por Gil Mildar | 29 set, 2026 | Comportamento, Israel, Opinião
Em 336 antes da era comum, muitos políticos e sábios foram cumprimentar Alexandre em Corinto, onde o jovem rei da Macedônia acabava de chegar, e um homem de Sinope chamado Diógenes preferiu continuar deitado ao sol no subúrbio de Craneion. O rei foi até ele, perguntou se precisava de alguma coisa e ouviu o pedido de que saísse um pouco da frente do sol. Na volta, enquanto os companheiros riam, disse-lhes que, se não fosse Alexandre, seria Diógenes, e continuou a ser Alexandre pelos treze anos seguintes, o bastante para levar o seu exército até a Índia.
Segundo a tradição, Platão chamava Diógenes de Sócrates enlouquecido, e os relatos que sobreviveram descrevem um homem que dormia num jarro de barro e que, perguntado de onde vinha, respondia que era cidadão do mundo, isto é, de lugar nenhum. A felicidade dele cabia num jarro e dispensava qualquer cidade, o homem mais poderoso do seu tempo não tinha nada para lhe dar além de sair da frente do sol, e os dois morreram em 323, no mesmo dia, segundo Plutarco, um na Babilônia e o outro em Corinto.
Em 19 de março deste ano, um centro da Universidade de Oxford, o instituto Gallup e uma rede ligada à ONU publicaram a classificação mundial da felicidade, que nos colocou em oitavo lugar entre 147 países pelo segundo ano seguido e pôs os nossos jovens com menos de 25 anos, a maioria de farda ou na reserva, em terceiro na sua faixa de idade. O levantamento cobre justamente 2023, 2024 e 2025, os três anos da guerra, e uma especialista ouvida pelo Ynet admitiu que o resultado pode parecer absurdo e explicou por que faz sentido, o que não me impede de confessar que um povo feliz debaixo de mísseis tem a aparência de um Sócrates enlouquecido.
Na Universidade Bar-Ilan, a pesquisadora Anat Fanti atribuiu o nosso oitavo lugar a laços de família, comunidade, fé e sentimento de pertencimento, e o Escritório Central de Estatísticas confirmou o fenômeno ao encontrar, nos seus dados até 2024, 91,1% de israelenses de 20 anos ou mais satisfeitos com a vida. A nossa felicidade não cabe num jarro, porque é feita da vida em comum que a outra dispensava, e por isso depende da saúde do país.
O avesso dessa felicidade aparece na mesma classificação, que nos põe em 39º lugar entre os povos que mais sentem preocupação, tristeza e raiva, depois do 119º que ocupávamos antes do 7 de outubro. No fim de agosto, às vésperas do ano novo judaico, o Instituto de Democracia de Israel registrou que 59% dos entrevistados consideram bom o próprio humor e 61%, ruim o humor do país, que só 19,5% dos judeus e 16% dos árabes se dizem otimistas quanto à coesão social, o nível mais baixo do ano, e que 81% dos judeus gostam das refeições de família nos feriados. Eu vejo nesses números uma felicidade que se sustenta à mesa de família enquanto o país de que ela depende perde a confiança em si mesmo.
O Instituto também separou por campo político o humor pessoal dos judeus, e o resultado me deixa numa posição desconfortável, porque 30,5% dos que se dizem de direita descreveram o próprio humor como ruim, contra 52% no centro e 63% na esquerda. Eu sou de esquerda, e se a felicidade servisse de atestado de sanidade o meu campo seria o manicômio do país, enquanto a direita assinaria as internações de jaleco branco e bom humor.
O eleitor de direita dirá que a tristeza da esquerda é despeito de quem perdeu o poder em 2022, e acrescentará que, segundo o Instituto de Política do Povo Judeu, 76% dos judeus do seu campo acreditam que Israel vive uma fase de melhora que vai se aprofundar. Se ele me acompanhou até aqui, eu lhe mostro a pesquisa de agosto, que encontrou na esquerda, no centro e na direita uma maioria que considera ruim o humor do país, e em que pouco mais da metade dos seus correligionários vê grande probabilidade de que parte dos derrotados em 27 de outubro recuse o resultado e reaja com força, um temor que alcança 56% dos israelenses.
