O LADO DA CIÊNCIA (publicado originalmente em 10/06/2021)

O LADO DA CIÊNCIA

Em compasso afinado com diversas áreas de atraso evolucionário do Brasil, volta, em uma atávica ressonância um debate supostamente superado entre ciência e política, materializado pelas submáximas do tipo “ciência não tem partido”, ou, “ciência não tem lado”.

Este tipo de assertiva traz um denso sofisma em seu corpo. Para aquele bem versado em história da ciência, história da filosifia e história geral, a ciência cartesiana (matriz de pensamento cientificista há 5 séculos) traz no seu íntimo o racionalismo como guia de construção do conhecimento e ainda uma metodologia procedimental e matemática que representa uma luta contínua contra tudo aquilo que vindo do indivíduo e de seus desejos pessoais possa interferir no resultado de um experimento ou de uma estatística sobre dados existentes. Além disso, o tratamento matemático estatístico é uma luta constante para que se identifique, nos achados produzidos ou nos dados apurados sobre qualquer realidade, os elementos do acaso que possam obnubilar a percepção da realidade.

Obviamente, quando falamos em “percepção” estamos partindo do pressuposto que qualquer percepção é obra da consciência do indivíduo, e portanto, sujeita aos viéses deste indivíduo, também pressupostamente sempre existentes. Na perspectiva coletiva, esta percepção pode formar conjuntos distintos sobre os mesmos dados de realidade, e assim, o tratamento estatístico persegue também o objetivo de uniformizar esta percepção de forma que a informação ou o conhecimento apurado seja palatável e “aceitável” pela maioria.

Não sou daqueles que cultiva a verdade científica como único ou absoluto critério de verdade. Mas também não sou daqueles que desacreditam nas verdades produzidas pela ciência. Tenho no meu íntimo a plena noção de que muitos conhecimentos não estão ao alcance do método científico ou de certa visão determinista. Exemplos clássicos desta divisão remontam à grande ruptura imposta pela física quântica, que não obstante alicerçada em princípios antideterminísticos (e às vezes, verdadeiramente fantasmagóricos) foi a mais bem sucedida teoria do século XX, cujos frutos entranham-se em cada aspecto de nossa vida cotidiana, e em breve, será incorporada ao mundo da informática no maior salto tecnológico jamais visto nesta área. Ainda assim, a física quântica jamais fracassou em no critério cartesiano da reprodutibilidade, algo que “democraticamente” dá chances verdadeiramente iguais aos que repetirem os experimentos que deram um certo resultado de obter o mesmo resultado.

Toda a construção científica cartesiana, querendo ou não, traz em seu bojo a desconstrução da ligação entre o poder político, ou ainda, o poder de fato, com os critérios de verdade e a determinação dos campos de conhecimento de uma sociedade. Ainda que o cientificismo possa (e deva) receber com dignidade as cáusticas críticas de Paul Feyerabend (“Adeus à Razão), a adoção de seus critérios pelos sistemas culturais e sociais deu-se de forma quase inabalável desde suas origens. Isto chega ao ponto de que a carreira científica traz ao seu ator as sucessivas titulações acadêmicas que na prática terminam por designar posições de poder sobre a verdade, que no limite, servirão de base para as decisões políticas nos respectivos níveis de estado. Assim, o agente de estado moderno faz um pacto implícito com a ciência, pois caso assim não proceda, estará sob o risco de ser classificado como autoritário, totalitário ou obscurantista.

Pobre do cientista que não expande para todos os campos do seu conhecimento e percepções a essência da ciência cartesiana. O que temos visto é um patético espetáculo de suicídio de reputaçãoes perpetrados por pessoas sobre as quais jamais se esperaria isso. Mas, como humanos que são, não são imunes às perversas manifestações dos arquétipos de poder e dominação outrora tão sinônimos de grandeza. E nesta esteira, fazem do seu ego a principal propulsão de suas carreiras que naturalmente os levam às posições de fama e conexão ao poder.

