Senso, dissenso

Senso, dissenso

Ira furor brevis est (A cólera é uma loucura breve – Horácio, no livro de Epístolas)

Chegou a minha vez. Fui cancelado. Verdade que não foi aqueeele cancelamento, reação em cadeia de eliminação sumária nas redes sociais, mas a supressão do meu nome da lista de uma frequentadora do Facebook.

Como se deu o furdunço? A drag queen Rita von Hunty, pessoa muito politizada e com importante penetração em redes sociais, fez críticas ao Lula, com argumentos respeitosos. Sugeriu que os eleitores avaliassem um “voto radical” para presidente no primeiro turno, acompanhando as candidaturas lançadas pelo PCB e pela UP. Em nenhum momento subestimou o perigo do continuísmo bolsonarista, nem descartou a unidade antifascista para o segundo turno.

Houve reações furiosas, baseadas numa espécie de imperativo categórico: só o voto no Lula já no primeiro turno é correto, não existe legitimidade para quem pensa diferente. Incomodado com essa encarnação torta de infalibilidade papal, recheada de cólera e autoritarismo, resolvi dar um pitaco e escrevi pequena nota defendendo não apenas o direito de Rita emitir opinião, mas também concordando que, na hipótese de não se configurar vitória de ninguém no primeiro turno (como todas as pesquisas até agora indicam), é perfeitamente defensável um voto à esquerda do companheiro ex-metalúrgico. Claro que fundamentei meu raciocínio em premissas que julgo corretas.

A maioria das reações à minha nota foi educada, inclusive as de pessoas que discordam de mim. Todas elas foram muito bem-vindas. Ocorre que, em meio aos comentários, houve um bombardeio cruzado entre dois comentaristas, que terminaram por azedar o clima. A escalada terminou em ofensas e os estilhaços explodiram no meu colo. Impressionante a incapacidade de se conviver com o dissenso, na mesma linha das briguinhas infantis quando trocávamos de mal. Lembram? Cruzar os dedos mindinhos era sinal de racha…

Uma das comentaristas, indiferente ao fato de que a troca de ideias era sobre visões distintas de táticas eleitorais e não sobre a necessidade de derrotar o fascismo, resolveu não apenas sair da conversa, mas me cancelou. Ela, que sempre demonstrou interesse pelo que divulgo, me condenou no tribunal da linha justa, do dogma viscoso. Acho que por trás deste tipo de atitude está, além de um claro autoritarismo, a frustração de uma fantasia bem observada pela psicanalista Vera Iaconelli. Temos muita dificuldade de lidar com aquilo que sai do nosso controle, do que é por natureza incontrolável. Se minha opinião não pode ser controlada, como numa ordem unida, sou eliminado. Que democracia é essa?

Há um clima de muita intolerância no ar. As divergências resvalam para pugilatos verbais. Onde estará o tesão pelas batalhas de ideias, pelo prazer do argumento bem construído, pela possibilidade de aprender fora do quadrado defensivo? Lembro-me do jornalista John Reed descrevendo as vibrantes assembleias no período revolucionário bolchevique. Oradores se revezando, o clima fervendo, mas sempre na procura do melhor e sem desrespeitar ninguém. Agora, a disputa política se dá, não raro, no terreno da desqualificação, do ganhar no grito, passar o rodo. Como foi que chegamos a isso?

Não há dúvida de que os acontecimentos pós-2018 acentuaram o azedume. No entanto, quero olhar para o meu campo, o da esquerda. Não me refiro aos que, legitimamente, se satisfazem com reformas dentro do modo de produção capitalista. Penso nos que não renunciaram ao projeto de mudança radical na sociedade, transformando não apenas relações de produção, mas formas de relacionamento social e cultural. Creio que, nessa altura da História, já estamos convencidos de que não haverá mudança instantânea com a tomada do Palácio de Inverno. Não há, enfim, bala de prata. A revolução, o treino para ela, já começou. Precisamos, desde já, construir espaços libertários que desafiem o status quo que leva à desigualdade e à injustiça, à exploração e às guerras. Bloqueando o dissenso, como parecem fazer muitos companheiros, só estamos ajudando a perenizar a ordem que queremos desafiar. Onde está o bom e velho processo de convencimento tão caro aos que inspiram nossa sempre renovada utopia?

