Pacheco, Aziz e a alma brasileira

Pacheco, Aziz e a alma brasileira

Talvez eu seja o primeiro (sem qualquer pretensão) a ligar dois pontos relacionados à CPI da Pandemia, respectivamente localizados nos extremos da linha temporal mas que certamente guardam um certo “emaranhamento quântico”, de forma a serem na realidade uma coisa só. Vamos aos fatos. Em 4 de fevereiro de 2021 o senador Randolfe Rodrigues entregou à mesa do Senado o requerimento para a instalação da CPI da Pandemia.
A provisão constitucional determina, para que seja instalada qualquer CPI, tão somente a formalização do requerimento desde que este preencha os quesitos legais para tal. Era o caso. Qual foi a atitude do presidente do Senado, Rodrigo Pacheco? Em termos coloquiais, “sentou” sobre o pedido e apenas deu andamento mais de dois meses mais tarde, após ordem judicial do Ministro Luiz Roberto Barroso, que lembrou ao presidente do Senado que a Constituição deve ser cumprida que o prazo é zero, pois todos os pré-requisitos estavam conforme a lei.
Não houvesse a ação dos senadores Alessandro Vieira e Jorge Kajuru no STF, qual seria o destino do requerimento? Certamente o mesmo dos mais de 120 pedidos de impeachment que jazem sob as nádegas do presidente da Câmara, Arthur Lira, sem que se decida por sim ou não.
Na outra ponta da história, vimos a paradoxal (e absurda) situação de termos realizado a certamente mais importante e bem conduzida CPI de nossa história – não que perfeita, mas bem feita – e que se transformada em filme seria um arrasador documentário de um genocídio conduzido com dolo, método, frieza e ainda deboche por parte do psicopata-mor da República e sua equipe não menos sinistra e patológica, que deliberadamente dizimou idosos, obesos, diabéticos, hipertensos, cardiopatas, cujas mortes já eram previsíveis antes mesmo da entrada do vírus no Brasil, e que com sua disseminação planejada pelo governo federal terminou por atingir pretos e pobres com muito mais intensidade que a população branca e rica, fechando toda e qualquer equação desenhada pelas 3 décadas de carreira conhecida do delinquente da República. Sim, foi um projeto, que teve ainda a crueldade de eliminar aposentados, talvez uns 450.000, que certamente deram um grande alívio a Paulo Guedes e sua caterva.
Mas no momento da síntese da ópera macabra, surge o senador Aziz, presidente da CPI e articula para que seja removido do relatório da CPI os termos e acusações de genocídio e homicídio, saindo-se vitorioso.
Vamos agora ligar os pontos. A pergunta é, por que Pacheco não queria a CPI e Aziz não quis o termo genocídio? Qual a relação entre estas duas atitudes? Explico.
Amigas e amigos leitores, alguém minimamente esclarecido, e em especial, a classe política do Panalto (deputados federais e senadores) ignorava o que acontecia desde o primeiro caso de morte por COVID-19 no Brasil? Alguém deixou de perceber e compreender as intenções do delinquente-mor e seus nazifascistas associados? Alguém ali poderia se dizer ignorante ou desavisado sobre o trágico porvir, à dependência do governo federal? Não. Os fatos produziram-se na velocidade do fogo em palha seca e a doença ganhou o país sem qualquer resistência no nível das ações federais. O resto da história macabra, todos conhecemos.
Ora, o que faz uma CPI? Apura fatos com o objetivo de identificar ilícitos, crimes de todas as naturezas, e aponta, em seu relatório, a história oficial e estabelece responsabilizações, indica denúncias a serem processadas pelo poder judiciário. Convenhamos: se estivéssemos no lugar do presidente do Senado, a Câmara Alta da República, e ciente do volume escalafobético de crimes e ilegalidades a serem apuradas, qual seria o nosso sentimento? Qual seria a consequência de tal apuração? A resposta é uma só. Um vexame mundial. Uma mácula de dimensão continental em nossa história. Uma tragédia inominável, um sofrimento maior que o de uma guerra ou de qualquer cataclismo já ocorrido nestas paragens. E tudo isso ocorrido sob as barbas de quem? Do Congresso Nacional, parte voluntariamente e parte involuntariamente cúmplice de toda essa tragédia.
Pacheco sabia perfeitamente do tamanho do desastre e das responsabilidades envolvidas, para as quais certamente a nossa sociedade ainda não começou a medir, se é que irá algum dia. Mas a vista da cadeira de presidente do Senado é devastadora. Pacheco embarcou então na covardia de seus colegas Rodrigo Maia e Arthur Lira, que sob o pretexto de “não haver condições políticas”, não deram andamento aos pedidos de impeachment. Sinto muito, senhores, mas a história já não os perdoa, e o peso só vai aumentar pelo menos nos próximos duzentos anos.
Fechando o ciclo, Aziz foge do termo genocídio como o diabo da cruz, pois se todo o ocorrido já pesa o bastante sobre o sistema político, o “selo” genocídio dobra esse peso. Deixar o genocídio no relatório, seria praticamente assumir a cumplicidade da maioria dos deputados e senadores nos crimes, o que o deixaria em uma posição de acusador à qual Pacheco também quis renunciar com todas as forças.
No fundo, a alma dessa gente é corporativista, e no meu entendimento, este é o substrato que liga Pacheco a Aziz. Tanto um como outro tentaram evitar que o maior escândalo ético associado ao maior morticínio criminoso de nossa história tomassem um contorno oficial e passassem para a história, como as horripilantes fotografias e filmes dos campos de extermínio nazistas, cuja realidade foi revelada em imagens ao mundo por que alguns generais ordenaram que se filmasse e que se fotografasse tudo, para que no futuro, ninguém viesse a dizer que aquilo nunca ocorreu.
O genocídio ocorreu, os crimes ocorreram, e o deliquente-mor da República prossegue em sua sanha de cometê-los continuadamente. E o sistema político segue na sua inércia, tolerando-os como se não houvesse amanhã. Tragicamente, não se passará muito tempo até que a história dê o seu diagnóstico sobre a alma brasileira. E não será bom.
Nem fogo, nem gelo: o genocídio “morno”