No outro polo, o cientista que no seu amadurecimento consegue incorporar à sua visão de mundo a sabedoria e a humildade que a ciência naturalmente provê, afasta-se cautelosamente de qualquer estrutura totalitária de pensamento, de qualquer sistema de conhecimento simplista, e mais ainda, de qualquer discurso restritivo ao pensamento e à crítica. Ao contrário, engaja-se em um projeto permanente de construção do pensamento crítico (e de sua divulgação) com viés coletivo e não individual ou pessoal. Assim, as visões de mundo providas pela ciência têm uma tendência natural de levar seus praticantes a uma visão mais altruísta, pelo menos muito clara na minha experiência pessoal que confirma a história até onde a conheço.

Quando observo agentes da ciência com suas respectivas titulações aproximarem-se de correntes políticas que reúnem as clássicas características do fascismo, sinto um imenso desgosto pelo fracasso que a academia teve em identificar essas pessoas que não estão prontas para a ciência. Há muito tempo que critico as pós-graduações feitas por gente muito jovem. Acredito mesmo que formação científica exige alguma maturidade, um critério que reconheço difícil de aplicar. E em um círculo vicioso, sabemos o quanto um mestrado e um doutorado são capazes de consumir um jovem estudante e de isolá-lo de diversas vivências de realidade, especialmente a política, transformando assim a carreira acadêmica em uma via de reafirmação de certos valores impregnados nas suas estruturas que abrem o apetite para a sede de poder em sua forma bruta.

No contexto atual brasileiro, temos um fertilíssimo terreno para a análise destes fenômenos sobre os quais porcurei trazer aqui alguns elementos de reflexão. Que no meu sentimento, deixam claro que se a ciência não tem um “lado” como aquele do ideal partidário, ela fundamenta sim uma visão de mundo que predomina nas sociedades verdadeiramente democráticas ou que assim desejam ser. Pelo menos, no nosso caso particular, uma visão profunda sobre nosso texto constitucional deixa claro que a ciência é um valor em si mesmo fortemente introjetada nos valores do constituinte de 1988, e que no cenário atual, aglutina-se fortemente contra a força de oposição aos seus valores que atua com a técnica da destruição da linguagem, algo que deveria alarmar desesperadamente qualquer pessoa com mínima formação científica, o que claramente não ocorre com alguns, que diligentemente são atraídos ao poder atual.

Assim, se a ciência não veio ao mundo para constituir-se explicitamente como um “lado”, as circunstâncias momentâneas do Brasil a obrigam a assumir um, sob pena do seu próprio fim.

NELSON NISENBAUM

O indivíduo e o coletivo

Em Israel 41% da população já recebeu pelo menos uma dose da vacina, sendo que alguns ainda estão por a segunda 21 dias depois. Para cada um dos que tomaram a primeira dose, a segunda fica automaticamente guardada de maneira a não faltar. Se continuar neste ritmo até o final de Março toda a população poderia estar vacinada.

No entanto, aqui, como em muitos outros lugares do mundo, existem aqueles que se negam a tomar a vacina. Alguns religiosos ortodoxos por orientação de seus rabinos, alguns da comunidade árabe por desconfiarem de tudo que é dado pelo governo, e muitos negacionistas.

Semana que vem o governo quer estudar uma maneira de aplicar o Passaporte Verde. Seria um documento que permitiria aos vacinados entrada em Shoppings, restaurantes, cinemas, casas de espetáculo, academias etc. Ainda por decidirem, se instaurou uma discussão ética. Pessoas que não querem se vacinar, cidadãos do país com todos os direitos e deveres podem ser discriminados?

Uma pessoa que não se vacina para o Covid-19, não coloca apenas a sua vida em risco. Ele também pode levar o vírus para outros que ainda aguardam o chamado para se vacinarem, e para aqueles que por razões médicas não podem fazê-lo. Cada pessoa que tem os sintomas graves da doença ocupa um leito de UTI que poderia estar sendo utilizado para salvar a vida de cidadãos acometidos de outras enfermidades. Pior, pode morrer.

