Minha Israel já não existe mais.

Há muito tempo, no final do século passado, lembro-me de uma fotografia de Theodor Herzl pendurada nas escadarias do Colégio Israelita Brasileiro, em Porto Alegre, Brasil, que sempre me impressionava. Era uma foto em que ele estava de pé no parapeito de um hotel na Basileia, em 1897, a barba escura, os olhos voltados para o horizonte que não existe na foto, mas existe nele, na postura de quem acredita que está vendo algo que os outros ainda não viram. Era um homem secular, formado nos cafés de Viena, que não sabia praticamente nada sobre judaísmo quando começou a escrever sobre um Estado judeu. O que ele queria era uma nação. O que imaginou foi um lugar onde os judeus pudessem, finalmente, ser parte do mundo mantendo-se como judeus.
Não conheço a Basileia. Mas conheci o antissemitismo no Brasil. Não o ódio expresso, mas a estranheza de quando havia Natal em todos os lados exceto na minha casa, ou na piada ácida sobre judeus mesquinhos, ou na própria língua portuguesa que tanto amo e que criou verbos e substantivos próprios onde o antissemitismo surge quase poético, como judiar, judiaria, judiação.
Nas praias de Israel, onde às vezes caminho no fim da tarde, Israel parece, por alguns minutos, exatamente o que deveria ser. Pessoas de todas as origens, seculares ou religiosas, crianças correndo na areia, a língua hebraica misturada ao árabe, ao russo e a mais de uma dezena de línguas. Não é exagero. Nas edições mais recentes, o Ethnologue — uma organização de referência que atua como um inventário enciclopédico global das línguas vivas — cataloga formalmente entre 34 e 37 línguas vivas em uso corrente dentro do território de Israel. Nesses momentos, o país que escolhi ainda existe. O problema é que ele sobrevive apenas nesses interstícios entre o que é e o que foi prometido.
Vim para cá por escolha, aprendi desde cedo que países podem ser amados e odiados ao mesmo tempo. Quando cheguei a Israel, uma das primeiras coisas que fiz foi tirar um cartão de doação de órgãos. Foi um gesto deliberado, político, uma forma de dizer que eu havia apostado neste lugar com o que tinha de mais essencial, meu corpo. Não me arrependo do gesto.
O sionismo nasceu secular. Isso não é minha opinião progressista; é uma questão histórica. Os rabinos da época, em grande parte, se opuseram a Herzl. O Rabino-Chefe de Jerusalém na época, Yosef Chaim Sonnenfeld, líder do movimento ortodoxo, expressou essa oposição de forma categórica. Em uma carta de junho de 1898 enviada ao seu mentor, ele escreveu sobre *”os homens maus e malandros que aderiram a esta seita”*, chegando a afirmar que *”o inferno entrou na Terra de Israel com Herzl”*. Os haredim atuais são, nesse sentido, os herdeiros de uma longa tradição de rejeição ao projeto fundador do Estado que dominam politicamente hoje. Há nisso uma ironia com a qual Kafka teria se deleitado.
O movimento que nasceu para integrar os judeus ao mundo se tornou o veículo pelo qual os extremistas de direita e os haredim, que se recusam a servir no exército israelense porque não reconhecem o Estado, mas aceitam nosso dinheiro, chegaram ao poder.
Em 2025, os haredim representam 14,3% da população israelense. Em 1948, eram talvez quarenta mil pessoas num país recém-formado. A taxa de natalidade desse grupo é alta o suficiente para que o Instituto Demográfico de Israel projete uma maioria haredi no sistema de ensino antes de meados do século. Hoje somam mais de um milhão e quatrocentos mil. Sessenta por cento têm menos de vinte anos. Enquanto isso, 82.800 israelenses deixaram o país em 2023, um aumento de 44% em relação ao ano anterior. Em 2025, pela primeira vez na história do Estado, Israel registrou mais emigrantes do que imigrantes de longo prazo. Os yordim, os que descem, são em sua maioria seculares, escolarizados e economicamente produtivos. Os que ficam, cada vez mais, estudam Torá com subsídios estatais e não pagam imposto de renda. É a demografia, e não a democracia, que está redesenhando o futuro do país.
O cientista político Dani Filc, professor da Universidade Ben-Gurion do Negev e especialista na evolução ideológica do país, descreveu o Likud como um partido gradualmente assimilado por forças extremistas, que adotou suas teses mais radicais não porque Netanyahu as defendesse, mas porque eram o preço da sobrevivência. A corrupção nem sempre é financeira. Às vezes é simplesmente moral.
