza as relações como em um confessionário.

 

Assim, o homem ou o masculino, aparece apenas como alguém que diz, verbaliza, como no caso do convite de Juan Antonio ou do isolamento de seu pai. E as outras personagens masculinas despontam no filme como quem oferece um discurso vazio do mercado (computers, casas, viagens, dinheiro, instituições). Mas, é a presença e ações femininas que determinam a vida das relações.

 

Nas personagens Maria Elena, Vicky e Cristina, Allen aponta para o melhor da tradição semítica, renovando a roupagem dos três perfis femininos: Lilith, Havá e Miriam, ou seja, a mulher em uma humanidade anterior, a mulher mítica de Adam e a irmã de Moshè (Moisés), que o salva nas águas egípcias.

 

Mas, ainda no nome de Maria Elena, Allen dá as chaves do mundo helênico, inicialmente, para a figura de Helena (a bela mulher responsável pela Guerra de Tróia) e, assim, como a personagem Maria Elena, influenciando uma nova ordem de relações e descobertas, e abrindo caminho para uma compreensão dos perfis femininos. E é da Mitologia grega que Allen atualiza para suas três personagens, os perfis das Cáritas (as três graças). Aglaia, Eufrosina e Tália (claridade/esplendor, alegria/júbilo e Poesia/flores). Assim, as personagens se revestem do semítico e do grego. Maria Elena/Lilith/Aglaia, Vicky/Havá/Eufrosina e Cristina/Miriam/Tália.

 

Maria Elena é o fogo abrasador e inspirador. A loucura apaixonante de um homem, Juan, dependente dela em todos os sentidos. Ela pinta e cria, mas não há sofrimento em sua arte que, sob os pés, vai se colorindo e plenificando.

 

A obra, neste sentido, é ela, e não a tela! Maravilhosamente senhora de si, como Lilith ao partir, deixa um homem que vai encontrar nos braços perfumosos de Cristina o conforto tolerante de uma mulher que busca algo além dos padrões americanos ou machistas.

 

Cristina procura em Juan, em sua pintura e em sua provocação, o sentido de sua vida, a Poesia e a música, e ele a leva para sua casa, para seu mundo e para suas telas. Mas, o sentido que Cristina procura, ela encontra apenas quando Maria Elena retorna, de modo dramático e único.

 

É com ela, Maria Elena, Aglaia dos encantamentos e claridade, que Cristina aprende a olhar o mundo externo humano ou não. É com ela que aprende a fotografar e, na aparente escuridão do trabalho fotográfico, ela encontra o talhe perfeito, sensual, intenso e poético de Maria Elena, a quem passa a fotografar, vale dizer, a quem passa a ver, enxergar e observar, e com quem passa a se relacionar, como notas e pentagrama, de modo afetivo. Em Maria Elena ela aprende a ver sua própria feminilidade, a alegria, o mundo externo e o exercício da afetividade.

 

Ao lado de Maria Elena, ela se descobre Miriam em música, com cânticos de quem ultrapassa o Mar de Juncos e em Poesia e flores de Tália. Mas, recusa a condição de uma vida aprisionada no triângulo lúdico. Finalmente, descobrindo-se a si mesma, por intermédio de Maria Elena, ela consegue se superar, decidir, questionar como Miriam, e superar a presença de Maria Elena, essa Lilith espanhola.

 

Em outro sentido, sua amiga Vicky, provocada, como o foi Havá, à descoberta amorosa pelo mesmo Juan, recusa o encontro com a recusa de quem não quer recusar. Com as dúvidas de quem encontra dois mundos antagônicos: o de seu (talvez) casamento com a figura amarelada do seu noivo e o mergulho em um mundo de amores e afeição, sem institutos ou regras.

 

E quando a flecha de Eros a atinge, a despeito de sua visão quadrificada. Ela cede, como Eva e Eufrosina, com alegria e júbilo, ao amor e à ternura da experiência do encontro de si mesma, entre os arbustos de algum jardim edênico de Espanha.

 

© Pietro Nardella-Dellova, O Feminino, no Filme Vicky Cristina Barcelona, de Wood Allen in A Morte do Poeta nos Penhascos e Outros Monólogos. São Paulo: Editora Scortecci, 2009, pp. 94-98.

