Os natimortos

Os natimortos

Não precisa ser um anti-heroi muito inusitado para estar saindo da cama às 5 e uns palitos da madrugada para trabalhar. Pasme, que tem um bocado de profissionais formados e estatisticamente de classe média que o fazem rotineiramente. Há professores, aqueles unsung heroes da invisibilidade do cotidiano, que apenas com morar a mais de quarenta minutos do local de trabalho e sem carro, estão tomando o café da manhã enquanto eu digito aqui chupando chimarrão. Sei bem disso, pois meus dois primeiros anos na metrópole foram de levantar às 5:15 e sair de casa meia hora mais tarde, andar quase meia hora entre sem-tetos na calçada e pegar o busão na República para Vila Sônia. E eu não saio da média muito mais do que você que está lendo a uma hora mais razoável no aconchego caseiro da pandemia.

O que diferencia a gente de anti-herois e anti-vilões é a tenacidade falta de jeito para a façanha cotidiana. Ah, sim, senhora! Anti-vilões, aka o governo que temos, seus eleitores e seus ainda defensores e passadores de pano diversos, exibem a rara capacidade de destruir lógica e vida em proporções similares sem propor-se a fazê-lo de praxe.

São os Camargos da vida (tanto o Sérgio como o Zezé), que com ações, omissões e opiniões soterram a verdade e a justiça a cada trapalhada; os Neymares e Fulanos da vida, respectivamente com e sem nome, que em similares proporções carecem de consciência de classe e origem e invariavelmente passam pano para seus verdugos. Tantos!

E tem também os anti-figurantes. Eu particularmente venho me deliciando em reverso com estes de há algum tempo a esta parte. Defensores de uma democracia apenas formal, como aqueles orgulhosos centristas que confundem centro com equilíbrio e imparcialidade. Alto-falantes do combate à polarização. Doadores de espaço e tempo para a dúvida razoável sobre a ineficácia da hidroxicloroquina. Propagadores onanísticos de emojis de gratidão burguesa no deck do Titanic Tupiniquim. Saboreio-me o beiço envenenado.

Brandir a dignidade humana não deveria ser o inusitado, mesdames et messieurs,  mas sim apenas o exercício da nossa humanidade concretizada; quanto mais nós que vivemos cheios de mordomias. E ainda assim, calamos sob clichês midiáticos, ficamos satisfeitos com migalhas de reclamações padronizadas, dormimos tranquilamente aquecidos de delegação apartidária terceirizada.

O sabor da falta de ação cidadã libertária concreta amarga cada entardecer de quem vos escreve.

 

O ódio à Constituição Federal de 1988

O ódio à Constituição Federal de 1988

O Brasil está em sua oitava Constituição (isso mesmo, oitava!) sendo que a primeira é de 1824. De todas as Constituições, as únicas duas realmente democráticas são a de 1946 e, esta, a de 1988. Esse fenômeno revela algumas coisas sobre o Brasil, principalmente que o brasileiro não é afeito à Constituição.

Lembro-me bem, no período da Constituinte, 1987, de como alguns grupos sociais, entre os quais, a TFP, tratava o projeto da nova Constituição com desprezo. Houve muitos embates, mas prevaleceu o texto que, diferentemente de todas as sete Constituições anteriores, estabeleceu como projeto o Estado Democrático de Direito, os Direitos Fundamentais e uma República plural, laica, diversa, impondo-se o equilíbrio entre a livre iniciativa e os valores sociais do trabalho, entre a propriedade e a função social da propriedade, entre homens e mulheres e, ainda, entre Núcleos familiares diversos.

Para uma sociedade que havia criminalizado o pensamento de Esquerda, as lutas sociais, mormente dos trabalhadores, a diversidade sexual e o pluralismo religioso, realmente pareceu odiosa a nova Constituição. A Constituição se impôs, desde o grito sonoro e perpétuo de Ulisses Guimarães, por  ocasião de sua promulgação: “Temos ódio à ditadura. Ódio e nojo”, e continuou a se impor, propiciando a aprovação de uma série de leis de inclusão social, defesa das minorias, combate às desigualdades e ao racismo. É um processo irresistível democrático que vai fortalecendo os alicerces do Estado de Direito.

Mas, o Brasil real, formado, nos seus primeiros quatrocentos anos, por comerciantes portugueses (chamados de brasil-eiros), brancos degredados nascidos nestas terras (chamados pejorativamente de brasilianos, embora este fosse o nome correto da nacionalidade) e os povos originais da terra (brasilienses) e, depois, pelos diversos povos africanos escravizados, nunca foi exatamente um encontro plural, solidário e efetivo de povos. Os brasil(eiros) nunca aceitaram com tranquilidade a presença ou a parceria com os outros grupos. A questão da escravidão, e criminalização das culturas africanas, expõe uma das feridas ainda não cicatrizadas.

A classe dominante (e nem uso a expressão “elite”, pois há pouca elite no exato sentido do termo) manteve, com base em uma religiosidade excludente, a separação absoluta, o desprezo absoluto e o espírito de exploração de quaisquer que lhe oferecessem obstáculo ou competição. Isso ocorreu durante todo o século XX em relação aos italianos e, nos últimos anos, em relação às políticas públicas de inclusão.

Trata-se de uma classe, ou grupo disforme, que não apenas domina, e quer manter-se dominando, mas que também odeia, odeia tudo e todos, odeia quaisquer direitos ao “outro”, ao “diferente”. É uma classe que nunca engoliu a Constituição cidadã e seus direitos fundamentais que elevou toda e qualquer pessoa à condição de dignidade, de igualdade, de titular de direitos fundamentais. Trata-se de um grupo que jamais quis ver o “outro” nos mesmos lugares, aeroportos, universidades etc.

