Eles voltam com os olhos apagados. Meninos e meninas que até ontem eram luz agora carregam uma noite inteira no olhar. Você já viu essa expressão — em si mesmo ou em amigos. É a marca de quem foi arrancado da juventude e devolvido como sobrevivente. E sobreviventes não voltam inteiros.
Muitos medos nascem do cansaço e da solidão. Os deles surgiram de nossa falha em resolver isso quando chegou a nossa vez de conduzir esta terra. Por incompetência, covardia ou egoísmo, fracassamos em construir um país melhor para a próxima geração. A dor é deles; a culpa é nossa.
Quando éramos jovens e sangrávamos pela mesma guerra, prometemos que a geração seguinte não seria devorada pela mesma máquina. Juramos um país seguro e dissemos que bastava resistir. Sabíamos que estávamos mentindo. Mentir pareceu menos doloroso que admitir a verdade.
Nossa recusa em ceder qualquer coisa está no centro deste conflito desde que nos tornamos fortes. A tragédia verdadeira é que muitos acreditam que ceder é ser derrotado. E se somos fortes, por que aceitar derrotas? É por isso que o fascismo, o extremismo e a violência cresceram tanto aqui.
O descompasso começou antes. Entre o que sonhamos ser como nação jovem e aquilo em que nos tornamos ao ganhar poder, abriu-se um abismo. Como escreveu Maquiavel em O Príncipe, líderes precisam usar força e até crueldade para manter o poder, mas devem cuidar do bem-estar do povo para evitar a rebelião. Aprendemos essa lição da pior forma. A violência, que deveria ser consequência, virou causa. Transformamos medo em muros. Na solidão construída para evitar soluções, passamos a ver o outro como ameaça.
Então, quando nossos filhos perguntaram que mundo lhes deixaríamos, respondemos com o único que conhecíamos: uma guerra eterna, nunca resolvida. Sabíamos que viria outro confronto. Ainda assim, escolhemos sacrificá-los.
Fechamos todas as portas porque abrir exige energia que já não temos — pelo menos por enquanto. Cercamos fronteiras porque proteger parece mais simples do que devolver o que não nos pertence mais. Erguemos muros porque negar a existência do outro nos ensinou que isolamento soa como segurança. Tomamos uma terra que um dia foi nossa, mas já não é. Lá vivem três milhões de pessoas que não pertencem à nossa tribo. E, ainda assim, seguimos mandando nossos meninos e meninas morrerem por uma posse pertencente ao passado.
Não os preparamos para nada. Nem para a paz, porque nunca a buscamos de verdade. Nem para a guerra, porque admiti-la seria reconhecer o fracasso. Lançamos nossos filhos ao fogo.
Agora é a vez deles viverem o terror que suportamos pela incompetência dos que vieram antes. E é a vez deles morrerem por dentro. Em cada silêncio, em cada madrugada em que acordam sozinhos, descobrem que herdaram não só a guerra, mas o cansaço, a solidão, o descompasso e o fracasso.
A depressão deles não é fraqueza. É a consciência de que nasceram para pagar o preço da nossa recusa em mudar.
Você e eu éramos os adultos na sala. Deveríamos tê-los conduzido a uma nova era, mas como a geração anterior, elegemos o medo para governar porque estávamos cansados demais para eleger a esperança. Poderíamos ter percebido que o outro sangra como nós, chora como nós, deseja paz como nós. A mesquinhez nos ensinou que confiar é fraqueza. O cansaço nos convenceu de que mudar custava mais do que repetir o erro.
Então repetimos. Chamamos de destino o que era apenas covardia.
O desperdício de uma geração não acontece de repente. Cresce no acúmulo de dias em que escolhemos o horror familiar porque mudar exige energia que dizemos não ter — mesmo sabendo exatamente o que estamos fazendo e fazendo assim mesmo.
Se tínhamos um dever, era romper o ciclo. Falhamos. Alargamos o abismo. O que fizemos não foi acidente: foi decisão consciente, repetida dia após dia, de preservar o mundo que conhecemos e pagar com a vida deles.
