Os natimortos

Os natimortos

Não precisa ser um anti-heroi muito inusitado para estar saindo da cama às 5 e uns palitos da madrugada para trabalhar. Pasme, que tem um bocado de profissionais formados e estatisticamente de classe média que o fazem rotineiramente. Há professores, aqueles unsung heroes da invisibilidade do cotidiano, que apenas com morar a mais de quarenta minutos do local de trabalho e sem carro, estão tomando o café da manhã enquanto eu digito aqui chupando chimarrão. Sei bem disso, pois meus dois primeiros anos na metrópole foram de levantar às 5:15 e sair de casa meia hora mais tarde, andar quase meia hora entre sem-tetos na calçada e pegar o busão na República para Vila Sônia. E eu não saio da média muito mais do que você que está lendo a uma hora mais razoável no aconchego caseiro da pandemia.

O que diferencia a gente de anti-herois e anti-vilões é a tenacidade falta de jeito para a façanha cotidiana. Ah, sim, senhora! Anti-vilões, aka o governo que temos, seus eleitores e seus ainda defensores e passadores de pano diversos, exibem a rara capacidade de destruir lógica e vida em proporções similares sem propor-se a fazê-lo de praxe.

São os Camargos da vida (tanto o Sérgio como o Zezé), que com ações, omissões e opiniões soterram a verdade e a justiça a cada trapalhada; os Neymares e Fulanos da vida, respectivamente com e sem nome, que em similares proporções carecem de consciência de classe e origem e invariavelmente passam pano para seus verdugos. Tantos!

E tem também os anti-figurantes. Eu particularmente venho me deliciando em reverso com estes de há algum tempo a esta parte. Defensores de uma democracia apenas formal, como aqueles orgulhosos centristas que confundem centro com equilíbrio e imparcialidade. Alto-falantes do combate à polarização. Doadores de espaço e tempo para a dúvida razoável sobre a ineficácia da hidroxicloroquina. Propagadores onanísticos de emojis de gratidão burguesa no deck do Titanic Tupiniquim. Saboreio-me o beiço envenenado.

Brandir a dignidade humana não deveria ser o inusitado, mesdames et messieurs,  mas sim apenas o exercício da nossa humanidade concretizada; quanto mais nós que vivemos cheios de mordomias. E ainda assim, calamos sob clichês midiáticos, ficamos satisfeitos com migalhas de reclamações padronizadas, dormimos tranquilamente aquecidos de delegação apartidária terceirizada.

O sabor da falta de ação cidadã libertária concreta amarga cada entardecer de quem vos escreve.

 

Família Puccio, Família Bolsonaro, Clãs

Família Puccio, Família Bolsonaro, Clãs

Texto escrito a quatro mãos, uma brasileira fala da Argentina, um argentino fala do Brasil, o encontro de suas vozes: Família Puccio, Família Bolsonaro, Clãs

“Toda as Famílias Felizes se Parecem, Mas Cada uma é Infeliz a Sua Maneira”

                   (TOLSTOI)

 

Anos atrás fui convidada para uma reunião de estudantes e professores latino-americanos de língua hispânica da UFBA. Entre colombianos, argentinos, mexicanos, chilenos, peruanos, figurava eu lá, como a única brasileira. Em meio a doses generosas de tequila, eu tentava timidamente acompanhar as conversas. A cada momento um deles botava uma música para tocar e, independente do ritmo, e do país, todos acompanhavam cantando e fazendo coreografias. Foi nessa festa que tomei ciência que o nosso Sidney Magal era apenas um cover do “cigano” argentino Sandro, que fazia sucesso estrondoso por toda Latino América e o portador dessa notícia, um colombiano, ainda arrematou: “Ele morreu repentinamente, de enfarto; minha mãe chorou muito.” Para a coisa ficar melhor, soube que as letras de Sandro eram traduzidas para Magal pelo Mago Paulo Coelho. Muita informação para assimilar, mais uma dose de tequila, por favor.

Lá pelas tantas alguém fala que um amigo boliviano ligara dizendo que não iria. E começaram a discorrer sobre a namorada do sujeito. A teoria é que ela, aluna dele da pós, mantinha-o na rédea visando o futuro acadêmico. Inclusive rolaram fofocas robustas dela tentando derrubá-lo para arrumar alguém um plano acima dele, na universidade. Uma colombiana gargalhou e resumiu: “Síndrome de Malinche.” Todos se escangalharam de rir. Menos eu. Malinche era uma doença? Uma gíria? Até que um argentino veio em meu socorro e me explicou que Malinche era uma índia poliglota, que se aliou a Cortez, tradutora especial da equipe espanhola, e quem desenhou para o colonizador a geopolítica de diversos grupos que ocupavam o México, introduzindo-o entre os inimigos e aliados dos astecas. Sua ajuda foi fundamental para Cortez negociar alianças e travar guerras que lhe permitiram  ter domínio sobre o Planalto Mexicano. Ou seja, Malinche é a traidora de seu próprio povo, a quem ajudou a subjugar.

Saí da festa sabendo que Magal era cover de um fulano aí que todo mundo, menos nós, conhecíamos, que Malinche era sinônimo de mulher “chave de cadeia”, que não tenho competência pra beber tequila e que os latino-americanos de língua hispânica possuem uma troca cultural muito superior à nossa. Posso arriscar que seja a barreira do idioma, mas acredito que por sermos tão grandes e tão diversos, acabamos nos fechando para o que acontece aqui ao lado.

Novamente senti esse isolamento ao assistir o filme El Clan, de Pablo Trapero. Assistir a esse filme me fez puxar da memória uma experiência pessoal. Nasci nos anos setenta e até os 14 anos de idade (quando em 1985 pela primeira vez, desde o golpe militar, assumiu mesmo que não pelo voto direto, um governo civil) vivi num Estado de Exceção com todos os agravantes que isso implica. A censura, o conteúdo dos livros didáticos que eram utilizados nas escolas, em especial os livros de história, que glorificavam o governo militar e se calavam sobre as revoltas populares que permearam a história brasileira, a impossibilidade de discutir com desconhecidos o rumo da política, nada que era conversado dentro de casa poderia ser falado fora do âmbito familiar. Essa era a ordem. No entanto, na infância, eu nada sabia sobre as consequências que descuidos do gênero poderiam  gerar. Isso só foi a mim explicitado quando meus pais se aproximaram de vizinhos que tinham acabado de chegar da Argentina, um casal com duas filhas da minha faixa etária. Por mais que eu perguntasse, as meninas nunca me respondiam o porquê de terem deixado amigos e parentes em sua terra natal. Certa feita meu pai me flagrou nesse interrogatório, movido pela minha curiosidade infantil, me chamou num lugar reservado e falou: “Nunca mais pergunte isso. E nunca fale deles pra ninguém. Eles saíram da Argentina porque são perseguidos políticos, se voltarem pra lá morrem.” Nesse momento fui apresentada a dura realidade do governo ditatorial. Tive consciência de que a morte era uma decisão do Estado, para aqueles que discordavam  da política vigente.

