Scarpe da donna ou, porque é preciso dançar

Scarpe da donna ou, porque é preciso dançar

O Poeta estava ali, forasteiro, olhando o pó de florestas moídas e, então, ela veio e entrou pelos corredores apressadamente e foi deixando os sapatos, altos e pretos, pelo portão.

Aqueles sapatos lançados ao chão resmungaram uma voz concentrada, como se fosse possível ouvir por intermédio deles a voz musical distante, intensa. Porque há mulheres que usam os pés para dançarem, mas, outras, usam-nos para primeiro gemerem e depois para se libertarem, para o salto que as tire da cola asfáltica e o impulso que arrebente paredes – e muros.

Quem tira os sapatos busca a leveza e o conforto de um ato libertário – busca o mar, e busca a brisa, e busca o estado de comunhão, e busca a poesia, e busca aqueles olhos que enxerguem, e busca o espaço, e busca o vento, e busca a tempestade, e busca o toque das mãos feito escultura renascentista.

Em algum ponto dos pés femininos começa o caminho ao paraíso!

Ela, então, agora descoberta mulher e gente, tirou os sapatos e os manteve ali, jogados, feito símbolo de resistência e escárnio, marco de libertação, desenho melódico, expressão de inteligência, convite ao encontro dialógico pleno. Aquela mulher tirou os sapatos em busca da pele, dos poros e do corpo, em busca da alma que transita pelas veias, e da vida que organiza os músculos e arrebata os seios, em busca da luz que cintila nos lábios e faz dilatar as pupilas.

Aquela mulher tirou os sapatos porque as asas não estavam em suas costas, mas, nos pés, e ela buscou asas em seus pés, asas que a levassem para as cabanas alpinas, de onde chegara o Poeta, e para beber na mão da Poesia ou, quem sabe mais próximo, ao alcance de um dedo, nas vias e pousadas andinas ou, simplesmente, para o risco de um verso possível no encontro de gente e seres apenas.

E, agora, Aquela mulher, Esta mulher, tão próxima assim, com os pés soltos, sapatos jogados, pisaria uvas com intensidade, cantando e dançando por toda a noite. Ela ergueria os vestidos para pisar uvas mais profundamente ainda e, ao amanhecer, lançaria mais uvas ao lagar e continuaria cantando alegremente com os vestidos levantados, mergulhada em vinho e poesia, poesia achada na rua, no corredor, no portão e naqueles pés, agora, libertos.

© Pietro Nardella-Dellova, 2010

Baci allegretti ou, um longo poema em dez atos para um beijo libertário e anarquista

Baci allegretti ou, um longo poema em dez atos para um beijo libertário e anarquista

I

Os beijos têm diferentes faces, e cores, e sabores,

e duração, e profundidades, e energias, e tessituras, e geografias.

II

Há beijos de amigos que se encontram e beijos de amantes que se

reencontram no vácuo do tempo. Há beijos americanos e beijos

brasileiros, mas, há beijos totalmente napolitanos. Há beijos

religiosos e beijos escandalosos. Há beijos que são ícones da Internet

e beijos de plástico. Há beijos com máscaras e sem máscaras! Há

beijos terapêuticos e psicoterapêuticos. Há beijos de misericórdia

e beijos de piedade. Há beijos de maridos e de esposas e há beijos

de enamorados. Há beijos convencionais e há beijos apaixonados!

Há beijos vivos e beijos necrófilos – beijos de lábios e beijos de

espelho do espelho de toalete! Há beijos que são beijos de homem-poeta

e de poeta-mulher, de homem-Poesia e de Poesia-mulher,

profundos e demorados.

III

Beijos que vasculham o céu da boca, a língua e todos os

lábios, e todos os poros, e os olhos, e as faces, e a pele inteira, e

as mãos, e os dedos, e os braços, e as coxas, e as costas, e os

cabelos, e as orelhas, e o pescoço, e o peito, e os seios. São beijos

que misturam e espalham o vinho, do umbigo ao corpo inteiro, e

escrevem partituras inteiras – são beijos sonoros que avançam

allegretto e se destacam no dueto pleno, entre as vozes dissonantes

da turba tresloucada! Beijos demorados no corredor, elevador,

biblioteca, setor de macarrão, frios e eletrodomésticos – beijos

anticomerciais, beijos apolíticos. Beijos antissociais!

