Aqui no vale abaixo de Gilboa, onde Saul caiu e onde foguetes caem agora com muito menos poesia, observo esta guerra há tempo suficiente para conhecer a distância entre o que foi prometido e o que está chegando. O acordo que toma forma entre os Estados Unidos e o Irã expressará, se assinado, uma capitulação que Netanyahu não pode nomear em público e Trump não reconhecerá em particular.
Em 2015, quando o governo Obama assinou um acordo nuclear com o Irã que atraiu duras críticas, Netanyahu fez um discurso perante o Congresso dos Estados Unidos que violou todas as convenções diplomáticas entre governos aliados. Ele foi a Washington dizer ao presidente americano que ele estava errado, e grande parte de sua identidade política foi construída sobre esse gesto. Três anos depois, ele convenceu Trump a abandonar o acordo. A política de pressão máxima que se seguiu não dissuadiu Teerã. Em vez disso, o regime acumulou quatrocentos e quarenta quilogramas de urânio enriquecido a sessenta por cento e avançou seu programa a um ponto onde o acordo original pareceria, em retrospectiva, um ajuste razoável.
Então Netanyahu convenceu Trump a lançar uma campanha militar. Os Estados Unidos atacaram a instalação subterrânea em Fordow em junho passado, e em fevereiro os dois países lançaram um ataque conjunto geral. Trump acreditava que a campanha duraria alguns dias, e quando o Estreito de Ormuz fechou e a interrupção das exportações de petróleo do Golfo tornou-se total, o presidente viu-se enfrentando consequências que ele optou por não planejar. O fechamento do estreito aparece no primeiro capítulo de todas as simulações de guerra conduzidas na região nas últimas três décadas. Trump sabia que o risco existia. O que ele não havia preparado era estar errado sobre a rapidez com que Netanyahu lhe disse que tudo terminaria. No último mês e meio, observamos a obstinação iraniana, ameaças americanas vazias e o que agora parece ser um compromisso que aborda o programa nuclear de alguma forma e não aborda quase nada mais, nem os mísseis balísticos, nem as organizações por procuração, e nem a mudança de regime em Teerã que fazia parte da promessa quando a guerra começou. O alívio das sanções que faz parte do acordo descongelará dezenas de bilhões de dólares e encherá os cofres do Irã com dinheiro que quase certamente chegará ao Hezbollah e ao Hamas.
Não sei o que Netanyahu disse a Trump em particular. Mas sei o que ele nos disse em público, que era que esta guerra terminaria em vitória total, que o programa nuclear do Irã seria desmantelado, que a ameaça seria removida e que os sacrifícios valeriam o que compraram. Mais de dois mil israelenses morreram desde que esta guerra começou. O acordo que toma forma não reflete essas promessas. Ele reflete os limites do que a força militar pode realizar quando a vontade política para sustentá-la evapora, e reflete o fracasso específico de um primeiro-ministro que passou anos convencendo um presidente americano a lutar uma guerra em termos que nunca foram honestos sobre o custo.
No Líbano, o quadro não é menos honesto. Os líderes de Israel falaram publicamente durante anos sobre o Hezbollah como se fosse um problema que a pressão militar resolveria eventualmente, e ele não foi resolvido. O grupo continua a atacar diariamente, com drones carregados de explosivos causando ferimentos em soldados e fatalidades a cada poucos dias, e não está considerando a rendição. A estratégia de Israel no Líbano, se é que houve uma, entrou em colapso, e a lacuna entre as declarações públicas e a realidade no terreno é a lacuna que define este governo com mais precisão.
Netanyahu não pode se opor publicamente a Trump. Ele está se contentando com briefings silenciosos entregues através de fontes diplomáticas anônimas, cuidadoso para não dizer nada que possa custar-lhe a relação americana da qual sua sobrevivência política depende. Ele construiu toda a sua carreira na alegação de que apenas ele entendia a ameaça iraniana, que apenas ele tinha o julgamento e as conexões para gerenciá-la, e que os céticos que duvidavam dele eram ingênuos ou fracos, ou ambos. O que está tomando forma no Golfo é a prestação de contas dessa alegação. O vale abaixo de Gilboa está silencioso esta noite, o que significa que os drones estão em algum outro lugar. O primeiro-ministro que nos levou até aqui está parado a uma distância cautelosa dos resultados, como se a guerra fosse algo que aconteceu a Israel em vez de algo que ele escolheu para nós.