Nessas horas, gosto de lembrar o anarco-ipanemense Millôr Fernandes: “Imprensa é oposição, o resto é armazém de secos e molhados”. Oposição que, em sentidos variados, pode nos alertar: quem sabe vocês estão errados? Errado, eu? Não, o negócio é o seguinte… Mas pera lá, você deixou de perceber que assim e assado, na medida em que…

Abraço. E coragem.

Outra Sibéria

Outra Sibéria

O intervalo pro cafezinho era de lei na repartição. Sem pressa, aliviavam o peso das tediosas rotinas. Naquele dia, Carvalhinho estava todo pimpão. Fez um cafuné suspeito no Afrânio e tome gozação. Sete a zero, Afrânio! O Russinho estava impossível. Teu timinho não deu nem pra saída! Afrânio resmungou, que fazer? O Flamengo tomar de sete logo do Vasco era como beber, de um gole, o frasco inteiro de Emulsão Scott. O café descia azedo, com trilha sonora do cruzmaltino.

De mansinho chegou o Pacheco, alisando o bigode ralo. Falou de deslumbramento. Só assim para descrever a visita com a patroa, dona Etelvina, ao recém-inaugurado monumento do Cristo Redentor. Um portento, coisa do gênio pátrio, para marcar de vez aquele ano morno de 1931. Soprando o líquido fervente, segurando a asa da xícara de louça grossa entre o polegar e o indicador e ajeitando o suspensório, Pascoal entrou na roda. Cavalheiros, ouviram falar de um tipo chamado Bela Lugosi? Estivemos, eu e dona Lurdes, no cinema Odeon e assistimos uma fita estranhíssima. Já imaginaram alguém que prefere beber sangue ao invés de conhaque? O sujeito, um conde muito do chinfrim, era assim. Minha senhora não conseguia nem piscar quando o Drácula aparecia na tela. Ora, façam-me o favor! A gente tem por aqui sanguessugas muito mais assustadores. Hmmm, vampiro brasileiro… Alguém ainda vai aproveitar essa ideia. E com um único slurp esvaziava a xícara de café.

Antes de voltarem ao batente, debocharam do pedido feito por um tal de A.W. O Departamento Nacional de Indústria nunca tinha recebido nada igual. O cidadão, polonês, solicitava patente para produzir “uma forma de doces gelados e sorvetes”, denominada Peixe Gelado. Cáspite! De onde tinha tirado aquela doidice? Seria uma carpa salpicada com açúcar de beterraba? Com ou sem escamas? Por acaso era nostalgia de casa, terrinha gelada? Precursor involuntário do Eládio Sandoval, que, junto com o Contrarregra Maluco, criou, seis décadas depois, entidades como a Orelha Carnívora, o Tchaco de Pepino e … o Picolé de Peixe? Também estava na bruma futura o Cadillac Rabo de Peixe. Gargalhadas burocráticas. O pisciano A.W. ganhou cartão vermelho. Seu pedido foi indeferido.

Um ano depois, o persistente polonês gerenciava uma pequena sorveteria, a Casa Picolé. Nunca, porém, desistiu de criar seu próprio sorvete. A persistência não era nova. Vinha da vida limitada na Polônia profunda e passava pelos tempos difíceis em Buenos Aires, onde fez um pit stop prolongado antes de embarcar, casado e com uma filha a caminho, para o Rio de Janeiro, em 1930.

Em 1939, finalmente, ei-lo na Tijuca, fabricando o sorvete Sibéria. De alguma forma, tinha vencido os obstáculos burocráticos e colocado sua digital nas massas geladas. Consta que a loja também tinha prateleiras com pó para sorvete, sabores chocolate, damasco e abacaxi. Sem a Kibon nos calcanhares, deslizava tranquilo na cidade acostumada a calores saarianos.

Em algum momento, a produção artesanal entrou em crise. O emigrante, com filha pequena para criar e já mais familiarizado com usos e costumes do Rio, buscou outro ramo. Usou o talento com tecidos, linhas e agulhas e foi bater em portas na rua da Alfândega, um dos afluentes onde desaguava o rio judaico no centro da cidade. Lá, durante muitos anos, vestiu a gente remediada que circulava pelo comércio popular carioca. Quiçá o ambiente escuro e solitário, onde desenhava, cortava e costurava tecidos, tenha ajudado a transformá-lo numa pessoa quieta, de pouco sorriso, escorregadia.