Antes do 7 de outubro, havia manifestações semanais de dezenas de milhares de pessoas contra a reforma judicial. Tel Aviv parava. Por um momento, aquilo era uma sociedade civil que se recusava a ceder. Depois do ataque, esse movimento foi parcialmente suspenso pela guerra, e ela foi usada para aprofundar exatamente o que o movimento tentava impedir. As ideias que antes eram apresentadas como radicais — ocupar Gaza permanentemente, expulsar populações, anexar a Cisjordânia — tornaram-se agenda de governo com a velocidade que o estado de emergência sempre concede aos que estavam esperando por ele.
Não estou falando de Israel como quem olha de fora e julga de longe. Estou falando de dentro, no norte do país, onde os alertas de foguetes são parte do nosso calendário. Estou falando como alguém que escolheu esse lugar, mas que precisa ser honesto sobre o que estamos nos tornando, e não é bom.
O sionismo que me trouxe aqui era uma ideia de dignidade coletiva, não de supremacia religiosa. A promessa de que um povo disperso poderia construir algo comum, plural, vivo. Era, em alguma medida, a mesma ideia que qualquer democracia liberal carrega: a de que é possível viver com as diferenças, não contra elas.
Herzl escreveu, em 1896, que na futura nação judaica cada um poderia servir a Deus à sua maneira. Era uma declaração de liberdade, não de teocracia. Era a declaração de alguém formado em Voltaire, que sabia o custo de viver sob a tutela de uma verdade única. O Estado que ele imaginou era moderno porque precisava ser moderno. Era um Estado de judeus, não um Estado judaico. A distinção importa. É exatamente ela que está sendo desfeita, metodicamente.
Ainda tenho o cartão ADI na carteira. Não o tirei. Mas há dias em que olho para ele e me pergunto para qual Israel estou doando meus órgãos. Para o país da praia de fim de tarde, das línguas misturadas, dos estudantes de tecnologia e das mães que empurram carrinhos de bebê nos calçadões, ou para o país de Ben-Gvir e dos rabinos que afirmam que o aprendizado da Torá protege mais o Estado do que os soldados que morrem no front, enquanto seus próprios filhos não servem e nós pagamos a conta?
Essa pergunta não tem resposta fácil. Há uma diferença importante entre não ter resposta e não fazer a pergunta. O que me preocupa não é a incerteza. É o silêncio dos que deveriam estar fazendo essa pergunta e não a estão fazendo.
Herzl nunca viu o país que imaginou. Morreu em 1904, aos quarenta e quatro anos. A declaração de independência viria quarenta e quatro anos depois. Ele e os fundadores deste Estado eram parte do movimento secular que ergueu esta nação, que agora está sendo devorada pelas forças que sempre acreditaram que um Estado judeu só poderia ser um Estado de um Deus.
Estamos aqui, neste momento, vendo o que está sendo feito com o sonho sionista original. Essa é a única obrigação que um país impõe a quem o escolheu: não olhar para outro lado quando ele está se perdendo.

A Regra da Avó

Primeiro vêm os legumes, depois a sobremesa. A regra que se aprende na infância tem nome científico desde os anos sessenta, quando David Premack descobriu, em experimentos com ratos, macacos, e crianças, que o comportamento mais frequente pode ser usado para reforçar o menos frequente. Mas qualquer avó já sabia, e qualquer sociedade que tenha envelhecido o suficiente para ter aprendido com seus próprios erros aplica a mesma regra em escala maior, porque para chegar ao que se quer é preciso passar pelo que custa.
Israel está comendo a sobremesa primeiro, e preciso falar disso diretamente com meus concidadãos. A coalizão de extrema direita que governa o nosso país escolheu o que dá retorno imediato, a guerra que mobiliza, o medo que une, e o arranjo parlamentar que se mantém de pé enquanto os mísseis estão no ar. O que sustentaria o país a longo prazo fica do lado de fora da mesa onde a sobremesa está sendo servida, tratado como tarefa de outro governo, de outra geração, de outro país que ainda não nasceu. A solução política negociada, o reconhecimento da responsabilidade israelense em ciclos sucessivos de violência, a construção de uma cidadania compartilhada com os árabes deste país, e a aceitação de que nenhum povo desaparece quando se decide ignorá-lo, ficam todos esperando do lado de fora.
A nossa capacidade de mobilização não é o problema. Em dois mil e vinte e três, quando a coalizão tentou quebrar a Suprema Corte, centenas de milhares de nós saímos às ruas semana após semana, durante meses, sem cansar e sem ceder, até que a reforma judicial fosse adiada. Sei que esta sociedade sabe se levantar quando percebe uma ameaça concreta a algo que valoriza, porque me levantei com ela. O que falta não é energia, é alvo.
