Grupo JJSE – Judias e Judeus Sionistas de Esquerda

Grupo JJSE – Judias e Judeus Sionistas de Esquerda

Conheça os membros do coletivo

Somos o Grupo Judias e Judeus Sionistas de Esquerda. Nosso papel, como progressistas, é tentar defender a verdade, a justiça e os princípios judaicos.  Sem concessões, reconhecer os direitos, deveres e sofrimentos de todos: Judeus e Muçulmanos, Palestinos e Israelenses.

Lutamos, assim, contra toda sorte de antidemocracias, neofascismo, nazismo, islamofobia, antissemitismo, homofobia, machismo, misoginia, racismo, intolerância, autoritarismo, teocracias, exploração do trabalhador. Julgamos que os Direitos Humanos o são para todos e todas, independentemente de origem, raça, crença, posição, escolaridade ou qualquer outra forma de discriminação.

Desde 2014, o Grupo vem se organizando e ficando atento aos movimentos neofascistas e neonazistas contemporâneos, assim como movimentos antidemocráticos nos Estados Unidos, Europa, Israel e Brasil.

Quem somos? Somos muitos. Quem são os organizadores diretos do Grupo JJSE? Abaixo um pouco da história de cada um destes organizadores do presente grupo: Jayme Brener, Jean Goldenbaum, Mauro Nadvorny, Michel Gherman, Milton Blay, Pietro Nardella-Dell’ova e Tânia Maria Baibich.

 Jayme Brener é Sociólogo, Jornalista e Escritor. Foi correspondente de imprensa na América Central e na Europa. Ganhou o prêmio Jabuti de Melhor Livro Didático de 1999 com “Jornal do século XX”. Acaba de lançar a biografia “Henry Sobel, o rabino do Brasil”.

 Jean Goldenbaum é Doutor em Musicologia pela Universidade de Augsburg, compositor e pedagogo musical. É pesquisador do ‘Centro Europeu de Música Judaica’ da Universidade de Música de Hannover. Já teve suas obras apresentadas em 15 países e lançou cinco álbuns. Atualmente dirige um grupo coral e uma orquestra de violões. É vereador pelo SPD (partido socialdemocrata alemão) na região de Solling, ao sul de Hannover, onde reside com sua esposa Paola e seu cão Jake. Mais informações: www.jeangoldenbaum.com

 Mauro Nadvorny foi conselheiro do Movimento de Justiça e Direitos Humanos, membro fundador do Movimento Popular Antirracismo. Administrador do Grupo Resistência Democrática Judaica. Reside em Israel onde é filiado ao Partido Meretz. É criador do site A Voz da Esquerda Judaica que conta com vários colunistas judeus e judias progressitas e milhares de seguidores. https://avozdaesquerdajudaica.com.br/

Michel Gherman é Doutor em História pela UFRJ e Mestre em Antropologia pela Universidade Hebraica de Jerusalém, tendo atuado ali como professor convidado. É pesquisador do Centro de Estudos de Sionismo e Israel da Universidade Ben Gurion do Negev, onde recentemente concluiu seu Pós-doutoramento e do observatório sobre a Extrema Direita. É professor do Departamento de Sociologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro, no qual coordena o Núcleo Interdisciplinar de Estudos Judaicos e o Laboratório de Religião, Espiritualidade e Política. É coordenador acadêmico do Instituto Brasil-Israel.

Milton Blay formou-se em Direito e Comunicação Social, com curso de formação em Jornalismo Econômico no Jornal Le Monde, com Mestrado e Doutorado na Université Paris 3, Sorbonne Nouvelle, Master no Centre d’Études Diplomatiques et Stratégiques de Paris. Foi professor convidado da Faculdade de Economia da Université Paris 10. Após ter trabalhado em alguns dos mais importantes veículos brasileiros, como Rádio Jovem Pan (quando a rádio formava os grandes jornalistas da imprensa), Jornal da Tarde, Folha de S. Paulo, Revista Isto É, transferiu-se do Brasil para a França, onde reside, tendo sido correspondente na Europa da Revista Visão, Folha de S. Paulo, Rádio Eldorado, Grupo Bandeirantes de Rádio e Televisão entre outros. Trabalhou ainda na Rádio Paris-Lisboa e Radio France Internationale, onde ocupou o cargo de redator-chefe. Participou da equipe que venceu o Prêmio Esso de melhor programa de rádio, ganhou o Prêmio Valmet de Jornalismo Econômico e o Terceiro Prêmio do Movimento de Justiça e Direitos Humanos e da OAB pelo livro O Vírus e a Farsa Populista. Publicou ainda Poemas; Direto de Paris, Coq au vin com feijoada; A Europa Hipnotizada, a Escalada da Extrema-Direita; participou da obra coletiva Brasil no Contexto. Atualmente escreve para o DCM – Diário do Centro do Mundo, e  Revista Fórum. Militou no Movimento “Paix Maintenant” e Thot (inserção de refugiados)

 Nelson Nisenbaum é Médico e Escritor, especialista em clínica médica. Trabalhou 25 anos no sistema de urgência e emergência da Prefeitura de SBC/SP (SUS), e foi delegado do Conselho Regional de medicina do Estado de São Paulo e membro do Conselho Municipal de Saúde de SBC, SP.