Pena que os sorvetes tenham derretido tão cedo. Mais alguns anos e eu seria recebido com as honras de imperador da Abissínia naquela Sibéria tropical. Sim, porque, A.W. era Abraham Wittman. Meu avô materno.

Abraço. E coragem.

Silêncios rompidos

Silêncios rompidos

Nasci alguns anos depois do fim da Segunda Guerra Mundial. Às vezes, tenho a impressão de que as ruínas ainda fumegam e a história do conflito jamais terminará de ser contada. Melhor seria dizer as histórias que aconteceram durante o conflito. Ora se descobre um documento, depois é localizada uma partitura composta em condições indescritíveis, mais tarde é um diário que desvenda a rotina de carências e terror. Recentemente, li um livro, ainda sem tradução para o português, sobre seis adolescentes e jovens judeus, residentes na Europa Oriental, cuja vida foi violentamente interrompida em 1939. Ali estão descritos seus corpos mutantes, suas inseguranças, seus primeiros desejos amorosos, seus sonhos. Tudo registrado em pequenas folhas de papel, escondidas nos tubos de um órgão em Vilna, cidade que era conhecida como Jerusalém da Lituânia, e descobertas não faz muito. Vozes silenciadas.

Uma história que desconhecia acabo de descobrir na revista Devarim. Ela me reanimou o dever de contar, para que não se esqueça. Amnon Weinstein, luthier residente em Tel Aviv, tem uma coleção inusitada de instrumentos de corda. São violinos, violas e violoncelos cuidadosamente restaurados e expostos na oficina de trabalho. O que têm de especial?

Todos pertenceram a músicos judeus, profissionais ou amadores, atingidos pelas perseguições antissemitas nazistas. Muitos foram recuperados de campos de concentração e extermínio. Em Auschwitz, por exemplo, existia uma Orquestra Feminina, mulheres forçadas a tocar marchas e músicas selecionadas pelos algozes para criar uma sensação de normalidade no ambiente sombrio. Alma Rosé, sobrinha de Gustav Mahler, violinista excepcional, regeu essa orquestra. Foi assassinada ali mesmo, em 1944.

Nos anos 30, em Amsterdam, Helena Visser, não judia, era vizinha e amiga de Fanny Hecht, judia que gostava de tocar violino. Com a invasão nazista na Holanda, em 1940, Fanny anteviu que seria presa e pediu a Helena que, caso a Gestapo a levasse embora, fosse a seu apartamento, recuperasse o violino e o guardasse até sua volta. Fanny foi levada pelos nazistas e jamais voltou. Helena e depois seus descendentes guardaram o violino, de muito boa qualidade, durante 74 anos, até descobrirem o trabalho de Weinstein. Foram a Israel e o entregaram pessoalmente a ele.

O luthier criou o projeto Violinos da Esperança, através do qual os instrumentos recuperados são tocados em concertos mundo afora. Na entrevista concedida à Devarim, Weinstein disse: “Fazemos concertos com estes instrumentos históricos em todas as partes do mundo. Nós não vendemos os violinos. Levamos – um, dois, vinte, a quantidade que for combinada – para o local e organizamos concertos onde músicos locais usam os instrumentos. Depois fazemos palestras sobre eles”. Imagino a emoção destes músicos ao ressuscitar sons sufocados pela bestialidade nazista.

De alguma forma, Weinstein incorpora a intenção de Emmanuel Ringelblum. Intelectual socialista, Ringelblum esteve no gueto de Varsóvia. Testemunhou a rotina de morte, doenças e desespero e resolveu registrá-la, mesmo que em condições precárias. Formou um pequeno grupo e todos passaram a recolher tudo o que podiam. Cartas que jamais seriam expedidas, anúncios de todos os tipos, pequenas publicações, poemas, embalagens, etc. Aos poucos, foram organizando um arquivo respeitável, a que deram o nome de Oineg Shabes. Para preservá-lo, colocaram tudo em latões de leite e enterraram no subsolo de uma casa. Ringelblum e seus auxiliares acabaram assassinados. Depois da guerra, escavações permitiram recuperar boa parte do arquivo, que, até hoje, constitui material inestimável para contar a história do gueto. Os documentos dão voz aos que foram metodicamente liquidados.