IV

Quais beijos são os beijos da sua boca, querida? São melhores

que beijos virtuais? São melhores que beijos matrimoniais

ou religiosos? São beijos musicais? São beijos desenhados na pele,

umedecida no toque despretensioso e demorado?

V

Conhece os beijos que

nascem das palavras vivas dos poetas? Palavras que carregam

almas de um lado ao outro, de um espaço ao outro. E almas que

carregam corpos. E corpos que carregam ardores. E ardores que

carregam o gotejamento apressado de corpos com almas, absortas

nas palavras do poeta, ditas a quaisquer brisas que sopram sobre

o estacionamento, conhece? Conhece as palavras que brotam do

inimaginável e despreocupado encontro e do beijo que fica entre

os desenhos da face e da boca? Beijos que começam pelo canto

da boca e se estendem aos cabelos, pele e tudo…

VI

E os vampiros sabem o que é o dueto?

E os necrófilos, saberiam o que é o beijo allegretto?

Os vampiros se perderam entre os necrófilos e as pessoas entre

imagens virtuais. Atrás de uma imagem existe uma enfermidade

e entre eles, existem seres vivos, e existem mulheres de corpo e

alma, de espírito e inteligência, de perfume e intensidade. Alguns

nadam na superfície; outros mergulham na profundidade! E aos

que são acostumados à invariável superfície, mergulhar causa

espanto e sobressalto!

VII

O mergulho é o ato de coragem

afeito aos que amadurecem pelo tempo e pela experiência, pela

dor e conhecimento – pela força que nasce quando ridicularizamos

a sociedade que nos cerca com sua amarelada hipocrisia. Afeito

aos que discernem entre o perfume natural da carne em chamas e

o perfume de shopping center! O que pode dizer, querida, sobre

o mergulho? O que pode dizer sobre Eurídice e Orfeu? O que

pode dizer sobre o voo das águias? Tente dizer e passear por este

caminho. Tente descer ou subir, mergulhar ou voar! Ainda que

eu saiba que o silêncio é melhor que a fala, experimente a fala,

enfrente o Poeta e diga sobre os entranháveis desejos da alma

humana.

VIII

Sabe mergulhar? Tem fôlego para ir ao fundo, onde apenas

seres de verdade se encontram e se descobrem, onde pérolas se

fazem com o ritmo do tempo sem pressa e sem contas? Se nada

sabe de Poesia e se não tem fôlego nem coragem, não poderá

mergulhar com o Poeta nem dialogar diante de quem estende a

mão para o movimento musical. Mas, quando pensar na pérola,

vencerá o medo, e a Poesia se intensificará em seu corpo e lhe

dará vida. Seus poros respirarão dentro das águas profundas.

IX

Não é uma lição – é um fogo de vida e intensidade! O Poeta não

ensina – o Poeta vai! Ele leva você a ver do alto, a voar alto, a

mergulhar, a mergulhar ao fundo. Quer a lição ou o voo? Quer o

conceito ou o mergulho? A mágica da Poesia é receber asas de

águia, para voar alto – quer? E receber fôlego, para mergulhar

com o Poeta ao fundo, e encontrar pérolas – quer, também? Então,

se você ouvir a Poesia e descobrir de que são formados os

beijos do Homem-Poeta, descobrirá a sua Poesia-Mulher, e pedirá

para voar alto, bem alto. E para ver as pérolas que lhe fazem

falta ao fundo, se vencer o medo do profundo.

X

Enquanto a noite não

vem, desenharei as asas que erguerão você ao alto, para o bem

alto, e juntarei o ar de que precisa para o mergulho. E, se o Poeta

estender a mão, diria: sim, Poeta, quero voar alto – leve-me! Sim, quero

mergulhar fundo, leve-me. Leve-me às pérolas, porque preciso de pérolas.

E, se o Poeta levasse você, perderia o fôlego e as asas? – Não,

não perderia, leve-me ao alto porque preciso de plenitude. E se

perder as asas, será trazida de volta à terra. E, se perder o fôlego,

será trazida de volta à superfície. Porque os beijos têm diferentes

faces, e cores, e sabores, e duração, e profundidades, e energias,

e tessituras, e geografias.

