Oitenta e Quatro por Cento

Somos, com alguma folga, o país mais filmado do mundo, uma nação de câmeras em esquinas, drones sobre telhados e celulares apontados para tudo o que se move, inclusive para muita coisa que faria melhor em não se mover, e é por isso que causa admiração o porta-voz do nosso exército ter respondido, quando lhe perguntaram o que houve no posto de Awarta na manhã de 27 de julho, que a alegação de que soldados retiveram uma ambulância é falsa e que nenhuma denúncia a respeito havia chegado. As duas metades se anulam com perfeita compostura, já que quem não foi informado de nada não tem como julgar a falsidade de coisa alguma. A única câmera que importou naquela manhã estava na mão de um motorista palestino, o que talvez explique a demora do correio.

Nenhuma lei nossa proíbe palestinos de rodar pela estrada sessenta, o que seria escandaloso, e proibir é feio. Proíbe-se apenas que cheguem até ela, o que é discreto, sai mais barato e funciona melhor. A ONU contou novecentos e vinte e cinco obstáculos à circulação na Cisjordânia, dos quais cento e vinte e um existem com a única finalidade de fechar os acessos das vilas àquela estrada, aos quais somamos cento e vinte portões novos apenas em 2025, um a cada três dias, produtividade que nenhuma outra repartição nossa alcançou em qualquer área. Motoristas contam que esses portões costumam ficar trancados entre seis e nove da manhã, para que os filhos dos colonos cheguem à escola na hora.

A ambulância de Bashar al-Qaryuti saiu de Qaryut às seis e meia levando uma mulher de vinte e oito anos, grávida de seis meses, entrando e saindo da consciência, com uma hemorragia que Sabreen Atallah, enfermeira nessas estradas desde 2014, diz nunca ter visto igual. Ele achou trancada a única saída da vila, tentou o caminho de terra entre os olivais e achou trancado o segundo, contornou e chegou a Awarta, onde o portão fechado, é preciso reconhecer, era rigorosamente o mesmo para o carro que ia ao mercado e para o que levava uma hemorragia, imparcialidade que muito nos honra.

Dois soldados mandaram desligar o motor e, quando al-Qaryuti explicou, no hebraico rudimentar que se aprende em anos de postos como aquele, que os aparelhos da paciente funcionavam com a energia do motor, ouviu que calasse a boca. As telas apagaram uma depois da outra, e o último número que Atallah leu antes disso foi oitenta e quatro por cento de saturação. Ela avisou em inglês que a paciente podia morrer, e as armas subiram na direção dela, o que no idioma local se chama restabelecer a ordem. Os documentos foram recolhidos e devolvidos meia hora depois. O bebê nasceu pouco antes do posto e morreu. A mãe chegou ao hospital com três unidades de sangue e uma cirurgia de urgência à frente, e sobreviveu. Ela contou a um jornal que estava escolhendo nomes.

Ninguém ordenou a morte daquela criança, e é aí que a dificuldade começa, porque a crueldade convicta ao menos tem autor, enquanto a distraída se dissolve em procedimento, sobrevive a qualquer investigação e nunca aparece na folha de serviço de ninguém. O rapaz de dezenove anos naquele portão, sem dormir, assustado, com uma semana atrás de si em que colonos armados mataram e ninguém os deteve, cumpria uma ordem que não escreveu. Quem a escreveu tem nome. Depois do ataque de colonos de 24 de julho, que deixou dois israelenses e quatro palestinos mortos, Binyamin Netanyahu determinou uma operação de larga escala, e Nablus, Ramallah e Hebron foram trancadas, de modo que o luto foi de todos e o castigo, como de costume, caiu sobre alguns. Chamamos o arranjo de defesa, uso inventivo de uma palavra bonita, já que ninguém explicou de que exatamente a hemorragia daquela mulher nos defendia.

Nossos bisavós conheciam portões por dentro, sabiam a hora em que abriam, o nome do homem que tinha a chave e o preço corrente do favor, e foi com essa competência amarga que escreveram, em maio de 1948, a promessa de igualdade de direitos a todos os habitantes sem distinção de religião, raça ou sexo. Não escreveram aquilo por bondade. Escreveram porque tinham acabado de ser o carro parado na fila. Setenta e oito anos depois, o que se pedia em Awarta era menos do que qualquer coisa que já nos foi negada. Pedia-se um motor ligado.

