Kid Morengueira e as polacas

Kid Morengueira e as polacas

Calhava de ser na hora do almoço. Entrava no ar uma seleção musical e os ouvintes ligavam para escolher suas prediletas. Era o Peça bis pelo telefone, programa da rádio Mayrink Veiga. Imaginem vocês o engarrafamento telefônico numa época em que conseguir linha era mais difícil do que arrancar verba federal para a educação. O sucesso ganhava destaque nos Mexericos da Candinha.

Pois foi ali, pelas ondas do rádio a válvula, chiados em penca, que ouvi Moreira da Silva pela primeira vez. Eu ainda não sabia, mas aquele era o samba de breque em seu não raro esplendor. Kid Morengueira invadia o velho oeste como Rei do gatilho, numa sátira engraçadíssima. O Menino, fascinado, decorou a letra quilométrica, simulando duelos improváveis e soprando o cano fumegante de pistolas invisíveis. Até hoje lembro do início da história: Começa o filme com um garoto me entregando/um telegrama lá do Arizona onde um bandido de lascar/um bandoleiro que era o bamba lá da zona/e não deixava nem defunto descansar. E por aí a coisa ia, até o final, que era meio impróprio…

Pesquisando a trajetória do Moreira, descobri uma história de paixão que durou 18 anos e se confunde com a história do Rio. Em 1964, ele gravou Judia rara. No começo, fala em ídish: Minha linda menina, sou louco por você. Durma, minha criança. Imaginem um malandro frequentador da Lapa, terno branco e chapéu panamá, gingado até no gogó, falando na mame loshn! Intrigado com aquilo, corri atrás da dita cuja. Quem era? Como se conheceram?  Eis que surgem as polacas.

Na segunda metade do século XIX, a organização Zwi Migdal, uma espécie de máfia judaica com sede em Varsóvia, conduzia um negócio lucrativo. Rufiões muito bem apessoados percorriam aldeias e povoados da Europa profunda, oferecendo casamento a mocinhas judias. Vítimas de pobreza secular, virgens das malícias do mundo, as famílias consentiam que as moças viajassem com os charlatães. No navio, eram estupradas e, ao chegarem no destino, que podia ser o porto de Santos ou do Rio de Janeiro, acabavam em bordéis. Embora viessem de vários países, foram apelidadas de polacas. A paixão de Moreira da Silva, Estera Gladkovicer, era cafetina num daqueles bordéis.

Pequena pausa com patrocínio do Colírio Moura Brasil. Jacob do Bandolim, na verdade Jacob Pick Bittencourt, era filho de polaca. Sara Raquel Pick gerenciava uma pensão na rua Joaquim Silva, usada por prostitutas. Criança, Jacob ouvia um francês cego, sobrevivente da I Guerra Mundial, que, no térreo, tocava violino. Gostava daquilo e, sabendo disso, Sara lhe deu um de presente. Decepção. O arco do violino cansava demais o pequeno Jacob, que acabou dedilhando, melhor seria dizer pinicando, as cordas do instrumento com um grampo da mãe. Sofia, inquilina da pensão e com bom ouvido musical, percebeu a semelhança do novo timbre com o bandolim. Resultado: Jacob ganhou este instrumento aos 13 anos. Funcionou tão bem que, aos 15, estreava na rádio Guanabara. O resto, bem, o resto é a carreira de um dos maiores músicos que já pisaram nessa terra.

Voltamos à nossa programação normal. Para manter sua identidade, as polacas, perseguidas pela polícia e discriminadas pela comunidade judaica (que temia ser associada a uma atividade condenada pela moral da época e, com isso, abastecer o antissemitismo), criaram sinagoga e cemitério próprios, administrados por uma sociedade de ajuda mútua. O cemitério, inaugurado em 1916 e desativado desde a década de 1970, fica em Inhaúma. É interessante lembrar que os cafetões do Zwi Migdal patrocinaram peças do teatro ídish, encenadas nas décadas de 1910 e 1920 em teatros do Rio de Janeiro. Sob protesto de lideranças comunitárias judaicas, as polacas adquiriam os melhores lugares dos teatros e para lá iam, paramentadas comme Il faut.