Pablo Trapero, diretor do filme,  é meu contemporâneo. Vivíamos em países diferentes, temos histórias de vida que em nada se assemelham, mas ambos crescemos dentro do regime ditatorial e fomos testemunhas da transição para a democracia na adolescência. Trapero tinha 13 anos de idade quando a história dos Puccio foi desvendada. Acompanhou tudo através de manchetes de jornais e revistas. Foi testemunha ocular do espanto da sociedade argentina diante desse triste episódio. Obviamente, quando se propôs a fazer o filme, fez uma pesquisa profunda sobre a história dos Puccio. Estranhou que, até então, antes do lançamento do filme (que alcançou o êxito de ser um dos filmes mais vistos pela Argentina), não havia muita informação, nem dos jornais da época, nem livros, nem textos de maior densidade. Teve que recorrer a entrevistas com juízes, advogados, vizinhos, treinadores de Alejandro Puccio do rugby; investigação necessária para a montagem do roteiro, traçar o perfil de cada membro da família, e, sobretudo, para a construção dos diálogos ente os seus integrantes.

O filme, El Clan, apesar de ser ficcional, como dito anteriormente, parte de uma história real. História esta que assombrou o noticiário policial da década de 80. Achava que só eu ignorava esse acontecimento, mas vi brasileiros de todas as idades que não se lembravam desse absurdo. Vamos lá:  A família Puccio era uma família respeitada, querida, que vivia num casarão no bairro nobre de San Isidro, na zona norte da região metropolitana Grande Buenos Aires, já à época uma área requintada e exclusiva. Formada pelo pai, Arquímedes, um pacato contador e ex-diplomata aposentado, que mantinha uma pequena rotisseria de bairro e cuja única excentricidade para os vizinhos era varrer a porta de casa várias vezes ao dia. A mãe, Epifanía, professora, preocupada com a organização da vida familiar, e por cinco filhos de diferentes idades: Alejandro, Adriana, Guillermo, Silvia e Daniel (Maguila). O primogênito, Alejandro, era um atleta famoso, jogador de rugby do time Los Pumas, dava autógrafos e estampava capas de revistas esportivas. As meninas eram bonitas, estudavam em boas escolas, tinham bons relacionamentos. Tratava-se de uma típica família de classe média, como tantas que existem no ambiente urbano. Arquimedes e Epifanía passavam para quem os conhecia  a imagem de pais preocupados com a criação dos filhos, para o desenvolvimento de cidadãos que se encaixarão perfeitamente na sociedade.

Corria o ano de 1985. O país ainda se recuperava da última e mais traumática ditadura militar (1976-1983) responsável por mais de 30 mil mortos e desaparecidos. Neste ano vem a público uma história que chocou todo o país, que mais parecia um enredo de filme de terror. O próprio Trapero afirmou, enquanto realizava seu longa-metragem relatou “ser um desafio parecer verossímil uma história que parece inventada”.  O que realmente horrorizou a população argentina não foi propriamente o sequestro dessas pessoas, mas o perfil dos sequestradores, que não apresentavam nenhum desvio social. Acusados de sequestro, seguidos de fria execução, mesmo após o pagamento do resgate. A singularidade dessa situação advém do fato de usarem a própria residência como cativeiro, atuando  livremente nessa atividade delituosa por três anos e, para tornar tudo mais espantoso, das ações dos Puccio contarem com a participação dos filhos. Alejandro era quem fornecia informações fundamentais dos possíveis sequestrados, oriundos das classes mais abastadas e com quem mantinha estreito contato, além de servir de isca no momento do rapto. Seu irmão Daniel (Maguila) que estava na Nova Zelândia, retornou para a Argentina a pedido do pai para participar do último sequestro e o pai, Arquímedes Puccio era o mentor dessas atrocidades. Quanto ao resto da família, eram de uma cumplicidade passiva. Impossível que com as vítimas presas em cômodos da própria residência, no banheiro ou no sótão, eles ignorassem a existência de um corpo estranho. O que leva a uma sobreposição estranha e incômoda entre a violência mais repulsiva e um trivial cotidiano doméstico.Quatro pessoas sequestradas e três executadas após pagarem o resgate.

Quando desmascarados, foi inevitável que houvesse  intensa comoção nacional. Não houve jornal, revista ou programa no qual não se falasse deles. Houve até quem os defendesse, acreditando que a família estava sendo vítima de uma conspiração. Como um pai que ajudava nas lições escolares da filha mais nova, cumprimentava os vizinhos, poderia ser esse monstro? Como Alejandro, jogador do mais famoso time de rugby do país e com projeção internacional, poderia entregar pessoas conhecidas, integrantes de seu círculo social? Os argentinos tomaram consciência que o inimigo não vinha de fora, não era um outsider: pelo contrário, podia estar na forma de um simples vizinho e sua família. Esse espanto da sociedade  corrobora com o pensamento de  Primo Levi: “A maioria dos guardiões dos campos de concentração não eram verdugos natos, não eram monstros: eram homens normais.”

Não há como explicar as ações dos Puccio sem contextualizar o momento histórico em que estavam inseridos. Ente os muitos golpes de Estado vividos pela Argentina, talvez o que tenha sido mais contundente foi o de 1974. O governo de “Isabelita” Perón foi derrubado e instaurou-se o governo militar que mais deixou marcas no corpo social e na memória coletiva. Esse regime organizou um forte aparato repressivo, que tinha como principais métodos o sequestro, o aprisionamento de pessoas em centros de detenção clandestinos, que serviam como local de tortura e assassinato. Justificava-se o golpe com a desculpa de eliminar a corrupção e dar fim a violência que ameaçava as instituições. A ideia central era a eliminação do que denominavam inimigo ideológico interno- chamados de subversivos. Na conjuntura anterior ao golpe, ações repressivas já vinham sendo praticadas por facções ligadas ao governo peronista e ao exército – como é o caso dos grupos Aliança Anticomunista Argentina (Triplo A) e o Comando de Libertadores da América, entre outros. Civis  foram acionados para participar da repressão, entre eles funcionários públicos, delinquentes comuns, participantes das organizações de extrema direita. É nesse ambiente que encontramos Arquímedes Puccio. Ele sempre esteve ao lado do poder de ocasião, se relacionando com o alto escalão político. Por relações familiares, em 1947 ingressou no Ministério das Relações Exteriores, sendo inclusive  condecorado como o mais jovem diplomata na Argentina, permanecendo nesse cargo até 1963. Vale destacar que, ao longo de seus vários anos na diplomacia, o país teve alguns golpes, contragolpes e ditaduras. Participou do serviço de repressão antes mesmo do golpe militar. E perpetuou essa conduta no que poderíamos chamar de Estado Mayor da Argentina. Além de membro do Serviço de Informações da Aeronáutica, fez parte da Tríplice A e da SIDE- Serviço de Inteligência Do Estado .Se ele foi uma pessoa sinistra na história policial, também o foi na história política. Sequestrar, torturar e executar não constituíam novidade para ele.