Nem fogo, nem gelo: o genocídio “morno”

A decisão do “G7”, grupo majoritário da CPI da Pandemia que representa a força acusatória contra o delinquente da República e seus não menos delinquentes pares, de retirar do relatório final as acusações de genocídio e homicídio e que deixam os mais graves crimes focalizados no enquadramento de crime contra a humanidade pode sim fazer sentido para o formalismo jurídico e para uma certa cautela e prudência para que se evite um certo vexame em algum momento de outras instâncias pós-CPI. Mas também reforçam o sentido de uma já antiga máxima deste autor, que reza que o Brasil é um país onde nada esquenta a ponto de pegar fogo e nada esfria a ponto de congelar. É tudo morno.
O mal de tudo isso é que a grande força subjacente para que tudo siga na tropicalidade é tão simplesmente a covardia, que sempre está a postos para impedir que o país enfrente com a necessária crueza e contundência os seus problemas mais profundos. No contexto atual, nada poderia ser mais perverso do que não vislumbrar a clareza da perversidade que moveu (e move) Bolsonaro na condução macabra desta pandemia, algo que por sinal em nada surpreende aquele que observou minimamente a biografia profética deste patológico algoz, que usou a pandemia para executar a sua política de reforma do estado baseada na eliminação pura e simples de setores da sociedade.
Por outro lado, o relatório da CPI não é uma peça acusatória jurídica, e sim, um inquérito político que constitui a versão oficial de estado dos fatos e reúne idealmente a melhor documentação sobre os fatos. As peças jurídicas caberão às instâncias jurídicas, e estas poderão concordar, discordar ou simplesmente divergir do eixo do relatório mediante a releitura das provas e a ressignificação dos contextos, de modo a confirmar, refutar e/ou criar peças e fundamentos acusatórios. Daí, no modesto e despretensioso entendimento deste clínico, não se justifica a falta de coragem da CPI em cometer algum “deslize” por “licença poética” e ressignificar os fatos apurados em um contexto de uma inadmissibilidade que finca estacas e amplia fronteiras ao longo do tempo decorrido de outros genocídios assim reconhecidos. Sem a compreensão de que o conceito de genocídio tem o dever de ser pedagógico e que seus perpetradores sofisticam seus métodos com o passar do tempo como qualquer participante do crime organizado e assessorado justamente para fugir dos enquadramentos jurídicos, deixaremos abandonadas as milhões de almas vítimas de outros genocídios (reconhecidos ou não como tal) a ver novamente o filme da banalização do mal. Pois não há nada que banalize mais um genocídio (e no caso particular dos judeus, o Holocausto) do que não reconhecer na situação brasileira atual as sombras e as marcas da perversidade e do mal absoluto que se esgueiram pelas filigranas e cipoais jurídicos que nos são tão próprios.