Um exército capaz de instalar um portão a cada três dias deveria conseguir abrir um em trinta minutos. Levou trinta e um. Nada neste relato é excepcional, e essa é toda a dificuldade. Tomamos a terra e nos recusamos a tomar os filhos que vinham com ela, e o arranjo funciona tão bem que o dia 27 de julho foi, para quase todos aqui, uma segunda-feira comum. Meus compatriotas podem continuar achando isso normal. Eu me recuso.

Amado ou Temido

Todo governante sonha em ser amado pelo seu povo, e a maioria descobre, mais cedo ou mais tarde, que o medo é muito mais fácil de administrar. Foi a lição que Nicolau Maquiavel aprendeu em 1513, depois que seu nome apareceu na lista errada, encontrada no bolso de um conspirador que ele mal conhecia, e o novo governo de Florença o submeteu seis vezes a um suplício conhecido como corda, os pulsos amarrados às costas e presos a um cabo que o içava pelos braços em direção ao teto, para depois soltá-lo numa queda seca que lhe arrancava os ombros do lugar. Dali partiu para o exílio numa propriedade rural, onde à noite começou a escrever um manual de sobrevivência política, oferecido sem o menor pudor ao mesmo clã que o havia torturado e banido. Há algo de delicioso, e um pouco desconfortável para quem escreve sobre o poder vivendo sob ele, no fato de que o retrato mais lúcido da autoridade já posto no papel tenha saído de um cortesão desempregado disposto a recorrer a qualquer bajulação para recuperar o emprego. Se precisasse de trabalho hoje, provavelmente estaria escrevendo a coluna mais servil já publicada em defesa do primeiro-ministro de Israel, e duvido que eu, ou qualquer outro que também dependa da boa vontade de quem manda, tivesse moral para atirar a primeira pedra.

Mas o texto escapou ao autor, o que costuma acontecer com as obras-primas e quase nunca com os bajuladores. Os Médici, registre-se, nunca lhe devolveram o emprego. Ele perguntou se era melhor ser amado do que temido, e respondeu, com a calma de quem viu coisa demais para se dar ao luxo do idealismo, que o ideal seriam as duas coisas, mas que, sendo isso raro, um governante faz melhor em apostar no medo alheio, porque o afeto depende da boa vontade de quem o dá, enquanto o medo depende apenas de quem o inspira, e a boa vontade, como sabe qualquer um que já foi traído, costuma trocar de lado exatamente na hora em que é mais necessária.

Aplicada ao homem que nos governa há mais tempo do que qualquer outro em nossa história, essa distinção deixa de ser teoria. Temos motivos de sobra para temer o míssil que vem de fora. O que soa cada vez mais familiar é o resto do roteiro, o procurador que suaviza a acusação, o juiz que adia o julgamento, a imprensa que modera o tom, e a reforma do próprio tribunal que um dia poderia condenar o líder, vendida ao país como a salvação do Estado. Vale a pena parar para perguntar o que exatamente está sendo salvo. Este é um país cujos juízes mandaram um presidente para a prisão por estupro e um primeiro-ministro para a prisão por suborno, um histórico que não descreve uma democracia frágil precisando de resgate, mas uma democracia sólida que aprendeu a não tratar nenhum cargo como sagrado, e essa solidez é justamente o inconveniente, porque um tribunal capaz de prender os poderosos de nada serve a um homem que pretende nunca deixar de ser poderoso. Os cientistas políticos deram a esse roteiro um nome bonito, democracia iliberal, e o curioso é que ele sempre chega vestido de emergência nacional, nunca de ambição pessoal.

É trágico ver os mesmos homens que se apresentam como guardiões do nosso povo e da nossa história recorrerem, sempre que a lei chega perto demais deles, ao mesmo truque, confundindo a sobrevivência do país com a sobrevivência do próprio mandato, como se as duas coisas fossem a mesma coisa, uma equivalência que ninguém além deles jamais chegou a confirmar. A lógica que Maquiavel pôs no papel, embora composta para agradar a um príncipe em particular, não poupa nenhum príncipe que se pareça com ele. Talvez porque seu autor tenha pendido da corda do Estado e aprendido, nos próprios ombros, o que o medo custa a quem o sofre, o livro distingue o príncipe que é temido porque protege do príncipe que é temido porque teme ser substituído, e reserva para o segundo o adjetivo mais duro do seu vocabulário, desprezível. A bajulação fracassou, o livro ficou, e o cortesão desempregado, que queria apenas um emprego, acabou legando a cada geração o instrumento exato para medir o homem que quer apenas não perder o seu. Nosso primeiro-ministro carrega esse adjetivo com a mesma disciplina que aplica a todo o resto. Ele sabe exatamente o que está fazendo, e faz porque sabe, o que é uma maneira bem mais precisa de dizer que a devoção que ele nos vende como amor ao país há muito tempo não passa de amor a si mesmo.