O golpe de 1976, que resultou na ditadura mais sanguinária da América do Sul, foi o resultado de um plano deliberado e consciente. A intenção era promover modificações profundas das estruturas sociais, políticas, econômicas  baseadas na repressão violenta. Quando o autor do delito é o próprio Estado, ocorre um dano duas vezes ao cidadão. O primeiro quando esse é vítima das práticas coercitivas perpetradas contra ele. O segundo, quando não tem possibilidade de defender-se por meio das instituições estatais. No projeto orquestrado pelas forças armadas na Argentina, o terrorismo de estado encontrou seu lugar na caça às pessoas a quem chamavam de “inimigos”. O desaparecimento de pessoas e os centros de detenção clandestinos tornaram-se uma modalidade comum. Andrés Zarankin afirma:

Los Centros Clandestinos de Detención (CCD’s); utilizados por la dictadura militar en Argentina entre 1976 y 1983, para destruir la movilidad, aplicación de tormentos, falta de alimentos, condiciones climáticas extremas (frío o calor), prohibición de comunicación con otras personas, substitución del nombre por un número, entre otras, son dispositivos que tienen, principalmente, como foco de acción directa cuerpo y mente del detenido.

Os militares do poder consideravam o indivíduo tomado como subversivo como irredimível ideologicamente. Videla declarou em uma entrevista sobre as vítimas da repressão: “Yo quiero significar que la ciudadanía argentina no es víctima de la represión. La represión es contra una minoría a quien no consideramos argentina”. Isso justificava a morte sem apelação, sentenciada e executada além dos limites da lei. A suspensão dos direitos individuais  transformava os supostos subversivos em corpos impunemente extermináveis.

Apesar de todas as medidas tomadas pelas Forças Armadas no período ditatorial, nenhum dos supostos objetivos com que eles tomaram o poder logrou êxito, exceto o da eliminação do que chamavam “subversivos”. Uma extensiva política econômica liberal sucateou as indústrias nacionais e o poder militar foi chegando ao seu ocaso. O domínio militar estava fragmentado, devido à divisão de poder entre as três forças. A existência de um Estado terrorista e clandestino foi desgastando as instituições e a própria organização estatal.

Sua última cartada, com o intuito de unir as forças militares e reacender o orgulho nacional entre os argentinos por meio de um objetivo comum foi a declaração de guerra à Grã-Bretanha na tentativa de recuperação das Ilhas Malvinas, sob ordens do ditador Leopoldo Fortunato Galtieri, em 1982. Jovens argentinos, a maioria dos quais eram civis cumprindo serviço militar obrigatório na época, foram mandados, sem nenhum preparo, para lutar contra o experiente Exército inglês. Saldo final: Morreram 649 argentinos no combate, que não durou nem dois meses e calcula-se que cerca de 400 se suicidaram após o conflito. O frio, a fome, os maus tratos impingidos aos jovens pelos líderes militares; essa guerra ainda é uma ferida aberta na história da Argentina contemporânea. O ex-combatente Dario Gleriano, cujo relato está numa denúncia coletiva apresentada pelo prêmio Nobel da Paz, Adolfo Pérez Esquivel,  à Suprema Corte, objetivando  que as humilhações impostas durante a guerra de 74 dias sejam declaradas crimes contra a humanidade, acredita que a repressão exercida pelos militares contra os opositores políticos no continente, funcionou da mesma forma com os recrutas durante a guerra. Se no continente as pessoas desapareciam, nas Malvinas as pessoas eram presas na terra. A máquina repressora funcionou da mesma forma na Guerra contra a Grã-Bretanha.

É certo que o fracasso dessa campanha está diretamente ligado à volta da democracia. No governo castrense, enquanto uns, por medo e terror, não ousavam levantar a voz, outros encontraram nesse panorama uma oportunidade de fazer-se ouvir, destacando-se as organizações humanitárias e as Madres de Plaza de Mayo. Após a derrota das Malvinas, tornou-se para essas mulheres uma meta de vida a busca não só da localização dos corpos de seus filhos e familiares desaparecidos durante os anos da ditadura, mas ter ciência do que lhes aconteceu e em que condições. Fez-se necessário o estabelecimento de políticas que não permitiriam a repetição das ações repressivas. A prática política exigia um redimensionamento, assentado na ética e no comprometimento com os acordos básicos da sociedade.

Em 10 de dezembro de 1983 assume o presidente democrático eleito Raúl Afonsin. Sua promessa de governo baseava-se na volta da democracia, aliada a uma série de propostas de modernização do Estado e da sociedade. Convencendo grande parte da população argentina que a democracia era a solução, venceu as eleições nacionais. Sua herança, porém, foi uma grave crise econômica e de hegemonia do aparato repressivo da ditadura e dos desaparecidos. Citando Maquiavel, em O Príncipe, o poder também pode ser conquistado pelo crime, pela matança de cidadãos, pela traição e foi com atitudes criminosas que o Estado Militar Argentino conseguiu se consolidar, mantendo uma legião de criminosos que permaneceu, mesmo após a redemocratização de sua sociedade.

Arquímedes Puccio fez parte dessa legião clandestina e invisível. Assim como seus comparsas, Guillermo Fernández Laborda, a quem conhecia desde 1973, quando se formou na Escuela Superior de Conducción Política, o tenente coronel Rodolfo Victoriano Franco (que tinha a função de providenciar armas e monitorar a polícia através de infiltrados) e Roberto Oscar Díaz, o chofer do grupo. Todos, com exceção de Díaz, estavam envolvidos com o alto comando militar. Eles tomaram a iniciativa de privatizar a prática de sequestro em 1982, nos estertores da ditadura; não tendo nenhum tipo de ideologia incutida em seus atos, visaram apenas o aspecto mercadológico, utilizando o know-how que haviam adquirido durante a repressão e contando com a leniência de alguns importantes integrantes do governo militar. Continuaram dando seguimento aos seus delitos até 1985, quando, após uma mal sucedida tentativa de resgate do valor cobrado pelo sequestro de uma senhora da alta sociedade portenha, mantida por meses no sótão da casa da família, resultou numa eficaz ação da polícia, efetivando assim a prisão da família Puccio e de seus colaboradores.

Uma das coisas que mais chamou minha atenção nestes meus anos no Brasil é a percepção, ou falta dela, que a chamada classe média tem de si própria, ou mesmo do que significa pertencer a tal (tais) grupo social. Em se pretendendo recorrer a terminologia e sentido históricos, embora desatualizados, a classe média brasileira pode ser considerada isto. É claro que este fenômeno não é privilégio ou falta exclusiva do brasileiro, pois, ao longo do século XX, o(s) conceito(s) de classe foram ampliados, esticados, deturpados e perdidos em nome do valor do rótulo por cima e por fora de tensões clássicas de escalões e conceituações clássico-contemporâneas. Assim, neste torturado imenso canto do mundo que é a América Latina, classe, no sentido mais vulgar e rameiro e na boca suja de quem a levanta e agita como escudo e espada, é sinônimo de pertencimento; melhor dizendo, de não pertencimento do outro. “Ser” classe média é muitas coisas, mas, acima de tudo, representa um leque de não ser. Ser classe média é não ser aqueles pobres sem instrução, sem organização, sem acesso. É manjar dos paranauê do que realmente importa na estrutura de consumo que conta, a do entretenimento, do bom viver. É ter acesso a educação de qualidade, pois a boa e verdadeira é a que se obtém pagando nas escolas e colégios particulares e nas universidades públicas (o que requer uma análise à parte, mas não vamos nos afastar tanto do eixo agora).