A classe dominante (que não é elite, isto é, não é a porção mais evoluída ou avançada da sociedade) sempre quis um governo para si, não sobre si; um governo que pudesse ser conduzido, não conduzir, que ficasse inerte, não que promovesse aqueles direitos previstos no texto constitucional. Governos que implementaram o projeto constitucional, de início (e em certa medida), Fernando Henrique Cardoso (daquele originário PSDB) e, depois, com maior expressão, Lula e Dilma, passaram a ser odiados pela classe dominante. Não porque tivessem sido “comunistas”, já que nunca houve qualquer brisa comunista nos governos brasileiros. FHC, Lula e Dilma foram governos constitucionais, aquele mais liberal; estes mais sociais, mas todos eles constitucionais. Nenhum comunista.

Mas, as bandeiras da Esquerda ou da Social-democracia, tais como igualdade entre homem e mulher, igualdade de gênero, diversidade sexual, justiça social, inclusão social, acesso à Justiça, emancipação dos deficientes (físicos e mentais) da discriminação e isolamento sociais, os direitos sociais e trabalhistas, a educação pública, o reconhecimento de núcleos familiares diversos, a proteção ambiental etc, acabaram por se identificarem com os primeiros dezessete artigos da Constituição.

A Constituição Federal de 1988 veio sendo realizada pouco a pouco ao longe desses anos. Isso não tranquilizou a sociedade, ao contrário, fez despertar todos os monstros, os mais odiosos e perversos, até o ponto de se converter em antipetismo, lavajatismo e bolsonarismo.

Atacar o PT, aplaudir os desmandos e inconstitucionalidades da Lava-Jato e, finalmente, elevar um miliciano à condição de mito presidencial, são sintomas do ódio aos direitos constitucionais, ódio aos direitos sociais, ódio à inclusão, ódio às Universidades públicas.

A derradeira expressão do ódio da classe dominante que sempre acreditou que seus eleitos jamais tocariam nela, pois se considera intocável, soberana, especial, foi escolher o pior dos piores, não para ser seu Presidente. Não. Esta classe não se submete a governos. Mas, para governar com o todo ódio bolsonarista aos “outros”. O ódio pela Constituição, a inimiga da classe dominante, porque a mesma Constituição inseriu, com dignidade, todos os membros da sociedade (ainda que isso não seja, ainda, uma verdade real). Odeia-se a Constituição porque ela é cidadã; odeia-se a Constituição porque ela coloca em pé de igualdade homens e mulheres, gays e lésbicas, pobres e ricos, negros e brancos, umbandistas e candomblecistas, nacionais e migrantes, empregadores e empregados. Sim, a classe dominante que chamava os trabalhadores de “farofeiros” quando os mesmos se dirigiam às praias, agora deve “suportá-los” nos espaços dos aeroportos.

A classe que odeia a Constituição, que se considera intocável, deu ao Bolsonaro uma missão, não sobre seus interesses ou sobre suas vidas, mas, para impingir dor e dissabor aos “outros”. A missão, sabida, era: fira de morte a “negritude”; fira de morte os “trabalhadores”; fira de morte os gays e lésbicas; fira de morte as reservas florestais; fira de morte a educação; impeça o ingresso do pobre e miserável às Escolas e Universidades; impeça o acesso à Saúde; acabe com a alegria dos “outros” e, finalmente, bata forte contra a Democracia (porque a classe dominante não quer democracia nem com ela se dá bem) e bata forte contra a Constituição Federal porque foi ela, a “maldita” Constituição Federal, o odiosa Constituição Federal, que estabeleceu o projeto do odioso Estado Democrático de Direito.

Por que votamos em Hitler, digo Bolsonaro

Por que votamos em Hitler, digo Bolsonaro

Existem muitas razões para explicar como Bolsonaro chegou ao poder. Afinal de contas o Brasil tinha experimentado um crescimento econômico, saído do mapa da fome, estava livre de dívidas internacionais, emprestava dinheiro ao FMI, o petróleo descoberto no Pré-Sal garantia saúde e educação para as próximas gerações, havia pleno emprego e milhões de brasileiros ascendiam socialmente.

Em primeiro lugar, os brasileiros tinham perdido a fé no sistema político da época. A jovem democracia não trouxera os benefícios que muitos esperavam. Muitos sentiam raiva dos corruptos cujas políticas forjaram uma crise econômica. Buscava-se um novo rosto. Um antipolítico promoveria mudanças de verdade. Muitos dos eleitores de Bolsonaro ficaram incomodados com seu radicalismo, mas os partidos estabelecidos não pareciam oferecer boas alternativas.

Em segundo lugar, Bolsonaro sabia como usar a mídia para seus propósitos. Contrastando o discurso burocrático da maioria dos outros políticos, Bolsonaro  usava um linguajar simples, espalhava fake-news e os jornais adoravam sugerir que muito do que ele dizia era absurdo. Ele era politicamente incorreto de propósito, o que o tornava mais autêntico aos olhos dos eleitores. Cada fala era um espetáculo. Diferentemente dos outros políticos, ele foi recebido com aplausos de pé onde quer que fosse, empolgando as multidões.

