O tutor

Kant saía para caminhar às três e meia da tarde com tamanha exatidão que os vizinhos de Königsberg acertavam os relógios pela passagem dele. Dois séculos e meio depois, é o relógio que me acerta. O aparelho no meu pulso sabe quando dormi mal, sugere que eu respire. O século que prometeu libertar o homem de seus tutores terminou alugando um por vinte dólares mensais, e ainda agradecemos a gentileza.

O iluminismo, dizia o velho professor, era a saída do homem da menoridade de que ele próprio tinha culpa, a coragem de usar o entendimento sem a direção de outrem. “Sapere aude”. Ousa saber. A proposta era simples e escandalosa, e custou caro a quem a levou a sério. Condorcet, que escreveu sobre a perfectibilidade infinita do espírito enquanto se escondia da guilhotina, morreu numa cela da mesma revolução que havia saudado como aurora da razão. O projeto de emancipar o homem sempre teve esse detalhe incômodo, o de devorar os primeiros crentes.

Pois o projeto amadureceu e mudou de endereço. Os herdeiros do século dezoito moram hoje na Califórnia e oferecem como conveniência aquilo que Kant exigia como coragem. E a oferta funciona tão bem que nos dispensa do exercício.

Esta semana perguntei à máquina que carrego no bolso quem tinha escrito certa frase sobre autômatos como herdeiros do iluminismo. Ela confessou que não sabia ao certo. Listou hipóteses, marcou cada uma com o grau de dúvida correspondente, avisou onde não passava de palpite. Num detalhe, errou. Apontei o erro, ela agradeceu, corrigiu na hora e anotou a regra para não tropeçar duas vezes na mesma pedra. Fiquei um instante comovido. Fui tratado como adulto por um software, e o software se deixou ensinar por mim. Há anos não recebo de um governante uma resposta com essa honestidade, e há ainda mais tempo não vejo um deles aceitar correção sem tratar quem o corrige como inimigo.

A frase que eu buscava sustentava que a automação extrema é a culminação do projeto racionalista do século dezoito. Descobri depois que a frase, tal como eu a guardava, não tem dono. A tese tem. Pertence ao ensaísta francês Éric Sadin, que em 2018 publicou A inteligência artificial ou o desafio do século e ali descreveu o regime da verdade algorítmica, a velha razão emancipadora reduzida a um cálculo que decide por nós. O iluminismo apostou tudo na razão como caminho da liberdade, e a aposta venceu com tamanho excesso que a razão virou técnica, a técnica virou produto, e o produto aprendeu a pensar sem pedir licença ao pensador. O século das luzes queria nos tirar da menoridade. Seu herdeiro mais talentoso nos devolve a ela com respostas instantâneas, e a maioria aceita sorrindo. Kant diria que a culpa, outra vez, é inteiramente nossa.

Dias depois assisti a uma aula de três horas do neurocientista brasileiro Miguel Nicolelis. De Nicolelis roubo sem cerimônia um conceito. Ele chama de Brainet a abstração coletiva capaz de pôr milhões de mentes em sincronia, a ideia comum sob a qual uma multidão passa a agir como um único organismo, seja ela uma fé, uma bandeira ou uma promessa. E não se trata de metáfora de palestrante. Antes de levar a palavra à história, ele a provou em laboratório, conectou cérebros de ratos e de macacos em rede e os viu resolver juntos tarefas que nenhum resolveria sozinho. A história das civilizações, sustenta ele, é o embate entre essas redes mentais. Roma ficou de pé enquanto a ideia de Roma convenceu. Quando as legiões começaram a falhar, um vírus informacional novo, a mensagem cristã, ofereceu esperança aos miseráveis e refez o império por dentro.

Vivo num país que é filho direto daquele século e que talvez seja a Brainet mais deliberada da história moderna. Israel foi imaginado em panfletos, votado num congresso em Basileia, debatido em jornais antes de existir em qualquer mapa. Herzl acreditava que a razão pública podia inventar uma nação, e inventou. Gente que não dividia língua nem chão passou a dividir uma abstração, e a abstração virou Estado, com hino, moeda, exército e algoritmos que calculam em milissegundos a parábola de um míssil sobre o norte de Israel.