Preciso aclarar que eu, como qualquer pessoa que tenha nascido e crescido na Buenos Aires das décadas de 1950-2000, morando em casa própria, mesmo que esta fosse um minúsculo apartamento em um semi-cortiço, com comida todo dia e sem a necessidade de pular ou abandonar o colégio para começar a trabalhar com 14 ou 15 anos, entre outras coisas, sou considerado parte da classe média argentina. Após vida, educação (felizmente, pública, sempre), experiências e desarraigo, em resumo, o que me fez apertar os olhos e ganhar uma visão mais apurada de algumas coisas e muitas pessoas, posso falar que me encontro bem mais preparado para falar dos “errores y horrores” de classe que açoitam a população (neste caso) brasileira.

Para início de conversa, e mesmo tentando pegar leve, pois a ignorância abunda globalmente, devo expressar o espanto que me produz ver o quão despreparada para a vida mundial e local a população brasileira é. Mesmo as bolhas, pois isto são, das classes médias urbanas. Burras. Brutas. E aqui viro o timão gradativamente para irmos encaminhando para onde eu pretendo chegar.

Estes cidadãos, os que têm o acesso, têm o dever tácito de não ser como os outros. Isto implica em aparecer, falar, soar, dos seus próprios jeitos, nunca como os mal vistos. Tudo na ignorância, diga-se de passagem, de quem não faz ideia do que está fazendo perante o mundo, mas mesmo assim indo e agindo, andando e cagando pela realidade. Junto à falta de noção de mundo, de sociedade, há uma diretriz que enverniza a flegma capenga da classe média. O suma cum laude ideológico (pois sim, tudo é ideologia) da cafonice maldosa: ser gente de bem. Gente de bem não se mistura com quem anda torto – sempre e exclusivamente em vagas e falaciosas definições de sachê de açúcar – e não faz a coisa errada. Existe uma aviltante inópia cognitiva, ou ética, ao tentar se esclarecer o que é certo; é claro, quando nos definimos para demarcar o outro e sem visão de nós mesmos, pouco importa o que somos.

As pessoas de bem, além do mais, o são porque elas assim o decidiram. Constituição nenhuma, nem qualquer legislação, define o que isto significa. Por comparação negativa, quem se considera gente de bem é quem sabe que não se encaixa em uma definição descritivo-punitiva de quem é “do mal”. Mas peraí que a melhor parte vai chegando. Para se considerar não pessoa do mal basta não ter sido pego e/ou punido. E só. Por que isto é essencial e conclusivo? Porque delimita e exclui; poupa quem não aparece visível e publicamente humilhado no fait accompli.

Assim, quem despreza uma pessoa não heterossexual ou heteronormativa, mesmo que seu ódio e desprezo sejam encarnados, colossais, nefastos e anti-humanitários, precisa apenas não sair espancando bichas, insultando sapatas ou esquartejando transexuais para que nada de errado haja com ele. Quem, na sua proverbial ignorância das religiões e dos fenômenos cultos e igrejas, na sua miopia histórica e social, estabelece que sua fé é a única e a boa, não peca ao considerar que as outras são crendices e fetiches, pois o falso laicismo do país o ampara. Quem branco se enxerga, sabe o que não é, mesmo que branco não seja e precise tornar-se malabarista dos tons e nomenclaturas para se acomodar na pureza que a branquitude espontaneamente outorga. Quem não anda no beco fumando maconha fuleira ou crack se exclui das populações usuárias de drogas e, principalmente, do público consumidor que sustenta o tráfico em larga escala. Quem casa e descasa legalmente e bem de vez em quando vê os filhos de um punhado de pais vivendo com a mãe que os fez e fecha o obturador para os próprios, nascidos e abortados de outras mulheres. Quem, enfim, se espanta com os sintomas da desigualdade, corre para sua sala e doa para uma associação não governamental de luta contra o câncer infantil ou, no ápice da bondade humana possível, junta não perecíveis para os pobres. Que detesta. E teme. E não é.

Toda família de bem luta batalhas inócuas para parecê-lo. Toda luta deste tipo é em vão para o conjunto da sociedade, é claro. No entanto, quando aparece uma família maior, por mérito ou corrupção assassina, a família brasileira de bem se espelha, quer se reconhecer e se molha na idealização introjetada do que a família-de-bem-mor projeta.

Pouco importa se o lugar na mídia é o de bufão de circo dos horrores, se o espaço social é inexistente ou se a matéria política é de negação e destruição. A alvorada traz um modelo que nos representa e para ele torcemos. De nada adianta a escassez de recurso humano, a inexistência de empatia, o discurso discriminatório e inepto: temos lá o que nos referenda. Aliás, a quanto mais se descasca e aparece, mostrando suas facetas podres, mais a nós se assemelha, apagando assim a necessidade de sublimar ou esconder o que nós somos.

Muito se poderia conectar e comparar entre a família-de-bem-mor brasileira hoje mal ocupando a presidência e em metástase nos poderes e instituições do Estado e uma família como os Puccio. As origens do fundo do anonimato social; os trejeitos brancos e cristãos; os perfis variados, porém sempre aceitos, dos seus integrantes. A aprendizagem de modos, intrigas e criminalidade do seu líder ao longo de uma vida institucional entre os estamentos e círculos castrenses, paramilitares, políticos e milicianos. O arrivismo social, político, institucional e pan-apartidário à força da história que as fez.

Uma grande, imensa, diferença é que, em um país como o Brasil, com ditadores e criminosos, criminosos e ditadores, anistiados, e ditadura apagada, pós-colonialismo rampante e uma população sem sequer contando com repertório lexical – e muito menos, conceitual –, as ramificações políticas e esquemáticas das mazelas malditas passam despercebidas, ou não enxergadas. Em um país cuja população ainda discute se houve um golpe levando a uma ditadura de 21 anos; melhor dizendo, parte dela, pois a maioria não tem a competência para discutir coisa política nenhuma; um golpe-em-democracia e a saturação de males ideológicos passam batidos. De que importa se os sequestros são da lei e o assassinato dos direitos? A mesa foi posta, em período democrático e sob o sol, para se servir e se utilizar de sofismas primitivos e racio-símios que deletassem a ética comportamental, a lógica científica e humanitária e a palavra constitucional.

