A sombra

Em 336 antes da era comum, muitos políticos e sábios foram cumprimentar Alexandre em Corinto, onde o jovem rei da Macedônia acabava de chegar, e um homem de Sinope chamado Diógenes preferiu continuar deitado ao sol no subúrbio de Craneion. O rei foi até ele, perguntou se precisava de alguma coisa e ouviu o pedido de que saísse um pouco da frente do sol. Na volta, enquanto os companheiros riam, disse-lhes que, se não fosse Alexandre, seria Diógenes, e continuou a ser Alexandre pelos treze anos seguintes, o bastante para levar o seu exército até a Índia.

Segundo a tradição, Platão chamava Diógenes de Sócrates enlouquecido, e os relatos que sobreviveram descrevem um homem que dormia num jarro de barro e que, perguntado de onde vinha, respondia que era cidadão do mundo, isto é, de lugar nenhum. A felicidade dele cabia num jarro e dispensava qualquer cidade, o homem mais poderoso do seu tempo não tinha nada para lhe dar além de sair da frente do sol, e os dois morreram em 323, no mesmo dia, segundo Plutarco, um na Babilônia e o outro em Corinto.

Em 19 de março deste ano, um centro da Universidade de Oxford, o instituto Gallup e uma rede ligada à ONU publicaram a classificação mundial da felicidade, que nos colocou em oitavo lugar entre 147 países pelo segundo ano seguido e pôs os nossos jovens com menos de 25 anos, a maioria de farda ou na reserva, em terceiro na sua faixa de idade. O levantamento cobre justamente 2023, 2024 e 2025, os três anos da guerra, e uma especialista ouvida pelo Ynet admitiu que o resultado pode parecer absurdo e explicou por que faz sentido, o que não me impede de confessar que um povo feliz debaixo de mísseis tem a aparência de um Sócrates enlouquecido.

Na Universidade Bar-Ilan, a pesquisadora Anat Fanti atribuiu o nosso oitavo lugar a laços de família, comunidade, fé e sentimento de pertencimento, e o Escritório Central de Estatísticas confirmou o fenômeno ao encontrar, nos seus dados até 2024, 91,1% de israelenses de 20 anos ou mais satisfeitos com a vida. A nossa felicidade não cabe num jarro, porque é feita da vida em comum que a outra dispensava, e por isso depende da saúde do país.

O avesso dessa felicidade aparece na mesma classificação, que nos põe em 39º lugar entre os povos que mais sentem preocupação, tristeza e raiva, depois do 119º que ocupávamos antes do 7 de outubro. No fim de agosto, às vésperas do ano novo judaico, o Instituto de Democracia de Israel registrou que 59% dos entrevistados consideram bom o próprio humor e 61%, ruim o humor do país, que só 19,5% dos judeus e 16% dos árabes se dizem otimistas quanto à coesão social, o nível mais baixo do ano, e que 81% dos judeus gostam das refeições de família nos feriados. Eu vejo nesses números uma felicidade que se sustenta à mesa de família enquanto o país de que ela depende perde a confiança em si mesmo.

O Instituto também separou por campo político o humor pessoal dos judeus, e o resultado me deixa numa posição desconfortável, porque 30,5% dos que se dizem de direita descreveram o próprio humor como ruim, contra 52% no centro e 63% na esquerda. Eu sou de esquerda, e se a felicidade servisse de atestado de sanidade o meu campo seria o manicômio do país, enquanto a direita assinaria as internações de jaleco branco e bom humor.

O eleitor de direita dirá que a tristeza da esquerda é despeito de quem perdeu o poder em 2022, e acrescentará que, segundo o Instituto de Política do Povo Judeu, 76% dos judeus do seu campo acreditam que Israel vive uma fase de melhora que vai se aprofundar. Se ele me acompanhou até aqui, eu lhe mostro a pesquisa de agosto, que encontrou na esquerda, no centro e na direita uma maioria que considera ruim o humor do país, e em que pouco mais da metade dos seus correligionários vê grande probabilidade de que parte dos derrotados em 27 de outubro recuse o resultado e reaja com força, um temor que alcança 56% dos israelenses.

O mesmo eleitor pode objetar, por fim, que nenhum governo fabrica felicidade e que o oitavo lugar prova que este não a destruiu, e eu concordo com a primeira metade da frase, porque o poder não tem nada para nos dar, e discordo da segunda, porque o levantamento de março nos põe em 107º na percepção de corrupção, um número que desenha a sombra que o Estado projeta sobre nós.

Em 27 de outubro vamos às urnas felizes em casa e desconfiados da vida pública, e o meu voto vai pedir ao próximo governo apenas que saia da frente do sol e deixe de fazer sombra sobre o país de que a nossa felicidade depende.