O mesmo eleitor pode objetar, por fim, que nenhum governo fabrica felicidade e que o oitavo lugar prova que este não a destruiu, e eu concordo com a primeira metade da frase, porque o poder não tem nada para nos dar, e discordo da segunda, porque o levantamento de março nos põe em 107º na percepção de corrupção, um número que desenha a sombra que o Estado projeta sobre nós.
Em 27 de outubro vamos às urnas felizes em casa e desconfiados da vida pública, e o meu voto vai pedir ao próximo governo apenas que saia da frente do sol e deixe de fazer sombra sobre o país de que a nossa felicidade depende.
por Gil Mildar | 1 set, 2026 | Comportamento, Israel, Política
Em junho de 2018, a tripulação de um voo da El Al que levava o casal Netanyahu à Europa recebeu uma folha de instruções. Havia uma que se destacava. Em nenhuma circunstância dirija a palavra ao primeiro-ministro. Toda pergunta deve passar pela esposa dele, sentada a poucos centímetros. Se a comissária quisesse saber se ele preferia frango ou carne, chá ou café, a pergunta ia para Sara.
No estúdio do Canal 14, na noite de segunda-feira, perguntaram a Sara Netanyahu se houve traição interna em 7 de outubro. Um não simples bastaria. Ela disse que não queria falar sobre isso. Disse que não sabia. Disse que não fazia parte de teoria nenhuma. E, para que ninguém ficasse em dúvida sobre de qual teoria ela não faz parte, tinha explicado momentos antes que Yair Golan estava vestido e pronto numa hora em que ninguém sabia de nada, o marido dela inclusive. Depois riu e perguntou quem é o primeiro-ministro para precisar ser avisado de que uma guerra estourou.
Ninguém no estúdio fez a pergunta seguinte. Não existe pergunta seguinte naquele canal. O que existe é conivência, e ela é imoral.
E não joguemos tudo isso na conta do estúdio. Um canal que desce a esse ponto diz alguma coisa sobre quem o faz e diz outro tanto sobre quem o assiste. O cenário está iluminado para uma plateia. Alguém em casa ouviu uma mulher insinuar que um general sabia de antemão do massacre dos próprios compatriotas, e não desligou, e não sentiu vergonha, e foi dormir. Aquela plateia não está sendo enganada. Está sendo servida.
Convém lembrar quem faz a acusação. Em 2019, a mesma senhora fez um acordo com a promotoria por ter mandado o Estado pagar refeições encomendadas para a residência oficial. Pagou multa, devolveu o dinheiro, seguiu adiante. É presença constante no processo em que o marido responde por presentes de empresários, charutos e champanhe entregues em quantidade suficiente para virar peça de acusação. Empregados da casa passaram anos levando-a à Justiça.
Foi essa mulher que decidiu auditar o horário de chegada de um general no dia do massacre.
Ela não tem posto. Não foi eleita. Não responde a ninguém. E é a ela que as perguntas vão antes de chegar ao primeiro-ministro. É assim que o poder está arranjado neste país, e está arranjado assim há anos, à vista de todos.
Agora o outro lado, e aqui não vou fingir equilíbrio.
Yair Golan nasceu em maio de 1962. A família do pai dele saiu da Alemanha em 1935, o que significa que alguém naquela casa entendeu a hora certa de ir embora. Foi paraquedista, comandou a Brigada Nahal, comandou o Comando Norte, chegou a segundo homem do Estado-Maior sob Gadi Eisenkot. Em 2016, no dia da memória do Holocausto, subiu num palco e disse que enxergava neste país processos que lembravam a Europa dos anos trinta. Não era candidato a nada. Era o número dois do exército, e falou assim mesmo. Aquilo custou a ele o topo da carreira militar, e ele sabia que custaria enquanto falava.
Em 7 de outubro de 2023 tinha sessenta e um anos. Ninguém o convocou. Desceu para o sul, pegou uma arma numa base do exército, entrou em áreas onde ainda havia terroristas e passou o dia trazendo gente de volta do festival. Voltou mais de uma vez. Homens de sessenta e um anos não fazem isso. Ele fez.
Admiro isso sem nenhuma reserva. Ele passou aquele dia tirando pessoas de carne e osso do campo aberto, uma de cada vez, enquanto outros acertavam a narrativa. Carrego no bolso um cartão que autoriza a doação dos meus órgãos, e a única coisa que ele declara é que a vida acontecendo agora, dentro de gente determinada, não pode ser adiada em nome de nada. Naquela manhã houve um homem em Israel agindo como se isso fosse verdade. Não foi o que estava dormindo.