Agora caminhamos pelas ruas e vemos o resultado: uma nova geração carregando o cansaço, a raiva e a solidão. Eles nos olham e veem o descompasso encarnado — adultos que prometeram paz e entregaram guerra, que falaram de futuro e ergueram repetição.
Essa é a verdade que precisamos ter coragem de encarar.
Responsabilidade não é apenas admitir o que fizemos. É reconhecer que desperdiçamos mais uma geração sabendo exatamente que a estávamos desperdiçando.
E agora, diante dessa geração quebrada, a pergunta não é por que eles estão destruídos — nós sabemos por quê. A pergunta é mais dura e mais urgente:
Estamos fazendo algo diferente pela próxima geração?
Ou arrogância, incompetência e egoísmo já preparam o próximo desperdício? Já estamos olhando para os meninos e meninas que ainda são luz e decidindo, outra vez, que é mais fácil sacrificá-los do que mudar?
Eu sei, e isso não é uma certeza que me conforta, mas um peso que arrasto, uma pedra amarrada ao peito. Sei que a dor não escolhe bandeiras nem reconhece fronteiras; ela se espalha como água pela terra rachada, infiltrando-se em cada fissura da alma humana. Aqui estou eu: israelense, sionista, mas, acima de tudo, ou talvez por causa de tudo isso, um homem que respira e sangra. Alguém que não consegue, por mais que a tribo o chame de volta à certeza confortável da verdade única, fechar os olhos para o sofrimento que se desenrola do outro lado desta linha que os homens traçaram sobre a terra, como se fosse possível dividir a dor com uma régua.
Kant escreveu sobre a razão pura. Eu o leio e releio, buscando naquelas páginas densas uma resposta que me permita continuar de pé. Mas a verdade que me corrói como ácido é que a razão, por mais pura, não consegue acalmar o grito de uma criança. Não importa se essa criança nasceu em Tel Aviv ou em Gaza, se reza voltada para Jerusalém ou para Meca, porque o grito é o mesmo, sempre o mesmo através dos séculos. E nós, na nossa arrogância de construtores de sistemas e muros, insistimos em não ouvi-lo, ou em ouvi-lo apenas quando conveniente, quando serve aos propósitos dessa empatia seletiva que nos permite dormir à noite enquanto outros tremem sob o som que precede a morte.
Carrego o peso da história do meu povo, uma história feita de perseguições, fogueiras e câmaras onde a morte era fabricada em série, como objetos numa linha de montagem. E sei, pois isso está gravado no meu sangue e na memória coletiva que me precede, que nunca mais podemos permitir que tal coisa se repita. Nunca mais. No entanto, e aqui reside o dilaceramento que me parte ao meio, como dois cavalos puxando em direções opostas, eu vejo que o nunca mais se transformou em algo exclusivamente nosso, um nunca mais com nacionalidade e religião. Ele exclui os outros dessa proteção que deveria ser universal, porque a humanidade ou é de todos ou não é humanidade, apenas outra forma de tribalismo disfarçado de princípio moral.
Pergunto-me, incessantemente, onde foi parar essa capacidade de ouvir a dor do mundo. Se a perdemos em algum ponto do caminho entre a vítima e o algoz, se a deixamos secar como um poço abandonado. Parece que nos acostumamos a selecionar quais dores merecem ser ouvidas e quais podem ser ignoradas, como se houvesse um catálogo de sofrimentos legítimos e ilegítimos, como se a dor tivesse graduações e hierarquias em vez de ser simplesmente dor. Essa coisa absoluta que nos iguala na nossa fragilidade de seres que nascem e morrem e que, no intervalo, procuram desesperadamente um sentido que talvez não exista.
