O Circo

Tenho lido sobre os imperadores romanos desde jovem, e uma coisa sempre me pareceu clara nas histórias que sobreviveram a eles, o poder romano precisava de dois elementos para se sustentar diante do povo, o sangue como cenário e o elogio como moeda. Cômodo, filho de Marco Aurélio, vestia pele de leão e empunhava a clava de Hércules para descer à arena e matar animais e gladiadores diante de dezenas de milhares de pessoas reunidas no Coliseu. O Senado, que ele mesmo havia esvaziado de qualquer poder real, aplaudia e lhe concedia títulos cada vez mais extravagantes entre um combate e outro. Décadas depois, Domiciano exigiria, dentro do próprio palácio, ser chamado de senhor e deus. A função desses espetáculos nunca foi apenas matar; era lembrar aos presentes que a vida de quem estava na arena e a aprovação de quem ocupava as arquibancadas dependiam da mesma pessoa.
Quase dois mil anos depois, no domingo, quatorze de junho de dois mil e vinte e seis, o jardim sul da Casa Branca foi transformado em anfiteatro para celebrar, simultaneamente, o octogésimo aniversário de Donald Trump e os duzentos e cinquenta anos de independência dos Estados Unidos. Uma estrutura de aço de vinte e oito metros, batizada de A Garra, dominava o gramado onde normalmente aterrissam os helicópteros presidenciais. Atores vestidos como soldados da Guerra da Independência montavam guarda enquanto catorze lutadores cruzavam os corredores do edifício, alguns passando pelo Salão Oval, para chegar ao octógono. Um sobrevoo da Força Aérea abriu a noite, seguido do hino nacional. A multidão gritava EUA sempre que um competidor americano enfrentava um estrangeiro, o que nem sempre garantia a vitória do lutador local. Vi as fotos chegarem ao telefone em fragmentos, à distância, como vejo quase tudo o que acontece naquele país que tanto pesa sobre o meu.
Sentados perto do octógono, ao lado do presidente, estavam homens que hoje exercem o papel outrora reservado aos reis clientes diante dos imperadores romanos, trocando lealdade visível por proximidade. Mark Zuckerberg, que suspendeu as contas de Trump após o ataque ao Capitólio em janeiro de dois mil e vinte e um e desembolsou vinte e cinco milhões de dólares para encerrar o processo movido pelo próprio presidente, conversava brevemente com ele entre os combates. David Ellison, da Paramount Skydance, também estava lá, poucos dias depois de o Departamento de Justiça aprovar a fusão da sua empresa com a Warner Bros Discovery. Nenhum dos dois precisou explicar em voz alta a razão de estar ali. A proximidade física já dizia tudo.