Pietro Nardella-Dell’ova é Doutor em Direito (Direito Civil/Teorias da Propriedade/Anarquismo/Kibutzim em Pierre Proudhon, Gustav Landauer e Martin Buber) pela Universidade Federal Fluminense, UFF. É Mestre em Direito (Sacrifícios, Sistema Jurídico e Relações Dialógicas em René Girard e Martin Buber) pela Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo, USP. É Doutor e Mestre em Ciência da Religião (Literatura/Judaísmo/Direito/Direitos Humanos), com Bolsa CAPES/FUNDASP pela Pontifícia Universidade Católica, PUC/SP. É Pós-graduado em Literatura (O Grau Zero e Outros Graus da Palavra) e Pós-graduado em  Direito Civil (Os Direitos da Personalidade e CF/88). É Graduado em Filosofia e Bacharel em Direito. Atuou como Diretor e Gestor de Empresas nas áreas petroquímicas e logística ligadas à FIESP; também como Diretor de Licitações, Materiais e Contratos na Administração Pública e, durante dez anos, como Advogado Operário do Sindicato dos Trabalhadores. De 2000 a 2011, foi Diretor e Coordenador Acadêmico de Universidades Privadas. Foi membro efetivo da Comissão de Direito e Liberdade Religiosa e, também, da Comissão de Bioética da OAB/SP – São Paulo. É Membro efetivo da Comissão de Notáveis da OAB/BC, Balneário de Camboriú, Santa Catarina; É Membro da “Accademia Napoletana per la Cultura di Napoli”, Nápoles, Itália; Associado ao Grupo Martin Buber, de Roma (para o Diálogo entre Israelenses e Palestinos); Associado ao Grupo “Judeus Pela Democracia” (Israel, USA e Brasil) e do Grupo Jewish/Muslin (de solidariedade entre Judeus e Muçulmanos), de New York. É Autor de vários livros, entre os quais, Pierre Proudhon e sua Teoria Crítica do Direito Civil (2021); Direito, Mito e Sociedade (2020); Antropologia Jurídica, com um capítulo especial sobre Israel e Palestina (2017 e 2018); A Morte do Poeta nos Penhascos e Outros Monólogos (2009); Adsum (1992); No Peito (1990) e Amo (1989), assim como de centenas de artigos e pareceres jurídicos; é Poeta, com vários livros de Poesia publicados, e membro da UBE – União Brasileira de Escritores. Em 2004, criou e coordenou o CPPJ – Centro de Pesquisa e Prática Jurídica “Prof. Goffredo Telles Jr.”. Em 2011 criou e coordenou o Grupo de Estudos e Pesquisas NUDAR – Teorias Críticas Aplicadas ao Direito Civil. É Pesquisador Líder do Grupo de Pesquisa TCTCLAE CNPq (Teorias Críticas e Teoria Crítica Latino-americana e Educação), e da Linha de Pesquisa CNPq “Direito Civil Constitucional, Teorias Críticas, Direitos Humanos e Educação. É Pesquisador Integrante do Grupo de Pesquisa VEREDAS PUC/SP-CNPq para o estudo de religiosidades populares. Desde 1990, é Professor de Literatura, Direito Civil, Filosofia e Filosofia do Direito, Direito Processual Civil e Direitos Humanos em vários cursos (graduação e pós-graduação), entre os quais, Universidade Federal Fluminense; Faculdade de Direito Padre Anchieta; ESA – Escola Superior da Advocacia; EMERJ – Escola da Magistratura do Estado do Rio de Janeiro. Atuou como Professor visitante (2011-2013) na Faculdade de Direito da USP, abordando o tema “Direito Hebraico Comparado”. Ministrou Minicursos em várias Sinagogas de São Paulo e em Santa Catarina sobre Judaísmo e Direitos Humanos. Desde 2013 vêm proferindo Palestras nas Universidades Federais e Escola da Magistratura sobre Israel e Palestina e as possibilidades de diálogos entre esses povos. Foi Pesquisador bolsista CAPES/FUNDASP no Programa de Estudos Pós-graduados da PUC/SP. Tem residência em New York, Napoli, Rio de Janeiro e São Paulo, lugares onde atua profissionalmente. Na Itália, trabalha em “investigazioni civili”, onde também dirige o Projeto Sinagoga Scuola (de Judaísmo Italiano, relacionado aos Judeus e Judias italianos do antigo Quartiere Ebraico di Latina). Desenvolve pesquisas em New York, USA, na área de Direitos Humanos e Direito Internacional, e, também, estudos de Judaísmo Humanista, Fontes Judaicas da Filosofia, da Halacha e do Direito no Seminário Rabínico Latinoamericano de Buenos Aires, Argentina. Atualmente, coordena o Curso de Humanidades e Análise Econômica do Direito na EMERJ – Escola da Magistratura do Estado do Rio de Janeiro. Desde 2019, coordena e edita a Revista de Direito Civil de caráter humanista e constitucional (já na sua 8ª edição). Promove, desde 2011, Encontros Inter-religiosos com visão multicultural e, desde 2021, compõe um grupo em formação de Diálogo entre Judaísmo, Cristianismo e Islamismo. Está escrevendo, junto com dois outros Professores da PUC/SP, o livro sobre Monoteísmos: Judaísmo, Cristianismo e Islamismo, sendo responsável pelo capítulo sobre Judaísmo. Tem contrato com uma Editora para escrever sete volumes de Direito Civil Constitucional, um volume de Direitos Humanos e um de Filosofia do Direito. Para 2023, prepara a edição do livro: A Crise Sacrificial do Direito: uma leitura dos Sacrifícios, do Direito e das Relações Dialógicas, e do livro: Judaísmo e Direitos Humanos, e do livro Inflexões Anárquicas e Alguma Poesia no Umbigo da Mulher Amada. É colunista do site A Voz da Esquerda Judaica.nardelladellova.blogspot.com

https://cnpq.academia.edu/PietroNardellaDellova

 Tânia Maria Baibich é Doutora em Psicologia Social pela USP, Pós Doutora em Preconceito na Escola pela University of Michigan; Professora Titular do Programa de Pós-Graduação em Educação da UFPR (1989 a 2018); Pró-Reitora de Extensão e Cultura (1994-1998); Presidente Eleita do Fórum Nacional de Pró-Reitores de Extensão das Universidades Públicas por dois períodos (1995/1996); Membro da Comissão Nacional de Avaliação Institucional das Universidades Brasileiras (1994); Orientadora de Mestrado e Doutorado e Supervisora de Pós-Doutorado, dentre estes: a primeira Doutora Quilombola do país, a primeira Pós-Doutora surda do país, o único Doutor negro da Rede Municipal de Araucária, do Mestrado da primeira Vereadora negra de Curitiba. Foi Bolsista de Pesquisa do Conselho Nacional de Pesquisa por dois triênios. Publicou 42 artigos em periódicos, 31 capítulos de livro e dentre os livros ressalta o intitulado Fronteiras da Identidade: o auto-ódio tropical. Desde o início da Pandemia é membro da Comissão Coordenadora de Saúde Emocional da Comunidade Israelita de Curitiba. Membro da Equipe de apoio do Women Wage Peace no Brasil.

O nazismo foi ruim para quem?

O nazismo foi ruim para quem?

É matemático: a situação política, econômica e social piora, e lá vem gente falar em nazismo. Neste Brasil onde querem que tudo se desregulamente e se libere (surfando nas mais destrutivas pulsões), os arautos da liberdade total de expressão renovam suas investidas. E porque não um partido nazista? Se todas as linhas podem se expressar, porque não debater com nazistas? Monark, o youtuber, e Kim Kataguiri, o deputado, unidos na aparente liberdade de debater, acham errado que Brasil e Alemanha criminalizem (em graus diferentes) o nazismo. Como disse o youtuber, deixem que nazistas e judeus confrontem suas ideias! Como se os judeus fossem um partido político, e como se nazistas tem interesse em debater o que quer que seja, e não impor goela abaixo sua doutrina assassina. Estranha liberdade. E então Pondé, o filósofo inteligentinho, discorre no jornalão sobre o “equívoco do jovem liberal” (Monark), enquanto a esquerda já rotula o youtuber de nazista. Sobrou até para a deputada liberal, que confrontou apropriadamente as barbaridades ditas no programa, mas cometeu o pecado (aos olhos mais intransigentes) de se deixar fotografar com supostos nazistas.

Monark não é liberal e nem nazista: ele não é nada. Um zé-ninguém vazio de ideias e ignorante da História, retirado do anonimato pelas mídias eletrônicas. E aí é que mora o perigo: ele é massa de manobra perfeita para neoliberais e nazistas, que advogam a liberdade de expressão e de associação política e econômica totais, livres de freios e regulações institucionais. Depois que tomam o poder, a coisa muda. As SA, milícia formada pela escumalha social, uniformizada por Hitler e semeadora do terror inicial nazista, prepararam o terreno para que Krupp, Siemens e Bayer faturassem alto com contratos generosos com o regime, e com trabalho escravo em suas fábricas. Ah, a liberdade de empreender! Nazistas e empresários dançaram esta valsa por um bom tempo.

Já conhecemos alguns que faturaram alto com o nazismo, mas e quem saiu perdendo? O nazismo foi ruim para quem?

Quem já viu “A Lista de Schindler” e “O Menino do Pijama Listrado” dirá de imediato: para os judeus. Quem tiver mais leitura, ampliará para outras minorias: homossexuais, ciganos, comunistas e Testemunhas de Jeová. Fica a impressão de que, não pertencendo a estas minorias, até que o nazismo poderia passar como mais um regime totalitário, entre tantos outros.

A verdade é que o nazismo foi ruim para todos, inclusive para seus apoiadores iniciais. Assim que tomaram o poder em 1933, os nazistas inauguraram em menos de dois meses seu primeiro campo de concentração, Dachau. Uma categoria profissional que frequentou bastante este campo foi a dos jornalistas. Criticou o regime? Vai para uma temporada de “reeducação” lá. Voltavam quebrados física e psicologicamente, sem trabalho e sem jornais que os albergassem, pois tiveram redações vandalizadas pelas SA e foram fechados pelo regime. Na política, Hitler proscreveu todos os partidos políticos já em 1933, mesmo os conservadores que o apoiaram inicialmente (alô, Kataguiri!). O parlamento alemão virou monopartidário, só com a claque apoiadora do regime. Liberdade política total para aplaudir Hitler.  Fim da democracia, de uma só canetada.

