Judeus contra Bolsonaro

Judeus contra Bolsonaro

Há quatro anos, durante a campanha eleitoral, o ovo da serpente já era visível. O candidato Jair Bolsonaro deixava muito claro que não era um extremista qualquer. Em suas declarações, mostrava seu desprezo pelas mulheres, negros, indígenas, LGBT+, todas as minorias e sua disposição de combater – se possível destruir – tudo que não estivesse de acordo com o seu estilo de vida miliciano, saudoso do fascismo.
Lamentavelmente, muitos se deixaram seduzir por um discurso pro-Israel.
De outra parte, muitos de nós, judeus, não se deixaram enganar pelo canto da sereia. Estivemos na porta do clube Hebraica-RJ, gritando em alto e bom tom, “não em nosso nome”, quando ele pronunciou um de seus discursos mais abertamente racista e preconceituoso. Impedimos que fizesse o mesmo antes na Hebraica-SP.
Fizemos a campanha #elenão e criamos a plataforma Judeus contra Bolsonaro, que reuniu mais de 11 mil assinaturas e participou dos atos contra a candidatura extremista.
Perdemos as eleições e a barbárie tomou conta do país. Foram anos de trevas e desconstrução de direitos humanos, arrocho salarial e carestia, desprezo pela ciência, que oficialmente ceifou a vida de quase 700.000 pessoas. A fome voltou ao dia a dia de 33 milhões de brasileiros; mais de 6 mil militares foram colocados no comando de ministérios e cargos importantes do governo. O Centrão assumiu o orçamento federal e substituiu políticas públicas pela distribuição de verbas parlamentares a seus apaniguados. A Amazônia está sendo destruída e os filhos da floresta, seus defensores, assassinados. A imprensa, paulatinamente estrangulada.
Enfim chegamos ao ponto em que tudo isto pode mudar, as eleições se avizinham, embora os milicianos – de rua ou digitais – se organizem para calar as urnas e a Justiça. As urnas serão o campo de batalha e nosso voto, nossa arma. Com ele podemos devolver o Brasil a civilização. Um país de todos e para todos.
As pesquisas indicam que a eleição será decidida entre as chapas Lula/Alckmin e Bolsonaro/Seu vice. Não existe terceira via capaz de alterar esse quadro. O voto em uma terceira via é o mote que Bolsonaro precisa para ir ao segundo turno. E se houver um segundo turno, o próprio candidato acena para a possibilidade de um golpe militar. E trabalha por ele.
Daí a importância de que todos os democratas, judeus e não judeus, votem de maneira a impedir um segundo turno. Temos a obrigação e o desafio de derrotar o fascismo e os simpatizantes do nazismo.
Não se trata de um apelo partidário, muito pelo contrário, é um chamado civilizatório.
Nós, Judeus contra Bolsonaro, abaixo assinados, somos Lula e Alckmin no primeiro turno.