O Conforto como Destino

Eric H. Cline, arqueólogo da Universidade George Washington, dedicou anos a tentar entender por que o mundo colapsou em 1177 antes da era cristã. No fim da Idade do Bronze, as civilizações do Mediterrâneo oriental, egípcios, hititas, micênicos, cananeus, cipriotas, babilônios, formavam uma rede de interdependência tão sofisticada que os modernos a reconheceriam sem dificuldade. Trocavam estanho do Afeganistão, cobre de Chipre, trigo do Egito, têxteis da Síria. Escreviam cartas diplomáticas em argila. Tinham embaixadores, tratados, rotas comerciais que cruzavam o Mediterrâneo com a regularidade dos navios de hoje. E então, em poucas décadas, tudo desapareceu. Não os micênicos. Não os hititas. Não os cananeus. Todos. De uma vez. Cline chama o que aconteceu de tempestade perfeita, uma convergência de falhas múltiplas e interconectadas, secas, terremotos, invasões, revoltas internas, colapso das rotas comerciais, que nenhuma civilização, por si só, teria sobrevivido, e que todas juntas não puderam resistir. O que o livro não diz explicitamente, mas o que qualquer leitor atento percebe, é que foi precisamente a interdependência que as destruiu. O que as tornava ricas era o que as tornava frágeis. A rede que sustentava o mundo era a mesma rede que, ao se romper, arrastou tudo consigo.
Penso na Europa não com o desprezo fácil de quem olha de fora, mas com a tristeza específica de quem amou o que ela representa e vê o que ela está se tornando. A Europa construiu, nas décadas que se seguiram ao fim da Segunda Guerra Mundial, a mais sofisticada tentativa de civilização cooperativa que a humanidade já produziu. Instituições supranacionais, direitos codificados, estados de bem-estar, fronteiras abertas, a ideia de que o continente que havia produzido duas guerras mundiais em menos de trinta anos podia reinventar-se como um projeto de paz permanente. Era uma aposta audaciosa. Por décadas, funcionou. E então a Europa começou a confundir o projeto com o conforto que ele produzia, e o conforto com um direito adquirido, e o direito adquirido com a dispensa de qualquer responsabilidade além das suas próprias fronteiras.
O problema é que as fronteiras da Europa nunca foram onde os europeus imaginavam que eram. A riqueza que financiou o estado de bem-estar, os hospitais públicos, as universidades gratuitas, as férias pagas, os mercados de fim de semana com queijos artesanais e vinhos de denominação de origem controlada, essa riqueza tinha endereços anteriores. Tinha endereços no Congo, cuja borracha e cujo marfim financiaram a industrialização belga enquanto o rei Leopoldo II transformava o país numa plantação de horror, matando entre dez e quinze milhões de pessoas para garantir as cotas de produção. Tinha endereços na Costa do Marfim, cujo cacau alimentou o chocolate suíço e francês enquanto a população local não tinha acesso a hospitais. Tinha endereços em Angola, em Moçambique, no Senegal, no Níger, em toda a África que a Europa dividiu num mapa entre novembro de 1884 e fevereiro de 1885, na Conferência de Berlim, sem consultar um único africano, e que depois administrou durante décadas como uma fazenda de extração, retirando recursos, capital, mão de obra e dignidade, e deixando para trás fronteiras artificiais que até hoje produzem guerras, estruturas de poder corrompidas construídas sobre o modelo colonial, e a pobreza que agora empurra pessoas para o Mediterrâneo em botes infláveis.
Os africanos que chegam hoje às costas europeias não chegam do nada. Chegam de um continente que foi sistematicamente espoliado por exatamente aqueles países que agora os recusam à entrada. Chegam do Congo, de Mali, da Líbia, do Senegal, do Níger, países cujos recursos naturais financiaram e continuam financiando a prosperidade europeia através de acordos que reproduzem a lógica colonial com linguagem de mercado livre. Chegam porque as mudanças climáticas, produzidas em proporção muito maior pelos países industrializados do que pelos países africanos, estão tornando inabitáveis regiões inteiras do Sahel. Chegam porque os conflitos que destroem os seus países têm frequentemente a impressão digital de intervenções ocidentais mal concebidas e abandonadas a meio caminho. E chegam para encontrar uma Europa que construiu muros, que externaliza o controle das fronteiras para ditadores líbios, que financia campos de detenção no Níger e na Turquia, e que debate, com a linguagem técnica da política de imigração, até onde pode ir na violação dos direitos que codificou para si mesma.
Cline acredita que há noventa por cento de probabilidade de um colapso global de sistemas no próximo século. Não diz isso com satisfação. Diz com a sobriedade de quem passou décadas estudando o que acontece quando redes interdependentes atingem o ponto de ruptura sem que ninguém, dentro delas, tenha querido acreditar que o ponto de ruptura estava próximo. O que ele observou na Idade do Bronze tardio foi que as civilizações mais sofisticadas, as mais conectadas, as que tinham mais a perder, foram as que menos conseguiram adaptar-se quando as condições mudaram, precisamente porque o seu nível de conforto havia se tornado o limite do seu pensamento. Não imaginavam um mundo diferente porque não precisavam imaginar. Até que precisaram, e já era tarde.
A Europa de hoje não está no mesmo ponto. Mas está no mesmo caminho. Uma civilização que construiu a sua identidade em torno dos direitos universais e que aplica esses direitos seletivamente, que defende a dignidade humana nos discursos e a nega nas fronteiras, que insiste na responsabilidade coletiva dentro das suas fronteiras e recusa qualquer responsabilidade coletiva fora delas, essa civilização não está sendo hipócrita apenas no sentido moral. Está sendo frágil no sentido estrutural. A rede que a sustenta, as cadeias de abastecimento, as rotas energéticas, a estabilidade política dos países fornecedores, a legitimidade das suas instituições aos olhos do resto do mundo, depende de uma reciprocidade que a Europa tem recusado sistematicamente. E uma rede que se recusa a ser recíproca é uma rede que se aproxima do ponto de ruptura com cada decisão que toma.
Em 1177 antes da era cristã, as cartas de argila entre os reis do Mediterrâneo continuavam a chegar até quase o último momento. Algumas das últimas que sobreviveram mostram pedidos de socorro, relatos de cidades em chamas, súplicas por grão e por soldados. As respostas nunca chegaram. Não porque os destinatários fossem cruéis. Porque também estavam a colapsar, cada um ocupado demais com o seu próprio desastre para atender ao desastre do vizinho. O conforto não os havia tornado maus. Havia-os tornado míopes. E a miopia, como Cline documenta com a paciência de quem escava camada por camada, é a causa de colapso mais comum da história humana.​​​​​​​​​​​​​​​​

