Ainda sonhamos com a paz

Ainda sonhamos com a paz

Israel e Palestina estão em conflito há 100 anos. Mas, depois da guerra dos 6 dias, em 1967, quando Israel conquistou o Sinai, Gaza e Cisjordania os israelenses, judeus e árabes, e os palestinos e egípcios começaram um novo tipo de relação. Relação humana. Os israelenses iam a Cisjordania e a Gaza fazer compras e passear. O Sinai se tornou o paraiso da juventude israelense. Festivais de música, passeios, dive no Mar Vermelho. Os palestinos vinham a Israel, trabalhar.

Eu cheguei em Israel em 1973, 3 meses antes da guerra de Yom Kipur. Foi um trauma para os israelenses. Egito e Síria nos pegaram de surpresa, no dia mais sagrado do povo judeu, quando todos estavam na sinagoga, mesmo a maioria laica. Dia que não se trabalha, não há restaurantes, centros de lazer ou lojas abertas. Não há carros nas ruas.

Mas, depois da guerra voltamos a normalidade. Eu e minha parceira e todos meus amigos íamos pelo menos uma vez por ano ao Sinai. Minhas compras, principalmente de produtos não Kasher, fazia em Shoafat na parte oriental de Jerusalém. Descíamos ao mar Morto e passávamos por Jerico para comer, passear, fazer compras.

No Sinai mediterrâneo Israel construiu uma cidade. Yamit, um assentamento israelense na parte norte da Península do Sinai com uma população de cerca de 2.500 pessoas. Paraíso com suas praias e dunas de areia branca. Meu primo morou lá. Fomos visitá-lo várias vezes e a cada vez passávamos pela franja de Gaza e sempre íamos comer nos restaurantes da Cidade de Gaza que tinham schrimps deliciosos. Uma das vezes fui com meu primo, que era jornalista, entrevistar o assessor de Arafat, quando isso ainda era proibido. Sentamos em frente do mar Mediterrâneo, num restaurante. Almoçamos e conversamos sobre o futuro.

O governo de direita a partir de 1977, aumentou intensivamente a colonização.  Havia um conflito político, haviam atentados terroristas, havia incursões na Cisjordânia. Israel era o poder, o opressor político. Mas, havia relações humanas e amizades entre israelenses e palestinos. Havia organizações pro Palestina em Israel. Em 1982 eu fazia parte de Shalom Achshav (Paz Agora) e Yesh Gvul (Tem Limite, movimento de reservistas que se recusavam a servir além das fronteiras de 67).

Com o acordo de paz com o Egito, Israel devolveu TODO o Sinai, apesar do paraíso que era, de praias dez vezes mais bonitas do que as de Israel, de dispensar o petróleo do Sinai e de arrancar a força os 3 mil moradores da cidade de Yamit, a grande maioria do povo em Israel estava totalmente a favor do acordo de paz. Perdemos a soberania do Sinai. Ganhamos a paz e continuamos a ir ao Sinai nas ferias. Eu ia com meus filhos pequenos ao Sinai, a Jerico e a Cisjordania. Meus filhos, hoje casados e pais de crianças pequenas, seguem indo ao Sinai.

Em 1993 pensamos que a paz venceu. Rabin e Arafat assinaram o acordo de reconhecimento mútuo. Festejamos, estávamos bêbados de alegria. Fui a Jerico alguns meses depois do acordo e havia um ambiente de festa, de alegria. Iamos devolver a Cisjordania e Gaza aos palestinos e como com o Egito, poderíamos seguir passeando como estrangeiros na Palestina. Terminou o terrorismo, terminou a opressão de Israel sobre o povo palestino. Um palestino deu o nome de Salam ao filho. Vim encontrar a Salam, no Centro Árabe de artistas plásticos, 30 anos depois. Que decepção em seus olhos. Salam sem Salam.

Se o assassinato de Rabin, foi o fim da esquerda em Israel e a conquista da direita e religiosos do governo, a 2ª Intifada, o maior erro de Arafat, de acordo com Abu Mazen, foi o assassinato da paz. Não mais Jerico, não mais Gaza, não mais Cisjordânia e a devolução de Gaza, sem um acordo de paz, que permitiu que a Hamas assumisse o governo, foi a declaração de guerra perpetua. Situação que fortaleceu as narrativas da extrema-direita e do fundamentalismo em Israel e em Gaza, levando a 4 operações de Israel em gaza e ao massacre de 07.10.23.

E como fiz durante estes 40 anos, volto ao Sinai, e lá me encontro com milhares de jovens israelenses que apesar de terem nascido depois da 2ª intifada, ainda sonham com a paz, na esperança de que possam visitar a Gaza e a Jerico, cidades do estado da Palestina, como turistas e não como reféns.

29.11.2023 – Esta Terra tem que ser compartilhada e não partilhada

Este último ano foi um ano cheio de bons e maus acontecimentos. Pensei que o auge seria o 1º Congresso Internacional de educação para Paz e Não Violência. Estávamos trabalhando há dois anos, arduamente, sem verba e sem uma estrutura organizacional. Junto a isso perdi o meu parceiro amigo, Sergio Storch. Com um pequeno grupo de ativistas, conseguimos juntar 50 palestrantes de 7 países que em 3 meses nos deram uma lição dexpazxexnãoxviolência. Ao terminar o congresso, pensei que iria sentar e escrever a conclusão propondo dois novos projetos. O primeiro um livro sobre educação para paz e não violência, o segundo o primeiro curso para jovens agentes de mudança no Brasil. As ideias voavam na minha cabeça, palavras e imagens. Assim trabalho antes de sentar-me e escrever.

Mas, justo quando pensei em escrever, acordei em um pesadelo, o maior de todos – o Shabat 7.10.23. A invasão de terroristas da Hamas, bárbaros, que perderam sua humanidade, que esqueceram o verdadeiro sentido do Corão, do Islamismo e das religiões. Fato não tão pouco comum. Seres Inumanos, fundamentalistas. Essa é a definição – fundamentalistas.

Com o passar das horas fomos nos inteirando do grau do massacre, do número de mortos, do modo da matança e da alegria desses inumanos por matarem judeus. Essa é a verdade que o mundo não quer reconhecer. A Hamas tem como ideologia matar aos judeus, aos cristãos, aos hereges muçulmanos e todos àqueles que não aceitam a Sharia. Não há nenhuma relação entre o movimento da Hamas, fundamentalista, com o Movimento de Libertação da Palestina.

Fiquei desnorteado, perdi minha bússola por uns dias. Logo em seguida fui a Portugal, Grécia e finalmente no dia 17 de novembro aterrizei em Israel. Decidi calar-me, tentando entender o que as pessoas, aqui, em Israel, que passaram por estes momentos terríveis, estavam sentindo, pensando. Minha família e meus amigos. O que diziam os jornais, a Midia e as redes sociais. Entender àqueles que estavam envolvidos em movimentos pro paz, a favor da libertação da Palestina. Entender o que os árabes israelenses estavam sentindo, o que pensavam do massacre. Ainda não pude entrar em contato com meus amigos e companheiros de caminhada pela paz na Cisjordânia, na Palestina.

No dia 29 de novembro de 1947 nas Nações unidas foi declarado a partilha da Palestina. Talvez ali tenha começado o conflito, talvez 40 anos antes. As datas para mim são importantes, elas são um “turning point” de processos históricos. Assim que decidi, hoje, escrever o que sinto, e principalmente o que penso. O que sinto tem uma reflexão na minha ideologia política, o que penso tem uma reflexão nos fatos. Me esforço ao máximo não fazer de meus sentimentos fatos, coisa comum nos dias de hoje.

Antes de colocar fatos quero colocar 3 reflexões ideológicas e um fato.

A primeira, relacionada com a partilha. Ambos os povos, judeu e palestino, tem direito a sua liberdade, a sua auto-determinação. A liberdade de um somente ocorrerá com a liberdade do outro. O povo judeu tem direito a seu Estado, Israel. Assim como o povo palestino tem direito ao seu, Palestina. A partilha promovia a divisão do território em dois estados e infelizmente os palestinos recusaram, apesar de terem 65% do território do Rio ao Mar. Não tenho que me justificar, mas quero deixar bem claro que sou um ativista e sempre serei pela causa sionista e palestina, pela Confederação Israel-Palestina.

A segunda, relacionada com o massacre de 07.10.23. Nada, mas nada no mundo poderá justificar esta barbaridade. O sofrimento do povo palestino não pode justificar o massacre, o assassinato de crianças na frente de seus pais, assassinato dos pais na frente de seus filhos, decapitação de crianças, violação de mulheres. Esta semana vi pela primeira vez fotos do massacre. Vi uma criança queimada com sua barriga aberta, uma mulher com seios cortados depois de ser violentada por um grupo de terroristas, que brincavam com seus seios arrancados como se fosse uma bola de futebol. E isso são as fotos e vídeos menos horripilantes. Se justificarmos estas ações pelo sofrimento do povo palestino, poderia dizer que o sofrimento dos judeus na inquisição, nos pogroms na Rússia, no assassinato de 80% de minha família em campos de concentração nazistas, justificaria a realização de barbaridades e massacres a cristãos, russos e alemães.  Se justificarmos o massacre de 7.10, podemos justificar dezenas de massacres no mundo pelo sofrimento humano e pela violação do mínimo denominador comum de humanidade.

A terceira, é que existe uma desproporção total do conflito entre Israel e Palestina. Eu falo de soluções, para o dia de hoje e para o futuro. Aquele que queira falar comigo sobre o conflito Israel-Palestina, terá que provar que realmente sabe do que está falando, e não só de slogans antissionistas e antissemitas. Terão de falar comigo sobre o conflito entre xiitas e sunitas, do setembro Negro na Jordania, sobre o massacre de 5 mil palestinos na Síria, sobre a proposta da comissão Peel, sobre a Nakba e os refugiados palestinos, sobre os 600 mil judeus expulsos dos países árabes, refugiados em todo o mundo e em Israel. Assim como, terá que falar sobre os conflitos na Síria (350 mil mortos e 2 milhões de refugiados), Ukraina-Russia (240 mil mortos, 40 mil deles civis e 3 milhões de refugiados), Sudão do Sul (400 mil mortos e 2 milhões de refugiados), Yemen (233 mil mortos e 2 milhões de refugiados), Angola (1.5 milhões de crianças mortas e mutiladas), Brasil (20 mil crianças e jovens assassinadas por ano). Eu encerrei bate boca de slogans das narrativas dogmáticas sionistas e palestinas, de pesar quem sofreu mais, quem tem mais direito a estes territórios, quem deu o primeiro tiro, quem é o culpado da situação em que vivemos.