Ficasse eu beijando a sua boca neste dia,

acariciando a sua face, de amor rosa – e linda,

bebendo no cálice do seu umbigo o vinho e a água,

e voz rouca, numas horas fugidias, cantando e amando,

explodindo, e ser riso e ser desejo que arde,

e um beijo colado, único, que não finda no entardecer

porque no seu abraço (em que me faço homem que ama)

aperto o laço – para sempre – de jogo, e vida, e ternura,

porque dura o fogo ao meio, e o perfume:

o anseio, em que venço o tempo na tessitura da sua pele

agora ungida, do seu corpo, jardim de flores únicas,

porque repouso, tranquilo, no seio do afago…

e tê-la, nua e úmida, é Poesia que trago para sempre!

ah, principessa, o seu corpo pleno-luz, insinuante e aberto,

rosado e gracioso, sem túnicas…

© Pietro Nardella-Dellova,

in trecho do livro A MORTE DO POETA NOS PENHASCOS E OUTROS MONÓLOGOS. Ed Scortecci, 2009, pp 61-68

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imagem: by Iza Borgonovi Tauil

 

Instrução e humanização ou, por que amo a Torá…

Instrução e humanização ou, por que amo a Torá…

Ela ergueu o homem das camadas inferiores e o colocou em pé, ensinando-o as notas musicais e o fez abrir os olhos e ver ali, diante de si, o elemento feminino transbordando música e vida! A Torá deu, enfim, sentido ao homem, e deu encanto, inteligência e poesia à mulher, e cada uma de suas letras afogueadas desde o alto, brilha em uma coroa que movimenta e organiza sabedoria e compreensão, bondade, poder e beleza, eternidade, esplendor e fundamento e, por isso mesmo, o reino da humanidade vai se estabelecendo em busca de harmonia e paz. A Torá é para a humanidade como presente – e para alguns como experiência de vida!

Por isso mesmo amo a Torá, porque não estou só no mundo e em qualquer parte reconheço meus pares que se vestem dela. E não importam quais sejam aqueles que investem contra nós (de dentro ou de fora), de ontem e de hoje, com lanças ou tiros, discursos ou fogo – ela alimenta uma alma plenamente agigantada na sua experiência! Ela renova minhas forças a cada vez que ergo um menino nos seus primeiros dias de vida ou ouço o nome de uma filha anunciado como disposição de bênção de seu pai. A Torá nos leva à Bimá – e não o contrário, onde somos profundamente humanos porque dali e em direção ao sol nascente nossas faces são iluminadas e voamos ao centro do mundo, ao lugar por onde passaram Shem – o Mestre de Justiça, e Avraham, Ytzchak e Ya’akov. O lugar por que sonhou Moshè rabenu!

Mas, ela não me aliena. Não me faz desperdiçar energia com fantasias nem com o desconhecido além do rio. Ela me remete à minha boca, ao meu peito, às minhas mãos, aos meus pés e aos meus olhos. Ah, eu amo a Torá porque ela me faz amar meu corpo plenamente abençoado por HaShem e, sobretudo, porque, tomado pela mão, ela me ajuda a construir um mundo de sentimentos bons e em seu contexto crio tantas coisas boas, desde o campo ao espaço, das águas aos desertos, de onde tiro a multiplicação do meu pão, e abro asas de fogo, e transformo sal em vida, e faço nascer o algodão e a romã. A Torá me realiza e me dá o poder de discernimento do sim e do não, da proximidade e da distância, e da solidariedade.

Eu amo a Torá porque ela me ensina o tempo e o espaço, onde vivo na máxima expressão humana. E me ensina a ver tudo como Jardim do Eterno, pois não importa onde esteja ou aonde eu possa vá, seja no hemisfério sul ou norte, no gelo perpétuo dos Alpes ou na Floresta Amazônica, no vale verdejante do Jordão ou na solidão do Neguev, no leste ou oeste – em qualquer lugar, em qualquer terra, em qualquer mar, por onde navego, ou céu, por onde voo. Não importa a cor das pessoas que encontro, se negras, brancas ou orientais – em tudo e em todos a Torá me ensinou a música e a partitura em que ouço o devir dos Espíritos do Eterno e sua voz abençoando o Poiema de sua Justiça e a Poiesis de sua Misericórida em um eco continuado e imutável, dizendo: é muito bom!