O que resta quando nada mais é pedido

Confesso que tomei uma garrafa de vinho antes de me sentar para escrever. E não me senti culpado por isso. Nem pelo vinho, nem pelo que veio depois: a sensação, clara e sem aviso, de estar no melhor momento da minha vida. Feliz. Aqui. De Israel, de dentro de uma guerra que não pedi.
Sei o que isso pode parecer. Mas não me interessa o que parece.
Existo exatamente no centro do meu próprio olhar. Não sei sempre o que isso significa, mas sei o que faz sentir. É precisamente daqui, desse lugar onde o cotidiano e o insuportável dividem o mesmo ar, que certas coisas se tornam visíveis com uma clareza que a paz nunca permitiu.
Há uma forma de presença que só nasce quando o mundo externo esgota suas exigências. Não é serenidade. É algo anterior à serenidade, algo que existe antes de qualquer decisão sobre como estar. Quando o alarme soa e o corpo já conhece o caminho até o abrigo sem que a mente precise ordenar, o que sobra não é coragem nem resignação. É o que sempre esteve lá, antes de qualquer história que contei sobre mim mesmo. O irredutível. E esse, descobri, não é frágil. É apenas mais antigo do que tudo que tentei construir por cima dele.
Existe uma tradição que insiste em perguntar quem somos. Desconfio dessa pergunta porque pressupõe um eu estável, localizável, que aguarda descoberta como um objeto perdido numa gaveta. O que experimento é outra coisa: não a descoberta de quem sou, mas a cessação da recusa de ser o que já sou. Essa distinção demora a ser sentida em sua totalidade. Porque parar de recusar não é conquistar nada. É largar algo que nunca foi meu e que eu carregava como se minha sobrevivência dependesse disso. Talvez dependesse. Mas já não depende.
Vivo numa linha tênue entre revelar e esconder. Não por cálculo, não por pudor, não por estratégia de proteção. Mas porque a transparência total é uma violência contra a própria complexidade, e o silêncio total é uma traição contra o que pulsa e pede forma. O que encontro no meio não é compromisso. É o único lugar onde a honestidade ainda respira.
A guerra ensina isso de um jeito que nenhuma teoria alcança: que a consciência tem uma soberania que não depende das circunstâncias. Que mesmo aqui, mesmo agora, mesmo com tudo que pesa, há em mim um interior que não foi declarado território ocupado por ninguém. Escrever sobre isso não é escapismo. É o ato mais político que conheço. Porque afirmar que ainda sinto, que ainda percebo a luz quando toca meu rosto, que ainda reconheço o calor como algo que vem de dentro tanto quanto de fora, é recusar que a guerra tenha a última palavra sobre o que sou.
Talvez o que trago aqui não seja intimidade. Talvez seja algo mais radical: a percepção de que sou suficiente para mim mesmo neste instante, sem precisar de outro tempo, outro lugar, outra versão de mim ou do mundo. Com tudo que dói. Com tudo que ainda não tem nome. Com tudo que aquece a pele como se o mundo não estivesse partido, mesmo quando está.
Não peço nada com isso. Não peço compreensão, não peço acompanhamento, não peço sequer que acreditem. Apenas registro que existo. Que sinto. Que esse sentir é mais real do que qualquer coisa visível de fora.
Isso não é bullshit. É um estado. E estados não pedem para ser compreendidos. Apenas para ser reconhecidos por quem também já tocou esse lugar dentro de si e sabe que, quando se chega lá, nada mais parece tão urgente quanto permanecer.​​​​​​​​​​​​​​​​