Em terceiro lugar, muitos brasileiros sentiram que seu país sofria com uma crise moral, e Bolsonaro prometeu uma restauração. Pessoas religiosas, sobretudo, ficaram horrorizadas com a arte moderna e os costumes culturais progressistas que estavam em voga com as mulheres se tornando cada vez mais independentes e a comunidade LGBT ganhando visibilidade. Os conservadores sonhavam com restabelecer a antiga ordem. Os conselheiros de Bolsonaro eram todos homens heterossexuais brancos. As mulheres, ele argumentou, deveriam se limitar a administrar a casa e ter filhos. Homens inseguros podiam, de vez em quando, subverter a ordem para reafirmarem sua masculinidade.

Em quarto lugar, apesar de Bolsonaro fazer declarações ultrajantes – como a de que negros deveriam ter seu peso medido em arrobas e gays deveriam ser mortos – muitos pensavam que ele só queria chocar as pessoas. Muitos brasileiros que tinham amigos gays ou negros votaram em Bolsonaro, confiantes de que ele nunca implementaria suas promessas. Simplista, inexperiente e muitas vezes tão esdrúxulo, que até mesmo seus concorrentes riam dele, Bolsonaro poderia ser controlado por conselheiros mais experientes, ou ele logo deixaria a política. Afinal, ele precisava de partidos tradicionais para governar.

Em quinto, Bolsonaro ofereceu soluções simplistas que, à primeira vista, faziam sentido para todos. O problema do crime, argumentava, poderia ser resolvido aplicando a pena de morte e aumentando as sentenças de prisão. Problemas econômicos, segundo ele, eram causados por atores externos e conspiradores comunistas, seu bode expiatório favorito. Os brasileiros “verdadeiros” não deviam se culpar por nada. Tudo foi embalado em slogans fáceis de lembrar: “Brasil acima de tudo”, “O Trabalho Liberta”, “Um povo, uma nação, um líder.”

Em sexto lugar, as elites logo aderiram a Bolsonaro porque ele prometeu — e implementou — um atraente regime clientelista, cleptocrata, que beneficiou grupos de interesses especiais. Os industriais ganharam contratos suculentos, que os fizeram ignorar as tendências fascistas de Bolsonaro.

Em sétimo, mesmo antes da eleição de 2018, falar contra Bolsonaro tornou-se cada vez mais perigoso. Jovens agressivos, que o apoiavam, ameaçavam verbalmente os oponentes.  Muitos brasileiros que não apoiavam o então candidato preferiam ficar calados para evitar problemas com os bolsonaristas.

Três anos depois, com mais de 500 mil mortos pela Covid-19,  muitos brasileiros que votaram em Bolsonaro disseram a si mesmos que não tinham ideia de que ele traria tanta miséria ao Brasil. “Se soubesse que ele trataria a pandemia desta maneira, eu nunca teria votado nele ”, contou-me um amigo da minha família. “Mas como você pode dizer isso, considerando que Bolsonaro falou publicamente  que era preciso matar uns 30 mil antes da campanha?”, perguntei. “Eu achava que ele era pouco mais que um palhaço, um trapaceiro”, respondeu minha avó, cujo irmão morreu de Covid.

De fato, uma análise mais objetiva mostra que, justamente quando era mais necessário defender a democracia, os brasileiros caíram na tentação fácil de um demagogo patético que fornecia uma falsa sensação de segurança e muito poucas propostas concretas de como lidar com os problemas do país. Diferentemente do que se sabe hoje em dia, Bolsonaro não era um gênio. Não passava de um charlatão oportunista que identificou e explorou uma profunda insegurança na sociedade brasileira.

Bolsonaro não chegou ao poder porque todos os brasileiros eram bolsonaristas ou homofóbicos, mas porque muitas pessoas razoáveis fizeram vista grossa. O mal se estabeleceu na vida cotidiana porque as pessoas eram incapazes ou sem vontade de reconhecê-lo ou denunciá-lo, disseminando-se entre os brasileiros porque o povo estava disposto a minimizá-lo. Antes de muitos perceberem o que a maquinaria fascista do bolsonarismo estava fazendo, ele já não podia mais ser contido. Era tarde demais.

Este artigo é um “plágio” de uma publicação do El País de outubro de 2018, assinada por Oliver Stuenkel, intitulada “Por que votamos em Hitler“. Eu apenas fiz a adaptação com a intenção de trazer ao nosso cenário atual que dispensa maiores explicações.

Recomendo muito a leitura do artigo original.

 

Bolsonaro tua hora está chegando

O que mais se pode dizer sobre Bolsonaro que ainda não foi dito? As notícias e publicações começam a se tornar repetitivas, praticamente todos concordam no desastre de sua presidência, na intimidade com as milícias, na inépcia para o cargo, na incapacidade de gerir crises, na incoerência de seus pronunciamentos, enfim um sujeito que perdeu o respeito dos brasileiros.

Por muito menos do que isto, dois presidentes foram afastados, Collor e Dilma. Ambos sofreram processos de Impeachment quando perderam o apoio político que os sustentavam. As razões alegadas eram mera razão para abertura do processo. Condenados já estavam desde o dia Zero. Afastar um presidente no Brasil obedece um processo teatral, não exige a comprovação do cometimento de nenhum crime.

Bolsonaro não teve ainda a abertura de um processo contra ele por que ainda conta com apoio político, crimes comprovados não faltam. A lista de razões para um Impeachment é longa e todo dia se somam novos pedidos. Já faltam gavetas para guardar tanto papel.

Pelo andar da carruagem, não se espera que ele deixe o cargo pela porta da humilhação. Talvez a próxima eleição em 2022 seja a única via de retirar do cargo máximo da nação o pior presidente da história do Brasil. Isto se houverem eleições já que o flerte com as forças armadas segue de vento em popa.