Por isso ouço compositores e musicistas, e sopranos, tenores, barítonos, contraltos e baixos, e as vozes de meio, sejam italianos, judeus, árabes, alemães, espanhóis ou brasilianos, de hoje e de séculos passados, porque me parece que todos os que são feitos de música e de poesia querem alcançar os acordes e a melodia deste “é muito bom!”.

Por isso, também vejo dançarinas que abrem seus braços como as asas da borboleta e mulheres em um ritmo do voo da águia – porque me parece que todas as mulheres que são feitas de delicadeza e doçura, inteligência e força, dança e asas, querem revelar algo daquele elemento feminino que cobriu um mundo sem forma e vazio e lhe deu colorido e beleza. Porque em cada voz em soprano ou contralto, em cada passo da dança da águia elas mostram o porquê da mulher ser a Bênção criativa do Eterno!

Ah, como eu amo a Torá! Porque ando com meus filhos e filhas pelo campo e pela neve, no sol ou na chuva, e tudo que vejo abençoa o Nome do Eterno – e não lhes ensino a reza, mas a vida, a sensibilidade, o sentir cada passo e a brisa no rosto. E porque ela, a Torá, me faz repousar em paz, sem medo nem pesadelo, quando durmo apenas descanso, e não grito nem choro, porque o pão que divido com as mãos para meus filhos e filhas formou-se dos princípios vívidos de Torá!

Então, o fogo da Torá me leva ao máximo de minha humanidade, e onde estou, dos poros brotam energias de comunhão com o bem e com a paz. Por isso mesmo, antes de um livro de rezas, dei um piano, um violino e uma flauta aos meus filhos e, ainda, antes de ensinar as bênçãos da manhã, da tarde e da noite, ensinei as notas musicais, simplesmente porque elas vieram primeiro. E, além disso, alguém que não saiba música nem apreciar música, que não saiba dançar nem apreciar a dança, que não saiba andar pelo campo ou pela neve, que nada saiba de elemento feminino ou da mulher como bênção do Eterno, não saberá o que significam as bênçãos da manhã, da tarde e da noite…

E quando me debruço sobre o Sêfer, a Torá me permite ver na superfície multicolorida da letra-princípio e aprofundar, ainda, em mares profundos das idéias humanizadoras, abrindo conexões sutis de insights vigorosos até, enfim, voar como águia em busca do brilho da coroa de que emanam as Forças da Criação!

Mas, ao passar pelas suas letras, nada encontro que me leva à obscuridade religiosa, porque não a busco pela morte, mas pela vida. Amo a Torá porque ela me mantém à distância dos desvarios religiosos multifacetados! Porque ela me ensina que o Eterno me abençoou para viver e não para morrer, para expandir e não para cair moribundo, com culpas opressivas, para ser libertário, o que significa que a liberdade é para todos e todas, contra toda sorte de idolatrias, coisificações, mitificações e submissões…

Amo a Torá porque ela me faz ver em profundidade e extensão, porque me dá saúde e paz, e nela não tropeço nem manco. Porque nela todo deserto se converte em jardim e todo gigante em pão. Amo a Torá porque ela é uma canção para a minha vida e por ela abençôo o Nome do Eterno. Amo a Torá porque ela fez pessoas diversas, e em suas pluralidades, me abençoarem à distância, em tempos remotos,e por ela, abençôo meus filhos e filhas, e aqueles que viverão à distância em tempo remotamente futuros.

© Pietro Nardella-Dellova, 2010

Bacimillebaci, porque há mulheres que portam a lua…

Bacimillebaci, porque há mulheres que portam a lua…

Há mulheres que são amadas. Mas, há aquela mulher muito amada – amada assim, de fotografar, de voar, de transpirar noite adentro. Amada de cantar e dançar, amada de não compreender, amada de gemer à distância, amada de resmungar. Amada de sorrir – e rir, gargalhar. Amada de não descansar. Amada na varanda, amada na cobertura, amada no sofá, amada no banquinho, amada à direita da cama, amada à esquerda da cama, amada aos pés da cama, amada ao lado da cama, amada sob a mesa, ao lado da mesa, na cadeira.

