A Geometria do Abandono

Há uma cena captada em vídeo em que um homem palestino grita em duas línguas ao mesmo tempo. Primeiro em árabe, para que os seus vizinhos tragam água. Depois em hebraico, para que os soldados israelenses presentes no fundo do quadro entendam que há crianças dentro da casa que está pegando fogo. O homem fala em duas línguas porque aprendeu, ao longo de décadas, que a sua própria não é suficiente para ser ouvido. E ainda assim, em ambas, não é ouvido.
Assisti a esse vídeo várias vezes. Não porque goste de me castigar, mas porque sinto que há, naquele instante de vinte e poucos segundos, gravado anteontem à noite na aldeia de Susiya, ao sul de Hebron, algo que nenhum relatório técnico consegue alcançar: a geometria do abandono. A forma como um ser humano aprende, em tempo real, que as instituições criadas para protegê-lo estão presentes mas não disponíveis. Uniformizadas mas não comprometidas. Armadas, mas não com a intenção de usar as armas a seu favor.
Os soldados não se movem. O fogo continua.
Existem eventos que os analistas chamam de pontos de inflexão e que outros, se forem honestos, deveriam chamar de momentos de revelação. A diferença não é apenas de vocabulário. Um ponto de inflexão é uma mudança de trajetória. Uma revelação é um instante em que aquilo que sempre existiu finalmente se torna impossível de ignorar. O que aconteceu em Susiya na segunda-feira é ambos, mas sobretudo o segundo.
A violência dos colonos na Cisjordânia não é nova. Os incêndios não são novos. A passividade das forças militares diante deles tampouco é nova. O que é novo é a formalização burocrática dessa violência. Em 8 e 9 de fevereiro, o gabinete de segurança israelense aprovou medidas que revogam restrições históricas à compra de terras palestinas por cidadãos israelenses, e retomaram o registro de propriedades na Área C. Para quem estuda a história colonial comparada, o gesto é familiar: o fogo vem antes, o título de propriedade vem depois. O medo desbasta o terreno; a lei o formaliza.
Hannah Arendt escreveu em Origens do Totalitarismo que a privação dos direitos começa sempre pela privação do direito a ter direitos. O que está sendo construído em Masafer Yatta não é apenas a ausência de proteção; é a construção jurídica de uma categoria de pessoa para quem a proteção não se aplica, e a simultânea aceitação dessa categoria na linguagem dos relatórios militares, na cobertura da mídia que descreve incêndios como atrito entre populações.
Atrito. Como se o fogo fosse uma força da natureza. Como se os incendiários fossem partículas em colisão.
Hamdan Ballal, cujo irmão foi agredido até a cianose facial, cujos familiares foram algemados e depois abandonados à noite em uma estrada frequentada por colonos armados, co-dirigiu com o israelense Yuval Abraham o documentário No Other Land, vencedor do Oscar de Melhor Documentário em março de 2025. Na cerimônia em Los Angeles, Abraham usou o palco para falar sobre a desigualdade entre ele, cidadão israelense com direitos plenos, e Ballal, que vive sob ocupação militar. Houve vaias. Houve aplausos. O mundo assistiu a dois homens, um israelense e um palestino, que fizeram um filme juntos sobre a destruição de um lugar, e não conseguiu decidir se isso era coragem ou traição.
Em Israel, a resposta foi mais direta. O filme não recebeu distribuição comercial. Exibições universitárias e independentes enfrentaram pressão para serem canceladas. Políticos da coalizão governante classificaram Abraham publicamente como traidor. Houve pedidos formais de investigação contra ele. Nas redes sociais e em certos meios profissionais, citar o filme ou expressar solidariedade com seus diretores passou a ter consequências reais. Um país que pune os seus próprios cidadãos por documentar o que acontece dentro do território que controla não está apenas suprimindo uma narrativa externa. Está suprimindo o testemunho interno. E quando o testemunho se torna traição, o que resta não é segurança. É silêncio administrado.
É nesse contexto que se deve ler o que aconteceu com a família Ballal nas semanas seguintes ao Oscar. A agressão contra Mohammed Ballal, a detenção dos familiares, o abandono deles à noite em uma estrada frequentada por colonos armados, esses eventos não ocorreram apesar da visibilidade internacional do filme. Ocorreram por causa dela. A violência em Masafer Yatta tem sempre tido como alvo os corpos que estão no terreno. Depois do Oscar, passou a ter também como alvo a voz que os representa fora dele.
Há uma distinção que vale guardar: entre espaço e lugar. O espaço é abstrato, mensurável, permutável. O lugar é vivido, carregado de história, de cheiros, de mortos enterrados e de filhos nascidos. O que a estratégia de deslocamento em Masafer Yatta ataca, através dos incêndios, das demolições, do corte de tubulações de água, da destruição de painéis solares nas escolas, não é o espaço. É o lugar. É a teia de relações entre pessoas e terra que torna a vida não apenas possível mas com sentido.
Quando se destrói o caminhão que transporta água, não se está apenas privando pessoas de hidratação. Está-se destruindo a prova material de que amanhã será possível, de que haverá um amanhã suficientemente parecido com hoje para que valha a pena insistir.
É tentador separar o que está acontecendo em Susiya da geopolítica regional, e desta dos grandes jogos de poder entre Washington, Teerã e Damasco. Os analistas adoram essas separações. Elas permitem que se fale de cada coisa sem falar de todas ao mesmo tempo. Mas o homem que grita em duas línguas não tem esse luxo.
A queda do regime de Assad na Síria, a atenção americana voltada para o programa nuclear iraniano, os porta-aviões no Golfo, tudo isso é real e tudo isso importa. Mas importa também, e isso é o que os relatórios geopolíticos frequentemente deixam de fora por uma espécie de pudor técnico, que a atenção é um recurso finito, e que quem controla onde ela é dirigida controla, em alguma medida, o que pode ser feito enquanto o mundo olha para outro lado.
A cobertura da mídia documenta este fenômeno sem nomeá-lo com clareza. Enquanto a mídia israelense trata os incêndios de Susiya como relatos palestinos aguardando confirmação, e enquanto a ocidental os insere dentro de uma tendência de longo prazo, o que é verdade mas tem o efeito de torná-los esperados, portanto menos urgentes, os incêndios continuam. A contextualização, quando não é acompanhada de indignação, torna-se uma forma sofisticada de anestesia.
Existe uma estatística que persiste: 94% das investigações sobre crimes cometidos por colonos contra palestinos na Cisjordânia são encerradas sem indiciamento. Apenas 3% resultam em condenação.
Sei que números em sistemas jurídicos são complicados. Sei que encerrado sem indiciamento não é automaticamente equivalente a crime impune. Existem razões processuais, lacunas probatórias, complexidades de jurisdição. Mas sei também que quando os números são tão consistentes ao longo de duas décadas, deixam de ser acidentais e tornam-se estruturais. Uma taxa de impunidade de 94% não é uma falha do sistema. É o sistema.
E quando o sistema funciona desta maneira, quando o agressor sabe por experiência estatisticamente fundamentada que não haverá consequências, a violência deixa de ser um ato individual e passa a ser uma política. Não necessariamente declarada, não formalizada em nenhuma circular governamental. Mas política no sentido mais concreto: uma forma de organizar o mundo de acordo com uma hierarquia de quem merece ser protegido.
Os soldados que observaram o fogo em Susiya não tomaram uma decisão anteontem à noite. Seguiram uma norma não escrita mas perfeitamente compreendida por todos os presentes. A sedimentação de décadas.
Susiya existe. As pessoas que vivem em Susiya têm nomes. Mohammed Ballal, cujo pescoço foi pressionado com força suficiente para provocar cianose, tem um nome. As quatro pessoas que inalaram fumaça na noite de segunda-feira têm nomes. As crianças que estavam dentro da casa enquanto o portão ardia têm nomes.
Há um tipo de crueldade que opera através da abstração. Que transforma pessoas em populações, e populações em problemas demográficos, e problemas demográficos em questões de planejamento territorial. Cada passo nessa escada torna o próximo ato de violência um pouco mais administrável, um pouco mais técnico, um pouco menos parecido com o que é.
O homem que gritou em duas línguas recusou-se a ser abstrato. Ele gritou porque havia crianças concretas, num lugar concreto, com fogo concreto chegando perto. E os soldados, concretos, uniformizados, presentes, não se moveram.
Essa imobilidade é o escândalo. É o momento em que a pretensão de uma ordem jurídica que protege a todos igualmente encontra o teste da realidade e o reprova, às 21h54 de uma segunda-feira em fevereiro, com o céu alaranjado sobre Susiya e alguém gritando em duas línguas ao mesmo tempo.
O fogo apaga. A pergunta, quem teria apagado se tivesse querido, permanece acesa.​​​​​​​​​​​​​​​​