O lutador Josh Hokit venceu Derrick Lewis por nocaute no segundo round e, na entrevista subsequente, retirou do pescoço uma corrente de ouro para entregar ao presidente como presente de aniversário. A Casa Branca publicou a foto do gesto horas depois. Menos de um ano antes, em agosto de dois mil e vinte e cinco, Tim Cook entrara no Salão Oval com uma placa de vidro montada sobre uma base de ouro de vinte e quatro quilates, oferta que acompanhou o anúncio de outros cem bilhões de dólares em investimentos da Apple nos Estados Unidos. Em ambos os casos, o metal precioso não comprava o mandatário; confirmava, diante das câmeras, quem precisava do presidente mais do que este necessitava de quem lhe estendia o tributo.
Foi após a entrega da corrente, ainda diante do microfone, que Hokit usou o ápice de sua carreira para declarar à multidão e ao país que Michelle Obama era um homem, indagando se não tinha razão. A plateia ao redor aplaudiu, e Joe Rogan, que conduzia a entrevista, sorriu, hesitando, antes de encerrar o quadro com o nome do atleta e se afastar do microfone.
Dana White, amigo de longa data de Trump e dono do UFC, classificou o comentário como falso e grosseiro no dia seguinte, tratando o caso como mera bobagem. O porta-voz da Casa Branca, indagado sobre o episódio, preferiu elogiar o desempenho do lutador no octógono e evitou o restante da pergunta. Trump publicou nas redes sociais que a noite fora incrível, omitindo qualquer menção a Hokit ou a Michelle Obama. O silêncio do homem que estava sentado a poucos metros daquele microfone no momento da declaração já é, em si, a resposta que importa.
Em Roma, o que tornava os jogos perigosos não era apenas o sangue na arena, mas o que eles autorizavam posteriormente, quando as luzes se apagavam e todos voltavam para casa sabendo exatamente o quanto se podia dizer e fazer perto do imperador sem sofrer sanções. Um presidente que assiste a um homem proferir aquele insulto, vê a plateia aplaudir e opta pelo silêncio depois, transmite a lição que Cômodo ditava ao Senado nas primeiras filas, a de que a proximidade ao poder vale mais do que a decência, e de que o silêncio de quem poderia condenar a afronta funciona como uma forma de aplauso.
Vi essa sequência de notícias durante um turno de guarda noturno aqui no norte de Israel, olhando para um céu onde qualquer luz fora do lugar pode ser um drone vindo do Líbano, e refleti que a minha segurança depende, em alguma medida, da disposição pessoal do mesmo homem que silenciou na primeira fila daquele octógono. Os interceptores que protegem este país chegam quando Washington assim decide, e Washington, neste momento da sua história, é dirigida por um homem cuja moral pública parece ser medida pela quantidade de ouro que lhe oferecem e pela disposição de tolerar o que se recusa a condenar.
A multidão do Coliseu rugia da mesma forma tanto diante da morte do leão quanto da do gladiador. O que importava, para quem estava nas arquibancadas, era estar perto o bastante da tribuna imperial para não ser, na luta seguinte, quem desceria à arena. Dois mil anos depois, do outro lado do mundo, ainda estamos decidindo onde ficar sentados.