A energia que preservou a Suprema Corte precisa ser dirigida ao que vai preservar o país. O caminho seria uma coalizão eleitoral que una a oposição liberal e os partidos árabes israelenses numa plataforma única que reconheça publicamente que segurança militar sem horizonte político é dívida acumulando juros, e que cada operação militar sem solução diplomática aumenta o custo que será cobrado dos nossos filhos e netos. É a mesma regra da infância, só que aplicada a um país que insiste em adiar o jantar.
Os líderes que esta coalizão teria são generais e administradores. Nenhum deles carrega o peso fundador que Menachem Begin trouxe do Irgun e da assinatura da paz com o Egito, ou que Shimon Peres conquistou em décadas de construção institucional e num prêmio Nobel da Paz. Vieram do exército ou da gestão pública, e nenhum deles tem o peso histórico nem o carisma que esta hora exige. Mas estar com o governo atual é estar do lado errado da história, e líderes médios na direção certa fazem mais pelo futuro do que um líder hábil indo contra ele.
A geração anterior à minha já partiu sem ter visto o resultado da refeição que escolheu adiar, e a minha provavelmente partirá sem ver também. Mas a regra da avó vale para civilizações como vale para crianças, e a única diferença é que civilizações pagam mais caro pela sobremesa adiantada.
Concidadãos, se sabemos mobilizar quando algo nosso é ameaçado, e se sabemos que a falta de solução política é a maior ameaça que este país enfrenta, por que não mobilizamos contra ela com a mesma intensidade que mobilizamos contra a reforma judicial? A resposta não está em Tel Aviv nem em Jerusalém. Está em cada uma das nossas cozinhas, onde a sobremesa foi servida primeiro durante tanto tempo que o sabor dos legumes foi esquecido. A regra ainda funciona.​​​​​​​​​​​​​​​​

O Cálculo do Sangue

Na penumbra do salão da Assembleia Geral das Nações Unidas, onde o destino do mundo é frequentemente decidido por homens de terno que falam em nome de povos que nunca consultaram, o silêncio que se seguiu à votação de março não foi o de um impasse. Foi o de uma ruptura. Cento e vinte e três nações decidiram que o passado não está morto, e que, no que diz respeito ao tráfico transatlântico de escravos, ele sequer começou a ser enterrado. Sob o peso do direito internacional, o comércio de almas humanas foi elevado à condição de crime mais grave contra a humanidade, com todas as consequências jurídicas e financeiras que essa classificação implica.
A resolução, um texto denso que exala o cheiro de arquivos coloniais e de justiça que chegou tarde demais para os que mais precisavam dela, não se limitou ao memorialismo. Introduziu no léxico diplomático palavras que assustam tesouros nacionais com a eficiência de uma auditoria inesperada. Reparações. Restituição de bens saqueados. Imprescritibilidade do trauma. O Sul Global, liderado por Gana, articulou sua dor numa linguagem que as potências do Norte não podem simplesmente arquivar num museu e visitar nas tardes de domingo com os filhos, enquanto os netos dos escravizados que financiaram esses museus não têm dinheiro para o bilhete de entrada.
Sou judeu. Brasileiro/israelense. Vivo no norte de Israel, num país fundado precisamente porque o mundo decidiu, tarde demais e com sangue demais, que o sofrimento histórico de um povo tem consequências morais que não prescrevem. Conheço essa lógica melhor do que a maioria. É ela que justificou a criação do Estado de Israel, que fundamentou as reparações alemãs, que fez com que o mundo reconhecesse que o que foi feito aos judeus não podia ser esquecido porque era inconveniente lembrar. E foi com essa memória pesando nos ombros que assisti, com a vergonha específica de quem reconhece a contradição no próprio espelho, ao que aconteceu no painel de votação.
Os Estados Unidos, Israel e Argentina formaram uma tríade de dissidência que ficou ilhada num plenário onde cento e vinte e três países votaram sim e os antigos impérios, Londres, Paris, Lisboa, Bruxelas, Amsterdã, escolheram o refúgio seguro da abstenção. Israel votou não. E ao votar não, colocou-se ao lado dos que acreditam que o sofrimento histórico tem prazo de validade quando não é o seu próprio sofrimento que está em causa. Não consigo defender essa posição, não porque seja ingênuo sobre as complexidades diplomáticas ou sobre o receio israelense de criar precedentes jurídicos em tempos de guerra, mas porque sei o que significa pedir ao mundo que reconheça que o que foi feito ao seu povo foi um crime que não prescreve. Temos essa conversa há oitenta anos. E então votamos não.