Em fevereiro de 2020 já estava disponível ao planeta o conhecimento de que as populações de risco de morte pela COVID-19 eram a dos idosos, a dos obesos, e de pacientes crônicos de diabetes mellitus e hipertensão arterial, a saber, as mais frequentes do mundo ocidental, e respectivamente dependentes dos sistemas previdenciários e de saúde pública, estes por sua vez construídos sob valores dos direitos fundamentais de nossa Constituição, que por sua vez, são tidos como “peso para o estado” para Hitler e Bolsonaro, e seus respectivos co-líderes e seguidores. Na outra ponta, e de forma exposta às escâncaras nos trabalhos da CPI, uma política de governo baseada na (bem sucedida) imunidade de rebanho por infecção, que, como vimos acima, previsivelmente (e no caso, deliberadamente) produziria o efeito morte, com o conhecimento de quais grupos seriam excluídos da vida, somando-se ainda que em pouco tempo saberíamos também que pobreza e raça seriam determinantes ainda mais fortes que os primeiros.
Não seria qualquer exagero ou ilação indevida atribuir a Bolsonaro e seus cúmplices ativos e passivos a ideação homicida em massa se confrontarmos os fatos com o arcabouço ideológico perverso e manifesto de longa data deste patético canalha, que ao contrário de seus congêneres históricos não é dotado intelectualmente o suficiente para deixar na sutileza suas intenções e instintos.
Ficará assim a CPI com um gosto de oportunidade perdida de um enfrentamento da situação com o necessário senso de proporção. As grandes tragédias históricas causadas pelo homem não são lápides estáticas e as lições do passado devem ser vividas como um texto a ser permanentemente escrito, lido e reinterpretado, de forma que, presumidamente, a responsabilidade e a extensão dos significados morais e legais é dinâmica e progressiva, e as transgressões que colocam as vidas e a democracia em risco devem ser percebidas com rigor cada vez maior, pois também, presumidamente, o conhecimento e o tempo nos cobram tal comportamento. Daí o senso de proporcionalidade: jamais se justificaria (e não se justifica) qualquer leniência na compreensão de situações que colocam em risco e que resultaram em mais de 600.000 mortes.
Teríamos sim que proceder com um mínimo de ousadia e dar um passo adiante da atual compreensão formal do termo “genocídio”, sob o risco de não deixar uma clara mensagem para a história das democracias e assim, renunciar à função pedagógica da história. E se deixaremos esta dívida na questão de método, assim também o faremos na questão prática, se olharmos com cuidado o que ocorreu com as populações indígenas que viram seu destino ruir com o desaparecimento de seus líderes, que ainda que em números não tão dilatados, verão a extinção de suas culturas línguas e tradições, constituindo assim o significado mais puro do que seria a eliminação de um gênero – ou genocídio.
Infelizmente, no que depender do relatório final da CPI da Pandemia, não será desta vez que verei um incêndio ou um congelamento. Seguirei, involuntariamente, neste “tropicalismo”.
O grande erro da CPI da pandemia

O grande erro da CPI da pandemia

Um julgamento histórico ocorrido no STF na última quinta-feira passou desapercebido para muita gente e acabou não gerando a devida comoção. Explico. Julgou-se a inconstitucionalidade da lei 13.454/2017 que veio à época em resposta à resolução da ANVISA anterior que bania 4 medicamentos anorexígenos do Brasil, a saber, Anfepramona, Mazindol, Fenproporex e Fentermina, e ainda estabelecia normas rígidas para a prescrição da Sibutramina. A referida lei questionada e julgada inconstitucional restabelecia a licença para a prescrição médica e comercialização daqueles produtos.