Venham com a gente,

https://www.change.org/JudeusContraBolsonaro

Mauro Nadvorny
Jayme Brener
Tania Maria Baibich
NELSON NISENBAUM
José Marcos Thalenberg
Rebeca Iankilevich
Celio Faina
Débora Iankilevich
Peggy Distefano
Marilia Maister
Beatriz Radunsky
Beatriz Kushnir
Renata Feldman
Eva Doris Rosental
Edith Derdyk
Doris Trachtenberg
Claudia Kopelman
Lucia Chermont
Silvia Berditchevsky
Sergio Alberto Feldman
Gustavo Perez
lidia kosovski kosovski
Ricardo André Varnier
elias salgado
Yara Schreiber Dines
Renato Gejer Nigri
Claudia Heller
Silvia Bregman
esther weitzman
Denise Bergier
Milton Blay
Silvio Wittlin
Roseli Goffman
Jean Goldenba
Sionea Souza
michel gherman
Therezinha Privatti Suassuna
Alberto Balassiano
Karina Calandrin
Ruth Goldmacher
Laura Monte Serrat Barbosa
Rafael Arkader
Marcello Faerman
Sabina Radunsky
Jaime Motta
Nathan Tyger
Lilian Nahon
Maurice Jacoel
Silvio Naslauski
Francis Kanashiro Meneghetti
Daniela Najman
Daniel Alvarez
Gilson Moura Henrique Junior
Betty Boguchwal
Arnaldo Klajn
Paulo Perelson
Misha Klein
Adriana Dias
Pedro Gonçalves
GUILHERME SZTUTMAN
Ana Kosman
Eduado Jeolas
Ruth Espinola soriano de mello
Miriam Mannheimer
Thaís Kornin
Silvia Krutman
MARIO LUIZ GIUBLIN
Juliana Rapoport Furtado
Luana Rapoport Furtado
Eduardo Spinola e Castro
Michel Mahiques
Gunter Sarfert
Benilce Burgarelli do Chaves
ISABEL PAROLIN
Shoshana Rapoport Furtado
Abrahão Rumchinsky
Henrique Samet
CARLOS BEKERMAN
Mauro Lipman
Cristina Catalina Charnis
Nelson de Almeida Milreu
Lucas Hinterhoff Ri
Regina Schneiderman
Luiz Carlos Furtado
Suely Bogochvol
Ricardo Ptasznik
Daniela Hruschka
Maria Fiszon
Mauricio Galinkin
Raquel Fraga
Davis Sansolo
NOEMI CARRICONDE
Ikusiel Mosche Goldmacher
Nathaniel Braia
Andréa Basílio da Silva Chagas
Ana Maria Burmester
André Cukierkorn
Silvio Lewgoy
Pedro Aleixo Sanchez de Cristo
Bianca Marian
Ana Maria Rozzante
Izolete M. Da silva
Oliver Mann
Daniel Mendes
Lucimar Do Carmo Tavares
Sheila Braga Fará Lucas
FABIO SILVA
Solange Esteves
ALBERTO KLEINAS
Leana Naiman
cintia cristina silva de araújo
Cely Leal
MARCELO JUGEND
Iso Sendacz
Rosa Maria da Silva
Iara Czeresnia
Bruno Caramelli
José Taragona
Claudio Maierovitch Henriques
Helena Kon
Lea Czeresnia Taragona
Sandra Rocha
Mauro Meiches
Ethel Akkerman
Renato Kon Rosenfeld
vitor rosenfeld
Carolina Hinterhoff
Renato Levin Borges
Rubens Kon
Silvia Levin
elyeser szturm
Katia Bassichetto
Regina Scharf
Maira Firer Tanis
Anita Kon
Sonia Sant’ Anna
Wilton Santana
glaucia Regina Oliveira  de Sá
Carlos Eduardo Cheskys
Laerte Idal Sznelwar
Rosa Maria Ferreira Marinelli
Cristina Freitas
joao carvalho
daniela valentim
HORTENCIA MAMAN
Marianna Schontag
vivien weinberg
Barbara Schneider
SONIA AYRES
Vivian Hinterhoff
BERNARDO SABAT
Juarez Verba
VALERIA VERBA
Renata Gherman
Ana Sueli Gejer
Keyla Marzochi
Debora Lahtermaher
Marina Costin
Roberto Berliner
Lilian Trajtenb erg
Assi Garbarz
Lia Sztulman
Angela Goldstein
Antonieta da costa
Jorge Ricardo Santos Gonçalves
Guilherme Cohen
Gustavo Faleck
Maria Beatriz de A David
Fabio Kon
SAMUEL NEUMAN
Clarisse Goldberg
Joëlle Rouchou
Claudia Mifano
Diana Goldberg
Maria Regina Oliveira Moraes
Aurea Dreifuss
marcia braiman
Irène Zaslavsky
Li7 murik
Elizabeth Aguiar