A abstenção europeia não é neutralidade. É a pose elegante de quem deve uma fortuna e prefere mudar de assunto a assinar um cheque. A Europa que se absteve no salão da ONU é a mesma cujas ferrovias, cujos parlamentos neogóticos, cujas universidades centenárias e cujos museus de mármore foram construídos com o dinheiro extraído do corpo da África. Leopoldo II da Bélgica matou entre dez e quinze milhões de congoleses para extrair borracha e marfim que financiaram a industrialização europeia. A França esvaziou o Senegal, o Mali, a Costa do Marfim e o Níger de recursos que alimentaram o bem-estar social parisiense, os mercados de queijo e as férias pagas de agosto. A Inglaterra drenou o subcontinente indiano e o continente africano com uma eficiência que os economistas de hoje ainda citam como modelo. Portugal, o primeiro a cruzar o Atlântico com navios carregados de seres humanos acorrentados, absteve-se com a solenidade de quem não deve nada a ninguém. A Holanda, cujos canais e moinhos são cartões postais da civilização ocidental, construiu parte dessa civilização sobre o trabalho forçado no Suriname, na Indonésia e na África.
O estado de bem-estar europeu não nasceu do clima temperado nem do engenho singular dos povos do norte. Nasceu da Conferência de Berlim de 1884, onde catorze nações europeias se reuniram para dividir um continente inteiro sem consultar um único africano, e decidiram que os recursos, a terra e o trabalho de quatrocentos milhões de pessoas eram propriedade legítima de quem tinha os canhões. O que a África perdeu nesse período não tem equivalente na história moderna. Não foi apenas riqueza material. Foi a possibilidade de acumulação, de desenvolvimento autônomo, de construir as instituições que a Europa depois exigiu que ela tivesse como condição para ser tratada como igual.
A resolução paira agora sobre os museus da Europa e os bancos da América como uma conta que alguém esqueceu de pagar e que os juros tornaram impagável. Prevê fundos de desenvolvimento, a devolução de artefatos retirados à força dos países que os produziram, e o reconhecimento formal de que a prosperidade de uns tem endereços anteriores nos corpos e nas terras de outros. O status quo europeu foi pago pela África. Cada estrada. Cada hospital. Cada biblioteca. Cada pensão. A conta chegou à Turtle Bay.
Penso nisso tudo e penso no preço que Israel pagará por este voto. Não amanhã. O isolamento não se constrói num dia. Constrói-se voto a voto, cada vez que um país que foi vítima da história decide que as vítimas de outras histórias não merecem a mesma solidariedade que ele exigiu para si próprio. Israel já está mais isolado do que meu governo admite. Já perdemos apoio na América Latina, na África, em partes da Ásia que durante décadas foram nossos aliados silenciosos. Cada voto como este acelera esse processo. E quando precisarmos que o mundo nos ouça, e esse dia virá porque sempre vem, vamos descobrir que gastamos o crédito moral que a história nos deu num voto contra os escravizados numa tarde de março em Nova York. Israel deveria saber melhor do que ninguém o que custa ser ignorado pela história. Nessa tarde, escolhemos estar do lado errado dela.​​​​​​​​​​​​​​​​

O Conforto como Destino

Eric H. Cline, arqueólogo da Universidade George Washington, dedicou anos a tentar entender por que o mundo colapsou em 1177 antes da era cristã. No fim da Idade do Bronze, as civilizações do Mediterrâneo oriental, egípcios, hititas, micênicos, cananeus, cipriotas, babilônios, formavam uma rede de interdependência tão sofisticada que os modernos a reconheceriam sem dificuldade. Trocavam estanho do Afeganistão, cobre de Chipre, trigo do Egito, têxteis da Síria. Escreviam cartas diplomáticas em argila. Tinham embaixadores, tratados, rotas comerciais que cruzavam o Mediterrâneo com a regularidade dos navios de hoje. E então, em poucas décadas, tudo desapareceu. Não os micênicos. Não os hititas. Não os cananeus. Todos. De uma vez. Cline chama o que aconteceu de tempestade perfeita, uma convergência de falhas múltiplas e interconectadas, secas, terremotos, invasões, revoltas internas, colapso das rotas comerciais, que nenhuma civilização, por si só, teria sobrevivido, e que todas juntas não puderam resistir. O que o livro não diz explicitamente, mas o que qualquer leitor atento percebe, é que foi precisamente a interdependência que as destruiu. O que as tornava ricas era o que as tornava frágeis. A rede que sustentava o mundo era a mesma rede que, ao se romper, arrastou tudo consigo.
Penso na Europa não com o desprezo fácil de quem olha de fora, mas com a tristeza específica de quem amou o que ela representa e vê o que ela está se tornando. A Europa construiu, nas décadas que se seguiram ao fim da Segunda Guerra Mundial, a mais sofisticada tentativa de civilização cooperativa que a humanidade já produziu. Instituições supranacionais, direitos codificados, estados de bem-estar, fronteiras abertas, a ideia de que o continente que havia produzido duas guerras mundiais em menos de trinta anos podia reinventar-se como um projeto de paz permanente. Era uma aposta audaciosa. Por décadas, funcionou. E então a Europa começou a confundir o projeto com o conforto que ele produzia, e o conforto com um direito adquirido, e o direito adquirido com a dispensa de qualquer responsabilidade além das suas próprias fronteiras.