Há mulheres que são amadas intensamente. Mas, há aquela em que a intensidade é apenas um detalhe, porque ela tem o fio da feminilidade com o qual poetas não se perdem em seus labirintos!

Há mulheres que são amadas, tão amadas, que não importa qual o vinho que se leve à boca, elas serão sempre melhores. Porém, há aquela que por ser assim, tão mais amada, o vinho e a água se misturam em alquimia, porque é mulher que faz água na boca e vinho sob seus pés!

Há mulheres, muitas mulheres, mulheres amadas que cabem no bolso ou entre as páginas de um livro. Mas, há aquela que cria a sensação de que não cabe na eternidade, porque seus beijos acontecem apenas em cada um dos universos de cada pupila, de cada poro e de cada toque – é mulher-sol!

Então, são mulheres que se despem como se fizessem música, mas, há aquela que se despe na entrada (ou na saída) do aeroporto e nunca mais usa quaisquer tecidos, porque a ela foi dado o poder de ser música e poesia – a um só tempo. O poder de ir e vir, e de segurar na mão de deuses! Ela abre suas asas, seus lábios, seus olhos e vai escrevendo nas nuvens com o sopro de sua boca que existe um amor sem fim e um modo de amar sem fim, de um “tiamosenzafine” que mistura alguma nota de Piaf com a graça de Giorgia e a energia de Pausini…

Há mulheres com as quais amar significa, antes de tudo, dar sentido às letras, às notas, aos sons, aos parágrafos, aos paraísos. Mas, há aquela, assim, tão amada, que as letras, as notas, os sons, os parágrafos, vão se perdendo no paraíso da sua pele. Porque as mulheres amadas, as muito amadas, têm sua pele como tecido a ser beijado, mas, esta, além da pele a ser beijada, tem pintinhas, milhões de pintinhas, pintinhas que formam desenhos, e formam letras, e palavras, e caminhos. Pintinhas que levam aos seios, ao fogo, ao abdômen, às costas e, por isso mesmo, os beijos se multiplicam e se tornam uma bênção única e indecifrável!

Por isso mesmo aquelas mulheres amam, mas, esta, ama e abençoa, porque o seu amor é uma unção, um nascer, um curar, um colorir, um florir. Com aquelas se buscam flores e com esta planta-se um jardim!

Há, enfim, mulheres cujos beijos marcam como fogo em um instante. Mas, há aquela, cujo beijo não termina, beijo multiplicativo, beijo que une todos os cantos do mundo e os cantos da boca, beijos mil beijos em um, “beijosmilbeijos” que partem a terra ao meio!

© Pietro Nardella-Dellova, 2010

Um soneto e um quarteto para a mulher de vermelho e preto

há uma certa beleza e há encanto

nessas Mulheres que se vestem,

assim, de vermelho e, no entanto,

sem pressa, em prazer, se despem

                                      

nos corredores, bibliotecas, Cafés…

e levantam os braços em vitória,

e lutam, e dançam sobre os pés

como quem levita e faz história;

 

e, quando em preto, há poesia plena

na delicadeza dos toques em vermelho:

porque há luta sem ódio – luta serena,

 

luta constante de quebrar o espelho:

é vida somente de beleza preto-rubra

e, pois, que eu viva e ela se descubra

 

sempre, em cada rua, avenida, praça, vila, barro, sol e chuva,

com uma canção de amor – nenhum hino, marcha, ódio e grito

caminhando pelos mesmos sonhos: pra todos, o pão e a uva,

sem qualquer opressão, morte, choro, dor e espírito aflito…

 

