Futebol não é uma questão de vida ou de morte. É muito mais do que isso (Bill Shankly, ex-gerente de futebol do Liverpool)
Ô Jacques, tanto assunto perturbador pra você comentar e escolhe logo futebol ? Depois de um breve diálogo com um querido amigo, no qual expusemos algumas divergências fraternas, resolvi arriscar uns palpites sobre esse que é o esporte que (ainda) mobiliza multidões no Brasil. Longe de ser apenas pretexto trivial para conversa de boteco, estou falando de um dos poucos fatores que simbolizam uma identidade nacional. Difícil tratá-lo em tão pequeno espaço, mas não vou fugir da bola dividida.
Meu amigo, que frequenta arquibancada rival no Maracanã, referiu-se ao Flamengo como “antro bolsonarista”. Pensou, certamente, no Rodolfo Landim, presidente do clube de 2019 a 2024. Landim alinhou-se, publicamente, a Bolsonaro, mas perdeu a eleição do ano passado para Luiz Eduardo Baptista, o Bap, que interrompeu o escandaloso adesismo direitista. É apenas, como tantos outros dirigentes de clubes, um burocrata inexpressivo. O “antro” deixou formalmente de existir, como aconteceu no passado em tantos outros clubes dirigidos por criminosos e simpatizantes da ditadura civil-militar. Há aqui, no entanto, uma questão de fundo mais relevante: a relação de futebol com política. Mais amplamente, de esporte com política.
O futebol é um reflexo da sociedade e nela a política é o oxigênio que se respira, a artéria por onde circulam relações pessoais e sociais. Não há compartimento social que independa de ações políticas lato sensu. Permanecendo no futebol (o espaço é curto). Nas Copas do Mundo de 1934 e 1938, as seleções italiana e alemã fizeram, perfiladas, a saudação nazifascista, subordinando a esfera de couro a regimes de extrema-direita. Em 1950, Getúlio Vargas e Mendes de Moraes usaram a Copa como propaganda para projeção internacional do país no pós-guerra. Em 1958 (Juscelino), 1962 (Jango) e 1970 (Médici), os campeões mundiais foram, pós-título, ao beija-mão de autoridades que tiraram uma casquinha da euforia popular. Em 1978, a ditadura argentina usou a Copa para alardear uma imagem “limpa” do regime, um dos mais sangrentos do período.
Sempre foi difícil separar a paixão pelo esporte das circunstâncias políticas stricto sensu. Dois exemplos fortes. Há relatos de que presos políticos em 1970, num dos períodos mais duros da ditadura brasileira, discutiram se deviam torcer pela seleção canarinho. Se ela ganhasse, ponderavam, a ditadura usaria o triunfo como arma de propaganda do Brasil Grande. Depois das primeiras vitórias, com atuações espetaculares de Pelé, Tostão, Rivelino, Jairzinho & companhia, renderam-se à maravilha do jogo bem jogado. Coisa parecida aconteceu no Uruguai, em 1980, com a disputa do chamado Mundialito. Sob uma ditadura que teve o maior número de presos políticos per capita, os prisioneiros viveram dilema semelhante ao dos companheiros brasileiros: torceriam pela Celeste ? No final, acabaram vibrando com o título vencido pelos uruguaios. Paixão não se anula nem sob tortura.
Antes de continuar, um registro importante. O Flamengo tem boa tradição democrática. Não à toa, aliás, tem a maior torcida do país (cerca de 48 milhões de torcedores, segundo a última pesquisa), atravessando todos os extratos sociais e regiões do país. Os que se referem a ele como “clube do Leblon” têm os cotovelos doloridos e laboram contra os fatos. Estão no vasto currículo da torcida dois movimentos importantes. O Fla-Diretas, que ajudou pioneiramente a mobilizar a galera para a campanha das Diretas-Já, e o Flamengo Antifascista, autoexplicativo.
Finalmente, meu amigo falou que o time do Flamengo é um bando de alienados. Tem razão, mas por que falou apenas do rubro-negro da Gávea ? Todos os times, sem exceção, são exatamente assim. Nada diferente da sociedade brasileira, tristemente despolitizada. O futebol tem sido, historicamente, uma ponte para a ascensão social das classes oprimidas. O modelo deste alpinismo é a ostentação dos poucos que ascendem na profissão. O processo reproduz-se por gravidade. É o oprimido vestindo a máscara do opressor, sem qualquer intenção de desafiar a máquina de exploração do pé-de-obra.