Sou um ativista pela paz, e como tal, quero falar de soluções do conflito e por último um fato. A relação atual na região de Israel-Palestina é de que Israel é o dominador, o opressor do povo palestino. O povo judeu conseguiu sua liberdade, sua independência, seu Estado. Os palestinos vivem desde 1947 na Nakba, sem sua liberdade, sem sua independência, sem seu Estado. Os setores de direita e religiosos em Israel, a favor do Grande Israel, rejeitam um Estado da Palestina. Permitem que colonos avancem na Cisjordânia, impedindo a continuidade territorial, que permitirá no futuro o Estado da Palestina.

Uma vez dito isso, quero colocar alguns fatos para justificar o dito acima e buscarmos a solução pacífica para o conflito. Provavelmente haverá pessoas que não concordam com os fatos que estou expondo aqui. Pessoas que suas analises históricas darão outra visão. Podemos dialogar sobre essas diferenças, assim como foi feito no livro “Side by Side” de historiadores judeus e palestinos, no qual a página da esquerda descreve a narrativa histórica sionista e a pagina da direita a narrativa histórica palestina.

        • Uma pouco de história
        • 1020 a.C. – 740 a.C. – 1º reino de Israel
        • 116 a.C. – 70 d.C. – 2º reino de Israel e nascimento de Jesus Cristo.
        • 70 d.C. – o 2º Templo é destruído pelos romanos, que expulsam os judeus da região, mudando o nome desta de Judea para Palestina.
        • 70 d.C. – 1504 – a região foi dominada por uma série de impérios e povos: romana, árabe, abássidas, fatímidas, cruzadas.
        • 1512-1917 – Império Otomano – no início do império Otomano a população da palestina era de algumas dezenas de milhares, mistura de povos nativos e de imigrantes. Durante o Império Otomano, principalmente a partir do sec XVII, tribos beduínas, famílias, parte nativas, parte vindas da Síria (Assad), da península Arábica (Zaidan) lutam entre si para assumirem o poder econômico da região. Este é o núcleo que formou o povo palestino, que em 1889 eram em torno de  330 mil, dos quais 25 mil eram judeus.
        • 1897 – 1º Congresso Nacional Judeu – depois da decepção da emancipação francesa (caso Dreyfus) e dos pogroms na Rússia a proposta nacional tornou se mais factível. 3 propostas de uma Nação judia – Argentina, Uganda e Israel. O retorno a Jerusalém, Sion foi aprovada. Sionismo, significa o retorno a Sion, o movimento de libertação do povo judeu. Herzl declara “um povo sem Terra para uma Terra sem povo (erro que definirá parte do conflito).
        • 1917 – Declaração Balfour – os ingleses prometem um Lar Judeu na Palestina, após derrotarem os otomanos.
        • 1919 – 1º Congresso Nacional palestino – após decepção da divisão da Grande Síria, no acordo Sykes-Picot em 1916, e da declaração Balfour, os palestinos declaram a necessidade de um estado da Palestina opondo-se ao Estado Judeu.
        • 1936 – Comissão Peel – depois dos motins de 1929 e 1936 os ingleses propõe a divisão da Palestina.
        • 1947 – Partilha – a ONU aprova a partilha. Os Árabes e os palestinos recusam e inicia-se a Guerra da Independencia, que levará a criação do estado de Israel e a Nakba Palestina, com 600 mil palestinos refugiados, principalmente na Jordania, Síria e Libano, que até hoje, 4 gerações, não são considerados cidadãos destes países (ao contrário dos palestinos que fugiram para Europa, EUA, América Latina e Brasil). O presidente palestino Abbas (Abu Mazen) reconhece que o maior erro palestino foi não aceitar a partilha: https://youtu.be/I2g5J44mSww
        • 1950-1955 – 600 mil judeus são expulsos dos países árabes, em sua maioria para Israel, sendo absorvidos como cidadãos. 20% fogem para Europa, EUA, América Latina e Brasil)

    1936                           1947                                 1948

    75% Palestina              65% Palestina                   35% Palestina

    25% Israel                    35%   Israel                         65% Israel

        • Um pouco-muito de guerras
        • Nº de guerras: 9
        • Nº de operações militares: mais de 200
        • Nº de ataques terroristas: mais de 400 (4000 mortos, sem contar 7.10.23 1400 mortos)
        • Nº de mortos no conflito entre Israel e países árabes: 51000 (35000 árabes e 19 mil judeus).
        • Nº de mortos no conflito entre Israel e Palestina: 19000 (13000 palestinos, 6 mil judeus)
        • Nº de mortos na guerra de 7.10.23: 1600 israelenses, 15000 palestinos.
        • Nº de palestinos mortos no setembro Negro no conflito entre palestinos e Jordania: 10000
        • Nº de palestinos mortos na Guerra da Síria: entre 3-4 mil
        • Nº de palestinos da Fatah mortos pela Hamas: entre 300-500
        • Um muito-pouco de acordos de paz
        • 1979 – Acordo de paz entre Israel e Egito – Israel devolve todo Sinai e destrói todas as colonias e a cidade de Yamit.
        • 1993 – Acordo de Oslo – entre Israel e Palestinos. Reconhecimento mútuo. Arafat reconhece a Israel como Estado do povo judeu e Rabin reconhece o direito dos palestinos a um estado. O território da palestina foi divido em 3 (A, B, C) e cada setor seria devolvido em partes. Com o assassinato de Rabin e a subida da direita, o acordo se esvaziou, ficando a zona C nas mãos de Israel.
        • 1994 – Tratado de paz entre Israel e Jordania, colocando fim ao conflito e iniciando a cooperação de agua, território, turismo e economia.
        • 2020 – Acordos bilaterais sobre a normalização árabe-israelense assinados entre Israele os Emirados Árabes Unidos e Bahrein.
        1. O início do conflito

    Em vários artigos que escrevi e em meu livro, comentei que podemos nos fixar no problema ou na solução. Focar no problema, é focar no medo, no passado, na narrativa dogmática, na inflexibilidade de poder ver o outro lado, na desumanização do outro, e assim não necessitamos reconhecer o direito da existência do outro.

    Fixar-se na solução é entender o passado, focar no presente, buscando uma solução para um mundo melhor no futuro. É fixar-se no amor, na reconciliação, na inclusão do outro e no reconhecimento de sua existência.

    Se olharmos ao passado podemos analisar o contexto geopolítico desde o Império Otomano, sua destruição, surgimento do acordo Sikes Pycot, o mandato britânico que prometia o Lar Judeu no que hoje é Israel-palestina-Jordania (1922), o acordo Peel (1936) que dividia a região Israel-Palestina (já sem a Transjordânia) em dois Estados, dando aos palestinos mais de 65% dos territórios e que foi recusado por estes, a partilha de 1947, com 60% território aos palestinos, a guerra da independência de Israel e a Nakba Palestina e finalmente a guerra dos 6 dias com a conquista da Cisjordânia e da franja de Gaza.

    Podemos discutir as narrativas de ambos os lados, de forma dogmática, como comentei acima, baseada no medo e no não reconhecimento do outro. Numa situação de conflito “ou eu ou o outro e não há lugar para os dois”. Postura esta assumida pela Hamas e pelo governo de Bibi, durante mais de 15 anos, e principalmente no governo de extrema direita atual. Numa postura de não reconhecer a existência e o direito do outro povo a um Estado.

    Sempre recomendo um livro “Side by Side”, copilado por Eyal Naveh, da Universidade de Tel Aviv. Naveh convidou a dois historiadores, palestino e israelense (Sami Adwan e Dan Bar On), que escrevessem a história do conflito, dividido em capítulos, desde o início do Mandato Britânico.
    Ao copilar o livro, colocou as narrativas uma ao lado da outra. A página da direita, a narrativa israelense, sionista. A esquerda, a narrativa palestina. Ao ler o livro, o leitor se torna menos dogmático, podendo aceitar que existe outra narrativa, que existe outro povo com sua história, processo, sofrimento. O que chamo de fazer um “zoom out” para ver de forma mais ampla o conflito, retornando ao “zoom in” para agir de forma mais flexível, mediativa, reconciliativa.

    Eu prefiro olhar para a história, analisando-a, buscando entender as narrativas diversas, sem se esquecer que cada povo, internamente, tem uma gama de narrativas, muitas delas conflituantes. O sionismo humanista socialista é antagônico ao sionismo revisionista-messiânico. São dois mundos opostos, dentro da visão sionista. O primeiro levando em consideração a existência do povo palestino e do direito a este a um Estado, enquanto o segundo, semeando o ódio, a não existência do povo palestino, e a aspiração ao grande Israel. O mesmo podemos dizer do lado palestino. A Fatach, maior partido dentro da OLP, reconhecendo a existência do estado de Israel como estado judeu (Arafat já reconheceu isso, mesmo antes do acordo de Oslo) e a Hamas, proclamando a destruição do estado de Israel e o não direito do povo judeu a um estado. Fácil identificar como setores fundamentalistas islâmicos e judaicos e de direita e extrema direita.

    Prefiro tentar identificar àqueles que é possível um diálogo, a busca de uma solução justa a ambas as partes, levando em conta fatores humanos, culturais, históricos, religiosos.

        1. Os movimentos de libertação do povo judeu e do povo palestinos

     O movimento de libertação do povo judeu, o movimento sionista político, é um leque de posturas políticas. O primeiro sionismo foi o sionismo messiânico. O povo judeu durante 2000 anos, desde a destruição do 2º templo e a expulsão da Judeia (em 135 d.C. os romanos substituíram o nome Judeia por Palestina para mostrar que não consideravam mais esse território como território dos judeus) rezava no próximo ano em Jerusalém. O sionismo político surge com os movimentos nacionalistas na Europa, depois da decepção da Emancipação na França (caso Dreyfus) e a revolução na Rússia (pogroms), e a esperança de tornarem-se parte integral dos povos.  A esquerda, está o sionismo representado por Borochov e A.D.Gordon, desde anarquista-comunista, sendo os kibutzim a sua pratica. Os moshavim, outra forma de comunidade agrícola, socialistas. A direita estão o sionismo revisionista, de Jabotinsky , que ansiava pelo Grande Israel, aos dois lados do Jordão e o sionismo religioso, que pregava o direito do povo judeu a Terra de Israel por mandado de Deus, com seu representante , Rav Kook.