À época, a resolução da ANVISA veio na contramão da opinião técnica de todas as sociedades brasileiras de endocrinologia, incluindo a academia, e foi assim vítima de duras críticas, inclusive a minha, que embora não sendo um grande entusiasta desses medicamentos, sempre reconheci que a personalização de cada caso pesando riscos e benefícios poderia ser vantajosa em muitos casos. A consequência prática do banimento da ANVISA foi a substituição dos 4 produtos pela Lisdexanfetamina, licenciada no Brasil para o tratamento do Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade, que em doses superiores à esta indicação produz importante supressão de apetite. Mesmo os ambulatórios de serviços especializados do SUS como o Hospital das Clínicas da USP adotaram este caríssimo medicamento como último recurso.

Mas a síntese da ópera é o seguinte: o STF bateu o martelo no poder delegado à ANVISA de decidir e regulamentar tudo o que se refere ao uso de medicamentos no Brasil. Fim. Acaba a discussão, o Congresso Nacional não pode legislar a respeito.

Sem grande alarde, mas com peso legal definitivo, o STF jogou no colo da ANVISA o Kit-Covid, essa excrescência médico-farmacológica que foi uma das grandes tragédias da atual pandemia. Mas o fato é que muito antes disso eu vinha denunciando a criminosa omissão da ANVISA, que silenciou sobre o assunto, tendo emitido apenas um parvo e insignificante comunicado que ninguém viu sobre o assunto, fechando com toda a força os olhos diante da tragédia técnica e ética que se desenhava. Quem acompanha meus vídeos e transmissões e minhas manifestações veementes nas minhas mídias sociais é testemunha da minha denúncia.

A CPI da pandemia deixou a ANVISA de lado nesta questão, que agora, sob a decisão de repercussão geral do STF recebe no seu colo todo o peso da responsabilidade dessa criminosa omissão, resultante da covardia de seu presidente, que certamente por questões pessoais e personalíssimas deixou de cumprir o seu dever, ocupando o seu tempo com as infindáveis filigranas para licenciar vacinas com critérios de “tempos de paz” que não contribuíram para a aceleração do processo de vacinação.

Espero sinceramente que em algum tempo esse imenso erro da CPI seja revertido por algum outro procedimento e que os responsáveis paguem pela suas omissões injustificáveis.

Eu acusei. Eu acuso. Eu acusarei.