A Prestação de Contas

Aqui no vale abaixo de Gilboa, onde Saul caiu e onde foguetes caem agora com muito menos poesia, observo esta guerra há tempo suficiente para conhecer a distância entre o que foi prometido e o que está chegando. O acordo que toma forma entre os Estados Unidos e o Irã expressará, se assinado, uma capitulação que Netanyahu não pode nomear em público e Trump não reconhecerá em particular.
Em 2015, quando o governo Obama assinou um acordo nuclear com o Irã que atraiu duras críticas, Netanyahu fez um discurso perante o Congresso dos Estados Unidos que violou todas as convenções diplomáticas entre governos aliados. Ele foi a Washington dizer ao presidente americano que ele estava errado, e grande parte de sua identidade política foi construída sobre esse gesto. Três anos depois, ele convenceu Trump a abandonar o acordo. A política de pressão máxima que se seguiu não dissuadiu Teerã. Em vez disso, o regime acumulou quatrocentos e quarenta quilogramas de urânio enriquecido a sessenta por cento e avançou seu programa a um ponto onde o acordo original pareceria, em retrospectiva, um ajuste razoável.
Então Netanyahu convenceu Trump a lançar uma campanha militar. Os Estados Unidos atacaram a instalação subterrânea em Fordow em junho passado, e em fevereiro os dois países lançaram um ataque conjunto geral. Trump acreditava que a campanha duraria alguns dias, e quando o Estreito de Ormuz fechou e a interrupção das exportações de petróleo do Golfo tornou-se total, o presidente viu-se enfrentando consequências que ele optou por não planejar. O fechamento do estreito aparece no primeiro capítulo de todas as simulações de guerra conduzidas na região nas últimas três décadas. Trump sabia que o risco existia. O que ele não havia preparado era estar errado sobre a rapidez com que Netanyahu lhe disse que tudo terminaria. No último mês e meio, observamos a obstinação iraniana, ameaças americanas vazias e o que agora parece ser um compromisso que aborda o programa nuclear de alguma forma e não aborda quase nada mais, nem os mísseis balísticos, nem as organizações por procuração, e nem a mudança de regime em Teerã que fazia parte da promessa quando a guerra começou. O alívio das sanções que faz parte do acordo descongelará dezenas de bilhões de dólares e encherá os cofres do Irã com dinheiro que quase certamente chegará ao Hezbollah e ao Hamas.
Não sei o que Netanyahu disse a Trump em particular. Mas sei o que ele nos disse em público, que era que esta guerra terminaria em vitória total, que o programa nuclear do Irã seria desmantelado, que a ameaça seria removida e que os sacrifícios valeriam o que compraram. Mais de dois mil israelenses morreram desde que esta guerra começou. O acordo que toma forma não reflete essas promessas. Ele reflete os limites do que a força militar pode realizar quando a vontade política para sustentá-la evapora, e reflete o fracasso específico de um primeiro-ministro que passou anos convencendo um presidente americano a lutar uma guerra em termos que nunca foram honestos sobre o custo.
No Líbano, o quadro não é menos honesto. Os líderes de Israel falaram publicamente durante anos sobre o Hezbollah como se fosse um problema que a pressão militar resolveria eventualmente, e ele não foi resolvido. O grupo continua a atacar diariamente, com drones carregados de explosivos causando ferimentos em soldados e fatalidades a cada poucos dias, e não está considerando a rendição. A estratégia de Israel no Líbano, se é que houve uma, entrou em colapso, e a lacuna entre as declarações públicas e a realidade no terreno é a lacuna que define este governo com mais precisão.
Netanyahu não pode se opor publicamente a Trump. Ele está se contentando com briefings silenciosos entregues através de fontes diplomáticas anônimas, cuidadoso para não dizer nada que possa custar-lhe a relação americana da qual sua sobrevivência política depende. Ele construiu toda a sua carreira na alegação de que apenas ele entendia a ameaça iraniana, que apenas ele tinha o julgamento e as conexões para gerenciá-la, e que os céticos que duvidavam dele eram ingênuos ou fracos, ou ambos. O que está tomando forma no Golfo é a prestação de contas dessa alegação. O vale abaixo de Gilboa está silencioso esta noite, o que significa que os drones estão em algum outro lugar. O primeiro-ministro que nos levou até aqui está parado a uma distância cautelosa dos resultados, como se a guerra fosse algo que aconteceu a Israel em vez de algo que ele escolheu para nós.

Um dia clareará

Há dias em que a consciência se volta sobre si mesma e o que encontra não é reconfortante. Não são sentimentos. São observações. E é essa diferença que me impede de tratar o assunto com mais gentileza.

Constato que meu país não me ama. Cheguei um dia carregando a ideia de que pertencer é uma questão de escolha, que bastava querer ser daqui para ser daqui, e o que encontrei foi que os outros também têm uma palavra sobre isso. Israel me olha. Me classifica. Tinha decidido o que sou antes que eu pudesse decidir por mim mesmo. Aceitou meu peso. Me deixou ficar. O amor é outra categoria, e ela não me foi oferecida. E há noites em que caminho por essa casa no escuro e fico parado no meio do corredor, esperando que os olhos se acostumem, sabendo que talvez não se acostumem.

Constato que meus irmãos não me amam. Os que respiram esse mesmo ar carregado de areia e de pólvora, os que correm para o mesmo abrigo com os joelhos que dobram do mesmo jeito quando a sirene abre a garganta. Estamos na mesma situação. Mas a situação não cria laços. Cria coincidências. A ternura que nasce entre nós é real e quente, mas ela existe enquanto o perigo nos define. Quando o silêncio volta, cada um retorna à sua própria e intransferível responsabilidade.

