A Geometria do Abandono

Há uma cena captada em vídeo em que um homem palestino grita em duas línguas ao mesmo tempo. Primeiro em árabe, para que os seus vizinhos tragam água. Depois em hebraico, para que os soldados israelenses presentes no fundo do quadro entendam que há crianças dentro da casa que está pegando fogo. O homem fala em duas línguas porque aprendeu, ao longo de décadas, que a sua própria não é suficiente para ser ouvido. E ainda assim, em ambas, não é ouvido.
Assisti a esse vídeo várias vezes. Não porque goste de me castigar, mas porque sinto que há, naquele instante de vinte e poucos segundos, gravado anteontem à noite na aldeia de Susiya, ao sul de Hebron, algo que nenhum relatório técnico consegue alcançar: a geometria do abandono. A forma como um ser humano aprende, em tempo real, que as instituições criadas para protegê-lo estão presentes mas não disponíveis. Uniformizadas mas não comprometidas. Armadas, mas não com a intenção de usar as armas a seu favor.
Os soldados não se movem. O fogo continua.
Existem eventos que os analistas chamam de pontos de inflexão e que outros, se forem honestos, deveriam chamar de momentos de revelação. A diferença não é apenas de vocabulário. Um ponto de inflexão é uma mudança de trajetória. Uma revelação é um instante em que aquilo que sempre existiu finalmente se torna impossível de ignorar. O que aconteceu em Susiya na segunda-feira é ambos, mas sobretudo o segundo.
A violência dos colonos na Cisjordânia não é nova. Os incêndios não são novos. A passividade das forças militares diante deles tampouco é nova. O que é novo é a formalização burocrática dessa violência. Em 8 e 9 de fevereiro, o gabinete de segurança israelense aprovou medidas que revogam restrições históricas à compra de terras palestinas por cidadãos israelenses, e retomaram o registro de propriedades na Área C. Para quem estuda a história colonial comparada, o gesto é familiar: o fogo vem antes, o título de propriedade vem depois. O medo desbasta o terreno; a lei o formaliza.
Hannah Arendt escreveu em Origens do Totalitarismo que a privação dos direitos começa sempre pela privação do direito a ter direitos. O que está sendo construído em Masafer Yatta não é apenas a ausência de proteção; é a construção jurídica de uma categoria de pessoa para quem a proteção não se aplica, e a simultânea aceitação dessa categoria na linguagem dos relatórios militares, na cobertura da mídia que descreve incêndios como atrito entre populações.
Atrito. Como se o fogo fosse uma força da natureza. Como se os incendiários fossem partículas em colisão.
Hamdan Ballal, cujo irmão foi agredido até a cianose facial, cujos familiares foram algemados e depois abandonados à noite em uma estrada frequentada por colonos armados, co-dirigiu com o israelense Yuval Abraham o documentário No Other Land, vencedor do Oscar de Melhor Documentário em março de 2025. Na cerimônia em Los Angeles, Abraham usou o palco para falar sobre a desigualdade entre ele, cidadão israelense com direitos plenos, e Ballal, que vive sob ocupação militar. Houve vaias. Houve aplausos. O mundo assistiu a dois homens, um israelense e um palestino, que fizeram um filme juntos sobre a destruição de um lugar, e não conseguiu decidir se isso era coragem ou traição.
Em Israel, a resposta foi mais direta. O filme não recebeu distribuição comercial. Exibições universitárias e independentes enfrentaram pressão para serem canceladas. Políticos da coalizão governante classificaram Abraham publicamente como traidor. Houve pedidos formais de investigação contra ele. Nas redes sociais e em certos meios profissionais, citar o filme ou expressar solidariedade com seus diretores passou a ter consequências reais. Um país que pune os seus próprios cidadãos por documentar o que acontece dentro do território que controla não está apenas suprimindo uma narrativa externa. Está suprimindo o testemunho interno. E quando o testemunho se torna traição, o que resta não é segurança. É silêncio administrado.
É nesse contexto que se deve ler o que aconteceu com a família Ballal nas semanas seguintes ao Oscar. A agressão contra Mohammed Ballal, a detenção dos familiares, o abandono deles à noite em uma estrada frequentada por colonos armados, esses eventos não ocorreram apesar da visibilidade internacional do filme. Ocorreram por causa dela. A violência em Masafer Yatta tem sempre tido como alvo os corpos que estão no terreno. Depois do Oscar, passou a ter também como alvo a voz que os representa fora dele.
Há uma distinção que vale guardar: entre espaço e lugar. O espaço é abstrato, mensurável, permutável. O lugar é vivido, carregado de história, de cheiros, de mortos enterrados e de filhos nascidos. O que a estratégia de deslocamento em Masafer Yatta ataca, através dos incêndios, das demolições, do corte de tubulações de água, da destruição de painéis solares nas escolas, não é o espaço. É o lugar. É a teia de relações entre pessoas e terra que torna a vida não apenas possível mas com sentido.
Quando se destrói o caminhão que transporta água, não se está apenas privando pessoas de hidratação. Está-se destruindo a prova material de que amanhã será possível, de que haverá um amanhã suficientemente parecido com hoje para que valha a pena insistir.
É tentador separar o que está acontecendo em Susiya da geopolítica regional, e desta dos grandes jogos de poder entre Washington, Teerã e Damasco. Os analistas adoram essas separações. Elas permitem que se fale de cada coisa sem falar de todas ao mesmo tempo. Mas o homem que grita em duas línguas não tem esse luxo.
A queda do regime de Assad na Síria, a atenção americana voltada para o programa nuclear iraniano, os porta-aviões no Golfo, tudo isso é real e tudo isso importa. Mas importa também, e isso é o que os relatórios geopolíticos frequentemente deixam de fora por uma espécie de pudor técnico, que a atenção é um recurso finito, e que quem controla onde ela é dirigida controla, em alguma medida, o que pode ser feito enquanto o mundo olha para outro lado.
A cobertura da mídia documenta este fenômeno sem nomeá-lo com clareza. Enquanto a mídia israelense trata os incêndios de Susiya como relatos palestinos aguardando confirmação, e enquanto a ocidental os insere dentro de uma tendência de longo prazo, o que é verdade mas tem o efeito de torná-los esperados, portanto menos urgentes, os incêndios continuam. A contextualização, quando não é acompanhada de indignação, torna-se uma forma sofisticada de anestesia.
Existe uma estatística que persiste: 94% das investigações sobre crimes cometidos por colonos contra palestinos na Cisjordânia são encerradas sem indiciamento. Apenas 3% resultam em condenação.
Sei que números em sistemas jurídicos são complicados. Sei que encerrado sem indiciamento não é automaticamente equivalente a crime impune. Existem razões processuais, lacunas probatórias, complexidades de jurisdição. Mas sei também que quando os números são tão consistentes ao longo de duas décadas, deixam de ser acidentais e tornam-se estruturais. Uma taxa de impunidade de 94% não é uma falha do sistema. É o sistema.
E quando o sistema funciona desta maneira, quando o agressor sabe por experiência estatisticamente fundamentada que não haverá consequências, a violência deixa de ser um ato individual e passa a ser uma política. Não necessariamente declarada, não formalizada em nenhuma circular governamental. Mas política no sentido mais concreto: uma forma de organizar o mundo de acordo com uma hierarquia de quem merece ser protegido.
Os soldados que observaram o fogo em Susiya não tomaram uma decisão anteontem à noite. Seguiram uma norma não escrita mas perfeitamente compreendida por todos os presentes. A sedimentação de décadas.
Susiya existe. As pessoas que vivem em Susiya têm nomes. Mohammed Ballal, cujo pescoço foi pressionado com força suficiente para provocar cianose, tem um nome. As quatro pessoas que inalaram fumaça na noite de segunda-feira têm nomes. As crianças que estavam dentro da casa enquanto o portão ardia têm nomes.
Há um tipo de crueldade que opera através da abstração. Que transforma pessoas em populações, e populações em problemas demográficos, e problemas demográficos em questões de planejamento territorial. Cada passo nessa escada torna o próximo ato de violência um pouco mais administrável, um pouco mais técnico, um pouco menos parecido com o que é.
O homem que gritou em duas línguas recusou-se a ser abstrato. Ele gritou porque havia crianças concretas, num lugar concreto, com fogo concreto chegando perto. E os soldados, concretos, uniformizados, presentes, não se moveram.
Essa imobilidade é o escândalo. É o momento em que a pretensão de uma ordem jurídica que protege a todos igualmente encontra o teste da realidade e o reprova, às 21h54 de uma segunda-feira em fevereiro, com o céu alaranjado sobre Susiya e alguém gritando em duas línguas ao mesmo tempo.
O fogo apaga. A pergunta, quem teria apagado se tivesse querido, permanece acesa.​​​​​​​​​​​​​​​​