De bravata em bravata, fanfarronice após tática intimidatória, a família Bolsopuccio emergiu do plasma pestilento do volume morto da politicagem local para o patamar presidenciável, lubrificada pela maioria do resto da cena política e saltos ornamentais discursivos da Grande-Mídia e aliados-lacaios em redes. Uma imprevista família criminosa agora no poder central para chamar de seu o país, brincando, em vez de sequestro e extorsão, de supressão e genocídio.

 

Céu Bauler –

Marcelo Andrés Nayar – Professor Nacional Superior pelo INSS Dr. Joaquín V. González, professor de inglês e espanhol. Nascido e criado em Buenos Aires, mudou-se para São Paulo em 2009. Lê, escreve e fala, e também escreve em gênero literário nas horas vagas das horas vagas.

 

 

Israel, Palestina e minha resposta ao meu amigo não judeu

Caro Martonio Mont’Alverne Barreto Lima, antes de tudo, muito obrigado por sua resposta ao meu artigo “Meu Amigo Judeu”, publicado no Brasil 247. É sempre um prazer conversar com alguém que antes de tudo procura mostrar o que temos em comum, e depois apresentar o que discorda. Tudo de maneira respeitosa, e mesmo assim contundente.

Faço também questão de dizer que nós os dois, apesar dos inúmeros casos citados de falta de manifestações da esquerda, ainda estamos longe de mostrar tudo o que acontece e fica restrito a poucas linhas de um jornal, ou em sites que precisam ser acessados por quem se interessa pelo que verdadeiramente acontece em nosso planeta. Infelizmente a maioria destes tristes episódios da vida real não transita nas redes sociais.

Concordamos plenamente de que Bibi e o Hamas são um obstáculo para a paz. De que se deve criticar as atitudes do governo israelense com relação à ocupação e ao tratamento desigual que dá aos árabes israelenses. Da mesma forma o tratamento que o Hamas e o mundo árabe em geral, dá aos LGBTs e tantas outras minorias.

Eu estou ao lado da esquerda que critica Bibi desde sempre. Por tudo que ele fez e principalmente pelo que deixou de fazer. Me é trágica a visão da situação em que nos encontramos, especialmente sabendo que a violência traz mais violência e o ciclo se renova a cada par de anos. Não discordo em nada. Saliento ainda que mesmo tendo sido o Hamas o responsável por este último ciclo com o lançamento de foguetes contra Jerusalém, não concordo com o uso desproporcional da força. Mas que fique claro que a dor da morte, da perda de entes queridos é a mesma dos dois lados da fronteira. As lágrimas derramadas pelas mães palestinas são iguais as lágrimas derramadas pelas mães israelenses.

Em nenhum momento do meu texto escrevi que toda a esquerda é antissemita. Jamais diria uma coisa destas porque não é verdade. O que eu disse e reafirmo, é que parte da esquerda é antissemita. Infelizmente o preconceito é um flagelo humano, independe de ideologias e abrange todo o espectro político.

Eu o convido, caro Martonio a uma simples reflexão. Vamos imaginar, apenas para fins desta conversa, que Israel não existisse, aliás que nunca existiu. Concordamos que a esquerda silencia, ou quase não se manifesta contra as tragédias humanas que acontecem ao redor do mundo. Neste caso seria correto supor então que não existiriam mais manifestações contra Israel? Sim e não. Explico: não contra Israel que nesta nossa reflexão não existe, mas parte da esquerda continuaria se manifestando contra os judeus que “querem dominar o mundo, que dominam a economia mundial, a imprensa internacional” etc.

Mas então vamos um passo adiante e vamos imaginar que não existissem judeus também. Então, sim, o silêncio seria quase completo. O problema nunca foi Israel, o problema são os judeus. A isto eu chamo antissemitismo da esquerda.

Agora dentro deste mesmo quadro alguém poderia achar que existiria um Estado Palestino. Ledo engano. Se não existisse Israel, aquele território seria parte da Jordânia, da Síria ou do Egito. Talvez estivesse dividido entre eles. O mesmo que acontece com os curdos e o Curdistão.

Voltando à realidade eu creio que parte da esquerda que se manifesta de maneira antissemita, o faz pela simples razão de que Israel é um Estado Judaico. Tire os judeus da equação e eles passam a fazer parte da maioria da esquerda que faz ouvidos moucos às tantas mazelas humanas que já mencionamos. Outra parte faz as críticas certas e com razão sobre o que acontece aqui.

Eu hoje estou com 63 anos. Sempre militei na esquerda. Trafeguei sem problemas nos mais diversos fóruns antissionistas. Tenho o bom senso de diferenciar um antissionista de um antissemita. Já fui alvo de ataques dentro da comunidade judaica em discussões sobre isso. Já me acusaram de traidor, de antissemita, de anti-israelense, esquerdista e me chamaram de tudo que possas imaginar. Ser de esquerda na comunidade judaica não é fácil. Por outro lado, parte da esquerda me chama de imperialista, de assassino, de genocida, sionista. Ser judeu na esquerda não é fácil. Da direita não chegam menos desaforos.

O fato é que sempre fui um sionista socialista e aprendi a conviver com isso. Vivi o socialismo no Kibutz (fazendas coletivas) e hoje vivo na cidade. Não compactuo com o sionismo religioso, nem mesmo com o sionismo da direita. Algo muito parecido com o Peronismo na Argentina. Como se sabe, lá sempre existiram Peronistas de esquerda, de centro e de direita. Ser antiperonista lá é quase como ser anti-Argentina.

Nós, judeus sionistas socialistas somos a linha de frente na luta por um Estado Palestino. A nossa voz é necessária, é o contraponto às ambições das facções fascistas da sociedade israelense que desejam anexar todo o território ocupado.

Eu acredito que ninguém melhor que um negro para me explicar o que é o racismo. Ninguém melhor que um homossexual para me explicar a homofobia. Assim sendo, ninguém melhor que uma mulher para me explicar o que seja a misoginia. Por que seria diferente com relação aos judeus? Por que não pedir a um judeu que explique o que é antissemitismo? Por que as pessoas se acham no direito, e digo isso sabendo que muitos o fazem de boa vontade, de me dizer o que de fato é uma agressão à minha condição como judeu e o que é de fato uma agressão restrita a Israel? Acham realmente que depois de todas as perseguições, de todas as tentativas de sermos varridos do mapa, do Holocausto, chegamos até os dias de hoje sem saber quem é um antissemita?

Meu querido Martonio, nunca vais escutar de minha pessoa que toda crítica a Israel é antissemitismo. De fato, seria muito comodismo e uma falta de bom senso de minha parte. Sempre fui muito cuidadoso neste sentido. Tenho mais de 45 anos de militância nas costas para saber que quando estamos diante de uma pessoa que odeia judeus, se comporta como antissemita, fala como antissemita, ela é antissemita. Simples assim.

Tenho um amigo de infância que faz parte da ABJD e nutro o maior respeito pela instituição e seus membros. Sei que ali ao seu lado se encontram pessoas progressistas, muitas de esquerda com alta envergadura intelectual e uma enorme preocupação com o Brasil, sua gente, suas instituições e a democracia. Apreciei muito suas palavras e agradeço muito por ter nos colocado na posição de dialogar.