E há dias em que eu mesmo não me amo. Em que me examino sem clemência e encontro um homem que escolheu viver onde as guerras crescem como oliveiras, teimosas e antigas, sem conseguir justificar essa escolha com nenhum argumento que resista à fricção das três da madrugada. É exatamente nesse homem que a notícia pousa como pousa um pássaro em galho podre. Retomamos os preparativos para atacar o Irã, possivelmente já na próxima semana. O corpo registra antes que a consciência processe. Reconhece esse ponto onde a história para de fingir que negocia e assume o que sempre quis fazer. A história não aprende. Dobra o mesmo joelho. Parte o mesmo osso.

Dentro desse homem, dentro desse corpo, dentro dessa noite que não vai acabar, uma certeza permanece. Não sei como isso termina. Aprendi a desconfiar de quem sabe, porque quem sabe, em geral, só sabe o que precisa acreditar.

A velha canção brasileira não explica o fim. Diz apenas que ganhar e perder faz parte, que para tudo tem um jeito, e se não teve jeito, simplesmente ainda não chegou ao fim. Não é consolo. É uma proposição sobre a estrutura do tempo. E às vezes é a única coisa útil que se pode dizer. É verdade de madrugada, quando os aplicativos de alerta ficam em silêncio e eu ainda estou acordado, esperando o amanhecer sem ter certeza de que ele me pertence.

Não me peça para ser otimista. Otimismo é uma crença sobre o futuro, e não tenho como verificar o futuro. O que tenho é uma escolha, e a escolha não depende do otimismo. Posso não desistir. Posso levantar essa cabeça pesada. Mantê-la curvada não muda nada no horizonte, e custa mais.

Haverá mais sirenes. Haverá mais noites em que o chão parece ceder como areia sob o peso do que não escolhemos carregar. Haverá mais momentos em que o amor, pelo país, pelos irmãos, por mim mesmo, vai parecer uma coisa remota e improvável. Mas a noite não tem como durar para sempre. É a lei mais antiga que existe, mais antiga que as guerras, mais antiga que os nomes que damos às nossas dores. E quando menos se espera, clareará. Um dia clareará.

O que resta quando nada mais é pedido

Confesso que tomei uma garrafa de vinho antes de me sentar para escrever. E não me senti culpado por isso. Nem pelo vinho, nem pelo que veio depois: a sensação, clara e sem aviso, de estar no melhor momento da minha vida. Feliz. Aqui. De Israel, de dentro de uma guerra que não pedi.
Sei o que isso pode parecer. Mas não me interessa o que parece.
Existo exatamente no centro do meu próprio olhar. Não sei sempre o que isso significa, mas sei o que faz sentir. É precisamente daqui, desse lugar onde o cotidiano e o insuportável dividem o mesmo ar, que certas coisas se tornam visíveis com uma clareza que a paz nunca permitiu.
Há uma forma de presença que só nasce quando o mundo externo esgota suas exigências. Não é serenidade. É algo anterior à serenidade, algo que existe antes de qualquer decisão sobre como estar. Quando o alarme soa e o corpo já conhece o caminho até o abrigo sem que a mente precise ordenar, o que sobra não é coragem nem resignação. É o que sempre esteve lá, antes de qualquer história que contei sobre mim mesmo. O irredutível. E esse, descobri, não é frágil. É apenas mais antigo do que tudo que tentei construir por cima dele.
Existe uma tradição que insiste em perguntar quem somos. Desconfio dessa pergunta porque pressupõe um eu estável, localizável, que aguarda descoberta como um objeto perdido numa gaveta. O que experimento é outra coisa: não a descoberta de quem sou, mas a cessação da recusa de ser o que já sou. Essa distinção demora a ser sentida em sua totalidade. Porque parar de recusar não é conquistar nada. É largar algo que nunca foi meu e que eu carregava como se minha sobrevivência dependesse disso. Talvez dependesse. Mas já não depende.
Vivo numa linha tênue entre revelar e esconder. Não por cálculo, não por pudor, não por estratégia de proteção. Mas porque a transparência total é uma violência contra a própria complexidade, e o silêncio total é uma traição contra o que pulsa e pede forma. O que encontro no meio não é compromisso. É o único lugar onde a honestidade ainda respira.
A guerra ensina isso de um jeito que nenhuma teoria alcança: que a consciência tem uma soberania que não depende das circunstâncias. Que mesmo aqui, mesmo agora, mesmo com tudo que pesa, há em mim um interior que não foi declarado território ocupado por ninguém. Escrever sobre isso não é escapismo. É o ato mais político que conheço. Porque afirmar que ainda sinto, que ainda percebo a luz quando toca meu rosto, que ainda reconheço o calor como algo que vem de dentro tanto quanto de fora, é recusar que a guerra tenha a última palavra sobre o que sou.
Talvez o que trago aqui não seja intimidade. Talvez seja algo mais radical: a percepção de que sou suficiente para mim mesmo neste instante, sem precisar de outro tempo, outro lugar, outra versão de mim ou do mundo. Com tudo que dói. Com tudo que ainda não tem nome. Com tudo que aquece a pele como se o mundo não estivesse partido, mesmo quando está.
Não peço nada com isso. Não peço compreensão, não peço acompanhamento, não peço sequer que acreditem. Apenas registro que existo. Que sinto. Que esse sentir é mais real do que qualquer coisa visível de fora.
Isso não é bullshit. É um estado. E estados não pedem para ser compreendidos. Apenas para ser reconhecidos por quem também já tocou esse lugar dentro de si e sabe que, quando se chega lá, nada mais parece tão urgente quanto permanecer.​​​​​​​​​​​​​​​​