O problema é que as fronteiras da Europa nunca foram onde os europeus imaginavam que eram. A riqueza que financiou o estado de bem-estar, os hospitais públicos, as universidades gratuitas, as férias pagas, os mercados de fim de semana com queijos artesanais e vinhos de denominação de origem controlada, essa riqueza tinha endereços anteriores. Tinha endereços no Congo, cuja borracha e cujo marfim financiaram a industrialização belga enquanto o rei Leopoldo II transformava o país numa plantação de horror, matando entre dez e quinze milhões de pessoas para garantir as cotas de produção. Tinha endereços na Costa do Marfim, cujo cacau alimentou o chocolate suíço e francês enquanto a população local não tinha acesso a hospitais. Tinha endereços em Angola, em Moçambique, no Senegal, no Níger, em toda a África que a Europa dividiu num mapa entre novembro de 1884 e fevereiro de 1885, na Conferência de Berlim, sem consultar um único africano, e que depois administrou durante décadas como uma fazenda de extração, retirando recursos, capital, mão de obra e dignidade, e deixando para trás fronteiras artificiais que até hoje produzem guerras, estruturas de poder corrompidas construídas sobre o modelo colonial, e a pobreza que agora empurra pessoas para o Mediterrâneo em botes infláveis.
Os africanos que chegam hoje às costas europeias não chegam do nada. Chegam de um continente que foi sistematicamente espoliado por exatamente aqueles países que agora os recusam à entrada. Chegam do Congo, de Mali, da Líbia, do Senegal, do Níger, países cujos recursos naturais financiaram e continuam financiando a prosperidade europeia através de acordos que reproduzem a lógica colonial com linguagem de mercado livre. Chegam porque as mudanças climáticas, produzidas em proporção muito maior pelos países industrializados do que pelos países africanos, estão tornando inabitáveis regiões inteiras do Sahel. Chegam porque os conflitos que destroem os seus países têm frequentemente a impressão digital de intervenções ocidentais mal concebidas e abandonadas a meio caminho. E chegam para encontrar uma Europa que construiu muros, que externaliza o controle das fronteiras para ditadores líbios, que financia campos de detenção no Níger e na Turquia, e que debate, com a linguagem técnica da política de imigração, até onde pode ir na violação dos direitos que codificou para si mesma.
Cline acredita que há noventa por cento de probabilidade de um colapso global de sistemas no próximo século. Não diz isso com satisfação. Diz com a sobriedade de quem passou décadas estudando o que acontece quando redes interdependentes atingem o ponto de ruptura sem que ninguém, dentro delas, tenha querido acreditar que o ponto de ruptura estava próximo. O que ele observou na Idade do Bronze tardio foi que as civilizações mais sofisticadas, as mais conectadas, as que tinham mais a perder, foram as que menos conseguiram adaptar-se quando as condições mudaram, precisamente porque o seu nível de conforto havia se tornado o limite do seu pensamento. Não imaginavam um mundo diferente porque não precisavam imaginar. Até que precisaram, e já era tarde.
A Europa de hoje não está no mesmo ponto. Mas está no mesmo caminho. Uma civilização que construiu a sua identidade em torno dos direitos universais e que aplica esses direitos seletivamente, que defende a dignidade humana nos discursos e a nega nas fronteiras, que insiste na responsabilidade coletiva dentro das suas fronteiras e recusa qualquer responsabilidade coletiva fora delas, essa civilização não está sendo hipócrita apenas no sentido moral. Está sendo frágil no sentido estrutural. A rede que a sustenta, as cadeias de abastecimento, as rotas energéticas, a estabilidade política dos países fornecedores, a legitimidade das suas instituições aos olhos do resto do mundo, depende de uma reciprocidade que a Europa tem recusado sistematicamente. E uma rede que se recusa a ser recíproca é uma rede que se aproxima do ponto de ruptura com cada decisão que toma.