O Brasil247 dá não só a mim, como ao meu amigo e companheiro Jean Goldenbaum, também um judeu sionista socialista a oportunidade de publicar nossos textos no portal conhecendo nossa vida de lutas por um mundo melhor. O Jean inclusive possui um programa na TV247. Invariavelmente recebemos comentários antissemitas e até de baixo calão de parte de leitores. Todos se dizem de esquerda, humanistas, progressistas e alguns até pedem o nosso banimento. Não estou me referindo a comentários com sugestões, cumprimentos, discordâncias, críticas etc. Algo normal para se ler em relação ao que escrevemos e que todo autor de um texto precisa receber. Estou falando de ataques virulentos e às vezes contendo ameaças a ponto de solicitar que sejam retirados. Isto faz do Brasil247 um portal antissemita? Claro que não.

Não podemos tapar o sol com a peneira e acreditar que toda a esquerda é de paz e amor. O preconceito também existe do lado de cá. Quem transita nas redes sociais conhece bem isso. Mulheres são assediadas em grupos de esquerda. Homossexuais são humilhados em grupos de esquerda. Negros são maltratados em grupos de esquerda. Porque seria diferente com os judeus, não é verdade?

Bem meu caro amigo, mais uma vez obrigado por sua resposta a minha instigação. Fico muito honrado com o que escrevestes e em saber que concordamos na maioria das coisas, podendo respeitosamente discordar de outras. Isto nos faz pensar e mostra que o assunto não se esgota nesta troca de textos, podendo ser discutido honestamente quando cada um percebe qual é a percepção do outro para o tema e pode, mesmo que por alguns instantes, se colocar no lugar dele.

 

As lições da Dra. Nice

O patético depoimento da Dra. Nise Yamaguchi na CPI da COVID-19 ocorrido ontem no senado é uma síntese de rara riqueza sobre o período que vivemos. Muito mais que um retrato do movimento dos discursos disrutptivos dos quais o atual governo é useiro e vezeiro, consolida-se mesmo como o discurso intempestivo de uma época onde o ego exercia influência desproporcional no progresso de carreira de um profissional da medicina. Explico. Venho de uma formação que marcou um final de era na medicina, era na qual as condutas médicas que levavam alguém à fama, não obstante a diversidade de talentos que a profissão exige e que passam longe do puro conhecimento científico, era a famosa “experiência pessoal” ou “opinião” sobre o assunto. Advogando em defesa da hoje tão temida “opinião”, assevero que opinião é uma categoria intelectual que faz uma escolha dentro de um campo de validade construída por diversos níveis de conhecimento sobre um assunto, e não aquele juízo que para sua admissibilidade exige o solapamento de todo o edifício conceitual e experimental prévio, que é o que aqui chamamos de discurso destrutivo.
Confesso que durante o curso médico cheguei a bater continência ao modelo egóico de conhecimento e prática médica, mas ao mesmo tempo, acuso o aparelho formador (que ultrapassa as fronteiras das escolas médicas) de não me prover o ferramental necessário para que o personalismo pudesse ser identificado e removido dos radares do conhecimento. Posteriormente, na pós-graduação que fiz na área de Histologia na USP pude me alimentar dos alicerces filosóficos e metodológicos da produção científica, e ainda mais posteriormente, já no início do meu amadurecimento como médico aos tardios 16 anos de formado, comecei a estudar e aprender sobre a medicina baseada em evidências, à qual dirigi muitas críticas ainda válidas (não à sua natureza, mas ao seu mau uso), mas que sem a menor sombra de dúvida é o norte de qualquer profissional de saúde que assim queira ser chamado.
De fato, a capacidade da medicina baseada em evidências de prover respostas precisas e definitivas é pequena como uma formiga e lenta como um mastodonte. Mas uma vez que a pergunta correta e metodologicamente bem organizada obtém uma resposta, os céus fazem uma festa, da qual, ainda que na condição de míseros mortais, podemos participar e desfrutar.
Mas há lugar para festas também no inferno, quando determinadas criaturas em determinadas circunstâncias, como a da atual pandemia de COVID-19 e o atual pandemônio político resolvem dar lugar às forças atávicas das falsas e frágeis mitologias que na realidade são meras idolatrias, como bem lembra o Prof.Dr. Ricardo Timm de Souza em sua magistral obra “Crítica da razão idolátrica”, que recomendo a todos.
O momento atual foi propício para que túmulos de um passado de pedestais que muitas vezes serviram mais como cadafalsos aos seus imponentes e eretos próceres se revirassem e fizessem assim ressurgir sob as vestes da farsa esses verdadeiros zumbis que hoje protagonizam o discurso destrutivo que parece exercer mesmo um efeito hipnótico e bestificante sobre seus portadores. Sim, por que duvido que cada um de nós tenha uma boa teoria sobre o que faz pessoas como a Dra. Nise Yamaguchi, que carrega o peso de tradições de sua própria cultura familiar e étnica, da Universidade de São Paulo, do Hospital Albert Einstein e talvez de outras que eu aqui desconheça mas não menos respeitáveis, derrapem na curva da estrada da vida nas proximidades de seu ápice e exponha ao mundo a ridícula cena de rolar montanha abaixo, colidindo com todo o tipo de obstáculo no caminho, deixando um rastro de pedaços e partes tão miseravelmente reduzidos que talvez ao mais experimentado perito não permita identificar o que ali aconteceu.
A questão fundamental a ser aprendida no momento, é que pessoas com esta incrível capacidade propriamente pornográfica de expor suas entranhas mentais existem, e ocupam espaços que não conseguiram se proteger de um “vírus” ardiloso e oncogênico (homenageando aqui a especialidade da nossa “homenageada”) transportado nos seus cérebros. O cenário de barbárie atual, bem análogo ao quanto produzido na década de 1930 na Alemanha, jamais seria possível sem esse “vírus” dormente em segmentos da sociedade, que de tempos em tempos e em lugares diferentes do planeta desperta do seu túmulo como o mito do vampiro e põe em ação o arquétipo do sedutor sugador de sangue humano.
A Dra. Nise nos alerta para o fato de que a ciência e as instituições não bastaram, nas últimas 4 décadas pelo menos, que comigo foram compartilhadas em termos de tempo e lugar na profissão médica, para vacinar a sociedade contra tipos egóicos que na hora certa e lugar certo irão se agarrar a algo que nossa consciência moral mediana nos mantém bem distante para alcançar a fama e o poder. E a falta dessa “vacina”, por sua vez, é certamente por ação deliberada de um grande movimento negacionista anterior cujas sementes agora frutificam. Mas são frutos de árvore podre.

Todo brasileiro é fascista

O Brasil teve um governo progressista por 8 anos com o Presidente Lula. Não se pode dizer que o sistema tenha sido socialista, mas pode-se afirmar sem medo de errar, que não foi nada próximo do neoliberalismo. A ele se seguiu o governo de Dilma Rousseff que foi retirada do poder em um golpe branco dado por ex-aliados.