O negacionista, geralmente está dando razão a uma mensagem do WhatsApp que recebeu onde constava algum estudo sinistro de médicos sem nomes, de uma instituição não mencionada, afirmando que tomar a vacina causa algum dano irreparável. Ele não só acredita cegamente na informação, como a divulga. Somados, os que não querem tomar vacina hoje representam 1,5 milhão de israelenses. É muita gente.

Em números proporcionais é o que está acontecendo no mundo todo. As Fake News estão se transformando em crime contra a humanidade. Se antes tinham propósitos políticos para detratar um político ou um partido, hoje municiam uma onde de pessoas que dão razão a todo tipo de informação sem base científica alguma como a Terra Plana. No entanto, sua determinação pode levar o vírus a permanecer por mais tempo entre nós, levando a novas mutações que podem causar a morte de milhares de pessoas.

Daí a importância de se criminalizar as Fake News. Espalhar notícias falsas precisa ter uma pena de multa e detenção do propagador. Sem medidas sérias o custo para a sociedade será muito maior. A impunidade é o principal combustível delas.

Muitos sugerem  a criação de barreiras que impeçam os negacionistas de conviverem em sociedade, ou torne a vida deles insuportável. Fazer exame a cada 48 horas para poder se apresentar no trabalho, ou ter sua entrada liberada em locais públicos com o custo pago por eles, é uma delas.

Alguns sugerem medidas mais radicais, como a proibição de entrarem em locais públicos sem apresentarem o Passaporte Verde. A única permissão seria para locais que vendem comidas e remédios.

Outros propõe multas pesadas em dinheiro por dia, semana ou mês que a pessoa permanecer sem se vacinar depois de haver recebido lugar na fila.

Infelizmente o Covid-19 não ataca somente negacionistas, ele atinge a todos nós. Uma vez infectados,2% podem ir a óbito.Fora seletivo e matasse somente os que fazem pouco caso, o mundo agradeceria.

Aí está um belo tema para se discutir: numa pandemia até onde vão os direitos individuais sobre os direitos da coletividade?

Um Trump a menos

Impossível não sentir um pouco de inveja dos americanos que se livraram do Trump. E o Brasil ainda precisa aguardar dois anos, isto se um Impeachment não remover o inepto antes.

A passagem de Trump pela política, suas atitudes e como criou em torno de si um movimento de fanáticos, entre eles judeus e nazistas, supremacistas brancos e negros, antiabortistas e mulheres, heteros e LGBTs é um mistério sociológico sem explicação.

Os americanos se dividem basicamente entre dois partidos que se alternam no poder, os Republicanos e os Democratas. Não vou entrar em detalhas, mas historicamente os Democratas de hoje eram considerados os Republicanos de ontem, e os Republicanos de hoje, os Democratas de ontem. Quem quiser que leia a história.

Trump não tinha nenhuma ligação com o partido Republicano, a não ser doações financeiras. Foi capaz de tomar o partido, se tornar candidato a presidente e vencer as eleições. O cara merece algum crédito. Quem mais seria capaz de uma proeza destas?

E assim, como presidente dos EUA, e investido dos poderes que o cargo lhe confere, deu início a maneira Trump de corrigir os caminhos da américa para torná-la “grande” novamente. Sua visão de vida comercial privada se tornou a nova política dos EUA, tanto interna, como externamente.

Entre seus feitos, destruir tudo o que Obama e seus antecessores haviam deixado como legado de governo. Não vou entrar no mérito, mas o fato é que ele tirou os EUA dos acordos do Clima, do Acordo Atômico com o Iran, da OMS e de boa parte dos organismos da ONU. Chantageou países árabes para acordos diplomáticos de relações com Israel. Trump agiu na política, como na sua vida real.

Talvez, e aqui é um real talvez, por conta desta maneira de agir, ele conseguiu atrair tantos extremistas a sua volta. Ele os tratava como iguais. Seus simpatizantes jamais foram hostilizados ou desprezados, mesmo quando cometiam um crime. Com esta mensagem compreendida, não foi nada demais tentar tomar o Congresso de assalto em frente as câmaras.