Então não bastava ser alemão e “ariano” para se dar bem? Nem de longe. Que o digam todos aqueles que tinham a mínima crítica ao regime. Que o digam os dirigentes das SA, assassinados em 1934 a mando de Hitler para abrir caminho para as SS, na chamada Noite das Facas Longas. Que o digam os parentes de “arianos” com deficiências físicas e mentais, vítimas do programa nazista de “eutanásia”. Em Berlim, estive no memorial do Programa T4, na Tiergartenstrasse 4 (daí o nome). Os nazistas eliminaram dezenas de milhares de deficientes físicos e mentais da “raça ariana” em câmaras de gás. Hitler queria uma “raça” perfeita, e campanhas foram feitas sobre os custos de sustentar gente “inútil”. O Programa T4 serviu como treinamento para os futuros operadores das câmaras de gás de Auschwitz e outros campos de extermínio. Quem denunciava às autoridades os destinados ao “tratamento especial” eram os próprios médicos (!!!) das vítimas. No memorial, uma escultura representa os ônibus cinza que vinham buscar as vítimas em suas casas, com janelas opacas, pintadas da mesma cor. A família era obrigada a entregar seu parente. Horror puro.

Para encerrar esta fatura macabra e autofágica, ressalto uma característica do nazismo que acrescenta horror ao já horrível infanticídio de crianças das “raças inferiores”: o filicídio. A cúpula nazista mandava os próprios filhos e netos para a morte certa, em nome do sacrifício pela raça e pela pátria. Nem me estenderei sobre o conhecido assassinato dos seis filhos do casal Goebbels, envenenados com cianureto no bunker de Hitler, a mando dos pais (que se suicidaram em seguida) e pelo médico (médico!!!) de Hitler. Dou outro exemplo menos conhecido, o das pontes de Pichelsdorf, a oeste de Berlim. Em abril de 1945, últimos dias da guerra na Europa, 5000 garotos da Juventude Hitlerista foram enviados para estas pontes, com a ordem: detenham o avanço soviético até que o exército do general Wenck chegue. Só que mentiram para eles: não havia exército salvador nenhum. O Exército Vermelho chegou lá e destroçou os jovens combatentes. Antes, ofereceram rendição, sem resultado. Abalados, os soldados soviéticos contaram estarrecidos da grande quantidade de garotos que combateram até o fim e se suicidaram para não serem aprisionados. Dos 5000, restaram prisioneiros somente 500. Sacrifício inútil, crime final de um regime filicida.

O nazismo é tudo de ruim, para todos. Reduzir o mal que fez somente para minorias é um erro. O nazismo é patrimônio histórico a ser estudado e debatido nos seus detalhes, para que nunca mais floresça. Se tentar irromper, deve ser ceifado na raiz, pela letra da lei.

Esgotos parlamentares

Esgotos parlamentares

Aprendi que os canalhas serão sempre canalhas, e que os mexeriqueiros são sempre mexeriqueiros, e que os que estudam, estudam sempre, e que os mercenários da educação são sempre mercenários da educação.

Aprendi que o caráter de uma pessoa não depende do seu patrimônio, nem de sua raça e nem de sua crença…, porque onde estiver o cadáver ali mesmo se reunirão os abutres, herdeiros, causídicos, estelionatários e outros interessados.

Aprendi que o amar, a liberdade, a dignidade e a grandeza, nada valem diante de quem vive pelo dinheiro, fazendo contabilidade e olhando vitrines!!!

E aprendi, também, que maus alunos o são em qualquer escola, comum ou judaica, pública ou particular, estadunidense, brasiliana ou italiana!

 Vejam, no final dos anos 90, eu comecei a apresentar meu trabalho, em uma das disciplinas do Mestrado da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo. Faz muitos anos…  O tema era sobre as meninas de rua do Rio de Janeiro do final do século XIX. Meu professor, então Ministro da Justiça, cochilava, cochilava de modo irresistível. (uma nota para esta edição do A Voz da Esquerda Judaica: este meu Professor assinaria, anos mais tarde, o Pedido de Impeachment contra Dilma Rousseff e ele era, que coisa!, o orientador da muito louca Janaina Paschoal, outra a rubricar o Impeachment, isto é, o golpe contra a Democracia). E eu insistia para que ele me ouvisse… mas, ele cochilava…

Chegamos a um lugar sombrio. É um estado de coisa, cujo jogo tornou-se absolutamente estranho. Faltam cartas na partida e o dadinho sempre dá no número seis! Os homens e as mulheres que formaram ninhos (ou rodeiam) no Congresso vivem do jogo, da jogatina. Parece não haver alguém que olhe sobre o espelho d’água a fim de não morrer de susto, de espanto e de terror. Vai ficando cada vez mais difícil identificar no meio da espessa fumaça “saída do esgoto social” que cobre o Congresso Nacional, quem é o parlamentar sério, comprometido e com alguma consciência nacional.

Mas, considerando os ângulos daquelas bacias lançadas nas terras de Brasília e aquele falo erguido, ao centro, como sinal de virilidade (mais prótese que virilidade), não há como não ver ali o reflexo de um povo que jaz na estultícia, no marasmo e na inércia. Afinal de contas, aqueles senhores e aquelas senhoras representam alguém que os elegeu para estarem lá. Representam alguém que se identifica com suas carreiras, seus nobres feitos, sua conduta irrepreensível. Representantes e representados formam uma unidade, indivisível e indissociável. Ali se aninham, não os congressistas de peso, não os parlamentares que atuam para melhorar o sistema jurídico do Brasil, ali estão, simplesmente, os jogadores, os churrasqueiros, os devastadores, os agiotas, os madeireiros, os garimpeiros, os exploradores, os especuladores, e tantos outros influentes participantes de uma sociedade extrativista, escravagista, e ícones de um povo que insiste em ser indolente.

O dinheiro público, vale dizer, o fruto de uma tributação impiedosa e agressiva, não encontra administradores e gestores capazes de cumprir o contrato político e social. Como pressuposto de qualquer contrato temos dois princípios norteadores: o da boa-fé e o da probidade. Deste, não há o senso íntegro, ético e justo na formação de um sem número de congressistas. Daquela, não há sinal, ao contrário, e, vale lembrar, como já dispunha o antigo Código Criminal do Império, permanece a má-fé que é o conhecimento do mal e a intenção de praticá-lo. Isto!

Má-fé e improbidade norteiam as ações, as omissões, os discursos, os desvios e as lamúrias dos parlamentares (melhor dizer, de quase todo parlamentar, seja federal, estadual ou municipal).

O

mundo vai desabar, acabar num monturo

de servidores comissionados e sem competência

e num volutabro de políticos,

e policiais inaptos e violentos, e juízes mórbidos de escrivaninha…

o mundo vai desfazer-se no esgoto

e no arroto, e no vômito, na descarga malcheirosa

e tornar-se um busilhão  na numerosa imundície

dos tropeiros do governo

e na sua infecta intromissão.

o mundo vai acabar

nesses montes de vermes,

nessa disentérica sociedade,

o mundo vai acabar nesses montes

de merda, baratas, bigatos e coisas tais.

Ouvi do presidente do Senado, o senhor José Sarney, a declaração de que não sabia sobre os inúmeros diretores e funcionários, alguns fantasmas do Congresso. Esta declaração, por si só, atesta a má-fé de Sua Excelência. Sim, má-fé que é, também, desconhecer algo ou alguém que, no exercício de uma profissão ou atividade é pressuposto de ação! Fosse em outro lugar, o povo teria pedido a cabeça daquele imortal (sem mérito)!

Ouvi do presidente da Câmara dos Deputados os reclamos e lamúrias acerca da mídia e da falta de prestígio que vive aquela casa. Aliás, não apenas ela, mas todo o Congresso Nacional. Equivoca-se aquele Deputado. O Congresso Nacional, seja Senado ou Câmara dos Deputados, não está em jogo, apesar de forjarem o jogo, de desvirem cartas, de encravarem no dadinho apenas o número seis e de facilitarem, por ação ou omissão, por loucura ou estupidez, por apego ao dinheiro público e fácil, ou simplesmente por incompetência administrativa.