    Os primeiros imigrantes judeus, no final do século XIX, formaram os kibutzim, comunidades agrícolas, sem propriedade privada, sem salários, com estrutura familiar revolucionária, na qual praticamente os filhos eram filhos do Kibutz, da comunidade. O movimento sionista socialista-humanista era a maioria no Congresso Sionista até a formação do Estado em 1948, e a partir daí governou até 1977. Em 1977 o partido Likud, representante do sionismo de direita, sionismo revisionista e religioso, assume o poder até os dias de hoje.

    Neste último ano o Likud voltou assumir o governo, depois de um intervalo de um ano, fazendo uma coalisão com partidos de extrema direita (a corrente Cahanista que são extrema direita, fascistas, pregando a expulsão dos árabes para além do rio Jordão, transfer) e com os partidos religiosos ultraortodoxos, pregando um estado teocrático.

    Com a eclosão da Primeira Guerra Mundial, o Emir Faiçal foi proclamado rei , aspirando a  Grande Síria, que dominava os territórios da Síria, Libano e Palestina. Os palestinos sem aspiração nacional, queriam fazer parte da grande Síria. Mas, com a vitória da França e Inglaterra e a divisão territorial no acordo de Sykes Picot, a grande Síria se desintegrou, sem ter sido criada, em Síria, Libano e Palestina. Em 1919 os palestinos realizam o 1º Congresso palestino, exigindo a Palestina para si e o fim da imigração de judeus a região. Assim como o movimento sionista, o movimento de libertação da Palestina se dividiu em várias tendencias políticas. Ao início nenhuma delas reconhecia o Estado de Israel como Estado do povo Judeu. Em 1964 surge a OLP, união de partidos e secções palestinas, para lutar contra o Estado de Israel. O principal partido, Fatach, comandado por Yasser Arafat, vem a reconhecer o estado de Israel no acordo de Oslo, ao contrário dos movimentos de Hamas, Jihad Islâmica, Irmandade muçulmana e outros.

    Assim que apresentar os movimentos de libertação do povo judeu, como sendo de direita, imperialista e o movimento de libertação palestina como um movimento de esquerda, anti-imperialista é totalmente simplista e populista. Poderíamos identificar os partidos de esquerda e centro em Israel e a Fatah na Palestina como partidos a favor de um acordo e reconhecimento do Estado da Palestina ao lado do Estado de Israel e os partidos do Likud,  da extrema direita e religiosos do lado israelense e a Hamas e a Jihad como partidos de direita e não reconhecendo a existência um do outro, assumindo a postura “ou nós ou eles”. A grande Israel ou a grande Palestina.

        • Os extremos se encontram

    Muitos poucos sabem, mas em Israel e na Palestina existem 170 organizações a favor da paz, direitos humanos, 2 estados e contra a Hamas e o governo de Israel. Grande parte destas organizações são organizações israelenses-palestinas, com sede em Israel e na Palestina (Cisjordânia).

    Muitos poucos sabem, que em 1993, com a assinatura do Acordo de Oslo, 70-75% dos israelenses e dos palestinos eram a favor do fim do conflito, do reconhecimento mútuo e do acordo de paz.

    Muitos poucos sabem que antes do 7.10 48% da população palestina em Israel, se identificava como israelenses palestinos. Depois do 7.10, 70%.

    Então se a maioria do povo judeu e do povo palestino são a favor da paz, como chegamos aonde chegamos?

    Israel desde 1977 vem sendo dominado pela direita, que se uniu aos partidos religioso e utra-religioso (Haredim). O partido sionista religioso tem como ideologia a criação do Grande Israel (Israel Hashlema), o Israel histórico, do rei Salomão. Gush Emunim é o movimento de colonização na Cisjordania (e anteriormente também em Gaza). Os partidos ultra-ortodoxos, Agudat Israel de judeus ashkenazim (europeus) e Shas de judeus sfaradim (países árabes), tem como ideologia transformar Israel em um país baseado nas leis religiosas (Halacha) e no momento conseguir o máximo de financiamento de suas organizações e isenção do exército.

    Houve três pequenos espaços de tempo nos quais a esquerda ganhou as eleições. 1992-95 com Rabin e 2000-2001 com Barak. Rabin e Arafat deram o primeiro passo para o reconhecimento mútuo e a criação do Estado da Palestina, rompido com o assassinato de Rabin e a 2ª intifada. Barak e Arafat fracassaram na tentativa de seguir o processo de Oslo e com isso a esquerda em Israel morreu. No terceiro espaço de tempo, entre 2006-2009, com o movimento de centro Kadima e com o 1º ministro Ehud Olmert, que quase conseguiu realizar um acordo de paz com Abu Mazen, mas se demitiu por corrupção. Em 2009 Bibi Nataniahu assume o poder, até os dias de hoje. Com Nataniahu no poder os grupos religiosos adquirem mais força, realizando a “coalisão natural” entre a direita e os partidos de sionismo messiânico e fundamentalistas. Esse governo, se recusa a seguir as conversações iniciadas por Olmert, e enfraquece a Autoridade palestina (OLP), que estava disposta a dialogar um plano de paz, e fortalece a Hamas, que se opõe ao Estado de Israel, principalmente permitindo a vinda de dezenas de milhares de dólares por mês de Qatar a Gaza, com o objetivo de comprovar de que não com quem conversar sobre um acordo de paz. Do lado da Hamas isto também era positivo, pois fortalecia sua posição interna em Gaza e na Cisjordânia.  Essa simbiose, que ao princípio parece totalmente ilógica, era a única forma de sobrevivência dos dois poderes.

    Em 2012 membros do partido sionista religioso (messiânico) junto com judeus americanos criam o Forum Kohelet, que definirá a política a ser tomada para que Israel se torne mais judaica e nas entre linhas anexando os territórios da Cisjordânia, realizando o sonho milenar messiânico do reino de Salomão.

    Em 1995 havia 130 mil colonos na Cisjordânia. Em 2022, 550 mil. De 2009 a 2022 houve 4 operações (mini guerras) em Gaza, Nataniahu foi processado por corrupção (o julgamento ainda está em andamento). Nas últimas eleições o partido de extrema direita, racista, homofônico, a favor do transfer ganhou 14 bancas no Parlamento. Junto com os partidos ultra-ortodoxos obtiveram 25% das bancas e na coalisão 50 % dos ministros. Por interesses pessoais de Bibi Nataniahu e ideológico da extrema direita messiânica e dos fundamentalistas, este novo governo (direita inteira-inteira, assim chamado) decide romper com a estrutura democrática e realizar a “reforma judiciaria”, para passar o poder as mãos do governo, instituindo uma ditadura judaica de direita.

    Durante 9 meses, mais de 400 mil pessoas saíram todos os sábados para protestar contra a reforma. O governo estava obcecado pela reforma, atuando de forma agressiva, declarando de traidores, anarquistas, “esquerda” (de forma pejorativa) a todos os que eram contra a reforma. Com Bem Gvir como ministro de segurança interna e Smotrich como Ministro das finanças, ambos do partido religioso sionista messiânico, há um incremento de atos terroristas por parte dos colonos judeus na Cisjordânia.

    O serviço de informação, os comandantes do exército, os principais economistas alertaram sobre o perigo e o enfraquecimento econômico e da segurança. Como se diz em Israel “o aviso estava escrita nos muros”.

    Durante esses 14 anos de governo de Bibi Nataniahu, criou-se a concepção de que a Hamas não era uma ameaça e que a construção da Cerca eletrônica, os meios tecnológicos, a destruição do sistema de tuneis garantiam total segurança a Israel.

    Nas eleições na Palestina, o partido Hamas surpreende e vence as eleições. O Hamas, palavra que significa “Movimento de Resistência Islâmica”, foi fundado em 1987 após o início da primeira Intifada, que foi uma ampla revolta palestina contra a ocupação israelense em seus territórios. O grupo foi criado a partir da Irmandade Muçulmana que, até então, fazia um trabalho de assistência social na Palestina.   Ao contrário do Fatah, partido que ainda hoje administra parte da Cisjordânia, o Hamas se opôs aos acordos de Oslo, não reconhecendo o estado de Israel e não aceitou desistir da luta armada e, que levaram a Organização pela Libertação da Palestina (OLP) a depor as armas e negociar com Israel.    A Hamas por definição e pela plataforma ideológica é um movimento de extrema-direita, fundamentalista, islamista, com o objetivo de impor a Sharia a Palestina, desde o Rio Jordão ao Mar Mediterrâneo.

    Ao contrário da definição de Gaza como um Campo de Concentração criado por Israel, Gaza se transformou numa Base Militar criada pela Hamas. O dinheiro enviado todos os meses por Qatar foi utilizado para construção de 500 km de tuneis subterrâneos e fabricas de armamentos e misseis, inclusive nos subsolos dos hospitais e das escolas da UNWRA. A Hamas não tinha o menor interesse em melhorar a situação econômica dos palestinos da Franja de Gaza. O desemprego, a pobreza só contribuíam para os objetivos militares e terroristas da Hamas. Dominando totalmente qualquer setor da vida em Gaza, a Hamas desenvolveu um sistema educacional de ódio a Israel e aos judeus. Nas escolas doutrinavam para a destruição de Israel e vangloriando o Shahid, que ao se suicidar matava judeus.

    Assim sendo desde 2009 os extremos de ambos os lados dominam a arena do conflito. A esquerda em Israel morreu e a OLP perdeu a força também na Cisjordânia. Para o governo de Israel e para a Hamas, esta é uma situação W-W, na qual conseguem através da ideologia do medo, do ódio e da violência dominar a sua população, causando mortes de civis, sem sentido, investindo nas armas, criando uma estrutura de corrupção. Não há um lado de opressor e um lado de vítima entre os governos. Eles, ambos, são os opressores e os povos as vítimas. E volta a ressaltar, sem dúvida, o povo palestino é o que mais sofre, é o que não tem liberdade, é o que é oprimido pelo seu governo, Hamas, e pelo governo de Israel, é o que vive em condições precárias, com alto desemprego, salários baixos e sem infraestrutura de agua, luz, estradas, porto, aeroporto.