Embora estudos acadêmicos já tenham lançado luz na trajetória destas mulheres, ainda hoje o assunto é uma espécie de tabu. Muitos judeus gostariam que a história permanecesse clandestina, não querem “manchar” a versão oficial, idealizada, da formação da comunidade judaica no Brasil. Não percebem, como lembrou o Millôr, que o passado não passa. E é melhor que não passe mesmo. Maquiá-lo ou apresentá-lo apenas como sucessão virtuosa de “superações” e “sacrifícios” significa legar às novas gerações uma farsa. As polacas morreram duas vezes. Primeiro, enganadas por exploradores, que lhes roubaram juventude e sonhos. Depois, por uma comunidade que não compreendeu seu drama. Censurou ao invés de dialogar ou simplesmente compreender e acolher. Não merecem a terceira morte: a do olvido, como se não tivessem sequer existido.

Abraço. E coragem.

Sobre horrores e telas

Sobre horrores e telas

Não faz muito, assisti a versão 2019 do Pinóquio, dirigida por Matteo Garrone. Baseado na história de Carlo Collodi, publicada no final do século dezenove, o filme vira de ponta-cabeça o desenho animado da Disney, estreado em 1940. O clima é sombrio, Gepetto passa fome e vive no limite da sobrevivência, nada de edulcorar o processo de amadurecimento do boneco de madeira, a baleia não passa de um bagre anabolizado que interage com Pinóquio e Gepetto.

Também dos estúdios Disney, o filme 20 mil léguas submarinas, de 1954, é uma tremenda distorção do livro de Jules Verne. O original mostra o capitão Nemo, idealizador do submarino Nautilus, como cientista criativo e ambientalista precoce. Tem, por exemplo, a ideia de plantar fazendas marinhas, multiplicando novas fontes alimentares para o planeta. No filme, ele aparece como vilão inescrupuloso, contraponto irrecuperável para o marinheiro bonitão Ned Land, interpretado por Kirk Douglas. Hollywood não podia viver sem a bipolaridade mocinho/bandido, sem concessões ou sutilezas. Verne, pesquisador do estado da arte das ciências em seu tempo, bufaria na tumba se soubesse o que fizeram com sua obra.

Passei a infância assustado com alguns personagens cinematográficos. A baleia disneyana do Pinóquio era predador implacável. Nada mais distante da realidade. Várias espécies deste mamífero estão ameaçadas de extinção, predador é o Homem. E a bruxa do desenho Branca de Neve, de 1938? Eu me apavorava mais com a rainha, que misturava beleza e perversidade. Havia, nos anos 50, um programa teatral de contos de fadas na televisão, apresentado por Shirley Temple. Quando levaram ao ar a história da Branca de Neve, eu me escondi atrás da almofada quando surgiu a rainha. Em carne e músculos, a imagem aterrorizante ganhando vida. Finalmente, sobe ao pódio a cena do vale dos leprosos, no filme Ben-Hur (que não passa, ao fim e ao cabo, de uma peça de proselitismo cristão). Não consegui ficar na sala refrigerada do Metro. De chagas já bastavam os joelhos ralados e os bifes pendurados na sola, acidentes de trabalho nas peladas da Vila, em cimento mais áspero do que a vida.

Nada, vilão ou monstro, supera o horror de uma tirinha do argentino Liniers, que reproduzo aqui. Nela, Gepetto aparece desejando que Pinóquio fosse um menino de verdade. Em seguida, o boneco, já com vida própria, fala ao celular. Seu criador, fica ali, estatelado, com cara de tacho, lambendo sabão e pensando na morte da bezerra. Solidão. Dependência. Indiferença.

Pesquisas recentes mostram o impacto da dependência de mídias sociais sobre a saúde mental. Especialmente em crianças e adolescentes. Com a massificação do uso de smartphones em geral, crescem a solidão e, bastante associadas a ela, a ansiedade e a depressão. Não se trata de fenômeno exclusivo da pandemia, já era perceptível bem antes dela. Pesquisadores norte-americanos concluíram que adolescentes que consomem muita mídia social têm piores níveis de saúde mental do que os que a consomem menos. Observam, por exemplo, os psicólogos Jonathan Haidt e Jean Twenge: “É mais difícil estabelecer uma conversa casual no refeitório ou depois da aula se todo mundo está de olho no celular. É mais difícil manter uma conversa séria quando os participantes são interrompidos por notificações”. Impressionante como se tornou comum achar que qualquer mensagem no celular precisa ser lida e respondida/comentada de imediato. O mundo passou a viver em estado (artificialmente) emergencial.