A sociedade brasileira que elegeu Bolsonaro está dividia. Existem os que votaram contra e os que votaram a favor. Entre estes últimos, os que mantém sua adoração e os arrependidos. Neste grupo os que dizem agora votar em Lula e os que dizem votar em qualquer um, menos nos dois prováveis nomes em um eventual segundo turno.

Desde a última eleição que falo em uma Frente Ampla. Aqui em Israel foi o que aconteceu depois das últimas eleições. Os partidos que compõe o novo governo concorreram de maneira independente, mas o resultado mostrou que uma união da esquerda, centro e direita de partidos anti-Netanyahu era possível. Foi graças a perseverança e a capacidade de compreender o momento histórico que seus líderes foram capazes de chegar a um acordo para formar um governo sem o Likud e sem os partidos religiosos.

Depois de 12 anos com um fascista no poder, Israel respira novos ares. Quem está dizendo que o novo primeiro ministro é um extremista de direita e trocamos alhos por bugalhos, não entende nada de política, menos ainda da política israelense. O que acaba de acontecer aqui é histórico em vários sentidos e deve servir de exemplo para o Brasil. Forças políticas antagônicas podem se unir em nome do bem maior, relevar suas ambições ideológicas para que o país possa reconhecer que é possível ser governado por outro líder.

Existe uma geração que não conheceu outro primeiro-ministro que não fosse Netanyahu. Seus seguidores estão em pânico, inconformados. Para muitos deles a ficha ainda não caiu e sua família ainda segue morando na residência destinada ao primeiro-ministro em exercício. Ainda repetem para quem quiser escutar que tiveram a eleição roubada e que vão voltar em breve. Trump deixou discípulos por todo lado.

Os americanos se livraram de Trump. Nós em Israel nos livramos de Netanyahu, falta os brasileiros se livrarem de Bolsonaro. A eleição americana deixou uma lição, o mesmo aqui em Israel. É preciso aprender com elas e escolher o melhor caminho para se livrar desta chaga.

As manifestações, como a programada para este sábado dia 19, são muito importantes e precisam crescer cada vez mais. As entidades civis e os partidos políticos de oposição a Bolsonaro precisam estar afinados para levar cada vez mais manifestantes as ruas. Cada vez ter mais cidades participando e mostrando que o fim de Bolsonaro está próximo e é apenas uma questão de tempo.

Meu amigo judeu

Meu amigo judeu

Todo antissemita tem um amigo judeu. É uma característica deles. Se dizem contra o Estado Nazista de Israel, contra os judeus que lá vivem, são sempre antissionistas fervorosos. Os de esquerda em especial não sabem que foi graças as armas fornecidas pela Checoslováquia, um satélite comunista da então União Soviética, que Israel pode vencer a guerra da Independência. Mas isto já é outra história.

Mal acabou mais um conflito entre Israel e Gaza e novamente os antissemitas de plantão fizeram a festa carregando consigo os que de boa fé apoiam um Estado Palestino. Foram 219 mortos em Gaza e 10 em Israel, o suficiente para acusar o Estado Sionista de genocídio. O fato de que desta vez tudo explodiu com o lançamento de foguetes contra Jerusalém, é apenas um detalhe. Que o conflito interessava politicamente o atual governo israelense e o Hamas, outro mero detalhe.

Vejamos entretanto o que está acontecendo no mundo para se ter uma ideia da desproporção dos ataques que inundaram o Twitter com a hashtag  #hitlertinharazão. Sim, muita gente de esquerda que se diz apenas antissionista, ajudou a subir esta hashtag.

De acordo com o Programa Mundial de Alimentos, PMA da ONU, Mais de 31 milhões de pessoas devem enfrentar insegurança alimentar na África Ocidental e Central. Ela pede uma ação imediata para evitar que a falta de comida cause uma situação de catástrofe

A agência alerta que a temporada de escassez vai de junho a agosto deste ano, antes da próxima colheita. Vocês sabiam disso? Estão ajudando a evitar a fome deste contingente humano?

Ainda na África, centenas de moçambicanos estão tentando escapar da violência dos recentes ataques de grupos armados extremistas islâmicos, em Palma. Eles estão encontrando abrigos temporários com apoio do governo de Moçambique, da ONU e parceiros internacionais.

A Organização Internacional para Migrações, OIM, informou que até a quinta-feira, quase 14 mil pessoas foram cadastradas num Centro de Trânsito e Acolhimento em Pemba, capital da província de Cabo Delgado. As chegadas aumentam a cada dia. Algum antissemita, ou antissionista está apoiando os grupos extremistas islâmicos contra o governo de Moçambique?

Seis anos de conflito no Iêmen já deixaram 80% da população abaixo da linha da pobreza. O país enfrenta a maior crise humanitária do mundo: 66% da população precisa de assistência para sobreviver e 16 milhões de pessoas sofrem com a fome. O conflito armado já matou e feriu mais de 100.000 pessoas. Vocês que atacam os judeus, estão ajudando a população do Yêmen?