Quando o Luto Encontra o Luto

Maoz Inon estava preparando o café da manhã para a esposa em sua casa em Binyamina, no norte de Israel, quando seu pai escreveu no grupo da família no WhatsApp às 7h30 da manhã de 7 de outubro de 2023. A mensagem dizia que mísseis estavam caindo e que sons de guerra preenchiam Netiv HaAsara, a comunidade agrícola mais próxima da fronteira com Gaza, onde seus pais moravam.

Maoz ligou imediatamente. Seu pai, Yakovi, de setenta e oito anos, atendeu brevemente. Ele e Bilha, a mãe de Maoz, de setenta e seis anos, haviam trancado a casa e estavam no quarto de segurança. Netiv HaAsara fica a apenas cem metros de Gaza. Maoz pensou que fosse mais um episódio da violência recorrente ao longo da fronteira. Disse aos pais que os amava e que ligaria novamente em breve.

Às 7h40, quando ligou outra vez, ninguém atendeu.

O horror se instalou quando Maoz começou a ver imagens nas redes sociais de terroristas do Hamas invadindo comunidades israelenses na fronteira. Ele e suas três irmãs se reuniram na casa de uma delas, enquanto o irmão mais novo vinha de Londres. No fim da tarde, conseguiram falar com o responsável pela segurança da comunidade, que lhes disse que a casa dos pais havia sido queimada até virar cinzas. Dois corpos foram encontrados dentro.

Os irmãos iniciaram o período tradicional de luto judaico. No segundo dia, a pedido do irmão de Maoz, Magen, divulgaram uma declaração conjunta rejeitando a vingança em nome de seus pais. Foram dos primeiros israelenses a se manifestar publicamente sobre a morte de civis em Gaza.

“A vingança não vai trazê-los de volta e só vai intensificar o ciclo em que estamos presos há mais de um século — o ciclo israelense-palestino de derramamento de sangue, vingança e morte.”

Durante três dias após o assassinato de seus pais, Maoz foi tomado pela dor e pelo sofrimento. Numa noite, chorando enquanto dormia, teve o que ele chama de uma visão: toda a humanidade chorava com ele, suas lágrimas curando feridas, purificando terras ensanguentadas, revelando um caminho para a paz. Ao acordar, soube que aquela era a forma de honrar o legado de seus pais.