Em maio passado, Golan disse que este país estava matando bebês por passatempo. O escândalo durou semanas. Concordo com ele. Concordo com cada palavra que disse então e com cada palavra que disse em 2016, e não vou suavizar nada aqui para ficar mais apresentável.
Hannah Arendt escreveu que o sujeito ideal do domínio totalitário é aquele que já não consegue distinguir fato de ficção. Anos depois, ao descrever o que viu no julgamento em Jerusalém, foi chamada de traidora pelos seus e perdeu amizades de trinta anos. Foi condenada por dizer em voz alta uma coisa verdadeira e insuportável sobre a própria gente. É o que este país faz com Golan.
Devo a você a parte que ainda me incomoda. Golan foi formalmente repreendido em 2007, comandando a Divisão da Judeia e Samaria, por autorizar o procedimento que mandava civis palestinos convencerem procurados a se entregar. Não esqueci isso e não vou fingir que esqueci.
Os Democratas aparecem com cerca de dez cadeiras. Dez cadeiras não formam governo em lugar nenhum do mundo, e voto neles assim mesmo. Um país que transforma a pontualidade de um homem em prova contra ele perdeu a capacidade de reconhecer coragem quando ela passa bem na sua frente. Recuso-me a ser contado entre os que aprenderam a achar isso normal.
Sara Netanyahu encerrou a entrevista pedindo uma comissão de inquérito de verdade. Concordo com ela pela primeira e provavelmente última vez na vida. Que se faça. Que comece pela pergunta que ninguém naquele estúdio teve a coragem de fazer, sobre quem estava acordado naquela casa às seis e meia da manhã e o que essa pessoa fez em seguida.
E quando a comissão for instalada, sugiro que adote o protocolo da El Al. Não perguntem nada a ele. Perguntem tudo a ela.
por Gil Mildar | 12 ago, 2026 | Comportamento, Israel, Opinião, Uncategorized
Somos, com alguma folga, o país mais filmado do mundo, uma nação de câmeras em esquinas, drones sobre telhados e celulares apontados para tudo o que se move, inclusive para muita coisa que faria melhor em não se mover, e é por isso que causa admiração o porta-voz do nosso exército ter respondido, quando lhe perguntaram o que houve no posto de Awarta na manhã de 27 de julho, que a alegação de que soldados retiveram uma ambulância é falsa e que nenhuma denúncia a respeito havia chegado. As duas metades se anulam com perfeita compostura, já que quem não foi informado de nada não tem como julgar a falsidade de coisa alguma. A única câmera que importou naquela manhã estava na mão de um motorista palestino, o que talvez explique a demora do correio.
Nenhuma lei nossa proíbe palestinos de rodar pela estrada sessenta, o que seria escandaloso, e proibir é feio. Proíbe-se apenas que cheguem até ela, o que é discreto, sai mais barato e funciona melhor. A ONU contou novecentos e vinte e cinco obstáculos à circulação na Cisjordânia, dos quais cento e vinte e um existem com a única finalidade de fechar os acessos das vilas àquela estrada, aos quais somamos cento e vinte portões novos apenas em 2025, um a cada três dias, produtividade que nenhuma outra repartição nossa alcançou em qualquer área. Motoristas contam que esses portões costumam ficar trancados entre seis e nove da manhã, para que os filhos dos colonos cheguem à escola na hora.
A ambulância de Bashar al-Qaryuti saiu de Qaryut às seis e meia levando uma mulher de vinte e oito anos, grávida de seis meses, entrando e saindo da consciência, com uma hemorragia que Sabreen Atallah, enfermeira nessas estradas desde 2014, diz nunca ter visto igual. Ele achou trancada a única saída da vila, tentou o caminho de terra entre os olivais e achou trancado o segundo, contornou e chegou a Awarta, onde o portão fechado, é preciso reconhecer, era rigorosamente o mesmo para o carro que ia ao mercado e para o que levava uma hemorragia, imparcialidade que muito nos honra.