O sentimento de impunidade foi uma boa motivação. Some-se a ela a crença real de que as eleições foram roubadas e de que o país será entregue aos comunistas. Pronto, a receita do impensável está pronta. Basta uma ordem, que nem precisa ser direta, pode ser em um olhar, um movimento de cabeça ou um gesto. A massa compreendeu e lá se foram para fazer história em um dia, e responderem processos no outro.

Desta vez a democracia prevaleceu, mas nem sempre é assim. O sistema democrático é frágil e precisa se resguardar. A liberdade de pensamento é uma noção democrática que exige limites. Ninguém pode usar desta máxima para destruir a democracia. Não se pode permitir um partido político que pregue a ditadura, como não se pode permitir que alguém pregue a morte dos que não comunguem com o seu pensamento.

A Liberdade de Imprensa é um pilar da democracia, mas a oligarquia de imprensa não pode existir. Ela concentra na mão de poucos o poder da informação e do acesso a ela. Imprensa Livre é aquela que obedece a normas regulatórias para evitar sua concentração nas mãos de poucos que determinam qual informação poderá ser acessada, e aquela que deve ser suprimida, da mesma maneira que o sistema financeiro é livre, mas não permite a concentração de negócios em setores essenciais nas mãos de uma mesma empresa.

A democracia brasileira é ainda uma criança. Está longe da maturidade e por isso nosso sistema jurídico é tão politizado. Ainda somos incapazes de lidar com questões importantes sem que tudo acabe judicializado, o que faz com que, ironicamente falando, o Poder Judiciário se torne um poder acima da lei.

Felizmente, com todos os seus defeitos, a democracia permite que de alguma maneira, mesmo aquele que foi escolhido pelas urnas para presidir o país, possa ser processado e na forma legal, afastado do poder. Não é simples, mas vamos chegar lá.

O estrategista do mal

Entre momentos de insônia e pesadelos, eu e mais alguns bilhões de pessoas pelo mundo vivemos horas de extrema tensão na noite de quarta, 6, para quinta-feira, 7 de janeiro de 2021. No meu devaneio, em primeiro plano, as imagens do Capitólio, em Washington, desfilavam a uma velocidade estonteante, sobrepondo-se umas às outras, para desembocar nos porões da ditadura civil-militar brasileira, onde as cenas de tortura deixaram Vlado e tantos outros sem vida.

Pela manhã, sonado, soube da morte de quatro pessoas na invasão do Congresso americano. Dois dias depois, somadas à de um policial. Que insanidade!

Por que milhares, senão milhões de pessoas, seguem cegamente um maluco capaz de por fogo no circo, sem perceber que este nunca olhou para além de seu próprio umbigo?

Trump, o homem dos cabelos platinados, não enterrou a democracia americana, mas ao apagar as luzes de seu mandato mostrou quão frágil ela é. Aquela democracia liberal, que muitos acreditavam capaz de superar todos os obstáculos graças à força de suas instituições, mostrou ser um gigante de pés de barro.

A invasão do seu símbolo máximo, o Congresso, se deu aos olhos do planeta, estarrecido, deixando gravada a imagem de um policial correndo pelas escadarias para fugir dos extremistas alucinados, sob ordens do fascista mor, que talvez acreditasse estar ali revertendo uma fraude que nunca existiu.

O mundo reagiu, se indignou, se deu conta de que, como disse George Walker Bush (aquele que inventou armas de destruição em massa para justificar o capítulo 2 da guerra do Iraque), os Estados Unidos tinham se transformado numa república de bananas.

Os chefes de Estado e de Governo se manifestaram contra aqueles atos de suicídio político. Todos denunciaram, salvo um, o amigo capitão, que revelou sua fidelidade ao amor descoberto tardiamente. Lembram-se do I love you?

Em se tratando do presidente brasileiro, nunca se sabe se agiu “só” porque é louco, ignorante, fascista, ou se foi também por estratégia política. Com ele, tudo se mistura. Não há dúvida de que foi tudo ao mesmo tempo.