Gammadion

Na semana passada, caminhei pelas ruínas de Citópolis, a cidade romana de Beit Shean, com um primo querido que veio da Argentina me ver depois de trinta anos, e encontrei uma cruz de braços dobrados assentada no piso de uma cidade cujas colunas o terremoto do ano setecentos e quarenta e nove derrubou e deixou deitadas onde caíram. Três décadas de ausência encolheram diante de uma figura que jaz ali há mais de doze séculos, posta por um artesão que não podia imaginar o dia em que ela seria bordada nas braçadeiras de quem quis nos exterminar.

Os oleiros de Atenas já a pintavam nas faixas dos seus vasos no século oitavo antes de Cristo, e os gregos a chamaram de gammadion porque cada braço repete a letra gama, de onde vem, em português, o nome cruz gamada. Os romanos a encadearam nas bordas dos pisos, os judeus desta terra a desenharam nos mosaicos das sinagogas de Beit Alfa e de Ein Gedi, e na Índia ela ainda se chama svastika, palavra sânscrita para bem-estar. Em toda parte ela queria dizer mais ou menos o mesmo, o sol que volta, a sorte, e a roda das estações, e assim atravessou quase três mil anos, até que um partido de Munique que ainda cabia no salão de uma cervejaria a pôs no centro da sua bandeira, em mil novecentos e vinte. Vinte e cinco anos depois, o desenho continuava igual ao dos oleiros, apenas girado sobre uma das pontas, e fora da Ásia ninguém mais conseguia vê-lo como decoração, porque um símbolo carrega para sempre aquilo que se fez à sombra dele.

A figura do piso de Citópolis voltou à minha lembrança na quinta-feira, vinte e quatro de setembro, quando Benjamin Netanyahu subiu à tribuna da Assembleia Geral enquanto dezenas de delegações saíam, entre elas a do país onde nasci, e convidou com um sorriso os covardes morais que restassem no salão a fazer o mesmo. Eu já esperava alguma performance, porque ele raramente atravessa o Atlântico em setembro sem apresentar algo no palco, e o repertório inclui as plantas de Auschwitz em dois mil e nove, a bomba de desenho animado cortada por uma linha vermelha em dois mil e doze, e o código QR na lapela no ano passado. Desta vez ele tirou um pager do bolso e deixou uma antena Starlink com o presidente da Assembleia para a delegação iraniana, que não estava no salão para recebê-la.

Não queria dizer isto, mas, na minha opinião, sempre que se posiciona ou abre a boca, Netanyahu se parece cada vez mais com Labão, entre todos os personagens da Bíblia. Ephraim Ganor escreveu no Maariv, antes do discurso, que o primeiro-ministro usaria o microfone das Nações Unidas para falar aos próprios eleitores a um mês das nossas eleições.

Não trago a cruz gamada para pendurá-la no pescoço de ninguém, e sei com que facilidade o mundo vira essa comparação contra nós. Trago-a porque Netanyahu conhece tão bem o peso de um símbolo que nesta semana comparou aos nazistas os sequestradores de Entebbe, e porque o discurso de quinta-feira tinha o seu próprio refrão, uma frase que ele fora buscar num laranjal.

O trecho mais bem escrito do discurso se passa nos pomares em volta de Ramla, em junho de mil novecentos e sessenta e sete, quando um rapaz de dezessete anos que terminava o ensino médio nos arredores da Filadélfia voou para casa cinco dias antes da guerra, encontrou o país às escuras, e saiu à procura do irmão entre os paraquedistas acampados nos laranjais. Achou-o no fim de uma fileira de árvores, um oficial de vinte e um anos espantado com a visita, e os dois dividiram um café de campanha até que o mais novo perguntou o que ia acontecer e ouviu de Yoni, depois de uma pausa, que iam vencer porque não tinham outra escolha. Nove anos depois, em Entebbe, Yoni comandou o grupo que invadiu o terminal e foi o único soldado morto na operação. Acredito em cada palavra do relato e reconheço a quem perdeu um irmão desse modo o direito de repetir pelo resto da vida a frase que guardou daquele dia.

O primeiro-ministro exerceu esse direito pelo menos seis vezes num único discurso, do relato de sessenta e sete à última linha, depois de Mark Twain e do versículo sobre a eternidade de Israel, incluído o juramento a um reservista ferido nesta semana. Ao fim, a frase já não descrevia guerra nenhuma em particular e servia de moldura para todas, e molduras assim só comportam histórias que terminam bem. Na versão contada em Nova York, os cento e três reféns de Entebbe voltaram todos para casa, enquanto os registros da operação contam cento e dois resgatados, três mortos no tiroteio do terminal, e uma senhora de setenta e quatro anos, Dora Bloch, levada a um hospital de Kampala e assassinada depois por ordem de Idi Amin.

