Somos, com alguma folga, o país mais filmado do mundo, uma nação de câmeras em esquinas, drones sobre telhados e celulares apontados para tudo o que se move, inclusive para muita coisa que faria melhor em não se mover, e é por isso que causa admiração o porta-voz do nosso exército ter respondido, quando lhe perguntaram o que houve no posto de Awarta na manhã de 27 de julho, que a alegação de que soldados retiveram uma ambulância é falsa e que nenhuma denúncia a respeito havia chegado. As duas metades se anulam com perfeita compostura, já que quem não foi informado de nada não tem como julgar a falsidade de coisa alguma. A única câmera que importou naquela manhã estava na mão de um motorista palestino, o que talvez explique a demora do correio.
Nenhuma lei nossa proíbe palestinos de rodar pela estrada sessenta, o que seria escandaloso, e proibir é feio. Proíbe-se apenas que cheguem até ela, o que é discreto, sai mais barato e funciona melhor. A ONU contou novecentos e vinte e cinco obstáculos à circulação na Cisjordânia, dos quais cento e vinte e um existem com a única finalidade de fechar os acessos das vilas àquela estrada, aos quais somamos cento e vinte portões novos apenas em 2025, um a cada três dias, produtividade que nenhuma outra repartição nossa alcançou em qualquer área. Motoristas contam que esses portões costumam ficar trancados entre seis e nove da manhã, para que os filhos dos colonos cheguem à escola na hora.
A ambulância de Bashar al-Qaryuti saiu de Qaryut às seis e meia levando uma mulher de vinte e oito anos, grávida de seis meses, entrando e saindo da consciência, com uma hemorragia que Sabreen Atallah, enfermeira nessas estradas desde 2014, diz nunca ter visto igual. Ele achou trancada a única saída da vila, tentou o caminho de terra entre os olivais e achou trancado o segundo, contornou e chegou a Awarta, onde o portão fechado, é preciso reconhecer, era rigorosamente o mesmo para o carro que ia ao mercado e para o que levava uma hemorragia, imparcialidade que muito nos honra.
Dois soldados mandaram desligar o motor e, quando al-Qaryuti explicou, no hebraico rudimentar que se aprende em anos de postos como aquele, que os aparelhos da paciente funcionavam com a energia do motor, ouviu que calasse a boca. As telas apagaram uma depois da outra, e o último número que Atallah leu antes disso foi oitenta e quatro por cento de saturação. Ela avisou em inglês que a paciente podia morrer, e as armas subiram na direção dela, o que no idioma local se chama restabelecer a ordem. Os documentos foram recolhidos e devolvidos meia hora depois. O bebê nasceu pouco antes do posto e morreu. A mãe chegou ao hospital com três unidades de sangue e uma cirurgia de urgência à frente, e sobreviveu. Ela contou a um jornal que estava escolhendo nomes.
Ninguém ordenou a morte daquela criança, e é aí que a dificuldade começa, porque a crueldade convicta ao menos tem autor, enquanto a distraída se dissolve em procedimento, sobrevive a qualquer investigação e nunca aparece na folha de serviço de ninguém. O rapaz de dezenove anos naquele portão, sem dormir, assustado, com uma semana atrás de si em que colonos armados mataram e ninguém os deteve, cumpria uma ordem que não escreveu. Quem a escreveu tem nome. Depois do ataque de colonos de 24 de julho, que deixou dois israelenses e quatro palestinos mortos, Binyamin Netanyahu determinou uma operação de larga escala, e Nablus, Ramallah e Hebron foram trancadas, de modo que o luto foi de todos e o castigo, como de costume, caiu sobre alguns. Chamamos o arranjo de defesa, uso inventivo de uma palavra bonita, já que ninguém explicou de que exatamente a hemorragia daquela mulher nos defendia.
Nossos bisavós conheciam portões por dentro, sabiam a hora em que abriam, o nome do homem que tinha a chave e o preço corrente do favor, e foi com essa competência amarga que escreveram, em maio de 1948, a promessa de igualdade de direitos a todos os habitantes sem distinção de religião, raça ou sexo. Não escreveram aquilo por bondade. Escreveram porque tinham acabado de ser o carro parado na fila. Setenta e oito anos depois, o que se pedia em Awarta era menos do que qualquer coisa que já nos foi negada. Pedia-se um motor ligado.
Um exército capaz de instalar um portão a cada três dias deveria conseguir abrir um em trinta minutos. Levou trinta e um. Nada neste relato é excepcional, e essa é toda a dificuldade. Tomamos a terra e nos recusamos a tomar os filhos que vinham com ela, e o arranjo funciona tão bem que o dia 27 de julho foi, para quase todos aqui, uma segunda-feira comum. Meus compatriotas podem continuar achando isso normal. Eu me recuso.
“A paz é para as mulheres e para os fracos. Impérios se forjam na guerra.”
É o que Agamêmnon disse ao irmão Menelau, que queria a mulher de volta depois que Páris a levara para Troia, e foi a última frase honesta que alguém pronunciou sobre o assunto. Mil navios zarparam, oficialmente por Helena. Os poetas cantaram a face mais bela da terra, os arautos falaram em honra, e às viúvas disseram que os maridos tinham morrido por amor. Os historiadores, gente menos romântica, duvidam. Troia não guardava uma mulher. Guardava a boca de um estreito, o Helesponto, e quem se sentava naquela margem cobrava do resto do mundo pelo direito de atravessar. Os gregos não cruzaram o mar por um rosto. Cruzaram por uma cabine de pedágio. Helena foi a legenda que a história escreveu debaixo da fatura, e a versão que se leu em voz alta aos que enterravam os mortos.