A primeira ligação de condolências veio de Aziz Abu Sarah, um ativista palestino pela paz que Maoz conhecia apenas de nome. O irmão de Aziz havia morrido em 1990 em decorrência de ferimentos sofridos numa prisão israelense. Quando Aziz sugeriu que continuassem trabalhando juntos pela paz, Maoz não hesitou.

A colegas que demonstraram incredulidade diante da rapidez com que ele intensificou seu ativismo após perder os dois pais, Maoz disse: “Quando uma pessoa se perde no deserto, ela clama por água. Quando uma pessoa se perde nesse tipo de luto, é normal clamar por paz.”

Desde então, Maoz e Aziz têm viajado o mundo juntos. Em maio de 2024, falaram ao papa Francisco e a doze mil construtores da paz em Verona, na Itália. Receberam uma ovação de pé e um abraço do papa. Um ano depois, encontraram-se com o papa Leão XIV no Vaticano. Em dezembro de 2025, Maoz recebeu o prêmio Champion of Shared Society por seu trabalho em prol da convivência pacífica entre judeus e árabes em Israel.

O livro deles, O Futuro é a Paz: Uma Jornada Compartilhada pela Terra Santa, escrito em coautoria com o ativista palestino Hamze Awawde, tem lançamento previsto para abril de 2026.

Antes de 7 de outubro, Maoz havia passado vinte anos construindo pontes. Em 2005, criou uma pousada na Cidade Velha de Nazaré em parceria com uma família árabe local, com o objetivo de revitalizar a área e servir como plataforma de diálogo intercultural. Mais tarde, fundou a rede Abraham Hostel em Jerusalém, que se tornou a maior cadeia de hostels de Israel.

“Durante 20 anos tive parceiros da Palestina, da Jordânia e do Egito. Eu sei que israelenses e palestinos podem viver juntos porque vivi isso.”

Vinte e três anos antes, e centenas de quilômetros ao sul, em Belém, na Cisjordânia, outra história se desenrolava.

Layla Alsheikh nasceu e cresceu na Jordânia. Estudou contabilidade e gestão empresarial. Em 1999, casou-se e se mudou para Belém, realizando o que chamava de seu sonho de vida: retornar à Palestina.

Na madrugada de 11 de abril de 2002, seu filho Qussay, de seis meses, começou a ter dificuldades para respirar após soldados israelenses lançarem gás lacrimogêneo em sua vila. Layla tentou levá-lo às pressas ao hospital, mas soldados israelenses a impediram de fazê-lo por mais de cinco horas.

Qussay morreu naquela noite por falta de atendimento médico em tempo hábil.

Durante quatorze anos, Layla carregou seu luto em silêncio. Nunca buscou vingança. Nunca contou aos outros filhos como o irmão havia morrido, relutante em arrastá-los para o que chamava de um ciclo de violência.

Em 2016, uma amiga a convidou para uma reunião do Parents Circle–Families Forum, uma organização que reúne famílias israelenses e palestinas que perderam entes queridos no conflito.

A primeira reação de Layla foi: “Você está louca?”

Mesmo assim, ela foi. Na primeira reunião, sentou-se em silêncio, ouvindo outras mães contarem suas histórias: uma mãe que perdeu o filho em um atentado suicida em Jerusalém; uma mãe que perdeu o filho em um bombardeio em Gaza; uma avó que perdeu a neta em um ataque com foguete.

Layla percebeu que todas choravam da mesma forma. Todas tinham o mesmo vazio no peito. Todas acordavam pela manhã e precisavam de alguns segundos para lembrar que aquilo tinha realmente acontecido.

Na segunda reunião, Layla falou. Contou sobre Qussay. Sobre as cinco horas no posto de controle. Sobre segurar o corpo do filho enquanto ele ficava cada vez mais leve em seus braços. Quando terminou, uma mãe israelense atravessou a sala e a abraçou sem dizer uma palavra.

“Uma das mulheres israelenses se levantou e me disse: peço desculpas a você em nome do meu povo. Eu também sou mãe e sinto a sua dor. Ela não sabia que, com essas palavras simples, tinha me trazido de volta à vida.”