Dois soldados mandaram desligar o motor e, quando al-Qaryuti explicou, no hebraico rudimentar que se aprende em anos de postos como aquele, que os aparelhos da paciente funcionavam com a energia do motor, ouviu que calasse a boca. As telas apagaram uma depois da outra, e o último número que Atallah leu antes disso foi oitenta e quatro por cento de saturação. Ela avisou em inglês que a paciente podia morrer, e as armas subiram na direção dela, o que no idioma local se chama restabelecer a ordem. Os documentos foram recolhidos e devolvidos meia hora depois. O bebê nasceu pouco antes do posto e morreu. A mãe chegou ao hospital com três unidades de sangue e uma cirurgia de urgência à frente, e sobreviveu. Ela contou a um jornal que estava escolhendo nomes.
Ninguém ordenou a morte daquela criança, e é aí que a dificuldade começa, porque a crueldade convicta ao menos tem autor, enquanto a distraída se dissolve em procedimento, sobrevive a qualquer investigação e nunca aparece na folha de serviço de ninguém. O rapaz de dezenove anos naquele portão, sem dormir, assustado, com uma semana atrás de si em que colonos armados mataram e ninguém os deteve, cumpria uma ordem que não escreveu. Quem a escreveu tem nome. Depois do ataque de colonos de 24 de julho, que deixou dois israelenses e quatro palestinos mortos, Binyamin Netanyahu determinou uma operação de larga escala, e Nablus, Ramallah e Hebron foram trancadas, de modo que o luto foi de todos e o castigo, como de costume, caiu sobre alguns. Chamamos o arranjo de defesa, uso inventivo de uma palavra bonita, já que ninguém explicou de que exatamente a hemorragia daquela mulher nos defendia.
Nossos bisavós conheciam portões por dentro, sabiam a hora em que abriam, o nome do homem que tinha a chave e o preço corrente do favor, e foi com essa competência amarga que escreveram, em maio de 1948, a promessa de igualdade de direitos a todos os habitantes sem distinção de religião, raça ou sexo. Não escreveram aquilo por bondade. Escreveram porque tinham acabado de ser o carro parado na fila. Setenta e oito anos depois, o que se pedia em Awarta era menos do que qualquer coisa que já nos foi negada. Pedia-se um motor ligado.
Um exército capaz de instalar um portão a cada três dias deveria conseguir abrir um em trinta minutos. Levou trinta e um. Nada neste relato é excepcional, e essa é toda a dificuldade. Tomamos a terra e nos recusamos a tomar os filhos que vinham com ela, e o arranjo funciona tão bem que o dia 27 de julho foi, para quase todos aqui, uma segunda-feira comum. Meus compatriotas podem continuar achando isso normal. Eu me recuso.
por Gil Mildar | 5 jul, 2026 | Comportamento, Israel, Opinião, Política
Todo governante sonha em ser amado pelo seu povo, e a maioria descobre, mais cedo ou mais tarde, que o medo é muito mais fácil de administrar. Foi a lição que Nicolau Maquiavel aprendeu em 1513, depois que seu nome apareceu na lista errada, encontrada no bolso de um conspirador que ele mal conhecia, e o novo governo de Florença o submeteu seis vezes a um suplício conhecido como corda, os pulsos amarrados às costas e presos a um cabo que o içava pelos braços em direção ao teto, para depois soltá-lo numa queda seca que lhe arrancava os ombros do lugar. Dali partiu para o exílio numa propriedade rural, onde à noite começou a escrever um manual de sobrevivência política, oferecido sem o menor pudor ao mesmo clã que o havia torturado e banido. Há algo de delicioso, e um pouco desconfortável para quem escreve sobre o poder vivendo sob ele, no fato de que o retrato mais lúcido da autoridade já posto no papel tenha saído de um cortesão desempregado disposto a recorrer a qualquer bajulação para recuperar o emprego. Se precisasse de trabalho hoje, provavelmente estaria escrevendo a coluna mais servil já publicada em defesa do primeiro-ministro de Israel, e duvido que eu, ou qualquer outro que também dependa da boa vontade de quem manda, tivesse moral para atirar a primeira pedra.
Mas o texto escapou ao autor, o que costuma acontecer com as obras-primas e quase nunca com os bajuladores. Os Médici, registre-se, nunca lhe devolveram o emprego. Ele perguntou se era melhor ser amado do que temido, e respondeu, com a calma de quem viu coisa demais para se dar ao luxo do idealismo, que o ideal seriam as duas coisas, mas que, sendo isso raro, um governante faz melhor em apostar no medo alheio, porque o afeto depende da boa vontade de quem o dá, enquanto o medo depende apenas de quem o inspira, e a boa vontade, como sabe qualquer um que já foi traído, costuma trocar de lado exatamente na hora em que é mais necessária.