Mencionou ainda meu compadre que durante a Democracia Corinthiana, início dos anos 80, houve uma espécie de revolta contra o reacionarismo da direção do clube. Seria referência das possibilidades de superar o imobilismo. Infelizmente, o exemplo de pouco vale. Em primeiro lugar, não houve uma revolta contra a direção do clube. As lideranças do movimento, Sócrates, Casagrande e Vladimir, contaram com o apoio do diretor e vice-presidente de futebol, Adílson Monteiro Alves, um sociólogo progressista. Em segundo, o movimento viveu em simbiose irrepetível com um momento muito particular da história brasileira. A ditadura vivia seus últimos anos, a reação institucional e popular crescia, mobilizações multiplicavam-se. Com a derrota da emenda Dante de Oliveira, em 1984, a Democracia Corinthiana refluiu, não deixando rastro no ambiente do futebol. Sócrates foi jogar na Itália. Casagrande migrou para o São Paulo.
Bem, muito ainda haveria a comentar, mas o texto já está grande. Quem sabe voltamos para um segundo tempo ? Uma última observação. Jamais fui aos estádios condicionado pela composição da diretoria do meu time. Acho que nenhum torcedor faz isso. Como bem disse o João Saldanha, o jogador pode ser profissional, mas a torcida, e não fujo à regra, é amadora.
Após a retomada de fôlego, lembrei-me das visitas que recebi na noite anterior, à margem do Tirreno. Há pessoas que me legaram bênçãos e alegria, força e lucidez para caminhar constante, sem detrimento de mim mesmo. Ao deixar a Sinagoga do Quartiere Ebraico, fui à torneira de água bem no meio daquele pátio beber um pouco e me refrescar e, ao ver aquela água jorrando, tão clara e natural, recordei-me, com afeto e respeito, do Rav Giam, HaZaken que, havia alguns anos, ensinou-me muitas coisas sobre a vida e sobre D’us.
Rav Giam foi um bom homem com profundo apreço pela vida e pelas pequenas criaturas da natureza…
Lembrei-me de folhagens viçosas, arbustos verdejantes e árvores imponentes: o limoeiro, a figueira, a palmeira, o cafeeiro, a amoreira, o bambual, a bananeira, a goiabeira, a laranjeira.
E as flores perfumosas do seu jardim, entrecortado por passagens, bancos e muretas de paralelepípedos – tudo plantado e feito pelo seu coração!
Caminhei tantas vezes, na minha última infância e primeira juventude, de um lado para o outro, preso à sua mão, pulando o caminho das formigas, emudecendo-me, atônito, diante dos beija-flores. E descobrindo, a cada canto, a santidade do mundo das larvas, casulos e borboletas, a sabedoria das aranhas coloridas, no alto das árvores, o calor dos ninhos de passarinhos e a vida em sementes explodindo ao vento.
Naquele tempo, convidava-me a estar diante do poço e beber uma canecada de água fresca, e me orientava, também, a ver tudo ao redor porque o poço no rancho daquele bom Mestre era o centro de tudo, mostrando como a natureza e o homem são o corpo e a alma da Terra.
E os olhos iluminados pela bondade podem encontrar Poesia e música puras, e harmonia, e afeto, e respeito pela vida.
Jamais me esquecerei daquela ponte que ele fez entre uma árvore e outra com um galho ressequido para que as formigas pudessem passar pelo alto, protegidas!
E com aquela caneca à mão, meio que derramando água fresca, descobri, para sempre, que estes são os milagres mais próximos da manifestação de D’us!
Então, entendi por que ele se comovia com os cães enxotados, sarnentos e famintos nas calçadas, e os tomava nos braços sarando suas feridas com carinho, banhando-os e alimentando-os, dando-lhes nomes: Zé, Caçula, Preta, Marrom. E, dava-lhes, sobretudo, a amizade e a proteção de sua casa.