Nem só de macarrão viverão o homem e a mulher: sobre o que é e o que não é a fidelidade

Nem só de macarrão viverão o homem e a mulher: sobre o que é e o que não é a fidelidade

Uma das proclamadas colunas da relação matrimonial, do modo como está na Legislação brasileira e nos púlpitos, é a fidelidade conjugal.

Mas, há um erro de origem, porque confundimos relação matrimonial com relação conjugal.

A primeira é simplesmente a relação jurídica, o ato jurídico formal e cartorário e, quiçá, um sacramento religioso católico, aliás, pouco compreensível, considerando que os líderes daquela religião nada sabem de relações matrimoniais e, muito menos, de relações conjugais.

 

Lembrei-me do encontro entre um padre e um rabino.

A provocação do padre:

– Paz, o senhor não quer um pedacinho da costelinha de porco?

– Como? O senhor não sabe que judeus não comem carne de porco?

– O senhor não sabe o que está perdendo – é uma delícia…

E, ao final do encontro, provocou o rabino:

– Shalom. Recomendações à sua esposa.

– Como? O senhor não sabe que padres não se casam?

– O senhor não sabe o que está perdendo – é uma delícia…

 

Va bene

A segunda é a relação humana entre um homem e uma mulher que se permitem ao encontro amoroso, seja ou não pelo casamento. Daí, encontrarmos a relação conjugal, também, na União Estável e, outra vez, é a roupagem jurídica.

A fidelidade aparece em todas, com ou sem compreensão.

Fidelidade é uma palavra cuja raiz  fides  aponta para uma substância. A substância de uma relação da qual se esperam atitudes, movimentos, cumplicidade!

Pois bem, na interpretação empobrecida, as relações são pautadas pela fidelidade no sentido de esperar que um e outro não se relacionem para além do matrimônio, ou seja, não tenham uma aventura extraconjugal!

Mas, seria isso mesmo a fidelidade? Sim. No sentido jurídico, matrimonial e eclesiástico. É o conceito de fidelidade nestes contextos, e só!

Porém, a resposta pode ser outra. Ou seja, não! A fidelidade não é isso, ainda que se leia assim pela maioria dos juristas ou sacerdotes, ávidos por notícias escandalosas, seja para procedimentos forenses, seja para assunto de púlpito no domingo ou motivadoras de reuniões de oração e vigília!

Ser fiel ao outro é movimentar-se em direção ao encontro de corpos, de sentimentos e de descobertas! Ser fiel ao outro, ou manter-se em uma relação de fidelidade é dar manutenção ao fogo “sagrado” ou à “mesa”, situações em que se mantém uma relação para além da fragilidade religiosa ou formalismo civilístico e jurídico. Refiro-me à relação Eu-Tu! Quando alguém se propõe a uma relação duradouramente conjugal, espera que o outro se movimente, trazendo a doçura, o encanto, a Poesia, o fogo, o amor, a emoção, o ardor – a vida, enfim!