Aplicada ao homem que nos governa há mais tempo do que qualquer outro em nossa história, essa distinção deixa de ser teoria. Temos motivos de sobra para temer o míssil que vem de fora. O que soa cada vez mais familiar é o resto do roteiro, o procurador que suaviza a acusação, o juiz que adia o julgamento, a imprensa que modera o tom, e a reforma do próprio tribunal que um dia poderia condenar o líder, vendida ao país como a salvação do Estado. Vale a pena parar para perguntar o que exatamente está sendo salvo. Este é um país cujos juízes mandaram um presidente para a prisão por estupro e um primeiro-ministro para a prisão por suborno, um histórico que não descreve uma democracia frágil precisando de resgate, mas uma democracia sólida que aprendeu a não tratar nenhum cargo como sagrado, e essa solidez é justamente o inconveniente, porque um tribunal capaz de prender os poderosos de nada serve a um homem que pretende nunca deixar de ser poderoso. Os cientistas políticos deram a esse roteiro um nome bonito, democracia iliberal, e o curioso é que ele sempre chega vestido de emergência nacional, nunca de ambição pessoal.
É trágico ver os mesmos homens que se apresentam como guardiões do nosso povo e da nossa história recorrerem, sempre que a lei chega perto demais deles, ao mesmo truque, confundindo a sobrevivência do país com a sobrevivência do próprio mandato, como se as duas coisas fossem a mesma coisa, uma equivalência que ninguém além deles jamais chegou a confirmar. A lógica que Maquiavel pôs no papel, embora composta para agradar a um príncipe em particular, não poupa nenhum príncipe que se pareça com ele. Talvez porque seu autor tenha pendido da corda do Estado e aprendido, nos próprios ombros, o que o medo custa a quem o sofre, o livro distingue o príncipe que é temido porque protege do príncipe que é temido porque teme ser substituído, e reserva para o segundo o adjetivo mais duro do seu vocabulário, desprezível. A bajulação fracassou, o livro ficou, e o cortesão desempregado, que queria apenas um emprego, acabou legando a cada geração o instrumento exato para medir o homem que quer apenas não perder o seu. Nosso primeiro-ministro carrega esse adjetivo com a mesma disciplina que aplica a todo o resto. Ele sabe exatamente o que está fazendo, e faz porque sabe, o que é uma maneira bem mais precisa de dizer que a devoção que ele nos vende como amor ao país há muito tempo não passa de amor a si mesmo.
por Gil Mildar | 31 mar, 2026 | Comportamento, Opinião, Política
Eric H. Cline, arqueólogo da Universidade George Washington, dedicou anos a tentar entender por que o mundo colapsou em 1177 antes da era cristã. No fim da Idade do Bronze, as civilizações do Mediterrâneo oriental, egípcios, hititas, micênicos, cananeus, cipriotas, babilônios, formavam uma rede de interdependência tão sofisticada que os modernos a reconheceriam sem dificuldade. Trocavam estanho do Afeganistão, cobre de Chipre, trigo do Egito, têxteis da Síria. Escreviam cartas diplomáticas em argila. Tinham embaixadores, tratados, rotas comerciais que cruzavam o Mediterrâneo com a regularidade dos navios de hoje. E então, em poucas décadas, tudo desapareceu. Não os micênicos. Não os hititas. Não os cananeus. Todos. De uma vez. Cline chama o que aconteceu de tempestade perfeita, uma convergência de falhas múltiplas e interconectadas, secas, terremotos, invasões, revoltas internas, colapso das rotas comerciais, que nenhuma civilização, por si só, teria sobrevivido, e que todas juntas não puderam resistir. O que o livro não diz explicitamente, mas o que qualquer leitor atento percebe, é que foi precisamente a interdependência que as destruiu. O que as tornava ricas era o que as tornava frágeis. A rede que sustentava o mundo era a mesma rede que, ao se romper, arrastou tudo consigo.