Quando o Luto Encontra o Luto

Maoz Inon estava preparando o café da manhã para a esposa em sua casa em Binyamina, no norte de Israel, quando seu pai escreveu no grupo da família no WhatsApp às 7h30 da manhã de 7 de outubro de 2023. A mensagem dizia que mísseis estavam caindo e que sons de guerra preenchiam Netiv HaAsara, a comunidade agrícola mais próxima da fronteira com Gaza, onde seus pais moravam.

Maoz ligou imediatamente. Seu pai, Yakovi, de setenta e oito anos, atendeu brevemente. Ele e Bilha, a mãe de Maoz, de setenta e seis anos, haviam trancado a casa e estavam no quarto de segurança. Netiv HaAsara fica a apenas cem metros de Gaza. Maoz pensou que fosse mais um episódio da violência recorrente ao longo da fronteira. Disse aos pais que os amava e que ligaria novamente em breve.

Às 7h40, quando ligou outra vez, ninguém atendeu.

O horror se instalou quando Maoz começou a ver imagens nas redes sociais de terroristas do Hamas invadindo comunidades israelenses na fronteira. Ele e suas três irmãs se reuniram na casa de uma delas, enquanto o irmão mais novo vinha de Londres. No fim da tarde, conseguiram falar com o responsável pela segurança da comunidade, que lhes disse que a casa dos pais havia sido queimada até virar cinzas. Dois corpos foram encontrados dentro.

Os irmãos iniciaram o período tradicional de luto judaico. No segundo dia, a pedido do irmão de Maoz, Magen, divulgaram uma declaração conjunta rejeitando a vingança em nome de seus pais. Foram dos primeiros israelenses a se manifestar publicamente sobre a morte de civis em Gaza.

“A vingança não vai trazê-los de volta e só vai intensificar o ciclo em que estamos presos há mais de um século — o ciclo israelense-palestino de derramamento de sangue, vingança e morte.”

Durante três dias após o assassinato de seus pais, Maoz foi tomado pela dor e pelo sofrimento. Numa noite, chorando enquanto dormia, teve o que ele chama de uma visão: toda a humanidade chorava com ele, suas lágrimas curando feridas, purificando terras ensanguentadas, revelando um caminho para a paz. Ao acordar, soube que aquela era a forma de honrar o legado de seus pais.