Entendi, também, por que arrebanhava das ruas para a pequena varanda tantos gatos quantos podia salvar do veneno da vizinhança. E por que alimentava centenas de pombos, recebendo-os na palma da mão, medicando asas e pés quebrados pela violência das pedras da ignorância.
Tudo
que eu
quero é aprender a misericórdia
e banhar-me às águas tranquilas da humildade,
chorar, quem sabe, com os que choram
e sentir-me feliz com o sorriso alheio…
tudo que eu quero é o tempo vivido e aproveitado
com coisas de alma e sentimento
a semente que germina calada,
o rio que corre incontrolável,
a chuva, e o sol e a brisa…
tudo que eu quero é abraçar a humanidade
e derrubar barreiras – tantas levantadas –
voar a espaços sem termo e conhecer infinitos rumos
desacreditados e estar solto e leve…
tudo que eu quero é o tempo presente
pleno na vida presente e não desconfiar
nem tecer planos
que me conduzam a prisões
irreparáveis
da existência.
Com aquela caneca de água à mão, compreendi por que ele dava morada ao sapo à direita da porta, e por que mantinha uma tampinha com açúcar para as grandes formigas pretas e, mais adiante, um vaso com água limpa para os passarinhos se refrescarem.
Certa vez, ele chorou compulsivamente, durante uma semana, a morte do besouro grudado à tinta nova que ele deixou no portal em sua horta. Afinal, cada vida perdida tem mesmo que ser pranteada, pois causa desequilíbrio na ordem das coisas. Compreendi em toda a dimensão o choro do Rav, do meu querido Rav Giam. Porque as mãos de um homem bom foram feitas para abençoar a terra, pois é com mãos e atos de bondade que abençoamos – e não com palavras!
Por isso mesmo, eu ficava ali muitas horas e, ao anoitecer dividia o seu pão comigo para depois ficar diante da sua mesa e caminhar, madrugada adentro, por cada uma das letras da Torá, ouvindo do seu peito a angústia e a ansiedade de Avraham, a solidão de Ytzchak, a força de Ya’akov e a determinação de Moshé rabenu pela liberdade.
E depois, fazia-me ouvir o choro de Yirmiahu pelas ruas de Jerusalém, e descer aos infernos de Yoná, e cantar os Tehilim e construir com os Mishlei e Cohélet, e renovar esperanças com Yeshayahu, e descobrir a beleza singular do amor do homem por uma mulher com os Shir Hashirim.
E nessas tantas madrugadas ouvíamos o barulho dos grilos, dos sapos e dos ventos, no seu jardim feito Éden. E, sobre sua mesa, tantos livros abertos, convertendo sua casa numa singular Beit Midrash onde eu era tocado no espírito e inspirado na alma a um verdadeiro Bar Mitzvá e, por tanta assimilação, a uma T’shuvá.
Mas, às vezes, atrás do Mestre aparecia o homem, o poeta e, escondidos entre seus livros, mantinha seus versos, e na profundidade de cada um deles, a sua própria angústia e ansiedade diante de D’us, a sua própria solidão, e força, e fraqueza a sua própria determinação pela liberdade e os seus pés estrepados, o seu próprio choro e seu próprio grito. O seu próprio inferno, o seu antigo casaco cobrindo as mãos nos tempos de opressão e guerra, o seu próprio amor perdido no passo delicado de uma bailarina espanhola, em algum palco e, sobretudo, a sua própria humanidade!
Porque, segundo Rav Giam, para isto fomos feitos, ou seja, para salvar larvas e nelas, as borboletas, esperando em suas asas encontrar os olhos da mulher amada.
Fomos feitos para estudar a Torá, e esconder entre as páginas sagradas as folhas que ninguém compreende do amor simplesmente humano. Esperando encontrar alguma Dalila, alguma Betsabá, alguma Rainha do Sul, que nos arrebatam no seu encanto, que nos ensinem a amar e nos façam sofrer para, depois, nos fazerem remover colunas, vencer guerras e amar em outras mil oportunidades, procurando atrás de cada coluna, em cada palácio, e em cada dança de uma hebreia o rosto único, o perfume único e a dança única da mulher amada, venha ela de onde vier.