Mauricio Frajman
George Maia
Suzana Salama
Lídia Aparecida Soares Silva
Maria Eugênia Marques
Prof. Gerson Antônio da Cruz
Violeta Cheniaux
Lidia Favraud
Fani Neuman
Amelia Esberard de Niemeyer
Ester Paciornik
Roberto Stern
fania izhaki
Nair Mattos
Alberto Kleinas
Bruno Scala
Ivone Ponczek
Tito Oliveira
zulma lentino
Helio Kotler
Roberto Julio May
Ivan dos Santos Levy
ALBERTO AMORIM
Gisela Heymann
Samantha Abuleac
Emilia Wien
Mary Sttela Morgado
Maria Flávia Todeschini
Virginia Galvez
Cecilia Werneck
ary waismann
ari roitman
Nilson Gonçalves Muszkat
Fania Fridman
Fernanda Gonçalves Muszkat
Paulina Roitman
jacqueline castro
Hilton Barlach
Liga Regina Klein
Maria Luísa Kayat Eluf
Tania M Silva
Bety Jardinovsky
Regina Helena Elnecave
Francisco Fortunato Montenegro Moreira
Ester Finguerut Serff
Ana de Miranda Batista
GISELA GOROVITZ
Ney Roitman
Maria Marta Moura Reis
Stela Cals de Oliveira
Eduardo Scaletsky
Henrique Albagli
ANDRE ALBAGLI
Rachel Aisengart Menezes
Izabel Aguirre
Telma Aisengart Santos
Sergio Margulis
Alfredo Dario
magda vaissman
Deborah Danowski
Celso Carnos Scaletsky
Marcio Goldman
Andressa Lewandowski
Ivan Kanter Goldman
Roberto Frejat
Luciana Heymann
iris kantor
Carlos Schlesinger
Samuel iavelberg
silvia naidin
Marlene Sztyglic
Monica B. Cadji
Elizabeth Esquenazi
Miriam Danowski
Maurice Politi
Ana Flaksman
Ari Vainer
Katia Lerner
Gilberto Hochman
Isio Ghelman
Evelyn Disitzer
Flavio Coelho Edler
daniel stycer
Tamara Tania Cohen. Egler
Andrea Telo da corte
Silvana Sacharny
pedro roitman
Gabriela Bal
Sergio Furrer
Marcia Rubin
Anna Mehoudar
Mariam Dimitri
Rosie Mehoudar
Carlos Sales
Simeão Jaime
Luiz Antonio Garcia
Marcelo Bueno
Ricardo Waizbort
Marcos Santos
Francisco Moreno de Carvalho
Beatriz Malamud
isabelle benard
Priscilla Accorsi Voss
Susan Guggenheim
Silvio Hotimsky
Diana Victoria Aljadeff
SOLANGE RECHTMAN
Eva Wongtschowski
Paola Accorsi
Maria Inês Zanchetta
Regina Cardillo
Renato Sztutman
Miryám Hess
Maria Priscila l Bueno
Ivette Lenard
Nina Nussenzweig Hotimsky
Roberto Cenni
Júlia Kushnir
angela pinheiro machado
sergio besserman vianna
Monica Ronai
carlos sergio nogueira
Marta Topel
Katia Adler
Andrea Melo
ELISA KATZ
Miriam Rosenfeld
Rachel Warszawski
Samuel Ben Levy
Benjamin Wainberg
Paulo Ricardo Simon
sonia lansky
Ester Malque Litvin
Marcia Adler Sidi
Eliane Berger
Marcia Rothstein
SAMY LANSKY
Silvia Vieira
Sérgio Bloch
Suzana Verissimo
Carlos Frederico Barcellos Guazzelli
Eliane Pszczol
Edson Lerrer
RUTH HELENA DWECK
Patricia souza
Felipe Schuchmann
Carlos Zeitoune
rafael zeitoune
Abrão Blumberg
Freddy De Freitas
Paulina Basch
TELMA VIGO
Ricardo Soto Peres
Mauro L Lerner
FELLIPE DA MEIER
Pedro Lansky
Barbara Gancia
Frederico Gonçalves
Thais Waisman
Celeste Kelman
Rui Matias
Marilda Varejão
Evelise Xavier
Silvia Jacoby
Elizabete Salgado Soares
mariangela Tamietto
Anete Litvac
Roberto Willian Perache Franco de Moraes
Rui Ângelo
ROMER DOS SANTOS GUEX
Estela Grinberg Gontow Braga
Joia Weisz
Heni Gontow
Edson Souza Nascimento
Moshe Waldmann
Diva Santos
Ziad said l Abboud
Eliane Simas
Claudia Brockly
DELMA DA COSTA
Raul Iavelberg
Fernanda Tubenchlak
Sonia Nussenzweig Hotimsky
Pierre Brisset
Lucia Fortes
Saul Kirschbaum
caroline valansi
Céu Bauler
Lula já