Penso na Europa não com o desprezo fácil de quem olha de fora, mas com a tristeza específica de quem amou o que ela representa e vê o que ela está se tornando. A Europa construiu, nas décadas que se seguiram ao fim da Segunda Guerra Mundial, a mais sofisticada tentativa de civilização cooperativa que a humanidade já produziu. Instituições supranacionais, direitos codificados, estados de bem-estar, fronteiras abertas, a ideia de que o continente que havia produzido duas guerras mundiais em menos de trinta anos podia reinventar-se como um projeto de paz permanente. Era uma aposta audaciosa. Por décadas, funcionou. E então a Europa começou a confundir o projeto com o conforto que ele produzia, e o conforto com um direito adquirido, e o direito adquirido com a dispensa de qualquer responsabilidade além das suas próprias fronteiras.
O problema é que as fronteiras da Europa nunca foram onde os europeus imaginavam que eram. A riqueza que financiou o estado de bem-estar, os hospitais públicos, as universidades gratuitas, as férias pagas, os mercados de fim de semana com queijos artesanais e vinhos de denominação de origem controlada, essa riqueza tinha endereços anteriores. Tinha endereços no Congo, cuja borracha e cujo marfim financiaram a industrialização belga enquanto o rei Leopoldo II transformava o país numa plantação de horror, matando entre dez e quinze milhões de pessoas para garantir as cotas de produção. Tinha endereços na Costa do Marfim, cujo cacau alimentou o chocolate suíço e francês enquanto a população local não tinha acesso a hospitais. Tinha endereços em Angola, em Moçambique, no Senegal, no Níger, em toda a África que a Europa dividiu num mapa entre novembro de 1884 e fevereiro de 1885, na Conferência de Berlim, sem consultar um único africano, e que depois administrou durante décadas como uma fazenda de extração, retirando recursos, capital, mão de obra e dignidade, e deixando para trás fronteiras artificiais que até hoje produzem guerras, estruturas de poder corrompidas construídas sobre o modelo colonial, e a pobreza que agora empurra pessoas para o Mediterrâneo em botes infláveis.
Os africanos que chegam hoje às costas europeias não chegam do nada. Chegam de um continente que foi sistematicamente espoliado por exatamente aqueles países que agora os recusam à entrada. Chegam do Congo, de Mali, da Líbia, do Senegal, do Níger, países cujos recursos naturais financiaram e continuam financiando a prosperidade europeia através de acordos que reproduzem a lógica colonial com linguagem de mercado livre. Chegam porque as mudanças climáticas, produzidas em proporção muito maior pelos países industrializados do que pelos países africanos, estão tornando inabitáveis regiões inteiras do Sahel. Chegam porque os conflitos que destroem os seus países têm frequentemente a impressão digital de intervenções ocidentais mal concebidas e abandonadas a meio caminho. E chegam para encontrar uma Europa que construiu muros, que externaliza o controle das fronteiras para ditadores líbios, que financia campos de detenção no Níger e na Turquia, e que debate, com a linguagem técnica da política de imigração, até onde pode ir na violação dos direitos que codificou para si mesma.
Cline acredita que há noventa por cento de probabilidade de um colapso global de sistemas no próximo século. Não diz isso com satisfação. Diz com a sobriedade de quem passou décadas estudando o que acontece quando redes interdependentes atingem o ponto de ruptura sem que ninguém, dentro delas, tenha querido acreditar que o ponto de ruptura estava próximo. O que ele observou na Idade do Bronze tardio foi que as civilizações mais sofisticadas, as mais conectadas, as que tinham mais a perder, foram as que menos conseguiram adaptar-se quando as condições mudaram, precisamente porque o seu nível de conforto havia se tornado o limite do seu pensamento. Não imaginavam um mundo diferente porque não precisavam imaginar. Até que precisaram, e já era tarde.
A Europa de hoje não está no mesmo ponto. Mas está no mesmo caminho. Uma civilização que construiu a sua identidade em torno dos direitos universais e que aplica esses direitos seletivamente, que defende a dignidade humana nos discursos e a nega nas fronteiras, que insiste na responsabilidade coletiva dentro das suas fronteiras e recusa qualquer responsabilidade coletiva fora delas, essa civilização não está sendo hipócrita apenas no sentido moral. Está sendo frágil no sentido estrutural. A rede que a sustenta, as cadeias de abastecimento, as rotas energéticas, a estabilidade política dos países fornecedores, a legitimidade das suas instituições aos olhos do resto do mundo, depende de uma reciprocidade que a Europa tem recusado sistematicamente. E uma rede que se recusa a ser recíproca é uma rede que se aproxima do ponto de ruptura com cada decisão que toma.