Por isso, a um só tempo, somos tão frágeis e tão fortes. Por isso, nosso jardim é, a um só tempo, Éden e Kaos. Por isso vivemos com um dos pés no leite, no mel, no pão e no vinho da terra prometida, e o outro nos tecidos finíssimos do Egito.
E transformamos, tantas vezes, nosso Talit, o manto das Mitzvôt, em própria mortalha. Porque somos humanos, a despeito de toda maldade e de toda violência e de tantos obstáculos nestes quatro mil anos, continuamos plenamente humanos. E, como humanos, nos reerguemos, sempre, em nossa Bimá, porque ali se faz iluminar a ToráC’haim.
E é o humano que compreende e salva os cães, os gatos, os pombos, as formigas, os sapos e tudo. Porque queremos descobrir em cada um a amizade e o afeto que humanamente nos falta.
Nas
fachadas
dos prédios
nas pessoas e nos carros, nas coisas de uso comum,
na linguagem usual e na linguagem técnica
e na linguagem culta e no verso feito,
no peito que aparece no decote, na prece, no dote e no jeito,
no olho e no molho que cai sobre o prato
e o fato de primeira página que cai no olhar
molhar dos dedos e os enredos de qualquer carne
que se quer sempre e o caminhar, o vestir e o despir,
o par ao parar na ponte e a fronte que se ergue
antes que se envergue o altivo
cativo falante e a amante que se engraça,
a massa humana que divaga
de semana em semana na vaga:
tudo parece buscar aparência
tudo se move em torno do que parece e não há essência
e há ausência de vida
e não há vida
(e n ã o à vida)
um não
à essência!
Pietro Nardella-Dellova: HaZahen e a Caneca dágua in A Morte do Poeta nos Penhascos e Outros Monólogos. São Paulo: Editora Scortecci, 2009, pp. 46 e segs.
Jorge Luis Borges achava que o paraíso teria o aspecto de uma biblioteca. Para Ruy Castro, ir para o céu significaria ir para um sebo e lá passar a eternidade. Estamos juntos nessa. Faz décadas que frequento esta agência de viagens fantásticas disfarçada por papéis amarelados e capas sedutoras, vestida por histórias que se recusam a desaparecer. Também como o Ruy, gosto especialmente dos sebos que não são à prova de ácaros e cultivam camadas geológicas de poeiras ancestrais. Embaixo de uma pilha de livros que não desabavam por mistérios da Natureza, descobri um Almanhaque original autografado pelo Barão de Itararé. Escondido em outra, com autógrafo afetivo, a primeira edição de um livro de crônicas do Stanislaw Ponte Preta. Peças de um quebra-cabeças que vão desenhando minh’alma.
Em episódio da série The Twilight Zone (Além da Imaginação), concebido por Rod Serling nos anos 50, o bancário Henry Bemis, vivido por Burgess Meredith (o pinguim do seriado clássico do Batman), é apaixonado por livros. Mulher e chefe o reprimem. Nada de leitura, é perda de tempo, diziam-lhe, coisa de poeta inútil, de malandro.
Certo dia, querendo paz para ler no intervalo de almoço, entra no cofre forte do banco e tranca-se lá dentro. De repente, e lembremos que era uma época de apreensão pelas primeiras bombas atômicas, ouve-se um forte estrondo. Intrigado, Henry sai do cofre e, atônito, descobre que a cidade foi à breca. Prédios em ruínas, ruas em pedaços, pessoas pulverizadas.
No início desesperado e zonzo, caminha trôpego pelos escombros. Descobre, surpreso, que os livros da biblioteca pública estavam intactos. Cá entre nós, bela sacada do Serling: livros e histórias são indestrutíveis. Bemis fica eufórico. Teria, finalmente, todo o tempo que quisesse para ler seus autores prediletos. Dickens, Shakespeare, Twain, Whitman, obras completas, lombadas queridas, sem grasnados censores.
Tudo parecia caminhar bem, grande torcida para o senhor Bemis. Não terminou assim. Ao mover-se na escadaria da biblioteca, seus óculos, portentosos fundos de garrafa, caem num degrau e quebram-se. O mundo fica embaçado, letras inacessíveis. “Não é justo”, murmura em desespero. Assim passaria a eternidade, ao lado da paixão tornada inalcançável. Sempre quis mudar este final e o faço, involuntariamente, a cada livro que leio. Repasso as bem traçadas linhas aos que, em harmonia comigo, garimpam histórias de espanto, surpresa e sentidos para a vida. Olhos bem abertos para as lindezas do engenho e da sensibilidade humanos. O sonho embutido nos sorrisos tímidos de Henry Bemis.