Lula já

LULA JÁ

“ É uma cova grande pra tua carne pouca
Mas à terra dada, não se abre a boca
É a conta menor que tiraste em vida
É a parte que te cabe deste latifúndio
É a terra que querias ver dividida
Estarás mais ancho que estavas no mundo
Mas à terra dada, não se abre a boca.”

(João Cabral de Melo Neto, “Funeral de um Lavrador”)

Desde 2016, em vertiginosa e despudorada aceleração, as esquinas do país expõem vitrines e mais vitrines de famélicos: com cartazes toscos escritos à mão em papelão de mercado, com limões para emular malabares e com suas figuras dos “Retirantes” de Portinari, os miseráveis retratam o Brasil pós golpe.

Em setembro de 2014, em Roma, a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) divulgou relatório no qual informava que, por critérios de medição por ela adotados há mais de 50 anos, o Brasil havia saído do Mapa Mundial da Fome. Indicou-o, por isso, como exemplo de País a ser seguido. “De 2002 a 2013, caiu em 82% a população de brasileiros considerados em situação de subalimentação.” (Revista Globo Rural, edição de 16/09/2014).

O deliberado retorno da produção da miséria teve início com a emenda constitucional do teto de gastos, promulgada por Michel Temer já nos seus primeiros meses no poder. A isso seguiram-se, com metódica e macabra sistemática, outras medidas de desmonte, agravadas ainda mais pelo desgoverno necropolítico de Bolsonaro e o ultraliberalismo de seu ministro Paulo Guedes. Dentre elas, destacam-se, o aumento do desemprego e a precarização do trabalho (“reforma trabalhista”), a diminuição dos valores do Bolsa Família em relação à inflação, e a extinção da política de valorização do salário mínimo.

Segundo pesquisa da Fundação Getúlio Vargas, no final de 2021, como consequência das altas taxas de desemprego e do cancelamento das políticas públicas focadas no tema, o número de brasileiros vivendo abaixo da linha de pobreza triplicou, atingindo cerca de 27 milhões de pessoas. Isso produziu o pior cenário da miséria no Brasil, nos últimos dez anos. (CNN Brasil, 31/10/2021).

No seu discurso de posse de 2003 o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez do combate à fome a principal prioridade de seu governo, convocando todo o povo brasileiro a um mutirão cívico contra aquele flagelo, e em defesa da dignidade humana.

Tal propósito foi levado a cabo através de um conjunto de políticas públicas estratégicas que resultaram, em apenas uma década, na saída do país do Mapa da Fome da ONU.

Mesmo que fosse só por isso – e não é! – o voto precisa ser Lula, já no primeiro turno.
LULA JÁ.

“Os boias-frias… sonham com bife à cavalo, batata frita e a sobremesa”

(João Bosco e Aldir Blanc, “O rancho da goiabada”).

Tânia Maria Baibich

Pensamentos sobre a intervenção Russa na Ucrânia e suas consequências

Pensamentos sobre a intervenção Russa na Ucrânia e suas consequências

Autor: Regis Cabral

Estive acompanhando os comentários e opiniões sobre o conflito entre a Ucrânia e a Rússia. Muito do que se lê é cópia da mídia de um lado ou outro com pouca informação sobre quem tenha contato direto. Eu tenho estes contatos, na sua maior parte com comunidades Russas, dentro e fora da Ucrânia. Devido aos meus vínculos com serviços funerários no Norte da Europa, fui contatado para dar apoio voluntário a famílias em situações de perdas, tanto de um lado quanto do outro, durante a guerra de 2014. Portanto me perguntaram se poderia fazer a mesma coisa desta vez.