Três mil anos depois, o truque não envelheceu um dia. Há sempre uma Helena à mão, uma face bela o bastante ou ameaçada o bastante para fazer a ganância parecer romance, ou sobrevivência. Vale perguntar o que de fato se quer na outra ponta da água. Não uma mulher, e não uma nação, mas uma moeda, e por trás dela a coisa mais próxima da feitiçaria que a engenhosidade dos mortais já concebeu, o poder de fazer dinheiro do nada, para sempre.
Houve um tempo em que o dinheiro guardava algum recato. Em 1944, em Bretton Woods, as nações combinaram que trinta e cinco dólares comprariam sempre uma onça de ouro, e que todas as outras moedas ficariam ancoradas ao lado do dólar. Cada nota era uma promessa resgatável em metal, e a promessa segurava a mão de quem imprimia. Funcionou enquanto durou o metal. Vieram então o Vietnã e os apetites da prosperidade em casa, as gráficas despejaram mais dólares do que Fort Knox jamais poderia honrar, e a França, atenta às próprias contas, começou a trocar o papel por barras e a esvaziar o cofre. Numa noite de domingo de agosto de 1971, Nixon apareceu na televisão e anunciou o fim da conversibilidade com o ar de quem remaneja o horário dos trens. Daquela noite em diante, o dólar apoiou-se em dois pilares apenas, a fé e a frota.
A fé precisa de algo em que se firmar, e aqui veio a jogada mais astuta do século passado. Washington e Riad chegaram a um entendimento astuto: o petróleo do mundo seria vendido só em dólar, e, em troca, a superpotência manteria seus navios de guerra entre a Casa de Saud e seus inimigos. A garantia do dólar deixou de ser o ouro no cofre e passou a ser o petróleo sob a areia dos outros, e a marinha que tomava conta dele. Quem quisesse rodar um carro ou girar uma fábrica tinha, antes, de juntar dólares, e os países do petróleo os mandavam de volta comprando a dívida do próprio cliente que estavam cobrando, num esquema capaz de arrancar uma lágrima de qualquer agiota. O círculo se fechava, ouro sem ouro, e girava sozinho.
Os franceses chamaram aquilo de privilégio exorbitante, e o nome era exato. Um país que emite a moeda que todos os demais são obrigados a entesourar pode gastar com uma licença que nega aos outros, acumulando déficits que em qualquer nação comum afundariam a moeda e o gabinete até terça-feira, enquanto o mundo, sedento de dólares, forma fila para comprar a dívida e a chama de refúgio. O padrão de vida estadunidense foi bancado pela sede dos estranhos, e com ele as prateleiras, as garagens e as guerras a um hemisfério de distância. A inflação, quando se mexe, é posta num navio; as quebradeiras chegam em Bangcoc, em Buenos Aires, em Brasília, quase nunca à porta do Tesouro estadunidense. E sobre quem se recusa a jogar paira a única arma que o guardião do dinheiro do mundo dispara sem estrondo, a sanção, o banimento dos canos por onde o comércio respira.
Nenhum império ordenha o planeta inteiro sem que o planeta, mais cedo ou mais tarde, pegue a calculadora. Em 2001, um economista de banco cunhou uma sigla para vender quatro mercados famintos, Brasil, Rússia, Índia e China, e os chamou de BRICs; era um slide numa reunião de vendas, e o autor mal suspeitava ter rascunhado um manifesto. O rótulo pegou. Os quatro sentaram-se como bloco, e atrás deles vieram África do Sul, Irã, Egito, Etiópia, Emirados, Indonésia, até que o truque mnemônico de banqueiro passou a abarcar dois quintos da produção do mundo e metade da sua gente. E o bloco fez a pergunta óbvia, aquela que tira o sono do Tesouro: por que negociar na moeda de um estranho, pagando seu pedágio e obedecendo às suas listas negras, quando se pode negociar na própria? E assim os seus países compram e vendem em yuan, em rupia, em real, e assentam linhas de pagamento que contornam o dólar e contornam o Swift, a rede que transmite quase toda transferência entre bancos de países diferentes, aquela que Washington lê por cima do seu ombro e fecha quando quer castigá-lo. Rússia e China já liquidam quase todo o seu comércio sem tocar num dólar; o Irã vende seu petróleo à China em yuan; e cada barril vendido assim é mais uma rachadura no muro.
E aqui voltamos ao estreito, embora não ao que está no mapa. Todo estreito na história acaba, com o tempo, atendendo por um novo nome; o Helesponto virou os Dardanelos, e os Dardanelos viraram Ormuz. Mas o verdadeiro estreito da nossa era não está em carta nenhuma e não hasteia bandeira alguma. É o dólar, e toda carga da terra, seja qual for o oceano que cruze, precisa passar por ele e pagar o homem que guarda o portão. É essa a passagem que importa, e é essa a passagem sob ameaça.
Por isso o Irã, montado sobre o estreito de Ormuz, não é, no fundo, uma história sobre o perigo nuclear. Deixem-me conceder a esse perigo todo o seu peso, porque sou israelense e não vou fingir o contrário: o governo em Teerã é uma ameaça de verdade, jamais deveria ter a bomba, e o fato de que muito provavelmente já a tem basta para tirar o sono de qualquer um. Tudo isso é verdade, e nada disso foi o que moveu as frotas. O Irã vende seu petróleo em outra moeda e ameaça fechar ou taxar o canal por onde escoa um quinto do petróleo do mundo. O perigo nuclear é o motivo apresentável, aquele que um estadista pode berrar ao microfone para colher aplausos; a fatura em yuan é o motivo verdadeiro, e sobre esse um homem prudente fica de boca fechada. Foi por aquela orla, e não por uma ogiva e não por um rosto, que Israel e os Estados Unidos despejaram fogo sobre o Irã em fevereiro passado, em nome da sobrevivência e da derrubada de um regime. O Líder Supremo foi morto. Ormuz se fechou. E o mundo, estremecendo na bomba do posto, lembrou-se de que toda passagem estreita paga dividendo a quem está sentado na margem.