É essa rede que o atual governo desfaz, fio por fio, com uma diligência que nega a tudo o mais. Mil dias se passaram desde a manhã mais atroz da nossa história sem que se aceitasse uma comissão estatal de inquérito. Uma comissão de inquérito é o instrumento com que uma nação sincroniza a própria memória, fixa uma versão comum do que sofreu e de quem falhou. Adiá-la é manter o país dessincronizado de propósito, cada tribo com a sua verdade, cada verdade apontando para a tribo ao lado. O gabinete desafia a Suprema Corte como quem ignora um vizinho inconveniente, e remove assim o último nó que obrigava todos os outros a conversar. O atual governo não usa a razão. Governa por instinto de sobrevivência e a combate onde quer que ela apareça, porque ela faz perguntas, exige respostas, e toda resposta honesta ameaçaria o poder.

Há nisso uma crueldade distraída e uma hipocrisia. Os mesmos que discursam sobre a inteligência artificial como futuro da nação tratam a inteligência natural como estorvo e cortam o oxigênio das universidades. Nossa democracia, essa senhora que já respirou melhor, observa tudo da varanda, e ninguém se lembra de lhe medir a pressão.

Kant temia os tutores que nos poupam do trabalho de pensar. Não previu que o último deles nasceria da própria razão, nem que haveria governos dedicados a nos poupar do trabalho de pensar juntos. Em Jerusalém, entre os que mandam, saber segue proibido, e a única tarefa executada com pontualidade prussiana é a demolição da ideia que um dia nos ensinou a caminhar juntos.

Amado ou Temido

Todo governante sonha em ser amado pelo seu povo, e a maioria descobre, mais cedo ou mais tarde, que o medo é muito mais fácil de administrar. Foi a lição que Nicolau Maquiavel aprendeu em 1513, depois que seu nome apareceu na lista errada, encontrada no bolso de um conspirador que ele mal conhecia, e o novo governo de Florença o submeteu seis vezes a um suplício conhecido como corda, os pulsos amarrados às costas e presos a um cabo que o içava pelos braços em direção ao teto, para depois soltá-lo numa queda seca que lhe arrancava os ombros do lugar. Dali partiu para o exílio numa propriedade rural, onde à noite começou a escrever um manual de sobrevivência política, oferecido sem o menor pudor ao mesmo clã que o havia torturado e banido. Há algo de delicioso, e um pouco desconfortável para quem escreve sobre o poder vivendo sob ele, no fato de que o retrato mais lúcido da autoridade já posto no papel tenha saído de um cortesão desempregado disposto a recorrer a qualquer bajulação para recuperar o emprego. Se precisasse de trabalho hoje, provavelmente estaria escrevendo a coluna mais servil já publicada em defesa do primeiro-ministro de Israel, e duvido que eu, ou qualquer outro que também dependa da boa vontade de quem manda, tivesse moral para atirar a primeira pedra.

Mas o texto escapou ao autor, o que costuma acontecer com as obras-primas e quase nunca com os bajuladores. Os Médici, registre-se, nunca lhe devolveram o emprego. Ele perguntou se era melhor ser amado do que temido, e respondeu, com a calma de quem viu coisa demais para se dar ao luxo do idealismo, que o ideal seriam as duas coisas, mas que, sendo isso raro, um governante faz melhor em apostar no medo alheio, porque o afeto depende da boa vontade de quem o dá, enquanto o medo depende apenas de quem o inspira, e a boa vontade, como sabe qualquer um que já foi traído, costuma trocar de lado exatamente na hora em que é mais necessária.