Há dias em que a consciência se volta sobre si mesma e o que encontra não é reconfortante. Não são sentimentos. São observações. E é essa diferença que me impede de tratar o assunto com mais gentileza.
Constato que meu país não me ama. Cheguei um dia carregando a ideia de que pertencer é uma questão de escolha, que bastava querer ser daqui para ser daqui, e o que encontrei foi que os outros também têm uma palavra sobre isso. Israel me olha. Me classifica. Tinha decidido o que sou antes que eu pudesse decidir por mim mesmo. Aceitou meu peso. Me deixou ficar. O amor é outra categoria, e ela não me foi oferecida. E há noites em que caminho por essa casa no escuro e fico parado no meio do corredor, esperando que os olhos se acostumem, sabendo que talvez não se acostumem.
Constato que meus irmãos não me amam. Os que respiram esse mesmo ar carregado de areia e de pólvora, os que correm para o mesmo abrigo com os joelhos que dobram do mesmo jeito quando a sirene abre a garganta. Estamos na mesma situação. Mas a situação não cria laços. Cria coincidências. A ternura que nasce entre nós é real e quente, mas ela existe enquanto o perigo nos define. Quando o silêncio volta, cada um retorna à sua própria e intransferível responsabilidade.
E há dias em que eu mesmo não me amo. Em que me examino sem clemência e encontro um homem que escolheu viver onde as guerras crescem como oliveiras, teimosas e antigas, sem conseguir justificar essa escolha com nenhum argumento que resista à fricção das três da madrugada. É exatamente nesse homem que a notícia pousa como pousa um pássaro em galho podre. Retomamos os preparativos para atacar o Irã, possivelmente já na próxima semana. O corpo registra antes que a consciência processe. Reconhece esse ponto onde a história para de fingir que negocia e assume o que sempre quis fazer. A história não aprende. Dobra o mesmo joelho. Parte o mesmo osso.
Dentro desse homem, dentro desse corpo, dentro dessa noite que não vai acabar, uma certeza permanece. Não sei como isso termina. Aprendi a desconfiar de quem sabe, porque quem sabe, em geral, só sabe o que precisa acreditar.
A velha canção brasileira não explica o fim. Diz apenas que ganhar e perder faz parte, que para tudo tem um jeito, e se não teve jeito, simplesmente ainda não chegou ao fim. Não é consolo. É uma proposição sobre a estrutura do tempo. E às vezes é a única coisa útil que se pode dizer. É verdade de madrugada, quando os aplicativos de alerta ficam em silêncio e eu ainda estou acordado, esperando o amanhecer sem ter certeza de que ele me pertence.
Não me peça para ser otimista. Otimismo é uma crença sobre o futuro, e não tenho como verificar o futuro. O que tenho é uma escolha, e a escolha não depende do otimismo. Posso não desistir. Posso levantar essa cabeça pesada. Mantê-la curvada não muda nada no horizonte, e custa mais.
Haverá mais sirenes. Haverá mais noites em que o chão parece ceder como areia sob o peso do que não escolhemos carregar. Haverá mais momentos em que o amor, pelo país, pelos irmãos, por mim mesmo, vai parecer uma coisa remota e improvável. Mas a noite não tem como durar para sempre. É a lei mais antiga que existe, mais antiga que as guerras, mais antiga que os nomes que damos às nossas dores. E quando menos se espera, clareará. Um dia clareará.
Confesso que tomei uma garrafa de vinho antes de me sentar para escrever. E não me senti culpado por isso. Nem pelo vinho, nem pelo que veio depois: a sensação, clara e sem aviso, de estar no melhor momento da minha vida. Feliz. Aqui. De Israel, de dentro de uma guerra que não pedi.
Sei o que isso pode parecer. Mas não me interessa o que parece.
Existo exatamente no centro do meu próprio olhar. Não sei sempre o que isso significa, mas sei o que faz sentir. É precisamente daqui, desse lugar onde o cotidiano e o insuportável dividem o mesmo ar, que certas coisas se tornam visíveis com uma clareza que a paz nunca permitiu.