Se a guerra fracassar, o mundo pode trocar de dono, pois quem for capaz de lacrar aquele canal sem a licença do dólar terá mostrado que o poder de Washington afinal tem limite. O que se disputa em Ormuz não é uma ogiva. É a moeda em que a terra vai comprar sua energia pelos próximos cem anos, e portanto quem paga a conta do conforto, das frotas e das guerras distantes. Uma perda ali não seria uma derrota militar. Seria a aposentadoria de um método de fabricar dinheiro.
E Helena. Onde está ela em tudo isto? Onde sempre esteve, no cartaz à porta do cinema. Israel é a face bela e ameaçada cujo nome empresta respeitabilidade a uma ganância antiquíssima, o pretexto que faz o apetite de uma grande potência passar por cavalheirismo. Isto deveria doer em quem ama este lugar, porque um Israel democrático e justo, um país que briga consigo mesmo em voz alta e conta cada um dos seus mortos pelo nome, nada ganha emprestando o próprio rosto às contas de outra nação, deixando que rapazes de dezenove anos em nossas fronteiras sejam gastos como trocado miúdo numa transação cujo lucro se lança num fuso distante. Disseram-nos que éramos Helena, a beldade que as frotas tinham vindo resgatar. Estamos aprendendo, devagar e caro, que a beldade por quem elas de fato navegam nunca teve rosto de gente, e que o nome de Helena, no fim, pertence ao padrão dólar, o nome radiante pregado numa máquina de fazer dinheiro sem fim. Naquela velha história nunca fomos a rainha atrás das muralhas. Fomos a tropa do lado de fora, os descartáveis, gastos para manter uma moeda em seu trono. A crueldade não está só no combate. Está em lançar o sangue na conta de um e o troco no crédito de outro, e em chamar de amor, ou de sobrevivência, o simples pavor de perder o pedágio. Agamêmnon, fosse o que fosse, nunca alegou que a guerra era por Helena.
E aí está o paradoxo que o nome carrega desde Troia. Toda guerra é justa, pois toda guerra tem a sua Helena. E nenhuma guerra é justa, pois atrás de toda Helena há um pedágio. Os dois veredictos são proferidos sobre as mesmas covas, e os dois valem. O brilho da causa é a única pista. Quanto mais radiante a Helena que uma nação manda à frente, mais escuro e mais sem nome o interesse que ela carrega na retaguarda.
Uma antiga lenda indígena conta que um avô levou seu neto ao topo de uma montanha e lhe disse:
“Um dia tudo isso será seu, e você liderará a tribo. Mas o mais importante não são as terras, e sim o que você fará com elas. Dentro de nós vivem dois lobos — o lobo do medo e o lobo do amor. O primeiro é cheio de medo, ódio e violência. O segundo é cheio de amor, esperança, fraternidade e paz. Eles lutam constantemente para decidir qual deles irá dominar.”
O neto perguntou imediatamente: “E quem vence?”
O avô respondeu: “Aquele que você alimenta mais.”
Hoje, em Israel, existem duas correntes que podem ser descritas através da metáfora desses lobos: a Parada das Bandeiras e a Parada do Orgulho LGTB+.
No dia 15 de maio vimos a Parada das Bandeiras — o principal evento do Dia de Jerusalém. Houve um tempo em que essa data simbolizava a união da cidade para todo o povo de Israel. Alguns de nós estavam dispostos a compartilhar Jerusalém com muçulmanos e cristãos, transformando-a em uma cidade internacional ou na capital de dois Estados. Foi assim em 1993, nos Acordos de Oslo, em 2000 em Camp David, e em 2007 no encontro entre Olmert e o presidente Abbas.
Os Acordos de Oslo foram o auge da alimentação do lobo do amor. Rabin influenciou tanto israelenses quanto palestinos. Quem se lembra de palestinos distribuindo flores aos soldados israelenses na Cisjordânia e em Gaza após a assinatura dos acordos? A paz parecia ao alcance das mãos. O amor venceu. O lobo do amor venceu.
Mas aqueles que alimentavam o lobo do medo não ficaram satisfeitos. Para eles, a única forma de mudar a realidade não era matar o lobo do amor, mas eliminar quem o alimentava. E foi isso que fizeram. Enviaram um caçador, e três tiros assassinaram aquele que alimentava o amor. Houve quem comemorasse, quem dançasse nas ruas sem vergonha, e quem agradecesse a Deus nas sinagogas. Depois disso, passaram a reunir cada vez mais alimento para o lobo do medo.
Dia após dia, partes do sistema educacional ensinaram medo, ódio e violência. Em sinagogas, distribuíram panfletos cheios de racismo, supremacia e ódio. Sim, aprenderam isso com outros povos, e sabem muito bem o quanto isso machuca os perseguidos. Plantaram sementes de opressão, e em todo lugar onde havia uma tentativa de alimentar o lobo do amor, ela era reprimida.
Anos alimentando continuamente o lobo do medo criaram um mecanismo fechado cujo único objetivo era reunir ainda mais alimento para ele. Chamaram judeus americanos para ajudá-los. Chamaram grupos ultraortodoxos que nem acreditam neste Estado para se juntar a eles. Aproximaram-se também de grupos
com os quais até parte da direita israelense antes se recusava a cooperar. Eles não queriam apenas alimentar o lobo do medo — queriam destruir o lobo do amor e expulsar todos aqueles que acreditavam nele. Juntos, alimentaram também o lobo do medo de seus vizinhos e, durante anos, ajudaram-no a matar o lobo do amor do outro povo.