Os mercenários da república,

são falsos, são mentirosos, são desumanos,

são culpados da fome, e da peste,

e são culpados da ignorância,

e são culpados da morte!

mercenários da república, que falam, e discursam, e gastam!

–são protetores dos próprios interesses–

os mercenários da república, que assistem no conforto, e no luxo,

e na fartura, e no descanso, e no descaso,

a morte dos desgraçados e empesteados,

(por nada, por cada)

pela sua vontade pornográfica, por cada porco de gabinete!

os mercenários da república, são malignos mercenários!

são sujos mercenários!

são pervertidos mercenários!

–são mercenários–

Apesar da má-fé e da improbidade, a ideia de Congresso permanece. O conceito de Legislativo permanece. O princípio pelo qual o povo possa democraticamente ser representado em debates de alto nível mantém-se. E, finalmente, apesar destes Deputados e Senadores estarem ali, hoje, ainda é possível  imaginar que o “Poder” do Estado possa ser dividido em três frentes independentes e harmônicas de ação clara e transparente: Legislativo, Executivo e Judiciário! É o que temos a preservar em face da Constituição Federal de 1988.

O resto, bem, o resto é o seguinte, de modo repetitivo, ipsis litteris: mantenhamos os canalhas à distância (e serão muitos), não nos associemos a estelionatários, agiotas e outras sanguessugas (e serão muitas), não defendamos cegamente ninguém na política brasil(eira), pois, comumente, as cadeiras da política são ocupadas por traseiros perversos (e são muitos!) que dispensam ao povo (melhor seria dizer massa!) apenas suas flatulências!

NOTA FINAL IMPORTANTE

O texto acima fora escrito antes de 2009, como Artigo para a Revista Z, da qual eu era Articulista, e, também, para o meu Blog Café e Direito. Posteriormente, foi publicado no meu livro A Morte do Poeta nos Penhascos e Outros Monólogos, de 2009. Republico, hoje, 2022, pois seu conteúdo está perfeitamente demonstrado no que veio depois: o golpe dado em 2016 contra o Mandato de Dilma Rousseff, o bolsonarismo que hoje tem bancada forte no Congresso, nas Assembleias e Câmaras Municipais, a bolsonarização das Instituições (Bolsonaro é “criatura” dos esgotos parlamentares), o arquivamento injustificado dos Pedidos de Impeachment contra Jair Bolsonaro (um deles, com minha participação), a militarização do Executivo, a neofascistização da sociedade, a neopentecostalização da política e das políticas públicas (saúde, educação, tecnologia, pesquisa, direitos humanos etc, setores ocupados por militares incompetentes, neopentecostais e olavistas) assim como a sergiomorização do Judiciário, incluindo o processo sem provas, a condenação sem pé nem cabeça e prisão ilegal do ex-Presidente Lula, tudo isso e coisas tais, que levaram o país a um estado de esgoto a céu aberto, à destruição da estrutura democrática e à morte de mais de 625 mil pessoas. As baratas estão aí, no Legislativo e, desse lugar, para o Executivo e respectivos Ministérios. O ano de 2022 deverá ser (ou deveria ser) de limpeza completa da bolsonarização e sergiomorização (faces do mesmo esgoto social, político e judiciário), a redescoberta dos valores democráticos, a defesa inegociável da Constituição Federal e a luta diuturna pelo processo civilizatório.

© Pietro Nardella-Dellova

(in A Morte do Poeta e Outros Monólogos. Ed. Scortecci, 2009, pp 286-290)

Religião, Judaísmo, Direitos Humanos, Fascismo e o Neofascismo trumpista e bolsonarista

Religião, Judaísmo, Direitos Humanos, Fascismo e o Neofascismo trumpista e bolsonarista

Diante do ataque ininterrupto à Democracia e aos Direitos Humanos que verificamos no mundo, em especial, nos Estados Unidos, Itália e Brasil, sobretudo com legitimação religiosa, pergunto-me ainda: há mesmo quaisquer relações e afinidades entre Religião e Direitos Humanos? Venho abordando alguns aspectos e facetas desses questionamentos há muitos anos, promovendo ou colaborando com encontros, congressos e outras atividades. E, se há afinidades entre Religião e Direitos Humanos, pergunto: são construtivas ou negativas? Minhas inquietações sobre esse tema transbordaram da investigação meramente particular, e alcançaram grupos e atividades ligados ao Direito e ao Judaísmo.

Por conta disso, ministrei aulas e minicursos, e fiz alguns debates, palestras e exposições. A investigação sobre o fenômeno religioso multicultural e suas relações com a Política e o Direito, em especial, com os Direitos Humanos, principalmente nos tempos atuais em que se percebe um forte vento de fascistização e, por isso mesmo, de destruição de direitos humanos e relativização de direitos fundamentais, leva-nos ao debate sobre o assunto.

A política, uma vez deteriorada e democraticamente fragilizada, abre-se à fascistização, e, para sobreviver, invoca pressupostos religiosos como fundamento do fascismo, expõem-no Gentile e De Felice em seu A Itália de Mussolini e a Origem do Fascismo, e encanta o imaginário religioso cristão popular, como atualmente fazem políticos, a fim de destruir direitos com frases e ideias de efeito, como as que povoaram os recantos europeus no avanço e fortalecimento do fascismo mussolinista e do nazismo hitlerista, na primeira metade do século XX.

A ideia de que uma religião é maior, ou melhor, quando defendida em plateia popular, como fazia Mussolini, tem por objetivo único despertar a relação de simpatia, unidade, proximidade e, finalmente, domínio. É a mesma Igreja que sempre desfrutou de um reconhecimento oficial, institucional (e até jurídico), como lembra Ênio Brito, da PUC/SP, com seus valores sociais e culturais, mas usada pelo poder temporal para manter o status quo, no cenário político. Em 1924, em um de seus discursos em defesa do regime fascista, disse Mussolini:

L’unità religiosa è una dele grandi forze di un popolo.

 Para Leandro Konder, houve um clerical-fascismo na Igreja Católica da primeira metade do século passado, com as alianças feitas entre a Igreja e o Estado Fascista de Mussolini. Antonio Gramsci faz uma nota e, depois, desenvolve o assunto, sobre o posicionamento da Igreja, inclusive, por uma Carta oficial do Cardeal Pacelli com resumo do Discurso do Papa, segundo o qual não havia incompatibilidade entre a ação Católica e o Partido Nacional Fascista. Realmente, lembra Konder, Mussolini pregava o princípio intrínseco religioso da italianidade para fundamentar seu Estado fascista:

“lançar as bases da grandeza italiana no mundo, partindo do conceito religioso de italianidade”

A relação entre a Igreja e o Fascismo mussolinista não foi outra coisa senão a cruz e a coroa entrelaçadas, indissociáveis, numa relação simbólica, amalgamando economia, religião e política. Aqui cabe uma reflexão prévia sobre as afinidades eletivas entre Igreja e Estado Fascista, e, assustados, perguntaríamos se isso é possível, pois em uma olhadela a priori não parece haver sequer dialética entre uma situação e outra, pois na dialética ainda há um encontro para a evolução das ideias. Porém, a resposta fica clara se considerarmos a instituição Igreja e a instituição Estado, não seus pressupostos ideais: Evangelho de Jesus e Política.

Afirmo muito simplesmente que, tanto para a Igreja quanto qualquer outra instituição religiosa, entre as quais, a comunidade judaica, faz-se necessário romper e trair, explicitamente, seus valores e princípios, respectivamente, de Jesus e Moisés, para conseguir comungar com um Estado fascista ou nazista e, de resto, com qualquer Estado autoritário, antidemocrático, militar, impositivo e que não respeita a pluralidade. É uma mentalidade que permeia a ideologia da conquista e, tanto na Igreja quanto no Estado, ambos fascistizados, o que se leva em conta é a homogeneidade, unidade religiosa e desprezo por quaisquer formas de pluralismo religioso e civil, porque o pluralismo, em qualquer sentido, é necessariamente antifascista.