    Para iniciarmos uma renovação do processo de paz só há um caminho. A queda da Hamas e do governo de Israel. O governo de Israel, depois do 07.10, está desacreditado e segundo todas as pesquisas este é seu último mandato. O Centro comandado por Ganz e Lapid deverão assumir o poder com outros partidos de centro-esquerda. A pergunta fundamental é como terminar com o poder da Hamas em Gaza. Será que existe outra forma sem ser esta que Israel está realizando, com um custo altíssimo de mortes de civis? Será que os países árabes e principalmente Qatar, Arabia Saudita e Egito conseguiriam por fim a Hamas e exigindo um cessar-fogo? Se não conseguir finalizar o governo da Hamas em Gaza, seguiremos com o conflito e provavelmente com a subida pronta do governo de direita em Israel.

    Isto é uma condição necessária, mas não suficiente. É preciso que em seus lugares assumam governos moderados, que darão continuidade ao processo de paz e que modificaram a narrativa do medo, do odio e da violência, em toda a sociedade e em particular no sistema escolar, para criar uma geração de esperança. Junto a isso é necessária uma pressão vinda a Israel dos Estados Unidos e da Liga Árabe aos palestinos. Por último é preciso investir na economia palestina e principalmente na Franja de Gaza e na sua reconstrução.

    E qual seria o acordo de paz entre Israel e a Palestina?

    Existem várias propostas para um tratado de paz. Vou trazer as principais:

        • A Iniciativa de Paz Árabe (2002): é um plano político da Liga Árabe (especialmente da Arábia Saudita) para acabar com o conflito árabe-israelense, segundo o qual todos os Estados árabes normalizarão suas relações com Israel em troca de uma retirada total israelense das Colinas de Golã, da Faixa de Gaza e da Judeia e Samaria (incluindo Jerusalém Oriental) e do estabelecimento de um Estado palestino independente com Jerusalém Oriental como sua capital. Em relação ao problema dos refugiados, o plano propõe “encontrar uma solução justa e acordada”, de acordo com a Resolução 194 da Assembleia Geral da ONU (a resolução afirma que “os refugiados que desejam retornar às suas casas e viver em paz com seus vizinhos poderão fazê-lo o mais cedo possível”, uma redação que, de acordo com a interpretação árabe, exige o retorno dos refugiados à sua terra natal.
        • Acordo de Geneve (2003): O Acordo foi preparado em segredo durante mais de 2 anos antes do documento de 50 páginas ser oficialmente lançado em 1 de dezembro de 2003, numa cerimónia em Genebra, Suíça. Entre seus criadores estavam negociadores formais e arquitetos de rodadas anteriores de negociações israelense-palestinas, [1]incluindo o ex-ministro e político israelense Yossi Beilin e o ex- ministro da Autoridade Palestina Yasser Abed Rabbo . Os principais conceitos incluídos no Acordo de Genebra são:
        • Uma declaração mútua israelo-palestiniana do fim do conflito e das reivindicações futuras.
        • Reconhecimento mútuo de ambas as nações e do seu direito a um Estado independente.
        • Retirada quase completa de Israel para as fronteiras de 1967 com base numa troca de terras 1:1
        • Uma solução abrangente para a questão dos refugiados palestinos baseada nos Parâmetros Clinton(2000); dos quais a principal componente será a compensação e o regresso a um Estado Palestiniano independente .
        • A Jerusalém judaica como capital de Israel e a Jerusalém árabe como capital da Palestina, com áreas judaicas sob soberania israelense e áreas árabes sob soberania palestina.
        • Um Estado palestiniano não militarizado e disposições de segurança detalhadas.
        • “Mapa de guardanapo” (2008): é um nome coloquial para um esboço palestino feito pelo presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas, em um guardanapo, de um mapa com propostas de troca de terras que lhe foi mostrado pelo então primeiro-ministro Ehud Olmert durante as negociações de paz em meados de 2008. Na proposta do próprio Primeiro-Ministro Olmert, Israel anexaria 6,3% da Cisjordânia.  Em troca dessas concessões da Autoridade Palestiniana, Olmert ofereceu 5,8% das terras israelitas como parte da troca.

     Quando Mahmoud Abbas pediu para manter uma cópia do mapa para análise posterior, Ehud Olmert recusou. Mahmoud Abbas esboçou à mão o mapa de Ehud Olmert num guardanapo para ter uma cópia para análise posterior.  Este mapa foi posteriormente referido como mapa do guardanapo.

        • Confederação Israel-Palestina: A guerra da Independência ou a Nakba, criou uma realidade na qual 600 mil refugiados palestinos abandonassem a região para Jordania, Siria e Libano. Outros foram para Europa e Américas. Assim como os judeus que foram expulsos dos países árabes, 600 mil, e que foram a Israel e a Europa e Américas. Isto é uma situação irreversível. Não há como voltar. Não há como solucionar uma desgraça criando uma desgraça.

    É preciso entender que qualquer solução terá que ser desenvolvida levando em conta a desgraça criada ao povo palestino e buscando uma forma de compensação ao passado. Para chegar a uma solução que não seja simplesmente um acordo de paz assinado por líderes políticos e que não corresponda a realidade histórica, cultural, religiosa é preciso muito mais do que uma simples divisão

    de dois estados soberanos, Israel e Palestina. É preciso reconhecer que o povo judeu está vinculado em seu DNA, em todas suas células a região da Cisjordânia. A Hebron, Judeia e Samaria. A cada passo que se dá nesta região há um fator histórico que conecta o povo judeu a esse pedaço de terra. Assim como, é preciso reconhecer que o povo palestino está vinculado em seu DNA, em todas suas células a região do atual estado de Israel. Askelon, Yaffa, Haifa, Zfat, Nazareth, 300 aldeias que foram destruídas na guerra da independência/Nakba. Talvez um Estado binacional seria a melhor solução. Mas, é totalmente inaceitável pela maioria dos dois povos.

    Sou membro de um movimento político Land for All , que tem representação israelense e palestina com sede em Israel e Palestina, que leva em consideração a narrativa de ambos os povos, de ambos os movimentos de libertação, o sionista e o palestino. Movimento que além de um acordo legal, leva em consideração o que foi dito anteriormente, as aspirações de cada povo, baseadas em sua história, religião, cultura. Uma solução que foge do que já foi tentando e busca um pensamento “out of the box”, quebrando paradigmas de esquerda e direita. Utópico? Talvez, mas bem menos do que acreditar que podemos ter hoje um estado Binacional ou dois estados independentes com um muro separando entre eles. Em vez de reescrever o programa, anexo aqui dois vídeos e a plataforma do mesmo.

    https://youtu.be/TejmONWRCuw

    https://youtu.be/ODlNGc1zeZw?list=UUTpAV26sbHfyM1KbVY9GvMg

    https://www.alandforall.org/wp-content/uploads/2021/02/booklet-english.pdf

    Para finalizar quero colocar dois princípios básicos do movimento que pertenço e que relacionam a força da violência.

    O primeiro de que durante 75 anos de conflito, a violência não solucionou o conflito, muito pelo contrário. São mais de 200 guerras e operações militares e atentados terroristas de ambas as partes. São mais de 50 mil mortos. Muitos dizem que demos chance aos processos de paz. Houve somente 5 tentativas de verdadeiro diálogo. A violência palestina só levou a uma maior violência israelense. Os ataques do grupo de extrema direita fundamentalista Hamas e Jihad Islâmica (não me venham dizer que são organizações de esquerda) só resultou na subida e reconhecimento dos grupos terroristas de Kach, Terror contra Terror, Noar Hagvaot e outros, justificando suas ações, a tal ponto que conseguiram representação de 14 membros no parlamento (mais de 10%). A única solução é o diálogo e ativismo não violento. Ali Abu Awad, fundador do primeiro movimento pacifista palestino (Teghyer) diz de forma simbólica que “no dia em que conseguirmos que 10 mil israelenses e 10 mil palestinos se juntem nos muros, conseguiremos a paz”.

    O segundo princípio fundamental do movimento é que “Não resolveremos uma injustiça criando uma nova injustiça”. Não resolveremos o problema dos refugiados palestinos expulsando os judeus de seus territórios.

    O que aconteceu no dia 7 de setembro não pode ser justificado pela opressão do povo palestino por Israel. Não pode ser justificado por Dir Yassin, por Sabra e Shatila, por Mearat Hamachpela, por Duma e por todos os palestinos que morreram pela opressão de Israel. Assim como condenei junto com centenas de milhares de israelenses todas essas chacinas e exigimos a condenação daqueles que a cometeram, espero dos palestinos que condenem essa chacina e todas as outras do passado, pois ódio, chacinas e violência têm que ser condenada por todos àqueles que acreditam que ambos os povos têm o direito a existência, a liberdade e a um Estado.

    Do rio ao mar, cada pedaço de terra, cada árvore se nutre de sangue judeu e palestino derramado nos últimos cem anos. Esta Terra não pertence ao povo palestino e nem ao povo judeu. O contrário é o certo. O povo judeu e o povo palestino pertencem a esta Terra, e ela tem que ser compartilhada e não partilhada.

Os seculares querem o Judaísmo, mas não este Judaísmo

Os seculares querem o Judaísmo, mas não este Judaísmo

O público secular está farto de o establishment rabínico e religioso estar completamente desconectado do modo de vida liberal, e parou de torcer o nariz para isso. Mas há uma solução para isto: o Judaísmo Israelita

Regev Ben David e Yael Golan | (Tradução Davi Windholz)

As cuspidas[1] nos peregrinos em Jerusalém, os confrontos em Tel Aviv no Yom Kippur[2] e a declaração do Rabino Chefe Yitzhak Yosef[3] de que os seculares são “pobres” e “não têm satisfação na vida” podem muito bem ecoar o sentimento de MK Moshe Gafni, de que ” estamos no meio de uma guerra religiosa” de um lado estão os ultraortodoxos e os nacionalistas religiosos e do outro lado os secularistas. Mas a verdade é que este não é realmente o caso. A maioria dos secularistas pode, e querem viver em paz com o seu Judaísmo – mas não com este Judaísmo.