O golpe não só tirou o Partido dos Trabalhadores do poder, como foi responsável pela ascensão e fortalecimento da operação Lava Jato que culminou na prisão de Lula e na vitória de Jair Bolsonaro nas eleições que se seguiram.

Tanto o golpe, como as ações da Lava Jato tiveram o apoio incondicional da mídia brasileira. Mesmo baseado em fatos de duvidosa comprovação, a Presidente Dilma foi deposta com a ovação das ruas. A Lava Jato foi elevada ao patamar da Operação Mãos Limpas na Itália, seus membros aclamados como heróis e o Juiz Sergio Moro proclamado como o Super-Homem no combate a corrupção e endeusado quando da prisão de Lula, sob os aplausos da população. Não foi necessária provar nada, bastaram convicções.

A seguir vocês  elegeram Jair Bolsonaro como novo presidente e abraçaram o fascismo como sua bandeira. Ninguém poderia dizer que desconhecia as intenções de Bolsonaro. Elas eram todas conhecidas desde há muito. Sua expulsão do exército e sua carreira como parlamentar inepto eram de conhecimento público, assim como o que pensava sobre os negros, mulheres e LGBTs. Todos sabiam que ele é um apoiador da  tortura.

Ainda assim, vocês optaram por colocar no poder uma família miliciana e se orgulham de tê-lo feito. Bolsonaro não existe como presidente, faz o que quer, descumpre as leis, incentiva o uso de medicações perigosas e sem nenhum efeito prático para combater a pandemia, ri dos mais de 400 mil mortos, ataca o poder judiciário e ainda assim vocês o adoram.

Em outros países, políticos eleitos que tiveram atitudes parecidas foram derrubados do poder. Mesmo em meio a pandemia, multidões lutam por seus direitos, mas não no Brasil. Aí as ruas são ocupadas por vocês para apoiar Bolsonaro. O presidente pede, e vocês saem para pedir um golpe militar com ele presidente.

Em todas eleições os mesmo políticos conhecidamente corruptos voltam a ser eleitos. É patético como vocês aceitam com placidez aquela frase de políticos de Repúblicas das Bananas: “Eu roubo, mas faço”. Mesmo aqueles que nada fizeram além de roubar os cofres públicos, são reeleitos.

Por incrível que pareça os abusos policiais são apoiados por vocês. Ações policiais como a do Jacarezinho são admitidas como legítimas. Todo pobre e favelado já foi, é ou será um ladrão. Sendo assim, ladrão bom é ladrão morto. Ninguém se importa com isso e não se vê nenhuma manifestação nas ruas exigindo que os responsáveis sejam punidos.

O Brasil é fascista. O mundo hoje trata o país com desdenho, e por conta do descontrole sobre a pandemia, como um pária internacional. Nenhuma nação quer receber vocês. O seu passaporte se tornou um sinônimo de vergonha.

Aquele país do samba, futebol e carnaval não existe mais. Multinacionais com anos de investimentos no Brasil estão indo embora, e com razão. Elas planejam seu futuro com antecedência e o Brasil não tem nenhum. Hoje todos querem distância de vocês.

Um país que ataca seu principal parceiro comercial e fornecedor de insumos para produção das vacinas contra a Covid-19, não se dá o respeito. Mesmo com a perda de seu principal mentor, Donald Trump, Bolsonaro continua se “pavoneando” como se tivesse alguma relevância no trato diplomático internacional.

O brasileiro é fascista. Um povo que elege e mantém no poder um Jair Bolsonaro, não tem outra denominação que não esta. Vocês o elegeram, vocês o veneram, vocês são o suporte para todos seus devaneios. Ele não teria saído do esgoto de onde veio não fosse com o seu apoio.

O mundo não vai perdoar vocês. Não vai perdoar o que vocês estão fazendo com a Amazônia, não vai perdoar com o que vocês estão fazendo com os povos indígenas, não vai perdoar vocês por assassinarem os que defendem os Direitos Humanos.

Em breve vamos assistir ao surgimento de movimentos que inicialmente vão iniciar o  boicote aos produtos brasileiros para logo boicotarem as universidades, os artistas, os times de futebol e tudo mais que tenha relação com o Brasil. O mundo livre não suporta fascistas.

Não concorda?

Se você, leitor de esquerda chegou até aqui, se acalme. Sei que a esta altura deva estar indignado, afinal de contas você não votou nele, não coaduna com suas ações e muito provavelmente participa de ações contra o seu governo.

Agora você deve fazer uma ideia de como é que nós, israelenses sionistas socialistas, que toda nossas vidas combatemos o fascismo nos sentimos quando você fala de Israel de maneira generalizada. Aqui também combatemos o governo fascista de Benjamin Netanyahu, somos a favor de um Estado Palestino e contra todo tipo de violência.

Quando você acha que Israel está fazendo algo errado, saiba que é muito provável que nós também achamos . Mas nós combatemos o governo, não o país que é composto de cidadãos de todo espectro político.

Assim como existem brasileiros de esquerda resistindo ao governo fascista de Bolsonaro, existem israelenses de esquerda resistindo ao governo de Bibi. Quando Israel é bombardeada, nós também sofremos com isso, somos parte da população. Compreendemos perfeitamente que do outro lado da fronteira o sofrimento é o mesmo.

Não seja mais um antissemita que usa seu discurso antissionista para verbalizar todo seu racismo e seu ódio aos judeus.

Pense nisso na próxima vez que se manifestar contra o conflito. Precisamos de vozes que compreendam os dois lados, que sejam parceiros dos dois povos, que levem as lideranças dos dois povos a buscarem um acordo de paz com justiça. Todos nós deploramos a violência e temos direito a vida.

Finalmente temos um cessar fogo e torcemos para que ele seja permanente. Basta de mortes, basta de terror e destruição. Somos de esquerda, somos antifascistas.

Samba Perdido – Capítulo 33 – parte 02

*

Paralelamente à contradição de estar vivendo o sonho de pertencer a uma boa banda enquanto o clima em casa era de fim de festa, o Brasil passava por um momento importante.

A inabilidade dos militares em lidar com as complexidades de uma recessão e de uma inflação pesadas junto com as medidas de austeridade impostas pelo Fundo Monetário Internacional – o FMI – ao país em 1983 causou uma queda brutal na qualidade de vida dos brasileiros e das brasileiras. O descontentamento era geral. Porém, o mais frustrante era que não se podia votar para presidente. De acordo com os militares, os brasileiros não eram capazes de tomar tal decisão. A ditadura impunha que podiam escolher seus representantes no Congresso mas só dos únicos dois partidos permitidos, a ARENA e o MDB.  Embora o lema do golpe miltar de 64 tenha sido reestabelecer a democracia e salvar o pais do comunismo os presidentes eram generais apontados pelas forças no poder.  Havia a promessa – que ninguém acreditava – de que num futuro não especificado, permitiriam eleições para presidente. Confrontando essa mistura inaceitavel, as forças democráticas do país se uniram e, marchando juntas, lancaram um movimento que tomou as ruas sob o slogan “Diretas já! ”.