Vamos falar de Myanmar. Segundo o El País, “Mergulhado há décadas em várias guerras civis com guerrilhas formadas por minorias étnicas, Mianmar vê aumentarem as possibilidades de um conflito maior ante a espiral de violência e anarquia gerada após o golpe de Estado de fevereiro passado. Com mais de 500 mortos pelos ataques de policiais e militares contra os manifestantes que pedem a volta da democracia, e a fuga de milhares de birmaneses a países como Tailândia e Índia, o país enfrenta um dilema impossível: ou se opor ao Tatmadaw ―o Exército birmanês― ou se render ante os golpistas. A segunda opção tem sido descartada por algumas das guerrilhas mais poderosas da antiga Birmânia, que, em diálogos com o Governo civil na clandestinidade, concordam em se unir para formar um exército federal que possa afastar do poder as forças armadas do general golpista, Min Aung Hlaing.” Onde está a esquerda para apoiar o povo de Mianmar na sua luta por democracia?

E a Síria onde o conflito deixou em 10 anos mais de 380 mil mortos e levou 1,5 milhão de refugiados Sírios a abandonarem o país? Nas eleições presidenciais desta semana, Bashar Al-Assad ganhou com incríveis 95% dos votos. Posso estar equivocado, mas penso não ter visto nenhuma manifestação de qualquer partido político brasileiro, ou de seus líderes contra esta fraude.

Para fechar, que tal a gente falar da Bielorrússia? Lá, Alexander Lukashenko tem sido o seu presidente desde 1994. Em todas as eleições ele ganha sempre com ampla maioria dos votos. Na última, realizada em 2020, venceu com 80% . A população bem que tentou protestar, mas não recebeu nenhum apoio internacional contundente. Esta semana o país voltou as manchetes ao sequestrar um avião da Ryanar para deter um jornalista de oposição e sua companheira. Novamente preciso perguntar aqui quantas manifestações da esquerda contra este ato de terrorismo de estado foram vistas?

Hora de voltar a falar do “Meu Amigo Judeu”. É verdade que existem comunidades judaicas em quase todos os países do mundo, em maior ou menor número. Elas costumam ser organizadas e atuantes em seus países. Os judeus são sempre uma pequena parcela da população, mas parecem representar muito mais do que são de fato. No Brasil são cerca de 100 mil, mas há quem diga que foram eles que elegeram Bolsonaro.

Como todo grupo social, existem judeus de todo tipo: religiosos e laicos; sionistas e não sionistas; de esquerda e de direita; ricos e pobres; torcedores dos mais variados times de futebol; de todos os gêneros; enfim, são iguais a todos os grupos sociais que compõe a sociedade. No entanto, a direita antissemita tradicional e a esquerda antissemita de ocasião enxergam somente o judeu rico que apoia o Estado de Israel que por sua vez estaria cometendo um genocídio contra o Povo Palestino.

Antes de apontarem o dedo para Israel com uma ilação destas, me falem dos Yanomami, dos povos indígenas dizimados por vocês. Amoin Akuká, o último indígena da tribo Juma, morreu aos 86 anos por Covid-19 no início do ano. Milhares de outros indígenas morrem por doenças levadas por garimpeiros que invadem suas terras. Uma tribo inteira deixou de existir. Onde vocês estão enquanto estas coisas acontecem?

Nunca escutei amigos da esquerda me dizerem que tem um amigo índio. Nem que tenham um amigo moçambicano, nem que tenham conhecidos do Yêmen, ou da Síria, tampouco da Bielorrússia. Mas já tive vários que diziam ter “um amigo judeu“, que no caso era eu! Abandonei a amizade de todos eles quando acusaram os judeus pelo genocídio do povo palestino. Uma mentira repetida ao estilo nazista de Joseph Goebbels. E há quem acredite. E de esquerda!

Siegfried Elwanger, o famigerado dono da Editora Revisão dedicada a publicação exclusivamente de literatura antissemita e autor do livro “Holocausto, Judeu ou Alemão:”, em sua defesa no processo em que fui parte contra ele, alegava não ser antissemita e que inclusive tinha “amigos judeus“.

A esquerda antissemita é igual a direita islamofóbica. Muda apenas para quem o preconceito é dirigido. A mesma retórica. O racismo é da natureza humana, não importa a ideologia. Nisto, esquerda e direita, direita e esquerda, são a mesma coisa para quem sofre os ataques. Não existe país no mundo que não sofra deste flagelo.

Para deixar claro: genocídio cometeu a Turquia contra os Armênios com 1,5 milhão de assassinatos. Os Tutsis contra Utus com 800 mil assassinatos em Ruanda. O Kmer Vermelho no Camboja contra seu próprio povo com cerca de 3 milhões de mortos. Os nazistas contra os judeus com 6 milhões de mortos. E mais recentemente, Bolsonaro contra seu próprio povo com 450 mil mortos.

A despeito de tudo, eu sigo acreditando em um futuro Estado Palestino em Gaza e na Cisjordânia. Temos de retomar o diálogo, pois só ele pode trazer a solução para o conflito. A violência só trás mais violência e o ciclo precisa ser quebrado. Precisamos de parceiros para sentar a mesa. Países que não escolhem lado, que não apontam o dedo, que mostrem  o que pode nos unir, não o que nos divide.

Estamos cansados de tudo isso. Não queremos mais seguir enterrando nossos mortos a cada nova batalha de uma guerra que nunca terá um vencedor. Nós israelenses não vamos desaparecer. Eles, os palestinos não vão sumir. Estamos condenados a uma vida em comum, temos uma única escolha a fazer, se ela será em paz, ou em guerra.

A maioria dos dois povos  sempre escolheu o caminho da paz. Então nos ajudem a encontrá-la. Nos mostrem o caminho e permitam que o tempo do ódio fique no passado e o futuro seja de convivência em harmonia para os dois povos.