Encontramos essas pessoas ontem na Parada das Bandeiras. Crianças e adolescentes, acompanhados de seus líderes, caminhando pelas ruas da Cidade Velha espalhando medo, ódio e violência. “Morte aos árabes.” “Que a aldeia deles queime.” Todos vestidos de azul e branco, com símbolos religiosos à mostra e bandeiras de Israel nas mãos.
Quanto eu gostaria de não ter visto o que vi. Quanto medo senti ao ver aquilo. Lembrei-me de Yeshayahu Leibowitz e de sua expressão “judeus nazistas”.
Estudantes religiosos e alunos de yeshivá, ao lado de ultraortodoxos que, em vez de estudar Torá, dedicaram seu tempo a espalhar ódio. Pessoas que acreditam na Torá e rezam diariamente em livros de oração nos quais a palavra “paz” aparece mais de cem vezes — mas não é essa a mensagem que recebem no sistema educacional. Trata-se de um sistema de doutrinação que os transforma em lobos do medo.
Eles aprendem a temer, odiar e lutar contra árabes cidadãos de Israel, palestinos, muçulmanos, cristãos e também judeus que não seguem seu caminho — esquerdistas, reformistas, LGBTQIA+ e mulheres. Todos são vistos como perigosos porque podem alimentar o lobo do amor.
Mas o lobo do amor ainda vive. Mesmo magro e ferido, ainda possui força para levantar a bandeira da esperança. Ainda possui força para marchar com orgulho.
Em oposição à Parada das Bandeiras está a Parada do Orgulho LGTB+ , uma marcha cheia de amor, aceitação, fraternidade e esperança. Não é uma marcha de uma única cor, mas de muitas cores, onde cada pessoa leva consigo suas próprias cores: sua identidade pessoal, sexual, de gênero, comunitária, religiosa e nacional. Um arco-íris de cores. Um arco-íris de emoções. Um arco-íris de identidades.
Nessa marcha caminham todos aqueles que acreditam na liberdade e na paz. Precisamos reunir forças, reunir alimento e voltar a alimentar o lobo do amor. Não podemos permitir que nos bloqueiem o caminho até nosso lobo — até o amor, até a paz.
Não esperem que outros façam isso. Se você acredita na paz, levante-se, reúna alimento e vá às ruas para alimentar novamente o lobo do amor. Se fizermos isso, no dia das eleições o lobo do amor vencerá. E talvez possamos também fortalecer o lobo do amor de nossos vizinhos — que também hoje está agonizando — e aproximar ambos a paz: duas casas sobre uma mesma terra.
“Os homens não diferem muito sobre o que chamarão de males; diferem enormemente sobre quais males considerarão desculpáveis.” Quando C.S. Lewis escreveu essa frase, talvez não imaginasse que estava desenhando o mapa completo do colapso moral de Israel. O problema nunca foi nossa incapacidade de reconhecer o mal. Todos sabemos, com uma clareza quase instintiva, o que é crueldade, como se parece a injustiça, o que significa destruir uma vida. Essa clareza é universal, atravessa culturas, idiomas e fronteiras. E, ainda assim, desaparece como fumaça no vento no momento decisivo — quando precisamos escolher entre condenar ou perdoar. E a variável que decide nunca é a natureza do ato, nunca a intensidade do sofrimento causado, nunca qualquer medida objetiva de proporcionalidade entre crime e julgamento. A variável é sempre, incansavelmente, a mesma: quem cometeu o ato. Se é um dos nossos ou um dos deles. Se carrega nossa bandeira ou a bandeira do inimigo. Se a dor deles nos toca ou nos deixa indiferentes.
Há uma aritmética perversa nessa geometria moral. A mesma bala que atravessa uma criança muda de nome conforme a direção do cano: terrorismo quando vem de um lado, dano colateral quando vem do outro. A mesma casa reduzida a escombros é barbárie quando é a nossa, operação cirúrgica necessária quando é a deles. A mesma voz que se rompe sobre o corpo de uma criança é tragédia humanitária quando grita na nossa língua, estatística aceitável quando clama em uma língua que preferimos não entender. E nós, confortavelmente distantes do sangue e das ruínas, fazemos essas distinções com a solenidade de quem acredita exercer julgamento moral genuíno, quando na verdade estamos apenas defendendo nossa tribo, confirmando nossos vieses, escolhendo a versão da história que nos permite dormir. Nossos padrões éticos não funcionam como princípios universais — funcionam como espelhos que refletem apenas o que já queremos ver, o que já acreditamos, o que confirma nosso lugar no mundo. A justiça deixa de ser farol e se torna reflexo.
Trinta anos atrás, dois tiros nas costas de Rabin mataram mais do que um homem. Mataram uma possibilidade — a esperança frágil de que ainda poderíamos ser um país decente, moralmente íntegro, em que a paz pudesse pesar mais do que a vitória, em que a justiça pudesse transcender sangue, solo e tribo. E aqui não há abstração, não há poesia suavizando o que a história fez daquela noite: aqueles que celebraram o assassinato de um judeu por outro judeu — de um primeiro-ministro por um homem que dizia servir ao mesmo povo — não desapareceram na vergonha ou no exílio. Não se arrependeram. Esperaram. Gritaram. Marcharam. E no fim foram recompensados não com desonra, mas com poder. Algumas das mesmas vozes que um dia incitaram e santificaram o assassinato hoje ocupam o governo, moldando as leis e o espírito do país, trabalhando diligentemente para garantir que tudo aquilo que Rabin mais temia tenha se tornado nossa realidade cotidiana. Se isso não prova o quão ansiosamente relativizamos o mal quando nos convém, o quão prontamente absolvemos a violência quando a mão que aperta o gatilho é da nossa própria tribo, então nada provará.