É o que ambos devem portar em suas mãos. A oferta de si a fim de que o outro se torne participante de delícias, que voe e avance, e seja descoberto como humano ao ponto mais alto! Relação em que o ‘outro’ é superado pelo Tu!

Ninguém se casa por amor ao ato jurídico cartorário, ou seja, casamento! Ninguém permanece em uma União Estável, por amor à relação jurídica, atualmente, protegida pelo Direito. Casamento e União Estável são apenas roupagens jurídicas de relações, e não espelham absolutamente nada!

Apenas juristas e sacerdotes conservadores veem o casamento como sagrado. Estão errados! Pois há flagrante inversão por conta da qual passamos a valorizar uma suposta estrutura em detrimento de um conteúdo. Em outras palavras, há uma distância descabida entre uma relação naturalmente humana e o que se propõe como matrimônio ou casamento.

Se houver algo sagrado é o encontro! A descoberta de dois seres, envolvidos pelo afeto, compromissados em entregar algo, como um tesouro trazido de longe! A fidelidade é esta entrega, este despojamento, esta intensidade de seres que se permitem à felicidade do completamento dialógico Eu-Tu!

Há pessoas que se casam para alcançar objetivos materiais. Há pessoas que se casam por aberração religiosa. Há pessoas que se casam para projeções sociais ou profissionais! Mas, em todos estes casos (apenas para citar alguns) dificilmente haverá encontro, cumplicidade!

Na maioria dos casos, a relação fria e jurídica traz apenas desfazimento do ser, desconstituição dos sentimentos, aborrecimento e perversidade, além, lógico, de uma impagável conta de cerimoniais. São relações de autodestruição!

Para além das interpretações horizontais, jurídicas ou religiosas, vale a experiência humana do afeto, do amor, da Poesia e da intensidade. Esta é a experiência da fidelidade que se jura!

Ser fiel, ou viver em fidelidade, é manter a própria humanidade, o amor próprio, a dignidade, a intensidade poética e a integridade física e emocional completamente protegidos – ainda que seja contra a relação matrimonial, pois para além da formalidade jurídica, está a essência humana que busca não o culto ao falso sacramento, mas o vigor afetivo, sem o qual não somos humanos, não estamos vivos e somos infiéis a nós mesmos!

© Pietro Nardella-Dellova. Nem só de macarrão viverão o homem e a mulher: sobre o que é e o que não é a fidelidade in A Morte do Poeta nos Penhascos e Outros Monólogos. São Paulo: Editora Scortecci, 2009, pp. 118-122.

 

Imagem: Tuan Ngyen

Toda vida genuína é encontro

Veja, você e eu precisamos conversar sobre Israel, mas não da maneira que normalmente se fala, com slogans de um lado, indignação moral do outro, e aquela certeza absoluta que paralisa qualquer pensamento genuíno. Quero convidá-lo a olhar comigo para algo mais profundo, mais humano, e honestamente, mais assustador: o que acontece quando um sonho bem-intencionado colide com a realidade implacável dos números, do tempo e da natureza humana.

Martin Buber, aquele pensador que viveu entre Jerusalém e o diálogo, nos disse algo que parece simples mas é devastadoramente profundo: toda vida genuína é encontro. Não transação, não tolerância, não coexistência tensa, mas encontro. Quando você realmente encontra outro ser humano, quando vê seus olhos e reconhece ali algo que também habita em você, tudo muda. Pois bem, Israel hoje tem 9,73 milhões de pessoas segundo os dados oficiais de 2023, e a grande tragédia, a ferida oculta que você precisa entender, é que essas pessoas não estão se encontrando. Estão colidindo, negociando, tolerando-se com esforço, às vezes odiando-se, mas raramente se encontrando no sentido que Buber propunha.

Deixe-me mostrar por que isso importa para os próximos cinquenta anos. Quando você olha a superfície, vê um país próspero, com renda per capita de 54.660 dólares segundo o Banco Mundial de 2022, startups inovadoras, acordos de paz com nações árabes gerando bilhões em comércio. Mas Emmanuel Levinas, outro pensador que entendeu profundamente o judaísmo, nos alertou que a ética precede a ontologia. O que isso significa para você e para mim? Significa que antes de perguntarmos quem somos, precisamos perguntar como tratamos o Outro. E quando fazemos essa pergunta honesta sobre Israel, os números revelam algo perturbador.

Imagine comigo esta cena: em Bnei Brak, um jovem ultraortodoxo estuda Talmud dezoito horas por dia. Ele tem seis irmãos, sua família terá em média 6,6 crianças segundo as estatísticas do Escritório Central de Estatísticas. Ele não serve no exército, não aprende matemática ou inglês, e provavelmente nunca trabalhará no mercado secular, já que apenas 43% dos homens ultraortodoxos o fazem. Ele acredita profundamente que estudar Torá protege Israel mais que qualquer tanque. Agora vá comigo até Tel Aviv, quarenta minutos de distância. Uma jovem programadora trabalha numa startup, tem talvez um ou dois filhos planejados, serve na inteligência militar, viaja o mundo. Ela acredita que inovação tecnológica e integração global são a salvação de Israel. Essas duas pessoas vivem no mesmo país, mas habitam universos morais completamente diferentes. E aqui está o que você precisa entender: a família dele cresce exponencialmente enquanto a dela mal se reproduz.