Talvez semana que vem surja um novo governo em Israel e Bibi finalmente vá para a oposição. Um governo de união nacional com partidos de esquerda, de centro e de direita apoiados por um partido árabe que vai dar sustentação. Se somos capazes de reunir forças tão distintas, tão diferentes, acredito que sejamos capazes de retomar as negociações de paz em um futuro próximo.

Esta é a melhor resposta para vocês e o seu preconceito.

De saco cheio estamos nós

Nesta sexta-feira, pela enésima vez, o capitão genocida se arrogou o direito de criticar, com palavras de baixo calão, um instrumento legal de um outro Poder, no caso o Legislativo. Alguém disse que o presidente deve respeitar a independência dos Poderes ? Ora, ele não tem a menor ideia do que isso venha a ser. Ele só entende a linguagem do « eu faço o que quero », como uma criança mimada. O inominável voltou a atacar, como sempre nas redes sociais (onde é mais fácil escrever em razão de um número limitado de palavras), a CPI da Covid, respondendo aos membros da Comissão que criticaram medicamentos rejeitados categoricamente pela Organização Mundial da Saúde : a cloroquina e a ivermectina, dos quais o presidente da República, que nunca frequentou uma aula de primeiros socorros, transformou-se em garoto propaganda. Para ele, de nada servem seis estudos científicos internacionais, que reuniram mais de 6 mil pacientes, concluirem que os medicamentos não trazem benefícios no tratamento da Covid 19.

Desde julho do ano passado, a OMS informa que o antimalárico não tem nenhum efeito positivo contra o coronavirus, sem falar dos efeitos secundários perigosos, que podem inclusive levar à morte. Mais recentemente, o painel de especialistas do Grupo de Desenvolvimento de Diretrizes da OMS foi ainda mais claro, rejeitando o uso da hidroxicloroquina no tratamento preventivo da Covid e dando por encerrados os testes com o medicamento.

Mesmo assim, o fascista que se instalou no Planalto insiste : « Não encham o saco ! » ; médico e paciente são livres para escolher como querem se tratar.

Como responder a essa asneira sem tamanho ? Então se um oncologista decide tratar seu paciente com câncer no fígado com Novalgina, tem todo o direito. E se o paciente morrer ? E daí, médico não é coveiro, não é mesmo ?

Quinta-feira o capitão já tinha defendido novamente o uso da hidroxicloroquina, chamando de « canalhas » os que se opõem à sua prescrição e afirmando que a CPI é mera « xaropada ».

Um dia antes, nesse circo de horrores, o presidente rasgou uma vez mais a Constituição diante do olhar impassível do Procurador Geral da República, Augusto Aras, cúmplice do genocida, para ameaçar o STF e publicar um decreto para impedir que governadores e prefeitos fechem o comércio ou limitem a atividade durante a pandemia. Afirmou que não aceitaria contestação dos tribunais. Acusou o ministro Luis Roberto Barroso de ter feito “politicalha” ao mandar o Senado instalar a CPI, embora sabendo que errado estava o presidente da Câmara Alta, que para proteger o capitão empurrou com a barriga a abertura da Comissão de Inquérito, cujo pedido preenchia todos os requisitos constitucionais. Errado estava Rodrigo Pacheco e não o STF, que confirmou a decisão de Barroso por 10 votos contra 1.

Dizem alguns que Bolsonaro é como o cão, que ladra mas não morde. A verdade não é bem assim, mesmo se as declarações insanas têm o objetivo de animar a sua base política. O país vive em clima de queda de braço permanente e, enquanto não é governado, as pessoas, dezenas de milhares de pessoas, vão morrendo feito moscas.

Face à tragédia, a solução proposta é a privatização do SUS, ou seja do alicerce da saúde pública no Brasil.

O único compromisso do presidente é consigo mesmo, com a sua ninhada e com a promessa de tudo destruir à sua passagem. É a política da terra arrasada. Dentro desta lógica, nessa mesma quarta-feira, investiu contra a China, nosso maior parceiro comercial e principal fornecedor de insumos para vacinas.

“É um vírus novo, disse, ninguém sabe se nasceu em laboratório ou por algum ser humano [que] ingeriu um animal inadequado. Mas está aí. Os militares sabem que é guerra química, bacteriológica e radiológica. Será que não estamos enfrentando uma nova guerra?”

O presidente brasileiro parece não ter se dado conta de que Donald Trump perdeu as eleições, continua a repetir o discurso anti-China do ex-ocupante da Casa Branca. Para tanto, é apoiado pelo filhote Eduardo, aquele do hambúrguer, e pelo ex-chanceler olavista Ernesto Araújo, dois arautos da guerra contra Pequim.

Bolsonaro fechou a semana ignorando as regras sanitárias e gerando aglomeração com motoqueiros em Brasília; estava sem máscara e disse que pretende realizar atos semelhantes em outras cidades. Como se a CPI realmente não passasse de mera “xaropada”.

Por ter provocado aglomeração, o líder da extrema-direita portuguesa, André Ventura, está sendo investigado e poderá ser condenado a 4 anos de prisão.

Fora do Brasil, Jair Bolsonaro é visto como o pior mandatário do mundo na gestão da pandemia, título concedido pelos jornais e cientistas mais conceituados. Nesse início de maio, o Parlamento Europeu debateu a gestão da pandemia pelo presidente brasileiro, taxada de “necropolítica, negacionista e irresponsável”.

“Por ação ou omissão, a necropolítica de Bolsonaro constitui um crime contra a humanidade que deve ser investigado”, disse em plenário o eurodeputado espanhol Miguel Urbán Crespo, aplaudido por seus pares.