O ciclo da danação eterna

O ciclo da danação eterna

Uma das características marcantes do fascismo e suas recorrências é a uniformidade da estrutura de pensamento de seus líderes e praticantes, marcadamente infiltrada pelo pensamento religioso que se sedimenta no formato de crenças, dogmas e pressupostos sofismáticos e inquestionáveis à luz da razão. Razão, aliás, nascida sim de uma ideologia refletida pelo iluminismo clássico, que no século XVIII ganha o ocidente com a meta de transformar governos absolutistas em democracias, e que, para tanto, tem a necessidade de propor uma nova visão de mundo baseada na liberdade de pensamento, de busca da verdade, do compartilhamento de conhecimento, e de métodos de estabelecimento de verdades desprovidas de personalismos e desejos primitivos, do reconhecimento da igualdade entre os seres e por metas de progresso visando a proteção de todos os cidadãos dos estados-nação.
É muito claro que a compreensão de um mundo de complexidades com vistas ao sacrifício dos desejos e visões pessoais e a formulação de objetivos e métodos que nem sempre (ou quase nunca) serão direcionados aos caprichos do indivíduo depende de um sistema de educação e formação de indivíduos que possa resumir em uma existência – ou melhor, em um período de uma existência – todo o complexo conjunto de acontecimentos transcontinentais que precederam e fomentaram o movimento iluminista.
No cume do processo de transformação iluminista está a ciência, que através de dois ou mais séculos veio conquistando lentamente a confiança de partes da sociedade como fonte de verdades “democráticas”, ou seja, verdades “testáveis” e verificáveis por qualquer um que possa reproduzir um dado experimento nas mesmas condições e assim obter os mesmos resultados.
Como nada é perfeito, as sociedades pós-iluministas cresceram e multiplicaram-se muitas vezes com heranças culturais e físicas dos regimes anteriores. Muitas delas, mormente no oriente médio e oriente sequer fizeram uma transição entre o tribalismo e algo parecido com o medievalismo, e assim, jamais enfrentaram estas questões em um processo de formação de sociedades complexas e eventualmente transnacionais, onde a noção e existência de um estado gestor da nação seria o eixo desse desenvolvimento e diversificação dessas sociedades. Não surpreende, portanto, que essas sociedades hoje em choque cultural com os estados pós-iluministas sejam tomadas por práticas e líderes religiosas vistas pelo ocidente como radicais e fanáticas, mas que curiosamente têm, nos estados-nação ocidentais, visto o renascimento dessa estrutura de pensamento e poder ressurgindo no âmago da sociedade. No caso particular do Brasil, a tomada do poder pelo pensamento religioso é um grave sintoma da desorganização da sociedade obtida pela contínua quebra dos laços de confiança que deveriam nos unir. Esta quebra, por sua vez, alimentada pela contínua frustração gerada pelas desigualdades crescentes em ritmo alucinado e que têm como trágica consequência o progressivo desgaste e desorganização dos sistemas de educação, refletidos em números vergonhosos.
Fechando macabramente esse ciclo, o número de pessoas incapazes de compreender e de se engajar em uma sociedade complexa, verdadeiramente livre, e psicologicamente capaz de converter um certo número de frustrações em modos de ação articulada capaz de induzir transformações sociais progressivamente diminui, e em contrapartida, aumenta o número das que, pelas vulnerabilidades psicossociais e culturais, formam a massa crítica necessária para que as tentações simplificadoras e salvacionistas do fascismo ganhem força, o que tragicamente, e frequentemente, é alimentado pelas grandes mídias e hoje ainda alavancadas pelas redes sociais.
Por este olhar, fica muito claro que a desigualdade é um pathos em si mesmo, no sentido de que a se julgar pelos acontecimentos mundiais das últimas décadas, verifica-se que é uma condição que cria um círculo vicioso que só piora a condição em si mesma, gerando mais concentração de poder político, econômico, e poder de fato.
Felizmente, e espero que não temporariamente, no caso do Brasil a opinião pública revelada nas pesquisas recentemente publicadas vem apresentando forte reação no sentido de rejeitar o sistema político ora no poder, e valoriza um sistema que previamente trabalhou no sentido contrário do atual, mas ainda assim, mostra fragilidades na habilidade de “ligar os pontos” dessa complexa teia de acontecimentos, poderes, mídia e pessoas, e assim elaborar um projeto político que nos vacine de uma vez por todas contra o fascismo e suas mil caras, e que reabilite o ciclo virtuoso de fortalecimento de laços sociais e de confiança.
Do contrário, teremos o ciclo da eterna danação.

O bolsonarismo é um tóxico

A mente humana (e talvez não só a humana) pode funcionar como uma verdadeira caixa de ressonância, onde qualquer “onda” pode provocar um colapso. Talvez o exemplo mais claro e simples é a convulsão, onde uma sequência de disparos anormais de pequenos agrupamentos neuronais se propagam, sob o ponto de vista de uma abordagem da mecânica ondulatória, como um processo que reverbera em vizinhanças cada vez mais largas a ponto de que as ondas de impulsos neuronais (referidos grosseiramente como “ondas elétricas”) ganham sucessiva e rapidamente os territórios cerebrais a ponto de suprimir a consciência e provocar uma certa ressonância no corpo inteiro da vítma, levando-a à perda de consciência e aos movimentos tônico-clônicos conhecidos. Como tudo em função neuronal se traduz em “ondas” de despolarização/repolarização que se propagam por circuitos que tem regulagens químicas ponto a ponto (nas sinapses, que são pontos de comunicação entre os neurônios), a função de determinados circuitos pode ser modulada por agentes químicos. Assim, conseguimos com medicamentos modular certas funções neuronais, para por exemplo, “quebrar” as vias de ressonância ou reverberação, impedindo assim, que algo se propague para todo o cérebro, e eventualmente, também estabilizando a função de grupos neuronais “rebeldes”, que geralmente assim o são por pequenas mutações genéticas que afetam a função de bombas e canais de íons (de sódio, potássio, cálcio) nas respectivas membranas celulares.