Logo após o episódio do Capitólio, o ocupante do Alvorada veio à público ameaçar a idoneidade das presidenciais de 2022. Disse que se o voto eletrônico for mantido, o Brasil viverá cenas ainda piores que as vistas em Washington. Em termos de sofisma foi um golpe de mestre. Bolsonaro sempre criticou o sistema eleitoral, alegando a possibilidade de fraude, muito embora todos os especialistas o considerem muito mais seguro que as cédulas. Se ele não for reeleito, como esperam todos os democratas, alegará manipulação de hackers a serviço dos comunistas. Se vingar o voto em papel, a fraude será maciça (do seu próprio campo) e ele terá razões de sobra para reclamar a nulidade do voto.

Portanto, sairá vencedor dessa batalha.

O x da questão é que o Brasil não é os Estados Unidos, nossas instituições são muito mais frágeis que as norte-americanas, sem falar das forças armadas, que servem a Constituição.

Vale aqui citar a atitude do chefe do Estado Maior das Forças Armadas dos Estados Unidos, Mark Milley, que pediu desculpas públicas por ter participado de uma encenação polêmica do presidente Donald Trump, ocorrida no dia 1º de junho de 2020. “Eu não devia estar lá; disse o general.  Minha presença naquele momento e por todo o ambiente criado deram uma percepção de que os militares estavam envolvidos em política doméstica.”

Milley, pediu desculpas por participar de uma caminhada, ao lado do presidente Donald Trump, da Casa Branca até a Praça Lafayette, onde o republicano tirou uma foto com a Bíblia em frente a uma igreja que tinha sido danificada por manifestantes durante atos antirracismo pela morte de George Floyd, asfixiado por um policial branco, em Minneapolis.

Essa atitude mostrou que as forças armadas americanas pouco têm a ver com as brasileiras.

Atualmente, mais de 3 mil militares ocupam cargos no primeiro, segundo e terceiro escalões do governo, em lugar de pessoas muito mais qualificadas para as funções. Na verdade o Brasil é governado por uma comunidade civil-militar, exatamente como durante os anos negros da ditadura.

A liderança das nossas forças armadas, quando questionada, afirma que os militares respeitam e respeitarão a Constituição.  Resposta vista como a garantia de que não teremos um golpe militar. No entanto, em nenhum momento, foi dito que as forças armadas intervirão para evitar um eventual putsch. O militares se negam a falar sobre o assunto.

Além disso é útil lembrar que o capitão tem em mãos o controle de fato da Polícia Militar em vários Estados, da Polícia Federal, das forças armadas, dependentes do Ministério da Defesa, dos militares de pijama e da ativa membros do governo (que não vão querer perder a mamata), dos Serviços de Informação e dos milicianos próximos do 01, 02 e 03.

Isso para dizer que Bolsonaro, caso perca a eleição, apelará para as acusações de fraude e chamará para as ruas os seus torcedores fanatizados, que por muito menos já quiseram invadir o Congresso. Ao contrário de Trump no entanto, estará em situação de força para tentar o golpe. Não tenho dúvidas de que fará o impossível para permanecer na presidência. A roupa de ditador lhe cai como uma luva. Caso não consiga, irá negociar a anistia para todos os crimes que ele, sua família e acólitos cometeram.

A estratégia está montada ou, melhor dizendo, já está em andamento. Definitivamente, Jair Messias Bolsonaro não é apenas um louco, um ignorante, um fascista. É  também um estrategista do mal.

 

 

 

Uma democracia em cheque

Quem tivesse ligado a TV e visto as cenas da invasão do Congresso Americano, desavisado pensaria se tratar de um filme ou uma série. Como acreditar se tratar de cenas reais em um país onde as agencias de segurança costumam funcionar.

Não somente eram cenas reais, como foram comandadas pelo presidente do país. O lunático instigou seus seguidores a tomarem o Congresso para impedir que o vencedor das eleições presidenciais fosse declarado presidente.