O Cano de Esgoto e o Fim dos Tempos

Escrevo isso sentado dentro de um cano de esgoto de dois metros colocado ao lado da minha budka, a pequena cabine pré-fabricada na entrada do lugar onde trabalho como guarda noturno, enquanto mísseis iranianos explodem sobre nossas cabeças. Há uma certa justiça poética em escrever sobre a merda que está acontecendo no meu país de dentro de um cano de merda. E daqui, com as sirenes ainda no ar, certas abstrações deixam de ser abstrações.
Este texto se baseia em um artigo de opinião de Tomer Persico, um dos analistas mais lúcidos e corajosos que escrevem hoje sobre religião e política em Israel, publicado no Haaretz em 13 de março de 2026. O rabino Yosef Kelner leciona na yeshivá Bnei David em Eli, nos territórios ocupados. Em gravações de suas aulas feitas em 2018 que só agora vieram a público, ele declarou que deixar de observar a Torá é imoralidade e traição nacional, contra as quais toda sanção é legítima, incluindo uma bala na cabeça. O governo israelense continua financiando suas aulas.
A propósito, só como nota de rodapé, no orçamento deste ano, já aprovado em primeira leitura na Knesset, mais de um bilhão de shekels a mais foi alocado para escolas religiosas, enquanto saúde, educação e outros setores perderam verbas.
É o mesmo governo que foi à guerra para impedir que o Irã obtivesse armas nucleares, citando, corretamente, o perigo do fundamentalismo religioso no controle de um Estado moderno. O argumento está certo. O problema é o espelho que ele levanta, um espelho que a coalizão de Netanyahu prefere não encarar e que alguns dos que me leem ajudaram a eleger, infelizmente.
No final de 1978, Yehuda Etzion, um dos fundadores do assentamento de Ofra, encontrou-se com Shabtai Ben-Dov, um pioneiro do pensamento sionista religioso daquela mesma comunidade. Etzion perguntou a Ben-Dov se destruir a Cúpula da Rocha no Monte do Templo em Jerusalém serviria como catalisador decisivo para a redenção messiânica. Se você quer fazer algo que resolva todos os problemas do povo judeu, respondeu Ben-Dov, faça. Etzion certamente queria. Junto com seus colegas na resistência judaica clandestina, reuniu dezenas de quilos de explosivos. A operação, que quase certamente teria lançado Israel em guerra com todo o mundo muçulmano, jamais foi executada, não por uma mudança de convicção, mas por dificuldades técnicas. Quero que você entenda isso com clareza: a contenção foi logística, não moral.
Costuma-se dizer que os fundamentalistas religiosos compreendem os limites da realpolitik, e a observação é verdadeira até certo ponto. O Irã não teria se tornado um ator regional relevante se seus líderes não tivessem demonstrado alguma capacidade de administrar um Estado moderno. Mas se a República Islâmica tivesse investido em seus próprios cidadãos os bilhões que gastou financiando grupos extremistas e terroristas ao redor de Israel, o Irã teria prosperado em vez de estagnar, com seu povo e não seus proxies colhendo os frutos de suas ambições. Khamenei declarou repetidas vezes seu desejo de destruir Israel. Em 2010, numa publicação ainda disponível online, descreveu Israel como uma entidade aterrorizante no Oriente Médio que seria sem dúvida destruída. Em 2018, escreveu que Israel é um câncer maligno que precisa ser removido e destruído. O ex-presidente Mahmoud Ahmadinejad fez declarações semelhantes em muitas ocasiões. Pergunto: quem acredita que os líderes iranianos não eram sérios, ou que não teriam agido com base nessas declarações se tivessem oportunidade, precisa explicar por que o fundamentalismo xiita seria mais pragmático ou moderado do que outras formas de fundamentalismo religioso.