Eu quero, e esse querer é uma ferida aberta que não cicatriza, encontrar um caminho que não exija a desumanização do outro. Sei, com a certeza terrível de quem conhece a história, que quando começamos a negar a humanidade de alguém, quando o reduzimos a uma estatística ou a um inimigo abstrato, quando deixamos de ver nos seus olhos o reflexo da nossa própria vulnerabilidade, já demos o primeiro passo em uma direção da qual não há retorno fácil. Já abrimos a porta por onde entra o horror que ninguém consegue depois controlar. E então o ciclo se repete, eternamente, como se fôssemos condenados a girar numa roda que nós mesmos construímos e da qual não sabemos, ou não queremos, sair.
A empatia ampla de que falo não é ingenuidade nem traição, embora muitos me digam que é as duas coisas. É, antes, o reconhecimento de que nossa sobrevivência, não apenas física, mas sobretudo moral, depende da capacidade de ver no outro não um obstáculo à nossa existência, mas um espelho que reflete nossa própria humanidade. Enquanto formos incapazes disso, enquanto continuarmos escolhendo quais lágrimas merecem ser enxugadas e quais podem ser ignoradas, enquanto a razão for usada não para nos aproximar, mas para justificar a separação, continuaremos neste inferno que nós mesmos criamos. Neste lugar onde todos sofrem, mas onde cada um insiste que seu sofrimento é o único que conta, o único que importa, o único que justifica qualquer coisa, até mesmo a perpetuação da dor alheia.
E assim caminho, dividido entre lealdades que me rasgam, entre a história que me constitui e a consciência que me interpela. Sei que não há respostas fáceis, mas me recuso a aceitar que devamos, por isso, parar de procurá-las. Desistir da busca seria abandonar a única coisa que ainda nos separa dos animais ou das pedras; seria renunciar à centelha de humanidade que insiste, teimosamente, apesar de tudo, em continuar acesa.
Há uma assimetria ontológica entre criação e destruição que o assassinato de Yitzhak Rabin expõe com a crueldade de um teorema matemático. Quando Yigal Amir atirou em Yitzhak Rabin naquela noite de novembro de 1995, dois tiros atravessando as costas do primeiro-ministro, ele não apenas interrompeu uma vida ou abortou um processo político. Ele demonstrou que a negação possui uma força metafísica superior à afirmação, que o não-ser pode devorar o ser com uma facilidade que revela a fragilidade constitutiva de tudo o que chamamos de real. Israel vivia então suspenso entre mundos possíveis. Oslo havia aberto uma fissura no tecido do inevitável e, através dessa abertura, podia-se vislumbrar — não prever, não garantir, mas vislumbrar — um futuro em que o círculo interminável da violência poderia ser quebrado. Mas essa possibilidade existia apenas enquanto permanecesse intocada pela certeza assassina daqueles que confundem convicção com verdade. Bastou uma gota de ódio. Uma única gota. E todo o cálice se tornou veneno.
O que isso revela sobre a natureza da felicidade humana não é apenas psicológico, mas um veredito ontológico. Descobrimos que a alegria não é uma substância robusta, capaz de absorver impurezas e permanecer sendo ela mesma. É, antes, um estado de equilíbrio tão precário que a menor perturbação destrói não apenas sua manifestação, mas a própria possibilidade de sua existência. Considere a estrutura lógica dessa verdade: se a presença de uma única emoção negativa é suficiente para corromper completamente uma experiência positiva, então a felicidade não é apenas rara ou difícil — ela é estruturalmente impossível em qualquer realidade que contenha uma pluralidade de consciências. Pois onde há múltiplas consciências, há múltiplas vontades. E onde há múltiplas vontades, a probabilidade de que ao menos uma escolha o ódio não é apenas alta — é, a longo prazo, uma certeza estatística. Rabin foi morto por um homem que acreditava estar cumprindo a vontade de Deus. Isso não é um comentário sociológico sobre o extremismo religioso. É uma meditação sobre o problema do mal em uma de suas formas mais desconcertantes: o mal que se apresenta a si mesmo como bem absoluto, que não reconhece sua própria negatividade, que não pode ser confrontado pela razão porque opera dentro de um sistema axiomático incompatível com o diálogo. Amir não era um monstro consciente de sua maldade. Era algo mais perigoso: um homem que acreditava estar salvando a alma de sua nação. E é precisamente essa forma de ódio — o ódio vestido de amor, a destruição disfarçada de preservação — que torna a felicidade coletiva não apenas improvável, mas categoricamente impossível.