De fato, em 1929, houve uma aproximação e acordo de “paz” entre a Igreja e o Estado fascista que, segundo Mussolini, tinha sido feito pelo Fascismo, porque para ele essa reconciliação entre a Chiesa e o Stato era de importância excepcional, tanto para o indivíduo quanto para a coletividade nacional. Sobre esse fato, disse ele em 1936:

“Grandioso evento quello dell’II febbraio 1929 che suggellava la pace fra Chiesa e Stato. Era un problema che pesava da sessant’anni sulla coscienza della Nazione. Il Fascismo lo ha risolto. Tutti quelli che lanciavano dei presagi oscuri sull’avvenire, sono rimasti mortificati ed umiliati. È di una importanza eccezionale  nella vita di un Popolo che Stato e Chiesa siano riconciliati nella coscienza dell’individuo e nella coscienza coletiva dell’intera Nazione.”

Poderíamos avançar sobre as afinidades entre religiões e Direitos Humanos, o que nos leva, por experiência histórica, no sentido contrário, a outra questão: quais são as afinidades entre religiões e fascismo? Por outro lado, é também possível um processo de resistência e emancipação, ou de fortalecimento dos direitos a partir da religião – vista por outro ângulo.

É a pergunta que me fiz, por uma questão inicialmente particular, que diz respeito ao Judaísmo nesse cenário político e de Direitos Humanos. Outra pergunta diz respeito a quaisquer religiões e suas contribuições aos Direitos Humanos e, assim, para o processo que envolve mudança e emancipação. Neste sentido, Clifford Geertz traz interessante reflexão sobre

“a importância da religião como componente das mudanças sociais, e não mais considerada simplesmente como obstáculo a essas mudanças, nem como voz, obstinada e condenada, da tradição, faz da época atual um momento especialmente gratificante para a espécie de pesquisa que acabo de invocar”

Conforme Pinsky, as religiões deveriam servir mesmo para aperfeiçoar o ser humano, mas, infelizmente, têm sido (até aqui) responsáveis por massacres, torturas, guerras, perseguições, intolerância e outras atrocidades em nome de Deus. Hoje, isso não poderia acontecer com a Igreja, ao menos enquanto estiver sob a orientação humanista e progressista do Papa Francisco (Jorge Mario Bergoglio). Porém, acontece com movimentos neopentecostais no mundo todo, que têm, estrategicamente, uma religiosidade católica intrínseca, um mínimo católico, inclusive com utilização de símbolos católicos e judaicos, como, por exemplo, a cruz e a menorá (candelabro de sete velas) e, no Nordeste, há, ainda, a utilização de elementos característicos dos cultos de matriz africana.

Todos, sem distinção, com um tipo de pregação bíblica reducionista e fundamentalista, profética, moralista com ataques diuturnos às religiões afro-brasileiras e ao movimento LBTQIA+ que identificam, respectivamente, com culto aos demônios, feitiçarias, bruxarias e paganismo sexual, utilizando, para isso, massiva rede de programas em rádio e televisão.

Tal o seu crescimento e desdobramento social e político que os neopentecostais vêm sendo estudados no Brasil, afirma Londoño, desde o final dos anos 90, por conta de um pentecostalismo transnacionalizado. Trata-se de grupos colaboracionistas com pautas autoritárias, homofóbicas, misóginas, racistas, negacionistas, antidemocráticas e de ruptura com Direitos Humanos. Assim como ocorreu ao tempo do mussolinismo e hitlerismo (nazifascismo), tais grupos religiosos, intrinsecamente autoritários, são convocados por uma circunstância impositiva a dizer algo que favoreça o movimento neofascista, a oposição sistemática aos Direitos Humanos e o estabelecimento de uma violência institucionalizada, atualmente com os novos discursos estadunidense, italiano e brasileiro, respectivamente, de Trump, Bolsonaro e Salvini, todos eles racistas, com políticas violentas contra migrantes e contrários ao pluralismo e multiculturalismo.

Mantém-se, ainda, a ideia de emissários de Deus, e pregadores da Palavra de Deus, antes como coordenadas bíblico-europeias, e hoje como pauta impositiva bíblico-americana. São grupos formados por pessoas a que Gramsci chamou de uomo-massa, ou seja, pessoas que vivem simultaneamente com discursos rasos, carências econômicas ou uma necessidade de manter certo status econômico que exclua os diferentes.

Parece-nos claro que um novo fenômeno religioso fascista se verifica atualmente em vários lugares do mundo, em especial, no Brasil e Estados Unidos, respectivamente, com o bolsonarismo e trumpismo.

Com o crescente movimento antidemocrático bolsonarista, caracteristicamente mussolinista, incluindo o apelo à massificação religiosa “deus acima de todos”, pareceu-nos oportuno promover reflexões a fim de debater esse fenômeno e o perigo em relação aos Direitos Humanos.

Contemporaneamente, o mundo está em um processo de fascistização, de perda de direitos básicos e relativização de direitos fundamentais. É notório o ataque aos direitos básicos, tanto individuais quanto sociais. Ou seja, os Direitos Humanos, não apenas sofrem certo desprezo popular e o escárnio da sociedade, mas são vilipendiados. Os Direitos Fundamentais (expressão escrita e positivada dos Direitos Humanos) são triturados diuturnamente com a renovada opressão do Estado e dos entes econômicos e financeiros que o tomaram, ainda que seja por vias formalmente democráticas.

Conforme esclarece Palmiro Togliatti, em seu pequeno livro Lições sobre o Fascismo, o embrutecimento social e econômico italiano da primeira metade do século passado, com a fragilização das instituições e a transformação reacionária das massas populares, sedimentou o caminho para o fascismo. Segundo ele, as forças burguesas se incomodaram com os sistemas democráticos, fulminando-os, porque não atendiam seus propósitos de governo, e sustentaram o fascismo. Há uma derrota da democracia.

Atualmente, há movimentos neofascistas em processo adiantado de fortalecimento, com discursos semelhantes ao fascismo mussolinista dos anos 20, tendo na religião ou religiosização, um de seus fundamentos.

Entretanto, De Felice, um respeitável fascistólogo, considerou que o conceito de fascismo ficasse adstrito ao passado. Por isso, Leandro Konder o criticou, pois, em que pese seus trabalhos sérios sobre o fascismo, pretender, de modo conservador, que o conceito de fascismo ficasse exilado no passado e restrito ao mussolinismo e hitlerismo, é um erro. Para Konder, essa postura propicia a confusão e o enfraquecimento de forças antifascistas, tirando-lhes a capacidade de leitura contemporânea da fascistização e neofascistização, tendo em vista que esse fenômeno pode reaparecer, modificado, na atualidade.

Parece-nos que as características básicas estão revelando um movimento que confirma o texto de Leandro Konder. Muitos têm usado, não apenas um discurso agressivo e de destruição de direitos, mas, também, símbolos nacionais e religiosos nas suas manifestações. Por exemplo, o uso da Bandeira de Israel levantada nas manifestações bolsonaristas antidemocráticas, e a Bíblia, erguida pelo trumpismo estadunidense.

É um processo de religiosização política, assim como ocorreu no mussolinismo. No caso do Brasil, movimentos neopentecostais, entre os quais, aqueles que se intitulam “judeus messiânicos”, têm levado a Bandeira israelense às manifestações antidemocráticas promovidas pela extrema-direita, o que, por si só, merece repúdio.

Apesar do repúdio ao abuso, é uma realidade que cada vez mais se acentua e se fortalece, ainda que o Judaísmo e o Cristianismo nada tenham que legitime o trumpismo e bolsonarismo. Afinal, o que teriam Jesus de Nazareth e seu Sermão da Montanha, e Moisés e sua Torá, com o trumpismo e bolsonarismo – inescondíveis movimentos neofascistas de ataques e desprezo aos negros, aos estrangeiros, às mulheres e outros grupos chamados minorias? A resposta nos parece clara: nada! Não há qualquer afinidade entre os discursos trompistas e bolsonaristas e o Judaísmo.