Karl Marx disse que “a tradição de todas as pessoas mortas pesa como um pesadelo sobre a mente dos vivos”. Numa interpretação livre, penso que a palavra “tradição” poderia ser substituída, com a devida cautela, por “memória dolorosa”. No entanto, Weinstein e Ringelblum comprovam, podemos transformar o que foi motivo de perdas e desconsolo em beleza renovada e conhecimento libertador. Melhor assim.

Abraço. E coragem.

Rio ou não rio?

Rio ou não rio?

O Datafolha informa: cerca de 60% dos cariocas sairiam do Rio se pudessem. A maioria deles alega ter medo constante de crimes contra a vida e o patrimônio. Traduzindo: sentem-se ameaçados por sequestros, assaltos em casa e nas ruas, balas perdidas, assassinato. Já que estamos no período do Pessah judaico, em que se lembra o êxodo dos escravos hebreus do Egito, imagino o que seria uma revoada semelhante na população carioca. Um bloco de 4 milhões de pessoas, organizadas em alas compactas e conduzidas pela bateria da Mocidade Independente de Padre Miguel, os espectros de Clovis Bornay e Wilza Carla como mestre-sala e porta-bandeira, animadas por estandartes mostrando Anitta nos decúbitos ventrais de praxe e as celulites poliglotas, todas procurando a porta de saída. Gente da Pavuna, Barra, Catumbi, Olaria, Tijuca, se cuidando para não tropeçar nos pedintes e moradores de rua, cair nos buracos espalhados por todo canto, ser atropelada por motoristas alucinados que ignoram sinais de trânsito, se assustar com sonhos de melhoria frustrados. Multidão digna de filme do Cecil B. de Mille. Ou do impagável Cecílio B. de Milho, criado pelo Oscarito no “Carnaval da Atlântida”.

Não faz muito, eu estava fora dessa estatística. Não havia hipótese de pensar em sair do Rio. Todas as minhas referências, geográficas, oníricas, visuais, sonoras e afetivas, estavam aqui. Eu precisava vê-las ou, pelo menos, senti-las próximas. Reconstruir laços fora do lugar onde nasci não me interessava. Com a persistente desfiguração da cidade, traduzida em formas diferentes de violência, espicho um olho curioso para fora das fronteiras cariocas. Haverá alhures onde eu possa encontrar paz de espírito, presente que, de gozação, sempre peço aos que me perguntam o que gostaria de ganhar no aniversário?

Pensando bem, sempre fui um turista na minha cidade. Conheço, mal e mal, franjas das zonas sul e norte. Antes da pandemia, planejava andar por subúrbios sobre os quais tomo conhecimento apenas pelas páginas policiais. Nada sei sobre Madureira, Osvaldo Cruz, Magalhães Bastos, Marechal Hermes, Bonsucesso, São Cristovão, e por aí vai. A alma carioca, se é que existe, também habita essas áreas. Suponho, idealizo?, que rodas de choro e samba, quintais antigos, vilas de casas, botecos não gourmetizados, lá estão, em reverência a um Rio que ainda não derrapou na modernidade gentrificada.

Dia desses, estive no Leblon. Para quem não mora aqui, esclareço. É o metro quadrado mais caro da cidade, quiçá da galáxia. Experiência perturbadora. Os tipos físicos que lá gorjeiam não têm equivalência fora daquele perímetro estreito. São a aristocracia, os do andar de cima, cereja do PIB. Ali convivem extremos. No lado de fora de uma sorveteria chique, crianças de olhos tristes, que jamais tomarão os cremes gelados, tentam arrumar um trocado. Músicos andrajosos pedem esmolas. Que raio de sociedade considera isso natural?

Estaremos nos transformando numa espécie de buraco negro, que engole livrarias e comércios tradicionais e regurgita drogarias, bares com sonoridades assassinas e agências bancárias? Em Copacabana, acaba de ser inaugurada a 122ª farmácia. Livrarias? Apenas uma, heroico e acanhado sebo no chamado Shopping dos Antiquários. Aqui, na zona sul, nasceu a Bossa Nova. Os dois últimos redutos dela, as lojas Bossa Nova & Cia. e a Toca do Vinícius, fecharam durante a pandemia. Quem quiser ouvir Carlinhos Lyra, Nara Leão, João Gilberto, Zimbo Trio, Alaíde Costa, vai ter que apelar para velhas coleções de vinis e CDs. Nos rádios, com raras exceções, só dá para ouvir lixo comercial.