Rav Giam – HaZaken, e a Caneca d’água: aos pés e nas asas de um Mestre para a vida

Rav Giam – HaZaken, e a Caneca d’água: aos pés e nas asas de um Mestre para a vida

HaZaken e a Caneca d’água

Após a retomada de fôlego, lembrei-me das visitas que recebi na noite anterior, à margem do Tirreno. Há pessoas que me legaram bênçãos e alegria, força e lucidez para caminhar constante, sem detrimento de mim mesmo. Ao deixar a Sinagoga do Quartiere Ebraico, fui à torneira de água bem no meio daquele pátio beber um pouco e me refrescar e, ao ver aquela água jorrando, tão clara e natural, recordei-me, com afeto e respeito, do Rav Giam, HaZaken que, havia alguns anos, ensinou-me muitas coisas sobre a vida e sobre D’us.

Rav Giam foi um bom homem com profundo apreço pela vida e pelas pequenas criaturas da natureza…

Lembrei-me de folhagens viçosas, arbustos verdejantes e árvores imponentes: o limoeiro, a figueira, a palmeira, o cafeeiro, a amoreira, o bambual, a bananeira, a goiabeira, a laranjeira.

E as flores perfumosas do seu jardim, entrecortado por passagens, bancos e muretas de paralelepípedos – tudo plantado e feito pelo seu coração!

Caminhei tantas vezes, na minha última infância e primeira juventude, de um lado para o outro, preso à sua mão, pulando o caminho das formigas, emudecendo-me, atônito, diante dos beija-flores. E descobrindo, a cada canto, a santidade do mundo das larvas, casulos e borboletas, a sabedoria das aranhas coloridas, no alto das árvores, o calor dos ninhos de passarinhos e a vida em sementes explodindo ao vento.

Naquele tempo, convidava-me a estar diante do poço e beber uma canecada de água fresca, e me orientava, também, a ver tudo ao redor porque o poço no rancho daquele bom Mestre era o centro de tudo, mostrando como a natureza e o homem são o corpo e a alma da Terra.

E os olhos iluminados pela bondade podem encontrar Poesia e música puras, e harmonia, e afeto, e respeito pela vida.

Jamais me esquecerei daquela ponte que ele fez entre uma árvore e outra com um galho ressequido para que as formigas pudessem passar pelo alto, protegidas!

E com aquela caneca à mão, meio que derramando água fresca, descobri, para sempre, que estes são os milagres mais próximos da manifestação de D’us!

Então, entendi por que ele se comovia com os cães enxotados, sarnentos e famintos nas calçadas, e os tomava nos braços sarando suas feridas com carinho, banhando-os e alimentando-os, dando-lhes nomes: Zé, Caçula, Preta, Marrom. E, dava-lhes, sobretudo, a amizade e a proteção de sua casa.

Entendi, também, por que arrebanhava das ruas para a pequena varanda tantos gatos quantos podia salvar do veneno da vizinhança. E por que alimentava centenas de pombos, recebendo-os na palma da mão, medicando asas e pés quebrados pela violência das pedras da ignorância.

                                 Tudo

                                     que eu

                             quero é aprender a misericórdia

                          e banhar-me às águas tranquilas da humildade,

                                           chorar, quem sabe, com os que choram

                           e sentir-me feliz com o sorriso alheio…

                                   tudo que eu quero é o tempo vivido e aproveitado

                                  com coisas de alma e sentimento

                         a semente que germina calada,

                                           o rio que corre incontrolável,

                                  a chuva, e o sol e a brisa…

                             tudo que eu quero é abraçar a humanidade

                                           e derrubar barreiras – tantas levantadas –

                            voar a espaços sem termo e conhecer infinitos rumos

                                      desacreditados e estar solto e leve…

                                               tudo que eu quero é o tempo presente

                                  pleno na vida presente e não desconfiar

                                               nem tecer planos

                                            que me conduzam a prisões

                                              irreparáveis

                                                         da existência.

Com aquela caneca de água à mão, compreendi por que ele dava morada ao sapo à direita da porta, e por que mantinha uma tampinha com açúcar para as grandes formigas pretas e, mais adiante, um vaso com água limpa para os passarinhos se refrescarem.

Certa vez, ele chorou compulsivamente, durante uma semana, a morte do besouro grudado à tinta nova que ele deixou no portal em sua horta. Afinal, cada vida perdida tem mesmo que ser pranteada, pois causa desequilíbrio na ordem das coisas. Compreendi em toda a dimensão o choro do Rav, do meu querido Rav Giam. Porque as mãos de um homem bom foram feitas para abençoar a terra, pois é com mãos e atos de bondade que abençoamos – e não com palavras!

Por isso mesmo, eu ficava ali muitas horas e, ao anoitecer dividia o seu pão comigo para depois ficar diante da sua mesa e caminhar, madrugada adentro, por cada uma das letras da Torá, ouvindo do seu peito a angústia e a ansiedade de Avraham, a solidão de Ytzchak, a força de Ya’akov e a determinação de Moshé rabenu pela liberdade.