Aqui, o paradoxo de Popper se materializa com a ironia amarga que só a história é capaz de produzir. Quando Popper alertou que sociedades tolerantes não podem tolerar a intolerância sem se autodestruir, ele não fazia um floreio político; descrevia uma impossibilidade lógica. A tolerância ilimitada leva inevitavelmente à extinção da própria tolerância. Após o assassinato de Rabin, Israel enfrentou uma escolha: confrontar energicamente o extremismo que produziu Amir, ou absorver o choque e seguir em frente, na esperança de que a democracia, por sua própria natureza, contivesse os intolerantes. Escolheu a segunda opção. E trinta anos depois, essa escolha se revela não como magnanimidade democrática, mas como suicídio em câmera lenta. A inação diante da intolerância não é neutralidade; é cumplicidade. O que não foi extirpado cresceu. O discurso que legitimou o assassinato de Rabin — a retórica da traição, a desumanização dos que negociavam a paz, a santificação da violência política — não foi confrontado com a seriedade que sua letalidade exigia. Foi tratado como mais uma posição dentro do espectro democrático, mais uma voz digna de ser ouvida. E essa voz, não silenciada, se amplificou. Hoje, Israel é governado pela coalizão mais extremista de sua história, uma aliança que inclui figuras que, em 1995, seriam impensáveis no centro político. Isso não é coincidência. É causalidade. É o que acontece quando uma sociedade tolera aqueles que não toleram a própria sociedade. A democracia israelense, ao se recusar a defender-se de seus inimigos internos, alimentou-os, legitimou-os e, por fim, os elevou ao poder. O paradoxo de Popper não é uma teoria abstrata; é a estrutura narrativa dos últimos trinta anos de Israel.
Trinta anos depois, Israel vive em um estado de fratura que ultrapassa o político. A sociedade se dividiu não apenas em campos opostos, mas em ontologias incompatíveis. A direita e a esquerda não divergem quanto aos meios — divergem quanto à própria definição do real. Para uns, a segurança é o horizonte último de sentido; para outros, a justiça. E não há ponto arquimediano a partir do qual essas visões possam ser conciliadas, pois cada uma pressupõe um sistema completo de valores inteligível apenas dentro de si mesma. O assassinato de Rabin não criou essa divisão — mas a cristalizou, tornou-a irrevogável, provou que ela podia matar. E, uma vez que se sabe que as diferenças com o outro não são teóricas, mas literalmente fatais, a possibilidade de habitar o mesmo espaço simbólico desaparece. O que Amir destruiu não foi apenas um homem ou um processo de paz. Foi a ficção necessária de que os israelenses compartilhavam um mundo comum. Ele provou que não compartilhavam. Que alguns estavam dispostos a matar para impedir o que outros viam como salvação. E essa descoberta envenenou retroativamente todo o projeto: revelou que a alegria de Oslo era ingênua, que a esperança era uma forma de cegueira, que aqueles que acreditaram na possibilidade da paz eram tolos que não compreendiam a natureza da realidade que habitavam.
Mas aqui reside a questão filosófica mais profunda: aquela alegria era realmente ingênua? Ou será que a única forma de felicidade possível é sempre, necessariamente, uma forma de inocência que a realidade está destinada a trair? Há uma tradição filosófica que enaltece o desencantamento, que vê na perda das ilusões um sinal de maturidade. Mas o assassinato de Rabin sugere algo mais sombrio: que o desencantamento não é sabedoria, mas derrota. Quando perdemos a capacidade de acreditar na possibilidade da alegria pura, não ganhamos clareza; perdemos a própria coisa que tornava a vida digna de ser vivida. Israel hoje é mais realista do que era em 1995. Compreende melhor os limites do possível. Mas esse realismo tem gosto de cinzas. É a sabedoria dos que foram traídos tantas vezes que esqueceram como confiar. E se isso é sabedoria, então a sabedoria é indistinguível do desespero. O extremismo que antes foi deixado à margem agora governa, porque sociedades que se recusam a defender seus princípios fundamentais acabam perdendo o direito de invocá-los.