Em seu artigo “Like in America” publicado no “Yediot Ahronoth” na semana passada, Avi Shilon propôs conduzir a “Batalha pelo Judaísmo” não apenas de forma conflituosa, mas também para oferecer uma alternativa. Ele também apontou para a fonte de inspiração – os reformas  e conservadores nos EUA, e concluiu assim: “O público secular pode começar a desenvolver conteúdo para uma espécie de religião “reformista israelense”.

Shilon está absolutamente certo sobre a necessidade de apresentar uma resposta positiva juntamente com as críticas, mas perdeu completamente o tremendo desenvolvimento de um judaísmo israelita vivo e vibrante, do qual as massas já se consideram parte. A maioria do público israelita (55%, de acordo com a investigação de Rosner e Fox) vê tanto o  sionismo  como a tradição de forma positiva. Muitos deles são homens e mulheres israelitas que querem manter a sua identidade judaica, mas à sua maneira e de acordo com os seus valores – e podem certamente sentir-se confortáveis no movimento judaico israelita.

Aqui, ao mesmo tempo que os eventos na Praça Dizengoff, dezenas de milhares de pessoas em todo o país participaram em orações que tinham várias misturas de tradição e inovação: piyut antigo ao lado da poesia hebraica clássica ou contemporânea, lideradas conjuntamente por homens e mulheres, todos de acordo com os organizadores e o público. O Judaísmo Israelita é uma combinação de tradição com a nossa identidade moderna aqui, sionista, liberal, igualitária e cultural.

Não se engane, esta não é uma versão  parcial  de que  “façamos a tradição que gostamos   e os religiosos  o resto” O Judaísmo Israelita combina o Judaico e o democrático, orgulha-se do seu Judaísmo e orgulha-se da sua liberalidade. Ela acredita não apenas em “fazer o bem”, mas também em “fazer o mal” – isto é, em colocar linhas vermelhas em contextos de igualdade e exclusão, racismo ou separatismo.

No campo do judaísmo israelense, estruturas e programas educacionais para escolas, casas pluralistas de midrash, escolas preparatórias pré-militares, estruturas estudantis, grupos de reflexão, cerimônias de vida e muitas dezenas de diversas comunidades e casas de oração em todo o país cresceram em décadas recentes. Ao contrário de organizações como “Rosh Yehudi”, as organizações do Judaísmo Israelita não apelam a um públicoRosh Yehudi  secular e tentam mediar a tradição na sua versão iliberal-mas-com-um-sorriso, mas em vez disso oferecem um Judaísmo que verdadeiramente lhes convém, e ao longo do caminho constituem uma barra de conversação aprofundada e aprendida sobre questões judaicas, para as organizações Os religiosos não liberais .

Sem dúvida, os últimos meses trouxeram correntes subterrâneas à superfície. A maioria do público secular, que quase se acostumou com o sistema – o establishment rabínico e religioso está completamente desconectado do modo de vida liberal, mas é isso que é, vamos apenas fechar o nariz em relação ao nascimento, ao casamento, ao divórcio – está farto disso.

Este público precisa de um judaísmo que fale liberalmente. Por um Judaísmo igualitário, aberto, inclusivo, que saiba preservar o núcleo identitário sem deixar as mulheres de lado e sem tirar as pessoas LGBT do campo; por um Judaísmo que tenha uma atitude acolhedora mesmo com quem não lhe pertence, por um Judaísmo que valoriza as ideias sociais de justiça, garantia e santidade da vida.Na luta Sobre o surgimento do Estado – este é um elemento que não deve ser negligenciado na forma de moldar um Estado judeu, democrático e liberal .

 Comentário do tradutor:  Sem dúvida a diáspora pode ter um papel fundamental neste processo. Estas comunidades que estão surgindo precisarão de uma estrutura organizacional, precisarão de recursos, precisarão do apoio das comunidades reformas, conservadoras, laicas da diáspora.

(1) Conheçam essas organizações. Entrem em contato com elas e dialogando vejam como podem ajudar.

(2) Ao contribuir com o fundo comunitário exijam que a contribuição vá a essas comunidades e não ao stablishment ortodoxo e as hitnachaluiot (colônias nos territórios ocupados).

[1]  Os religiosos ultra ortodoxos cospem no chão ao passar por uma igreja ou por uma autoridade religiosa.

[2] A organização Rosh Yehudi organizou a reza de Kol Nidrei em lugar público em Tel Aviv com separação de homens e mulheres. A municipalidade proibiu separação física com tapumes. O STJ aprovou a proibição. Mesmo assim a organização realizou as rezas e causou uma revolta da população liberal.

[3]  Ele também comentou de quem não come Kasher tem uma “mente tonta, burra”

Reflexoões de Rosh Hashana

Reflexoões de Rosh Hashana

Em Rosh Hashana[1], como sempre que venho ao Brasil nos chaguim[2], vou a CIP[3]. Lá me sinto em casa. Meus avos fundaram a CIP, a ala ortodoxa, foram muito ativos na Chevre Kadisha[4], no Lar das crianças. Meus pais foram muito ativos no CIAM. Eu na Chazit Hanoar[5], como sheliach[6] em Porto Alegre e depois como mazkir olami[7] em Israel. Com Sobel organizei o programa de vários grupos dele em Israel. Eduquei gerações de madrichim[8] de todos os movimentos juvenis no Machon Lemadrichim[9], mas em primeiro lugar os da Chazit. Realmente tenho CIP em meu coração, em meu DNA.

Este ano foi algo especial. Ao entrar na sinagoga procurei meus companheiros, meus chanichim[10], conhecidos de meus pais e avos. De repente me dei conta que estava olhando para as pessoas erradas. Os “68 anos” não eram os amigos de meus pais, mas sim os meus. O tempo voou. Certeza de que estavam lá, mas já não os reconheci.

Ao sentar-me reparei que nada mudou. Desde que me conheço como gente e que frequento a CIP, o interior da sinagoga não mudou. Mas, muito mudou. A CIP soube ser dinâmica e se adaptar as realidades. A pandemia, trouxe a última – o serviço online. Olho ao meu redor e famílias inteiras juntas, pais, mães e filhas e filhos. Todos juntos. Uma alegria me invade ao ver isso e ao mesmo tempo uma tristeza a ponto de chorar. Renato e Shirley (Sacerdote) estavam do meu lado e mostro a eles uma foto de Israel – uma placa na cidade de Beit Shemesh[11] “Sob ordem dos Rabinos nos shabatot e chaguim[12] as famílias não deverão caminhar juntas nas ruas. Homens nas ruas, mulheres nas calçadas”.

Um peso, como uma pedra na minha garganta. Uma tristeza me domina, medo, angustia, decepção, desesperança. O que aconteceu com meu Pais, ao qual fiz alia[13] com 18 anos? O que aconteceu com àquele sionismo humanista socialista pelo qual realizei o sonho de muitos de viver em um Pais de judeus, democrático. Como pode ser que o único pais do mundo no qual a maioria do povo judeu não tem representação e aceitação enquanto a sua ideologia religiosa? No qual os movimentos reforma e conservador são “não Kasher[14]”. Como chegamos a este ponto, no qual 5% do povo judeu domina, de forma totalitária, a Israel e define o que é judaísmo e o que não?

Estou no Brasil, São Paulo, me preparando para viajar a Salvador para abrir o 1º congresso internacional de educação para paz e não violência.

Evento este resultado de meu trabalho educacional em Israel e na Palestina, através da ONG que criei para trabalhar em educação para a paz e não violência com judeus, muçulmanos, cristãos e drusos – israelenses e palestinos e de minha atuação em movimentos políticos a favor do fim do domínio e da opressão de Israel ao povo palestino, a favor de uma Confederação Israel-Palestina. Resultado de minhas vindas ao Brasil para dar oficinas e palestras sobre o modelo educacional bilingue e sobre as soluções para o conflito. Em uma palestra no Rio de Janeiro um dos participantes disse “Davi você não está falando só de judeus e palestinos, mas também do Morro e do Asfalto”. Entendemos que o nosso modelo poderia falar a outros conflitos, a outras opressões. Junto com Sérgio Storch, armamos os princípios de uma Rede Internacional de educação para Paz e Não Violência. Sérgio se foi e nós seguimos.

Desde 2001, venho ao Brasil a cada 2 anos e em todas minhas palestras venho alertando para onde Israel caminha e qual deveria ser o papel das diásporas. Venho alertando sobre o processo que Israel está passando e que teve início com o golpe de 1995, com o assassinato de Rabin e a subida de Bibi Nataniahu em 1996.

Em relação ao conflito israelense-palestino, ao contrário do que se diz, os acordos de paz não foram feitos pela direita e religiosos, mas sim pelo setor liberal do Likud[15] (o Likud é uma coalisão do partido Liberal com o partido Herut). Beguin ao fazer o acordo com o Egito precisou do centro e da esquerda para levar a diante o programa, que ao final a grande maioria votou a favor. O acordo com a Jordania foi realizado pelo Avoda, com Rabin. O acordo de Oslo foi assinado por Rabin.

Em 1995 Israel sofre um golpe político, com o assassinato de Rabin, por forças ideológicas de extrema direita e do sionismo religioso messiânico. Com isso, desde 1996, com a subida de Bibi Nataniahu, a direita domina o país, até os dias de hoje. Com pequenos intervalos de um ano e meio com Barak (1999-2001) e 3 anos com Olmert (2006-9). Neste período houve várias tentativas de um acordo com o mundo árabe e com os palestinos.  Oslo morreu, não por suas falhas, mas por seu abandono, por não darem continuidade as conversações com os palestinos. Todas as falhas poderiam ser corrigidas e chegado a um acordo final, ao fim do conflito. Em 2000 nas conversações de Camp David e 2001 em Taba quase se chega a um acordo. Barak não tinha a maioria na Knesset e seu governo se desfaz. Em 2002 com a proposta da Liga Árabe poderíamos ter reiniciado um processo, e os Acordos de Avraham, não teriam esperado 20 anos. Em 2005 , nos desconectamos de Gaza, de forma unilateral, sem fazermos um acordo de paz temporário. Em 2009, o primeiro-ministro, Ehud Olmert, estava prestes a fazer um acordo com o presidente Abbas, em troca de 97% do território sob domínio de Israel, quando se demite por acusação de corrupção.  Bibi assumindo de novo o poder, não aceita a proposta de Abbas de seguir s conversações do ponto em que foram paradas.