Em 1177 antes da era cristã, as cartas de argila entre os reis do Mediterrâneo continuavam a chegar até quase o último momento. Algumas das últimas que sobreviveram mostram pedidos de socorro, relatos de cidades em chamas, súplicas por grão e por soldados. As respostas nunca chegaram. Não porque os destinatários fossem cruéis. Porque também estavam a colapsar, cada um ocupado demais com o seu próprio desastre para atender ao desastre do vizinho. O conforto não os havia tornado maus. Havia-os tornado míopes. E a miopia, como Cline documenta com a paciência de quem escava camada por camada, é a causa de colapso mais comum da história humana.​​​​​​​​​​​​​​​​

O que resta quando nada mais é pedido

Confesso que tomei uma garrafa de vinho antes de me sentar para escrever. E não me senti culpado por isso. Nem pelo vinho, nem pelo que veio depois: a sensação, clara e sem aviso, de estar no melhor momento da minha vida. Feliz. Aqui. De Israel, de dentro de uma guerra que não pedi.
Sei o que isso pode parecer. Mas não me interessa o que parece.
Existo exatamente no centro do meu próprio olhar. Não sei sempre o que isso significa, mas sei o que faz sentir. É precisamente daqui, desse lugar onde o cotidiano e o insuportável dividem o mesmo ar, que certas coisas se tornam visíveis com uma clareza que a paz nunca permitiu.
Há uma forma de presença que só nasce quando o mundo externo esgota suas exigências. Não é serenidade. É algo anterior à serenidade, algo que existe antes de qualquer decisão sobre como estar. Quando o alarme soa e o corpo já conhece o caminho até o abrigo sem que a mente precise ordenar, o que sobra não é coragem nem resignação. É o que sempre esteve lá, antes de qualquer história que contei sobre mim mesmo. O irredutível. E esse, descobri, não é frágil. É apenas mais antigo do que tudo que tentei construir por cima dele.
Existe uma tradição que insiste em perguntar quem somos. Desconfio dessa pergunta porque pressupõe um eu estável, localizável, que aguarda descoberta como um objeto perdido numa gaveta. O que experimento é outra coisa: não a descoberta de quem sou, mas a cessação da recusa de ser o que já sou. Essa distinção demora a ser sentida em sua totalidade. Porque parar de recusar não é conquistar nada. É largar algo que nunca foi meu e que eu carregava como se minha sobrevivência dependesse disso. Talvez dependesse. Mas já não depende.
Vivo numa linha tênue entre revelar e esconder. Não por cálculo, não por pudor, não por estratégia de proteção. Mas porque a transparência total é uma violência contra a própria complexidade, e o silêncio total é uma traição contra o que pulsa e pede forma. O que encontro no meio não é compromisso. É o único lugar onde a honestidade ainda respira.
A guerra ensina isso de um jeito que nenhuma teoria alcança: que a consciência tem uma soberania que não depende das circunstâncias. Que mesmo aqui, mesmo agora, mesmo com tudo que pesa, há em mim um interior que não foi declarado território ocupado por ninguém. Escrever sobre isso não é escapismo. É o ato mais político que conheço. Porque afirmar que ainda sinto, que ainda percebo a luz quando toca meu rosto, que ainda reconheço o calor como algo que vem de dentro tanto quanto de fora, é recusar que a guerra tenha a última palavra sobre o que sou.
Talvez o que trago aqui não seja intimidade. Talvez seja algo mais radical: a percepção de que sou suficiente para mim mesmo neste instante, sem precisar de outro tempo, outro lugar, outra versão de mim ou do mundo. Com tudo que dói. Com tudo que ainda não tem nome. Com tudo que aquece a pele como se o mundo não estivesse partido, mesmo quando está.
Não peço nada com isso. Não peço compreensão, não peço acompanhamento, não peço sequer que acreditem. Apenas registro que existo. Que sinto. Que esse sentir é mais real do que qualquer coisa visível de fora.
Isso não é bullshit. É um estado. E estados não pedem para ser compreendidos. Apenas para ser reconhecidos por quem também já tocou esse lugar dentro de si e sabe que, quando se chega lá, nada mais parece tão urgente quanto permanecer.​​​​​​​​​​​​​​​​

A Armadilha

Não posso afirmar com certeza que destruí meus quatro casamentos por não reconhecer o momento em que uma discussão deixa de ser uma discussão. Também não posso negar. O que posso dizer é que nenhuma das quatro mulheres que me conheceram de perto apontaria isso como causa. Mas há algo que conheço bem, não da teoria, mas da experiência repetida com uma consistência que deveria ter me ensinado algo antes da quarta vez. Você começa uma discussão com a intenção de resolver um mal-entendido pequeno. A outra pessoa reage de forma mais intensa do que você esperava. Você escala o tom para recuperar a posição. Ela escala de volta. Em poucos minutos, nenhum dos dois lembra qual era o mal-entendido original, e o que começou como uma conversa se tornou uma guerra que nenhum dos dois planejou travar. Você conhece esse padrão. Todo ser humano o conhece. Robert Pape passou a vida acadêmica demonstrando que estados soberanos, com exércitos, bombas e estrategistas pagos para pensar, caem no mesmo. Só que quando estados caem nele, o resultado não é uma noite mal dormida num sofá onde meus quase dois metros insistem em não caber. É o que estou vendo daqui, de Israel, onde moro, enquanto os mísseis explodem sobre nossas cabeças.