Há uma forma de presença que só nasce quando o mundo externo esgota suas exigências. Não é serenidade. É algo anterior à serenidade, algo que existe antes de qualquer decisão sobre como estar. Quando o alarme soa e o corpo já conhece o caminho até o abrigo sem que a mente precise ordenar, o que sobra não é coragem nem resignação. É o que sempre esteve lá, antes de qualquer história que contei sobre mim mesmo. O irredutível. E esse, descobri, não é frágil. É apenas mais antigo do que tudo que tentei construir por cima dele.
Existe uma tradição que insiste em perguntar quem somos. Desconfio dessa pergunta porque pressupõe um eu estável, localizável, que aguarda descoberta como um objeto perdido numa gaveta. O que experimento é outra coisa: não a descoberta de quem sou, mas a cessação da recusa de ser o que já sou. Essa distinção demora a ser sentida em sua totalidade. Porque parar de recusar não é conquistar nada. É largar algo que nunca foi meu e que eu carregava como se minha sobrevivência dependesse disso. Talvez dependesse. Mas já não depende.
Vivo numa linha tênue entre revelar e esconder. Não por cálculo, não por pudor, não por estratégia de proteção. Mas porque a transparência total é uma violência contra a própria complexidade, e o silêncio total é uma traição contra o que pulsa e pede forma. O que encontro no meio não é compromisso. É o único lugar onde a honestidade ainda respira.
A guerra ensina isso de um jeito que nenhuma teoria alcança: que a consciência tem uma soberania que não depende das circunstâncias. Que mesmo aqui, mesmo agora, mesmo com tudo que pesa, há em mim um interior que não foi declarado território ocupado por ninguém. Escrever sobre isso não é escapismo. É o ato mais político que conheço. Porque afirmar que ainda sinto, que ainda percebo a luz quando toca meu rosto, que ainda reconheço o calor como algo que vem de dentro tanto quanto de fora, é recusar que a guerra tenha a última palavra sobre o que sou.
Talvez o que trago aqui não seja intimidade. Talvez seja algo mais radical: a percepção de que sou suficiente para mim mesmo neste instante, sem precisar de outro tempo, outro lugar, outra versão de mim ou do mundo. Com tudo que dói. Com tudo que ainda não tem nome. Com tudo que aquece a pele como se o mundo não estivesse partido, mesmo quando está.
Não peço nada com isso. Não peço compreensão, não peço acompanhamento, não peço sequer que acreditem. Apenas registro que existo. Que sinto. Que esse sentir é mais real do que qualquer coisa visível de fora.
Isso não é bullshit. É um estado. E estados não pedem para ser compreendidos. Apenas para ser reconhecidos por quem também já tocou esse lugar dentro de si e sabe que, quando se chega lá, nada mais parece tão urgente quanto permanecer.
Maoz Inon estava preparando o café da manhã para a esposa em sua casa em Binyamina, no norte de Israel, quando seu pai escreveu no grupo da família no WhatsApp às 7h30 da manhã de 7 de outubro de 2023. A mensagem dizia que mísseis estavam caindo e que sons de guerra preenchiam Netiv HaAsara, a comunidade agrícola mais próxima da fronteira com Gaza, onde seus pais moravam.
Maoz ligou imediatamente. Seu pai, Yakovi, de setenta e oito anos, atendeu brevemente. Ele e Bilha, a mãe de Maoz, de setenta e seis anos, haviam trancado a casa e estavam no quarto de segurança. Netiv HaAsara fica a apenas cem metros de Gaza. Maoz pensou que fosse mais um episódio da violência recorrente ao longo da fronteira. Disse aos pais que os amava e que ligaria novamente em breve.
Às 7h40, quando ligou outra vez, ninguém atendeu.
O horror se instalou quando Maoz começou a ver imagens nas redes sociais de terroristas do Hamas invadindo comunidades israelenses na fronteira. Ele e suas três irmãs se reuniram na casa de uma delas, enquanto o irmão mais novo vinha de Londres. No fim da tarde, conseguiram falar com o responsável pela segurança da comunidade, que lhes disse que a casa dos pais havia sido queimada até virar cinzas. Dois corpos foram encontrados dentro.
Os irmãos iniciaram o período tradicional de luto judaico. No segundo dia, a pedido do irmão de Maoz, Magen, divulgaram uma declaração conjunta rejeitando a vingança em nome de seus pais. Foram dos primeiros israelenses a se manifestar publicamente sobre a morte de civis em Gaza.