© Pietro Nardella-Dellova

NARDELLA-DELLOVA, Pietro. JUDAÍSMO E DIREITOS HUMANOS. Tese de Doutorado: PUC/SP, 2021, acesso in A Voz da Esquerda Judaica

 

NOTAS BIBLIOGRÁFICAS

  1. Antonio Gramsci. Note sul Machiavelli, sulla Politica e sullo Stato Moderno. 3ª edizione. Torino: Giulio Einaudi Editore, 1953, p. 306 e pp. 223-307;
  2. Cesare Luporini. Gramsci e la Religione. III Convegno di Studi di Filosofia della Religione. Università di Perugia, Cattedra di Filosofia della Religione, 1978;
  3. Clifford Geertz. O Futuro das Religiões. Trad. Paulo Migliacci. Folha de São Paulo de 14/05/2006;
  4. Spinetti. Sintesi di Mussolini. Rocca San Casciano: Cappelli Editore, 1950, p. 295 (este livro fora publicado em 1937 em defesa do regime fascista, e republicado em 1950, demonstrando que o apego ao fascismo continuou fortíssimo após a II Guerra Mundial, aliás, com é até hoje);
  5. Elizabeth Bruenig. The Last Temptation of Trump: the president brandishes a Bible in front of a church, in search of a divine mandate that isn’t coming. In The New York Times. https://www.nytimes.com/2020/06/02/opinion/trump-bible-speech-st-johns-church.html, acesso em 1/10/2020;
  6. Emílio Gentile e Renzo de Felice. A Itália de Mussolini e a Origem do Fascismo. Fátima C. Murad. SP: Ícone, 1988, pp. 14-15;
  7. Ênio Brito. Anima Brasilis: Identidade Cultural e Experiência Religiosa. SP: Ed. Olho d’Água, 2000, p. 83;
  8. Fernando Torres Londoño. História das Religiões: Breve Panorama Histórico e Situação atual no Brasil. in João Décio Passos e Frank Usarski (org): Compêndio de Ciência da Religião;
  9. Jaime Pinsky e Carla Bassanezi Pinsky (org.). Faces do Fanatismo. SP: Ed. Contexto, 2004, p. 15;
  10. Leandro Konder. Introdução ao Fascismo. 2ª ed.. RJ: Graal, 1979, pp. 16, 103 e 111;
  11. Palmiro Togliatti. Lições sobre o Fascismo. Maria T. L. Teixeira. SP: Ed. C. Humanas, 1978, p. 7;
  12. Pietro Nardella-Dellova. A Bandeira de Israel ou, Judeus de Esquerda Acordem! in A Voz da Esquerda Judaica. https://mauronadvorny.com.br/site/2020/05/03/a-bandeira-de-israel-ou-judeus-de-esquerda-acordem1/ acesso em 1/10/2020;
  13. Pietro Nardella-Dellova. Não confunda o Judaísmo com o bolsonarismo. In A Voz da Esquerda Judaica. https://mauronadvorny.com.br/site/2020/05/06/nao-confunda-o-judaismo-com-bolsonarismo/ acesso em 1/10/2020;

 

NOTA DE ESCLARECIMENTO

Os chamados Judeus messiânicos, em qualquer parte do mundo, são, na verdade, cristãos que se valem de símbolos judaicos, livros de serviços sinagogais, utilizam um vocabulário teológico com palavras em hebraico, entretanto são cristãos evangélicos, que enxergam Israel de um ponto de vista mítico e profético. O grupo foi criado pelo Pastor batista Martin Rosen nos Estados Unidos, em 1973, com o nome “Jews for Jesus” (Judeus para Jesus) com o objetivo de converter Judeus para o Evangelismo, pois acreditam que Jesus só voltará quando todos os Judeus o “aceitarem” como Messias. Hoje, há muitos grupos, inclusive em Israel, e, no casos do Brasil, estão na base de apoio do bolsonarismo.

 

 

 

Minha experiência com “Celso Daniel”, e um texto contra o lavajatismo do esgoto curitibano

Minha experiência com “Celso Daniel”, e um texto contra o lavajatismo do esgoto curitibano

Uma das piores coisas é, não apenas falar mal de um homem, mas falar mal dele depois de morto. Pior ainda é usar seu nome e memória para a prática da política mais rasteira como tem feito o ajuntamento de chacais (mal chamado de “oposição”).

 

Oposição, lembremos, em uma civilização e em uma sociedade democrática, é muito importante, importantíssima. É alguma coisa de maior, bem maior. Não é isso que aí está. Isso que aí está é apenas ajuntamento de chacais. Por outro lado, surpreende (e a mim, que estou na Docência do Direito, faz mais de vinte anos, terrifica), saber que juízes e procuradores tenham se permitido centrifugar para a partidarização, deixando de lado uma importante operação, a Lava-Jato, e, nos últimos dois meses, fabricado cenas e situações para intervir na política e prestar, já está claro, um desserviço ao Direito enquanto prestam um serviço aos partidos de direita, “oposição”.

 

É uma desgraça para o Direito o comportamento de tais juízes e procuradores! As últimas ações antijurídicas (e midiáticas), agora, foram a de retomar o caso Celso Daniel (ex-prefeito de Santo André, assassinado em 2002) e, de forma insana, ligá-lo aos partidos que estão no poder, especialmente ao PT (atribuindo ao PT a morte de Celso Daniel).

 

Resumo o assunto – e vou ao ponto “Celso Daniel”. Faço-o, infelizmente, depois de ler inúmeras absurdidades publicadas nessas redes (anti)ssociais. Posts que apenas fazem por piorar a situação da já moribunda e pouco inteligente “opinião pública”. Faço-o, também, pelo apreço que tinha por Celso Daniel e por considerar ter sido ele umas das figuras mais esclarecidas e boas no cenário político.

 

Nunca fui do PT nem de Partido algum. Aliás, em 1989, fazendo oposição pública e construtiva ao PT (e suas pretensões presidenciais) na Faculdade de Direito, apoiei (e incentivei o apoio) à candidatura presidencial de Mario Covas, movido, não tanto pela figura do próprio Mário Covas, mas pelo respeito que tinha (e tenho) por Franco Montoro, um político do antigo MDB e, após Orestes Quércia dominar e estragar o PMDB paulista, foi fundador do antigo PSDB (hoje, óbvio, o PSDB é qualquer coisa menos aquele PSDB de Montoro!).

 

À época, eu tinha, também, um grave conflito com a APEOESP (Sindicato dos Professores do Ensino Oficial do Estado de São Paulo), sobretudo, em relação à estratégia de “greves”. A APEOESP apoiava o PT e estava em sua base sindical. Meu conflito com o Sindicato chegou a tal ponto que, por algumas semanas seguidas, vários Artigos (meus, dos diretores do Sindicato e de outros) foram publicados pela Folha de São Paulo, em público debate – quase ofensivo!

 

Eu era Professor (de Literatura) e membro da União Brasileira dos Escritores (UBE). Muito bem, mesmo sabendo de tudo isso, Celso Daniel me chamou em 1990 e, depois de conversarmos, contratou-me no começo de seu primeiro Mandato à Prefeitura. Eu atuava, então, além da Docência, na iniciativa privada, em uma área de ponta, muito refinada, Logística (e tinha também, à época, formação jurídica). Tudo isso interessava à modernização da Prefeitura.

 

Celso Daniel, ao me contratar, disse três coisas: “caro Pietro Dellova, sabemos que você não é do PT, sabemos da tua integridade e queremos que faça o que puder para, não apenas “limpar” o Departamento de Licitações e Materiais, mas para dar a ele a transparência necessária”.