© Pietro Nardella Dellova, 2010

Imagem “Sappho”, 1877 by Charles Mengin

Samba Perdido – Capítulo 18 – Parte 02

Muito antes da chegada dos hippies nos anos 70, Trancoso tinha sido uma missão para a conversão dos índios Pataxó. A modesta, porém charmosíssima, igreja voltada para o continente era testemunha daquele tempo. Junto com a formação geométrica do quadrado à sua frente ela remetia a uma ordem disciplinatória. A floresta cheia de vida que a rodeava, parte integrante do espírito da tribo, continuava intacta. Ela era o Éden de onde os portugueses tinham os expulsado. Garantidos por pólvora e chumbo, os missionários convenceram a tribo a trocar seu paraíso por outro imaginário onde só chegariam depois que morressem, sob condição que rejeitassem quem eram, a posse de suas terras – um conceito que não fazia sentido para eles – e aceitassem um status servil num novo mundo empurrado goela abaixo. As únicas coisas que tinham restado eram seus descendentes ocidentalizados que ainda viviam nas reservas espalhadas pela região e os filhos da miscigenação espalhados nos vilarejos. Por mais deprimente que fosse, a situação lá era melhor do que a dos grandes centros urbanos onde há muito tinham desaparecido.

Talvez refletindo o legado de missão ainda misturado com o espirito originário, talvez pela beleza mítica dos arredores, para o pessoal de fora, Trancoso, naquele verão, parecia um campus onde estavam aprendendo a viver. Essas pessoas ou eram fugidas das cidades grandes morando lá há um tempo, ou eram mochileiros e veranistas bem informados atrás de uma experiência especial. Não havia a onda de Gabeira – se ele tivesse parado lá, provavelmente não teria suportado ser considerado mais um, principalmente se descobrissem que por trás do auê se escondia um papel secundário na luta armada e muita sagacidade mercadológica. Um outro fator positivo do vilarejo era que, com a possível exceção do seu Manoel que tinha me acolhido, ainda não havia gente de cidades vizinhas explorando os visitantes e tirando vantagem em cima dos locais.

O dia a dia não era muito diferente do de Ajuda. As diferenças eram que o banho era com a água dos poços nas casas dos pescadores e que, fora o pessoal da terra, não havia um careta lá. O lugar onde nos reuníamos no fim do dia era igualmente atrás da igreja e de frente para o mar. Só que lá não havia roda de capoeira nem a necessidade de muita conversa. A energia e a harmonia já eram o suficiente. 

O que tornava Trancoso em geral, e aquele ponto em específico, mais especial do que Ajuda era a sua simplicidade mágica. Não havia muros, cercas, bancos ou qualquer outra coisa para turistas. Entre nós e a praia deserta lá embaixo, havia apenas a grama bem cuidada que acabava no penhasco. Depois havia um trecho curto de mato, a areia e o oceano infinito se estendendo em frente. No cair da tarde e à noite, a parede caiada construída séculos atrás refletia a luz do sol e depois a da lua feito uma tela de cinema.

Com certeza, antes de serem convertidos à religião dos brancos das caravelas, os Pataxós deviam se reunir naquele mesmo lugar para cantar e dançar para seus deuses nos seus festivais. Aquele solo ainda guardava algo de sagrado, mesmo com uma igreja construída em cima como uma declaração de quem ia mandar dali em diante. Por causa do ar cristalino, o lugar dominava uma região de dezenas de quilômetros. Dali dava para ver a costa inteira para os dois lados. À noite, o único vestígio de civilização eram as luzes fracas de Porto Seguro, ligeiramente visíveis no canto mais longe do horizonte à esquerda. 

Quando a lua cheia chegou, sabíamos que ela ofereceria um espetáculo único. Como sempre, ficamos no escuro à sua espera atrás da igreja curtindo o céu estrelado e as estrelas cadentes tão comuns na região. Cerca de duas horas depois do sol se pôr, ela apareceu como uma enorme bola prateada subindo no fim do oceano. Éramos em torno de dez pessoas e ninguém se atreveu a estragar o momento dizendo bobagens. Ficamos admirando a sua aparição com a reverência e o silêncio de quem presencia um sinfonia de primeira categoria. Seu reflexo era fortíssimo e foi criando uma faixa brilhante na água. Conforme a lua foi subindo por trás das nuvens flutuando na mesma altura que a gente, elas foram se iluminando, primeiro por de trás e depois por cima, fazendo com que lembrassem pequenos montes de algodão.  Suas bases eram planas; parecia que um artista meticuloso as tivesse cortado. A poucos metros da água, lançavam sombras espessas sobre a claridade forte vinda do prateado lunar.