Artigos são publicados diariamente na grande imprensa, que nada tem de esquerdista, escritos por gente estupefata com o inferno dantesco em que se transformou o país.

O que muitos não conseguem entender, sendo portanto incapazes de explicar, é por que o presidente tem o apoio incondicional de um terço do eleitorado. O correspondente da Deutsch Welle no Brasil, como bom jornalista, passou um ano entrevistando pessoas que votaram em Bolsonaro, para explicar o fenômeno aos seus seguidores. Mas finalmente baixou os braços e confessou : – Decidi parar de falar com bolsominions ; não aguento mais, é uma loucura !

De fato, a visão que o Brasil projeta hoje é deplorável. Em 43 anos de vida na França jamais vi nada igual. Na Europa, a opinião (até entre alguns políticos de extrema-direita) é que Jair Bolsonaro e sua gangue são psicopatas perversos, dignos de usar camisa-de-força, de serem interditados. Não se consegue compreender o que acontece, nem a passividade popular e muito menos ainda a atração exercida pelo « mito », que com a ajuda de pastores evangélicos, olavistas, militares, milicianos, empresários do tipo Havan, formou uma verdadeira seita em torno de si, recriação do Templo do Povo do reverendo Jim Jones.

Para a loucura do presidente parece não caber interdição e sim cadeia, onde deverá terminar os seus dias caso sobre um resquício de Justiça após a sua passagem.

Minha intuição diz que seu grande sonho nunca foi se tornar presidente da República (o que exige um mínimo de preocupação com o Brasil), mas ser comandante-em-chefe das forças armadas, que em várias ocasiões afirmou lhe pertencerem. Autoritário, candidato a ditador, adorador da tortura, ele quer mandar, certo de que o Brasil é uma caserna e os brasileiros, seus soldados. Saboreia a revanche da sua expulsão do Exército. Os únicos livros que folheou na vida foram para os exames da Academia de Agulhas Negras. A Constituição, só segurou na hora da transmissão da faixa presidencial. E olhe lá! Aposto que nunca abriu.

Um dos poréns é que os militares próximos do presidente cabularam a aula magna da Academia Militar sobre os direitos e deveres em tempo de guerra, fazendo com que passasse batida a Convenção de Genebra. Formaram-se portanto sem saber que até no conflito armado há regras. Os soldados da ativa e de pijama que circulam pelo Palácio desconhecem limites e consideram que a palavra do comandante é lei, mesmo que contrária à própria lei. “Manda quem pode, obedece quem tem juízo”; plagiando o general ex-ministro da Saúde. Nesse universo não reina a força da lei, impera a lei da força, sobretudo contra pretos e pobres.

Natural portanto que com Bolsonaro os gastos militares tenham superado os da ciência e da diplomacia. O Ministério da Defesa gastou 572 milhões de reais com ações da pasta e das Forças Armadas na pandemia. Os gastos militares superam as despesas do governo federal com ciência e tecnologia, segurança pública, direitos humanos e diplomacia no combate à Covid-19.

Bolsonaro declarou guerra à ciência, à medicina e à vida. Ao invés de ter o vírus como alvo, declarou guerra ao STF, guardião do Direito, Poder que tem ousado desafiar a sua autoridade para fazer cumprir a Carta Magna e a lei, do direito dos índios a comer durante a pandemia e terem vagas em hospitais públicos à abertura da CPI da Covid no Senado.

A chacina do Jacarezinho, no Rio de Janeiro, que completou a semana, é corolário dessa ideologia: 27 favelados mortos, acusados de tráfico. Bolsonaro, desde o primeiro dia de seu mandato, defendeu o excludente de ilicitude, abrindo caminho ao uso da força letal indiscriminada pelos policiais. Assim, protegidas pela palavra presidencial, as polícias (seriam milícias?) abrem fogo e matam ao arrepio da lei, contra o que estabeleceu o STF. Há um ano, o Supremo determinou limites para ações de policiais nas comunidades durante a pandemia. Em vão.

O massacre, que incluiu execuções sumárias de acordo com testemunhas, embora cometido pela polícia civil do Rio de Janeiro se insere na ideologia de morte pregada pelo Executivo federal. Ordem de prisão é coisa do passado, a regra é atirar para matar. A polícia entra na casa de uma família, vê uma pessoa deitada, desarmada, e metralha.

Bolsonaro criou a figura da “pena de morte informal”, sem necessidade de condenação.

Na operação, quatro habitantes da favela foram presos e torturados. Mas preferiram não relatar as agressões aos médicos do Instituto Médico Legal, pois ao contrário dos procedimentos, os policiais permaneceram na sala enquanto os peritos trabalhavam. Depois, foram encaminhados para o presídio de Benfica, sem direito à audiência de custódia, muito embora obrigatória. O laudo da perícia das drogas apreendidas tampouco seguiram as normas legais. Nada mais normal, pois afinal, como diz o vice-presidente general, « É tudo bandido ! » Ou como diz o capitão, “traficantes que roubam e matam”; ambos referindo-se, obviamente, sem nenhuma prova, aos favelados mortos. Dos 27 mortos, apenas 3 eram alvos de mandado de prisão.

Para eles, bandidos são os manifestantes presos por chamarem o genocida de genocida, Rodrigo Pilha, torturado por agentes penitenciários, os mineiros detidos, falsamente acusados de terem atirados ovos nos bolsominions. Ou ainda os trabalhadores sem terra, que Bolsonaro (no dia da chacina) recomendou o assassinato, ao comemorar a autorização para que os fazendeiros possam circular armados dentro de seus latifúndios e atirar para matar sem somação: ”Se encontrar o ilícito lá mete fogo, porra!”