Os defensores do primeiro-ministro dirão que o que ele descreve é absolutamente verdadeiro, e têm a seu favor um país atacado nos últimos três anos pelo Hamas, pelo Hezbollah, pelos houthis, por milícias no Iraque e na Síria, e pelo próprio Irã, cujos mil mísseis balísticos foram disparados, segundo Netanyahu, contra um território do tamanho de Nova Jersey ou de Sergipe, o menor estado do Brasil. Quem já fez de madrugada o caminho até o abrigo sabe que ali ninguém escolhe nada, porque a sirene não oferece alternativa, e o sete de outubro ensinou a todos nós quanto custa acreditar que o Hamas não fizesse o que sempre disse que queria fazer. Não conheço israelense que ouça a frase de Yoni com indiferença, e não me conformo em vê-la transformada em pedido de voto justamente porque ela ainda nos alcança.

O homem que fundou o partido de Netanyahu recusou essa moldura diante de oficiais do exército em oito de agosto de mil novecentos e oitenta e dois, dois meses depois de mandá-lo ao Líbano. Menachem Begin foi ao Colégio de Defesa Nacional explicar a diferença entre guerras sem escolha e guerras escolhidas e disse que em junho de sessenta e sete também tínhamos tido escolha, que as concentrações de tropas egípcias no Sinai não provavam que Nasser estivesse prestes a atacar, e que era preciso ser honesto conosco mesmos, porque nós tínhamos decidido atacá-lo. Ele considerava aquela guerra legítima defesa no sentido mais nobre e falava para justificar a sua própria, que acabaria por consumi-lo, mas pôs a palavra escolha sobre a mesa com o próprio nome ao lado. Um ano depois, viúvo e com os mortos do Líbano mais pesados do que conseguia carregar, disse aos ministros que não podia continuar e passou os quase nove anos que lhe restavam praticamente sem sair de casa.

A diferença entre Begin e Netanyahu cabe inteira na palavra escolha, porque quem diz que escolheu fica com o peso nos próprios ombros, e quem repete que nunca teve escolha o reparte entre nós, o inimigo, e a história, e sai de mãos livres para não depor diante de comissão alguma. Mesmo quando a guerra não pode ser evitada, a frase de Yoni resolve apenas se é preciso lutar e nada diz sobre como, e quem governa decide esse como todos os dias e, com ele, quem morre e quantos morrem.

Netanyahu exibiu o pager em Nova York como suvenir, com a piada de que o Hezbollah certamente se lembrava daquilo, e o aparelho era parecido com o que tocou em dezessete de setembro de dois mil e vinte e quatro sobre a mesa de uma cozinha em Saraain, no Vale do Bekaa. Fatima Abdullah acabava de voltar do primeiro dia de aula do quarto ano, pegou-o para levá-lo ao pai e ainda o segurava no momento da explosão. O ataque daquele dia matou doze pessoas e feriu perto de duas mil e oitocentas, a maioria no rosto, nas mãos, e no abdômen, e boa parte das vítimas era de terroristas do Hezbollah, mas duas crianças estavam entre os mortos.

Em Gaza o Ministério da Saúde registra quase setenta e quatro mil mortos, número que o nosso governo contesta e que um levantamento independente publicado na revista Lancet considerou abaixo da realidade nos primeiros quinze meses da guerra. Muitos eram terroristas do Hamas, mas não setenta e quatro mil, e o nosso próprio exército falava no ano passado em pouco mais de vinte e dois mil. Do nosso lado a conta começa numa manhã de sábado, com mil e duzentos mortos num país que ele já governava, e ficará em aberto enquanto o governo dele recusar, três anos depois, a comissão estatal de inquérito que mais de setenta por cento de nós pedimos nas pesquisas. Netanyahu nunca assumiu coisa alguma, e quando lhe cobraram o sete de outubro, no começo deste ano, lembrou que o ex-chefe do Shin Bet, o ex-chefe do Estado-Maior, e o ex-chefe da inteligência militar não tinham comparecido à Controladoria do Estado, e ele sim. Esqueceu-se de acrescentar que os três tinham assumido a parte que lhes cabia e deixado os seus postos, enquanto ele continua no dele. Nenhuma dessas mortes cabe numa frase dita às vésperas de outra guerra, e todas passaram, uma por uma, por decisões tomadas por gente que tinha escolha, o próprio Netanyahu inclusive.