O Centro de Pesquisa Pew mostrou em 2016 que 49% dos judeus israelenses são seculares, mas as projeções demográficas do Instituto pela Democracia de Israel indicam que os ultraortodoxos, hoje 13,5% da população, serão 32% em 2065. Você está acompanhando o que isso significa? Em cinquenta anos, um terço de Israel será composto por pessoas que não participam da economia que sustenta o Estado, que frequentemente questionam a legitimidade do próprio sionismo, que vivem em pobreza. Quarenta e cinco por cento das famílias ultraortodoxas estão abaixo da linha da pobreza segundo o Instituto Nacional de Seguro de 2022.

Yeshayahu Leibowitz, aquele velho rabino ranzinza e brilhante, alertou durante décadas: quando você transforma religião em ferramenta do nacionalismo, corrompe ambas. Israel está descobrindo isso da maneira mais dolorosa possível. Como sustentar uma democracia liberal quando um terço da população rejeita seus valores fundamentais? Como manter uma economia de alta tecnologia quando um terço da população estuda apenas textos religiosos? Como definir um Estado judeu quando os próprios judeus discordam radicalmente sobre o que isso significa?

E veja, isso é apenas uma camada do problema. Ahad Ha’am, lá no início do sionismo, propôs algo que hoje soa quase profético: esqueça o Estado político, crie um centro espiritual judaico. Ele temia exatamente o que aconteceu, que o nacionalismo político corromperia a ética judaica. Segundo pesquisa recente do Instituto pela Democracia de Israel, 76% dos judeus seculares israelenses dizem que democracia é fundamental, mas apenas 23% dos ultraortodoxos concordam. Leia isso de novo. Não há consenso básico sobre os valores que devem reger a sociedade.

Você consegue sentir a fratura aqui? Não estamos falando de discordâncias políticas normais, democrata versus republicano, trabalhista versus conservador. Estamos falando de populações que não compartilham premissas fundamentais sobre o que constitui uma boa sociedade, vivendo no mesmo território, caminhando inexoravelmente para que um grupo se torne maioria.

Mas espere, porque precisamos ir mais fundo. Hannah Arendt, aquela pensadora incômoda que os israelenses amaram odiar, disse algo irrefutável: democracia sem igualdade política é impossível. Então me acompanhe nestes números, porque eles contam uma história que nenhuma narrativa ideológica consegue obscurecer. Entre o Mediterrâneo e o rio Jordão, ou seja, em todo território controlado por Israel, vivem aproximadamente 7,2 milhões de judeus e 7,1 milhões de árabes. Na Cisjordânia, 3 milhões de palestinos convivem com 475.000 colonos israelenses segundo dados da Paz Agora de 2023. Em Gaza, 2,3 milhões de pessoas comprimidas em 365 quilômetros quadrados.

Abraham Joshua Heschel, aquele rabino que marchou com Martin Luther King Jr., escreveu que a indiferença ao sofrimento é a essência do profano. Então preciso perguntar a você, sem retórica, sem defesas automáticas: como você chama uma situação onde milhões de pessoas vivem sob controle de um governo no qual não podem votar, em território que não têm permissão para deixar livremente, sob leis que não ajudaram a escrever? A taxa de desemprego em Gaza antes dos conflitos recentes era 45%, segundo o Escritório Central de Estatísticas Palestino. Na Cisjordânia, 13,9%. Essas pessoas têm rostos, famílias, sonhos. O que Levinas diria sobre nossa responsabilidade diante desses rostos?

E as projeções demográficas não mentem: dentro de uma a duas décadas, haverá maioria árabe entre o mar e o rio. Você entende o que isso significa? Israel terá que escolher. Separação genuína criando um Estado palestino viável, ou integração política dando cidadania plena a todos, ou aprofundamento de um sistema onde diferentes grupos no mesmo território têm direitos fundamentalmente diferentes. Não há quarta opção. Postergar a escolha é escolher a terceira por omissão.

Os Acordos de Abraão trouxeram paz com Dubai e Abu Dhabi, maravilhoso, genuinamente importante, 2,5 bilhões de dólares em comércio bilateral em dois anos. Mas você consegue ver a ironia? Israel normalizou relações com países a milhares de quilômetros enquanto não tem paz com pessoas a poucos quilômetros de distância. É como fazer amizade com vizinhos distantes enquanto seu próprio quintal está em chamas.

E isso antes de falarmos de clima. O Serviço Meteorológico de Israel documenta 1,5 grau Celsius de aquecimento desde 1950 e 10% menos chuva. O Mar da Galileia, a única fonte significativa de água doce natural, está minguando. Sim, Israel é líder mundial em dessalinização, 85% da água potável vem do mar segundo a Autoridade da Água de Israel de 2023. Mas isso é intensivo em energia e caro. E água não se importa com narrativas históricas ou direitos ancestrais. Água simplesmente acaba. A questão hídrica com Jordânia e palestinos, já explosiva, só vai piorar. Como compartilhar escassez quando não se consegue compartilhar nem abundância?

Moisés Maimônides nos ensinou que só podemos descrever Deus negativamente, sabemos o que Ele não é, mas não podemos apreender completamente o que Ele é. Sabe, acho que Israel contemporâneo enfrenta algo similar. Após 77 anos, a identidade israelense se define pelo que rejeita: antissemitismo, Holocausto, ameaças externas, terrorismo. Mas o que Israel afirma positivamente quando não está se defendendo? Que sociedade deseja construir quando não está erguendo muros? Que valores realmente compartilha?

Deixe-me ser honesto com você sobre os próximos cinquenta anos, porque otimismo infundado não nos serve. Vejo três caminhos possíveis, e apenas um termina bem.