“A vingança não vai trazê-los de volta e só vai intensificar o ciclo em que estamos presos há mais de um século — o ciclo israelense-palestino de derramamento de sangue, vingança e morte.”
Durante três dias após o assassinato de seus pais, Maoz foi tomado pela dor e pelo sofrimento. Numa noite, chorando enquanto dormia, teve o que ele chama de uma visão: toda a humanidade chorava com ele, suas lágrimas curando feridas, purificando terras ensanguentadas, revelando um caminho para a paz. Ao acordar, soube que aquela era a forma de honrar o legado de seus pais.
A primeira ligação de condolências veio de Aziz Abu Sarah, um ativista palestino pela paz que Maoz conhecia apenas de nome. O irmão de Aziz havia morrido em 1990 em decorrência de ferimentos sofridos numa prisão israelense. Quando Aziz sugeriu que continuassem trabalhando juntos pela paz, Maoz não hesitou.
A colegas que demonstraram incredulidade diante da rapidez com que ele intensificou seu ativismo após perder os dois pais, Maoz disse: “Quando uma pessoa se perde no deserto, ela clama por água. Quando uma pessoa se perde nesse tipo de luto, é normal clamar por paz.”
Desde então, Maoz e Aziz têm viajado o mundo juntos. Em maio de 2024, falaram ao papa Francisco e a doze mil construtores da paz em Verona, na Itália. Receberam uma ovação de pé e um abraço do papa. Um ano depois, encontraram-se com o papa Leão XIV no Vaticano. Em dezembro de 2025, Maoz recebeu o prêmio Champion of Shared Society por seu trabalho em prol da convivência pacífica entre judeus e árabes em Israel.
O livro deles, O Futuro é a Paz: Uma Jornada Compartilhada pela Terra Santa, escrito em coautoria com o ativista palestino Hamze Awawde, tem lançamento previsto para abril de 2026.
Antes de 7 de outubro, Maoz havia passado vinte anos construindo pontes. Em 2005, criou uma pousada na Cidade Velha de Nazaré em parceria com uma família árabe local, com o objetivo de revitalizar a área e servir como plataforma de diálogo intercultural. Mais tarde, fundou a rede Abraham Hostel em Jerusalém, que se tornou a maior cadeia de hostels de Israel.
“Durante 20 anos tive parceiros da Palestina, da Jordânia e do Egito. Eu sei que israelenses e palestinos podem viver juntos porque vivi isso.”
Vinte e três anos antes, e centenas de quilômetros ao sul, em Belém, na Cisjordânia, outra história se desenrolava.
Layla Alsheikh nasceu e cresceu na Jordânia. Estudou contabilidade e gestão empresarial. Em 1999, casou-se e se mudou para Belém, realizando o que chamava de seu sonho de vida: retornar à Palestina.
Na madrugada de 11 de abril de 2002, seu filho Qussay, de seis meses, começou a ter dificuldades para respirar após soldados israelenses lançarem gás lacrimogêneo em sua vila. Layla tentou levá-lo às pressas ao hospital, mas soldados israelenses a impediram de fazê-lo por mais de cinco horas.
Qussay morreu naquela noite por falta de atendimento médico em tempo hábil.
Durante quatorze anos, Layla carregou seu luto em silêncio. Nunca buscou vingança. Nunca contou aos outros filhos como o irmão havia morrido, relutante em arrastá-los para o que chamava de um ciclo de violência.
Em 2016, uma amiga a convidou para uma reunião do Parents Circle–Families Forum, uma organização que reúne famílias israelenses e palestinas que perderam entes queridos no conflito.
A primeira reação de Layla foi: “Você está louca?”
Mesmo assim, ela foi. Na primeira reunião, sentou-se em silêncio, ouvindo outras mães contarem suas histórias: uma mãe que perdeu o filho em um atentado suicida em Jerusalém; uma mãe que perdeu o filho em um bombardeio em Gaza; uma avó que perdeu a neta em um ataque com foguete.
Layla percebeu que todas choravam da mesma forma. Todas tinham o mesmo vazio no peito. Todas acordavam pela manhã e precisavam de alguns segundos para lembrar que aquilo tinha realmente acontecido.