Aplicada ao homem que nos governa há mais tempo do que qualquer outro em nossa história, essa distinção deixa de ser teoria. Temos motivos de sobra para temer o míssil que vem de fora. O que soa cada vez mais familiar é o resto do roteiro, o procurador que suaviza a acusação, o juiz que adia o julgamento, a imprensa que modera o tom, e a reforma do próprio tribunal que um dia poderia condenar o líder, vendida ao país como a salvação do Estado. Vale a pena parar para perguntar o que exatamente está sendo salvo. Este é um país cujos juízes mandaram um presidente para a prisão por estupro e um primeiro-ministro para a prisão por suborno, um histórico que não descreve uma democracia frágil precisando de resgate, mas uma democracia sólida que aprendeu a não tratar nenhum cargo como sagrado, e essa solidez é justamente o inconveniente, porque um tribunal capaz de prender os poderosos de nada serve a um homem que pretende nunca deixar de ser poderoso. Os cientistas políticos deram a esse roteiro um nome bonito, democracia iliberal, e o curioso é que ele sempre chega vestido de emergência nacional, nunca de ambição pessoal.

É trágico ver os mesmos homens que se apresentam como guardiões do nosso povo e da nossa história recorrerem, sempre que a lei chega perto demais deles, ao mesmo truque, confundindo a sobrevivência do país com a sobrevivência do próprio mandato, como se as duas coisas fossem a mesma coisa, uma equivalência que ninguém além deles jamais chegou a confirmar. A lógica que Maquiavel pôs no papel, embora composta para agradar a um príncipe em particular, não poupa nenhum príncipe que se pareça com ele. Talvez porque seu autor tenha pendido da corda do Estado e aprendido, nos próprios ombros, o que o medo custa a quem o sofre, o livro distingue o príncipe que é temido porque protege do príncipe que é temido porque teme ser substituído, e reserva para o segundo o adjetivo mais duro do seu vocabulário, desprezível. A bajulação fracassou, o livro ficou, e o cortesão desempregado, que queria apenas um emprego, acabou legando a cada geração o instrumento exato para medir o homem que quer apenas não perder o seu. Nosso primeiro-ministro carrega esse adjetivo com a mesma disciplina que aplica a todo o resto. Ele sabe exatamente o que está fazendo, e faz porque sabe, o que é uma maneira bem mais precisa de dizer que a devoção que ele nos vende como amor ao país há muito tempo não passa de amor a si mesmo.