Desde 2009 não houve mais propostas de negociações, apesar de que o Presidente Abbas declarou para um grupo de 20 representantes de organizações israelenses, e eu entre eles, de que estaria disposto a negociar sem condições previas, que era o grande argumento de Bibi para não realizar as conversações. Mesmo assim, Bibi não aceitou.

Até 1999 a população judia nos territórios ocupados era de 180 mil. Nestes 20 anos a população chegou a 492 mil judeus. Sem contar com o aumento da população judia em Jerusalém Oriental. Neste período cresceu os movimentos terroristas judaicos nos territórios palestinos – Noar Hagvaot[16], jovens colonos que organizaram ataques a aldeias palestinas, queimaram e arrancaram milhares de oliveiras, mataram ovelhas e por fim assassinaram palestinos, com o caso mais difícil da família que morreu queimada trancada dentro de sua casa. Outras organizações terroristas judias como “Terror contra Terror”, “Patrulha da Vingança”, “Bat Yan[17]” e uma série de terroristas que assassinaram palestinos de forma individual. Baruch Goldstein, médico, metralhou e matou 29 palestinos e feriu 125, na Mearat Hamachpela[18], quando estes estavam rezando, Amiram Bem Uliel, que matou uma família incendiando a casa e não permitindo que saiam de lá e Igal Amir, assassino de Rabin.

Mas, nada se compara com o que vemos nos últimos 9 meses do atual governo. Formado por 50% de ministros do Likud, 25% de 3 partidos sionistas religiosos e 25% dos partidos ultra ortodoxos fundamentalistas. Governo ideologicamente racista, homofônico, antidemocrático, anti-pluralista judaico, acreditando na superioridade do povo judeu.

Mais de 100 leis religiosas foram aprovadas pela Knesset. Bilhões passaram as mãos dos colonos e dos partidos homofônicos e antidemocráticos. O secretário do ministério de educação se demitiu a um mês, a vice-secretária se demitiu esta semana. O ministério de educação está quebrando. O mesmo com o ministério de comunicações e saúde. O ministério de segurança nacional está nas mãos de Bem Gvir, terrorista declarado pelo próprio serviço de segurança nacional. A ele lhe foi dado uma verba especial para criar a polícia especial de 1800 policiais, que lembra algo de 1933. O ministério das finanças esta nas mãos de Smotrich, racista, cuja mulher se recusou a estar no mesmo quarto com uma palestina, no hospital.  Avi Maoz, cujo partido Noam, se propõe impor as leis da halacha[19] no país e lutar contra a comunidade LGBTQIA+, é o responsável pelos programas extracurriculares nas escolas. Organizações liberais e de esquerda foram proibidas de entrarem nas escolas no programa extracurricular, ao passo que dezenas de organizações homofônicas, anti aborto, racistas receberam mais verbas para atuarem nas escolas.

Sem ainda saber do conflito que surgiria em Yom Kipur[20], quando o movimento HaRosh HaYehudi[21], movimento messiânico que tem como ideologia a Hadata[22], decidiu ir contra o Supremo Tribunal e rezar em Tel Aviv em lugar público, separando homens de mulheres, chegando ao conflito com população laica,  refletindo sobre toda essa caminhada, desde minha ida a Israel até este momento que estou sentando na CIP, sobre todo o processo de minha vida, nesta caminhada para Tikun Olam[23], legado de minha família, me lembrei que em julho de 2015 recebi a Caetano e Gil em Israel em um encontro com 140 representantes de organizações pro paz e pró-Estado da Palestina. O New Israel Fund foi meu parceiro. O movimento Combatants for Peace os levou a Sussia. Caetano dois meses depois declarou “Gosto de Israel fisicamente. Tel Aviv é um lugar meu, de que tenho saudade, quase como tenho da Bahia. Mas acho que nunca mais voltarei lá”. Nesta carta Caetano citou meu nome 4-5 vezes, como quem organizou a sua visita. A comunidade judaica brasileira me acusou de “traidor”, culpado pela postura de Caetano, que neste encontro disse: “parem a ocupação, parem a segregação, parem a opressão”

E eu digo, eu voltarei a Israel e comigo levarei a diáspora para que,

Não deixarmos que 5% do povo judeu domine o Estado de Israel

Não deixarmos que Israel seja o único país no qual um judeu reformista, conservador, laico não possa expressar livremente sua identidade

Não deixarmos que Israel seja o antro de poucos judeus que acreditam que o povo judeu é superior

Não deixarmos que Israel se transforme num país racista e apartheid segregando o árabe como cidadão de segunda categoria.

Não deixarmos que Israel seja um país homofóbico

Não deixarmos que Israel humanista e democrática se transforme em ditadura teocrática.

Não deixarmos que Israel se transforme no que a Alemanha foi em 1933,

[1] Ano novo judaaico

[2] Festas judaicas

[3] Congregação Israelita Paulista – Sinagoga

[4] É uma organização de homens e mulheres judeus que cuidam para que os corpos dos judeus falecidos sejam preparados para o sepultamento de acordo com a tradição judaica

[5] Movimento juvenil

[6] Diretor pedagogico

[7] Secretário munidal

[8] monitores

[9] Instituto Educacional

[10] Alunos, educandos

[11] Cidade em Israel, com uma população de judeus ultra ortodoxos

[12] Sábados e feriados judaicos

[13]Termo usado para definir a imigração de judeus para Israel

[14] Kasher são produtos alimentares de acordo com as leis religiosas ou normas religiosas

[15] Likud é o partido majoritário seguindo a linha do sionismo revisionista de direita

[16] Juventude das colinas – movimento de jovens de extrema direita

[17] Movimento terrorista que colocou uma carroça com explosivos em frente de uma escola de meninas árabes

[18] Caverna dos patriarcas – Série de cavernas localizadas no coração da antiga cidade de Hebron, onde, segundo a Torá, a Bíblia e o Alcorão, estão enterrados os Patriarcas Abraão, Isaque e Jacó

[19] As leis judaicas ortodoxas

[20] O dia do Perdão – o dia mais sagrado para os judeus.

[21]Tradução: Cabeça Judaica

[22] o processo missionário de “transformar” o judeu laico em religioso.

[23] Termo usado no judaísmo para melhoria do mundo, transformação do mundo.

Midia mobilizada

Midia mobilizada

Na sexta-feira, 04/08/22, um jovem palestino de 19 anos foi assassinado por terroristas judeus colonos, que vieram com seu rebanho para  terras privadas da vila de Baraka para criar anarquia,  sabendo que haveria uma reação dos palestinos. Eles vieram com  armas de fogo,  como  parte da estratégia de tomar terras privadas palestinas.

No sábado, 05/08/22, um jovem judeu foi assassinado em Tel Aviv por um terrorista palestino que veio a Tel Aviv para criar anarquia e desafiar a existência de Israel.

Me interessa analisar como  a mídia “esquerdista ” (assim definida pela direita) reage a esses eventos. A  manchete principal  de um dos jornais dizia: Flores e elogios no local do ataque em Tel Aviv, o IDF invadiu a casa do terrorista, o comandante da unidade do falecido Chen Amir: “Ele era um amigo pessoal e próximo ,  incluindo uma descrição detalhada do incidente,   do comportamento heróico  do assassinado em salvar vidas e proteger Tel Aviv, um artigo sobre  a personalidade dele, sua família, seus amigos, sua contribuição para a comunidade e a defesa de Israel. O rádio e a televisão também dedicaram tempo significativo à sua vida. Ele merece. Merecemos saber quem ele é, e o que o conflito nos causa  na perda de pessoas queridas e amadas.  Jovens que sonham com o futuro, com viagens, profissão, casa, relacionamento, família. Jovens que têm pais, irmãos e famílias. É importante nos mostrar do que eles  (os palestinos) e nós (os judeus israelenses)  estamos perdendo.

Eu também esperaria que uma imprensa não mobilizada contasse a história do jovem palestino, sobre sua vida, sua família, seus sonhos, sua contribuição para a comunidade. Para saber quem ele é e o que o conflito está causando ao povo palestino – perda de pessoas amadas. Os jovens  que sonham com o futuro, com viagens, profissão, casa, relacionamento, família. Jovens que têm pais, irmãos e família. É importante nos mostrar o que nós (judeus israelenses) e eles (palestinos)  estamos perdendo.

Mas, não é assim. Nossa mídia de  “esquerda” está mobilizada. Um é um herói, o protetor de Israel. O outro é um  provocador  que veio perturbar os judeus que estavam pacificamente com  seus  rebanhos nas terras particulares dos palestinos. Um objeto palestino, sem personalidade, sem vida e sonhos para contar.  Sem família. Apenas um palestino

Se fosse um evento único, eu poderia perdoar a mídia esquerdista. Falhou. Mas essa narrativa se repete todos os dias. Cada vez que há um ataque terrorista em Israel por parte de um palestino, tudo para e muitas páginas, minutos e horas são dedicados ao assassinato e ao assassino, para provar o quanto somos heróis e nossa causa justa e o quanto eles são sanguinários e só querem a nossa destruição.

Mas, todos os dias há eventos nos territórios ocupados. Corte de  oliveiras, matança de  rebanhos, queima de  carros, profanação de  igrejas e mesquitas e ataques a palestinos inocentes, a ponto de queimar casas e matar. Procurei na imprensa, nos noticiários, em dezenas de conversas diárias de programas de rádio e televisão, em canais nas redes alguma referência a esses acontecimentos. Noticias.  Nada!

A mídia é mobilizada para o ethos israelense – sionista. Críticas de esquerda? Só até certo limite. Há um sinal vermelho pelo qual não pode passar. A comparação do assassinato de um israelense contra o “assassinato” de um palestino. Esta é a linha vermelha. Não compare a dor de um judeu ou judia com a dor, se é que existe, de um palestina  ou palestino.

Esta narrativa recebeu  apoio e aprovação do Ministério da Educação na semana passada, quando proibiu a Family Circle, organização de famílias enlutadas israelenses e palestinas, de realizar encontros nas escolas. “O assassinato de um judeu não deve ser comparado com o assassinato  de um palestino. A dor judia  com a dor palestina”.