Na segunda reunião, Layla falou. Contou sobre Qussay. Sobre as cinco horas no posto de controle. Sobre segurar o corpo do filho enquanto ele ficava cada vez mais leve em seus braços. Quando terminou, uma mãe israelense atravessou a sala e a abraçou sem dizer uma palavra.
“Uma das mulheres israelenses se levantou e me disse: peço desculpas a você em nome do meu povo. Eu também sou mãe e sinto a sua dor. Ela não sabia que, com essas palavras simples, tinha me trazido de volta à vida.”
Layla voltou para casa e chorou como não chorava havia anos. Mas era diferente. Não apenas dor, havia também um tipo de alívio que ela não conseguia explicar.
Não há indícios de que Maoz e Layla já tenham se encontrado. Eles atuam dentro do mesmo movimento, mas seguem caminhos separados. Maoz viaja o mundo com Aziz, falando para plateias, encontrando papas, escrevendo livros. Layla participa das reuniões do Parents Circle em Belém, senta-se com mães israelenses e se recusa a permitir que a morte do filho sirva de justificativa para que outros filhos morram.
Desde 7 de outubro, as reuniões do Parents Circle tornaram-se mais difíceis. Os membros vivem em mundos distintos, moldados por ambientes midiáticos diferentes. Quase todos os membros palestinos perderam numerosos familiares em Gaza durante a guerra. O governo israelense proibiu o Parents Circle nas escolas, embora muitas escolas tenham desafiado a ordem.
Em um evento recente, alguém perguntou diretamente a Layla como ela conseguia conciliar genocídio e ocupação ao fazer esse trabalho com israelenses.
“Nem tudo eu posso perdoar.”
Ela descreveu suas próprias experiências com a violência de colonos sancionada pelo exército na Cisjordânia. O trabalho do Parents Circle, enfatizou, não exige perdão nem esquecimento. Exige apenas o reconhecimento da humanidade daqueles que estão sentados do outro lado.
Maoz não esqueceu que o Hamas matou seus pais. Layla não esqueceu as cinco horas no posto de controle. Nenhum dos dois perdoou. Mas ambos decidiram que seu luto não será transformado em arma, que sua perda não será usada para justificar mais perdas.
“Durante 60 anos, meu pai foi agricultor. Durante 60 anos, ele semeou trigo nos campos de Israel. E não importava o quão devastador tivesse sido o ano anterior, por enchentes ou por seca. Ele sempre semeava novamente. E eu perguntava: papai, o que você está fazendo? Por que não desiste? Por que não faz outra coisa? E ele sempre me dizia: Maoz, meu filho, o ano que vem será melhor. O ano que vem será melhor. E eu tenho a capacidade de torná-lo melhor.”
Maoz não pode mais semear trigo nos campos do pai. O kibutz ainda está se recuperando. Muitos vizinhos foram embora. Mas ele continua o trabalho em que seus pais acreditavam: construir pontes, conduzir viagens que aproximam israelenses e palestinos, falar para públicos ao redor do mundo.
“A esperança não é um sentimento que eu espero chegar. Eu faço esperança. A esperança é um esforço coletivo, algo que criamos juntos.”
Layla não pode trazer Qussay de volta. Não pode desfazer as cinco horas no posto de controle. Não pode apagar a memória do corpo do filho ficando mais leve em seus braços. Mas ela continua frequentando as reuniões do Parents Circle, continua sentando-se com mães israelenses e continua se recusando a deixar que o trauma defina completamente quem ela é.
Nenhum dos dois acredita que esteja mudando o mundo. Nenhum dos dois tem ilusões de resolver o conflito. Mas ambos fizeram uma escolha: recusam-se a deixar que seu luto se transforme em ódio.
À Jacqueline Du Pré, inspiração acima de datas e rituais.
A avó portuguesa do amigo tijucano gostava de mim. Quando os sinos do Natal começavam a bimbalhar no horizonte, convidava-me para a ceia, mesmo sabendo que nossas tradições eram diferentes. Um espanto! Frutas secas, rabanadas, peru saindo do forno (que aroma!), panetones, banquete para um Menino habituado à frugalidade radical. Ali tomei, pela primeira vez, um vinho verde, que achei estranho e, zás-trás, me nocauteou. O clima era amável, ninguém contava histórias que podiam constranger, nada de tiozão do pavê ou sectarismos. Adolescente, aprendi o valor da comunhão pela amizade, do respeito às diferenças e da conversa com leveza.