O que veio depois não foi acidente da história, nem desvio inexplicável de algum curso natural das coisas. Foi escolha. Nossa escolha, escolha coletiva, repetida dia após dia em cada conversa em que encontramos contexto para nossa violência, mas negamos qualquer compreensão à violência alheia; em cada julgamento em que nossa dor é tragédia shakespeariana enquanto a deles é mera circunstância geopolítica; em cada momento em que nossos mortos merecem luto público e os deles merecem, no máximo, uma nota de rodapé. As pessoas me escrevem insistindo que os palestinos são os únicos culpados pelo fracasso do processo de paz, como se a culpa fosse uma moeda única a ser depositada inteira em um só bolso, como se a inocência absoluta existisse de um lado e a culpa absoluta do outro, como se a história fosse uma fábula moral e não a tragédia complexa que realmente é, na qual todos carregamos feridas e facas. A verdade é muito mais brutal: todos somos responsáveis — eu, você e eles.
Isso não é diluição conveniente da culpa até ela se dissolver no abstrato. É o reconhecimento de que a injustiça opera como um sistema ao qual cada um de nós contribui segurando um fio diferente da teia. O homem que aperta o gatilho segura um fio. Aquele que forneceu a arma segura outro. Aquele que construiu o discurso que tornou o tiro imaginável segura um terceiro. O que aplaudiu depois, o que se calou estrategicamente, o que desviou o olhar no momento crítico, o que elaborou a narrativa que transforma assassinato em necessidade, massacre em autodefesa, crueldade em pragmatismo — cada um segura um fio. E segura também quem depositou seu voto naqueles que elogiaram o assassinato, e todos aqueles que elegeram os que celebraram ou santificaram o crime, entregando deliberadamente poder às mãos de pessoas que transformaram um assassinato em missão. Juntos, todos nós tecemos a rede na qual nos aprisionamos, repetindo os mesmos gestos e justificativas numa dança que já dura décadas e promete durar séculos, até que tenhamos coragem de soltar nossas pontas da corda e deixar a estrutura desabar.
Quando a linha entre condenação e perdão é traçada não pelo ato, mas pelo autor, a justiça como ideia universal simplesmente colapsa. O que resta não é ética, mas código tribal. O que persiste não é busca da verdade, mas defesa da nossa verdade. Julgamos não atos, mas identidades. Medimos não consequências, mas bandeiras. Pesamos não dor, mas proximidade com nossa mesa de jantar. E, ao fazê-lo, revelamos algo profundamente inquietante sobre nós mesmos: nossos princípios morais servem menos como bússolas apontando para algum norte ético objetivo e mais como instrumentos de confirmação de preconceitos, armas de guerra tribal disfarçadas de justiça, ferramentas não de revelação, mas de proteção contra verdades inconvenientes.
Duas tentações se erguem simetricamente diante dessa constatação. Uma é o cinismo niilista: se todos são parciais, se todo julgamento é reflexo de interesse, se não existe observador neutro, então não existe justiça verdadeira e podemos abandonar o teatro cansado da moralidade. A outra é o fanatismo: a pureza absoluta do próprio lado, a justiça inquestionável da própria causa, onde toda dúvida vira traição e toda crítica é ajuda ao inimigo. Ambas são refúgios confortáveis que nos poupam do trabalho mais difícil — olhar no espelho e admitir que o rosto refletido faz parte do problema, não é observador inocente da tragédia alheia. Mas há um terceiro caminho, estreito e sem corrimão: manter a consciência radical de nossa falibilidade moral sem abandonar a busca pela justiça. Reconhecer que julgamos através de lentes distorcidas não nos libera de julgar — nos obriga a julgar sabendo disso, a aplicar a nós mesmos o mesmo padrão implacável que aplicamos aos outros, a dizer em voz alta que aquilo que fizemos foi errado mesmo quando há contexto, mesmo quando há provocação, mesmo quando admitir dói como ferida aberta.
Isso exige algo que vai contra cada instinto tribal enterrado em nossa medula: pesar nossos mortos e os deles na mesma balança. Chorar por suas mães com a mesma visceralidade com que choramos pelas nossas. Ver suas crianças como igualmente dignas de futuro quanto as nossas. Renunciar ao conforto entorpecente da vitimização perpétua — essa narrativa na qual estamos sempre respondendo e nunca iniciando, sempre nos defendendo e nunca atacando, sempre vítimas da história e nunca seus agentes. Exige que deixemos de medir a gravidade do mal pela identidade de quem o comete e comecemos a medi-lo apenas pelo mal em si, pela vida destruída, pelo mundo que desaparece a cada respiração interrompida.
Os dois tiros de trinta anos atrás ecoam não porque foram dois projéteis entrando em um corpo numa noite específica. Ecoam porque foram o ápice de mil escolhas anteriores e o anúncio de todas as escolhas que faríamos depois — a decisão de dividir o mundo entre nós e eles, entre os que merecem contexto e os que merecem somente julgamento, entre os que têm direito ao luto e os que têm direito apenas à análise estratégica. E continuam ecoando porque seguimos fazendo essas mesmas escolhas todos os dias, a cada manhã em que acordamos, cada vez que nossa indignação tem CEP específico, cada vez que o nome do crime muda quando muda o nome do criminoso, cada vez que produzimos justificativas elaboradas para nossa crueldade que jamais aceitaríamos da crueldade alheia.
A possibilidade que morreu com Rabin não morreu apenas por duas balas. Morreu pela nossa decisão coletiva, consciente ou não, de acreditar que algumas balas são mais desculpáveis que outras. Que alguns corpos pesam mais. Que nosso luto merece ritual e o deles merece contexto. E essa decisão, multiplicada por milhões de pessoas, em milhões de conversas e julgamentos cotidianos, é o que de fato mata a decência. Os extremistas que apertam gatilhos são apenas os dedos mais visíveis de uma mão que todos formamos. Fornecemos as premissas, assentamos os tijolos do clima moral no qual matar se torna pensável desde que seja sempre o outro a morrer. Amarramos nossos próprios fios na rede que aperta ao redor de todos nós.