O Estado Que Devora os Seus

Há uma pergunta que pessoas sérias deixaram de fazer talvez porque a resposta tenha se tornado incômoda demais para ser encarada. Pode o progresso ainda ser chamado de progresso se ele abandona nossa capacidade de cuidar?
Não é uma pergunta abstrata. Toda sociedade que avança sem essa capacidade não está progredindo ela está acelerando. E há uma diferença considerável entre as duas coisas. Velocidade sem direção moral não é conquista é fuga. O que se foge invariavelmente é a responsabilidade de governar com algo que vai além da eficiência algo que as democracias mais sérias sempre souberam que não pode ser terceirizado nem automatizado e que por falta de palavra melhor continuamos chamando de cuidado.
Vale a pena deter se nessa palavra. Não como sentimento não como moeda fraca de cartões de felicitações e slogans publicitários mas como alicerce sobre o qual qualquer sociedade que pretenda ser civilizada precisa se sustentar. É o cuidado que faz de um governo algo mais do que um aparato administrativo. É o cuidado que distingue uma democracia de um esquema de proteção. É o cuidado que separa o ato de escrever leis do ato de usá-las como armas contra as pessoas que essas leis supostamente deveriam proteger.
Israel foi fundado na melhor versão que conta de si mesmo como exatamente esse tipo de democracia. Não uma democracia perfeita nenhuma o é e as que reivindicam perfeição são invariavelmente as que mais se deve temer mas uma democracia parlamentar animada por uma convicção específica e duramente conquistada a de que um povo que havia sobrevivido à negação absoluta de sua humanidade construiria um Estado definido pela recusa em negar a humanidade dos outros. Essa era a promessa. Estava escrita na Declaração de Independência de 1948 com uma clareza que relida hoje parece quase ingênua em sua generosidade. Cidadania plena e igualitária para todos os habitantes independentemente de religião raça ou sexo. Um Estado que buscaria a paz e que seria fiel aos princípios da Carta das Nações Unidas.
O que muitos não perceberam então e o que o tempo tornou dolorosamente evidente é que Israel nasceu com promessas liberais sem os mecanismos que as tornariam difíceis de desmantelar. Sem constituição formal sem separação rígida de poderes com a soberania concentrada num parlamento unicameral o Estado israelense construiu sua legitimidade sobre o compromisso moral de seus fundadores e não sobre travas institucionais que numa democracia mais blindada tornariam a captura do poder um projeto de gerações. Não era uma brecha era a arquitetura inteira. E certas pessoas pacientes e bem organizadas esperaram o momento certo para atravessá-la.
O que acontece com esse Estado hoje não é um desvio de um plano é o plano de outras pessoas executado com paciência e sofisticação considerável ao longo de décadas. A coalizão de extrema direita que governa Israel não chegou ao poder por acaso. Chegou porque certos atores políticos compreenderam com uma astúcia que se reluta em admirar que as instituições democráticas são mais vulneráveis não quando atacadas por fora mas quando esvaziadas por dentro quando a máquina do Estado é gradualmente reapropriada ministério por ministério nomeação por nomeação linha orçamentária por linha orçamentária até que ela não sirva mais ao Estado mas a si mesma e aos homens que a operam. O cuidado nesse processo não é esquecido por descuido é removido por design.
A reforma judicial que convulsionou a sociedade israelense em 2023 foi o episódio mais visível dessa história mais longa mas a visibilidade pode enganar. O que tornou aquela crise tão reveladora não foi a legislação em si embora fosse assustadora o suficiente mas a reação do governo às centenas de milhares de israelenses que tomaram as ruas por meses. Um governo que genuinamente acreditasse no povo que governa teria pausado. Teria ouvido. Teria compreendido que quando uma parcela significativa da cidadania se mobiliza semana após semana em números que um país de nove milhões de habitantes mal consegue sustentar algo deu errado e não se conserta simplesmente aprovando a lei de qualquer maneira. O governo não pausou. Recalculou recuou brevemente quando a catástrofe de 7 de outubro tornou o conflito interno politicamente insuportável e nos meses seguintes retomou seu projeto com a eficiência sombria de uma instituição que confundiu resistência com legitimidade.