A primeira ligação de condolências veio de Aziz Abu Sarah, um ativista palestino pela paz que Maoz conhecia apenas de nome. O irmão de Aziz havia morrido em 1990 em decorrência de ferimentos sofridos numa prisão israelense. Quando Aziz sugeriu que continuassem trabalhando juntos pela paz, Maoz não hesitou.

A colegas que demonstraram incredulidade diante da rapidez com que ele intensificou seu ativismo após perder os dois pais, Maoz disse: “Quando uma pessoa se perde no deserto, ela clama por água. Quando uma pessoa se perde nesse tipo de luto, é normal clamar por paz.”

Desde então, Maoz e Aziz têm viajado o mundo juntos. Em maio de 2024, falaram ao papa Francisco e a doze mil construtores da paz em Verona, na Itália. Receberam uma ovação de pé e um abraço do papa. Um ano depois, encontraram-se com o papa Leão XIV no Vaticano. Em dezembro de 2025, Maoz recebeu o prêmio Champion of Shared Society por seu trabalho em prol da convivência pacífica entre judeus e árabes em Israel.

O livro deles, O Futuro é a Paz: Uma Jornada Compartilhada pela Terra Santa, escrito em coautoria com o ativista palestino Hamze Awawde, tem lançamento previsto para abril de 2026.

Antes de 7 de outubro, Maoz havia passado vinte anos construindo pontes. Em 2005, criou uma pousada na Cidade Velha de Nazaré em parceria com uma família árabe local, com o objetivo de revitalizar a área e servir como plataforma de diálogo intercultural. Mais tarde, fundou a rede Abraham Hostel em Jerusalém, que se tornou a maior cadeia de hostels de Israel.

“Durante 20 anos tive parceiros da Palestina, da Jordânia e do Egito. Eu sei que israelenses e palestinos podem viver juntos porque vivi isso.”

Vinte e três anos antes, e centenas de quilômetros ao sul, em Belém, na Cisjordânia, outra história se desenrolava.

Layla Alsheikh nasceu e cresceu na Jordânia. Estudou contabilidade e gestão empresarial. Em 1999, casou-se e se mudou para Belém, realizando o que chamava de seu sonho de vida: retornar à Palestina.

Na madrugada de 11 de abril de 2002, seu filho Qussay, de seis meses, começou a ter dificuldades para respirar após soldados israelenses lançarem gás lacrimogêneo em sua vila. Layla tentou levá-lo às pressas ao hospital, mas soldados israelenses a impediram de fazê-lo por mais de cinco horas.

Qussay morreu naquela noite por falta de atendimento médico em tempo hábil.

Durante quatorze anos, Layla carregou seu luto em silêncio. Nunca buscou vingança. Nunca contou aos outros filhos como o irmão havia morrido, relutante em arrastá-los para o que chamava de um ciclo de violência.

Em 2016, uma amiga a convidou para uma reunião do Parents Circle–Families Forum, uma organização que reúne famílias israelenses e palestinas que perderam entes queridos no conflito.

A primeira reação de Layla foi: “Você está louca?”

Mesmo assim, ela foi. Na primeira reunião, sentou-se em silêncio, ouvindo outras mães contarem suas histórias: uma mãe que perdeu o filho em um atentado suicida em Jerusalém; uma mãe que perdeu o filho em um bombardeio em Gaza; uma avó que perdeu a neta em um ataque com foguete.

Layla percebeu que todas choravam da mesma forma. Todas tinham o mesmo vazio no peito. Todas acordavam pela manhã e precisavam de alguns segundos para lembrar que aquilo tinha realmente acontecido.

Na segunda reunião, Layla falou. Contou sobre Qussay. Sobre as cinco horas no posto de controle. Sobre segurar o corpo do filho enquanto ele ficava cada vez mais leve em seus braços. Quando terminou, uma mãe israelense atravessou a sala e a abraçou sem dizer uma palavra.

“Uma das mulheres israelenses se levantou e me disse: peço desculpas a você em nome do meu povo. Eu também sou mãe e sinto a sua dor. Ela não sabia que, com essas palavras simples, tinha me trazido de volta à vida.”

Layla voltou para casa e chorou como não chorava havia anos. Mas era diferente. Não apenas dor, havia também um tipo de alívio que ela não conseguia explicar.

Não há indícios de que Maoz e Layla já tenham se encontrado. Eles atuam dentro do mesmo movimento, mas seguem caminhos separados. Maoz viaja o mundo com Aziz, falando para plateias, encontrando papas, escrevendo livros. Layla participa das reuniões do Parents Circle em Belém, senta-se com mães israelenses e se recusa a permitir que a morte do filho sirva de justificativa para que outros filhos morram.

Desde 7 de outubro, as reuniões do Parents Circle tornaram-se mais difíceis. Os membros vivem em mundos distintos, moldados por ambientes midiáticos diferentes. Quase todos os membros palestinos perderam numerosos familiares em Gaza durante a guerra. O governo israelense proibiu o Parents Circle nas escolas, embora muitas escolas tenham desafiado a ordem.

Em um evento recente, alguém perguntou diretamente a Layla como ela conseguia conciliar genocídio e ocupação ao fazer esse trabalho com israelenses.

“Nem tudo eu posso perdoar.”

Ela descreveu suas próprias experiências com a violência de colonos sancionada pelo exército na Cisjordânia. O trabalho do Parents Circle, enfatizou, não exige perdão nem esquecimento. Exige apenas o reconhecimento da humanidade daqueles que estão sentados do outro lado.