A gota de ódio permanece no cálice. Trinta anos depois, ainda está lá. A questão não é se podemos removê-la — essa chance se perdeu no momento em que Amir puxou o gatilho e, mais crucialmente, nos anos que se seguiram, quando a sociedade israelense escolheu não extirpar o que o havia produzido. A questão é se é possível beber de um cálice envenenado e ainda chamar o líquido de vida. Se é possível construir a felicidade sobre a memória indelével de sua impossibilidade. Se é possível alegrar-se sabendo que a alegria pode ser assassinada. Essa é a condição existencial que o assassinato de Rabin legou não apenas a Israel, mas a todos que prestam atenção: a consciência de que a felicidade humana é refém permanente da vontade destrutiva de qualquer indivíduo que decida empunhar uma arma. E, uma vez que se sabe disso — uma vez que se sabe de verdade, no corpo, na memória coletiva, na estrutura das instituições —, a inocência necessária para a alegria verdadeira se torna impossível. Ainda é possível experimentar prazer, satisfação, até contentamento. Mas a alegria pura, a possibilidade desimpedida, aquela sensação de que o futuro está aberto e tudo ainda pode ser diferente — essa morreu com Rabin. E talvez precise morrer em toda sociedade, com o tempo. Talvez a alegria coletiva seja sempre uma fase transitória, um breve intervalo antes que alguém, inevitavelmente, escolha o ódio. E se isso for verdade, então a felicidade humana não é apenas frágil — é impossível por definição, um ideal cuja própria realização contém as sementes de sua destruição, porque depende de uma unanimidade emocional que a própria existência da liberdade torna inalcançável. Uma única gota basta. Sempre bastará.
Deixa eu te perguntar uma coisa: quando você escolhe ignorar algo para conseguir focar em outra coisa, isso é sabedoria ou fuga? A resposta não é simples, e é exatamente aí que mora o problema dos ultraortodoxos que protestaram hoje em Jerusalém. Sydney Smith disse uma vez que precisamos ter coragem de ignorar muitas coisas para não terminarmos ignorantes de tudo. Faz sentido, não? Vivemos em um mundo com infinitamente mais informação do que qualquer cérebro humano consegue processar. Então você precisa escolher. O físico ignora teoria literária, o poeta ignora mecânica quântica, e tudo bem. Ninguém consegue saber tudo. Mas aqui está a diferença crucial: uma coisa é mapear o território do conhecimento humano, reconhecer seus próprios limites e, então, fazer escolhas estratégicas sobre onde investir sua atenção. Algo completamente diferente é se recusar a olhar o mapa inteiro, construir paredes altíssimas ao redor de um único livro e chamar isso de profundidade. Os haredim fazem isso. Eles não escolheram profundidade ao invés de amplitude depois de conhecer ambas. Eles escolheram nunca conhecer amplitude nenhuma. E existe uma hipocrisia brutal aí. Veja: eles afirmam que estudar Torá e Talmud dia e noite é mais importante do que defender Israel militarmente. Dizem que suas orações protegem o país mais do que soldados com fuzis. Certo, vamos aceitar esse argumento por um instante. Se fosse verdade — se eles realmente acreditassem nisso — seriam como monges budistas ou eremitas cristãos do deserto. Autossuficientes. Isolados. Sem pedir nada a ninguém. Mas não é assim. Eles vivem dentro do Estado moderno de Israel. Usam estradas construídas por engenheiros seculares. Vão a hospitais dirigidos por médicos que estudaram biologia evolutiva. Recebem subsídios do governo financiados por impostos pagos por pessoas que trabalham, e não por quem passa o dia estudando textos religiosos. E quando alguém sugere que talvez — só talvez — eles devessem contribuir defendendo o Estado que os protege e os sustenta, tomam as ruas gritando perseguição. Percebe a contradição? Querem viver numa bolha pré-moderna, mas sustentada pela modernidade que desprezam. Querem os benefícios da cidadania sem suas obrigações. E não por pacifismo universal — quakers e menonitas também recusam armas, mas como princípio aplicado a todos. Os haredim recusam por excepcionalidade: nós somos