Em visita recente ao sebo Berinjela, bati os olhos numa lombada discreta. Da autora, argentina, nunca ouvira falar. De família emigrante norueguesa, em Cadernos de Infância Norah Lange compartilhou memórias do tempo em que morou em Mendoza e Buenos Aires. São capítulos curtos, quase independentes. Um deles, que fala da morte súbita do pai, me puxou pelo umbigo com tal veemência que senti como se fosse eu que o escrevera.
A experiência da Morte nunca é fácil. Norah tinha 10 anos quando o pai simplesmente saiu de cena. Os sinais revelam-se em detalhes para a Menina: a luz apagada do escritório em casa, a pressa do cocheiro em afastá-la e às irmãs da casa familiar, o rosto angustiado da mãe. Ante o inevitável, há no princípio uma negação, o choro que não vem. Ela fixa o olhar numa janela, como se a luz solar que penetrava por ali pudesse parar o tempo. Até desabar, chorar horas como milênios. Com o tempo, ela percebe como desconhecia aquele pai subitamente ausente. E conclui: “Quando olho seu retrato, penso que não o conheço, penso que ele não me conhece. Sua morte construiu diferentes destinos”.
O Menino passou por coisa parecida. Numa quarta-feira de cinzas, depois de uma noite exaustiva na tesouraria do clube tijucano, o Grande se foi. Como Norah, procurei uma janela, que só fui encontrar meses mais tarde num livro de popularização da Química (que mudou meu destino). Também como ela, tentei chorar o susto indimensionável, mas não conseguia. Até que uma vizinha, de espírito mediterrâneo, me sacudiu e ordenou: Chora! E as torneiras abriram-se, até hoje pingam, inconsoláveis. Começava o tempo das perguntas que nunca foram feitas, das respostas que não chegaram. O jeito é inventá-las. E por aí vou.
Hoje as palavras soam como eufemismos covardes: açougueiros são chamados de governadores, e um massacre com 120 mortos em um só dia, de ‘operação policial’ (Sérgio Rodrigues)
Tinha muitos assuntos para comentar. Podia ser a proposta parlamentar de criação de uma bancada cristã no Congresso, mais um passo rumo ao neomedievalismo. Nada contra animar o debate sobre o suicídio de um adolescente na Flórida, fruto de relação tóxica com um chatbot. Seria também apropriado acompanhar a luta de Lô Borges contra a Morte, ele que, com uma rapaziada mineira, criou o Clube da Esquina, fonte de encantamento, Vida e inspiração. Forçado pelo surrado motivo de força maior, seguirei outro caminho.
Não posso ignorar os acontecimentos de 28 de outubro no Rio. Nasci, cresci e sempre vivi no Rio. Pertenço, de múltiplas formas, a esta cidade. Sempre foi uma relação agitada, intercalando amor e ódio. Minhas melhores relações pessoais e visuais, muitas já desaparecidas, têm digitais cariocas. O mesmo com as desafeições e frustrações. A carnificina em duas favelas, comandada pelo medíocre governador do Rio, filhote do bolsonarismo e gigolô da violência de classe, me toca de maneira particular. É o sangue da minha cidade que transborda para o luto de suas periferias abandonadas pelo poder público.
Vou deixar minha indignação comer solta. Certa vez, Rubem Braga, o Urso genial das crônicas, disse sobre o ato de escrever: “Imprudente ofício é este, viver em voz alta”. E lá vou eu beber nesta fonte. Duela a quién duela, à moda, vade retro, do Farsante das Alagoas.