Maoz não esqueceu que o Hamas matou seus pais. Layla não esqueceu as cinco horas no posto de controle. Nenhum dos dois perdoou. Mas ambos decidiram que seu luto não será transformado em arma, que sua perda não será usada para justificar mais perdas.

“Durante 60 anos, meu pai foi agricultor. Durante 60 anos, ele semeou trigo nos campos de Israel. E não importava o quão devastador tivesse sido o ano anterior, por enchentes ou por seca. Ele sempre semeava novamente. E eu perguntava: papai, o que você está fazendo? Por que não desiste? Por que não faz outra coisa? E ele sempre me dizia: Maoz, meu filho, o ano que vem será melhor. O ano que vem será melhor. E eu tenho a capacidade de torná-lo melhor.”

Maoz não pode mais semear trigo nos campos do pai. O kibutz ainda está se recuperando. Muitos vizinhos foram embora. Mas ele continua o trabalho em que seus pais acreditavam: construir pontes, conduzir viagens que aproximam israelenses e palestinos, falar para públicos ao redor do mundo.

“A esperança não é um sentimento que eu espero chegar. Eu faço esperança. A esperança é um esforço coletivo, algo que criamos juntos.”

Layla não pode trazer Qussay de volta. Não pode desfazer as cinco horas no posto de controle. Não pode apagar a memória do corpo do filho ficando mais leve em seus braços. Mas ela continua frequentando as reuniões do Parents Circle, continua sentando-se com mães israelenses e continua se recusando a deixar que o trauma defina completamente quem ela é.

Nenhum dos dois acredita que esteja mudando o mundo. Nenhum dos dois tem ilusões de resolver o conflito. Mas ambos fizeram uma escolha: recusam-se a deixar que seu luto se transforme em ódio.

Fontes das citações:

  1. The Catholic Register
  2. Emanuel Congregation of New York
  3. France 24
  4. The Amherst Student
  5. Alliance for Middle East Peace (ALLMEP)
  6. Democracy Now!

A Erosão do Nosso Pacto Democrático

 

Existe uma ironia cruel em nosso dilema atual: um povo que vagou apátrida por milênios, que experimentou em primeira mão o que significa viver sem a proteção da lei, que sofreu as consequências do poder arbitrário não controlado pela justiça, agora testemunha seus próprios líderes desmontando as instituições destinadas a garantir que nunca mais estaríamos indefesos diante da tirania. O pedido de Benjamin Netanyahu para encerrar seu próprio julgamento representa não apenas mais um episódio de corrupção política ou abuso de autoridade, mas algo mais profundo e perturbador: a traição ao pacto que fizemos conosco mesmos quando declaramos que este Estado seria diferente, que incorporaria os ideais proféticos de justiça que ecoam por toda a nossa tradição.

Construímos esta democracia das cinzas da catástrofe, da determinação de que criaríamos uma sociedade onde a lei reina suprema, onde nenhum indivíduo está acima da justiça, onde a injunção bíblica de que haverá uma só lei para o cidadão e o estrangeiro seria mais do que meras palavras. Isso não foi ingenuidade, mas uma escolha consciente enraizada nas mais duras lições de nossa história. Sabíamos, talvez melhor do que qualquer outro povo, o que acontece quando o Estado de Direito colapsa, quando líderes afirmam encarnar a vontade da nação, quando instituições protetoras se tornam instrumentos de opressão.

A democracia, como nos ensinou Montesquieu, repousa sobre um equilíbrio delicado e sempre precário entre poderes que mutuamente se vigiam e se limitam. Não é um sistema perfeito, mas um arranjo que reconhece uma verdade fundamental sobre a condição humana: o poder corrompe, e o poder absoluto corrompe absolutamente. Quando um líder sob investigação criminal exige o encerramento de seu próprio julgamento, não comete apenas um ato de arrogância pessoal, mas declara abertamente que se considera acima da lei, que a justiça é um obstáculo inconveniente a ser removido em vez de um princípio universal a ser respeitado. Para nós, com nossa história, isso deveria ser particularmente intolerável.

O que torna isso particularmente grotesco é a inversão completa dos valores que sustentam qualquer sociedade genuinamente livre. O Estado de Direito, aquele princípio segundo o qual todos se submetem às mesmas normas jurídicas, deixa de ser o fundamento da ordem política e torna-se mero instrumento a serviço dos poderosos. As instituições judiciais, que deveriam funcionar como guardiãs imparciais da justiça, são retratadas como inimigas do povo, obstáculos à vontade popular supostamente encarnada no líder. É o discurso clássico do autoritarismo, familiar a todos que estudaram os colapsos democráticos do século XX, e dolorosamente familiar para nós a partir de nossa própria memória coletiva.

Mas há algo ainda mais perverso nessa dinâmica: a gradual normalização do inaceitável. Cada ataque às instituições democráticas prepara o terreno para o próximo, mais ousado. Cada tentativa de minar a independência judicial torna a seguinte menos chocante. O que ontem seria considerado escândalo intolerável torna-se hoje apenas mais uma notícia no ciclo interminável de disputas políticas. A indignação pública se esgota, a capacidade de resistência se desgasta, e a sociedade gradualmente, imperceptivelmente, aceita como normal o que deveria permanecer inaceitável.