Se a linha entre condenação e perdão é traçada pela identidade do autor e não pelo ato, a justiça não é apenas frágil — ela é fictícia. Nosso código ético vira mecanismo de autoengano coletivo, espelho polido para nos devolver apenas a imagem que preferimos. E se isso é verdade — e os trinta anos desde aqueles dois tiros sugerem que é — então a pergunta deixa de ser filosófica e se torna urgente, dolorosa e pessoal: teremos coragem de quebrar esses espelhos? De parar de buscar neles confirmação e começar a buscar verdade? De admitir que enquanto medirmos o mal pelo autor e não pelo dano, nunca teremos justiça, apenas sua ilusão — e essa ilusão é o mal mais perigoso de todos, porque se justifica infinitamente, se multiplica eternamente e mata sem jamais precisar confrontar o próprio rosto?
Somos todos responsáveis — eu, você e eles. E até que consigamos repetir isso olhando diretamente para o espelho, sem suavizar o olhar, sem buscar absolvição conveniente no reflexo, os dois tiros continuarão ecoando através das gerações, matando repetidamente a mesma possibilidade frágil de sermos, enfim, um povo decente e moralmente íntegro. A justiça continuará sendo espelho que devolve apenas o que queremos ver, nunca o farol que guia através da escuridão que nós mesmos, escolha após escolha, dia após dia, continuamos criando.
Escrevo este texto enquanto observo, em choque, meu país Israel se destruir moralmente. Sou sionista e humanista, alguém que passou a vida estudando história, mergulhando nos padrões que se repetem através dos séculos, nas revoluções que prometem liberdade e nas estruturas de poder que emergem de suas cinzas.
E é dessa imersão na história humana que carrego comigo uma verdade fundamental: quando, no curso do desenvolvimento humano, as instituições existentes se provam inadequadas às necessidades do ser humano, quando servem apenas para escravizar, roubar e oprimir a humanidade, o povo tem o direito inalienável de se rebelar contra essas instituições e derrubá-las.
Isso não é um princípio abstrato para mim. Não é apenas teoria política ou filosofia distante. É uma verdade visceral, forjada tanto nos livros de história que devorei quanto na história do meu próprio povo. Vi esse padrão se repetir da Revolução Francesa à descolonização africana, das revoltas de escravos na Antiguidade aos movimentos de direitos civis do século XX. E vivi isso como judeu, como descendente de um povo que precisou invocar exatamente esse direito para sobreviver.
Nós, judeus, conhecemos intimamente o que significa viver sob instituições que nos escravizaram, roubaram e oprimiram. Conhecemos os guetos, as leis que nos tratavam como menos que humanos, os pogroms, a Shoah. Conhecemos o sabor amargo da dignidade negada, da humanidade questionada, da existência ameaçada simplesmente por existir.
E nos rebelamos. Claro que nos rebelamos.
Lutamos por nossa dignidade, por nosso direito de existir, por um lugar onde pudéssemos ser humanos completos, não tolerados, não subjugados, mas livres. E conquistamos isso. Israel existe porque nos recusamos a aceitar que as instituições do mundo nos condenassem à extinção. O sionismo foi nossa rebelião contra séculos de opressão, nossa afirmação de que merecíamos autodeterminação, segurança, um futuro.
Isso foi um ato moral. Profundamente moral.
Mas aqui está a pergunta que me assombra, a pergunta que meu estudo da história torna impossível ignorar: quando derrubamos as instituições que nos oprimiam, quando construímos as nossas próprias, conseguimos permanecer fiéis àquele impulso moral original? Ou, sem perceber, sem querer, reproduzimos as mesmas estruturas de dominação que buscamos destruir?
A história me ensinou algo devastador: quase toda revolução, quase todo movimento de libertação corre esse risco. Os jacobinos que derrubaram a monarquia francesa criaram o Terror. Os bolcheviques que libertaram os servos russos criaram o Gulag. Os revolucionários que expulsaram colonizadores frequentemente se tornaram os novos opressores de minorias dentro de suas próprias fronteiras.
É o padrão mais trágico e mais comum da experiência humana: o oprimido que se torna opressor.
E, quando olho para meu país hoje, quando vejo Israel pelas lentes dessa história que tanto estudei, vejo algo que me parte o coração.
Vejo um povo que conhece intimamente a dor da opressão agora controlando outro povo. Vejo muros que lembram guetos, embora digamos que são diferentes. Vejo postos de controle que regulam o movimento, que transformam a simples ação de ir ao trabalho ou visitar a família em uma humilhação diária. Vejo crianças que crescem sob ocupação, assim como nossos avós cresceram sob ocupação, embora insistamos que não é a mesma coisa.
E talvez não seja exatamente a mesma coisa. Mas é perto o suficiente para me fazer perguntar: como chegamos aqui?
Como um povo que gritou “nunca mais” se encontra criando as condições em que outro povo grita a mesma coisa? Como justificamos para nós mesmos que nossa segurança exige a indignidade deles? Como nos convencemos de que os muros que construímos são defensivos, enquanto os muros construídos contra nós eram opressivos?
A resposta, e isso é doloroso admitir, é que toda revolução corre o risco de reproduzir o que destruiu, não por maldade necessariamente, não por hipocrisia consciente, mas porque o poder corrói com uma sutileza insidiosa. Começamos dizendo que precisamos de poder para nos proteger. E isso é verdade. Realmente precisávamos. Realmente precisamos.
Mas o poder não para aí. O poder se expande. O poder se justifica. O poder encontra sempre mais razões para ser exercido, sempre mais ameaças que devem ser neutralizadas, sempre mais controles que devem ser implementados para garantir a segurança.