Para quem tem longa quilometragem neste balneário, massacres, assassinatos hediondos, perseguições violentas, não são novidades. Alguém ainda se lembra do rio da Guarda? Era nele, nos anos 60, que policiais, dublês de juízes e membros honorários de pelotões de fuzilamento, desovavam mendigos assassinados por eles. “Limpeza” da cidade. A Scuderie Le Cocq, que atuou nas décadas de 60 a 80, foi talvez o primeiro grupo de extermínio conhecido na crônica policial. Um de seus integrantes tinha amplo espaço na televisão, cultuado como herói por uma parte da população. Um programa radiofônico sensacionalista diário dava palco, nos anos 60, à violenta Invernada de Olaria, conhecida pelo tratamento brutal que dava aos presos. Foi nas entranhas policiais corruptas que nasceram as milícias, que hoje dominam parte da cidade, tocando terror e diversificando atividades. Identificam-se, cinicamente, como grupos de “autodefesa” dos cidadãos.
Li opiniões sobre a operação policial que pariu mais de 100 cadáveres. Muitas delas tinham sangue nos caninos. É gente que não se importa com o espírito “justiceiro” da polícia, que aplica rotineiramente e sem escrúpulos a pena de morte quando os alvos são negros e pobres. A carne mais barata do mercado é a carne negra (Elza Soares). Comportam-se como súditos leais quando estão nos bairros abonados. Como disse o escritor e jornalista Sérgio Rodrigues: “Nossas elites sempre delegaram a instituições violentas, das milícias do Império às atuais polícias militares, a tarefa de lidar com a massa de despossuídos fermentada em séculos de escravidão”.
Sem política pública de segurança, sucessivos governadores do Rio organizam expedições armadas midiáticas contra as periferias da capital, sem qualquer efeito na organização e operação das facções criminosas. Basta lembrar da lista vergonhosa que antecedeu Cláudio Castro: Anthony Garotinho, Rosinha Garotinho, Sérgio Cabral, Pezão e Wilson Witzel. No feliz achado da Cora Rónai: “Isso não é lista de nomes. É maldição”. Complemento: eleitos pelos cidadãos…
Cadê a repressão à demanda de drogas que alimentam esta indústria da morte? Onde os setores de inteligência para asfixiar as fontes de recursos que financiam a compra de armas e drogas? As organizações criminosas expandiram-se para todos os estados, atuam em promiscuidade com policiais e outros agentes do Estado, participam da institucionalidade política. Tutti buona gente.
Lorpas e pascácios, excitados pelo vocabulário trumpista, apostam na solução por mudança de nomenclatura (sic). Sugerem chamar a bandidagem de terroristas. Pronto, eis a saída para o abacaxi. Bem, talvez seja a hora de ampliar o conceito de terrorismo. Quem subemprega, sonega impostos, paga salários obscenos, lava dinheiro em paraísos fiscais, superfatura alimentos, estaria enquadrado no rótulo. Afinal de contas, o resultado de suas ações é desespero, melancolia, dor e, no limite, morte. Um terror! Que tal avançar um pouquinho mais? Estados que patrocinam intervenções militares ou promovem guerras de extermínio, matando a rodo em ambos os casos, seriam, claramente e por motivos óbvios, terroristas. Seus representantes cairiam na mesma nomenclatura das facções criminosas. Resolvido? Pois sim…
Honestamente, não tenho esperança de reversão do quadro atual da segurança pública, ao menos no curto e médio prazos. Há tantas variáveis em jogo e tão pouca vontade política de enfrentar a encrenca que a perspectiva não é boa. Durma-se com um barulho desses. De helicópteros, gritos de dor e metralhas.
Não estava para conversa. Percebi de cara o mau humor e tentei puxar assunto. Sei que pré-adolescentes andam no fio da navalha, são início de projeto que ninguém sabe definir. Querem liberdade, mas a receiam igualmente. De qualquer forma, resolvi insistir. A neta valia o esforço.
Depois de alguma hesitação, abriu o baú. Os pais não permitiam que ela tivesse celular. Era a última da turma sem o aparelho, sentia-se discriminada e não tinha acesso a programas dos amigos que se comunicavam pelo zap. Entendi o drama. Argumentei que o assunto valia uma missa, digo, uma conversa com os pais. Avisei que conversar não garante nada a priori, mas permite conhecer os argumentos do interlocutor. Permite, também e sobretudo, quebrar gelos. De brinde, poderia perceber que adultos são dialogáveis. Não quis saber. A zanga criava uma blindagem de incomunicação.