Hannah Arendt nos alertou sobre a banalidade do mal, sobre como grandes atrocidades podem resultar não de monstros, mas de pessoas comuns que simplesmente seguem ordens, normalizam o absurdo, param de pensar criticamente. Aqui testemunhamos algo análogo: a banalidade da corrupção institucional, em que a violação sistemática das normas democráticas deixa de chocar porque se torna rotina, em que a população gradualmente perde a capacidade de reconhecer que princípios fundamentais estão sendo destruídos diante de seus olhos.

Nossa democracia, forjada nos ideais de justiça e autodeterminação de um povo historicamente perseguido, encontra-se agora em uma encruzilhada moral e política. Um governo que deveria defender a lei conspira para subvertê-la. Instituições que deveriam proteger os cidadãos são atacadas como inimigas. O discurso público é envenenado por narrativas que transformam a busca por accountability em perseguição política, a defesa da justiça em conspiração, a crítica legítima em traição. Estamos testemunhando a erosão do próprio pacto democrático que nos mantém unidos como sociedade livre e como povo que conheceu em primeira mão o preço da ausência de lei.

E aqui reside talvez o aspecto mais trágico: a erosão da confiança nas instituições democráticas afeta não apenas o presente, mas hipoteca o futuro. Uma geração inteira está aprendendo que as regras são para os fracos, que a justiça é negociável, que o poder é sua própria justificação. Quando as normas jurídicas se tornam instrumentos de conveniência política, quando a verdade factual é substituída por narrativas partidárias, quando os líderes demonstram desprezo explícito pelos limites constitucionais de seu poder, não estamos apenas testemunhando falhas individuais, mas vivenciando o desmonte sistemático do tecido que nos mantém unidos como nação democrática.

A questão que se coloca não é apenas jurídica ou política, mas profundamente ética e existencial: que tipo de sociedade queremos ser? Uma em que todos são iguais perante a lei, ou uma em que alguns são mais iguais que outros? Uma em que as instituições funcionam imparcialmente, ou uma em que servem aos interesses dos poderosos? Uma democracia genuína, com todas suas imperfeições, ou uma fachada democrática que oculta o exercício arbitrário do poder? Essas perguntas ressoam com urgência particular para nós, que construímos um Estado precisamente para garantir que nunca mais estaríamos à mercê da arbitrariedade e da injustiça.

A história nos ensina que democracias raramente morrem por meio de golpes dramáticos; mais frequentemente, definham lentamente, corroídas por dentro, enquanto cidadãos complacentes ou exaustos assistem passivamente. O desafio para nossa sociedade, que valoriza a liberdade e a dignidade humana como fundamentais para nossa própria existência como povo, é reconhecer esses momentos de perigo e encontrar a coragem de resistir, não com violência, mas com a afirmação firme e inabalável dos princípios que tornam possível uma vida comum verdadeiramente humana.

O respeito ao Estado de Direito não é uma formalidade burocrática ou um luxo opcional. É o alicerce sobre o qual construímos nossa democracia e sobre o qual repousa toda possibilidade de justiça, liberdade e coexistência civilizada. Quando esse alicerce é deliberadamente solapado por aqueles que juraram defendê-lo, não se trata apenas de mais um escândalo político, mas de um sinal de alarme que deveria despertar a consciência de todos nós que ainda acreditamos que nossa democracia, nosso pacto nacional, vale a pena ser defendido. A memória de nossa história nos convoca a não permitir que os valores pelos quais lutamos sejam esvaziados por dentro, transformados em retórica vazia enquanto sua substância é destruída.​​​​​​​​​​​​​​​​

Toda vida genuína é encontro

Veja, você e eu precisamos conversar sobre Israel, mas não da maneira que normalmente se fala, com slogans de um lado, indignação moral do outro, e aquela certeza absoluta que paralisa qualquer pensamento genuíno. Quero convidá-lo a olhar comigo para algo mais profundo, mais humano, e honestamente, mais assustador: o que acontece quando um sonho bem-intencionado colide com a realidade implacável dos números, do tempo e da natureza humana.

Martin Buber, aquele pensador que viveu entre Jerusalém e o diálogo, nos disse algo que parece simples mas é devastadoramente profundo: toda vida genuína é encontro. Não transação, não tolerância, não coexistência tensa, mas encontro. Quando você realmente encontra outro ser humano, quando vê seus olhos e reconhece ali algo que também habita em você, tudo muda. Pois bem, Israel hoje tem 9,73 milhões de pessoas segundo os dados oficiais de 2023, e a grande tragédia, a ferida oculta que você precisa entender, é que essas pessoas não estão se encontrando. Estão colidindo, negociando, tolerando-se com esforço, às vezes odiando-se, mas raramente se encontrando no sentido que Buber propunha.

Deixe-me mostrar por que isso importa para os próximos cinquenta anos. Quando você olha a superfície, vê um país próspero, com renda per capita de 54.660 dólares segundo o Banco Mundial de 2022, startups inovadoras, acordos de paz com nações árabes gerando bilhões em comércio. Mas Emmanuel Levinas, outro pensador que entendeu profundamente o judaísmo, nos alertou que a ética precede a ontologia. O que isso significa para você e para mim? Significa que antes de perguntarmos quem somos, precisamos perguntar como tratamos o Outro. E quando fazemos essa pergunta honesta sobre Israel, os números revelam algo perturbador.