Entre os invasores, grupos de judeus e nazistas cuja idolatria a Trump é capaz de  superar suas diferenças. Supremacistas com a bandeira confederada receberam juras de amor do presidente dos EUA. Racistas transitaram pelos corredores atacando os poucos policiais que tentaram resistir. Sem dúvida alguma, foi um caos promovido por diferentes facções da direita radical americana irmanadas em defesa de seu mestre.

Vale ressaltar que uma manifestação de “Vidas Negras Importam” que passou próxima ao Congresso há pouco tempo, assistiu a um Congresso protegido por centenas de agentes de polícia. Claro que neste caso não eram brancos comportados e civilizados que se manifestavam, uma invasão podia acontecer e foi preciso uma ação preventiva. Bem diferente de quando o presidente do país faz uma manifestação de desagravo ao resultado da eleição. (usei de sarcasmo para quem não entendeu).

A chamada democracia americana é uma ilusão. Enquanto no mundo inteiro o vencedor de uma eleição é aquele que recebe mais votos, lá o presidente é eleito por delegados de estados. Na verdade o eleitor está participando de uma pseudodemocracia, o seu voto se somado a maioria nem sempre elege o presidente. Trump se elegeu assim. Hillary teve mais votos, mas menos delegados.

Trump não é o político tradicional, nunca foi. É um homem de negócios, um empreendedor, empresário que sempre usou do poder do dinheiro para prevalecer. Péssimo pagador, deve milhões ao fisco americano e corre sério risco de parar na cadeia quando deixar a Casa Branca.

Na política usou das mesmas táticas para impor seus desejos. Chantageou meio mundo árabe para aceitarem relações diplomáticas com Israel em troca de armas. Retirou os EUA do Acordo do Clima, impôs sanções econômicas ao Irã depois de se retirar unilateralmente do acordo atômico que o país cumpria.

Com a China teve seus momentos de amor e ódio. Ultimamente, que se diga, muito mais ódio. Tentou dobrar o país de todas as maneiras. Rompeu acordos comerciais, impôs sanções, aumentou impostos de importação de seus produtos, obrigou empresas americanas a suspenderem suas atividades na China, tentou retirar as companhias chinesas do 5G da telefonia celular etc.

Teve seus momentos na TV. Participou do Reality The Apprentice (O Aprendiz). Nele um grupo de pessoas precisando desesperadamente de um emprego, precisam agradar Trump, o chefe, para permanecerem no programa. A cada semana, o chefe vai eliminando participantes até que resta um, aquele que recebe o emprego. Para chegar lá, precisou cumprir diversas tarefas, mas acima de tudo, teve que passar por cima dos demais competidores. Nem sempre venceu o mais capaz, mas sempre o que mais agradou o chefe.

Esta figura sinistra, filho da meritocracia, um capitalista sagaz, tomou o Partido republicano e se elegeu presidente. Soube jogar de acordo com as regras e montou uma estratégia para ter mais delegados no colégio eleitoral, não para ter mais votos. Deu certo e o mundo teve de conviver por quatro anos com ele.

De temperamento difícil, mimado como uma criança, não conheceu adversários no seu partido. Mesmo entre seus apoiadores semeou discórdias e sempre que contrariado não hesitou em despedi-los. A lista é longa. Trump conseguiu ter seu nome marcado para sempre. Para seus apoiadores um Deus na Terra, para seus opositores, um demônio.

Os EUA tremeram nesta semana. Boa parte das lideranças políticas temem pelas instituições, acham que Trump continua sendo um perigo para a democracia faltando poucos dias para o término de seu mandato. Uns sugerem o inédito segundo Impeachment, outros o uso da Emenda 25 que permitiria seu afastamento com o vice assumindo a presidência. Todos parecem compreender o perigo que ele continua representando.

Trump foi um ídolo para outros países também. Bolsonaro, por exemplo, está convencido de que as eleições americanas foram fraudadas em favor dos democratas. Que o Covid-19 foi criado em um laboratório chinês para que pudessem vender uma vacina com nanorobôs que nos transformaria em comunistas.