Há novas doenças associadas aos vícios virtuais. Na China,  existem clínicas para tratamento desses transtornos. Lá, a dependência dos cacarecos virtuais é classificada como “ópio espiritual”. Lei recente limita em três horas semanais o acesso de menores de 18 anos aos videogames. As empresas de internet que fornecem este serviço são rigidamente fiscalizadas. Não sei se é a melhor solução, mas ela ressalta a gravidade da situação. É importante lembrar o que disse o terapeuta britânico Steve Pope: ficar pendurado por mais de duas horas seguidas num videogame gera no organismo o mesmo efeito de cheirar uma carreira de cocaína.

Convivo mal com este mundo que seduz pela superfície. O desconforto foi muito bem traduzido pelo Marcos Nogueira, do Cozinha Bruta. Ele contou o que aconteceu num grupo de 20 pessoas com quem almoçava no dia do colapso do Facebook & satélites, quantas unhas roídas e lexotans ingeridos! Agitação, rebuliço, expressões de dor, quase pânico. “Como se todos perguntassem: de que vale comer se não podemos fotografar e postar a comida? Para que ir a um restaurante sem fazer check-in no Face? Como tolerar a companhia à mesa sem o dedo nervoso em seis grupos simultâneos de zap? Como, muito tempo atrás, conseguíamos comer com outras pessoas sem acessar as redes sociais?”. Para mim, a própria existência dessas perguntas revela as tripas de uma distopia. Nem mesmo Rod Serling, em seus momentos de alucinação, conseguiria usá-las para um episódio de Além da Imaginação. Seriam vetadas por inverossímeis…

Abraço. E coragem.

Censura que te esconjura

Censura que te esconjura

Onde queimam livros, acabam queimando homens (Heinrich Heine)

Maple syrup, hóquei, natureza exuberante, Leylah Fernandez. Canadá é tudo de bom, né? Não é bem assim que a banda toca. Há alguns dias, foi tornado público que, em 2019, cerca de 5 mil livros de uma escola canadense foram destruídos por terem sido considerados racistas. Entre os títulos execrados, havia quadrinhos perigosíssimos de Tintim e de Asterix.

Para não ficar atrás na corrida obscurantista, no mesmo ano uma escola de Barcelona recolheu 200 livros de sua biblioteca, por supostamente reproduzirem padrões sexistas. Exemplos ? A bela adormecida e Chapeuzinho vermelho. Não sei o porquê, mas lembrei das pregações cômico-goiabeiras da ministra Damares.

Censura e destruição física de obras literárias não são propriamente novidades. Acho que o malfadado “politicamente correto” e a radicalização das chamadas pautas identitárias apenas adicionaram ferramentas, supostamente legítimas, ao desejo de eliminar textos ou imagens “inadequados”. Jogar livros na fogueira, literal ou metaforicamente, tem muita quilometragem rodada. Da proibição de textos heréticos às perseguições macartistas, da fúria inquisitorial às chamas nazistas, autoridades de coturno variado proibiram a inteligência de circular. Como disse o jornalista Bruno Molinero, “a censura (…) é uma vontade incontrolável de decidir o que os outros devem ler e impedir a circulação daquilo que nos é estranho ou que ponha em xeque o status quo”.

O Menino viveu uma época em que os gibis eram considerados uma ameaça ao hábito de ler. Diziam os doutos especialistas que eles incentivavam a preguiça. Ora, senhores, não era nada disso. As revistas abriam portas, combinavam o prazer de descobrir as palavras com a estética de gênios como Lee Falk, Alex Raymond e Al Capp. Ah, mas os conteúdos… Aqui entramos no terreno dogmático dos candidatos a censor. Verdade que o Fantasma, o Espírito-que-anda, era uma representação da superioridade dos colonizadores sobre populações nativas. Os pigmeus da tribo Bandar adoravam o mascarado como a um deus. Isso, no entanto, são meus olhos de adulto. Lê-lo na infância não me tornou um abominável racista, insensível à dominação branca na África ou na Ásia. Há mediações entre a leitura e a absorção de conteúdos. Adultos podem, e devem, conversar com os menores sobre o que leem e assistem. Isso dá muito trabalho, se chama educação e passa pelo diálogo, não pela censura ou pela destruição física de livros, jornais e revistas.