Imagine comigo esta cena: em Bnei Brak, um jovem ultraortodoxo estuda Talmud dezoito horas por dia. Ele tem seis irmãos, sua família terá em média 6,6 crianças segundo as estatísticas do Escritório Central de Estatísticas. Ele não serve no exército, não aprende matemática ou inglês, e provavelmente nunca trabalhará no mercado secular, já que apenas 43% dos homens ultraortodoxos o fazem. Ele acredita profundamente que estudar Torá protege Israel mais que qualquer tanque. Agora vá comigo até Tel Aviv, quarenta minutos de distância. Uma jovem programadora trabalha numa startup, tem talvez um ou dois filhos planejados, serve na inteligência militar, viaja o mundo. Ela acredita que inovação tecnológica e integração global são a salvação de Israel. Essas duas pessoas vivem no mesmo país, mas habitam universos morais completamente diferentes. E aqui está o que você precisa entender: a família dele cresce exponencialmente enquanto a dela mal se reproduz.

O Centro de Pesquisa Pew mostrou em 2016 que 49% dos judeus israelenses são seculares, mas as projeções demográficas do Instituto pela Democracia de Israel indicam que os ultraortodoxos, hoje 13,5% da população, serão 32% em 2065. Você está acompanhando o que isso significa? Em cinquenta anos, um terço de Israel será composto por pessoas que não participam da economia que sustenta o Estado, que frequentemente questionam a legitimidade do próprio sionismo, que vivem em pobreza. Quarenta e cinco por cento das famílias ultraortodoxas estão abaixo da linha da pobreza segundo o Instituto Nacional de Seguro de 2022.

Yeshayahu Leibowitz, aquele velho rabino ranzinza e brilhante, alertou durante décadas: quando você transforma religião em ferramenta do nacionalismo, corrompe ambas. Israel está descobrindo isso da maneira mais dolorosa possível. Como sustentar uma democracia liberal quando um terço da população rejeita seus valores fundamentais? Como manter uma economia de alta tecnologia quando um terço da população estuda apenas textos religiosos? Como definir um Estado judeu quando os próprios judeus discordam radicalmente sobre o que isso significa?

E veja, isso é apenas uma camada do problema. Ahad Ha’am, lá no início do sionismo, propôs algo que hoje soa quase profético: esqueça o Estado político, crie um centro espiritual judaico. Ele temia exatamente o que aconteceu, que o nacionalismo político corromperia a ética judaica. Segundo pesquisa recente do Instituto pela Democracia de Israel, 76% dos judeus seculares israelenses dizem que democracia é fundamental, mas apenas 23% dos ultraortodoxos concordam. Leia isso de novo. Não há consenso básico sobre os valores que devem reger a sociedade.

Você consegue sentir a fratura aqui? Não estamos falando de discordâncias políticas normais, democrata versus republicano, trabalhista versus conservador. Estamos falando de populações que não compartilham premissas fundamentais sobre o que constitui uma boa sociedade, vivendo no mesmo território, caminhando inexoravelmente para que um grupo se torne maioria.

Mas espere, porque precisamos ir mais fundo. Hannah Arendt, aquela pensadora incômoda que os israelenses amaram odiar, disse algo irrefutável: democracia sem igualdade política é impossível. Então me acompanhe nestes números, porque eles contam uma história que nenhuma narrativa ideológica consegue obscurecer. Entre o Mediterrâneo e o rio Jordão, ou seja, em todo território controlado por Israel, vivem aproximadamente 7,2 milhões de judeus e 7,1 milhões de árabes. Na Cisjordânia, 3 milhões de palestinos convivem com 475.000 colonos israelenses segundo dados da Paz Agora de 2023. Em Gaza, 2,3 milhões de pessoas comprimidas em 365 quilômetros quadrados.

Abraham Joshua Heschel, aquele rabino que marchou com Martin Luther King Jr., escreveu que a indiferença ao sofrimento é a essência do profano. Então preciso perguntar a você, sem retórica, sem defesas automáticas: como você chama uma situação onde milhões de pessoas vivem sob controle de um governo no qual não podem votar, em território que não têm permissão para deixar livremente, sob leis que não ajudaram a escrever? A taxa de desemprego em Gaza antes dos conflitos recentes era 45%, segundo o Escritório Central de Estatísticas Palestino. Na Cisjordânia, 13,9%. Essas pessoas têm rostos, famílias, sonhos. O que Levinas diria sobre nossa responsabilidade diante desses rostos?

E as projeções demográficas não mentem: dentro de uma a duas décadas, haverá maioria árabe entre o mar e o rio. Você entende o que isso significa? Israel terá que escolher. Separação genuína criando um Estado palestino viável, ou integração política dando cidadania plena a todos, ou aprofundamento de um sistema onde diferentes grupos no mesmo território têm direitos fundamentalmente diferentes. Não há quarta opção. Postergar a escolha é escolher a terceira por omissão.

Os Acordos de Abraão trouxeram paz com Dubai e Abu Dhabi, maravilhoso, genuinamente importante, 2,5 bilhões de dólares em comércio bilateral em dois anos. Mas você consegue ver a ironia? Israel normalizou relações com países a milhares de quilômetros enquanto não tem paz com pessoas a poucos quilômetros de distância. É como fazer amizade com vizinhos distantes enquanto seu próprio quintal está em chamas.

E isso antes de falarmos de clima. O Serviço Meteorológico de Israel documenta 1,5 grau Celsius de aquecimento desde 1950 e 10% menos chuva. O Mar da Galileia, a única fonte significativa de água doce natural, está minguando. Sim, Israel é líder mundial em dessalinização, 85% da água potável vem do mar segundo a Autoridade da Água de Israel de 2023. Mas isso é intensivo em energia e caro. E água não se importa com narrativas históricas ou direitos ancestrais. Água simplesmente acaba. A questão hídrica com Jordânia e palestinos, já explosiva, só vai piorar. Como compartilhar escassez quando não se consegue compartilhar nem abundância?