O primeiro caminho é fragmentação lenta e dolorosa. A minoria secular produtiva sustenta crescente maioria ultraortodoxa empobrecida. O conflito palestino permanece congelado através de força militar. Desigualdade explode. Para manter essa estrutura insustentável, o governo se torna progressivamente autoritário, porque estruturas injustas sempre requerem autoritarismo para persistir. Internacionalmente, Israel se torna pária, dependente de poucos aliados. O Estado sobrevive, mas espiritualmente está morto. É o Israel que nenhum dos fundadores reconheceria, um aparato de segurança governando populações fragmentadas que não compartilham valores nem visão. Esse caminho é plausível porque requer apenas inércia, basta não fazer nada.

O segundo caminho é transformação corajosa, mas preciso ser franco: não vejo liderança atual capaz disso. Requereria reformas constitucionais profundas: separação genuína entre religião e Estado, integração total de cidadãos árabes, solução de dois Estados com palestinos baseada em concessões mútuas genuínas, reforma educacional que integra ultraortodoxos à economia moderna respeitando sua identidade, cooperação regional massiva sobre água e energia. Israel se tornaria ponte entre civilizações, democracia exemplar que honra herança particular sem trair valores universais. Martin Buber sorriria. Mas isso requer políticos dispostos a sacrificar carreiras, populações dispostas a confrontar verdades desconfortáveis, e momento que talvez já tenha passado.

O terceiro caminho, temo, é o mais provável: mudança forçada por crise. Colapso econômico quando os números simplesmente não fecharem mais. Ou conflito regional severo. Ou intervenção internacional no conflito palestino quando a situação se tornar insuportável. Ou cisma interno violento entre seculares e religiosos disputando a alma do Estado. Dessas crises, e digo quando, não se, Israel emerge transformado. Talvez menor territorialmente mas finalmente coeso. Talvez maior mas binacional, governando israelenses e palestinos igualmente. Talvez fragmentado em entidades semiautônomas. A transição será sangrenta e quebrará corações, mas forçará confrontação com realidades evitadas durante décadas.

Você sabe o que Buber realmente queria dizer com Eu-Tu versus Eu-Isso? No relacionamento Eu-Isso, você trata o outro como objeto, ferramenta, problema a ser gerenciado. No relacionamento Eu-Tu, você reconhece o outro como sujeito pleno, tão infinitamente complexo quanto você mesmo. Israel das próximas décadas precisa escolher: continuará tratando ultraortodoxos como peso econômico, árabes israelenses como quinta-coluna potencial, palestinos como ameaça existencial? Ou começará o difícil trabalho do encontro genuíno?

Porque veja, aqui está a verdade que Levinas nos força a encarar: o rosto do Outro nos convoca responsabilidade infinita. Você não pode silenciar essa convocação indefinidamente. Quando um terço da população for ultraortodoxa, quando houver maioria árabe entre mar e rio, quando a próxima geração palestina crescer conhecendo apenas ocupação, quando escassez hídrica forçar cooperação ou guerra, nessas encruzilhadas inevitáveis, não haverá mais como adiar o encontro.

A questão não é se Israel existirá fisicamente em 2075. Suas capacidades militares, econômicas e tecnológicas praticamente garantem isso. A questão é qual Israel existirá. Um Estado-fortaleza governando populações fragmentadas através de força? Uma democracia madura que resolveu suas contradições internas dolorosamente mas honestamente? Um Estado binacional onde judeus e palestinos compartilham poder igualmente? Algo completamente imprevisto nascido de crise?

E a pergunta mais profunda: esse Israel futuro ainda carregará a centelha dos sonhos proféticos? Justiça, justiça perseguirás. O estrangeiro não oprimirás, pois conheceis o coração do estrangeiro. Sereis luz para as nações. Esses não eram slogans vazios para os profetas que os pronunciaram. Eram comandos éticos absolutos, o próprio propósito da existência coletiva judaica.

Israel foi fundado por pessoas que sobreviveram ao inferno, que construíram refúgio das cinzas. Respeito isso profundamente, e você também deveria. Mas sobrevivência não é propósito suficiente para daqui a cinquenta anos. Sobrevivência sem justiça é apenas resistência biológica. Estado sem alma é apenas aparato administrativo. E força sem sabedoria é tirania, mesmo quando exercida por vítimas históricas.

Você e eu não controlamos o futuro de Israel. Mas podemos ao menos pensar claramente sobre ele, sem as defesas automáticas que nos tornam prisioneiros de narrativas confortáveis. Os próximos dez anos determinarão o caminho, se Israel escolherá sua transformação ou terá transformação imposta pelas circunstâncias. A janela está se fechando. A aritmética é implacável. E a história, bem, a história não é particularmente gentil com aqueles que evitam escolhas difíceis até que escolhas impossíveis sejam tudo que resta.

Talvez a sabedoria esteja em reconhecer que não existe segurança sem justiça, não existe identidade sem pluralismo, não existe futuro sem encontrar o Outro, realmente encontrar, no sentido de Buber, como plenamente humano. Difícil? Sim. Possível? Talvez. Necessário? Absolutamente. A alternativa é um Estado que sobrevive mas cujos netos não reconhecerão os sonhos de seus avós, e isso, amigo meu, é seu próprio tipo de morte.​​​​​​​​​​​​​​​​

Mais uma Geração Desperdiçada

Eles voltam com os olhos apagados. Meninos e meninas que até ontem eram luz agora carregam uma noite inteira no olhar. Você já viu essa expressão — em si mesmo ou em amigos. É a marca de quem foi arrancado da juventude e devolvido como sobrevivente. E sobreviventes não voltam inteiros.

Muitos medos nascem do cansaço e da solidão. Os deles surgiram de nossa falha em resolver isso quando chegou a nossa vez de conduzir esta terra. Por incompetência, covardia ou egoísmo, fracassamos em construir um país melhor para a próxima geração. A dor é deles; a culpa é nossa.