Continuo querendo morar aqui. Gente querida coloca chumbo em minhas asas fugitivas. Tá difícil e me atormento com sentimentos contraditórios. Às vezes acho que toda a população carioca foi abduzida e substituída por descendentes de burgúndios e frisões. Sobrou um tantinho da paixão antiga, suficiente para concordar com Millôr Fernandes, que, numa crônica de 17 de dezembro de 1980, disse o seguinte: “Meu céu existe, embora esteja mais perto que o de Sua Santidade. É esse aí, privilegiado, do Brasil – mais comumente o de Ipanema. Azul-lavado hoje, quando escrevo, neste verão maravilhoso do Rio, o que, imundícies à parte, péssima administração à parte, violência à parte, me faz continuar amando minha cidade e, por extensão, seus habitantes”.

Abraço. E coragem.

Pessah em tempos de cólera

Pessah em tempos de cólera

Cientistas chineses descobriram que nostalgia pode, sim senhor!, ter efeito analgésico, reduzindo, em alguns casos, a percepção de dor física. E tem mais. Se você pensou apenas em fotos antigas, daquelas em preto e branco, coladas em álbuns vestidos em tons de amarelo, enganou-se. O efeito analgésico se estende a músicas, filmes, histórias, cheiros e sabores. Portanto, ilustre passageiro, não se acanhe em derramar uma furtiva lágrima emocionada se navegar em lembranças significativas. Você estará não apenas nutrindo-se de prazer e construção afetiva, mas defendendo-se melhor das dores de viver.

Esta semana começa a celebração do Pessah, uma das principais festividades do calendário judaico. Talvez a liberdade seja a principal marca por trás das reuniões familiares que recontam, a cada ano, a história do fim da servidão hebreia no Egito antigo. Disso tratarei adiante, agora fico nas imagens nostálgicas dos meus Pessahim anciãos. São fotografias na parede da memória, mas, à diferença dos retratos itabiranos do Drummond, não costumam doer. Ao contrário. Aliviam e não se cansam de criar vida e novos significados.

Como nos desejos de qualquer criança, já sonhei que a família original jamais se desfalcaria. Aquela gente seria para sempre. No jantar de Pessah, o time vinha completo. Depois de uma rápida leitura da história tradicional, a conversa adornava o caldo de galinha fumegante, onde boiavam soberanos os kneidlach (bolinhos de farinha de matzá, o pão ázimo consumido no Pessah), evoluía para o guefilte fish invencível (bolinhos de peixe), salpicados com hrein (raiz forte), fazia um pit stop no ovo cozido mergulhado em água salgada e desembarcava, lânguida, no ferfale com frango. As crianças, hipnotizadas por aquele festival de aromas e sabores, eram convidadas a cantar músicas típicas. O Menino adorava o Avadim ainu (fomos escravos, agora somos homens livres) e o Ma nishtaná (por que esta noite é diferente das outras?). Por breves momentos, aquela comunhão parecia eterna. Homens e mulheres esqueciam suas dores e angústias, confraternizavam, sorriam sem freios, reconheciam-se nas memórias comuns. Minha fascinação por aqueles encontros não conhece limites.

Como antecipei linhas acima, no Pessah se recorda a saída dos hebreus do Egito antigo. O povo egípcio foi duramente castigado pela recusa do faraó em libertar espontaneamente seus escravos hebreus. O deus da história, juiz e carrasco, é implacável e vingativo. Aplicou, com extrema violência, uma punição coletiva, indiscriminada, selvagem. Mesmo que, crianças, não tenhamos percebido, ali estava uma demonstração evidente de poder absoluto. No filme “Crimes e pecados”, meu predileto na obra do Woody Allen, há uma cena do jantar de Pessah. Ali entram em confronto as visões religiosa e laica da libertação dos escravos hebreus. Prefiro, sem dúvida, a laica, que destaca o significado da liberdade. É o imperativo da razão infiltrando-se na narrativa mitológica.