Filmes, pinturas e músicas também entram na dança macabra. Em 1937, os nazistas exibiram em Munique o que chamaram de arte degenerada. O objetivo era “pedagógico”: mostrar obras que não se enquadravam no padrão estético oficial e mostravam a face “doentia” que o Reich pretendia exterminar. Lá estavam, por exemplo, Emil Nolde, Käthe Kollwitz, Ernst Barlach. Oitenta e dois anos depois, na Bienal do Livro do Rio de Janeiro, o prefeito Marcelo Crivella mandou recolher uma revista que reproduzia um beijo gay. Os mastins hitleristas e o sobrinho de Edir Macedo têm muito em comum. Não é raro temer aquilo que não se compreende. Destruir o objeto do medo torna-se imperativo para essa gente.

Quem foi ao cinema nos anos 50, 60 e 70 se habituou a ver na tela, antes do início do filme, um ofício da DCDP – Divisão de Censura às Diversões Públicas, autorizando a exibição para determinada faixa etária. A gente cresceu achando natural aquele filtro com aparência burocrática (mas de fundo obviamente político). Houve censuras mais sutis, mas não menos intolerantes. No filme O trem da vida, moradores de um shtetl na Europa Oriental se apavoram com as notícias de que os nazistas estavam chegando. Aconselhados pelo louco da aldeia, adaptaram locomotiva e vagões para simular um comboio alemão deportando prisioneiros judeus. Esperavam, com isso, atravessar a fronteira russa e salvar suas peles. A coisa parece que vai funcionar, mas termina tragicamente na última cena. A abordagem quase onírica, nada convencional, dos trens que levavam aos campos de extermínio, foi suficiente para o filme receber críticas de setores da comunidade judaica, inconformados com a heterodoxia do diretor romeno Radu Mihăileanu. Amigos, todos somos democratas em tese, mas na hora do vamos ver, do contato com o diferente, pode emergir o Torquemada que habita nossas sombras.

Além da renúncia a educar, a crescer debatendo, o censor pretende destruir o vínculo com a memória. Essa é a teoria do escritor venezuelano Fernando Báez. Segundo ele, “o livro não é destruído como objeto físico, e sim como vínculo de memória (…) O livro dá consistência à memória humana”. E completa: “Esse vínculo poderoso entre livro e memória faz com que um texto deva ser visto como peça-chave do patrimônio cultural de uma sociedade e, certamente, de toda a humanidade”. Quando se propõe, por exemplo, o banimento de livros infantis do Monteiro Lobato, sem qualquer esforço para localizá-los na época em que foram escritos e ignorando a riqueza literária de seus conteúdos, vejo os archotes queimando, ansiosos para dizimar a minha – e a nossa – memória.

Abraço. E coragem.

Infância arruinada

Eu era uma criança, esse monstro que os adultos fabricam com suas mágoas (Jean-Paul Sartre)

O primeiro olhar engana. Na foto, parecem apenas crianças sapecas, dessas capazes de amarrar uma lata no rabo do gato vira-lata da casa. Ou incinerar os neurônios jogando videogames sem parar. São, no entanto, a linha de frente de um projeto conservador evangélico cujo mercado não para de crescer. O instrumento da doutrinação é a “simpatia” que os rostos singelos de crianças despertam.

Assisti o vídeo de um deles na internet. O menino, pré-adolescente, vestido com roupas de domingo, é bem articulado. Mimetiza gestos, gostos e objetivos dos adultos. Comenta uma passagem bíblica, encharcada de metáforas. Em determinado momento, para dar ênfase à pregação, eleva o tom de voz, histeria pré-fabricada, que reforça a impressão de farsa grotesca daquele teatro absurdo. Simulação de êxtase. A plateia, adultos na maioria, lota o recinto. Parece hipnotizada. Ou seria aflita?