Cercado pelos primeiros sinais natalinos, Papai Noel tomando Coca-Cola nos reclames e Jingle Bells na veia e sem molho tropical, resolvi hoje sair em busca do espírito de Natal. Teria ele abraçado Mimi e fugido pra Xangai? Ou teria saído por aí, levando violão debaixo do braço e procurando chaminés inexistentes? O que, afinal de contas, é esse espírito? Dizem as boas e más línguas que é o guardião da fraternidade, da união, da empatia, da solidariedade e outros valores menos votados. Cadê ele?
Peguei o metrô e fui à luta. No vagão lotado, observei um rapaz cabisbaixo. Depois de duas estações, começou a soluçar. Um choro silencioso, sentido. Não eram lágrimas de esguicho, mas dava para ver que havia ali muito sofrimento. Que tipo de lembrança o invadira? Olhei em volta, outras pessoas também perceberam o que estava acontecendo. Ocupadas com celulares e embalagens para presente, não moveram uma palha. Quando, vencendo uma crônica timidez, pensei em oferecer-lhe conversa, o trem parou e ele saltou, levando consigo uma dor que não sei dimensionar. O espírito de Natal devia estar distraído,/ assobiando uma canção./Passou batido/por aquele vagão.
Já na rua, quase aos solavancos, tento desviar-me da multidão apressada. Consumir é preciso, viver … nem sempre. O Fradinho magro, eterno ingênuo, sussurra: Quem sabe o espírito de Natal divide-se, generosamente, dentro das caixas embaladas com papel colorido, esperando apenas o momento de fazer uma entrada triunfal? Como dizem que ele é silencioso e invisível, jamais o saberemos.
Dentro de uma lotérica, uma fila aguarda atendimento. É a ilusão de mudar a vida com sorteios e mandingas. Ao lado da fila, uma imagem perturbadora. Prostrado no chão, um homem quase nu estende a mão pedindo misericórdia. Está tão fraco que mal consegue levantar a cabeça. Encolhido, à beira do nada, recebe apenas a indiferença. É um horror que me faz lembrar uma foto dos anos 90, tirada no Sudão. Uma criança subnutrida jaz na terra árida, sem forças para andar. Perto, um abutre observa, paciente, antecipando a refeição potencial. A figura rastejante que vi na lotérica, acredite, ilustre passageiro, era um homem. Os abutres, ora os abutres, somos todos nós. O espírito de Natal, sem dar o ar da graça, tem filtros muito seletivos, cuja lógica será sempre inacessível.
Um tanto desapontado com a primeira amostragem, abro o jornal. Leio que o cardeal arcebispo de São Paulo, dom Odilo Scherer, ordenou que o padre Julio Lancellotti deixe de transmitir suas missas pela internet e suspenda as atividades nas redes sociais. O padre Julio, que tem 2,3 milhões de seguidores no Instagram, é conhecido por seu trabalho a favor da inclusão de minorias e de ajuda a moradores de rua. O que diria o espírito de Natal desta censura, do arbítrio antipopular, em nome do originador da data natalícia? Que conforto ofereceu a Leonardo Boff quando foi condenado ao silêncio obsequioso por um papa ultrarreacionário?
Volto à senhora portuguesa e sua família que me acolheram num Natal distante, apresentando-me um ambiente calmo, sem cobranças e, sem discursos ou proselitismo, mostraram-me uma celebração memorável. Quem sabe o espírito de Natal, em seu mistério imaterial, não passe de uma memória suave que diminui a carga do viver? Um pouco de poesia não machuca.
Vicky Cristina Barcelona é um filme de desenho poético e substância humana próprios de Woody Allen, seu diretor. Nele, a voz masculina vai soltando o fio narrativo como o de Ariadne, querendo manter o controle ou simplesmente não ser devorado pelo universo feminino, que se impõe com personagens vívidas, vigorosas e intensas, especialmente, as de Maria Elena (Penélope Cruz), Vicky (Rebecca Hall) e Cristina (Scarlett Johansson).