E depois, fazia-me ouvir o choro de Yirmiahu pelas ruas de Jerusalém, e descer aos infernos de Yoná, e cantar os Tehilim e construir com os Mishlei e Cohélet, e renovar esperanças com Yeshayahu, e descobrir a beleza singular do amor do homem por uma mulher com os Shir Hashirim.

E nessas tantas madrugadas ouvíamos o barulho dos grilos, dos sapos e dos ventos, no seu jardim feito Éden. E, sobre sua mesa, tantos livros abertos, convertendo sua casa numa singular Beit Midrash onde eu era tocado no espírito e inspirado na alma a um verdadeiro Bar Mitzvá e, por tanta assimilação, a uma T’shuvá.

Mas, às vezes, atrás do Mestre aparecia o homem, o poeta e, escondidos entre seus livros, mantinha seus versos, e na profundidade de cada um deles, a sua própria angústia e ansiedade diante de D’us, a sua própria solidão, e força, e fraqueza a sua própria determinação pela liberdade e os seus  pés estrepados, o seu próprio choro e seu próprio grito. O seu próprio inferno, o seu antigo casaco cobrindo as mãos nos tempos de opressão e guerra, o seu próprio amor perdido no passo delicado de uma bailarina espanhola, em algum palco e, sobretudo, a sua própria humanidade!

Porque, segundo Rav Giam, para isto fomos feitos, ou seja, para salvar larvas e nelas, as borboletas, esperando em suas asas encontrar os olhos da mulher amada.

Fomos feitos para estudar a Torá, e esconder entre as páginas sagradas as folhas que ninguém compreende do amor simplesmente humano. Esperando encontrar alguma Dalila, alguma Betsabá, alguma Rainha do Sul, que nos arrebatam no seu encanto, que nos ensinem a amar e nos façam sofrer para, depois, nos fazerem remover colunas, vencer guerras e amar em outras mil oportunidades, procurando atrás de cada coluna, em cada palácio, e em cada dança de uma hebreia o rosto único, o perfume único e a dança única da mulher amada, venha ela de onde vier.

Por isso, a um só tempo, somos tão frágeis e tão fortes. Por isso, nosso jardim é, a um só tempo, Éden e Kaos. Por isso vivemos com um dos pés no leite, no mel, no pão e no vinho da terra prometida, e o outro nos tecidos finíssimos do Egito. 

E transformamos, tantas vezes, nosso Talit, o manto das Mitzvôt, em própria mortalha. Porque somos humanos, a despeito de toda maldade e de toda violência e de tantos obstáculos nestes quatro mil anos, continuamos plenamente humanos. E, como humanos, nos reerguemos, sempre, em nossa Bimá, porque ali se faz iluminar a Torá C’haim.

E é o humano que compreende e salva os cães, os gatos, os pombos, as formigas, os sapos e tudo. Porque queremos descobrir em cada um a amizade e o afeto que humanamente nos falta.

                                                Nas

                                               fachadas

                                    dos prédios

              nas pessoas e nos carros, nas coisas de uso comum,

              na linguagem usual  e na linguagem técnica

                      e na linguagem culta e no verso feito,

                 no peito que aparece no decote, na prece, no dote e no jeito,

                              no olho e no molho que cai sobre o prato

                   e o fato de primeira página que cai no olhar

                molhar dos dedos e os enredos de qualquer carne

                             que se quer sempre e o caminhar, o vestir  e o despir,

                  o par ao parar na ponte e a fronte que se ergue

                             antes que se envergue o altivo

                      cativo falante e a amante que se engraça,

                            a massa humana que divaga

                                              de semana em semana na vaga:

                       tudo parece buscar aparência

                tudo se move em torno do que parece e não há essência

                                 e há ausência de vida

                                              e não há vida

                                                      (e  n ã o  à  vida)

                                                                um não

                                                                        à essência!

Pietro Nardella-Dellova: HaZahen e a Caneca dágua in A Morte do Poeta nos Penhascos e Outros Monólogos. São Paulo: Editora Scortecci, 2009, pp. 46 e segs.

La Piccola Caffetteria, de Pietro Nardella-Dellova

La Piccola Caffetteria, de Pietro Nardella-Dellova

LA PICCOLA CAFFETTERIA

“A vida é Poesia e música, caminho, encontro, planícies, ar… A existência é prosa e ruído, estrada, distância, labirinto, dutos sufocantes.