Enquanto contemplava aquela maravilha, o universo me trouxe a clareza de que a saúde, a água que bebemos, o ar que respiramos, as belezas do mundo, o amor e as amizades, enfim, a vida, eram presentes dados a nós sem que tivéssemos que dar nada em troca. Não estávamos em outro planeta, estávamos atrás de uma pequena igreja em Trancoso, perto de onde a colonização do Brasil começou. Aquele momento não era um sonho. Toda aquela abundância do aqui e do agora podia se perpetuar eternamente se apenas aprendêssemos a dar valor ao que temos em comum. Eu desejei que aquela clareza – certamente taxada de lunática pela maioria esmagadora dos habitantes do planeta – nunca passasse.

*

As últimas três semanas passaram num piscar de olhos. Depos que me familiarizei com a cabana, em pouco tempo tinha descoberto um atalho para a aldeia que evitava o rio e tudo ficou tranquilo. Não houve aventuras amorosas, não que faltassem beldades maravilhosas, mas a concorrência era com caras mais velhos, todos com profissões, mestrados e passados mais interessantes que o meu. Até o violão ficou meio calado; a gente levava uns sons, mas era para nós mesmos. As festas eram mais comedidas, o pessoal era mais reservado, em suma, não seria errado dizer que a turma de Trancoso era mais seleta.  Ficar tocando demais para os outros nos faria parecer os bardos bobos da corte.

A hora de voltar para a realidade da vida urbana foi chegando. O dinheiro tinha praticamente acabado e não dava para a passagem de volta. As opções eram ou ligar para casa de Porto Seguro pedindo uma transferência emergencial ou voltar de carona. Por sorte, perguntando para o pessoal, consegui uma com uns caras que estavam voltando para São Paulo. De uma maneira inacreditável, tinham chegado em Trancoso num fusca por uma trilha pelo meio da floresta que nunca tinha ouvido falar.

No dia da volta, na despedida, todo mundo ficou dizendo que a gente era maluco de pegar aquele caminho. Depois de alguns minutos de conforto naquele Fusca insalubre, assim que entramos no mato, ficou claro que estavam certos e que a trilha não era destinada a carros. Toda hora tínhamos que descer e empurrar a bagaça através da lama ou guiar o Paulão, o motorista, para evitar buracos e raízes, ou tirar troncos caídos na frente.

“Aí não, Paulão, tem um puta buracão do meu lado, meu! Não tá vendo!”

“Caralho belo! É mesmo! Sai todo mundo do carro! Ampara ele deste lado aqui porque a gente está quase capotando.”

Foram horas aos trancos e barrancos até que a trilha evoluiu para algo que lembrasse uma estrada de chão. Gradualmente ela foi se tornando mais larga e gado, jegues e pequenos casebres começaram a aparecer dos dois lados. Finalmente, depois de passar por Ajuda, chegamos até a balsa para Porto Seguro. Lá, entramos numa pequena fila de carros e ficamos esperando para embarcar. 

“Orra meu! Essa merda está civilizada demais. Vamos ali no mato ali fumar um!”

Quando nossa vez chegou, atravessamos em silêncio com um nó na garganta de estar indo embora daquele paraíso. Do outro lado do rio já havia asfalto e a estrada que nos levou em nossa longa jornada para casa.

 Cheguei de volta ao Rio ainda sob o feitiço de Trancoso. Era difícil encarar o fato de que havia uma batalha crucial para passar no vestibular à espera. Havia uma outra que tinha me dado: queria me reconciliar com meus pais. Estava ciente de que a cada baseado, a cada levada de som, a cada nova amizade, mergulhava mais fundo num mundo que nem Rafael nem Renée podiam sequer começar a entender. Me perguntava se era possível reverter a situação.

Essa guerra de reconciliação nunca resolvida se provaria muito mais difícil do que a do vestibular. O jeito britânico era o de varrer tudo para baixo do tapete.  A atitude judaica, mais pragmática, ignorava o lado poético da vida. A procura por uma verdade pessoal não fazia sentido – a solução era esquecer aquelas bobagens, baixar a cabeça e fazer a coisa certa: estudar. A batalha continuou, surda, muda, solitária e dolorida, deixando feridas e sequelas dos dois lados.

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