Moisés Maimônides nos ensinou que só podemos descrever Deus negativamente, sabemos o que Ele não é, mas não podemos apreender completamente o que Ele é. Sabe, acho que Israel contemporâneo enfrenta algo similar. Após 77 anos, a identidade israelense se define pelo que rejeita: antissemitismo, Holocausto, ameaças externas, terrorismo. Mas o que Israel afirma positivamente quando não está se defendendo? Que sociedade deseja construir quando não está erguendo muros? Que valores realmente compartilha?

Deixe-me ser honesto com você sobre os próximos cinquenta anos, porque otimismo infundado não nos serve. Vejo três caminhos possíveis, e apenas um termina bem.

O primeiro caminho é fragmentação lenta e dolorosa. A minoria secular produtiva sustenta crescente maioria ultraortodoxa empobrecida. O conflito palestino permanece congelado através de força militar. Desigualdade explode. Para manter essa estrutura insustentável, o governo se torna progressivamente autoritário, porque estruturas injustas sempre requerem autoritarismo para persistir. Internacionalmente, Israel se torna pária, dependente de poucos aliados. O Estado sobrevive, mas espiritualmente está morto. É o Israel que nenhum dos fundadores reconheceria, um aparato de segurança governando populações fragmentadas que não compartilham valores nem visão. Esse caminho é plausível porque requer apenas inércia, basta não fazer nada.

O segundo caminho é transformação corajosa, mas preciso ser franco: não vejo liderança atual capaz disso. Requereria reformas constitucionais profundas: separação genuína entre religião e Estado, integração total de cidadãos árabes, solução de dois Estados com palestinos baseada em concessões mútuas genuínas, reforma educacional que integra ultraortodoxos à economia moderna respeitando sua identidade, cooperação regional massiva sobre água e energia. Israel se tornaria ponte entre civilizações, democracia exemplar que honra herança particular sem trair valores universais. Martin Buber sorriria. Mas isso requer políticos dispostos a sacrificar carreiras, populações dispostas a confrontar verdades desconfortáveis, e momento que talvez já tenha passado.

O terceiro caminho, temo, é o mais provável: mudança forçada por crise. Colapso econômico quando os números simplesmente não fecharem mais. Ou conflito regional severo. Ou intervenção internacional no conflito palestino quando a situação se tornar insuportável. Ou cisma interno violento entre seculares e religiosos disputando a alma do Estado. Dessas crises, e digo quando, não se, Israel emerge transformado. Talvez menor territorialmente mas finalmente coeso. Talvez maior mas binacional, governando israelenses e palestinos igualmente. Talvez fragmentado em entidades semiautônomas. A transição será sangrenta e quebrará corações, mas forçará confrontação com realidades evitadas durante décadas.

Você sabe o que Buber realmente queria dizer com Eu-Tu versus Eu-Isso? No relacionamento Eu-Isso, você trata o outro como objeto, ferramenta, problema a ser gerenciado. No relacionamento Eu-Tu, você reconhece o outro como sujeito pleno, tão infinitamente complexo quanto você mesmo. Israel das próximas décadas precisa escolher: continuará tratando ultraortodoxos como peso econômico, árabes israelenses como quinta-coluna potencial, palestinos como ameaça existencial? Ou começará o difícil trabalho do encontro genuíno?

Porque veja, aqui está a verdade que Levinas nos força a encarar: o rosto do Outro nos convoca responsabilidade infinita. Você não pode silenciar essa convocação indefinidamente. Quando um terço da população for ultraortodoxa, quando houver maioria árabe entre mar e rio, quando a próxima geração palestina crescer conhecendo apenas ocupação, quando escassez hídrica forçar cooperação ou guerra, nessas encruzilhadas inevitáveis, não haverá mais como adiar o encontro.

A questão não é se Israel existirá fisicamente em 2075. Suas capacidades militares, econômicas e tecnológicas praticamente garantem isso. A questão é qual Israel existirá. Um Estado-fortaleza governando populações fragmentadas através de força? Uma democracia madura que resolveu suas contradições internas dolorosamente mas honestamente? Um Estado binacional onde judeus e palestinos compartilham poder igualmente? Algo completamente imprevisto nascido de crise?

E a pergunta mais profunda: esse Israel futuro ainda carregará a centelha dos sonhos proféticos? Justiça, justiça perseguirás. O estrangeiro não oprimirás, pois conheceis o coração do estrangeiro. Sereis luz para as nações. Esses não eram slogans vazios para os profetas que os pronunciaram. Eram comandos éticos absolutos, o próprio propósito da existência coletiva judaica.

Israel foi fundado por pessoas que sobreviveram ao inferno, que construíram refúgio das cinzas. Respeito isso profundamente, e você também deveria. Mas sobrevivência não é propósito suficiente para daqui a cinquenta anos. Sobrevivência sem justiça é apenas resistência biológica. Estado sem alma é apenas aparato administrativo. E força sem sabedoria é tirania, mesmo quando exercida por vítimas históricas.

Você e eu não controlamos o futuro de Israel. Mas podemos ao menos pensar claramente sobre ele, sem as defesas automáticas que nos tornam prisioneiros de narrativas confortáveis. Os próximos dez anos determinarão o caminho, se Israel escolherá sua transformação ou terá transformação imposta pelas circunstâncias. A janela está se fechando. A aritmética é implacável. E a história, bem, a história não é particularmente gentil com aqueles que evitam escolhas difíceis até que escolhas impossíveis sejam tudo que resta.