« Algo está errado » ; replicou o Alto Comissariado da ONU para os Direitos Humanos, reclamando a abertura de investigações imparciais internacionais sobre Jacarezinho. « O uso da força deve ser o derradeiro recurso, o combate à criminalidade precisa ser equilibrado e proteger a população. »

Palavras ao vento…Gato escaldado, o Alto Comissariado não confia na objetividade das autoridades brasileiras, incapazes de levar adiante uma investigação imparcial. Com toda razão.

Na visão bolsonarista de mundo, a vida (dos outros) não tem importância. E se o outro for preto e pobre, menos ainda. No combate ao crime como na luta contra o coronavirus, 420 mil mortes após o início da pandemia, o fascista mor não muda uma vírgula em sua forma de ser e de agir. O que faz de seus seguidores, cúmplices.

A chacina do Jacarezinho e a morte de milhares de vítimas da “política sanitária” são duas faces da moeda bolsonarista.

O fato de que 30 % ou mais sigam cegamente o « mito » e estejam prontos a reelegê-lo diz muito sobre quem somos. Dezenas de milhões de brasileiros parecem ter se despido da aparência humana para abraçar o que de pior marcou a humanidade : de Mussolini a Hitler, passando pelas Cruzadas, pela Inquisição, pela escravidão. Outros 30 % estariam dispostos a ficar em cima do muro, como os poloneses de Cracóvia, que fingiam não ver o que acontecia do outro lado da cerca de arame farpado que os separavam dos fornos crematórios (certamente mal cheirosos) de Auschwitz.

Isso me leva a pensar que trazemos em nós o que há de mais abjeto. Um dia a sociologia explicará esse desatino. Hoje, o que vemos não faz sentido. Na pandemia foram os pobres que mais perderam empregos e renda, as crianças que ficaram sem merenda nem estudos, os que mais morreram de Covid sem direito sequer a oxigênio, que foram as principais vítimas dos preços que subiram 29% nos alimentos básicos. Mesmo assim, segundo o DataFolha, a decepção com Bolsonaro é muito maior entre os mais ricos. Quase um terço dos pobres considerariam o governo Bolsonaro bom ou ótimo.

Machismo, racismo, homofobia, autoritarismo, discriminação de gênero, revolta contra o “sistema”, fundamentalismo religioso, medo do futuro e necessidade do herói salvador, talvez sejam um início de explicação para essa mixórdia fétida em que nos transformamos.

O mundo implora para que o Brasil comece enfim a combater seriamente a pandemia, usando os utensílios científicos à disposição, abandonando definitivamente os kits, os falsos tratamentos preventivos. Nós parecemos não estar nem aí, mesmo se a estratégia de Bolsonaro, ou falta de, venha a deixar caminho livre à circulação do vírus e a consequente multiplicação de variantes, sob pena de colocar em perigo o resto do planeta.

Agimos na pandemia da mesma maneira irresponsável como fazemos contra o aquecimento climático ; dando de ombros, tentando jogar a nossa parcela de culpa sobre os ombros de terceiros, que insistem em não colaborar com alguns bilhões de dólares.

A diferença agora é que o mundo começa a acordar e rechaçar a chantagem de Bolsonaro, Salles e o rebanho.

No dia 29 de abril, uma equipe internacional publicou um estudo alarmante na revista Nature Climate Change: nos últimos dez anos a Amazônia brasileira rejeitou mais gás carbônico do que absorveu.

Segundo os cientistas, esse dado constitui uma mudança maior e inédita na história da humanidade. Por causa da atividade humana, a Amazônia, que fornecia 20% do oxigênio do planeta, está literalmente morrendo. E nós com ela.

O que fazer antes que seja tarde demais, que tenhamos atingido o “point de non retour”? Por onde começar?

Num primeiro momento, ambientalistas, economistas, e políticos europeus sensibilizados com a causa ecológica propõem o abandono imediato do acordo comercial entre a União Europeia e o Mercosul. Por duas razões:

Antes de mais nada porque não se assina um acordo com um país cujo dirigente viola os direitos humanos e não dá a mínima para os seus próprios engajamentos ambientais. Depois, porque o conteúdo desse acordo é em si uma catástrofe climática, que de acordo com um estudo dirigido pelo economista Stefan Ambec irá acelerar o desmatamento da Amazônia em ao menos 25% nos próximos seis anos, ou seja, de 30 mil quilômetros quadrados de floresta por ano. Isso sem falar na destruição da biodiversidade, explosão das emissões de gazes de efeito estufa, ameaça sobre as populações autóctones e morte de camponeses e pequenas plantações.

Em outras palavras, o acordo provocaria um etnocídio acompanhado de um ecocídio, razões pelas quais Jair Bolsonaro já é acusado no Tribunal Penal Internacional de Haia.

O capitão, encurralado e pressionado, reage da única maneira que sabe: desrespeitando tudo e todos, xingando, dando porrada pra’ tudo quanto é lado. O império da lei, o Estado de Direito, não faz parte da sua definição de Democracia, que começa e termina na eleição. Eu ganhei, logo eu mando. Genocida, nazifascista, um dia responderá por seus crimes, mesmo que um terço do Brasil seja cúmplice da matança e da destruição.

Como disseram os eurodeputados, Bolsonaro não é apenas um perigo para o Brasil, é o inimigo número 1 do mundo