Por outro lado, as figuras masculinas são caracterizadas em quatro sentidos. A de Juan Antonio (Javier Bardem), como pintor que depende da inspiração e presença da ex-mulher e de movimentos externos; a de maridos, cujo foco de assuntos gira em torno das futilidades cotidianas das mentes americanizadas e cocacolizadas, criando-lhes um comportamento insensível e impermeável; a de um velho (o pai de Juan) cujos textos servem apenas para demonstrar seu ódio pelo mundo e, lógico, a “voz” que verbaliza as relações como em um confessionário.
Assim, o homem ou o masculino, aparece apenas como alguém que diz, verbaliza, como no caso do convite de Juan Antonio ou do isolamento de seu pai. E as outras personagens masculinas despontam no filme como quem oferece um discurso vazio do mercado (computers, casas, viagens, dinheiro, instituições). Mas, é a presença e ações femininas que determinam a vida das relações.
Nas personagens Maria Elena, Vicky e Cristina, Allen aponta para o melhor da tradição semítica, renovando a roupagem dos três perfis femininos: Lilith, Havá e Miriam, ou seja, a mulher em uma humanidade anterior, a mulher mítica de Adam e a irmã de Moshè (Moisés), que o salva nas águas egípcias.
Mas, ainda no nome de Maria Elena, Allen dá as chaves do mundo helênico, inicialmente, para a figura de Helena (a bela mulher responsável pela Guerra de Tróia) e, assim, como a personagem Maria Elena, influenciando uma nova ordem de relações e descobertas, e abrindo caminho para uma compreensão dos perfis femininos. E é da Mitologia grega que Allen atualiza para suas três personagens, os perfis das Cáritas (as três graças). Aglaia, Eufrosina e Tália (claridade/esplendor, alegria/júbilo e Poesia/flores). Assim, as personagens se revestem do semítico e do grego. Maria Elena/Lilith/Aglaia, Vicky/Havá/Eufrosina e Cristina/Miriam/Tália.
Maria Elena é o fogo abrasador e inspirador. A loucura apaixonante de um homem, Juan, dependente dela em todos os sentidos. Ela pinta e cria, mas não há sofrimento em sua arte que, sob os pés, vai se colorindo e plenificando.
A obra, neste sentido, é ela, e não a tela! Maravilhosamente senhora de si, como Lilith ao partir, deixa um homem que vai encontrar nos braços perfumosos de Cristina o conforto tolerante de uma mulher que busca algo além dos padrões americanos ou machistas.
Cristina procura em Juan, em sua pintura e em sua provocação, o sentido de sua vida, a Poesia e a música, e ele a leva para sua casa, para seu mundo e para suas telas. Mas, o sentido que Cristina procura, ela encontra apenas quando Maria Elena retorna, de modo dramático e único.
É com ela, Maria Elena, Aglaia dos encantamentos e claridade, que Cristina aprende a olhar o mundo externo humano ou não. É com ela que aprende a fotografar e, na aparente escuridão do trabalho fotográfico, ela encontra o talhe perfeito, sensual, intenso e poético de Maria Elena, a quem passa a fotografar, vale dizer, a quem passa a ver, enxergar e observar, e com quem passa a se relacionar, como notas e pentagrama, de modo afetivo. Em Maria Elena ela aprende a ver sua própria feminilidade, a alegria, o mundo externo e o exercício da afetividade.
Ao lado de Maria Elena, ela se descobre Miriam em música, com cânticos de quem ultrapassa o Mar de Juncos e em Poesia e flores de Tália. Mas, recusa a condição de uma vida aprisionada no triângulo lúdico. Finalmente, descobrindo-se a si mesma, por intermédio de Maria Elena, ela consegue se superar, decidir, questionar como Miriam, e superar a presença de Maria Elena, essa Lilith espanhola.
Em outro sentido, sua amiga Vicky, provocada, como o foi Havá, à descoberta amorosa pelo mesmo Juan, recusa o encontro com a recusa de quem não quer recusar. Com as dúvidas de quem encontra dois mundos antagônicos: o de seu (talvez) casamento com a figura amarelada do seu noivo e o mergulho em um mundo de amores e afeição, sem institutos ou regras.
E quando a flecha de Eros a atinge, a despeito de sua visão quadrificada. Ela cede, como Eva e Eufrosina, com alegria e júbilo, ao amor e à ternura da experiência do encontro de si mesma, entre os arbustos de algum jardim edênico de Espanha.