especiais, não precisamos, mas vocês sim, e aliás continuem nos financiando enquanto estudamos. Agora vamos ao argumento filosófico, porque essa hipocrisia política é apenas um sintoma de algo maior. Heidegger criticou a modernidade por transformar tudo em recurso disponível, peças intercambiáveis dentro de um sistema técnico. A universidade moderna, com suas especializações infinitas, produz expertise sem sabedoria, técnica sem propósito. O físico nuclear não conversa com o filósofo, que não conversa com o poeta. Todos sabem muito sobre quase nada e quase nada sobre o todo. Existe uma nostalgia legítima pela paideia clássica, pela formação que produzia pessoas capazes de pensar sobre tudo. Os haredim parecem responder a isso. Parecem dizer: vocês se fragmentaram, nós nos concentramos. Vocês sabem um pouco de tudo e nada profundamente; nós sabemos tudo sobre uma coisa. Vocês estão perdidos no caos do conhecimento moderno; nós temos um centro. Mas essa resposta é falsa. Não é concentração — é clausura. Não é profundidade — é tautologia. Eles não estudam o Talmud para entender o mundo através dele — estudam o Talmud para estudar o Talmud. Hermenêutica circular. O texto explica o texto que explica o texto. Nenhuma realidade externa pode tocar esse circuito fechado. Pense assim: Wittgenstein disse que os limites da sua linguagem são os limites do seu mundo. Os haredim literalmente limitam a linguagem dos seus filhos. Nada de matemática avançada, nada de ciências naturais, nada de história crítica, nada de filosofia secular. E quando você faz isso, não está escolhendo um mundo menor, porém mais rico — está escolhendo apenas um mundo menor. E sabe o que mais me incomoda? Isso não é tradição judaica autêntica. A grande tradição rabínica nunca teve medo de perguntas difíceis. Maimônides dialogava com Aristóteles. O Talmud é exercício de argumentação dialética, onde nada é aceito sem questionamento feroz. Os sábios debatiam tudo. A yeshivá original era arena intelectual, não bunker. Os haredim de hoje pegaram essa tradição viva, dialética, arriscada — e mataram. Mumificaram. Transformaram perguntas em respostas prontas, busca em posse, abertura em fechamento. E chamam isso de fidelidade. Mas mumificar não é preservar — é matar e fingir que está vivo. O protesto de hoje revela o que está acontecendo: pânico. Medo profundo de que, se esses jovens forem expostos ao mundo real — pelo serviço militar, pelo contato com o mundo secular, pela responsabilidade cívica — todo o edifício de certezas desabe. E provavelmente vai. E sabe de uma coisa? Deve desabar. Porque uma fé que só sobrevive em condições laboratoriais, isolada da realidade, não é fé profunda — é dogma frágil. Uma tradição que precisa de censura total, isolamento absoluto e ameaça de ostracismo para se perpetuar não é sabedoria milenar — é coerção vestida de santidade. Voltando à pergunta inicial: existe coragem em ignorar algumas coisas para focar em outras? Sim. Mas isso pressupõe que você poderia ter escolhido diferente. Que conheceu as alternativas e decidiu conscientemente onde investir sua atenção limitada. Quando você se recusa a aprender algo porque isso ameaçaria suas certezas, isso não é curadoria intelectual — é covardia. E quando constrói instituições inteiras para evitar que seus filhos sejam expostos a ideias incômodas, você não está transmitindo sabedoria — está fabricando fragilidade institucionalizada. Os haredim não demonstram coragem de ignorar — demonstram medo de saber. E há uma diferença enorme aí. Então, quando você vê centenas de milhares nas ruas defendendo o direito de não servir, não se deixe enganar pela retórica de profundidade espiritual. Você está vendo uma comunidade dedicando recursos enormes para manter ignorância planejada. Gente que estreitou a atenção não para enxergar melhor, mas para não enxergar nada. E que ainda exige que você pague por esse privilégio. Isso não é religião — é má-fé. E a má-fé, como Sartre sabia muito bem, é a mentira que você conta para si mesmo — a mais perigosa de todas, porque mentiroso e enganado são a mesma pessoa.