Pape é professor de ciência política na Universidade de Chicago, conselheiro estratégico de todos os presidentes americanos desde 2001 e um dos analistas militares mais influentes dos Estados Unidos. Passou vinte anos simulando o bombardeio da planta nuclear iraniana de Fordow, que caças israelenses e estadunidenses atingiram em junho de 2025, e a mudança de regime no Irã. Em 1996, publicou Bombing to Win, obra que examina o poder aéreo e a coerção na guerra e argumenta, com uma precisão que incomoda, que bombardear inimigos raramente produz os resultados políticos que os bombardeiros acreditam que vai produzir. Quatro dias antes do início da guerra contra o Irã, publicou na plataforma Substack uma newsletter com o nome do modelo que desenvolveu ao longo dessas décadas. O termo Armadilha de Escalada está agora se espalhando pelo mundo, e desde então Pape tornou-se presença constante em programas de televisão, podcasts e entrevistas ao redor do mundo, enquanto as buscas pelo termo no Google registram aumento de vinte por cento desde o início do conflito. Quando um modelo acadêmico começa a ser procurado assim, é porque a realidade está se comportando exatamente como ele previu, e isso não é uma boa notícia para ninguém que vive em seu raio de alcance, menos ainda para quem vive em Israel.
O modelo que Pape desenvolveu descreve uma sequência deceptivamente simples, e peço que você a leia com atenção porque ela explica o que está acontecendo agora de um jeito que os boletins de guerra não conseguem. Uma potência decide atacar outra com força limitada para atingir um objetivo determinado. A agredida reage expandindo o campo de batalha. A agressora escala o conflito para recuperar a iniciativa. O ciclo se repete, cada vez em nível mais alto, e o que começou como uma operação cirúrgica vai adquirindo a lógica implacável de uma guerra que ninguém planejou travar nessa escala. A armadilha não é que as guerras ficam maiores. É que os esforços para controlar um conflito podem torná-lo mais difícil de controlar. Essa distinção é o coração do problema.
Desde 28 de fevereiro, quando Israel e os Estados Unidos lançaram os primeiros ataques contra o Irã, os números acumulados falam por si. Cerca de oito mil voos sobre o território iraniano. Entre sete mil e sete mil e oitocentos alvos atingidos. O líder supremo Ali Khamenei morto. Parcela considerável da cúpula do regime eliminada. Os primeiros seis dias de guerra custaram aos Estados Unidos aproximadamente onze bilhões e trezentos milhões de dólares, segundo funcionários da administração Trump presentes a um briefing fechado no Congresso. O Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais estimou que os primeiros doze dias custaram dezesseis bilhões e quinhentos milhões de dólares. Somando os gastos americanos desde 7 de outubro de 2023, incluindo ajuda militar a Israel e operações no Iêmen e no Irã, o total chega a entre trinta e um e trinta e três bilhões de dólares, e o Pentágono já solicitou ao Congresso duzentos bilhões adicionais para financiar e reabastecer suas forças. E ainda assim os Estados Unidos parecem longe de atingir os objetivos anunciados no início das hostilidades. Donald Trump afirma que os Estados Unidos já venceram, pede ajuda internacional para desobstruir o estreito de Ormuz, tenta se dissociar do bombardeio israelense da maior planta de gás natural do Irã e ameaça destruir as mesmas instalações se houver novos ataques iranianos ao Catar. A Agência Internacional de Energia declarou que a guerra provocou a maior disrupção de oferta de petróleo da história. O barril chegou a quase cento e vinte dólares na semana passada. A pressão inflacionária avança. As cadeias produtivas tremem. Você vai sentir isso no supermercado, na conta de luz, no preço da gasolina, independentemente de onde mora e de qual lado desta guerra torce. Aqui em Israel, sentimos de forma diferente, porque a guerra não é uma abstração que chega pela tela. Chega pelo céu.
O que o modelo ilumina não é o inventário de armas ou a contagem de alvos destruídos, mas algo mais difuso e por isso mais difícil de combater, a transição progressiva de menor para maior engajamento, a ilusão de controle, o momento em que a crise episódica se converte em envolvimento estrutural. Análises geralmente explicam eventos, escreveu Pape. Poucas explicam em que fase um conflito está entrando e o que isso significa antes que se converta em engajamento. O modelo fornece as molduras para reconhecer esse momento. O problema é que reconhecer o momento e sair dele são coisas inteiramente diferentes, como qualquer pessoa que já terminou uma noite dormindo num sofá sabe muito bem.