É comum se cobrar cachê para este tipo de apresentação. O pregador mirim costuma ter empresário, que identifica oportunidades para as pregações. É um mercado suculento. Em 1991, o segmento evangélico representava 9% da população brasileira. Em 2010, ano do último censo, já havia pulado para 22%. De acordo com projeções sérias, em 2032 os evangélicos ultrapassariam os católicos como principal grupo religioso no país. O poder político deste segmento, que está longe de ser homogêneo, já se manifesta no espaço de disputa por corações e mentes.

Não pretendo discutir os conteúdos, de resto complexos, do cardápio evangélico. O que chamou minha atenção foi a agressão contra a infância das crianças pregadoras. Adultos sequestram uma fase importante na vida de todos nós, injetando nela conceitos que uma criança não tem a menor condição de compreender.

Este tipo de exploração, covarde por natureza, não é exclusivo do terreno religioso. Não faz muito assisti o filme Judy. A personagem central é Judy Garland, magistralmente interpretada por Renée Zellweger. Em 1939, com apenas 17 anos, Garland foi a protagonista do filme O mágico de Oz. Com a concordância dos pais, submeteu-se aos caprichos do estúdio, especialmente de Louis B. Mayer, que exigia dela um regime de trabalho semiescravo. O resultado foram traumas psíquicos que não a abandonaram até o fim da vida.

O menino segue a pregação. Diz que oferece uma alternativa para a juventude, que, sem os “ensinamentos” de que é porta-voz, cairia no vício e nas tentações mundanas. Esta patranha oportunista, repetida como mantra, me faz lembrar camelôs que vendiam quinquilharias nos ônibus. O discurso era invariável: “Eu podia estar assaltando, até matando, mas estou aqui para oferecer esta maravilhosa caneta…” e por aí prosseguia. No fundo, o pregador mirim e seus mentores têm medo da imprevisibilidade da vida, da construção de projetos pessoais sem garantia de sucesso e sem data de validade, dos mistérios – e maravilhas – da alma humana, do encanto pela curiosidade. Fica tudo congelado por um discurso retrógrado, ameaçador, e pela satanização da dúvida.

Religião jamais significou virtude. Não preciso ir muito longe. Vou visitar apenas um caso recente. Foram descobertos 1.100 corpos de crianças indígenas canadenses, de diversas etnias, na área onde funcionou um internato católico entre 1912 e 1970. Elas teriam sofrido castigos físicos, violência sexual, exploração profissional e racismo. Houve, segundo lideranças indígenas, um genocídio cultural. Em nome de Deus.

Existem muitas formas de se liquidar uma infância. Exterminá-la em ações policiais criminosas. Discriminá-la por raça, religião, extrato social. Confiná-la em habitações insalubres. Obrigá-la ao desterro e à insegurança identitária. Transformá-la em caricatura melancólica do mundo adulto, esterilizando uma etapa de descobertas e explosão de desejos. Tomara que as crianças pregadoras tenham oportunidade para sair da armadilha adulta e entrar na vida real.

Abraço. E coragem.

Atletas do nada

A maior parte está na imaginação (Hitchcock, sobre “Psicose”)

Pensando bem, até que demorou. Descubro que já existe nas rede sociais um tipo de competição que transforma leitores convencionais em atletas das letras. Não se trata de leitores compulsivos, amantes da literatura, mas de pessoas que se submetem a uma espécie de dieta mínima de leitura por dia. É uma corrida contra o relógio. São convocadas maratonas e sprints, em que os envolvidos se comprometem com resultados. A coisa é convocada por booktubers (!) e alguns participantes, sem qualquer preocupação com a assimilação de conteúdos, fazem calendários e contabilizam número de páginas lidas por hora. Ganham likes, ohs! de exclamação de amigos virtuais.

Não sei quanto tempo levará para aparecerem subcelebridades literárias, dessas que preferem postar a viver. A experiência da leitura, que exige sobriedade, manter a mente quieta, sem pressa, navegando nas entrelinhas, vira uma farsa, montada em números ilusórios.

A exigência de performance (o que seria barriga de tanquinho num booktuber?) banaliza a relação de quem escreve com quem lê, uma relação que se constrói diferentemente para cada livro. Logo me ocorrem três autobiografias densas, que li ao longo da vida, trocando de lugar com os biografados e estabelecendo um diálogo rico, exigindo velocidade de jaboti na leitura e frequentes revisitas. O futuro dura muito tempo (Louis Althusser), O ar que me falta (Luiz Schwarcz) e Meus começos e meu fim (Nirlando Beirão), livros de gente grande, não se submetem à cultura leviana dos apressadinhos.