O que se perdeu é mais difícil de legislar do que a composição dos tribunais ou a independência do Ministério Público embora essas coisas importem enormemente. O que se perdeu ou está em vias de ser perdido é a capacidade dos que estão no poder de governar como se os governados fossem pessoas reais com interesses reais e não variáveis a serem gerenciadas eleitores a serem apaziguados ou inimigos a serem neutralizados. Não é um problema exclusivo de Israel. É o modo característico de falha do nosso tempo visível em Budapeste Varsóvia Washington e diversas outras capitais cujos líderes descobriram que o vocabulário da democracia é perfeitamente compatível com seu desmantelamento sistemático desde que se avance com cuidado palavra que usam com frequência e praticam com nenhuma.
Contudo Israel carrega um peso particular nessa história porque fez uma reivindicação específica. Afirmou ser diferente. Afirmou e essa afirmação foi acreditada por pessoas sérias em todo o espectro político por muito tempo que sua experiência de catástrofe histórica a havia inoculado contra as crueldades banais da política majoritária. O argumento nunca foi inteiramente convincente para os que observavam como essa história era seletivamente instrumentalizada mas tinha força. Tinha a força do sofrimento genuíno transmutado em princípio genuíno. O que se assiste agora é esse princípio sendo transmutado de volta não exatamente em sofrimento mas em algo adjacente a crueldade confortável dos que decidiram que sua própria segurança é mais bem garantida não pela extensão de direitos mas pela sua contração não pelo fortalecimento das instituições mas pela sua captura não pelo exercício da democracia que herdaram mas pela sua substituição de forma incremental e com grande quantidade de papelada processual por algo que conserva a forma enquanto esvazia o conteúdo.
Os israelenses que marcham que renunciam a comissões militares em protesto que escrevem e argumentam e se recusam a calar estão fazendo algo que merece mais do que hashtags de solidariedade. Estão insistindo a um custo pessoal e profissional real que a promessa feita em 1948 não era um floreio retórico mas uma obrigação vinculante. Estão insistindo que um Estado pode ser julgado por se importar com as pessoas que governa todas elas não apenas as que votaram corretamente ou rezam corretamente ou se parecem suficientemente com os que estão no poder. Estão insistindo na proposição mais radical e mais ameaçada da política contemporânea a de que governar é um ato moral e que um governo sem moralidade não é um governo mas uma máquina e as máquinas por mais eficientes que sejam não pensam não sentem e não se importam.
Os que operam essa máquina sabem disso. É precisamente isso que torna sua hipocrisia não apenas insuportável mas clinicamente precisa. Invocam a segurança enquanto desmantelam os tribunais que a garantem. Invocam a tradição enquanto corrompem as instituições que a sustentam. Invocam Deus enquanto praticam com metódica indiferença aquilo que qualquer leitura honesta de qualquer texto sagrado descreveria como crueldade. São homens que aprenderam a falar em nome do povo enquanto trabalham com notável dedicação para tornar esse povo impotente e que descobriram que a melhor maneira de devorar uma democracia não é atacá-la de frente mas convencer seus cidadãos devagar e com muita solenidade de que o que está sendo feito a eles é na verdade feito por eles.
Há um nome para isso. Não é governo. É a substituição do cuidado pela performance do cuidado da democracia pela máquina que usa o seu nome da promessa pelo seu cadáver bem vestido. E quando uma sociedade chega a esse ponto quando a distância entre o que os governantes dizem e o que fazem se torna grande demais para ser preenchida por qualquer retórica resta apenas a pergunta com que este texto começou formulada agora não como questão abstrata mas como diagnóstico de uma civilização que escolheu a eficiência e abandonou a compaixão que celebrou a inteligência e esqueceu a gentileza que chamou de progresso o que era na verdade o lento e metódico esquecimento de tudo o que nos tornava humanos. Há quase um século com a lucidez de quem já havia visto esse mecanismo operar Charlie Chaplin disse o que ainda precisa ser dito pensamos demais e sentimos de menos. Mais do que máquina precisamos de humanidade mais do que inteligência precisamos de bondade e gentileza. Sem essas qualidades a vida será violenta e tudo estará perdido.