Não há quem não conheça a dor; alguns lhe dão um nome como se fosse um parente distante que aparece apenas nos dias de luto, outros preferem o silêncio porque temem que o simples ato de falar já convoque desgraças que ainda não chegaram mas que, como todas as desgraças, têm um pé sempre à espreita no limiar; e não nos enganemos, a vida não distribui sofrimento com equidade nem com justiça, a uns concede a cicatriz breve que se esconde sob a manga, a outros marca o corpo inteiro como uma carta escrita em ferro e fogo que ninguém pediu para receber, e aqui começa o problema, porque filósofos e pregadores igualmente desejaram encontrar na dor um propósito didático, como se cada lágrima fosse obrigada a converter-se em sabedoria e cada golpe do destino em lição de moral, esquecendo que há dores que nada ensinam, apenas esmagam, e há sofrimentos que não amadurecem ninguém; apenas apodrecem por dentro aqueles que os carregam, e que ninguém diga que essa putrefação oculta é a mesma coisa que um amadurecimento silencioso, porque o silêncio dos mortos nada tem a ver com a paciência dos vivos, e ainda assim, em meio à tragédia, haverá sempre alguém a proclamar que a dor os tornou mais fortes, mais generosos, mais humanos, como se a bondade só pudesse nascer do açoite e não da ternura, como se a grandeza dependesse da ferida e não da dádiva, e pior ainda, repetido muitas vezes, esse refrão transforma-se em obrigação cruel: impõe ao ferido o dever de agradecer pela ferida, ao humilhado o dever de confessar que a humilhação o melhorou, e nesse ponto o veneno da romantização infiltra-se no sangue, porque a exceção se confunde com a regra, a rara vitória do sobrevivente com o destino obrigatório de todos os vencidos, e então esquecemos os que ficaram pelo caminho, os que não conseguiram erguer-se da queda, os que sucumbiram sob o peso de um sofrimento que não libertou mas apenas destruiu, e como não cabem na narrativa edificante são apagados da memória como se nunca tivessem existido, e é contra essa falsificação da experiência que me levanto, sem negar que alguns encontram na dor um caminho inesperado de doçura, mas recusando transformar essa possibilidade em lei universal, porque nada poderia ser mais injusto do que exigir flores de quem só recebeu cinzas, e se é verdade que até mesmo o fruto atingido pelo granizo pode, contra toda expectativa, tornar-se mais saboroso, também é verdade que muitos apodrecem sem que ninguém lhes preste homenagem, e assim, se me é permitido terminar com uma imagem menos cruel, digo apenas que sou uma pêra que sobreviveu à tempestade de granizo, e quando não apodreço torno-me mais doce do que as outras apesar das cicatrizes que carrego, e digo isto prendendo estas linhas à francesa Sidonie-Gabrielle Colette, autora de Le Pur et l’Impur, de quem tomo o título, pois foi ela quem primeiro soube dizer o que importa, e eu repito ao meu modo, ferido e inteiro, mais doce por ter resistido, e como o ano agora se renova, que este Rosh Hashaná abra um espaço em que a empatia — pela sua própria persistência silenciosa — vença todas as formas de sofrimento.