Layla voltou para casa e chorou como não chorava havia anos. Mas era diferente. Não apenas dor, havia também um tipo de alívio que ela não conseguia explicar.

Não há indícios de que Maoz e Layla já tenham se encontrado. Eles atuam dentro do mesmo movimento, mas seguem caminhos separados. Maoz viaja o mundo com Aziz, falando para plateias, encontrando papas, escrevendo livros. Layla participa das reuniões do Parents Circle em Belém, senta-se com mães israelenses e se recusa a permitir que a morte do filho sirva de justificativa para que outros filhos morram.

Desde 7 de outubro, as reuniões do Parents Circle tornaram-se mais difíceis. Os membros vivem em mundos distintos, moldados por ambientes midiáticos diferentes. Quase todos os membros palestinos perderam numerosos familiares em Gaza durante a guerra. O governo israelense proibiu o Parents Circle nas escolas, embora muitas escolas tenham desafiado a ordem.

Em um evento recente, alguém perguntou diretamente a Layla como ela conseguia conciliar genocídio e ocupação ao fazer esse trabalho com israelenses.

“Nem tudo eu posso perdoar.”

Ela descreveu suas próprias experiências com a violência de colonos sancionada pelo exército na Cisjordânia. O trabalho do Parents Circle, enfatizou, não exige perdão nem esquecimento. Exige apenas o reconhecimento da humanidade daqueles que estão sentados do outro lado.

Maoz não esqueceu que o Hamas matou seus pais. Layla não esqueceu as cinco horas no posto de controle. Nenhum dos dois perdoou. Mas ambos decidiram que seu luto não será transformado em arma, que sua perda não será usada para justificar mais perdas.

“Durante 60 anos, meu pai foi agricultor. Durante 60 anos, ele semeou trigo nos campos de Israel. E não importava o quão devastador tivesse sido o ano anterior, por enchentes ou por seca. Ele sempre semeava novamente. E eu perguntava: papai, o que você está fazendo? Por que não desiste? Por que não faz outra coisa? E ele sempre me dizia: Maoz, meu filho, o ano que vem será melhor. O ano que vem será melhor. E eu tenho a capacidade de torná-lo melhor.”

Maoz não pode mais semear trigo nos campos do pai. O kibutz ainda está se recuperando. Muitos vizinhos foram embora. Mas ele continua o trabalho em que seus pais acreditavam: construir pontes, conduzir viagens que aproximam israelenses e palestinos, falar para públicos ao redor do mundo.

“A esperança não é um sentimento que eu espero chegar. Eu faço esperança. A esperança é um esforço coletivo, algo que criamos juntos.”

Layla não pode trazer Qussay de volta. Não pode desfazer as cinco horas no posto de controle. Não pode apagar a memória do corpo do filho ficando mais leve em seus braços. Mas ela continua frequentando as reuniões do Parents Circle, continua sentando-se com mães israelenses e continua se recusando a deixar que o trauma defina completamente quem ela é.

Nenhum dos dois acredita que esteja mudando o mundo. Nenhum dos dois tem ilusões de resolver o conflito. Mas ambos fizeram uma escolha: recusam-se a deixar que seu luto se transforme em ódio.

Fontes das citações:

  1. The Catholic Register
  2. Emanuel Congregation of New York
  3. France 24
  4. The Amherst Student
  5. Alliance for Middle East Peace (ALLMEP)
  6. Democracy Now!
Onde estará?

Onde estará?

À Jacqueline Du Pré, inspiração acima de datas e rituais.