Não arrisco um palpite sobre o que o país vai decidir no dia vinte e sete de outubro, mas sei o que gostaria de ouvir de quem vier pedir o meu voto, uma frase tão honesta quanto a de Begin em oitenta e dois. Netanyahu nos pediu que erguêssemos a cabeça, e eu peço a cada israelense que a erga diante da urna nesse dia, porque desta vez nenhum de nós poderá dizer que não teve escolha. A frase de Yoni pertence ao oficial que de fato não tinha escolha debaixo de uma laranjeira perto de Ramla, porque quem está no pomar recebe a guerra já decidida por outros, e por isso mesmo ela não serve a um primeiro-ministro, cujo ofício inteiro é decidir. O artesão de Citópolis não tinha como escolher o que o mundo faria com o gammadion que assentou naquele piso, e Netanyahu repetiu por escolha própria a história do irmão até fazer dela um símbolo, e, como já sabemos, um símbolo carrega para sempre aquilo que se fez à sombra dele.

Der jüdische Selbsthass (O ódio judaico de si mesmo)

Na noite de trinta de agosto de mil novecentos e trinta e três, três alemães dos Sudetos simpatizantes do nazismo dispararam pela janela do escritório do andar de cima onde Theodor Lessing trabalhava, na Villa Edelweiss, a casa em Marienbad em que ele havia se refugiado, e Lessing, que fugira da Alemanha em março e participara naquele verão do Congresso Sionista de Praga, morreu no dia seguinte, aos sessenta e um anos, com a fama de ter sido um dos homens mais odiados da Alemanha de Weimar. Três anos antes, ele havia publicado Der jüdische Selbsthass, o livro que deu forma moderna à ideia do ódio judaico de si mesmo e examinou os casos de seis judeus infelizes, entre eles Otto Weininger e Arthur Trebitsch, os dois que passaram a enxergar no judaísmo a origem do mal do mundo e a alimentar, com a autoridade de quem falava de dentro, o antissemitismo dirigido ao próprio povo. Foi esse livro que pôs em circulação o rótulo do judeu que odeia a si mesmo, ao qual recorremos com uma frequência que deveria nos preocupar sempre que um judeu da Diáspora critica Israel.

O rótulo atravessou quase um século e chegou intacto, e pronto para o uso, em outubro do ano passado, quando o Washington Post publicou uma pesquisa, feita entre dois e nove de setembro com oitocentos e quinze judeus americanos, na qual sessenta e um em cada cem disseram que Israel havia cometido crimes de guerra em Gaza e trinta e nove disseram que havia cometido genocídio, proporção que subia para a metade entre os que tinham de dezoito a trinta e quatro anos. Uma das entrevistadas, Julia Seidman, moradora de Washington de quarenta e dois anos, disse ao jornal que no início Israel não tivera escolha, já que nenhum país poderia aceitar uma ameaça daquele tamanho, e que dois anos depois nada podia justificar o sofrimento a que ela vinha assistindo e que a deixava enojada.

Antes de decidir o que fazer com Julia Seidman, o leitor talvez queira saber que, no mesmo questionário, noventa e quatro em cada cem disseram que o Hamas havia cometido crimes de guerra contra israelenses, setenta e seis disseram que a existência de Israel era vital para o futuro do povo judeu e cinquenta e oito disseram sentir algum vínculo cultural ou emocional com os israelenses, o que significa, como confirma um minuto de lápis na mão, que pelo menos quinze em cada cem entrevistados acusaram Israel de genocídio e o declararam indispensável na mesma conversa. Preferiríamos que esses quinze fossem mais fáceis de classificar, porque o rótulo de Lessing, o do judeu que odeia a si mesmo, nos ocorre antes de terminarmos de ler a reportagem, e porque tem a enorme vantagem de dispensar quem o usa de ouvir o resto da frase do outro.

Não adianta fingir que nunca o usamos, ou que sempre o usamos com justiça, e quando tentei entender por que ele nos vem tão depressa, encontrei o contorno de um sistema que montamos peça por peça, um sistema em que o estrangeiro que critica Israel é antissemita, o judeu da Diáspora que critica Israel odeia a si mesmo e o israelense que critica Israel é traidor, de modo que todo mensageiro chega desqualificado pela categoria antes de dizer uma palavra e nós ficamos dispensados de ouvir qualquer um deles. Enquanto os acusadores eram quase todos gente de fora, o sistema funcionava como defesa, mas quando o acusador é um judeu que chama Israel de indispensável, ou uma mulher que começa concedendo que Israel não teve escolha e termina nauseada pelo sofrimento em Gaza, a desqualificação deixa de proteger quem quer que seja e passa a amputar um pedaço da família de que dependemos, e é diante deles, muito mais do que diante das manchetes hostis que chegam de tantas capitais, que começo a entender que há algo errado na nossa relação com o mundo, porque um sistema incapaz de distinguir Julia Seidman de Otto Weininger já não consegue distinguir ninguém.