Faça do seu coração um lugar com poesia e terra boa, e deixe flores nele, com variados tipos, perfumes e cores. Mas, não morra entre elas! Faça caminhos largos para pessoas porque um jardim não é jardim sem pessoas. Não queira mais que isso! As borboletas e anjos ficam por conta do Eterno… Faça caminhos delineados com pedras que durem, e espalhe placas grandes, imensas, com letras gigantes:

AQUI NÃO SE MATA!

Transforme a vida numa casa, mas não use material descartável. Ela deve durar e trazer saudades, deixar lembranças, lançar raízes profundas e dar frutos. Abra janelas em todas as direções e erga um teto alto, que acompanhe o telhado, a fim de obter bastante ar e música espalhada como unção e bênção humanas. Na casa, tenha poucas coisas e nenhum negócio — mais pessoas! E promova muitos encontros afetivos. Entre as poucas coisas, prefira as simples, rústicas e duradouras. Entre pessoas, as plenamente humanas.

E não se esqueça do café — ele é vital, passado em coadores de pano, nunca por empregadas, e servido, nunca para apressados, em xícaras de ferro esmaltado. Tudo deve ser demoradamente vivido e visto hoje, e cheirado, degustado, escutado, falado e compreendido — nunca amanhã! Por isso, a sua casa deve ser o encontro de pessoas boas, coração e música, muita música! E Poesia, muita Poesia!”

Pietro Nardella-Dellova.

Trecho do La Piccola Caffetteria in A Morte do Poeta nos Penhascos e Outros Monólogos, 2009, pp. 30-36.

Sefaradi

Sefaradi

Antes de Tel-Aviv
Vamos a Madri!
Antes do Oriente
Pro ocidente logo ali !
Caminha, caminha, caminha…
Contam-se os passos!
Buscam-se oportunidades
Em braços abertos
e punhos cerrados,
Você é cidadão em cada cidade!
Todo país é uma pátria distante,
Ou um lar acolhedor
No coração você leva a saudade!
Nos pensamentos sonhos ligeiros de amor
pro alvorecer do amanhã!
Não há despedidas, apenas novos encontros!
Quem sabe econtre o verdadeiro amor!
Mas você está em busca de Sefaradi!
Do lar com a Estrela de David!

Quattro sonetti d’amore e quatro poemetos do dia inteiro

Quattro sonetti d’amore e quatro poemetos do dia inteiro

QUATTRO SONETTI D’AMORE

E

QUATRO POEMETOS DO DIA INTEIRO

(dedicados à mulher amada)

 

POESIA E MUSICA

Appare così presente avvolta nell’incanto e bellezza

Come donna che si muove tra note belle di soavità

E cammina ballando al ritmo di musica sommessa

E vola nella brezza che soffia poesia e musicalità.

Così si tuffa nel fiume di piaceri liberi e irresistibile

Con gli occhi di fuoco che illuminano gli dei e i versi

Diffondendo musica nel tocco delicato e indefinibile

Dalla poesia di un poeta che riunisce toni e universi.

La donna graziosa e bella nel corridoio, cortile, mondo,

Tra spartiti raccolti che risuonano anima in sottofondo

Risvegliando tutti colori della creazione di verso pieno

Al limite della poesia libera, scritta di sguardo sereno:

Eccola che se vede viva oltre lo specchio ad amare

E vivere piena di luna, sole, terra, aria, rosso e mare.

STATUA DI CERA

(titolo provvisorio perché lei non è una statua di cera)

In quei versi della poesia più dolce, pura e delicata,

Con la mano tremante, le guance si inumidirono

Sulla mano del poeta di vita e i suoi occhi brillarono

Di ieri e d’oggi, che vola e passa sulla tua giornata

E di leggere sensazioni camminiamo ad abbracciare,

Toccare sulla pelle lungo del giardino, amore e cielo,

Che fanno volare le tavole, le corde e il tuo mantello

Tra versi e immagini di umidità, desiderio, e baciare

Perché siamo fatti di andirivieni, bagno di immensità:

Né cera, né calce, né salto, né pavimento, né gioco

Solo intere di sogni in braccia libere, occhi e fuoco

Di ritmo che avanza e labbra di piacere ed affettuosità

Nel prendere, senza peso, la bocca del poeta – allegretto

E lasciati vivo ed umido nell’allegro, nei baci e nel sonetto.