Velocidade e exposição pública avançam no cotidiano. As notícias e os gestos caducam rápido. Quem ainda se lembra, por exemplo, da explosão de um depósito de nitrato de amônio, em Beirute? Aconteceu há menos de um ano, deixou mais de cem mortos e arrasou parte da cidade, que certamente ainda está gravemente ferida. Quanto tempo durará a fama instantânea de uma certa Juliette, que venceu o último BBB? Antes de escalar o elenco das novelas, a Rede Globo verifica o número de seguidores das atrizes nas redes sociais. “Todo mundo é medido pela influência. A indústria está se moldando para isso”, disse uma diretora do grupo Consumoteca.

Anos atrás, fui ao teatro assistir um monólogo com o Pedro Cardoso. O texto, inteligente e engraçadíssimo, pareceu não seduzir uma certa mocinha. Sentada na cadeira da frente, passou boa parte do tempo alheia ao palco, olhando para um espelhinho, ajeitando o cabelo, conferindo a maquiagem, polindo a vaidade. A pergunta óbvia é: para quê estava ali? Comportamento similar ao dos viciados em celular, que não desgrudam do aparelho em lugares públicos, reuniões familiares, cinemas, teatros. Há uma urgência, uma aflição, que neurotizam a vida e criam falsas necessidades.

Fico pensando no que seria uma maratona, por exemplo, de música. Com que estado de espírito uma pessoa poderia enfrentar, olhando no relógio, A paixão segundo São Mateus, as Variações Goldberg e as Suítes para violoncelo, de Bach? Que experiência torta poderia resultar disso? A arte usa métrica diferente dos atletas de internet.

Voltando à literatura. O livro não é apenas uma história contada. Ele mesmo carrega uma história. Quando olho as lombadas dos livros de minha biblioteca, identifico as circunstâncias em que esbarrei neles. Desde a recuperação exaustiva de todos os volumes da coleção infantil do Monteiro Lobato, nas mesmas edições em que os li (na sempre vã tentativa de reviver a infância), ao dia em que tive a nítida impressão de que o poeta argentino Juan Gelman me fez um psiu num sebo e ali encontrei sua poesia completa. Do encontro com os Subterrâneos da liberdade, do Jorge Amado, em época de obscurantismo censório, aos folguedos líricos do Manoel de Barros. Imagina afogar essas trajetórias no tic-tac despersonalizado de um cronômetro!

Tivemos, recentemente, um problema sério com o sinal da Net. Uma caixa escura pilotada por robôs. Durante a encrenca, bateu uma saudade do tempo das válvulas. Aquele em que a imagem da televisão desaparecia e um soco na carcaça de madeira resolvia no ato o problema. Não se trata de um desvario de homem das cavernas. É apenas uma pontinha de nostalgia da vida que corria mais serena, menos exigente de reações instantâneas.

Abraço. E coragem.

Não é só esporte

O autoritarismo emburrece a sociedade (Reinaldo, ex-atacante do Atlético Mineiro e da seleção brasileira)

Chegou a haver algum expectativa. Os mais otimistas acreditaram que os jogadores da seleção brasileira de futebol abandonariam a tradicional alienação e se recusariam a jogar a Copa América. No final, deu o esperado. Divulgaram um documento frouxo, covarde, dizendo ter uma “missão a cumprir”. Vão disputar o torneio, levando água ao moinho bolsonarista, interessado em desviar a atenção do público dos acontecimentos que derretem a popularidade do maníaco chefe. O jogador Marquinhos chegou a dizer que “se alguém quiser se posicionar politicamente, que o faça em casa”. Como se a atitude que tomaram não fosse política. É a noção medíocre, tosca, ignorante, de achar que só se faz política nos partidos e espaços institucionais.

Ao comentar o posicionamento dos jogadores, Walter Casagrande, um dos líderes históricos da Democracia Corintiana, disse que “essa é a geração de jogadores de futebol mais alienada que eu já vi desde os anos 1980”. Não sei quais foram os critérios do Casão para chegar a essa conclusão, mas a verdade é que atletas, técnicos e dirigentes que assumem, publicamente, posições políticas sempre foram exceções no Brasil. E não apenas em nosso país. Os que o fizeram acabaram, não raro, punidos e marginalizados.