Seria desonesto não reconhecer que o sistema nasceu de uma experiência real e que Weininger e Trebitsch ainda têm sucessores, judeus que marcham ao lado de gente que chamou o sete de outubro de ato de resistência e que negam aos judeus o direito de se considerarem um povo, assim como seria ingênuo ignorar que muito do que se diz sobre Israel no mundo vem, desconfio, de pessoas que não se interessariam por Gaza se os soldados não fossem judeus. O leitor que passou os últimos anos descendo ao abrigo no meio da noite tem direito a essa desconfiança, que também é minha, e nenhuma pessoa sensata nos pediria, depois da perda de cerca de mil e duzentas pessoas num único dia, que recebêssemos cada acusação como conselho de amigo. Mesmo esses sucessores, porém, quando se multiplicam, como se multiplicaram nos Estados Unidos desde o início da guerra os grupos de oração que se dizem antissionistas, dizem algo sobre nós, e não apenas sobre si mesmos.

O problema é que o rótulo foi cortado para caber em Weininger e Trebitsch e cai muito mal numa mulher que concede a Israel, antes de qualquer crítica, que não teve escolha, e mesmo nas mãos do próprio Lessing a expressão nunca foi arma, porque ele tratava esse ódio como um fenômeno histórico e psicológico da vida judaica como minoria na Diáspora, uma ferida antes de ser uma culpa, com a compaixão que todo diagnóstico sério pressupõe. Aplicado a trinta e nove em cada cem judeus americanos e à metade dos seus jovens, o rótulo acaba descrevendo uma população inteira em vez de uma patologia, e quando metade dos jovens de uma comunidade recebe o mesmo diagnóstico, o médico sensato começa a desconfiar do próprio instrumento.

Lessing talvez tivesse apreciado, se lhe tivessem dado tempo, mais uma ironia, a de que o homem que deu nome ao judeu que odeia a si mesmo passou os últimos anos de vida sendo tratado pelos patriotas alemães como o alemão que odiava a Alemanha, desde que publicou, em mil novecentos e vinte e cinco, um artigo contra Hindenburg, o marechal de campo que o país venerava como um santo e que, anos antes, tinha sido paciente de seu pai, que era médico, um texto que levou estudantes nacionalistas a cercar suas aulas em Hanôver até que, no ano seguinte, o ministério o afastou delas. Lessing sabia, portanto, por experiência própria, o que acontece quando uma nação ferida conclui que o crítico de dentro é mais perigoso do que o inimigo de fora, e não traço nenhuma comparação com a Alemanha daquela época quando digo que a lição vale para qualquer povo que se sinta sitiado.

O leitor perguntará o que se ganha ouvindo judeus que usam, para descrever a guerra, uma palavra que ele considera uma calúnia, e a resposta mais honesta que tenho é que ouvi-los não nos obriga a adotar o vocabulário deles, boa parte do qual não assinaríamos, mas nos obriga a admitir que muitos deles disseram duas coisas, como Julia Seidman disse duas, e que nós quisemos ouvir apenas uma. Um país que só consegue ouvir a metade hostil das frases de seus amigos acaba, com os anos, cercado apenas de inimigos, que ao menos têm a virtude de dizer uma coisa só, e perde pelo caminho a única crítica que vinha de gente que queria vê-lo durar.

Lessing morreu sem ver os judeus se tornarem maioria em parte alguma do mundo, e provavelmente estranharia que, tendo enfim um país, tivéssemos passado a usar o rótulo que seu livro pôs em circulação contra aqueles que se afligem com o que esse país faz.

Publico este texto um dia depois do Yom Kipur, que, segundo a tradição, expia nossas transgressões contra o céu, mas não as que cometemos contra o próximo enquanto não tivermos pedido perdão às próprias pessoas que ofendemos, e me parece que a tarefa não termina com o toque do shofar no encerramento do jejum.

A acusação de chegar a tempo

Em junho de 2018, a tripulação de um voo da El Al que levava o casal Netanyahu à Europa recebeu uma folha de instruções. Havia uma que se destacava. Em nenhuma circunstância dirija a palavra ao primeiro-ministro. Toda pergunta deve passar pela esposa dele, sentada a poucos centímetros. Se a comissária quisesse saber se ele preferia frango ou carne, chá ou café, a pergunta ia para Sara.