Breque. Outro dia, estava ouvindo um comentário do Nelson Motta sobre celulares. Falou sobre o caráter hipnótico e diversionista dos aparelhos. Flagrava-se em redes sociais, deslizando o dedo indicador pela tela durante uma, duas horas. Para quê? Para porra nenhuma, bradou.
As reclamações continuaram. Queria andar sozinha pelas ruas, sem adultos na cola. Era o canto sedutor da liberdade, salve ela. Fui solidário a este desejo tão forte e humano, mas expliquei-lhe que a cidade anda perigosa, imprevisível, maliciosa, impiedosa. Disse-lhe que, na sua idade, o Menino ia sozinho para todo canto em bondes e lotações, gastava solas de Vulcabrás em direção à escola. Misturava-se, também sozinho, com multidões flamengas em domingos de Maracanã. Hoje, seriam atitudes quase temerárias. Outros tempos, outros medos.
Breque segundo. Praticamente um em cada cinco brasileiros mora em áreas com presença explícita de traficantes de drogas ou milicianos. A bandidagem está presente em todas as frestas sociais. Do clube de futebol às apostas eletrônicas, de empresas de ônibus a postos de gasolina. Não se surpreenda se o homem da carrocinha da Kibon ou o vendedor de pirulitos cônicos de açúcar queimado (ainda existem?) tiver vínculo com a barra pesada. É a realidade, que deixou de ser ficcional para ser faccional.
A neta não disse que queria mocotó, mas precisava de espaço só dela. Nuvem negra pairava naquela cabecinha em mutação. Viajei imediatamente para um quarto de porta fechada, sede da República Popular da Grumânia. Sob um pôster debochado do Robert Crumb, o Menino estava em plena fase de troca de pele. Ouvia um pouco do Schubert herdado do Grande (quase chorava com a Sinfonia Inacabada) e tremia com os solos de flauta do duende Ian Anderson no Jethro Tull. Era clássico e desvairado ao mesmo tempo, sem tendência clara. Era Woodstock, mas com terno e gravata. Sem diálogo com os da casa, comandava a orquestra em absoluta solidão, à qual parecia condenado. Tinha a impressão, qual Vinícius de Moraes nos primórdios, que estava destinado ao sofrimento. A vida tratou de, em ritmo de cágado, abrir a porta. Lá fora tinha dor, mas também algumas promessas de prazer.
A atual geração enfrenta turbulências existenciais semelhantes às da minha, mas sofre ameaças que desconhecemos lá atrás. Uma pesquisa recente mostrou que mais de 80% dos jovens entre 11 e 17 anos no mundo são insuficientemente ativos, gatilho para problemas de saúde na maturidade. Telas, altissonantes imperatrizes da modernidade, são sedutoras e induzem ao imobilismo. O Menino tinha vários campos de pelada à disposição. Da terra batida ao cimento áspero, éramos craques em movimento. Com bola de meia, plástico ou couro. Sem pagar pedágio para ninguém.
Na idade da neta, surgem encruzilhadas e demandas. Tudo fica em aberto, as aparências valem pouco. Quem vê (só) cara, não vê nada. Um célebre poema da polonesa Wislawa Szymborska refere-se a uma foto de Hitler ainda bebê. “E quem é essa gracinha de tiptop?/É o Adolfinho, filho do casal Hitler!/Será que vai se tornar um doutor em direito?/Ou um tenor da ópera de Viena?”. Depois de listar fofuras, ela conclui: “Não se ouve o ladrar dos cães nem os passos do destino”. Sabemos para onde foi aquele bebê. Não sei, ninguém sabe, aonde vão dar as escolhas da neta. Uma coisa, entretanto, posso garantir. Não economizarei saliva, nem palavras, para acompanhá-la na estrada que escolher. O que tenho de melhor para lhe oferecer está na frase final de uma música dos Beatles, Hey bulldog: “If you’re lonely, you can talk to me”.
Entre as manias que eu tenho, uma é gostar de papel velho. Muito velho de preferência. Na trilha dos Cavalcanti, mania é coisa que a gente tem mas não sabe por quê. Já tentei entender. Será por causa do cheiro de passados, sempre a catar histórias que merecem relembramento? Talvez apego às consultas em dicionários e enciclopédias impressos, que quase nunca se restringiam ao vocábulo buscado e se desdobravam em novos territórios? Sei lá. As pilhas de recortes de jornal antigo recusam-se a morrer e, obrigado a elas, me trazem inspirações.