É fácil, no plano abstrato, aprender com a história judaica como o fanatismo religioso leva à destruição. Mas o que vejo ao meu redor me diz que a comunidade sionista religiosa demonstrou uma incapacidade persistente de aplicar essa lição a si mesma. Existe em Israel toda uma indústria da negação, segundo a qual o terrorismo judaico não existe, o messianismo é uma coisa maravilhosa e as palavras explícitas de políticos de alto escalão não significam realmente o que dizem. Em junho de 2019, num discurso na yeshivá Mercaz Harav em Jerusalém e numa entrevista à Rádio Kan, o então deputado Bezalel Smotrich declarou seu desejo de que Israel fosse governado segundo a Torá, como nos dias do rei Davi e do rei Salomão. Houve quem negasse que ele pretendia desmantelar a democracia. Mas há um problema elementar nessa visão que ninguém se deu ao trabalho de apontar: a Torá, na forma escrita e codificada que conhecemos, não existia nos dias de Davi e Salomão. Os estudiosos situam a composição dos textos do Pentateuco entre os séculos IX e V a.C., com partes significativas compiladas durante ou após o exílio babilônico, no século VI a.C., ou seja, depois dos reis que Smotrich invoca como modelo. Ele quer governar segundo uma Torá que não existia na época que cita como referência. Hoje ele é ministro das Finanças. É, além de perigoso, ignorante. Quando o rabino Kelner disse que toda sanção é legítima contra os que não observam os mandamentos, incluindo uma bala na cabeça, pessoas como eu e como a maioria dos que me leem agora, houve quem argumentasse que o governo deveria continuar financiando sua yeshivá. Digo a vocês: a negação não é confusão. É uma escolha. A escolha de vocês.
O que me perturba, aqui dentro deste cano enquanto ouço as explosões, é a ideia de que declarações são uma coisa e ações são outra. Essa ideia não se aplica a fundamentalistas, cuja lealdade absoluta à tradição, tal como a interpretam, é um princípio fundador tanto da religião quanto da identidade. É por isso que o Irã não pode obter armas nucleares. Netanyahu está certo nisso. Mas a razão não é apenas a hostilidade do Irã em relação a Israel. É a natureza do regime em si. O fundamentalismo religioso existe dentro de uma narrativa cósmica na qual a história é a arena para o cumprimento da vontade de Deus. Quando essa visão assume o controle de um Estado moderno, os resultados são catastróficos, não porque os crentes sejam singularmente cruéis, mas porque a lógica dessa visão é indiferente ao custo humano de sua realização.
O fundamentalismo religioso não se torna tolerável porque usa kipá, nem perde seu poder destrutivo porque fala hebraico. O fundamentalismo que esteve no poder no Irã trouxe àquele país décadas de repressão, ruína econômica e guerra regional. O fundamentalismo que ocupa o poder na atual coalizão israelense distribuiu armas a colonos, elogiou a queima de aldeias palestinas, propôs a deportação de cidadãos árabes e declarou sua intenção de governar pela escritura sagrada e não pela lei. A diferença de escala é real. A diferença de natureza não é. Um governo que financia um rabino que defende atirar em quem não observa os preceitos religiosos, pessoas como eu e como a maioria dos que me leem agora, enquanto vai à guerra contra um regime teocrático por ser um perigo para a civilização, não identificou uma contradição. Tornou-se uma. E eu estou aqui, neste cano de esgoto, enquanto eles vomitam merda pela boca e mísseis sobre nossas cabeças.​​​​​​​​​​​​​​​​