No estúdio do Canal 14, na noite de segunda-feira, perguntaram a Sara Netanyahu se houve traição interna em 7 de outubro. Um não simples bastaria. Ela disse que não queria falar sobre isso. Disse que não sabia. Disse que não fazia parte de teoria nenhuma. E, para que ninguém ficasse em dúvida sobre de qual teoria ela não faz parte, tinha explicado momentos antes que Yair Golan estava vestido e pronto numa hora em que ninguém sabia de nada, o marido dela inclusive. Depois riu e perguntou quem é o primeiro-ministro para precisar ser avisado de que uma guerra estourou.

Ninguém no estúdio fez a pergunta seguinte. Não existe pergunta seguinte naquele canal. O que existe é conivência, e ela é imoral.

E não joguemos tudo isso na conta do estúdio. Um canal que desce a esse ponto diz alguma coisa sobre quem o faz e diz outro tanto sobre quem o assiste. O cenário está iluminado para uma plateia. Alguém em casa ouviu uma mulher insinuar que um general sabia de antemão do massacre dos próprios compatriotas, e não desligou, e não sentiu vergonha, e foi dormir. Aquela plateia não está sendo enganada. Está sendo servida.

Convém lembrar quem faz a acusação. Em 2019, a mesma senhora fez um acordo com a promotoria por ter mandado o Estado pagar refeições encomendadas para a residência oficial. Pagou multa, devolveu o dinheiro, seguiu adiante. É presença constante no processo em que o marido responde por presentes de empresários, charutos e champanhe entregues em quantidade suficiente para virar peça de acusação. Empregados da casa passaram anos levando-a à Justiça.

Foi essa mulher que decidiu auditar o horário de chegada de um general no dia do massacre.

Ela não tem posto. Não foi eleita. Não responde a ninguém. E é a ela que as perguntas vão antes de chegar ao primeiro-ministro. É assim que o poder está arranjado neste país, e está arranjado assim há anos, à vista de todos.

Agora o outro lado, e aqui não vou fingir equilíbrio.

Yair Golan nasceu em maio de 1962. A família do pai dele saiu da Alemanha em 1935, o que significa que alguém naquela casa entendeu a hora certa de ir embora. Foi paraquedista, comandou a Brigada Nahal, comandou o Comando Norte, chegou a segundo homem do Estado-Maior sob Gadi Eisenkot. Em 2016, no dia da memória do Holocausto, subiu num palco e disse que enxergava neste país processos que lembravam a Europa dos anos trinta. Não era candidato a nada. Era o número dois do exército, e falou assim mesmo. Aquilo custou a ele o topo da carreira militar, e ele sabia que custaria enquanto falava.

Em 7 de outubro de 2023 tinha sessenta e um anos. Ninguém o convocou. Desceu para o sul, pegou uma arma numa base do exército, entrou em áreas onde ainda havia terroristas e passou o dia trazendo gente de volta do festival. Voltou mais de uma vez. Homens de sessenta e um anos não fazem isso. Ele fez.

Admiro isso sem nenhuma reserva. Ele passou aquele dia tirando pessoas de carne e osso do campo aberto, uma de cada vez, enquanto outros acertavam a narrativa. Carrego no bolso um cartão que autoriza a doação dos meus órgãos, e a única coisa que ele declara é que a vida acontecendo agora, dentro de gente determinada, não pode ser adiada em nome de nada. Naquela manhã houve um homem em Israel agindo como se isso fosse verdade. Não foi o que estava dormindo.

Em maio passado, Golan disse que este país estava matando bebês por passatempo. O escândalo durou semanas. Concordo com ele. Concordo com cada palavra que disse então e com cada palavra que disse em 2016, e não vou suavizar nada aqui para ficar mais apresentável.

Hannah Arendt escreveu que o sujeito ideal do domínio totalitário é aquele que já não consegue distinguir fato de ficção. Anos depois, ao descrever o que viu no julgamento em Jerusalém, foi chamada de traidora pelos seus e perdeu amizades de trinta anos. Foi condenada por dizer em voz alta uma coisa verdadeira e insuportável sobre a própria gente. É o que este país faz com Golan.

Devo a você a parte que ainda me incomoda. Golan foi formalmente repreendido em 2007, comandando a Divisão da Judeia e Samaria, por autorizar o procedimento que mandava civis palestinos convencerem procurados a se entregar. Não esqueci isso e não vou fingir que esqueci.

Os Democratas aparecem com cerca de dez cadeiras. Dez cadeiras não formam governo em lugar nenhum do mundo, e voto neles assim mesmo. Um país que transforma a pontualidade de um homem em prova contra ele perdeu a capacidade de reconhecer coragem quando ela passa bem na sua frente. Recuso-me a ser contado entre os que aprenderam a achar isso normal.