Gigantescas manifestações aconteceram em cidades por todo o Brasil. Após um comício em São Paulo que atraiu 1,7 milhões de manifestantes houve um outro no Rio que levou mais de um milhão de pessoas às ruas, a maior concentração política que a cidade já tinha visto.

Uma revolução em tempo real era algo imperdível. O evento foi no auge no verão, em Janeiro, e devido a uma greve dos professores a faculdade ainda estava funcionando. Matei aula para chegar cedo na Candelária. Já havia uma pequena multidao e passando apertado por entre o povo consegui subir numa banca de jornais para ver melhor. Fiquei ali vendo a rua lotar. Quando ja não dava para ver onde o mar de gente terminava na avenida Presidente Vargas, o primeiro discurso começou.  Enquanto tentava me concentrar nas palavras do orador, senti alguns pingos no meu ombro. Quando olhei para trás, havia alguém mijando em uma coluna bem atrás de mim.

“Que porra é essa, meu irmão!?  Tu acha que tu tá sozinho aqui!?”

“Ih! Foi mal! ”  E o idiota mirou para outro lado.

Dali para frente as coisas só melhoraram. Artistas famosos, líderes do congresso, governadores, juristas e outras figuras eminentes da política foram se revezando no palanque fazendo discursos históricos e sendo aplaudidos em peso pela massa reunida. O comício demorou horas e terminou com a multidão cantando o Hino Nacional com todos marcando aquele momento na memória coletiva brasileira com lágrimas nos olhos.

Brasília, a capital federal, ficava longe dos grandes centros, de maneira que os governantes só viam o que estava acontecendo pela televisão. Isso os conferia um distanciamento e um senso de imunidade. Sua concessão foi permitir que o congresso elegesse um presidente civil, Tancredo Neves, uma figura amplamente respeitada e que tinha sido tolerado pelo regime no Congresso fantoche como oposição simbólica ao golpe desde o seu início. O candidato oficial que eles deixaram perder as eleições indiretas foi Paulo Maluf. Esse era um político impopular, notoriamente corrupto, que no auge da ditadura foi apontado pelos militares para ser o governador de São Paulo.

Com a vitória de Tancredo, um presidente civil finalmente tomaria posse no Brasil pela primeira vez em mais de 20 anos. Entretanto, o presidente eleito adoeceu sériamente poucas semanas antes da diplomação. Esse drama manteve o Brasil em suspense: ninguém sabia a real gravidade da enfermidade de Tancredo, se ele poderia assumir a presidência ou se havia algum tipo de conspiração em andamento. Com Tancredo hospitalizado e possivelmente em coma, José Sarney, o vice-presidente, escolhido para agradar segmentos militares e governadores da situação no Nordeste, tomou posse em março de 1985. Semanas depois, Tancredo morreu.

Estávamos escalados para fazer um show na noite em que confirmaram a morte de Tancredo. Enquanto um Brasil abalado se unia no luto, ficamos sentamos na escadaria da boate em Copacabana torcendo para que alguém aparecesse. Eduardo ficou andando ansioso de um lado para o outro, parando apenas para perguntar porque não havia ninguém lá. Nós pacientemente explicamos que o Brasil havia acabado de perder o seu presidente de direito, ao que ele retrucou.

“Sério? Morreu de quê?”

Ele não estava brincando e caímos na gargalhada sem conseguir acreditar como alguém poderia estar tão completamente fora da realidade.

*

Naquele momento político conturbado e da tempestade econômica o Rio estava vivendo a febre do rock. De uma hora para outra, parecia que todo mundo fazia parte de uma banda e aqueles que não faziam pareciam desesperados para se envolver de uma maneira ou de outra. Em meio a toda essa agitação, apareceu a primeira estação de rádio do estado a se dedicar exclusivamente ao rock; a Rádio Fluminense. Ela transmitia do outro lado da Baía de Guanabara, de Niterói. O seu jovem dono tinha acabado de herdar a estação e estava disposto a deixar sua marca. Graças à ele, ninguém mais precisava comprar discos para ouvir bandas como Led Zeppelin, Yes, Jethro Tull, Pink Floyd e The Who. A festa acabou quando as grandes gravadoras foram bater na porta da rádio exigindo direitos autorais.

Sem poder pagar, a Rádio Fluminense passou a tocar exclusivamente artistas internacionais recentes, produzidos por selos independentes ansiosos para tornar seus artistas conhecidos no Brasil. Ainda que acabasse perdendo o status de rádio pirata voltada para uma geração mais velha, a Maldita FM, como eles gostavam de se apresentar, fez sucesso com um público interessado em ouvir as bandas de vanguarda sobre as quais viviam lendo em revistas importadas, mas às quais não tinham acesso. Foi assim que o Rio entrou de vez nos anos oitenta.

Daniel, que mais tarde seria um colega de trabalho quando me tornaria professor de inglês, foi fundamental para o sucesso da Rádio Fluminense. Na época, ele era comissário de bordo internacional e durante suas paradas em Londres e Nova York, comprava os últimos lançamentos das bandas mais recentes. Quando voltava ao Rio, os entregava na Rádio Fluminense. Isso dava à emissora uma vantagem que nenhuma outra poderia ter.

Mas não eram só bandas internacionais que a radio tocava e a gente estava doido para aparecer lá.

Charles, o dono do estúdio e agora nosso empresário informal, levava fé na banda e começou a conseguir shows para a gente. Com a pouca grana que ganhamos com eles, investimos em uma fita demo na esperança de viver o sonho de tocar na Maldita FM. Ainda que sua sala de ensaio fosse excelente, para seu espanto, decidimos que o que o Charles oferecia em termos de estúdio de gravação não era bom o suficiente. Isso nos levou a melhores estúdios, onde trabalhamos com engenheiros de som fazendo pose de profissionais de verdade sem tempo para riquinhos pretensiosos da Zona Sul.

Apesar da arrogância e da impaciência dos caras, levavamos a coisa a sério. As preparações e as gravações em si nos fizeram parar para ouvir  o que estávamos fazendo e tomarmos uma distância do trabalho. Ficamos mais conscientes do que estávamos tocando, aprendemos bastante e melhoramos. No entanto, o pseudo profissionalismo dos estúdios não permitiu que a banda mostrasse o seu melhor. O método deles, ainda que utilizasse tecnologia de ponta, era contra-intuitivo e contra-produtivo: cada um gravava sozinho em uma sala escutando as faixas dos outros com fones de ouvido. Não havia prazer ou calor humano nas gravações. As sessões eram chatíssmias, normalmente tarde da noite ou de madrugada porque era mais barato, Algumas vezes alguém perdia a concentração errava sua parte no meio da gravação, enquanto noutras quem se confundia era o engenheiro, quando não eram os dois. O resultado era repetições sem fim onde a essência da banda sucumbiu aos detalhes técnicos.

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