A Geometria do Abandono

Há uma cena captada em vídeo em que um homem palestino grita em duas línguas ao mesmo tempo. Primeiro em árabe, para que os seus vizinhos tragam água. Depois em hebraico, para que os soldados israelenses presentes no fundo do quadro entendam que há crianças dentro da casa que está pegando fogo. O homem fala em duas línguas porque aprendeu, ao longo de décadas, que a sua própria não é suficiente para ser ouvido. E ainda assim, em ambas, não é ouvido.
Assisti a esse vídeo várias vezes. Não porque goste de me castigar, mas porque sinto que há, naquele instante de vinte e poucos segundos, gravado anteontem à noite na aldeia de Susiya, ao sul de Hebron, algo que nenhum relatório técnico consegue alcançar: a geometria do abandono. A forma como um ser humano aprende, em tempo real, que as instituições criadas para protegê-lo estão presentes mas não disponíveis. Uniformizadas mas não comprometidas. Armadas, mas não com a intenção de usar as armas a seu favor.
Os soldados não se movem. O fogo continua.
Existem eventos que os analistas chamam de pontos de inflexão e que outros, se forem honestos, deveriam chamar de momentos de revelação. A diferença não é apenas de vocabulário. Um ponto de inflexão é uma mudança de trajetória. Uma revelação é um instante em que aquilo que sempre existiu finalmente se torna impossível de ignorar. O que aconteceu em Susiya na segunda-feira é ambos, mas sobretudo o segundo.
A violência dos colonos na Cisjordânia não é nova. Os incêndios não são novos. A passividade das forças militares diante deles tampouco é nova. O que é novo é a formalização burocrática dessa violência. Em 8 e 9 de fevereiro, o gabinete de segurança israelense aprovou medidas que revogam restrições históricas à compra de terras palestinas por cidadãos israelenses, e retomaram o registro de propriedades na Área C. Para quem estuda a história colonial comparada, o gesto é familiar: o fogo vem antes, o título de propriedade vem depois. O medo desbasta o terreno; a lei o formaliza.
Hannah Arendt escreveu em Origens do Totalitarismo que a privação dos direitos começa sempre pela privação do direito a ter direitos. O que está sendo construído em Masafer Yatta não é apenas a ausência de proteção; é a construção jurídica de uma categoria de pessoa para quem a proteção não se aplica, e a simultânea aceitação dessa categoria na linguagem dos relatórios militares, na cobertura da mídia que descreve incêndios como atrito entre populações.
Atrito. Como se o fogo fosse uma força da natureza. Como se os incendiários fossem partículas em colisão.
Hamdan Ballal, cujo irmão foi agredido até a cianose facial, cujos familiares foram algemados e depois abandonados à noite em uma estrada frequentada por colonos armados, co-dirigiu com o israelense Yuval Abraham o documentário No Other Land, vencedor do Oscar de Melhor Documentário em março de 2025. Na cerimônia em Los Angeles, Abraham usou o palco para falar sobre a desigualdade entre ele, cidadão israelense com direitos plenos, e Ballal, que vive sob ocupação militar. Houve vaias. Houve aplausos. O mundo assistiu a dois homens, um israelense e um palestino, que fizeram um filme juntos sobre a destruição de um lugar, e não conseguiu decidir se isso era coragem ou traição.
Em Israel, a resposta foi mais direta. O filme não recebeu distribuição comercial. Exibições universitárias e independentes enfrentaram pressão para serem canceladas. Políticos da coalizão governante classificaram Abraham publicamente como traidor. Houve pedidos formais de investigação contra ele. Nas redes sociais e em certos meios profissionais, citar o filme ou expressar solidariedade com seus diretores passou a ter consequências reais. Um país que pune os seus próprios cidadãos por documentar o que acontece dentro do território que controla não está apenas suprimindo uma narrativa externa. Está suprimindo o testemunho interno. E quando o testemunho se torna traição, o que resta não é segurança. É silêncio administrado.
É nesse contexto que se deve ler o que aconteceu com a família Ballal nas semanas seguintes ao Oscar. A agressão contra Mohammed Ballal, a detenção dos familiares, o abandono deles à noite em uma estrada frequentada por colonos armados, esses eventos não ocorreram apesar da visibilidade internacional do filme. Ocorreram por causa dela. A violência em Masafer Yatta tem sempre tido como alvo os corpos que estão no terreno. Depois do Oscar, passou a ter também como alvo a voz que os representa fora dele.