Este governo encurralou ainda mais a mídia, com a tentativa de revolucionar a mídia e controlá-la. Este governo está nos levando, não a uma revolução constitucional, mas a uma mudança na narrativa judaico-sionista. A narrativa em que acreditamos há 75 anos

Trarei apenas três regras que estão a caminho. A primeira, já aprovada há vários anos, a lei da nacionalidade, que diz que há um cidadão de primeira classe – judeu e um cidadão de segunda classe – não judeu. Segunda lei, punição dupla pelo estupro de uma judia por motivos nacionalistas. Como provar que a violação foi de uma forma ou de outra, ou ainda mais grave, como provar que  em uma relação voluntária não houve  estupro, principalmente quando o Ministro da Segurança Nacional, Ben Gvir,  fazia parte da  Organização Lehava  que luta  contra relações de  casais de judeus e árabes, a ponto de ameaçar de assassinato? Terceira lei, uma pessoa pode escolher a quem prestar serviços, incluindo médicos. O dono de uma loja ou negócio, um profissional liberal ou até mesmo um funcionário público pode decidir não prestar serviço a um não judeu, a uma pessoa pertencente a um setor que julgue inadequado (como LGBT) ou, mulheres com roupas definidas por ele como não modestas.

Até o momento são mais de 100 leis que estão sendo encaminhadas ,voltadas para  setores vistos pelos partidos religiosos e pela extrema direita como ilegítimos – LGBT (proibição de adoção ); Mulheres em espaço público (separação de sexos em espaços públicos e praias); Movimento reformista e Conservativo ( Lei do Muro das Lamentações) e leis de proteção a populações judias ultra-ortodoxas, como a lei que compara o estudo da Tora com a convocação ao exército,

Leis que definem a supremacia do povo judeu, como povo escolhido e o único que tem o direito de viver nesta terra de acordo com as leis da Halachá. Leis que transformarão nosso sonho de ressurreição depois de dois mil anos na destruição  do “3º Estado”.

Se o povo judeu, vivendo em Israel e na diáspora (e aqui incluo os movimentos progressistas, o movimento reforma e conservativo, os movimentos juvenis, as organizações sionista clássicas, as representações de Meretz e Avoda, Shalom Achshav), não acordar, veremos o fim  do sionismo humanista, pluralista, democrático, que  criou  o Estado de Israel e o surgimento de um novo Israel, baseado no sionismo fascista, messiânico, no  Na-zi-onismo.

Será possível uma guerra civil em Israel?

Será possível uma guerra civil em Israel?

Escrevi esta primeira parte do artigo a uma semana atrás. Pensei em re-escrever, mas decidi deixar assim para o leitor poder ver a dinâmica e a velocidade dos acontecimentos em Israel.

19/07/2023

Quando pensamos se seria possível uma guerra civil em Israel, nossa imaginação nos leva a ver uma guerra entre judeus e árabes palestinos. Mas a realidade vai muito mais além de nossa imaginação.

A Guerra civil em Israel já existe. Ela iniciou-se em 4 de novembro de 1995, quando Igal Amir, sob influência de rabinos extremistas e da extrema direita, assassinou ao primeiro-ministro Itzhak Rabin.

A guerra civil vem se desenvolvendo desde lá com o apoio de judeus multimilionários americanos, que criaram a organização Kohelet, que define quais devem ser os passos para um “Novo Israel”, enterrando as origens do sionismo socialista laico humanista democrático e criando um Estado sionista messiânico, influenciado cada vez mais pelas leis da halacha e pela anexação dos territórios palestinos.

A guerra civil, com um só morto, foi comandada pela direita, durante os 13 anos do governo de Bibi Nataniahu, Likud e seus “parceiros naturais”, os partidos do sionismo messiânico, ultra ortodoxos e a extrema direita do Rabino Kahane.

Em janeiro deste ano subiu ao poder, principalmente por um erro grave da esquerda, que não se uniu e assim 2 partidos minoritários não alcançaram a porcentagem mínima , perdendo de 3-5 bancas, dando assim o poder de mãos beijadas a direita e a extrema direita, partido do terrorista judeu de Bem Gvir (ministro da segurança nacional) e do racista Smotrich (ministro das finanças) –  a favor da imposição religiosa no pais (halacha), a favor da anexação dos territórios palestinos, homofônico, cuja plataforma política é o extermínio da comunidade LGTBQ+, contra igualdade de direitos a mulher, aos árabes e finalmente contra o pluralismo judaico e as correntes reforma e conservativa.

Mas, este governo abriu a caixa de Pandora, colocando todos os fantasmas temidos para fora. Mas, sem saber que junto com os fantasmas a caixa de Pandora também continha a Esperança. A reação a Guerra Civil da direita.

Prof. Yuval Noah Harari declarou há dois dias que “O Estado de Israel como o conhecíamos está morto. Este governo está determinado a avançar em apenas uma direção – a ditadura, mesmo à custa de quebrar o contrato israelense “.

O ex-primeiro-ministro Ehud Barak afirmou na quinta-feira que a política liderada pelo atual governo liderado pelo primeiro-ministro Benjamin Netanyahu levará a um levante dentro das IDF e do Shin Bet – “A agenda liderada pelo governo mais direitista da história de Israel causará uma revolta e resistência civil, e recusas de ordens por altos oficiais das IDF e pessoal do Shin Bet”.

“O contrato foi quebrado, não podemos continuar assim. Chegamos ao momento da verdade, a um ponto em que sentimos que é tudo ou nada”. Continua Yuval Harari.

Em 1980 foi criado o movimento “Yesh Gvul” (tem fronteira). Soldados da reserva se recusavam a servir além das fronteiras de 67. Eu também assinei a carta de Yesh Gvul. Meu filho nasceu em 1983. 18 anos mais tarde, em 2011 ele se recusou a servir no exército de opressão e domínio dos territórios palestinos. Com ele estava o sobrinho do Bibi Nataniahu. Ambos foram presos por 6 meses, até serem liberados. Naquela época éramos uma minoria, e a causa era o conflito com os palestinos. Ninguém poderia imaginar o que aconteceria 40 anos mais tarde.

Está claro para todos nós que este governo quer eliminar todos os freios e contrapesos do regime   democrático, obter poder ilimitado para si e, assim, transformar Israel em uma ditadura. A princípio o governo tentou fazer isso por meio de uma rápida blitz legislativa. Nós a paramos e esperamos que ela ficasse sóbria. Queríamos acreditar que o governo percebeu seu erro e abandonou seu plano destrutivo. Demos uma chance de negociação na casa do presidente, com muita desconfiança, mas também com muita esperança. Infelizmente, todas as suspeitas foram confirmadas e a esperança foi completamente destruída .

O contrato que manteve nosso país unido por 75 anos está morto . A extrema direita o matou em novembro de 1995 e o governo  de Netanyahu fez “vidui ariga” (comprovante de morte) [1] a partir de janeiro de 2023 e o  enterrou  em julho.

É preciso entender que não estamos falando só de revolução judiciaria, esvaziando o Supremo Tribunal, permitindo ao governo tomar decisões em contra das Leis Básicas de Israel [2] , demissão e admissão de funcionários públicos e contrato de serviços sem concursos, desconectando os ministérios dos assessores judiciais independentes dos ministérios.  O poder executivo já está totalmente conectado com o poder legislativo. O que quer este governo é conectar o poder judiciário ao executivo e assim ter o poder total das decisões no País. Desta forma poderá o governo, com 25 % de membros ultra-ortodoxos aprovar leis religiosas em base a halacha, lei que permita a não convocação ao exercito de “avrachim” (jovens que estudam em Yeshivot – no momento foram exentos 170 mil jovens), lutar contra a comunidade LGTBQ+, reduzir os espaços públicos de mulheres, eliminar os movimentos reforma e conservativo. Um Israel “à la Irã”. Por outro lado, os 2 partidos sionistas messiânicos, de extrema direita, 25% do governo, poderão anexar os territórios da Palestina, conquistados em 1967, transformando Israel em uma África do Sul, com uma população judia previlegiada e sem direito de voto aos palestinos.

O governo não pensava que haveria uma resistência tão grande da população. Apesar de que receberam 64 cadeiras na Knesset, a maioria da população é contra a revolução judiciaria. Se houvesse eleições agora, a oposição receberia 64 cadeiras mais 5 do partido da Frente Árabe e o governo somente 51 cadeiras.

Mas, no momento, o governo caminha a toda velocidade e sem freios para mudar o País e implantar a ditadura. Mais ainda, agora que eles sabem que perderão as próximas eleições.

E quem vai se opor e resistir a esse golpe e revolução judiciaria? Será que as manifestações, que já vão a sua 30ª semana, são suficientes? Claro que não.

Cerca de 4.000 reservistas, oficiais e pilotos já declararam: Deixaremos de se voluntariar se a legislação unilateral continuar. O protesto nas FDI aprofunda-se e espalha-se por mais e mais unidades em todas as forças • A coligação continua a decretar a eliminação da lei da razoabilidade – e mais reservistas ameaçam abertamente que não se reportarão às suas unidades se a lei for aprovada. Reservistas pilotos e navegadores, Shaldag e Shayetet 13 a veteranos de oficiais do Corpo de Inteligência. A previsão do ex-primeiro-ministro Ehud Barak se concretiza.

O contragolpe virá de dentro do exército, dos serviços de segurança e informação, do setor de high tech, do sistema médico-hospitalar (mais de 400 médicos do sistema já declararam que se demitiram, caso as leis sejam aprovadas).

25/07/2023

Em apenas menos de uma semana, mais de 10 mil reservistas declararam que não servirão mais no exército. Há 3 dias atrás saiu de Tel Aviv a caminhada contra a reforma. Iniciou com 50 pessoas e chegou a 10 mil em Jerusalém. A ela se uniram mais de 150 mil pessoas. Entre elas, pela primeira vez, o setor religioso ortodoxo moderado, que até então não havia se manifestado. Em minha opinião elas são mais de 30% da população religiosa.

Durante o dia de domingo, o ex-chefe do serviço de informação fez uma declaração avisando do perigo da lei a ser aprovada. A Histadrut (Organização dos sindicatos) junto com a Organização das empresas particulares reuniu com representantes do governo, prevenindo pela centésima vez do perigo da quebra da economia de Israel. Entregaram uma proposta de mediação. Resistencia total.

Ontem, apesar das várias tentativas de mediação, com proposta de abrandar a Lei da razoabilidade, foi aprovada a lei em sua forma mais extremista, impedindo o Supremo tribunal de intervir e cancelar qualquer decisão do governo, seja de ordem política ou administrativa.  Pressionado pelo lado extremista do governo (Bem Gvir, Smotrich, Levin), que ameaçaram romper a coalisão, Bibi cedeu e permitiu que a lei fosse votada sem nenhuma mudança. 64 a favor, 0 contra. A oposição não votou à lei.