Quando éramos jovens e sangrávamos pela mesma guerra, prometemos que a geração seguinte não seria devorada pela mesma máquina. Juramos um país seguro e dissemos que bastava resistir. Sabíamos que estávamos mentindo. Mentir pareceu menos doloroso que admitir a verdade.

Nossa recusa em ceder qualquer coisa está no centro deste conflito desde que nos tornamos fortes. A tragédia verdadeira é que muitos acreditam que ceder é ser derrotado. E se somos fortes, por que aceitar derrotas? É por isso que o fascismo, o extremismo e a violência cresceram tanto aqui.

O descompasso começou antes. Entre o que sonhamos ser como nação jovem e aquilo em que nos tornamos ao ganhar poder, abriu-se um abismo. Como escreveu Maquiavel em O Príncipe, líderes precisam usar força e até crueldade para manter o poder, mas devem cuidar do bem-estar do povo para evitar a rebelião. Aprendemos essa lição da pior forma. A violência, que deveria ser consequência, virou causa. Transformamos medo em muros. Na solidão construída para evitar soluções, passamos a ver o outro como ameaça.

Então, quando nossos filhos perguntaram que mundo lhes deixaríamos, respondemos com o único que conhecíamos: uma guerra eterna, nunca resolvida. Sabíamos que viria outro confronto. Ainda assim, escolhemos sacrificá-los.

Fechamos todas as portas porque abrir exige energia que já não temos — pelo menos por enquanto. Cercamos fronteiras porque proteger parece mais simples do que devolver o que não nos pertence mais. Erguemos muros porque negar a existência do outro nos ensinou que isolamento soa como segurança. Tomamos uma terra que um dia foi nossa, mas já não é. Lá vivem três milhões de pessoas que não pertencem à nossa tribo. E, ainda assim, seguimos mandando nossos meninos e meninas morrerem por uma posse pertencente ao passado.

Não os preparamos para nada. Nem para a paz, porque nunca a buscamos de verdade. Nem para a guerra, porque admiti-la seria reconhecer o fracasso. Lançamos nossos filhos ao fogo.

Agora é a vez deles viverem o terror que suportamos pela incompetência dos que vieram antes. E é a vez deles morrerem por dentro. Em cada silêncio, em cada madrugada em que acordam sozinhos, descobrem que herdaram não só a guerra, mas o cansaço, a solidão, o descompasso e o fracasso.

A depressão deles não é fraqueza. É a consciência de que nasceram para pagar o preço da nossa recusa em mudar.

Você e eu éramos os adultos na sala. Deveríamos tê-los conduzido a uma nova era, mas como a geração anterior, elegemos o medo para governar porque estávamos cansados demais para eleger a esperança. Poderíamos ter percebido que o outro sangra como nós, chora como nós, deseja paz como nós. A mesquinhez nos ensinou que confiar é fraqueza. O cansaço nos convenceu de que mudar custava mais do que repetir o erro.

Então repetimos. Chamamos de destino o que era apenas covardia.

O desperdício de uma geração não acontece de repente. Cresce no acúmulo de dias em que escolhemos o horror familiar porque mudar exige energia que dizemos não ter — mesmo sabendo exatamente o que estamos fazendo e fazendo assim mesmo.

Se tínhamos um dever, era romper o ciclo. Falhamos. Alargamos o abismo. O que fizemos não foi acidente: foi decisão consciente, repetida dia após dia, de preservar o mundo que conhecemos e pagar com a vida deles.

Agora caminhamos pelas ruas e vemos o resultado: uma nova geração carregando o cansaço, a raiva e a solidão. Eles nos olham e veem o descompasso encarnado — adultos que prometeram paz e entregaram guerra, que falaram de futuro e ergueram repetição.

Essa é a verdade que precisamos ter coragem de encarar.

Responsabilidade não é apenas admitir o que fizemos. É reconhecer que desperdiçamos mais uma geração sabendo exatamente que a estávamos desperdiçando.

E agora, diante dessa geração quebrada, a pergunta não é por que eles estão destruídos — nós sabemos por quê. A pergunta é mais dura e mais urgente:

Estamos fazendo algo diferente pela próxima geração?

Ou arrogância, incompetência e egoísmo já preparam o próximo desperdício? Já estamos olhando para os meninos e meninas que ainda são luz e decidindo, outra vez, que é mais fácil sacrificá-los do que mudar?

Nunca Mais?

Eu sei, e isso não é uma certeza que me conforta, mas um peso que arrasto, uma pedra amarrada ao peito. Sei que a dor não escolhe bandeiras nem reconhece fronteiras; ela se espalha como água pela terra rachada, infiltrando-se em cada fissura da alma humana. Aqui estou eu: israelense, sionista, mas, acima de tudo, ou talvez por causa de tudo isso, um homem que respira e sangra. Alguém que não consegue, por mais que a tribo o chame de volta à certeza confortável da verdade única, fechar os olhos para o sofrimento que se desenrola do outro lado desta linha que os homens traçaram sobre a terra, como se fosse possível dividir a dor com uma régua.

Kant escreveu sobre a razão pura. Eu o leio e releio, buscando naquelas páginas densas uma resposta que me permita continuar de pé. Mas a verdade que me corrói como ácido é que a razão, por mais pura, não consegue acalmar o grito de uma criança. Não importa se essa criança nasceu em Tel Aviv ou em Gaza, se reza voltada para Jerusalém ou para Meca, porque o grito é o mesmo, sempre o mesmo através dos séculos. E nós, na nossa arrogância de construtores de sistemas e muros, insistimos em não ouvi-lo, ou em ouvi-lo apenas quando conveniente, quando serve aos propósitos dessa empatia seletiva que nos permite dormir à noite enquanto outros tremem sob o som que precede a morte.