 

Afastei funcionários que estavam ligados a vários esquemas de corrupção do prefeito anterior (PTB de Newton Brandão), encabecei um projeto de O&M (Organização e Métodos), mudei o layout do setor DECOM (Depto Comercial), bem como do Setor de Contratos e Licitações (tirando as paredes e deixando as mesas expostas e visíveis), criei o conceito de “almoxarifados” (e organizei mais de sete à época), tanto na área interna da Prefeitura como nos Centros Médicos e, principalmente, nos depósitos de materiais de construção. Determinei a revisão de vários contratos (firmados anteriormente), a abertura de sindicâncias e começamos a por a casa em ordem.

 

Participei de poucas reuniões com membros do PT (sempre fui visto como estranho no ninho e não tinha interesse algum partidário), mas, das reuniões que participei ouvia sempre elogios de todos, sobretudo do próprio Celso Daniel. A orientação era a de prosseguir no trabalho e tornar a Administração transparente e capaz de atender aos munícipes.

 

Essas ações (e outras, depois) sufocaram naquele momento o esquema de corrupção criado anteriormente pelo PTB, e colocaram todos sob ameaças constantes, inclusive eu mesmo. Eu recebi várias ameaças!

 

A situação que levou Celso Daniel à morte em 2002 (a real, e não a midiática, e, hoje, uma vez mais, sensacionalista, lavajatista e curitibana), foi ter ele continuado sua luta contra uma outra máfia, antiga e abrangente, a saber, a dos “transportes públicos”. A mesma máfia que impede a efetivação de transportes ferroviários (por exemplo), a mesma que está ainda relacionada aos metrôs paulistas, e a um sem-número de cidades, incluindo as do ABC Paulista, São Paulo, Rio de Janeiro, Campinas, entre outras.

 

No mais, é mentira que Celso Daniel “descobriu” os “esquemas” em seu “terceiro” mandato, que tenha feito dossiês contra o PT e que, após descobrir “apenas” em seu terceiro mandato tais esquemas, querendo sair deles (ou opor-se a eles), foi morto a mando do PT. Mentira, estupidez e perversidade!

 

Celso Daniel assumiu, como Prefeito, em 1989, e desde sempre conhecia os esquemas de corrupção instalados anteriormente, aliás, combateu-os sem trégua. Eu mesmo (não sendo do PT, em conflito com a Apeoesp e sendo da iniciativa privada) fui um dos contratados para isso: combater a corrupção e tornar a Administração Municipal moderna e transparente.

 

É esta “máfia dos transportes” (que Celso Daniel combatia) que o assassinou (para mim, não restam dúvidas!), e não o PT, que, mesmo merecendo críticas contundentes por conta de seus maus atos e maus comportamentos, todavia, neste caso, nada deve. Foi essa mesma máfia que matou outro prefeito do PT, ou seja, Antonio da Costa Santos, o Toninho do PT (de Campinas). A morte de Toninho que lutava contra a máfia dos transportes municipais no interior paulista se deu exatamente na noite anterior (10.11.2001) aos ataques às Torres Gêmeas.

 

Em 2005, na CPI dos Bingos, os opositores do PT tentaram ligar membros do Partido à morte de Celso Daniel. No Mensalão, a mesma coisa. Agora, na Lava-Jato, outra vez. Que indignidade! . É um filme repetido (e repetitivo) e sem fundamentos. Aliás, diga-se logo, as únicas falas, nas quais se baseiam os acusadores para tentar ligar o PT ao assassinato do ex-prefeito, são as suposições dos seus dois irmãos, os senhores João Francisco Daniel e Bruno Daniel, dois reconhecidos inimigos de Celso Daniel e, um deles, correligionário do partido contrário, o PTB. É isso!

 

Quem sabe, a memória de Celso Daniel, este bom cidadão, lúcido economista, e exemplar prefeito, seja respeitada finalmente (quando os lavajatistas midiáticos virarem farinha!).

 

Tentar ligar, outra vez, o PT à morte de Celso Daniel, criando cenário cinematográfico e sensacionalista é, não apenas irresponsável, mas monstruoso do ponto de vista jurídico, político e social. Enquanto isso, dada esta provocada confusão, a máfia continua, livre e solta! O Brasil, infelizmente, tem se mostrado um país de mentalidade noveleira, rasa e sem preparo para o enfrentamento, honesto e eficaz, dos desvios na Administração Pública. É muita novela!

 

No mais, tive a honra de trabalhar com o Celso Daniel e, agora, com este texto, poder prestar a ele as homenagens que merece, assim como manter um muro de resistência contra essa direita porca e neofascista que se instalou no país.

 

NOTA:

Texto de 2016 contra os desvios lavajatistas que buscavam, a todo custo, inclusive com desrespeito à CF/88, afastar o PT do cenário político.

 

Pietro Nardella-Dellova

Por que Lula?

Por que Lula?

Por que Lula outra vez? Não estaria na hora de Lula descansar e deixar outro assumir? Sim, mas ocorre que o Brasil precisa de Lula (muito mais que Lula do Brasil). Sob Temer e Bolsonaro, respectivamente golpista e miliciano, regrediu décadas em todos os aspectos. Não há qualquer setor que não tenha sofrido ataque diuturno desde 2016. Sob Bolsonaro, claro, esta face destrutiva (que também é de Temer) ficou desavergonhada, pública, expressa, perversa, miliciana, de um genocídio continuado. Temer é o vampiro, o escorpião e o abutre; Bolsonaro, por sua vez, é o homem da serra elétrica, o bigato, o zumbi. Ambos, criados, formados e fortalecidos no esgoto social do antipetismo.

 

Lula, nesse contexto, é necessário, urgente, imprescindível, é possibilidade de reconstrução e, assim, de viabilizar um legado civilizatório para as próximas gerações. Lula, e nenhum outro, tem capacidade de unir o país em torno de um projeto nacional que é, em qualquer sentido, o projeto constitucional de país. Bolsonaro e Sérgio Moro são faces da mesma cara monstruosa, unidos desde o ventre de modo indivisível, inseparável. Bolsonaro e Moro criaram, juntos, o Estado Destruído do não Direito. Não se trata de uma ideia, de um ponto de vista, de uma opinião – é um fato, histórico! Os outros candidatos são, ou oportunistas, ou arrogantes sem causa, ou desprovidos de qualquer capacidade de união, de projeto, de vigor constitucional, de substância social, tais como Alessandro Vieira (um oportunista), Simone Tebet (desprovida de qualquer capacidade de união e de substância social), Rodrigo Pacheco (desprovido de capacidade de união ou de projeto), Ciro Gomes (um arrogante sem causa) e João Dória (marcado com a presença bolsonarista em seu DNA político, soma de todas as características acima, embora tenha, a seu favor, o apoio à vacina do Butantan contra a COVID-19, claro, nada mais do que seu dever enquanto Governo de São Paulo ao qual se liga o Butatan).

 

E aqui, deixemos claro, não se trata de lulismo, petismo ou messianismo barato. Trata-se de consciência política, ponto de vista analítico, histórico, conjuntural. Trata-se de analisar possibilidades, não a partir de ideias fragmentadas (como ocorre com outros candidatos acima citados) ou a partir de projetos destrutivos já conhecidos e experimentados (o moro-bolsonarismo), mas de algum aspecto conhecido na trajetória de Lula. Lula é o candidato, hoje, para reconstruir o país a partir da Constituição Federal. Por quê? Porque ele tem em seu currículo fatos políticos e de governo, reconhecidos interna e externamente, que o credenciam para o posto de Presidente da República.

 

Mas, é importante, também, levarmos em conta quais são os apoiadores de Lula. Quais são as pessoas que, direta ou indiretamente, estão no contexto de Lula (não do lulismo!).