Se me perguntassem hoje como nasce o ódio, eu não saberia responder com precisão, mas arriscaria dizer que talvez ele nem nasça, talvez sempre estivesse ali, esperando apenas que alguém o despertasse com uma palavra fora do lugar, uma lembrança incômoda ou, mais comumente, com aquele silêncio que diz tudo quando não se diz nada, porque nesta terra, onde cada pedra parece guardar uma memória e cada sombra carrega um nome perdido, aprendemos a armazenar o rancor como se fosse um bem valioso, protegido com zelo antigo, transmitido de geração em geração com o mesmo cuidado de quem entrega uma herança sagrada, embora feita não de posses, mas de feridas — e dessas, temos muitas — tão profundas e tão antigas que já nem sabemos se são realmente nossas ou se apenas continuamos a sangrá-las por fidelidade à dor de quem veio antes, e talvez seja por isso que odiamos com tanto empenho, porque há nisso uma estranha forma de pertencimento, como se, ao odiar, confirmássemos que ainda estamos vivos, ainda somos daqui, ainda sabemos o que é sofrer com convicção.
E, no entanto, se alguém nos arrancasse esse ódio, se nos deixassem apenas com a carne viva da dor que fingimos não sentir, talvez fôssemos forçados a encarar aquilo que evitamos há tanto tempo: os restos emocionais de uma guerra que nunca termina, as perdas que nos recusamos a chorar, os erros que colocamos nos ombros dos outros para não admitir o peso da nossa própria mão no gesto que machucou, e é aí, justamente aí, que tudo se complica, porque odiar é mais fácil do que lembrar com amor, mais fácil do que perdoar sem esquecer, mais fácil do que reconhecer, com vergonha e espanto, que atrás de cada rosto que chamamos de inimigo pode existir apenas outro alguém igualmente assustado, igualmente ferido, igualmente apegado ao rancor como escudo contra um mundo que insiste em não fazer sentido — e, se me permitem a heresia, talvez o ódio nos una mais do que qualquer promessa de paz, não porque seja justo ou bom, mas porque é compreensível, é simples, e sobretudo é eficaz, funciona como armadura contra a vulnerabilidade — e quem, aqui, nunca desejou ser invulnerável, nem que fosse por um instante?
Mas então vem a pergunta, e com ela a dúvida que me roubou o sono por tantas noites: se retirarmos o ódio, com o que ficamos? Com a dor pura, com a ausência de uma culpa alheia onde antes encontrávamos consolo, com a solidão de uma responsabilidade que não se divide, com o desconforto de saber que já não há um culpado claro e, por isso mesmo, não há redenção garantida — apenas o risco de despencar num abismo silencioso onde nem mesmo a autocompaixão consegue nos salvar — e isso, meus caros, pode ser mais cruel do que qualquer inimigo armado, porque é uma violência interna, sem nome, e ainda assim, talvez, necessária, porque só por ela talvez pudéssemos um dia encontrar algo parecido com a verdade — não uma verdade absoluta, essa pertence aos fanáticos e aos deuses — mas uma verdade pessoal, imperfeita, feita de contradições e hesitações, e que talvez por isso mesmo seja mais digna de confiança do que todas as certezas que usamos como espadas morais.
Não afirmo, vejam bem, que esse caminho seja redentor, tampouco acredito que a dor nos torne melhores, como gostam de repetir aqueles que nunca a sentiram de verdade, eu só digo que a dor, quando despida do ódio, revela o que há de mais insuportável em nós: a fragilidade essencial, a carência de sentido, o medo de não sabermos o que fazer com a liberdade de já não odiar, e talvez seja por isso que continuamos a cultivar o rancor com tanto esmero — não por vingança, mas por medo de não saber quem somos sem ele, medo de que, ao baixar o punho, descubramos a mão vazia e, o que é mais triste, incapaz de acolher.
E agora, enquanto escrevo esta última linha, hesito se devo encerrá-la com um ponto ou com uma interrogação, porque não sei se a pergunta que me faço é também aquela que vai ficar com você, leitor: será que, livres do ódio, seríamos fortes o bastante para suportar aquilo que sobra de nós?