Carrego o peso da história do meu povo, uma história feita de perseguições, fogueiras e câmaras onde a morte era fabricada em série, como objetos numa linha de montagem. E sei, pois isso está gravado no meu sangue e na memória coletiva que me precede, que nunca mais podemos permitir que tal coisa se repita. Nunca mais. No entanto, e aqui reside o dilaceramento que me parte ao meio, como dois cavalos puxando em direções opostas, eu vejo que o nunca mais se transformou em algo exclusivamente nosso, um nunca mais com nacionalidade e religião. Ele exclui os outros dessa proteção que deveria ser universal, porque a humanidade ou é de todos ou não é humanidade, apenas outra forma de tribalismo disfarçado de princípio moral.

Pergunto-me, incessantemente, onde foi parar essa capacidade de ouvir a dor do mundo. Se a perdemos em algum ponto do caminho entre a vítima e o algoz, se a deixamos secar como um poço abandonado. Parece que nos acostumamos a selecionar quais dores merecem ser ouvidas e quais podem ser ignoradas, como se houvesse um catálogo de sofrimentos legítimos e ilegítimos, como se a dor tivesse graduações e hierarquias em vez de ser simplesmente dor. Essa coisa absoluta que nos iguala na nossa fragilidade de seres que nascem e morrem e que, no intervalo, procuram desesperadamente um sentido que talvez não exista.

Eu quero, e esse querer é uma ferida aberta que não cicatriza, encontrar um caminho que não exija a desumanização do outro. Sei, com a certeza terrível de quem conhece a história, que quando começamos a negar a humanidade de alguém, quando o reduzimos a uma estatística ou a um inimigo abstrato, quando deixamos de ver nos seus olhos o reflexo da nossa própria vulnerabilidade, já demos o primeiro passo em uma direção da qual não há retorno fácil. Já abrimos a porta por onde entra o horror que ninguém consegue depois controlar. E então o ciclo se repete, eternamente, como se fôssemos condenados a girar numa roda que nós mesmos construímos e da qual não sabemos, ou não queremos, sair.

A empatia ampla de que falo não é ingenuidade nem traição, embora muitos me digam que é as duas coisas. É, antes, o reconhecimento de que nossa sobrevivência, não apenas física, mas sobretudo moral, depende da capacidade de ver no outro não um obstáculo à nossa existência, mas um espelho que reflete nossa própria humanidade. Enquanto formos incapazes disso, enquanto continuarmos escolhendo quais lágrimas merecem ser enxugadas e quais podem ser ignoradas, enquanto a razão for usada não para nos aproximar, mas para justificar a separação, continuaremos neste inferno que nós mesmos criamos. Neste lugar onde todos sofrem, mas onde cada um insiste que seu sofrimento é o único que conta, o único que importa, o único que justifica qualquer coisa, até mesmo a perpetuação da dor alheia.

E assim caminho, dividido entre lealdades que me rasgam, entre a história que me constitui e a consciência que me interpela. Sei que não há respostas fáceis, mas me recuso a aceitar que devamos, por isso, parar de procurá-las. Desistir da busca seria abandonar a única coisa que ainda nos separa dos animais ou das pedras; seria renunciar à centelha de humanidade que insiste, teimosamente, apesar de tudo, em continuar acesa.

Uma única gota basta

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Há uma assimetria ontológica entre criação e destruição que o assassinato de Yitzhak Rabin expõe com a crueldade de um teorema matemático. Quando Yigal Amir atirou em Yitzhak Rabin naquela noite de novembro de 1995, dois tiros atravessando as costas do primeiro-ministro, ele não apenas interrompeu uma vida ou abortou um processo político. Ele demonstrou que a negação possui uma força metafísica superior à afirmação, que o não-ser pode devorar o ser com uma facilidade que revela a fragilidade constitutiva de tudo o que chamamos de real. Israel vivia então suspenso entre mundos possíveis. Oslo havia aberto uma fissura no tecido do inevitável e, através dessa abertura, podia-se vislumbrar — não prever, não garantir, mas vislumbrar — um futuro em que o círculo interminável da violência poderia ser quebrado. Mas essa possibilidade existia apenas enquanto permanecesse intocada pela certeza assassina daqueles que confundem convicção com verdade. Bastou uma gota de ódio. Uma única gota. E todo o cálice se tornou veneno.

O que isso revela sobre a natureza da felicidade humana não é apenas psicológico, mas um veredito ontológico. Descobrimos que a alegria não é uma substância robusta, capaz de absorver impurezas e permanecer sendo ela mesma. É, antes, um estado de equilíbrio tão precário que a menor perturbação destrói não apenas sua manifestação, mas a própria possibilidade de sua existência. Considere a estrutura lógica dessa verdade: se a presença de uma única emoção negativa é suficiente para corromper completamente uma experiência positiva, então a felicidade não é apenas rara ou difícil — ela é estruturalmente impossível em qualquer realidade que contenha uma pluralidade de consciências. Pois onde há múltiplas consciências, há múltiplas vontades. E onde há múltiplas vontades, a probabilidade de que ao menos uma escolha o ódio não é apenas alta — é, a longo prazo, uma certeza estatística. Rabin foi morto por um homem que acreditava estar cumprindo a vontade de Deus. Isso não é um comentário sociológico sobre o extremismo religioso. É uma meditação sobre o problema do mal em uma de suas formas mais desconcertantes: o mal que se apresenta a si mesmo como bem absoluto, que não reconhece sua própria negatividade, que não pode ser confrontado pela razão porque opera dentro de um sistema axiomático incompatível com o diálogo. Amir não era um monstro consciente de sua maldade. Era algo mais perigoso: um homem que acreditava estar salvando a alma de sua nação. E é precisamente essa forma de ódio — o ódio vestido de amor, a destruição disfarçada de preservação — que torna a felicidade coletiva não apenas improvável, mas categoricamente impossível.