Chega

No dia dezoito de junho, o presidente do Líbano, Joseph Aoun, fez o tipo de coisa que os presidentes libaneses historicamente não fazem, que é olhar para a câmera da CNN e se dirigir ao público israelense como se fossem pessoas com quem uma conversa fosse possível, o que, dadas as circunstâncias dos últimos setenta e oito anos, representa uma premissa ao mesmo tempo otimista e factualmente defensável. Ele perguntou se não estávamos cansados de uma guerra que perdura desde mil novecentos e quarenta e oito, se realmente queríamos viver em paz, e disse que se quiséssemos, tudo o que tínhamos a fazer era sentar e conversar, uma formulação tão razoável que sua simplicidade soou, neste contexto específico, quase como radicalismo.
Aoun chegou à presidência criticando a interferência iraniana nos assuntos libaneses, o que no Líbano é uma postura de coragem comparável a defender a moderação climática em uma convenção de incendiários, e defendendo o desarmamento do Hezbollah, o grupo que destrói o próprio país há décadas em nome de uma causa sobre a qual o Líbano nunca foi consultado. O que tornou aquela entrevista diferente não foi o argumento em si, mas o destinatário pretendido. Os presidentes libaneses tendem a falar de Israel como um problema abstrato em declarações destinadas ao consumo interno. Aoun falou de nós como vizinhos que, como os cidadãos do seu lado da fronteira, acordam todas as manhãs dentro de algo que ninguém, em nenhum dos lados, escolheu ao nascer. Ele disse que este era o momento para que o poder da razão prevalecesse sobre a razão do poder, e essa frase ficou comigo por dias.
Mil e duzentas mulheres israelenses responderam à pergunta que nenhum governo respondeu, não por canais diplomáticos ou declarações oficiais, mas com uma carta aberta assinada por integrantes do Women Wage Peace e do Fórum de Famílias Enlutadas Israelo-Palestino, cujos membros fotografaram as palmas das mãos com uma única palavra escrita em hebraico, em inglês e em árabe, porque em cada uma dessas línguas a palavra soa diferente e a exaustão por trás dela é a mesma. O Fórum é formado por israelenses e palestinos que perderam filhos e decidiram, com essa perda ainda dentro de seus corpos, sentar-se ao lado de quem quer que estivesse do outro lado quando o filho morreu, porque chegaram à conclusão, da maneira mais difícil possível, de que a conversa era a única alternativa ao ódio, e de que o ódio, como estratégia de longo prazo, tem um histórico que fala por si só.
Existe uma diferença entre herdar uma guerra e escolher uma que os nascidos dentro dela raramente conseguem enxergar, porque nunca conheceram o antes, e é nessa diferença que vive a pergunta de Aoun, dirigida não a generais ou políticos, mas às pessoas que, como ele colocou, genuinamente querem viver em paz e ainda não encontraram uma maneira de dizer isso em voz alta de forma que mude alguma coisa. Eu vim de fora, escolhi este país com tudo o que vinha junto com ele, e aprendi que escolher um lugar não é o mesmo que aceitar tudo o que acontece dentro dele como um fato da natureza, da mesma forma que amar alguém não significa concordar com cada decisão, especialmente aquelas que afetam os vizinhos.
A pergunta de Aoun ficou comigo porque era também a pergunta que eu vinha fazendo a mim mesmo, em momentos diferentes, com urgências diferentes, da maneira específica como se formula uma pergunta quando a necessidade de fazê-la não cessa e a resposta continua não chegando. Não estamos meramente cansados de uma guerra que dura desde mil novecentos e quarenta e oito, estamos exaustos, que é o estágio além do cansado e se distingue dele pelo fato de que os cansados ainda esperam descansar enquanto os exaustos começam a questionar o caminho, e mil e duzentas mulheres israelenses disseram isso em voz alta enquanto a guerra ainda estava em curso, que é o único momento em que dizer esse tipo de coisa custa algo real e, por essa razão, o único momento em que dizer esse tipo de coisa significa algo.