Recusei, pois, como muitos, tinha a certeza de que esta guerra não iria levar mais que cinco dias. Oficiais Russos, meus conhecidos, tinham a certeza que seria menos. Poucos estavam preparados para mais do que quatro dias. Tinha fundamento pensar assim. O exército e oficiais Russos estavam com sólida experiência da Chechênia e da Síria. O exército da Ucrânia era mal treinado, despreparado, desorganizado e com muitos equipamentos Russos velhos e de segunda mão. Além disso, era bem conhecido que o governo da Ucrânia se recusava a distribuir armas às milícias e corpos de defesa civil e, quando feito, sem munição suficiente. A ideia da Presidência da Ucrânia de fazer uma defesa social e cultural parece bem bonita no liberalismo de teatro e circo, mas nada se relaciona com a realidade. Ouvindo meus contatos Russos em fevereiro, parecia que ia ser um turismo até Odessa. Não foi e as perdas são brutais.

Eu compreendo que existam aqueles que queiram apoiar a Putin neste conflito. É conhecido que entre os amigos de Putin estão os partidários de Trump, Orban, Le Pen, Bolsonaro, e outros mais à extrema direita, apesar da liderança desses movimentos pedirem a seus partidários para ficarem quietos. Existem também aqueles que apoiam a Putin devido à relação inimigo do meu inimigo. Entretanto, apoiar Putin com argumentos de democracia popular, ou movimentos contra o capitalismo ou a favor da esquerda, é muito ofensivo para os partidários de Putin na Rússia. Estas pessoas vêm de famílias e grupos que sofreram com o Stalinismo, algo que não esquecem nem perdoam. Toleram a democracia social que consideram ligadas a Kautsky, grande inimigo dos Bolchevistas. Mas o comunismo, o socialismo e outras esquerdas consideram mais do que errado. Consideram repugnante.

Esta repugnância aumentou durante o princípio da intervenção Russa na Ucrânia. Na Duma, foram os delegados e representantes da esquerda, socialistas e comunistas, que criticaram a Putin, dividindo ainda mais a opinião pública Russa e enfraquecendo a coesão dos corpos militares. As divisões entre os militares resultaram em comandos divididos e com conflitos internos.

Pior do que isto foi o que aconteceu com as milícias pró-russas em Donetsk e Luhansk. Estas milícias não são pequenas, entre 40000 e 50000 militantes em cada uma. No princípio da ofensiva tinham a função fundamental dupla de rapidamente conquistar os territórios pró russos e atrair as formações principais do exército da Ucrânia. Entretanto ficaram temporariamente paralisadas, exigindo a transferência de outras unidades, prejudicando toda a campanha. Por que ocorreu a paralisia?

Foi resultado de como o discurso de Putin circulou nas mídias sociais e notícias. É bem conhecido o discurso antinazista de Putin. Ele se vê como continuador da grande guerra patriótica. Era de se esperar que a propaganda de guerra tivesse este tema. Mas mal informados a este ponto a maioria dos Russos, exceto fanáticos e quem trabalha para o governo, não são. Sabem que durante as eleições da Ucrânia os grupos e partidos de extrema direita e antissemitas em quase nenhum lugar receberam mais de 2% dos votos. Mais do que o atual Presidente, muitos candidatos associados à comunidade Judaica foram eleitos. Os Russos sabem muito bem que grupos Ucranianos de extrema direita são pequenos, como o Azov, que faz muito alarde, não passam de 650 pessoas com membros substituídos por regulares à medida que o conflito avança. Mas é parte do discurso oficial de Putin e não é muito aconselhado criticar.

Mas do lado Russo, em particular em Donetsk, existe presença antissemita forte. Existe uma explicação para isto, além de uma tradição local deste tipo de comportamento. Putin, apoiado por vários membros da hierarquia da Igreja Ortodoxa Russa, levou adiante uma campanha de êxito contra o Nazismo e o antissemitismo na Rússia. Parte da campanha teve várias válvulas de escape, inclusive para famílias se deslocarem para Donetsk e para os mais militantes, integrarem-se aos grupos Wagner e semelhantes. Quando grupos de esquerda internacionais justificaram o discurso, as milícias em Donetsk e Luhansk o “compraram” como verdadeiro. Foi um медвежьи объятия, abraço de urso, das esquerdas. Os militantes pró Rússia, alguns com suas bandeiras Soratnik, não atacaram imediatamente, acreditando em irmãos ideológicos na Ucrânia. Se arrependeram. Exemplo disto foi o tenente Roman Vorbyov que mostrou orgulhosamente seus emblemas Totenkopf e Valknut ao receber uma medalha do governo pró Russo em Donetsk por haver eliminado mais de 40 ucranianos. Mas foi tarde, o comando Russo já havia deslocado os mariners que deveriam participar da campanha em Odessa. Esta campanha de Odessa se reduziu em trocas de artilharia, com perdas Russas. Odessa é chave para qualquer campanha na Ucrânia. Sem Odessa tudo se transforma em um sangrento e violento zig-zag militar.