Há uma distinção que vale guardar: entre espaço e lugar. O espaço é abstrato, mensurável, permutável. O lugar é vivido, carregado de história, de cheiros, de mortos enterrados e de filhos nascidos. O que a estratégia de deslocamento em Masafer Yatta ataca, através dos incêndios, das demolições, do corte de tubulações de água, da destruição de painéis solares nas escolas, não é o espaço. É o lugar. É a teia de relações entre pessoas e terra que torna a vida não apenas possível mas com sentido.
Quando se destrói o caminhão que transporta água, não se está apenas privando pessoas de hidratação. Está-se destruindo a prova material de que amanhã será possível, de que haverá um amanhã suficientemente parecido com hoje para que valha a pena insistir.
É tentador separar o que está acontecendo em Susiya da geopolítica regional, e desta dos grandes jogos de poder entre Washington, Teerã e Damasco. Os analistas adoram essas separações. Elas permitem que se fale de cada coisa sem falar de todas ao mesmo tempo. Mas o homem que grita em duas línguas não tem esse luxo.
A queda do regime de Assad na Síria, a atenção americana voltada para o programa nuclear iraniano, os porta-aviões no Golfo, tudo isso é real e tudo isso importa. Mas importa também, e isso é o que os relatórios geopolíticos frequentemente deixam de fora por uma espécie de pudor técnico, que a atenção é um recurso finito, e que quem controla onde ela é dirigida controla, em alguma medida, o que pode ser feito enquanto o mundo olha para outro lado.
A cobertura da mídia documenta este fenômeno sem nomeá-lo com clareza. Enquanto a mídia israelense trata os incêndios de Susiya como relatos palestinos aguardando confirmação, e enquanto a ocidental os insere dentro de uma tendência de longo prazo, o que é verdade mas tem o efeito de torná-los esperados, portanto menos urgentes, os incêndios continuam. A contextualização, quando não é acompanhada de indignação, torna-se uma forma sofisticada de anestesia.
Existe uma estatística que persiste: 94% das investigações sobre crimes cometidos por colonos contra palestinos na Cisjordânia são encerradas sem indiciamento. Apenas 3% resultam em condenação.
Sei que números em sistemas jurídicos são complicados. Sei que encerrado sem indiciamento não é automaticamente equivalente a crime impune. Existem razões processuais, lacunas probatórias, complexidades de jurisdição. Mas sei também que quando os números são tão consistentes ao longo de duas décadas, deixam de ser acidentais e tornam-se estruturais. Uma taxa de impunidade de 94% não é uma falha do sistema. É o sistema.
E quando o sistema funciona desta maneira, quando o agressor sabe por experiência estatisticamente fundamentada que não haverá consequências, a violência deixa de ser um ato individual e passa a ser uma política. Não necessariamente declarada, não formalizada em nenhuma circular governamental. Mas política no sentido mais concreto: uma forma de organizar o mundo de acordo com uma hierarquia de quem merece ser protegido.
Os soldados que observaram o fogo em Susiya não tomaram uma decisão anteontem à noite. Seguiram uma norma não escrita mas perfeitamente compreendida por todos os presentes. A sedimentação de décadas.
Susiya existe. As pessoas que vivem em Susiya têm nomes. Mohammed Ballal, cujo pescoço foi pressionado com força suficiente para provocar cianose, tem um nome. As quatro pessoas que inalaram fumaça na noite de segunda-feira têm nomes. As crianças que estavam dentro da casa enquanto o portão ardia têm nomes.
Há um tipo de crueldade que opera através da abstração. Que transforma pessoas em populações, e populações em problemas demográficos, e problemas demográficos em questões de planejamento territorial. Cada passo nessa escada torna o próximo ato de violência um pouco mais administrável, um pouco mais técnico, um pouco menos parecido com o que é.
O homem que gritou em duas línguas recusou-se a ser abstrato. Ele gritou porque havia crianças concretas, num lugar concreto, com fogo concreto chegando perto. E os soldados, concretos, uniformizados, presentes, não se moveram.
Essa imobilidade é o escândalo. É o momento em que a pretensão de uma ordem jurídica que protege a todos igualmente encontra o teste da realidade e o reprova, às 21h54 de uma segunda-feira em fevereiro, com o céu alaranjado sobre Susiya e alguém gritando em duas línguas ao mesmo tempo.
O fogo apaga. A pergunta, quem teria apagado se tivesse querido, permanece acesa.​​​​​​​​​​​​​​​​