E, antes que percebamos, não estamos mais apenas nos defendendo. Estamos dominando.
E, quando alguém aponta isso, quando alguém diz que estamos reproduzindo estruturas de opressão, nos indignamos. Como ousam comparar? Como ousam equiparar nossa luta legítima pela sobrevivência com a opressão que sofremos? Não entendem que somos diferentes? Não entendem que nossas circunstâncias são únicas?
Talvez sejam. Talvez cada situação seja única. Mas isso não muda a verdade fundamental: um povo ocupado, controlado, humilhado diariamente, privado de autodeterminação, é um povo cuja dignidade está sendo negada. E eu, como judeu, como alguém cujo povo conhece essa dor intimamente, não posso fingir que não a vejo.
O paradoxo é ainda mais profundo: se reconheço isso, se admito que Israel, em sua forma atual, reproduz estruturas de dominação, o que faço? Apoio a derrubada dessas estruturas? Apoio aqueles que se rebelam contra elas?
E então me deparo com outra verdade inconveniente: aqueles que se rebelam contra a dominação israelense não são todos santos morais. Alguns querem genuinamente libertação e dignidade. Outros querem simplesmente inverter a dominação, nos colocar de volta sob seu controle, talvez até nos eliminar completamente.
Como, então, separo a rebelião legítima pela dignidade da violência que busca apenas inverter a opressão? Como apoio o direito de um povo de se rebelar contra instituições que o oprimem quando sei que alguns dos que se rebelam me destruiriam se pudessem?
Esta é a complexidade moral em que vivo. Não tenho respostas fáceis. Não tenho slogans simples. Não posso simplesmente dizer que Israel está certo ou que Israel está errado. Não posso simplesmente rotular a resistência palestina como inteiramente legítima ou inteiramente terrorismo. A realidade é mais nuançada, mais dolorosa, mais resistente a certezas confortáveis.
O que posso dizer é isto: toda revolução corre o risco de reproduzir o que destruiu. Isso não é uma possibilidade remota, é quase uma inevitabilidade. O oprimido que se torna opressor é um dos padrões mais trágicos e mais comuns da história humana.
Mas reconhecer esse risco não significa aceitá-lo como fatalidade. Significa permanecer vigilante. Significa questionar constantemente se nossas ações, justificadas como defesa, não se tornaram dominação. Significa ouvir quando os outros nos dizem que estamos reproduzindo o que sofremos, mesmo quando dói ouvir, mesmo quando nossa primeira reação é negar.
Significa lembrar que o direito de se rebelar contra instituições opressivas não pertence apenas a nós, pertence a todos os povos, inclusive àqueles que agora vivem sob nosso controle.
E aqui está a verdade mais difícil: se realmente acreditamos que as pessoas têm o direito eterno de se rebelar contra instituições que as escravizam, roubam e oprimem, então precisamos admitir que os palestinos têm esse direito também, não o direito de nos destruir, nem o direito de nos negar a existência, mas o direito de resistir à ocupação, de lutar por sua dignidade, de derrubar as estruturas que os controlam.
Reconhecer esse direito não nega nosso direito de existir, de nos defender, de ter um lugar seguro no mundo. Mas exige que façamos uma distinção crucial entre defender nossa existência e dominar a deles.
Israel pode existir sem ocupação. Israel pode ser seguro sem transformar outro povo em súditos. Israel pode honrar sua própria história de opressão sem reproduzi-la contra outros.
Mas isso exige algo extraordinariamente difícil. Exige que abramos mão do poder. Exige que confiemos, ao menos em parte, em um futuro em que a segurança venha não do controle total, mas do acordo mútuo. Exige que arrisquemos.
E talvez isso seja pedir demais. Talvez, depois de tudo que sofremos, seja irrealista esperar que abramos mão de qualquer vantagem, de qualquer controle, de qualquer poder que nos mantenha seguros.
Mas, se não fizermos isso, se nos apegarmos ao poder como única garantia de segurança, então já perdemos algo fundamental. Perdemos a pureza moral daquela rebelião original. Perdemos o direito de afirmar que nossa revolução foi diferente, que, quando derrubamos as instituições que nos oprimiam, não criamos novas para oprimir outros.
Então eu te pergunto, não como provocação, mas como alguém genuinamente dividido: como permanecemos fiéis ao impulso moral da rebelião enquanto exercemos o poder que conquistamos? Como garantimos que as instituições que construímos para nos proteger não se tornem instrumentos de dominação? Como quebramos o ciclo em que o oprimido se torna opressor?
Não tenho resposta completa. Mas sei onde começa: começa em reconhecer que o perigo existe. Começa em admitir que nós, como qualquer povo que conquistou poder, corremos o risco de reproduzir o que destruímos. Começa em ouvir quando outros nos dizem que sua dignidade está sendo negada, mesmo quando isso dói, mesmo quando desafia nossa narrativa de vítimas que se defendem.
A menos que escolhamos resistir a essa reprodução conscientemente e dia após dia, a revolução inevitavelmente se desgastará e reproduzirá os velhos instrumentos de dominação.
Antinomia, palavra grave e raramente ouvida fora dos manuais de filosofia, é o nome dado ao escândalo lógico de ver duas proposições contraditórias sustentadas por razões igualmente sólidas, e não é uma simples contradição, porque a contradição pode ser desfeita pela escolha de um lado, ao passo que a antinomia permanece insolúvel, nela tanto a tese quanto a antítese persistem como verdades legítimas, e não há raciocínio que desfaça o nó, dizia Kant quando perguntava se o universo tem um começo ou é eterno, se a matéria é divisível até o último grão ou se a divisão é infinita, e em cada resposta encontrava a força da afirmação e a mesma força na negação, como se a própria razão tivesse chegado ao limite de si mesma.