A avó portuguesa do amigo tijucano gostava de mim. Quando os sinos do Natal começavam a bimbalhar no horizonte, convidava-me para a ceia, mesmo sabendo que nossas tradições eram diferentes. Um espanto! Frutas secas, rabanadas, peru saindo do forno (que aroma!), panetones, banquete para um Menino habituado à frugalidade radical. Ali tomei, pela primeira vez, um vinho verde, que achei estranho e, zás-trás, me nocauteou. O clima era amável, ninguém contava histórias que podiam constranger, nada de tiozão do pavê ou sectarismos. Adolescente, aprendi o valor da comunhão pela amizade, do respeito às diferenças e da conversa com leveza.

Cercado pelos primeiros sinais natalinos, Papai Noel tomando Coca-Cola nos reclames e Jingle Bells na veia e sem molho tropical, resolvi hoje sair em busca do espírito de Natal. Teria ele abraçado Mimi e fugido pra Xangai? Ou teria saído por aí, levando violão debaixo do braço e procurando chaminés inexistentes? O que, afinal de contas, é esse espírito? Dizem as boas e más línguas que é o guardião da fraternidade, da união, da empatia, da solidariedade e outros valores menos votados. Cadê ele?

Peguei o metrô e fui à luta. No vagão lotado, observei um rapaz cabisbaixo. Depois de duas estações, começou a soluçar. Um choro silencioso, sentido. Não eram lágrimas de esguicho, mas dava para ver que havia ali muito sofrimento. Que tipo de lembrança o invadira? Olhei em volta, outras pessoas também perceberam o que estava acontecendo. Ocupadas com celulares e embalagens para presente, não moveram uma palha. Quando, vencendo uma crônica timidez, pensei em oferecer-lhe conversa, o trem parou e ele saltou, levando consigo uma dor que não sei dimensionar. O espírito de Natal devia estar distraído,/ assobiando uma canção./Passou batido/por aquele vagão.

Já na rua, quase aos solavancos, tento desviar-me da multidão apressada. Consumir é preciso, viver … nem sempre. O Fradinho magro, eterno ingênuo, sussurra: Quem sabe o espírito de Natal divide-se, generosamente, dentro das caixas embaladas com papel colorido, esperando apenas o momento de fazer uma entrada triunfal? Como dizem que ele é silencioso e invisível, jamais o saberemos.

Dentro de uma lotérica, uma fila aguarda atendimento. É a ilusão de mudar a vida com sorteios e mandingas. Ao lado da fila, uma imagem perturbadora. Prostrado no chão, um homem quase nu estende a mão pedindo misericórdia. Está tão fraco que mal consegue levantar a cabeça. Encolhido, à beira do nada, recebe apenas a indiferença. É um horror que me faz lembrar uma foto dos anos 90, tirada no Sudão. Uma criança subnutrida jaz na terra árida, sem forças para andar. Perto, um abutre observa, paciente, antecipando a refeição potencial. A figura rastejante que vi na lotérica, acredite, ilustre passageiro, era um homem. Os abutres, ora os abutres, somos todos nós. O espírito de Natal, sem dar o ar da graça, tem filtros muito seletivos, cuja lógica será sempre inacessível.

Um tanto desapontado com a primeira amostragem, abro o jornal. Leio que o cardeal arcebispo de São Paulo, dom Odilo Scherer, ordenou que o padre Julio Lancellotti deixe de transmitir suas missas pela internet e suspenda as atividades nas redes sociais. O padre Julio, que tem 2,3 milhões de seguidores no Instagram, é conhecido por seu trabalho a favor da inclusão de minorias e de ajuda a moradores de rua. O que diria o espírito de Natal desta censura, do arbítrio antipopular, em nome do originador da data natalícia? Que conforto ofereceu a Leonardo Boff quando foi condenado ao silêncio obsequioso por um papa ultrarreacionário?

Volto à senhora portuguesa e sua família que me acolheram num Natal distante, apresentando-me um ambiente calmo, sem cobranças e, sem discursos ou proselitismo, mostraram-me uma celebração memorável. Quem sabe o espírito de Natal, em seu mistério imaterial, não passe de uma memória suave que diminui a carga do viver? Um pouco de poesia não machuca.

Abraço. E coragem.