 

No plano internacional, Lula conta com a simpatia de governos como do alemão Olaf Scholz, do espanhol Pedro Sánchez, do francês Emmanuel Macron, do argentino Alberto Fernández, do chileno Gabriel Boric, do americano Joe Biden (e, claro, de Barack Obama, assim como de quase 80% dos judeus americanos), dos progressistas Israelenses, de grande parte da comunidade judaica democrática mundial (inclui-se a de Israel), entre outros. Lula é considerado no contexto internacional um Estadista e, não poucas vezes, demonstrou sua grandeza nesse plano, incluindo suas passagens, enquanto Presidente, pela ONU.

 

No plano interno, doméstico, Lula conta com o apoio de figuras importantes, tais como Flavio Dino, Alessandro Molon, Marcelo Freixo, Eduardo Suplicy, de centenas de Senadores e Deputados progressistas (não apenas os petistas) e com possibilidade de formar um Congresso com pluralismo político, e proativo nas questões sociais e com base propícia de governo, de setores inteligentes do empresariado, dos trabalhadores em geral, dos Professores Universitários, dos cientistas (sobretudo, na realidade pandêmica, pois sabem que, fosse sob Lula, o resultado teria sido outro), de José Eduardo Cardozo, da quase totalidade da comunidade judaica progressista brasileira (que não é pouca), dos setores democráticos da Igreja Católica, de metade dos Evangélicos, da quase totalidade dos religiosos de matriz africana, da Advocacia esclarecida e democrática, dos Juristas para a Democracia, de quase todos os Juízes da Associação Juízes para a Democracia, do grupo de policiais antifascistas, e até de setores tradicionais do (velho) PSDB. Parece bastante claro que Lula tem, também, o apoio e as bênçãos do Papa Francisco.

 

Além disso, está historicamente demonstrado que Lula não é comunista (e não haveria qualquer problema se fosse!). Digo que não é comunista para rebater o discurso raso que o “acusa” de ser comunista e querer transformar o país em uma Venezuela, Coréia do Norte, China etc. Estes países têm sua realidade específica (nada contra nem a favor neste artigo!) e nenhum deles serviu nos dois governos de Lula, nem serve agora, como referência, exemplo ou modelo. Lula seguiu por outro caminho, realmente da social-democracia (1).

 

Lula é um trabalhista, expressão do PT – Partido dos Trabalhadores, muito mais de Centro-Esquerda (difícil dizer que se trata de um Partido exclusivamente de Esquerda), e tem, como fato demonstrado, respeito absoluto pelos princípios e valores constitucionais, sobretudo, pelos Direitos Fundamentais. Lula, na América Latina, é um elemento agregador (conforme exige a Constituição Federal). No mundo, Lula é um Estadista comprometido com a Democracia, processos civilizatórios, Direitos Humanos Internacionais, solução pacífica de conflitos (conforme exige a Constituição, a Convenção Interamericana de Direitos Humanos e outros Tratados, Acordos e Pactos Internacionais). Mesmo em se tratando de governos criticados, Lula obedece à Constituição Federal que determina respeito à autonomia dos povos.

 

E por que Lula teria condições para governar? Além de tudo o que foi acima exposto, pelo simples fato de Lula ter currículo e fatos. Lula não é uma ideia (discordo dessa coisa!), é um fato, um registro histórico. Os governos de Lula foram os melhores com avaliação de começo, duração e final. E aqui, não se trata de ponto de vista político, mas econômico, assim reconhecido por vários setores e agentes, entre os quais, os liberais. É incontestável que Lula fez ótimos governos. Isso não é exercício de futurologia, mas de análise de fatos históricos, econômicos, estruturais, institucionais. Qualquer pessoa com o mínimo de visão administrativa (inclusive, empresarial), vê, observa, analisa e leva em consideração um currículo. Até nos contratos particulares, privados, de Mandato, em função do qual se outorgam poderes em Procuração, leva-se em conta o todo do Representante. Não seria diferente no que respeita ao “contrato social”, ao contrato público de governo (e de governança!)

 

Não seria necessário, mas é bom reafirmar que Lula foi considerado inocente em todos os processos movidos contra ele. Por inocente, consideramos qualquer pessoa sem condenação criminal, conforme o Artigo 5º, inciso LVII, da CF/88. Não há contra Lula qualquer condenação! Isso é o Direito! Portanto, não importa a osmótica repetição maledicente dos seus detratores, geralmente dos setores pouco esclarecidos, pouco informados ou, ainda, dos grupos que pretendem o poder pelo poder (caso, por exemplo, de Aécio Neves, João Dória, Sérgio Moro, família Bolsonaro e respectivos). Explico, em uma frase: Lula é inocente; Moro foi julgado suspeito! Punto e basta!

 

O que esperar de um eventual governo de Lula?

 

Primeiramente, o equilíbrio econômico (constitucional) entre os valores sociais do trabalho e da livre iniciativa (disposição dos Artigos 1º, IV, e 170 da CF/88), respeito e incentivo à produção nacional, respeito e incentivo à produção agrícola familiar e, também, do grande agronegócio, respeito e incentivo às indústrias nacionais que, todos sabemos, são as que podem gerar empregos efetivos.

 

No plano da Educação, um incremento robusto (como já fez em seus governos passados), tanto nas Universidades Públicas quanto Privadas (sim, também as Privadas que, sob seu governo puderam atender a milhões de estudantes). Lula inaugurou várias Universidades Federais e não há histórico de ter retirado verbas da Pesquisa em Ciência e Tecnologia, muito pelo contrário. O país precisa de Educação sólida e substancial, o que pressupõe investimento sério (e constitucional) no Ensino e na Pesquisa. Não é demais, neste momento, repetir o óbvio: a grandeza de um país começa e se mantém a partir da Educação e da Pesquisa.

 

Quanto ao Estado e sua estrutura institucional, espera-se de Lula, à luz do que já demonstrou em seus governos, respeito entre Poderes e na estrutura estatal. Mas, com um acréscimo, espera-se de Lula, não apenas o respeito exigido de um Presidente, mas, agora, a reconstrução, a costura, o fortalecimento e o diálogo institucional, rompido pelo moro-bolsonarismo. Espera-se que os órgãos de Estado, como a PF, Forças Armadas, MP, Agências, Universidades Federais etc, sejam reconduzidas à sua autonomia plena e independência administrativa, a fim de realizarem o que deles se espera constitucionalmente. O moro-bolsonarismo destruiu esta autonomia, e tornou esses órgãos, ou constante “saco de pancada” ou grupos milicianos a serviço de um governo reconhecidamente anticonstitucional, antidemocrático e destruidor.

 

Espera de Lula, em sintonia com o mundo, a proteção inegociável do Meio Ambiente, com utilização inteligente e sustentável dos recursos naturais. Espera-se o combate efetivo e determinado à grilagem, ao garimpo ilegal, à pecuária agressiva e ilegal, ao desmatamento criminoso. Espera-se de Lula a proteção integral dos povos originais. Espera-se de Lula a proteção integral dos grupos religiosos, das diversidades. Espera-se de Lula que propicie o diálogo inter-religioso, intercultural e inserção das minorias. Espera-se de Lula o combate diuturno ao racismo (todas as formas de racismo), à misoginia, à homofobia, ao antissemitismo, à islamofobia, à precarização dos direitos dos trabalhadores, ao desrespeito aos aposentados. Enfim, espera-se de Lula o que Lula já fez, com o acréscimo de que, agora, o cenário é de reconstrução de um país arrasado pelo moro-bolsonarismo. Nada disso espera-se dos seus concorrentes (e nem considero aqui Moro ou Bolsonaro, cujo destino deve ser o de responder judicialmente pelos seus atos ilícitos e, em alguns casos, criminosos). Não há, no discurso e no currículo dos outros candidatos qualquer sinal de que podem realizar o país previsto e desejado pela Constituição Federal de 1988, pois não são, ainda que não delinquentes políticos como Moro e Bolsonaro, da altura da Constituição Federal. Lula é, não apenas da altura constitucional, como seu maior avalista.

Pietro Nardella-Dellova