Substâncias químicas outras podem também induzir alterações de função neuronal/cerebral produzindo sensações de prazer e recompensa e também alterações de consciência (muitas vezes descritas como “expansões”) e que produzem na pessoa compreensões da realidade que normalmente não são atingidas no estado “natural” ou na ausência dessas substâncias. Ocorre que o uso repetitivo de certas substâncias pode (como o álcool, opiáceos, e mesmo certos medicamentos) induzir fenômenos de tolerância e dependência, de modo que as doses necessárias para a obtenção do efeito aumentam progressivamente e estabelece-se um círculo vicioso que causa intenso mal-estar no estado de abstinência da substância, que pode ter consequências fatais.

O conhecimento atual das funções da mente (entendendo “mente” como o “produto” da função cerebral) permite-nos afirmar com segurança que o caminho reverso existe. Ou seja, se usarmos como “entrada” no cérebro apenas certos conjuntos de idéias ou vivências repetitivas e de forma consistente, o sistema progressivamente incorpora modos de função que se refletem fisicamente em modulações químicas e formação de circuitos funcionais que passam a ser uma representação física de uma experiência meramente abstrata. Assim podemos compreender a razão de certos comportamentos que as pessoas tem, e com grande frequência os que vivem sofrimentos mentais ou psíquicos, de se desfazerem de idéias e comportamentos “ressonantes” ou repetitivos em suas vidas, nos mais variados graus de complexidade e peculiaridades individuais. Se por um lado a teoria psicanalítica nos fornece bons substratos para o entendimento da gênese de certas emoções e comportamentos, a ação química sobre o cérebro, modulando a função de certos circuitos pode aliviar muitos sofrimentos e abrir o caminho para o estabelecimento de novos padrões e diminuição da dor psíquica.

Saindo do mundo do indivíduo podemos teorizar e verificar, com as devidas metodologias ao alcance da psicologia das massas e da sociologia, que as ideias circulam na sociedade de forma semelhante à função neuronal em um cérebro. Talvez o exemplo mais clássico seja a presença das “modas”, que são hábitos e práticas que muitas vezes ganham a sociedade de forma verdadeiramente epidêmica e se propagam como uma onda convulsiva, seja por uma simples expressão de linguagem até uma forma de vestimenta ou hábito alimentar, formando um conjunto de mudanças de comportamento coletivo movidas basicamente por desejos individuais que se manifestam coletivamente em um determinado espaço físico e de tempo.

Todos os coletivos humanos (e talvez a maior parte dos não humanos) subsistem por graça das relações de confiança, que fortalecem permanentemente o sentido de que a grande maioria dos membros do grupo têm objetivos comuns e comunicam-se por símbolos (linguagem) aceita e compreendida por uma expressiva maioria. Mas, vez por outra, a história nos ensina, as sociedades chegam a um certo nível de evolução onde um dado conjunto de sofrimentos psíquicos representados por sensações de insegurança, desconfiança, incompletude, podendo evoluir para ideações paranóides, passam a afetar um número progressivo de indivíduos até a formação de uma massa crítica, que funciona como caixa de ressonância e reverberação, a ponto de causar uma verdadeira convulsão social, que dependendo de sua extensão, pode inflingir danos consideráveis a um dado agrupamento.

O Bolsonarismo emerge na sociedade brasileira como uma verdadeira droga capaz de produzir alívio temporário de diversos sofrimentos psíquicos para seus autores, que pelas mais variadas razões não desfrutam de uma conexão confortável com a sociedade. Sua fórmula segue princípios gerais sempre presentes no fenômeno político descrito como fascismo, através de simplificações, personalizações (que exploram os mitos mais regressivos), negações, exclusões, e principalmente, a destruição dos círculos de confiança coletivos para que possa se impor o autoritarismo e uma dada visão de mundo.

Não seria exagero dizer que o bolsonarismo funciona como remédio para seus praticantes assim como certas drogas “ilícitas” o fazem. Já é bem conhecido pela prática psiquiátrica que os dependentes químicos são em sua maioria pessoas que encontraram substâncias químicas antes do psicólogo, do psicanalista ou do médico. Como já vimos acima, ideias em ressonância podem expandir e suprimir consciências, sejam agradáveis ou não. As práticas místicas e religiosas, ainda quando desprovidas de estímulos químicos tradicionais de certas culturas, produzem algum alívio e bem-estar.