O Circo

Tenho lido sobre os imperadores romanos desde jovem, e uma coisa sempre me pareceu clara nas histórias que sobreviveram a eles, o poder romano precisava de dois elementos para se sustentar diante do povo, o sangue como cenário e o elogio como moeda. Cômodo, filho de Marco Aurélio, vestia pele de leão e empunhava a clava de Hércules para descer à arena e matar animais e gladiadores diante de dezenas de milhares de pessoas reunidas no Coliseu. O Senado, que ele mesmo havia esvaziado de qualquer poder real, aplaudia e lhe concedia títulos cada vez mais extravagantes entre um combate e outro. Décadas depois, Domiciano exigiria, dentro do próprio palácio, ser chamado de senhor e deus. A função desses espetáculos nunca foi apenas matar; era lembrar aos presentes que a vida de quem estava na arena e a aprovação de quem ocupava as arquibancadas dependiam da mesma pessoa.
Quase dois mil anos depois, no domingo, quatorze de junho de dois mil e vinte e seis, o jardim sul da Casa Branca foi transformado em anfiteatro para celebrar, simultaneamente, o octogésimo aniversário de Donald Trump e os duzentos e cinquenta anos de independência dos Estados Unidos. Uma estrutura de aço de vinte e oito metros, batizada de A Garra, dominava o gramado onde normalmente aterrissam os helicópteros presidenciais. Atores vestidos como soldados da Guerra da Independência montavam guarda enquanto catorze lutadores cruzavam os corredores do edifício, alguns passando pelo Salão Oval, para chegar ao octógono. Um sobrevoo da Força Aérea abriu a noite, seguido do hino nacional. A multidão gritava EUA sempre que um competidor americano enfrentava um estrangeiro, o que nem sempre garantia a vitória do lutador local. Vi as fotos chegarem ao telefone em fragmentos, à distância, como vejo quase tudo o que acontece naquele país que tanto pesa sobre o meu.
Sentados perto do octógono, ao lado do presidente, estavam homens que hoje exercem o papel outrora reservado aos reis clientes diante dos imperadores romanos, trocando lealdade visível por proximidade. Mark Zuckerberg, que suspendeu as contas de Trump após o ataque ao Capitólio em janeiro de dois mil e vinte e um e desembolsou vinte e cinco milhões de dólares para encerrar o processo movido pelo próprio presidente, conversava brevemente com ele entre os combates. David Ellison, da Paramount Skydance, também estava lá, poucos dias depois de o Departamento de Justiça aprovar a fusão da sua empresa com a Warner Bros Discovery. Nenhum dos dois precisou explicar em voz alta a razão de estar ali. A proximidade física já dizia tudo.
O lutador Josh Hokit venceu Derrick Lewis por nocaute no segundo round e, na entrevista subsequente, retirou do pescoço uma corrente de ouro para entregar ao presidente como presente de aniversário. A Casa Branca publicou a foto do gesto horas depois. Menos de um ano antes, em agosto de dois mil e vinte e cinco, Tim Cook entrara no Salão Oval com uma placa de vidro montada sobre uma base de ouro de vinte e quatro quilates, oferta que acompanhou o anúncio de outros cem bilhões de dólares em investimentos da Apple nos Estados Unidos. Em ambos os casos, o metal precioso não comprava o mandatário; confirmava, diante das câmeras, quem precisava do presidente mais do que este necessitava de quem lhe estendia o tributo.
Foi após a entrega da corrente, ainda diante do microfone, que Hokit usou o ápice de sua carreira para declarar à multidão e ao país que Michelle Obama era um homem, indagando se não tinha razão. A plateia ao redor aplaudiu, e Joe Rogan, que conduzia a entrevista, sorriu, hesitando, antes de encerrar o quadro com o nome do atleta e se afastar do microfone.
Dana White, amigo de longa data de Trump e dono do UFC, classificou o comentário como falso e grosseiro no dia seguinte, tratando o caso como mera bobagem. O porta-voz da Casa Branca, indagado sobre o episódio, preferiu elogiar o desempenho do lutador no octógono e evitou o restante da pergunta. Trump publicou nas redes sociais que a noite fora incrível, omitindo qualquer menção a Hokit ou a Michelle Obama. O silêncio do homem que estava sentado a poucos metros daquele microfone no momento da declaração já é, em si, a resposta que importa.
Em Roma, o que tornava os jogos perigosos não era apenas o sangue na arena, mas o que eles autorizavam posteriormente, quando as luzes se apagavam e todos voltavam para casa sabendo exatamente o quanto se podia dizer e fazer perto do imperador sem sofrer sanções. Um presidente que assiste a um homem proferir aquele insulto, vê a plateia aplaudir e opta pelo silêncio depois, transmite a lição que Cômodo ditava ao Senado nas primeiras filas, a de que a proximidade ao poder vale mais do que a decência, e de que o silêncio de quem poderia condenar a afronta funciona como uma forma de aplauso.
Vi essa sequência de notícias durante um turno de guarda noturno aqui no norte de Israel, olhando para um céu onde qualquer luz fora do lugar pode ser um drone vindo do Líbano, e refleti que a minha segurança depende, em alguma medida, da disposição pessoal do mesmo homem que silenciou na primeira fila daquele octógono. Os interceptores que protegem este país chegam quando Washington assim decide, e Washington, neste momento da sua história, é dirigida por um homem cuja moral pública parece ser medida pela quantidade de ouro que lhe oferecem e pela disposição de tolerar o que se recusa a condenar.
A multidão do Coliseu rugia da mesma forma tanto diante da morte do leão quanto da do gladiador. O que importava, para quem estava nas arquibancadas, era estar perto o bastante da tribuna imperial para não ser, na luta seguinte, quem desceria à arena. Dois mil anos depois, do outro lado do mundo, ainda estamos decidindo onde ficar sentados.