Sara Netanyahu encerrou a entrevista pedindo uma comissão de inquérito de verdade. Concordo com ela pela primeira e provavelmente última vez na vida. Que se faça. Que comece pela pergunta que ninguém naquele estúdio teve a coragem de fazer, sobre quem estava acordado naquela casa às seis e meia da manhã e o que essa pessoa fez em seguida.

E quando a comissão for instalada, sugiro que adote o protocolo da El Al. Não perguntem nada a ele. Perguntem tudo a ela.

Cara ou Coroa

Ocorreu-me outro dia que a frase mais desagradável já publicada sobre privilégio está no título de um artigo científico, e que a demonstração dela custou aos autores um Banco Imobiliário usado, uma moeda e um saco de pretzels.

O artigo é de 2012 e se chama Higher social class predicts increased unethical behavior, o que dispensa comentário. O laboratório era em Berkeley, o desenho era de Paul Piff e Dacher Keltner, e tinha aquela simplicidade que costuma preceder as descobertas irritantes. Dois voluntários que não se conheciam sentaram frente a frente. Jogou-se uma moeda para o alto, à vista dos dois, e o vencedor do cara ou coroa recebeu o dobro do dinheiro inicial, dois dados em vez de um e o dobro cada vez que completasse a volta. Nada foi sussurrado. O pesquisador anunciou as regras em voz alta e saiu da sala. No meio da mesa ficou uma tigela de pretzels, servida para os dois.

Quinze minutos bastaram. Os favorecidos passaram a bater a peça no tabuleiro casa por casa, subiram o volume da voz, comeram mais pretzels e, ao final, explicaram a vitória pela maneira como haviam avaliado o risco de cada compra. Do relato desapareceram o dado extra, o dinheiro dobrado, o salário em dobro a cada volta e a moeda que distribuiu tudo aquilo. Foi cortado da história como o parente que não entra no álbum de família. Ninguém mentiu. Eles acreditavam, e acreditavam porque a alternativa era admitir que estavam esmagando alguém que nunca teve como reagir, o que nenhum de nós admite antes do almoço.

Em outras palavras, mérito.

Dois rapazes de dezesseis anos moram a quatro quilômetros um do outro, na mesma colina, e são presos na mesma semana por atirar pedras na mesma estrada. Os dois vão a tribunal de menores, e é aí que a semelhança termina. Um responde diante do tribunal de menores militar, pode passar dias antes de ver um juiz, é interrogado em hebraico sem advogado e sem os pais, e suas audiências de prisão preventiva, que são o essencial do processo, correm no tribunal militar comum, porque a jurisdição do tribunal de menores não alcança justamente essa parte. O outro responde diante do tribunal de menores civil, com prazos curtos, oficial de condicional e a mãe sentada na terceira fileira.

Os números da própria polícia israelense, no período em que ela ainda os divulgava por completo, mostram como termina cada trajeto. Mil cento e quarenta e dois menores palestinos presos por atirar pedras, cinquenta e três menores israelenses pelo mesmo ato. Quarenta e seis por cento dos palestinos indiciados, contra onze por cento dos israelenses. Entre os palestinos indiciados, cem por cento condenados. Entre os israelenses, quatro considerados culpados sem que a condenação fosse registrada, um absolvido, e um último cujo desfecho ninguém sabe informar. Ao final de dezembro havia trezentos e cinquenta e um menores palestinos sob custódia israelense por motivos que o Estado classifica como de segurança.

Ninguém que hoje discute o assunto jogou a moeda. Nossos avós chegaram fugindo de gente empenhada em matá-los, e chegar foi, para quase toda família que conheço, a diferença entre existir e não existir. É um argumento forte.

Votei contra em quase todas as eleições desde que cheguei, o que mostra que não sou a melhor referência, mas mesmo assim vou ousar. Também eu abro a torneira e sai água, também a minha placa passa nas duas estradas, e o meu voto acrescenta a isso apenas a sensação agradável de que o vencedor é outro. Ninguém em Berkeley pediu o segundo dado. O vencedor o encontrou na mão e jogou, e no fim explicou o resultado por si mesmo, e é aqui que peço um acordo entre nós. Você pode ser uma boa pessoa. Eu acredito que seja, do mesmo modo que acredito nos rapazes daquele laboratório. Mas enquanto cinco milhões de pessoas do outro lado  jogarem com um dado só para que o nosso lado siga ganhando, não venha me falar em mérito.