Também não seria exagero afirmar pelo que conhecemos sobre os bolsonaristas praticantes, que o bolsonarismo vai além da figura patética de um ignorante e brutal frustrado crônico. Nos últimos anos pudemos observar sem dificuldades a impermeabilidade e a estanquicidade do pensamento desses grupos e de uma extraordinária uniformidade de seus formatos de pensamento, que se fossem traduzidos para um programa executável em computadores não requeresse talvez mais que meia página de código.

Mas, como também já pudemos observar, o bolsonarismo tem um potencial destrutivo para a nossa sociedade talvez inferior apenas ao álcool, funcionalmente e epidemiologicamente enquanto efeito tóxico, indutor de dependência, de violência, destruição e morte, e daí, a sua devida classificação como tóxico, se enxergarmos a sociedade como um organismo vivo em suas relações intrínsecas e extrínsecas.

É claro que sociedades doentes, da mesma forma que indivíduos doentes, são propensos a procurar e eventualmente encontrar soluções rápidas e simples para os seus sofrimentos. O bolsonarismo representa assim, na minha visão, a propagação de uma grande onda de ideias capazes de aliviar sofrimentos de indivíduos dispersos na sociedade e que com grande auxílio da tecnologia e sua rapidez de comunicação despertou com grande velocidade os desejos mais regressivos e primários dessas pessoas, que ora nos ameaçam e aprofundam nossas doenças crônicas enquanto sociedade. E até a chegada de algum “remédio” ou “tratamento”, funcionará como um verdadeiro “crack”. Quem já tratou um dependente de crack sabe do que falo.

Uma síndrome reveladora

Tenho descrito os fenômenos primários e secundários da pandemia da COVID-19 como uma verdadeira síndrome. Chamamos de síndrome quando um determinado conjunto consistente de sinais e sintomas se apresenta não tendo necessariamente as mesmas causas. A má resposta à pandemia em muitos países ou regiões, embora com os mesmos resultados catastróficos, pode ter raízes variáveis, desde as condições puramente biológicas determinadas por questões geográficas, demográficas, etnográficas, até aquelas que dependem unicamente da ação política de governos. Entretanto, vejo como participante obrigatório, ainda que em níveis diferentes de intensidade, o fator educação.

O que temos visto em diversas sociedades (que de algumas jamais se esperaria isto), é que a vulnerabilidade que populações inteiras tiveram aos fenômenos biológicos e políticos da pandemia foi determinada certamente por verdadeiros abismos desconhecidos nos processos educacionais, no que se inclui a educação médica, infelizmente. Sem estas imensas e profundas falhas na formação dos indivíduos, jamais haveria massa crítica ou caixas de ressonância para o volume de desinformação, na maioria das vezes, criminosa, que levou a perdas vultosas de vidas e tantos prejuízos aos sobreviventes, seus próximos, e à sociedade.

Um dos aspectos mais trágicos é o que se verificou consistentemente por estudos robustos, que encontraram uma correlação linear entre o perfil político de cidades ou regiões e o grau de acometimento fatal e não fatal pela COVID-19. Quanto maior a proporção de votantes no presidente Bolsonaro, maior a incidência e número de mortes, sendo a relação inversa também verificada com clareza.

Estima-se que no Brasil, só no ano de 2020 foram demandados 524 bilhões de reais em custos diretos relacionados à pandemia, número que certamente se repetirá em 2021 com viés de alta. Este número é talvez superior a todo o orçamento da educação de um ano no país.

Será uma tarefa vultosa a dos cientistas sociais, pedagogos, historiadores, jornalistas, filósofos e agentes políticos a de esmiuçar com voracidade o volume de dados e informações sobre este período sindrômico que vivemos, pois a próxima pandemia ou o próximo evento planetário está a caminho, é uma questão de tempo. A geração dos mais jovens e as que virão devem ser providos de vastas doses de novas “vacinas”, estas formadas por uma nova educação que tenha a competência de pelo menos reduzir significativamente a vulnerabilidade intelectual das populações aos embustes produzidos massivamente pelas mídias, por um lado, e por sistemas políticos perversos por outro lado, sob pena de perpetuarmos esses ciclos patológicos que geraram o nazifascismo, que retornaram na década de 1980 com o neoliberalismo, e que pavimentaram a eclosão desse sistema tão destrutivo que nos assola cruelmente no momento.