SONETTO DEL VESTITO SUL CORPO SCOPERTO

Questa donna piena e bella

Fatta di poesia e immensità

Sospira nei baci che sono

Baci da chi vive e si rivela

L’invito-desiderio della dea

Dal tocco umido dei piaceri

Nell’abbraccio di tante volte

Sguardo libero arriva e crea

Il verbo in musica risveglia

Fuoco-bacio, bocca aperta,

E suoi seni che si liberano

Agli occhi del poeta flirtano

L’immenso verso libero scritto

Sulla bocca, piedi e giardino.

PRESENZA VIVA

La mia poesia rivela il cielo

Il cammino soave da baciare:

Nasce la canzone sulla bocca

Di vita piena senza mantello.

Libera volando, bacia e danza,

Bocca, bacio sulla tua nudità

Nel gioco dei versi sotto luna

Unica, giardino umido avanza

E si apre l’angolo della poesia

Dal tuo verso rosso così vicino

E sguardo dolce ed immerso

E poi il velo sulla faccia si squarcia,

Bocche mute,silenziose, si aprono

Ora due corpi nudi, nudi di cielo.

QUATRO POEMETOS DA MANHA, MEIO-DIA, TARDE E NOITE

Poemeto da manhã

Nesta manhã, envio-te versos

de ternura na brisa suave

de uma poesia, quase uma partitura;

e envio afetos no meu canto matinal

imersos no perfume da tua pele,

teu natural manto, versos despertos de vida…

Poemeto do meio-dia

Teu rosto de encanto, olhar falante,

No teu perfume de beijo e gosto,

E luz que vai, toca, revela adiante,

Entre lágrimas que o verso traduz

E converte em orvalho disperso

No teu jardim que delícias verte!

Poemeto da tarde

Aquela mulher que me leva, suave, sob os véus

dos seus olhos umedecidos de uma tarde qualquer,

e no caminho entre céus, aqui e ali, tecidos e leves

de um fogo que surge, arde, cobre e se desenha

no rubor das suas faces feitas de traço delicado…

Aquela mulher tão bela: flor que me salva no abraço!

Poemeto da noite

Sob o teu convite, visitei teu canto, entrei pela porta

e tu, bella, sobre a cama, dormindo em sonhos de amor

ao lado de lençóis jogados ao chão, corpo em nudez,

e me aproximei, assim, no aproximar-me de quem dorme

e tomei os lençóis brancos lançando-os sobre teus seios

sem tocá-los, e com a dobra cobri teu jardim feito tesouro

porque neles a morada só é possível sob tuas mãos

quando assim me conduzirem e mostrarem o caminho,

mas, não cobri, não cobri nem cobriria sob convite,

os teus lábios, umbigo, cabelos, rosto,

pálpebras, pernas, pés, braços, pescoço, ombros

e mãos, porque teu canto ainda ressoava no teu canto. 

 © Pietro Nardella-Dellova

(Alguma Poesia no Umbigo da Mulher Amada / Qualche poesie sull’Ombelico della Donna Amata)

Pausa para a Mulher Amada, entre Quatro Letras Hebraicas

Pausa para a Mulher Amada, entre Quatro Letras Hebraicas

א

a Mulher Amada nesse verde-azul, feito tudo:

vinho, sangue, uva, mel, choro e palavrão,

abria os braços, o peito, a boca – e eu mudo!

deixando nos seios o beijo, a lágrima, a unção…

ב

a Mulher Amada na brisa, lua, vento, tempestade,

à mesa, elevador, corredor, biblioteca, cozinha,

varanda, cama, chão, sofá, escada, por toda tarde

vestida, seminua, nua: ei-la, plena, quando vinha

ג

de alma entregue, chocolates e branca espuma

entre os dedos, rosto, língua, face sorridente,

rindo-vermelha-rosa-chorando-branca-leve-pluma

de música, gozo, asas, esperança: Mulher gente!

ד

e

eu

poeta

feito de letras

urros

e porta aberta

giros tresloucados

mil teses

fugindo aos murros

pisando em fezes

lendo fezes

do boi errante, minguante,

feito de ausência

escondido

sumido

entre os meus versos

inclementes versos

cegos versos

cegos inclementes

que negam a água

entre fios dourados

e a boca imensa

voando pelos céus

de barro e fogo

(é um jogo)

e esbarro na tumba:

céus diversos

fugido-ingrato-sem-rosto-sem-manhã-para-o-amanhã!

AH, MEU AMOR,

deixe-me em paz

feche o seu jardim

eis-me, nu e vendido,

fendido

aqui jaz!

(vou comer rapadura)

*

© Pietro Nardella-Dellova

Pausa para a Mulher Amada, entre Quatro Letras Hebraicas

in Alguma Poesia no Umbigo da Mulher Amada