Façam um pequeno esforço e tentem se lembrar dos “engajados”. Virão os inevitáveis Afonsinho, Reinaldo, Sócrates, Vladimir, João Saldanha, Tostão. O ambiente é tão rarefeito que os bolsonaristas andam chamando o Tite, logo ele, de “comunista”. Esporte e sociedade são entidades siamesas. Num espaço social onde reina o jeitinho, o meu pirão primeiro nas camadas privilegiadas, o salve-se quem puder entre os explorados, consolidou-se a cultura do individualismo. Aqui, ao contrário de Argentina e Uruguai, jamais houve greve de jogadores de futebol, em defesa, por exemplo, do direito de receber salários em dia. O que se vê entre os famosos é ostentação de riqueza, distanciamento da torcida, reprodução da visão de mundo da elite econômica. Sociedade? Interesses coletivos? Ora, vão plantar batatas.

Em 2010, o jornalista Alberto Dines viajou a Montevidéu para entrevistar o escritor Eduardo Galeano. Estava em curso a Copa do Mundo na África do Sul, e a conversa, claro, se concentrou no futebol. Durante as partidas, Galeano, fanático declarado pelo esporte, colocava um pequeno cartaz no portão de casa onde se lia “cerrado por fútbol”. Era o equivalente ao “cuidado com o cachorro”, que espantava indesejáveis.

Entre as histórias, Galeano contou que Maradona tinha tido a ideia de se criar um Sindicato Internacional de Jogadores. Seria um contraponto ao poder incontrolável da cartolagem, que tem gerado sucessivos escândalos de corrupção. A iniciativa não prosperou.

Conversa vai, conversa vem, Galeano lembrou que Obdúlio Varela, capitão da Celeste que venceu a Copa de 1950, foi a principal liderança de uma greve geral dos jogadores uruguaios, em 1949. A paralisação durou sete meses, a maior de que se tem notícia no mundinho das quatro linhas, com amplo apoio da sociedade uruguaia, que avalizou a justiça da reivindicação boleira: reconhecimento do sindicato dos atletas como representante de classe. A greve foi vitoriosa. No Brasil, até hoje não há um sindicato que represente os jogadores. Movimentos como o Bom Senso têm baixa adesão dos atletas e, em geral, são ridicularizados ou sabotados pela maior parte da imprensa. Continuamos atravessando a avenida como o Bloco do Eu Sozinho.

Será que a ética está condenada a entrar no estádio sempre pela porta dos fundos? Creio que mudanças reais, consistentes, só virão quando as sociedades tiverem valores mais fraternos, menos ególatras. O futebol é subproduto dos valores hegemônicos. Vou contar, então, duas pequenas histórias, que dão esperança. Não estamos condenados a repetir, para sempre, os mesmos modelos.

Viña del Mar, Copa do Mundo de 1962. Jogam Brasil e Tcheco-Eslováquia na primeira etapa do torneio. Vinte e cinco minutos do primeiro tempo. Pelé distende a virilha, contusão grave. Como à época não havia substituição, ele fica em campo apenas fazendo número. Masopust, capitão do time tcheco, percebe o drama e ordena a Lala, marcador de Pelé, que apenas o cerque, sem assediá-lo ou tocá-lo. Pelé recebe um passe de Zito, Lala o acompanha à distância. Nosso craque chuta a bola para fora de campo, sem mais condições de continuar em pé. É amparado por Masopust que o ajuda a ir para o vestiário. A torcida percebe aquela demonstração extraordinária de cavalheirismo e respeito, irrompe em aplausos.

Copenhague, 2003. Jogam Irã e Dinamarca. Os iranianos venciam por um a zero. No finzinho da partida, um zagueiro iraniano ouve um apito e segura a bola com as mãos dentro de sua grande área. O juiz marca imediatamente o penalty. Tinha sido um torcedor que apitara. Discute daqui, protesta dali, o juiz foi inflexível. O capitão dinamarquês, Morten Wieghorst, coloca a bola na chamada marca fatal e … chuta de propósito para fora. Tinha senso de justiça!

Abraço. E coragem.