Além disso, o comando Russo considerou que era preciso aumentar o volume de tropas. O deslocamento de unidades necessárias para o esforço logístico prejudicou a situação precária em várias frentes. A logística, já ruim devido à corrupção, incompetência e desorganização, ficou insustentável em muitos lugares.

Muitas unidades ficaram paralisadas pela falta de combustível, lubrificante e até alimentos para as tropas. Qualquer coisa ficou uma desculpa para desistir, abandonar e desertar. O abandono é de tal dimensão que hoje o exército da Ucrânia tem mais veículos blindados, tanques e helicópteros do que tinha antes da guerra começar. A qualidade deste equipamento, ainda mais prejudicada pela falta de manutenção (veja se a falta de ERA em vários tanques), não se compara ao material estrangeiro chegando à Ucrânia.

É mais do que abandono, tem corrupção também.  Apesar de não ser generalizada como a propaganda da Ucrânia indica, é bastante comum. Sei de pelo menos onze casos, onde se suspeita que 10000 euros, um passaporte e uma passagem de avião foram suficientes para alguns oficiais Russos terem entregado sistemas. A grande maior parte do material capturado pelos Ucranianos foram abandonados pelos Russos. Muitas vezes alguns tiros ou uns poucos veículos destruídos, resultaram em unidades todas abandonadas. Ademais, muitas unidades foram simplesmente abandonadas quando acabou o combustível, porque as rodas quebraram ou ficaram sem ar. É bem conhecida as situações onde agricultores da Ucrânia levam os tanques e veículos Russos, filmados também pelos militares Russos. Entre estes veículos se encontram, entre outros, Kalas Typhon, T-72, T64-BV, sistema de comando aéreo PU-12, lançadores de foguetes com munição completa, sistemas termobáricos, tanques de engenharia IMR, Monteiro 2s9 Nonna autopropulsados, e até helicópteros de ataque KA-50.

Mais importante do que todas essas maquinárias e as munições apreendidas, estão os sistemas de comunicação. A Ucrânia tem condições de seguir a comunicação Russa, inclusive entre soldados e seus familiares. Por isso, muitas das agressões cometidas pelas tropas Russas são conhecidas. Os próprios Russos protestam sobre o que está acontecendo. Muitos destes canais de comunicação estão abertos e podem ser ouvidos. Junto com outras fontes, por exemplo plataformas russas comparáveis ao Facebook, Telegram, páginas de blogs, todas com muitas páginas das unidades Militares Russas, é possível ter uma ideia bem sólida das trágicas perdas Russas.

Mas aconselho cuidado para quem fizer isto. É emocionalmente pesado, experiência que eu tive. Acontece quando se está ouvindo as conversas, as unidades podem ser atacadas. Existem situações Jack-in-the-box, assim como o efeito das deserções, onde para evitar isto os oficiais fecham as portas dos APVs. As regras dizem para ser mantido silêncio, mas a prática é outra. Além disso, tanto tropas quanto oficiais Russos utilizam linhas abertas e mesmo telefones celulares comerciais e públicos. Nem sempre é algo emocionalmente simples ouvir. Você pode estar ouvindo quando um veículo é atingido. Hoje se utiliza muita arma de plasma e as munições nos veículos Russos não estão protegidas.