Em 1177 antes da era cristã, as cartas de argila entre os reis do Mediterrâneo continuavam a chegar até quase o último momento. Algumas das últimas que sobreviveram mostram pedidos de socorro, relatos de cidades em chamas, súplicas por grão e por soldados. As respostas nunca chegaram. Não porque os destinatários fossem cruéis. Porque também estavam a colapsar, cada um ocupado demais com o seu próprio desastre para atender ao desastre do vizinho. O conforto não os havia tornado maus. Havia-os tornado míopes. E a miopia, como Cline documenta com a paciência de quem escava camada por camada, é a causa de colapso mais comum da história humana.
por Gil Mildar | 30 mar, 2026 | Comportamento, Crônica, Israel, Opinião
Confesso que tomei uma garrafa de vinho antes de me sentar para escrever. E não me senti culpado por isso. Nem pelo vinho, nem pelo que veio depois: a sensação, clara e sem aviso, de estar no melhor momento da minha vida. Feliz. Aqui. De Israel, de dentro de uma guerra que não pedi.
Sei o que isso pode parecer. Mas não me interessa o que parece.
Existo exatamente no centro do meu próprio olhar. Não sei sempre o que isso significa, mas sei o que faz sentir. É precisamente daqui, desse lugar onde o cotidiano e o insuportável dividem o mesmo ar, que certas coisas se tornam visíveis com uma clareza que a paz nunca permitiu.
Há uma forma de presença que só nasce quando o mundo externo esgota suas exigências. Não é serenidade. É algo anterior à serenidade, algo que existe antes de qualquer decisão sobre como estar. Quando o alarme soa e o corpo já conhece o caminho até o abrigo sem que a mente precise ordenar, o que sobra não é coragem nem resignação. É o que sempre esteve lá, antes de qualquer história que contei sobre mim mesmo. O irredutível. E esse, descobri, não é frágil. É apenas mais antigo do que tudo que tentei construir por cima dele.
Existe uma tradição que insiste em perguntar quem somos. Desconfio dessa pergunta porque pressupõe um eu estável, localizável, que aguarda descoberta como um objeto perdido numa gaveta. O que experimento é outra coisa: não a descoberta de quem sou, mas a cessação da recusa de ser o que já sou. Essa distinção demora a ser sentida em sua totalidade. Porque parar de recusar não é conquistar nada. É largar algo que nunca foi meu e que eu carregava como se minha sobrevivência dependesse disso. Talvez dependesse. Mas já não depende.
Vivo numa linha tênue entre revelar e esconder. Não por cálculo, não por pudor, não por estratégia de proteção. Mas porque a transparência total é uma violência contra a própria complexidade, e o silêncio total é uma traição contra o que pulsa e pede forma. O que encontro no meio não é compromisso. É o único lugar onde a honestidade ainda respira.
A guerra ensina isso de um jeito que nenhuma teoria alcança: que a consciência tem uma soberania que não depende das circunstâncias. Que mesmo aqui, mesmo agora, mesmo com tudo que pesa, há em mim um interior que não foi declarado território ocupado por ninguém. Escrever sobre isso não é escapismo. É o ato mais político que conheço. Porque afirmar que ainda sinto, que ainda percebo a luz quando toca meu rosto, que ainda reconheço o calor como algo que vem de dentro tanto quanto de fora, é recusar que a guerra tenha a última palavra sobre o que sou.
Talvez o que trago aqui não seja intimidade. Talvez seja algo mais radical: a percepção de que sou suficiente para mim mesmo neste instante, sem precisar de outro tempo, outro lugar, outra versão de mim ou do mundo. Com tudo que dói. Com tudo que ainda não tem nome. Com tudo que aquece a pele como se o mundo não estivesse partido, mesmo quando está.
Não peço nada com isso. Não peço compreensão, não peço acompanhamento, não peço sequer que acreditem. Apenas registro que existo. Que sinto. Que esse sentir é mais real do que qualquer coisa visível de fora.
Isso não é bullshit. É um estado. E estados não pedem para ser compreendidos. Apenas para ser reconhecidos por quem também já tocou esse lugar dentro de si e sabe que, quando se chega lá, nada mais parece tão urgente quanto permanecer.