E é precisamente nesta terra que a antinomia abandona o papel e toma forma em famílias inteiras, nos corpos dos que retornaram após o extermínio, nos que nasceram sob tendas de refugiados, nos que carregam as cicatrizes das guerras, nos que herdam as memórias da expulsão. Israel existe porque o exílio e a perseguição ameaçaram extingui-lo e porque um povo precisou de chão de onde ninguém mais pudesse expulsá-lo, e essa afirmação é verdadeira; a Palestina existe porque habitou estas colinas desde tempos imemoriais, porque guarda as chaves de casas demolidas em Haifa e cultiva oliveiras plantadas por avós que não conheceram outro lugar, e essa afirmação também é verdadeira. O escândalo é que nenhuma das duas anula a outra, ambas se impõem como realidade em si, e no entanto cada uma nega a outra, e é isso que significa viver dentro de uma antinomia que não é conceito abstrato, mas destino histórico.
Eu falo deste lado da fronteira. Sou judeu, vivo em Israel, acredito no sionismo porque ele foi a resposta à ameaça de desaparecimento, às humilhações de séculos, ao extermínio que quase nos apagou e às guerras travadas aqui que nos obrigaram a defender, repetidas vezes, a nossa própria existência. Aqui está a minha vida, aqui está a minha casa, e a ideia de que este país exista é para mim questão de sobrevivência. Mas ao mesmo tempo, diante de mim, sei que há outro lado, igualmente real, igualmente vivo, igualmente marcado pela expulsão e pela perda, e não posso fingir que ele não exista. Carrego comigo o peso de reconhecer que a verdade do meu povo não apaga a verdade do povo palestino, e é justamente nessa colisão que sinto a antinomia não como conceito de livro, mas como chão de cada dia.
Aqui não se disputa apenas território ou política, aqui o que está em jogo é a impossibilidade de hierarquizar dores: como decidir se pesa mais a lápide quebrada em Varsóvia ou a chave guardada em Haifa, como medir o sangue perdido em guetos, em campos de extermínio e nas guerras de Israel diante do sangue que corre por vilas arrasadas, como atribuir maior direito a um medo de desaparecer ou a uma recusa em ser apagado. A razão, orgulhosa de suas medidas, tropeça diante de uma contabilidade impossível, e a cada tentativa de resolver o que pertence à vida com esquemas rígidos, retorna a conclusão de Kant: há limites que o pensamento não atravessa.
Antinomia, então, não é palavra para ser esquecida em tratados, é o nome desta casa rachada onde judeus e palestinos tentam, a cada manhã, acender a lâmpada, sabendo que o teto pode desabar, e ainda assim cozinham, trabalham, amam, como se fosse possível habitar um paradoxo sem perecer nele. E talvez seja justamente isso que esta terra revela ao mundo: que nem tudo se decide pelo martelo de um juiz, que nem toda disputa encontra veredicto, que há verdades que não se conciliam, mas que insistem em coexistir, que a vida, apesar de tudo, insiste em dançar sobre essa lâmina.
Mas é claro que dançar sobre lâminas cobra o preço do sangue, e é por isso que o solo desta terra está sempre manchado, ora visível nas manchetes que contam os mortos, ora invisível nos silêncios acumulados de uma geração à outra. Cada criança que nasce aqui é de imediato convocada a carregar não apenas o peso do próprio corpo, mas também a herança de um conflito que não escolheu, e a infância se torna campo de treinamento da memória: de um lado, os nomes dos guetos, as marchas forçadas, as valas comuns, as guerras que marcaram a sobrevivência de Israel; do outro, as casas demolidas, os registros de terra negados, os campos de refugiados onde crianças crescem olhando para além das cercas. O leite materno já carrega uma narrativa, e a escola apenas confirma que o destino não é folha em branco.
A antinomia não pode ser negociada em Oslo nem dissolvida em Camp David, não desaparecerá em discursos nas Nações Unidas, porque não está apenas no papel assinado ou rasgado, está no íntimo, no sangue herdado, no modo como cada um aprende a pronunciar a palavra nós e a palavra eles. E é por isso que, quando o mundo exige soluções rápidas, como se bastasse traçar linhas num mapa, a realidade responde com fracasso, porque não se trata de linhas, trata-se de identidades inteiras que se recusam a ser trocadas como peças de um tabuleiro.
E no entanto, ainda assim, a vida insiste: mercados abrem, trabalhadores atravessam postos de controle, médicos cuidam dos feridos sem perguntar sua origem, amantes se encontram em segredo como se pudessem inventar uma geografia oculta, uma pátria feita de dois corpos que se tocam. A antinomia, insolúvel, não impede que surjam pequenas interrupções de humanidade, quase clandestinas, mas reais, e talvez nelas resida a única forma de não sucumbir ao cansaço dos séculos.
Kant, diante de suas antinomias, aceitava o limite da razão como prova de que o pensamento humano não alcança o absoluto; aqui, o limite não é apenas da razão, é da política, da justiça, da fé numa reconciliação definitiva. O que se pode alcançar não é uma solução, mas a convivência com o insolúvel, e isso exige coragem maior do que a de vencer guerras, porque não há bandeira da vitória, há apenas a consciência de que ambos sobrevivem não porque se reconciliaram, mas porque nenhum conseguiu apagar o outro.
Talvez um dia a humanidade aprenda que a verdade pode ter mais de um rosto e que viver não é escolher entre eles, mas aceitar que todos permaneçam à mesa. Até lá, esta terra seguirá como o mais cruel laboratório da filosofia, lembrando-nos de que existem contradições que se resolvem e existem antinomias que apenas se suportam. E a pergunta que resta, a única que nos cabe repetir, é se seremos capazes de suportar essa ferida sem nos acostumarmos a ela, se poderemos permanecer humanos dentro daquilo que, por definição, não tem solução.