As perdas Russas são muito grandes. A estimativa é que nas três primeiras semanas, a Rússia perdeu tantos soldados quanto metade do que a União Soviética tinha perdido durante toda a campanha do Afeganistão. Ninguém esperava isto. O filho de minha conhecida Tatiana realmente achava que iam ser recebidos por молодежь и дети с цветами и подарками (jovens e crianças com flores e presentes). Sabemos que não foi assim. O filho de Tatiana apenas tinha planos de fazer um tempo militar rápido e depois voltar aos seus planos de escrever óperas. Sua unidade desapareceu perto de Kiev, sendo sua última mensagem sobre as refeições velhas, de 2015. Fiquei com a tristeza de falar com Tatiana sobre memórias de óperas nunca escritas.

Olhando os desenvolvimentos militares na Ucrânia, parece agora compreensível a crescente e violenta resistência enfrentada pelos Russos. A estratégia do alto comando Russo de atacar alvos civis nunca funcionou na Europa central e no norte da Europa. Ao contrário, a experiência histórica é que dá o efeito contrário. Veja o exemplo de quando os nazistas bombardearam Londres. Além disso, isto significa que as tropas de defesa continuam ativas. As perdas fazem as tropas russas procurarem por responsáveis: incompetência, corrupção, erros logísticos, falta de prioridades definidas, e muitos outros. Isto tudo somou a todos outros problemas resultando em desestímulo, deserções e qualquer desculpa para não seguir ordens. Como consequência, numa tentativa de reverter a situação, oficiais de patente superior foram à linha de frente para dar exemplo às tropas. Também aqui o resultado foi trágico. Apenas, e apenas, entre meus contatos e amigos e familiares deles são seis generais e 11 coronéis perdidos. Possivelmente muitos mais agora. Entre estes está o general Andrei Sukhovetsky, que teve uma participação brilhante na conquista da Crimeia em 2014.

Estas perdas também criaram a necessidade de trazer tropas voluntárias internacionais. As tropas da Chechênia já estavam participando desde o princípio. Já tiveram muitas perdas, em particular unidades motorizadas. Reservas já os substituíram, mas os oficiais com experiência só surgem com o tempo e a prática de campo. Elementos ligados ao grupo Wagner foram deslocados em grandes números. Entretanto, estes grupos têm vínculos com grupos de extrema direita, inclusive neonazistas, não respeitam regras de guerra e os direitos humanos, criando muita resistência da população civil.

Existe também um crescente número de voluntários da Síria. Oficialmente foram chamados 14000 combatentes, mas acho improvável terem chegado mais do que dois mil. A presença Síria não foi bem recebida. Soldados e oficiais com este tipo de experiência, ao retornarem, vão ser uma ameaça para Israel. Existe um cenário ainda pior. A Ucrânia tem muitos reatores atômicos, não apenas Chernobyl. Tem alguns dos maiores complexos nucleares do mundo. Apesar do material nuclear não ser “weapons grade”, o material radioativo pode ser utilizado para sabotagens e para tornar uma grande área não habitável. Várias vozes (até eu, na minha pequena posição) levantaram a necessidade de tomar cuidado com a possibilidade de agentes sírios terem acesso a qualquer “coisa” nuclear. Esta situação é mais uma ameaça a Israel. Existem indicações de que as autoridades Russas estariam tomando cuidado com isto. Mas a corrupção é muito grande, a desorganização também. A incompetência é visível. Por exemplo, os soldados Russos receberam ordens de cavarem trincheiras e abrigos nas terras radioativas de Chernobyl. Também cortaram as árvores radioativas, muitas vezes queimando a madeira para calor e fazer comida. Ninguém sabe quantos foram contaminados. Pude identificar dois filhos de ex-alunos nisto tudo. É apenas uma questão de tempo até que os efeitos apareçam. O tratamento é impossível, pois significaria deserção.

No momento em que a guerra entra em nova fase, é possível observar uma série de pontos. Temos que partir do princípio inalienável de que, nas condições em que o mundo se encontra hoje, a existência de Israel não pode nem deve ser questionada. Podemos, e muitas vezes devemos, questionar e criticar o governo de Israel, mas não a existência do estado de Israel. A tentativa de Putin de reintegrar com violência a Ucrânia, ou parte desta à esfera Russa, se transformou em uma ameaça para a existência de Israel. É mais do que o retorno dos voluntários e oficiais da Síria, agora com uma vivência militar não comum no Oriente Médio. Qualquer pequeno ou grande (ou que se ache grande) líder pode se achar justificado em conquistar territórios que, realmente ou imaginariamente, tenham sido seus no passado.