Talvez a sabedoria esteja em reconhecer que não existe segurança sem justiça, não existe identidade sem pluralismo, não existe futuro sem encontrar o Outro, realmente encontrar, no sentido de Buber, como plenamente humano. Difícil? Sim. Possível? Talvez. Necessário? Absolutamente. A alternativa é um Estado que sobrevive mas cujos netos não reconhecerão os sonhos de seus avós, e isso, amigo meu, é seu próprio tipo de morte.​​​​​​​​​​​​​​​​

Mais uma Geração Desperdiçada

Eles voltam com os olhos apagados. Meninos e meninas que até ontem eram luz agora carregam uma noite inteira no olhar. Você já viu essa expressão — em si mesmo ou em amigos. É a marca de quem foi arrancado da juventude e devolvido como sobrevivente. E sobreviventes não voltam inteiros.

Muitos medos nascem do cansaço e da solidão. Os deles surgiram de nossa falha em resolver isso quando chegou a nossa vez de conduzir esta terra. Por incompetência, covardia ou egoísmo, fracassamos em construir um país melhor para a próxima geração. A dor é deles; a culpa é nossa.

Quando éramos jovens e sangrávamos pela mesma guerra, prometemos que a geração seguinte não seria devorada pela mesma máquina. Juramos um país seguro e dissemos que bastava resistir. Sabíamos que estávamos mentindo. Mentir pareceu menos doloroso que admitir a verdade.

Nossa recusa em ceder qualquer coisa está no centro deste conflito desde que nos tornamos fortes. A tragédia verdadeira é que muitos acreditam que ceder é ser derrotado. E se somos fortes, por que aceitar derrotas? É por isso que o fascismo, o extremismo e a violência cresceram tanto aqui.

O descompasso começou antes. Entre o que sonhamos ser como nação jovem e aquilo em que nos tornamos ao ganhar poder, abriu-se um abismo. Como escreveu Maquiavel em O Príncipe, líderes precisam usar força e até crueldade para manter o poder, mas devem cuidar do bem-estar do povo para evitar a rebelião. Aprendemos essa lição da pior forma. A violência, que deveria ser consequência, virou causa. Transformamos medo em muros. Na solidão construída para evitar soluções, passamos a ver o outro como ameaça.

Então, quando nossos filhos perguntaram que mundo lhes deixaríamos, respondemos com o único que conhecíamos: uma guerra eterna, nunca resolvida. Sabíamos que viria outro confronto. Ainda assim, escolhemos sacrificá-los.

Fechamos todas as portas porque abrir exige energia que já não temos — pelo menos por enquanto. Cercamos fronteiras porque proteger parece mais simples do que devolver o que não nos pertence mais. Erguemos muros porque negar a existência do outro nos ensinou que isolamento soa como segurança. Tomamos uma terra que um dia foi nossa, mas já não é. Lá vivem três milhões de pessoas que não pertencem à nossa tribo. E, ainda assim, seguimos mandando nossos meninos e meninas morrerem por uma posse pertencente ao passado.

Não os preparamos para nada. Nem para a paz, porque nunca a buscamos de verdade. Nem para a guerra, porque admiti-la seria reconhecer o fracasso. Lançamos nossos filhos ao fogo.

Agora é a vez deles viverem o terror que suportamos pela incompetência dos que vieram antes. E é a vez deles morrerem por dentro. Em cada silêncio, em cada madrugada em que acordam sozinhos, descobrem que herdaram não só a guerra, mas o cansaço, a solidão, o descompasso e o fracasso.

A depressão deles não é fraqueza. É a consciência de que nasceram para pagar o preço da nossa recusa em mudar.

Você e eu éramos os adultos na sala. Deveríamos tê-los conduzido a uma nova era, mas como a geração anterior, elegemos o medo para governar porque estávamos cansados demais para eleger a esperança. Poderíamos ter percebido que o outro sangra como nós, chora como nós, deseja paz como nós. A mesquinhez nos ensinou que confiar é fraqueza. O cansaço nos convenceu de que mudar custava mais do que repetir o erro.

Então repetimos. Chamamos de destino o que era apenas covardia.

O desperdício de uma geração não acontece de repente. Cresce no acúmulo de dias em que escolhemos o horror familiar porque mudar exige energia que dizemos não ter — mesmo sabendo exatamente o que estamos fazendo e fazendo assim mesmo.

Se tínhamos um dever, era romper o ciclo. Falhamos. Alargamos o abismo. O que fizemos não foi acidente: foi decisão consciente, repetida dia após dia, de preservar o mundo que conhecemos e pagar com a vida deles.

Agora caminhamos pelas ruas e vemos o resultado: uma nova geração carregando o cansaço, a raiva e a solidão. Eles nos olham e veem o descompasso encarnado — adultos que prometeram paz e entregaram guerra, que falaram de futuro e ergueram repetição.

Essa é a verdade que precisamos ter coragem de encarar.

Responsabilidade não é apenas admitir o que fizemos. É reconhecer que desperdiçamos mais uma geração sabendo exatamente que a estávamos desperdiçando.

E agora, diante dessa geração quebrada, a pergunta não é por que eles estão destruídos — nós sabemos por quê. A pergunta é mais dura e mais urgente:

Estamos fazendo algo diferente pela próxima geração?

Ou arrogância, incompetência e egoísmo já preparam o próximo desperdício? Já estamos olhando para os meninos e meninas que ainda são luz e decidindo, outra vez, que é mais fácil sacrificá-los do que mudar?