Dia desses, esbarrei em reportagem publicada durante a pandemia sobre o ator Mario Frias, repelente secretário de Cultura do governo Bolsonaro. Ele fez parte do Esquadrão da Morte da Cultura, completado pelo goebbelsiano Roberto Alvim, Regina Pra Frente Brasil Duarte e Sérgio Salve a Escravidão Camargo, o inacreditável presidente racista da Fundação Palmares. Camargo referia-se aos militantes do movimento negro como “escória maldita”. Foi o “negro da corte”, escalado para mascarar o caráter profundamente preconceituoso da malta que lhe deu o pequeno poder.
A reportagem menciona também o comportamento apoplético do atorzinho medíocre nas dependências da secretaria. Foi flagrado várias vezes aos gritos, ofendendo funcionários. O distinto andava armado pela Esplanada, reencarnando a palavra de ordem “Viva la muerte!” dos falangistas espanhóis em sua cruzada contra intelectuais e educadores. Como muitos de seus pares, Frias encarava a cultura como matéria de trabuco e chumbo grosso.
Por que exumo esta triste memória, que hoje parece tão longínqua? No início desta década, fomos abalroados por uma pandemia e um governo troglodita, que se orgulhava em dizer que veio para destruir. Os tempos eram tão ásperos, tão melancólicos, tão traumáticos, que muita gente boa proclamou que sairíamos do buraco para viver o extremo oposto. Acreditaram, alguns “previram”, que a espécie humana seria capaz de aprender com as hecatombes e rever conceitos, modos de vida, relacionamento com as diferenças. Ledo e ivo engano, como diria o Cony.
O que temos no cardápio de hoje? Na essência, nada mudou. O capitalismo triunfante, especialmente na variante financeira, continua a ser o que sempre foi: um sistema predatório, excludente, belicoso, arrogante. A riqueza produzida por centenas de milhões concentra-se nas mãos de poucos. Pela primeira vez, fruto da impiedosa destruição ambiental, há o risco concreto de extinção da espécie humana. O poder político é cada vez mais dependente de grupos econômicos monopolistas. O trabalho é cada vez mais exaustivo e repetitivo, às vezes fantasiado de “empreendedorismo”. Cresce o número de vítimas de doenças mentais, a solidão atinge níveis epidêmicos. Desaprendemos a ouvir os silêncios. A expectativa do aprendizado pelo desastre não se sustentou.
Um dos aspectos mais perversos desta imensa trituradora é a ilusão de progresso que mascara ambição, tramoias de bastidores e indiferença. Veja, por exemplo, o programa Reviver Centro, do Rio, apresentado por marqueteiros como recuperação da zona central da cidade, esvaziada principalmente pela pandemia. Do que se trata? Dois exemplos. O tradicional edifício A Noite, na praça Mauá, que sediou a rádio Nacional da era de ouro do rádio. Esvaziado, vai se transformar num cabeça de porco gourmet, com 477 apartamentos (!). Outro caso, agora na rua do Acre, envolve 153 apartamentos. Em nenhum deles os imóveis chegam a 50 metros quadrados (o mínimo não passa de 22).
Qual é a consequência destas iniciativas? Revitalizar uma região degradada? Não vejo como. A ideia é alugar os apartamentos em curtíssimas temporadas, estilo BNB. O resultado será criar não moradores, mas circunstantes, sem qualquer ligação orgânica com a área onde apenas estarão, sem ser. Moradores de verdade vivenciam o lugar onde moram, montando histórias, criando referências, fertilizando vizinhos. O centro tende a se transformar, pelo plano fantasioso, em dormitório sem personalidade, pastoso. Com grandes lucros para incorporadores, que terão sinal verde para, como contrapartida, explorar terrenos na zona sul.
Caberá às novas gerações decidir se naufraga junto com o imenso barco à deriva ou monta barricadas para resistir. Quem sabe lembrando uma bela passagem dos queridos Milton Nascimento e Ronaldo Bastos: Resistindo na boca da noite um gosto de sol.