Oitenta e Quatro por Cento

Somos, com alguma folga, o país mais filmado do mundo, uma nação de câmeras em esquinas, drones sobre telhados e celulares apontados para tudo o que se move, inclusive para muita coisa que faria melhor em não se mover, e é por isso que causa admiração o porta-voz do nosso exército ter respondido, quando lhe perguntaram o que houve no posto de Awarta na manhã de 27 de julho, que a alegação de que soldados retiveram uma ambulância é falsa e que nenhuma denúncia a respeito havia chegado. As duas metades se anulam com perfeita compostura, já que quem não foi informado de nada não tem como julgar a falsidade de coisa alguma. A única câmera que importou naquela manhã estava na mão de um motorista palestino, o que talvez explique a demora do correio.

Nenhuma lei nossa proíbe palestinos de rodar pela estrada sessenta, o que seria escandaloso, e proibir é feio. Proíbe-se apenas que cheguem até ela, o que é discreto, sai mais barato e funciona melhor. A ONU contou novecentos e vinte e cinco obstáculos à circulação na Cisjordânia, dos quais cento e vinte e um existem com a única finalidade de fechar os acessos das vilas àquela estrada, aos quais somamos cento e vinte portões novos apenas em 2025, um a cada três dias, produtividade que nenhuma outra repartição nossa alcançou em qualquer área. Motoristas contam que esses portões costumam ficar trancados entre seis e nove da manhã, para que os filhos dos colonos cheguem à escola na hora.

A ambulância de Bashar al-Qaryuti saiu de Qaryut às seis e meia levando uma mulher de vinte e oito anos, grávida de seis meses, entrando e saindo da consciência, com uma hemorragia que Sabreen Atallah, enfermeira nessas estradas desde 2014, diz nunca ter visto igual. Ele achou trancada a única saída da vila, tentou o caminho de terra entre os olivais e achou trancado o segundo, contornou e chegou a Awarta, onde o portão fechado, é preciso reconhecer, era rigorosamente o mesmo para o carro que ia ao mercado e para o que levava uma hemorragia, imparcialidade que muito nos honra.

Dois soldados mandaram desligar o motor e, quando al-Qaryuti explicou, no hebraico rudimentar que se aprende em anos de postos como aquele, que os aparelhos da paciente funcionavam com a energia do motor, ouviu que calasse a boca. As telas apagaram uma depois da outra, e o último número que Atallah leu antes disso foi oitenta e quatro por cento de saturação. Ela avisou em inglês que a paciente podia morrer, e as armas subiram na direção dela, o que no idioma local se chama restabelecer a ordem. Os documentos foram recolhidos e devolvidos meia hora depois. O bebê nasceu pouco antes do posto e morreu. A mãe chegou ao hospital com três unidades de sangue e uma cirurgia de urgência à frente, e sobreviveu. Ela contou a um jornal que estava escolhendo nomes.

Ninguém ordenou a morte daquela criança, e é aí que a dificuldade começa, porque a crueldade convicta ao menos tem autor, enquanto a distraída se dissolve em procedimento, sobrevive a qualquer investigação e nunca aparece na folha de serviço de ninguém. O rapaz de dezenove anos naquele portão, sem dormir, assustado, com uma semana atrás de si em que colonos armados mataram e ninguém os deteve, cumpria uma ordem que não escreveu. Quem a escreveu tem nome. Depois do ataque de colonos de 24 de julho, que deixou dois israelenses e quatro palestinos mortos, Binyamin Netanyahu determinou uma operação de larga escala, e Nablus, Ramallah e Hebron foram trancadas, de modo que o luto foi de todos e o castigo, como de costume, caiu sobre alguns. Chamamos o arranjo de defesa, uso inventivo de uma palavra bonita, já que ninguém explicou de que exatamente a hemorragia daquela mulher nos defendia.

Nossos bisavós conheciam portões por dentro, sabiam a hora em que abriam, o nome do homem que tinha a chave e o preço corrente do favor, e foi com essa competência amarga que escreveram, em maio de 1948, a promessa de igualdade de direitos a todos os habitantes sem distinção de religião, raça ou sexo. Não escreveram aquilo por bondade. Escreveram porque tinham acabado de ser o carro parado na fila. Setenta e oito anos depois, o que se pedia em Awarta era menos do que qualquer coisa que já nos foi negada. Pedia-se um motor ligado.

Um exército capaz de instalar um portão a cada três dias deveria conseguir abrir um em trinta minutos. Levou trinta e um. Nada neste relato é excepcional, e essa é toda a dificuldade. Tomamos a terra e nos recusamos a tomar os filhos que vinham com ela, e o arranjo funciona tão bem que o dia 27 de julho foi, para quase todos aqui, uma segunda-feira comum. Meus compatriotas podem continuar achando isso normal. Eu me recuso.