Cada época tem seus faraós, opressores de diversos matizes e coturnos. A quais servidões estamos sujeitos nos tempos que correm? O que nos ameaça e amedronta? Na fila quilométrica dá para fazer alguns destaques. A gente não consegue sequer respirar sem o risco de morrer intoxicado. Segundo a Organização Mundial da Saúde, quase toda a população mundial (99%) respira ar poluído que faz mal à saúde. A poluição do ar é responsável por cerca de 7 milhões de mortes por ano. Nosso modo de vida é suicida.

O que dizer da solidão, que atinge proporção de epidemia no mundo? A comunicação direta, calorosa, é cada vez mais substituída por tralhas eletrônicas, que abrem um mundo ilusório, mas tentador e espetaculoso. Bom exemplo desta servidão é o TikTok, que propaga vídeos curtos e tem mais de 1 bilhão de usuários. O público-alvo, principalmente jovens, costuma passar muitas horas com olhos vidrados na tela do celular. A ciência comprova: quanto mais tempo ficam, mais demandam novas imagens. É um poder viciante que se assemelha ao tabaco e a certas drogas pesadas.

As fronteiras entre o público e o privado estão implodidas. É a cultura do buraco de fechadura, na qual acabamos prisioneiros de curiosidades tão mórbidas quanto paralisantes. Estamos famintos por um pouco de paz, de diálogo, mas no cotidiano somos prisioneiros de sectarismo, fanatização, guerra real ou virtual, movimentos puramente musculares. Como disse Tostão, “há cada vez mais pessoas que não querem aprender. Preferem a repetição, a polarização e a visão estreita de só enxergar e escutar o que está de acordo com as próprias convicções”.

Para além da repetição mecânica de uma tradição, o Pessah pode ser uma boa ocasião para pensar sobre o quê nos agride, sufoca, impede de ter uma vida mais livre e criativa. Sobre, enfim, os faraós e as pragas da modernidade. Não custa nada sonhar que essas reflexões sejam apenas um primeiro passo para transformar de verdade os grilhões em liberdade pessoal e coletiva.

Já ia pingar o ponto final, quando senti um leve tremor numa foto pendurada na parede da memória. Espantado, vi o tio Bóris se levantar da mesa do Pessah, colocar o rosto para fora da moldura e fazer um psiu categórico. Aproximei-me e ouvi o audaz bessarabiano dizer: Main taiere quind, querido Menininho, o texto até que não está ruim, mas, cá entre nós, e falo em nome de toda a família, não faltou alguma coisa? O principal, talvez, já que falou em libertação? E piscou a sabedoria milenar do seu shtetl. Dei um tapa na testa! Claro, é como dizia um personagem do Scholem Aleichem: Der ikar shahahti. O principal ficou de fora. Bóris retornou à mesa bidimensional e o vi levantando uma taça de vinho junto com o resto da trupe. Lehaim, disseram, à vida! Fiz um brinde imaginário e acrescentei o principal ao texto, o tijolo que faltava na jornada contra a tirania: Fora Bolsonaro!

Hag sameah!

Abraço. E coragem.

Bergman, Allen: Morte e Vida nos tabuleiros

Bergman, Allen: Morte e Vida nos tabuleiros

Ao José Sambursky, suave habitante das minhas origens.

Não tinha muitas expectativas. Os últimos filmes do Woody Allen andaram bem abaixo de suas obras-primas (Crimes e pecados, Hannah e suas irmãs, A era do rádio, meus prediletos), todas com fortes referências autobiográficas e o indisfarçável – e ácido – humor judaico. De qualquer modo, grife é grife. Submetido a um boicote tão impiedoso quanto histérico e injustificável, Woody superou minhas expectativas e fez lembrar seus momentos mais criativos em “O festival do amor” (tradução horrorosa para “Rifkin’s festival”), produção de 2020.

A relação conflituosa de Woody, e certamente de meio mundo, com a Morte, é carimbo na testa do cineasta. Ele usa o humor para acalmar a aflição por saber, como todos nós, o fim inegociável. É uma de suas obsessões recorrentes, que deriva para a folclórica hipocondria. Certa vez, disse: “Não tenho medo de morrer. Só não quero estar lá quando isso acontecer”. Em “Rifkin’s festival”, Woody homenageia seus ídolos cinematográficos, em especial Ingmar Bergman. Lá está, satirizada, a famosa cena do jogo de xadrez da Morte com Antonius Block, cavaleiro medieval recém-chegado de uma Cruzada. Costuma ser a primeira lembrança de quem assistiu “O sétimo selo”, de 1956.