A queda desta figura nefasta é um alívio para todo o mundo. As lições sobre como ele chegou ao poder precisam ser aprendidas para que nunca mais volte a acontecer. Se a democracia americana não mudar, o fascismo vai voltar com mais força e desta vez para ficar. Eles com certeza aprenderam a lição de que eleições não são um bom negócio.

 

A agenda do caos

Em um dos mais estarrecedores episódios testemunhados por este autor, nesta semana o presidente Donald Trump foi exposto em uma mais que constrangedora gravação de ligação telefônica com o secretário de estado do estado da Geórgia, nos EUA, onde tentava convencê-lo sob os mais nefastos argumentos a “arrumar” 11780 votos a favor dele, de modo que, usando de “pessoas dotadas de vontade de resolver o problema, e como excelente advogado que é”, providenciasse uma fraude eleitoral que lhe fosse favorável.

Esta iniciativa, se é tão surpreendente enquanto atitude de um agente de estado, em absoluto não surpreende quem conhece a vida íntima das empresas privadas, estas tão protegidas por legislações que garantem o sigilo de negócios, a privacidade de pessoas físicas e jurídicas, o sigilo bancário, telefônico, eletrônico, e onde os trituradores de papel devolvem a verdade à poeira cósmica.

Se algo de bom pode sair do episódio é a clara e cristalina leitura do que é a vida cotidiana nos intestinos das grandes corporações das quais Trump é um perfeito representante, seja do ponto de vista técnico, ético e comportamental como político. Em síntese, o episódio revela uma verdade totalmente arraigada nessas instituições que viram na candidatura de Trump a sua maior oportunidade de tomada do estado que talvez o mundo já tenha presenciado.

Mas nada disso seria suficiente para os agentes de poder econômico e poder de fato que irromperam no cenário Reagan/Tatcher, que derrotados politicamente em alguns contextos europeus e sulamericanos foram levados à radicalização por um novo projeto de poder, este já passando distante do campo democrático tradicional.

Talvez pelo sucesso da democratização da internet e da informação, pelo qual maiores parcelas da sociedade tornaram-se conscientes das ameaças do neoliberalismo, os agentes do poder passaram a adotar uma nova estratégia, desta vez mais profunda, cruel, vingativa e perversa, pela qual agiriam para desorganizar os sistemas de informação (e formação) através da propagação persistente e intensa das fake news e das teorias conspiratórias com o claro objetivo de corromper a linguagem, o senso de realidade, de ciência, de democracia e de cultura institucional de modo a atingir em cheio a maior força de estabilidade das sociedades: os laços de confiança entre os indivíduos e entre os indivíduos e as instituições políticas, sociais, científicas e culturais (se é que podemos segmentá-las desta forma).

Ainda na agenda estadunidense, hoje novamente agudizada pelos choques entre fascistas e as forças de segurança e representação no Congresso (Capitólio), vimos hoje novamente a resultante dessas rupturas de laços de confiança daquela sociedade, tragicamente capitaneada pelo líder da nação ainda no exercício do cargo, o que expos à vergonha mundial a nação tida como a mais poderosa da Terra.

Não é implausível que de alguma forma esses fenômenos se reproduzam no Brasil em futuro próximo, dado que diversos ensaios de movimentos semelhantes já foram levados a cabo, não obstante a ação incisiva de alguns agentes de algumas instituições democráticas brasileiras que ainda operam no campo da razão e da lei.

O mais importante e sensível no momento e que se apreenda, de uma vez por todas, a ideia de que existe uma agenda do caos em operação e progresso no mundo, e que as instituições correm real perigo. A vitória de Biden nos EUA e uma eventual derrota de Bolsonaro em 2022 (ou antes) não trará soluções pelos fatos em si mesmos. É fundamental uma agenda sociopolítica especificamente desenhada e executada como contraposição à agenda de rupturas que fundamenta todo o processo que levou Trump e Bolsonaro ao poder (e ao Brexit na Inglaterra) e que ainda permanecerá arraigada profundamente à realidade visível nos planos mais imediatos da realidade.

Tempos difíceis e imprevisíveis pela frente.