O nosso fado amor garboso

O nosso fado amor garboso

Hoje estou a embebedar-me

No vinho do teu amor fagueiro

que não canso de provar-me

Mergulho-me

na tua dorna

para ser pisado

pelos teus pés

O flâmeo que teu rosto

adorna!

estás a despir

então conheço

a tua verdadeira e bela forma

Na alcova do teu amor

fagueiro

aproveito o repouso

Aos teus lábios

provo o mais puro mosto

Ah o nosso fado amor

garboso!

Não és mesmo dócil?!

Na verdade és a edil

Que dá as ordenanças

A duquesa que está a eclipsar

As donzelas mais belas

do nosso universo

nem há palavras

para exprimir

e falar de ti

é preciso suprimir

o verso

Ou desaguar-me

no teu infinito

amor perverso

no qual

estou preso

acorrentado e

submerso!

No azul destes céus do rosto risonho

No azul destes céus do rosto risonho

No azul

destes céus do rosto risonho,

rasgados os véus,

eu crio o sonho – o sonho é branco

e um jardim de flores perfumadas,

os amores da amada

(do rosado, às vezes, cor de trigo)

(e ela me envolve em abrigo feito seda clara)

tão rara, tão alva e transparente de fios azuis,

que me guiam ao peito e aos seus rios e risos,

insinuantes e graciosos,

em que sou navegante pelos céus azuis da amada

que vem como brisa,

porque o seu Poeta tem o amor mais doce,

o amor mais puro, o amor mais delicado,

o amor mais inocente,

o amor mais liberto e intenso – amor-suavidade!

E este

amor não me faz pedinte,

não faz de mim

um homem triste,

este amor me faz completo:

um Homem-Poeta!

Sou, então,

homem livre

livre para voar e estar,

e andar:

livre para viver

e receber da natureza a Poesia

e ter

liberdade para respirar

o ar que se me entrega

e não quero destruir notas tais,

maravilhosas.

Sou

homem livre

para pensar

e não pensar

e seguir

o caminho que seguir

e rir com voz alta,

livre para estar

além da pauta…

Sou homem livre

da humana morte

e não espero ser forte

espero

ser.

O amor do Poeta é amor que humaniza

porque

aquela mulher

bebeu do amor,

sentiu

todos os poros

e converteu-se

em Mulher-Poesia

na experiência de terra-céu-encanto….

Adiante estou leve,

pois levo comigo a certeza de que tenhas sido amada,

muito amada, amada plenamente na leveza…

agora, trago-te uma vez mais a gratidão

por ter amado mulher, assim, tão única, tão linda, tão vida…

Vai agora, amor – vou também,

abre bem as tuas asas

e voe como águia nas alturas,

e sejam tantos os mundos,

tantas serão as criações do amor

com a mulher amada,

cujas faces trazem a lua e a descoberta!

© Pietro Nardella-Dellova

Conversa de Corredor, in “A Morte do Poeta nos Penhascos e Outros Monólogos”. São Paulo: Ed. Scortecci, 2009, p. 73-86

La sensación del mundo 

La sensación del mundo 

Carlos Drummond de Andrade na sala de seu apartamento em 1982, prestes a completar 80 anos Foto: Rogério Reis / Tyba / Rogério Reis / Tyba

No son palabras, el dolor o grito

O cansancio,

¡Que traigo conmigo en mi pecho!

Lo que me trae, lo que traigo,

¡Es el sentimiento del mundo!

Hay sonrisas y abrazos,

Más traigo sólo la sensación del mundo,

Tampoco son las noticias de las guerras en el este…

¡¡No!!

deseos de la revolución

o la poesía de Drummond,

Hay gritos a medianoche o al mediodía de la humanidad….

Más, lo que traigo conmigo en mi pecho,

Es sólo el sentimiento del mundo

Hay CDs o viejos libros polvorientos en el estante…

Lo que traigo,

¡No! ¡No es una dolor tardia!

Tampoco se trata de una flor para mi amor

¿Lo qué llevo conmigo en mi pecho? ¿Lo que llevo en mis manos?

Es sólo la sensación del mundo

À Carlos Drummond de Andrade, inspirado no poema “Sentimento do Mundo” .

Poeta Noturno

Poeta Noturno

Noite de festa alegria, família reunida e poesia

Ano novo chegando

Cá estou, só.  Na companhia da solidão,

Não quero ser o poeta noturno

Que se enfada com o calor do verão,

Que faz conjecturas políticas, com rimas caducas

E bebe na utopia da revolução,

Ano novo chegando,

Eu não quisera ser o poeta noturno

Que está acordado a meia noite do século XXI

Contando estrelas

Do Cruzeiro do Sul

 

Alma libertária, porque não quero uma língua, mas várias…

Alma libertária, porque não quero uma língua, mas várias…

Não quero um país, mas o mundo. Não quero uma língua, mas várias (de carne, letras e fogos). Não quero uma bandeira nacional (e, muito menos, um hino nacional), mas a mente aberta para compreender as dores da humanidade. Não quero fronteiras, mas jardins imensos. Os  jardins são prazerosos; as fronteiras, destrutivas.

Não quero a teologização do mundo, mas a sua espiritualidade. E a espiritualidade não se encontra na Teologia, mas na Poesia, na Música, na Pluralidade, na Diversidade.

Não quero esses políticos tacanhos, mas Política, grandiosa e eloquente.

Não quero comer ou ser comido por alguém, mas amar intensamente ao ponto de aproximar almas e corpos e despertar prazeres diversos em todo percurso. Eu quero o prazer do encontro de almas e corpos libertos, libertos pelo amor, libertos para o amar. Não quero a tristeza das Academias, mas a alegria da simplicidade. 

Não quero falar ou ouvir sobre pessoas que não estejam presentes, mas apenas com pessoas sentadas para o café – um demorado café, com as quais eu possa rir, chorar, avançar, mergulhar, aprofundar, verticalizar ou simplesmente falar e ouvir de poesia, música, dança e de amores libertários.

Eu preciso de muito mais verduras e frutas, e menos – ou nada, de animais assassinados e seu sangue sobre a mesa. Não quero a financeirização do mundo, mas os valores que norteiam a economia. Não quero a escravização da terra, e sua exploração, mas a libertação da terra e seu uso familiar, solidário, comunitário, mutualista, inteligente, inclusivo. Quero a terra que produz o pão; não a especulação financeira.

Não quero o Ensino à Distância, mas Presencial, de encontros circulares, dialógicos, alegres. Não quero uma foto diante de mim, mas faces verdadeiras, que riem e choram. Não quero matriculados diante de mim (com seus celulares fiscalizadores ou emburrecedores), mas Estudantes, Estudantes profundos, com sua liberdade para ouvir, falar, ler, debater e compreender um mundo plural.

Não quero um Deus acima de tudo e de todos (esse Deus não presta!), mas quero a Alma humana e seus Atos de bondade, praticando, diuturnamente, a justiça, a igualdade e a solidariedade! Quero espaço para todos os Deuses e Deusas criados pela sensibilidade humana (e nenhum deles maior ou menor!).

Enfim, eu quero Poesia, não Poema!

Pietro Nardella-Dellova

imagem: Over the Town 1918 Marc Chagall

Desaguar

Desaguar

É preciso desaguar amarguras num lago de belas canções

E das agruras fazer doces composições

E da solidão fazer o flerte

Em pingos de emoções

No anoitecer mirar o cintilar da paisagem

Contar casos, bobagens…

Desaguar.