A população judaica em todo mundo também está sendo prejudicada. Apesar de existir uma presença, ainda que pequena, de nazistas hoje na Ucrânia, e ainda mais na Rússia, a tentativa de Putin de justificar tudo em termos de luta contra o Nazismo, está produzindo uma banalização da ameaça neonazista e do antissemitismo. O perigo disto não pode ser minimizado. Vivemos com isto e com a sombra disto diariamente. É fácil antever situações onde a ameaça vai ser descartada porque “Putin também falou isto”. Outros que se espera utilizem para suas agendas isto tudo sejam os negacionistas, ao levantarem a pergunta, “tinha mesmo Nazistas?”

É obviamente mais do que isto. Já tive que confrontar situações onde se argumenta que é tudo culpa nossa. A liderança da Ucrânia é a comunidade Judaica, mas muitos dos oligarcas de Putin também são. Putin raramente admite que comete ou cometeu erros. Logo vai se começar a buscar “os culpados” pelas perdas. Acho que é apenas uma questão de tempo para que a comunidade Judaica na Rússia seja vítima de maiores perseguições. Talvez seja hora de começar a trazer para Israel esta população.

O argumento de Putin, de que uma vez no passado a Ucrânia foi da Rússia, está abrindo outro tipo de precedentes. Se o argumento for aceito, justificamos todo tipo de imperialismo e colonialismo. Cuba já foi dos Estados Unidos, assim como Filipinas e mesmo Nicarágua. O Uruguai já foi do Brasil, assim como grande parte do Brasil já foi de Portugal. E Portugal já foi da Espanha, assim como quase todas as Américas já foram da Espanha também. Muito do mundo já esteve sob controle da Inglaterra. Na Europa quase todos foram de todos e ninguém nunca deixou de ser de alguém. O argumento de que as origens históricas da Rússia estariam em Kiev é uma típica manipulação da história. Pois a palavra Rus vem da Escandinávia, onde a cultura que hoje chamamos de Viking era em sua época conhecida como Norseman, Varang ou Rus. A origem da humanidade é a humanidade e isto a ninguém dá o direito de tirar a liberdade de outros.

Os problemas militares Russos estão criando outro tipo de problema. Problemas com equipamento, incompetência e corrupção entre oficiais, dificuldades com logística, vulnerabilidade dos sistemas de comunicação entre outros, indica que países com militares treinados e com equipamentos Russos são frágeis. Cuba está com problemas, a Venezuela está com problemas, muitos países na Ásia e na África estão com problemas. É preocupante se os militares Sírios demonstrarem estar aprendendo com isto. As perdas militares Russas são um cartão de convite para aventureiros tentarem desestabilizar ou mesmo conquistar estes países. Um conhecido meu Cubano Americano vivendo na Flórida, tristemente me comentou que lamentava que Trump não fosse Presidente, pois se fosse, já estaria indo para Habana.

Para os movimentos sociais que hoje conhecemos como a esquerda, tudo isto se transforma em uma coleção de dilemas. Confundir interesses nacionais com esquerda ou direita, parece ser um absurdo que nos leva de volta ao imperialismo do século XIX e princípios do século XX. Talvez seja hora de voltar às origens. Temos necessidade de reconstruir um internacionalismo que respeite culturas e sistemas nacionais, apesar de isto também parecer contraditório. Entidades nacionais deveriam ser reflexos administrativos da solução de problemas práticos. As propostas iniciais para a construção do estado moderno de Israel seguiram isto. Hoje sabemos que eram propostas idealistas para um mundo imperfeito. A grande tarefa é reconstruir um socialismo internacionalista, possivelmente inspirado por uma combinação das ideias de Kautsky e da Segunda Internacional, tendo em consideração este mundo imperfeito. Mais do que imperfeito, é um mundo ameaçado pelas consequências de um modelo econômico, social e ecológico sem futuro. O tempo é curto.