A questão estratégica central é esta. Quais são as condições políticas desejáveis para os Estados Unidos ao final desse conflito? Trump e seus auxiliares têm oferecido respostas múltiplas e contraditórias, da mudança de regime ao enfraquecimento da capacidade militar iraniana, passando pelo fim do programa nuclear. Essa ambiguidade é disfuncional por uma razão precisa. Impede a formação de coalizões internacionais, fragiliza a legitimidade da operação e aumenta consideravelmente os custos para Washington. Destruir alvos e matar líderes são métricas táticas. Produzir as condições políticas desejáveis é uma métrica estratégica. Quando as duas não estão alinhadas, o que acontece é exatamente o que estamos vendo, oito mil voos e o objetivo ainda não alcançado.
O modelo captura a lógica do conflito, mas não sua geometria específica. O Irã, enfraquecido militarmente, recorre a retaliações assimétricas para evitar uma derrota percebida como total. O alastramento de ataques com mísseis e drones contra países vizinhos amplia os custos políticos e estratégicos da operação para os Estados Unidos e Israel, custos consideravelmente mais baixos para Teerã. Uma guerra defensiva para manter o regime no poder tem vantagens evidentes. Se a República Islâmica sobreviver ao conflito, seus partidários poderão declarar vitória estratégica simplesmente por ter resistido. Travar uma guerra de sobrevivência é politicamente mais sustentável do que travar uma guerra de conquista. E toda guerra é jogada por dois lados. O Irã também tem direito de fala, e vai reagir para impedir que se realize o que a potência agressora deseja. Teerã está há quarenta anos aprendendo a reagir de formas que o poder aéreo não consegue obliterar, e isso não mudou porque os bombardeios foram mais intensos desta vez. Os analistas convergem num ponto. Os Estados Unidos já entraram em modo de controle de danos e dificilmente evoluirão para um envolvimento em larga escala como ocorreu no Afeganistão e no Iraque. O caminho mais provável é uma saída estratégica que permita a Trump declarar vitória sem a realização de todos os propósitos cogitados no início da ofensiva. Mas o Irã continua no tabuleiro, e continua reagindo.
E aqui está o ponto que ninguém em Israel consegue dizer em voz alta porque a própria guerra tornou impossível dizê-lo. As eleições israelenses estão previstas para ocorrer até outubro de 2026, mas Netanyahu tem a capacidade de dissolver a coalizão governante antes disso e convocar eleições antecipadas, escolhendo o momento em que ele e seus parceiros religiosos e nacionalistas tenham a melhor chance de vencer. Enquanto a guerra durar, a pergunta sobre o que aconteceu naquela manhã de sábado de 7 de outubro de 2023 e quem é responsável por isso permanece enterrada sob os escombros da urgência militar. Netanyahu não quer falar sobre 7 de outubro, e Trump tem suas próprias razões para manter perguntas incômodas à distância, entre elas os arquivos Epstein que uma guerra convenientemente afoga. A oposição israelense grita no vazio, porque num país em guerra ninguém ouve quem questiona o comando, e Netanyahu sabe disso melhor do que qualquer estrategista. A guerra é o adiamento. A guerra é a defesa. A guerra é o único instrumento que transforma um homem que deveria estar sentado no banco dos réus num líder de guerra indispensável, e a armadilha que aprisiona o Irã aprisiona também Israel, com a diferença de que no nosso caso o arquiteto da armadilha vive em Balfour e chama a si mesmo de líder. Netanyahu e sua camarilha estão dispostos a manter toda uma população dentro desta armadilha, a pagar o preço em mísseis, em inflação e em mortes, enquanto for necessário para mantê-los no poder. Essa é a diferença entre uma armadilha que acontece e uma armadilha que é construída.
Você e eu não estamos nessas salas onde as decisões são tomadas. Eu estou em Israel, onde a distância entre estratégia e consequência não se mede em documentos de política, mas no som das sirenes. A conta chegará para todos nós, na forma de inflação, desemprego e instabilidade que já começam a se fazer sentir nas cadeias produtivas globais, colocada nas costas de quem escolheu essa guerra e de quem não escolheu nada, de quem vive aqui e de quem vive no Brasil, na Europa, em qualquer lugar onde o preço do petróleo determina o preço de tudo o mais. A armadilha não avisa quando fecha. Ela simplesmente fecha. E então você se pergunta como chegou até aqui, e a resposta é sempre a mesma: um passo de cada vez, cada um deles parecendo razoável no momento em que foi dado, até que você se encontra dormindo num sofá ou num bunker, esperando que os mísseis parem. A diferença é que do sofá você sai de manhã. Do bunker, ainda não sei quando.