O Escudo Partido

A Estrela de David não nasceu como símbolo de Estado. Gershom Scholem passou décadas rastreando sua história e encontrou algo perturbador: durante séculos, o hexagrama foi um ornamento, um amuleto, uma figura decorativa sem peso teológico fixo. Aparecia em sinagogas e em mesquitas, em talismãs judaicos e em manuscritos islâmicos. Era de todos porque não era de ninguém em particular. Só no século XIX, quando o nacionalismo europeu exigiu que cada povo tivesse sua bandeira, seu emblema, sua identidade visual consolidada, é que a estrela de seis pontas foi recrutada para ser o sinal do povo judeu. Nasceu moderna, essa identidade. Nasceu como escolha, não como revelação.

Eu também escolhi. Não fugi de nada, não escapei de nenhuma perseguição. Vim porque quis, porque havia aqui algo que parecia valer uma vida inteira. O sal do Mediterrâneo de manhã, a sensação de pertencer a um projeto que sobreviveu ao impossível. Essa foi a aposta. E as apostas, quando se perde, doem de forma que só quem as fez entende.

Quando um símbolo é construído, pode ser destruído. Não fisicamente, mas por dentro, pela conduta daqueles que o carregam. O que Netanyahu e o círculo que o mantém no poder têm feito é precisamente isso: destruir o símbolo a partir de dentro, usar o escudo como arma e depois exibir os destroços como prova de resistência.

Há uma violência específica nisso. Não a violência da guerra, que tem sua própria lógica brutal e seu próprio julgamento na história. A violência do que se faz com o nome de um povo enquanto esse povo assiste, parte em silêncio forçado, parte em cumplicidade, parte em desespero genuíno. Gaza não é apenas uma catástrofe humanitária, embora seja isso também, de forma avassaladora. É o lugar onde a imagem de Israel como projeto moral foi sendo executada, decisão por decisão, declaração por declaração, por homens que precisam da guerra para sobreviver politicamente e que aprenderam a chamar essa necessidade de segurança nacional.

Scholem entendia que os símbolos carregam a ambivalência de sua própria história. A estrela que ornamentou a porta de sinagogas da Europa Central foi a mesma costurada em amarelo nos casacos dos condenados. O mesmo sinal. Significados opostos. O que muda não é o hexagrama, mas quem o usa e com qual poder nas mãos.

O que Netanyahu e Ben-Gvir e Smotrich fazem com esse símbolo não é diferente em estrutura, apenas em direção. Tomam o escudo de David e o transformam em carta branca. Invocam o Holocausto para silenciar a crítica. Convocam a memória dos perseguidos para justificar a perseguição. Usam a narrativa do povo que quase desapareceu para legitimar políticas que fazem outros povos desaparecer. Isso não é defesa. É o sofrimento convertido em arma, e é moralmente indefensável por qualquer critério que não seja o da pura conveniência tribal.

E o dano não fica contido nas fronteiras de Gaza ou na Cisjordânia. O dano vaza. Chega às ruas de Londres e São Paulo e Paris, onde jovens que nunca pisaram em Israel confundem o Estado com o povo, o governo com a tradição, Netanyahu com o judaísmo. Esse é o crime adicional que a extrema direita israelense comete contra os próprios judeus: tornar a estrela de David um símbolo de ocupação nas mentes de uma geração inteira. Scholem temia que o símbolo pudesse ser esvaziado. Não imaginou que pudesse ser preenchido com isso.

Há manhãs em que o mar está quieto e Israel parece exatamente o que deveria ser. Nesses momentos, a aposta ainda faz sentido. Mas entre esse silêncio e o que se vê nas telas há uma distância que cresce a cada semana, e é uma distância que homens como Netanyahu criaram deliberadamente, porque precisam do abismo para continuar de pé.

O escudo de David sobreviveu à indiferença, à apropriação, ao amarelo dos campos de concentração. Não sei se sobrevive a isso. A ser brandido por quem transformou o medo em ideologia e a ideologia em impunidade, enquanto o mundo assiste e vai aprendendo a associar a estrela de seis pontas não ao povo que a carregou por séculos, mas aos homens que a sequestraram numa tarde de outubro e ainda não a devolveram.