Aqui, o paradoxo de Popper se materializa com a ironia amarga que só a história é capaz de produzir. Quando Popper alertou que sociedades tolerantes não podem tolerar a intolerância sem se autodestruir, ele não fazia um floreio político; descrevia uma impossibilidade lógica. A tolerância ilimitada leva inevitavelmente à extinção da própria tolerância. Após o assassinato de Rabin, Israel enfrentou uma escolha: confrontar energicamente o extremismo que produziu Amir, ou absorver o choque e seguir em frente, na esperança de que a democracia, por sua própria natureza, contivesse os intolerantes. Escolheu a segunda opção. E trinta anos depois, essa escolha se revela não como magnanimidade democrática, mas como suicídio em câmera lenta. A inação diante da intolerância não é neutralidade; é cumplicidade. O que não foi extirpado cresceu. O discurso que legitimou o assassinato de Rabin — a retórica da traição, a desumanização dos que negociavam a paz, a santificação da violência política — não foi confrontado com a seriedade que sua letalidade exigia. Foi tratado como mais uma posição dentro do espectro democrático, mais uma voz digna de ser ouvida. E essa voz, não silenciada, se amplificou. Hoje, Israel é governado pela coalizão mais extremista de sua história, uma aliança que inclui figuras que, em 1995, seriam impensáveis no centro político. Isso não é coincidência. É causalidade. É o que acontece quando uma sociedade tolera aqueles que não toleram a própria sociedade. A democracia israelense, ao se recusar a defender-se de seus inimigos internos, alimentou-os, legitimou-os e, por fim, os elevou ao poder. O paradoxo de Popper não é uma teoria abstrata; é a estrutura narrativa dos últimos trinta anos de Israel.

Trinta anos depois, Israel vive em um estado de fratura que ultrapassa o político. A sociedade se dividiu não apenas em campos opostos, mas em ontologias incompatíveis. A direita e a esquerda não divergem quanto aos meios — divergem quanto à própria definição do real. Para uns, a segurança é o horizonte último de sentido; para outros, a justiça. E não há ponto arquimediano a partir do qual essas visões possam ser conciliadas, pois cada uma pressupõe um sistema completo de valores inteligível apenas dentro de si mesma. O assassinato de Rabin não criou essa divisão — mas a cristalizou, tornou-a irrevogável, provou que ela podia matar. E, uma vez que se sabe que as diferenças com o outro não são teóricas, mas literalmente fatais, a possibilidade de habitar o mesmo espaço simbólico desaparece. O que Amir destruiu não foi apenas um homem ou um processo de paz. Foi a ficção necessária de que os israelenses compartilhavam um mundo comum. Ele provou que não compartilhavam. Que alguns estavam dispostos a matar para impedir o que outros viam como salvação. E essa descoberta envenenou retroativamente todo o projeto: revelou que a alegria de Oslo era ingênua, que a esperança era uma forma de cegueira, que aqueles que acreditaram na possibilidade da paz eram tolos que não compreendiam a natureza da realidade que habitavam.

Mas aqui reside a questão filosófica mais profunda: aquela alegria era realmente ingênua? Ou será que a única forma de felicidade possível é sempre, necessariamente, uma forma de inocência que a realidade está destinada a trair? Há uma tradição filosófica que enaltece o desencantamento, que vê na perda das ilusões um sinal de maturidade. Mas o assassinato de Rabin sugere algo mais sombrio: que o desencantamento não é sabedoria, mas derrota. Quando perdemos a capacidade de acreditar na possibilidade da alegria pura, não ganhamos clareza; perdemos a própria coisa que tornava a vida digna de ser vivida. Israel hoje é mais realista do que era em 1995. Compreende melhor os limites do possível. Mas esse realismo tem gosto de cinzas. É a sabedoria dos que foram traídos tantas vezes que esqueceram como confiar. E se isso é sabedoria, então a sabedoria é indistinguível do desespero. O extremismo que antes foi deixado à margem agora governa, porque sociedades que se recusam a defender seus princípios fundamentais acabam perdendo o direito de invocá-los.

A gota de ódio permanece no cálice. Trinta anos depois, ainda está lá. A questão não é se podemos removê-la — essa chance se perdeu no momento em que Amir puxou o gatilho e, mais crucialmente, nos anos que se seguiram, quando a sociedade israelense escolheu não extirpar o que o havia produzido. A questão é se é possível beber de um cálice envenenado e ainda chamar o líquido de vida. Se é possível construir a felicidade sobre a memória indelével de sua impossibilidade. Se é possível alegrar-se sabendo que a alegria pode ser assassinada. Essa é a condição existencial que o assassinato de Rabin legou não apenas a Israel, mas a todos que prestam atenção: a consciência de que a felicidade humana é refém permanente da vontade destrutiva de qualquer indivíduo que decida empunhar uma arma. E, uma vez que se sabe disso — uma vez que se sabe de verdade, no corpo, na memória coletiva, na estrutura das instituições —, a inocência necessária para a alegria verdadeira se torna impossível. Ainda é possível experimentar prazer, satisfação, até contentamento. Mas a alegria pura, a possibilidade desimpedida, aquela sensação de que o futuro está aberto e tudo ainda pode ser diferente — essa morreu com Rabin. E talvez precise morrer em toda sociedade, com o tempo. Talvez a alegria coletiva seja sempre uma fase transitória, um breve intervalo antes que alguém, inevitavelmente, escolha o ódio. E se isso for verdade, então a felicidade humana não é apenas frágil — é impossível por definição, um ideal cuja própria realização contém as sementes de sua destruição, porque depende de uma unanimidade emocional que a própria existência da liberdade torna inalcançável. Uma única gota basta. Sempre bastará.