Desta forma, está aberto o caminho para a ditadura. Ontem mesmo, já houve atos de violência por parte da população mais extrema, atos que já se vem manifestando a tempo sem nenhuma resposta do exército ou da polícia – queima de cultivos agrícolas e corte de oliveiras em campos palestinos e queima de carros e casas em aldeias palestinas por extremistas nacionalistas, ataques a igrejas por extremistas religiosos ultra-ortodoxos.

A comemoração de vitória por parte dos partidos extremistas de direita e messiânicos, abre as portas, as populações extremistas de agirem.

A pergunta que para mim é a central, é como agirão as lideranças da oposição e a população que até agora saiu as ruas de forma pacífica. População que envolve extrema esquerda (uma minoria quase sem expressão), esquerda, centro (a grande maioria), os religiosos moderados e árabes.
Será que isto levará a um aumento de grupos de esquerda militantes? Será que isto levará a que a população que até agora soube brecar nos faróis vermelhos de atravessá-los? Será que a revolta civil pacifista até agora, tomará forma de violência?

Não acredito na resistência pela violência. Na revolta civil pacífica existe muito mais força e impacto. Recusar a servir no exército, deixar de pagar imposto, boicote, manifestações pacíficas, greves, etc. Ações que paralisam o país, mas não geram mais violência.

Para evitar um incremento de violência necessitamos também do apoio de fora. Do governo americano e das diásporas. É hora do Levante diaspórico. Deixar de contribuir com o Fundo Comunitário, enviar manifestos de apoio a revolta civil, boicotar Israel. Sim, boicotar àqueles setores extremistas nacionalistas e religiosos.  Manifestar-se em atos contra o atual governo e as medidas tomadas por eles. E não, não é uma questão só dos israelenses. E sim, sim a diáspora tem o direito de interferir. Ela já está interferindo a anos através da Organização Kohelet e outras organizações ultra-religiosas, que querem mudar o rumo do Estado de Israel. É hora dos judeus progressistas se levantarem e gritarem “Dai”, chega. Manifestar em frente da embaixada de Israel. Juntar-se a nós, lembrando que estamos há dois dias de 9 de Av, estamos diante de um “déjà vu” histórico de extremistas assumindo o poder e instigando o ódio gratuito – os principais motivos da destruição do 1º e 2º templo e da autonomia judaica em Israel.

[1] no exercito depois de atirar em um “terrorista” o soldado se aproxima e atira mais uma vez para comprovar a morte

[2] Israel não tem constituição, mas uma série de leis básicas que resguardam os direitos humanos e a declaração da independência, na qual está escrito que todos são iguais perante a lei, independente de sua religião, cor, sexo e raça.

Yamim Noraim 2 – O dia do perdão Israelense

Yamim Noraim 2 – O dia do perdão Israelense

Semana passada memoramos o dia do Holocausto, ontem a noite e hoje memoramos Yom Hazikarom (o dia da memória), no qual lembramos os mortos caídos nas guerras e no conflito com os palestinos. Hoje a noite comemoraremos Yom Haatzmaut, o dia da Independência, da criação do Estado de Israel, sonho de 2000 mil anos do povo judeu. São dias de muita emoção e reflexão, uma práxis de minha caminhada pessoal e coletiva. Há 18 anos participo do Yom Hazikaron Alternativo, no qual memoramos os mortos judeus e palestinos caídos nas guerras e no conflito entre os dois povos. https://youtu.be/gxbkR9_ZTrw

Ao acordar hoje, como sempre, coloco músicas especiais de Yom Hazikaron. Cada uma das músicas me leva a um lugar no meu coração de tristeza, dor e esperança. Tristeza e dor pelos caídos, pelo medo de meus netos terem que continuar a servir, ou recusar a servir no exército de domínio a Palestina, antigo exército de defesa de Israel. Tristeza em pensar quantos mais terão que morrer…Bob Dylan.  E ao escutar as músicas, dois pensamentos me vieram a mente.

Yamim Noraim (Days of Awe, dias de espanto) é o período de 10 dias entre Rosh Hashana (o primeiro dia do ano judaico) e Yom Kipur (o dia do perdão). São 10 dias nos quais o povo judeu pede slichot (perdão) e se reconcilia com Deus, mas principalmente e antes de tudo com os seres humanos. Vindo de uma família religiosa, Yom Kipur era um dia muito especial, de jejum, com uma áurea e energia especial, no qual rezamos uma reza na qual pedimos perdão por uma série de erros (no original pecados) que cometemos “lefaneicha” (na sua frente). Como criança e adolescente inquieto não entendia por que tenho que pedir perdão a Deus por algo que não cometi. Hoje, esta reza é a que mais me emociona, e que representa a minha metamorfose e o entendimento dela. Em primeiro lugar a reza não se dirige a Deus. Em nenhum momento está escrito “Al hachet she chatati lefaneicha elochim” (sobre o pecado que pequei em sua frente, Deus”. A Palavra Deus não consta no texto, somente “Lefaneicha” (na sua frente).  חייב האדם לבקש מחילה מחברו ורק אחר כך מאלוהיו. O homem deve pedir perdão ao seu amigo e só então ao seu Deus. Sendo assim, “lefaneicha” é seu amigo, outro Ser Humano. E não só pedir perdão, mas o mais importante reconciliar. Em segundo lugar, eu sei quais foram os meus erros cometidos de proposito a outro ser humano, mas não sei se ofendi, machuquei, feri a um outro ser humano sem querer. Assim que pedir perdão específico é um sinal de humildade e de respeito pelas diferenças e pelos direitos humanos do OUTRO.

Como escrevi no artigo “Israel é importante demais para deixar somente nas mãos dos israelenses”, foram cometidos muitos erros, alguns premeditados e outros resultados da dinâmica do processo. O pior de todos a Nakba, a Desgraça, dos palestinos. 600 mil refugiados. O Segundo maior erro foi ficar com os territórios da Cisjordânia e de Gaza, conquistados na Guerra dos 6 dias em 1967. Não é hora de analisar quem é o culpado da Nakba, se os próprios palestinos, se Israel, se os lideres árabes dos países vizinhos. A Nakba é a desgraça do povo palestino, que se segue com a conquista dos territórios da Cisjordânia e de Gaza. Também não é o lugar para perguntar porque Egito e a Jordânia não incentivaram a criação do Estado Palestino nestes territórios entre 48 e 67, quando estavam em seu poder.

E, assim como em Yamim Noraim, me veio a ideia de que esta semana entre o Dia do Holocausto e Yom Hazikarom podíamos fazer um segundo Yamim Noraim, e pedir perdão aos palestinos e reconciliar-se com eles. Como em Yamim Noraim, não nos perguntamos sobre os erros (pecados) cometidos pelos outros, aqui também não questionamos os erros do outro lado, dos palestinos. O processo de perdão é um processo de introspeção, seja ela individual ou coletiva. O foco está em nossas ações, independente se foram motivados de forma premeditada, por que nos obrigaram a agir desta forma ou mesmo que não nos demos conta que estávamos fazendo mal ao outro. Desta forma quem sabe o outro lado agirá da mesma forma, criando a dinâmica da reconciliação.

O segundo pensamento surgiu já ontem a noite no Ato de Yom Hazikaron Alternativo. 10 mil pessoas presentes e outras centenas de milhares online, judeus e palestinos, escutamos a tragedia de judeus e palestinos que perderam seus entes queridos, pais, mães, irmãos, irmãs, filhos e filhas. Não existe tristeza maior ou menor, não existe dor maior ou menor. O luto é o mesmo, as memorias são as mesmas, de amor ao caído, apesar de que cada vida é uma vida individual, única.

Fora do espaço ao ar livre, no qual se realizou o ato, 20 extremistas gritavam com megafones “traidores”, cheios de odio a todos os que lá estavam, judeus e palestinos. Em meu livro “Psicopedagogia do amor”, descrevi que o mundo, hoje, se divide em dois. Àqueles que se apegam ao problema e àqueles que se apegam a solução. Os primeiros estão cheios de medo, odio e violência. Medo de perderem o poder, os valores do passado, que já não condizem com o mundo em que vivemos, com o sec. XXI. Enraizados em seus dogmas passados, desenvolvem um processo de desumanização do outro, definindo-os como traidores, ratos. Os segundos, estão cheios de amor e esperança, acreditando em um mundo melhor, no qual se pode perdoar, reconciliar e viver juntos.

O ato de ontem representa bem a sociedade israelense. Uma minoria de extremista, cheia de medo, odio e violência que por usarem “megafones”, sejam eles físicos ou virtuais, nos dá a impressão de que são a maioria. Mas, não. Não são a maioria. A maioria se cala, a maioria está confusa. A maioria não tem respostas, não tem caminho. Estão vivenciando o “bezerro de ouro” moderno, o consumo de bens materiais, o consumo das Mídias, o consumo da religião. Estes se calam, não vem e não escutam. Ou melhor não querem ver, não querem escutar para poder calar-se.

E, finalmente, os participantes do Ato. Cheios de amor e esperança, crescendo a cada dia. Me lembro que no primeiro ato havia algumas dezenas ou talvez centenas de participantes. Ano a ano fomos crescendo até tornarmos milhares, centenas de milhares a manifestar sua esperança à Paz, à reconciliação. Vemos isto também nas manifestações, que se iniciaram como protesto a futura possível ditadura, a favor da democracia judaica, da antiga ordem. Mas, assim como no Ato Alternativo, o número de pessoas e cartazes com os dizeres de “Não existe democracia com o domínio a Palestina”, “Fim do domínio, inicio da democracia” e outros foram crescendo de semana a semana, durante os últimos quatro meses.

Yuval Harari em seu livro Sapiens, escreve que uma narrativa passa a ser valida quando uma massa critica de pessoas passa a aceitá-la. Neste Yom Hatzmaut quero ser e ter esperança de que estamos caminhando para uma massa critica e que finalmente o povo de Israel entenda, através deste governo de extrema-direita e de sionistas messiânicos, de que a liberdade do povo judeu somente será quando o povo palestino tiver sua própria liberdade.

Que no ano que vem Jerusalém, em vez de ser repartida, seja compartida entre judeus e palestinos.

Chag Sameach!!!