No filme de Bergman, Block é atormentado por uma crise de fé. Que deus seria aquele, mudo, invisível, indiferente ao sofrimento que devastava a Europa com a Peste Negra? Divindade insensível à tão humana busca por um objetivo para viver! Dialoga com a Morte, que não teme (“meu corpo está preparado, minha cabeça não”), e através dela tenta descobrir se há algo “depois”. O jogo de xadrez é oportunidade para a Morte (excepcional interpretação de Bengt Ekerot) mostrar paciência e total independência de padrões morais e crenças religiosas. Ela dá razão, concluo, ao que disse, no século XVII, Cyrano de Bergerac: “E depois, morrer não é nada, é terminar de nascer!”.

Antes de voltar ao Woody, breve parênteses. Em entrevista sobre seu filme, ele critica a infantilização da atual indústria cinematográfica, com seus blockbusters de histórias em quadrinhos. “Se eu tivesse onze anos, adoraria. Acontece que já sou adulto, gosto de personagens mais complexos”.

Adiante. Mort Rifkin, intelectual e alter ego do Woody, está insatisfeito com os rumos de sua vida. Não consegue escrever um livro, “tem que ser uma obra-prima”, não faz por menos, sua esposa o trai, e ele se frustra quando tenta flertar com uma mulher bem mais jovem. É nessa hora atormentada que surge a Morte (Christoph Waltz, excelente) e propõe um jogo de xadrez.

Os diálogos na frente do tabuleiro são geniais. A Morte, condescendente, didática e algo entediada, mostra ao melancólico Rifkin que deve aceitá-la ou será condenado a morrer muitas vezes. “Não aguento ver um pobre coitado estragar a vida porque não reconhece o inevitável”, comenta, num pedaço que remete a outros fragmentos obsessivos de filmes do Woody. Respondendo à reclamação de Rifkin de que sua vida era vazia, a Morte sentencia: “A vida não tem sentido para ninguém, mas não significa que tenha que ser vazia”. Batata. Buscar sentidos para a vida, trabalho que se renova diariamente, é a única forma de ofuscar, temporariamente, a sombra insistente do grande Buraco Negro. Estar envolvido em trabalhos prazerosos, em relações pessoais interessantes, em leituras estimulantes, em planos que geram filhotes, combate uma espécie de maldição exposta por Louis-Ferdinand Céline: “A maior parte das pessoas morre apenas no último momento, outras começam a morrer e a se ocupar com a morte vinte anos antes, e às vezes até mais. São os infelizes da terra”.

A Morte se despede de Rifkin (“sua hora ainda não chegou”) recomendando-lhe que comesse muitos vegetais e frutas, fizesse exercícios leves, mas regulares, não fumasse. Ah, e que não esquecesse da colonoscopia! Woody Allen em grande forma. Se fechar os olhos, sou capaz de ouvir estas recomendações na voz de um ancestral, ditas em ídish e com gestos típicos. Oi vei!

No final de “O sétimo selo”, o casal de artistas itinerantes e seu pequeno filho são os únicos que sobrevivem à blitzkrieg da Morte. Um recado de Bergman sobre a Arte? Possivelmente sim. Chama a atenção o contraste entre a desorientação melancólica do cavaleiro medieval, com suas dúvidas insolúveis, e a leveza, o dom do improviso, a esperança sorridente, a alegria de criar, dos artistas. Fez-me lembrar de Ferreira Gullar: “A arte existe porque a vida não basta”. Bergman, Allen, grandes artistas. Diretores de estradas que fazem a vida permanecer.

Perguntado sobre a passagem do tempo, Mário Lago, que fez de um tudo na vida, de oficial nazista na novela Sheik de Agadir (com o inesquecível tapa-olho!) a compositor de Aurora e Saudades da Amélia, tinha sua fórmula para seguir vivendo: “Eu fiz um acordo com o tempo. Nem ele me persegue, nem eu fujo dele. Qualquer dia, a gente se encontra e, dessa forma, vou vivendo intensamente cada momento”.

Abraço. E coragem.