Talvez o melhor seja começar logo por aqui, por essa ideia incômoda, difícil de engolir, mas tão verdadeira quanto qualquer susto diante do espelho: a de que a gente não é exatamente quem acha que é. O homem bom — esse que acorda cedo, leva o lixo, alimenta o cachorro, paga os boletos em dia e evita parar na vaga de deficiente — esse mesmo é capaz de arrancar a língua de outro se alguém soprar no ouvido certo as palavras “pátria”, “honra” ou “família”. E não sou eu quem inventa, é a história que grita pelos ossos deixados pra trás nos becos do mundo, ossos empilhados, embranquecidos, catalogados, às vezes até exibidos em museu, como se a gente dissesse com orgulho: olhem como fomos eficientes até na matança.
E não me venham com essa conversa simplista de separar os bons dos maus, como se o mundo fosse um teatro de bonecos em que alguns mexem os fios da maldade e outros só dançam a musiquinha da virtude. Porque, se tem uma coisa que já deu tempo de aprender, mesmo a contragosto, é que ser bom depende muito das circunstâncias — e ser cruel também. O mesmo sujeito que hoje abraça o vizinho, amanhã pode mirar nele, se o mapa mudar, se a bandeira trocar de cor ou se alguém gritar que é isso ou morrer — e nem falo da morte do corpo, mas daquela outra, a que nos arranca da tribo, que nos expulsa do grupo, e que, convenhamos, é a que mais mete medo.
Dizem que somos civilizados, modernos, que aprendemos com os erros do passado. Mas basta uma crise, um colapso no mercado, uma eleição mal digerida, um inimigo fabricado na prensa da propaganda, e lá estamos nós outra vez, com a tocha na mão e a convicção inflada no peito, prontos pra fazer justiça do nosso jeito — como se a justiça algum dia tivesse tido mãos que não fossem as nossas. E se me perguntarem onde estão os maus, eu digo: em todo lugar onde os bons acham que têm razão demais pra ouvir.
Ah, os bons. Essa turma tão cheia de certeza, tão limpinha, tão moralmente alinhada. Nunca hesitam, nunca tropeçam, nunca suam. Só apontam, denunciam, corrigem. Como se tivessem recebido um crachá de pureza e agora fossem os únicos autorizados a decidir quem merece o chão e quem merece o buraco.
E os maus? Ora, os maus são uma delícia. São úteis, funcionais. Eles explicam tudo: a decadência, a violência, a bagunça, o trânsito. Com eles, a gente dorme tranquilo — porque o mal tá sempre lá fora. Nunca dentro. Nunca na gente. Nunca no jeito que a gente ama, teme, decide ou se cala. E assim seguimos, com a consciência lavada e o sangue nas mãos dos outros.
Porque, no fundo, todo mundo está pronto. É só aparecer a causa certa. E se não aparecer, a gente inventa. Ou então pega emprestada de alguém mais convicto, mais barulhento. Não faltam bandeiras, slogans, hinos, líderes carismáticos e frases de efeito. E então o homem bom marcha, o homem bom grita, o homem bom aperta o gatilho. E quando tudo passa, ele diz que não sabia, que só cumpria ordens, que era pelo bem maior. Depois volta pra casa, dá ração pro cachorro, paga os boletos e segue se achando bom. Talvez até melhor. Mais consciente, mais patriota, mais cidadão.
E é aí que mora o perigo. Não no grito selvagem, mas no silêncio limpo. Não no monstro escancarado, mas no sujeito comum cheio de certezas. E se me pedirem um jeito de distinguir o bem do mal, eu respondo: não sei. Talvez nem tenha como. Talvez o mais sensato seja desconfiar — não do outro, mas de si mesmo. Porque quem confia demais na própria bússola moral corre sempre o risco de bater palma pro horror, desde que ele venha bem justificado.
E aqui, diante da tela acesa onde se escrevem hoje as velhas confissões do mundo, eu deixo essa dúvida como quem planta não um fruto, mas uma faísca:
se todo mundo é capaz de tudo, quem é que vai nos salvar das nossas causas?
Eu, que de paciência pouco me sirvo e da esperança já fiz penhor em tempos mais ingênuos, pergunto-me, e não é uma pergunta retórica dessas que se fazem apenas para enfeitar o papel, mas uma daquelas que, quando surgem, vêm com o gosto amargo do fel e o peso de uma verdade que se arrasta atrás de si como corrente mal quebrada, pergunto-me, repito, em que momento aceitamos — aceitamos, veja bem, e não finjamos que fomos apenas arrastados pela maré — que a miséria moral deixasse de ser vergonha e passasse a ser projeto de governo, que a barbárie se sentasse à mesa e ainda fosse servida primeiro, enquanto os que deveriam levantar-se em protesto preferiram ajustar a cadeira, fingir que não era com eles, olhar para o lado como quem contempla a paisagem de um abismo sem perceber que já está com um pé lá dentro.
E digo mais, porque já que começamos a caminhar sobre este fio de navalha, vamos até o fim: o nome há de ser dito, não porque mereça, mas porque escondê-lo seria fazer-lhe o favor de preservar a decência que nunca teve, Itamar Ben-Gvir, esse é o nome que já deveria causar engulho antes mesmo de ser pronunciado, mas que, no entanto, circula com a desenvoltura de um velho conhecido nos salões onde se distribuem decretos e se legisla a desgraça como quem organiza o cardápio de um banquete fúnebre.
E não me venham, peço encarecidamente, com a história de que tudo é mais complexo, de que há nuances a considerar, porque a complexidade é o álibi dos covardes, e se há algo que este sujeito jamais foi, é complexo, porque o seu caminho é uma linha reta e suja, traçada desde a juventude quando, sem o menor pudor e com a arrogância própria dos que não têm sequer a grandeza da vergonha, arrancou o emblema do carro de Yitzhak Rabin e o ergueu como troféu diante das câmeras, numa exibição pública de um ódio que, poucos dias depois, se materializaria em tiros disparados por mãos que também penduravam na parede de casa o retrato do carniceiro de Hebron, Baruch Goldstein, retrato esse que, não por coincidência, decorava a sala do próprio Ben-Gvir, uma sala que jamais conheceu o incômodo de um pensamento decente.
E eu, que de espectador já me cansei, e que de silêncio não faço profissão, pergunto-lhe diretamente, sim, a você que me lê com esse leve desconforto que tenta disfarçar sob a desculpa de uma análise equilibrada, em que ponto exatamente você decidiu que era possível ser tolerante com o intolerável, e mais ainda, que era possível manter-se neutro enquanto o chão à sua volta arde em chamas acesas não por acaso, mas por mãos sabidas e intencionais, como aquelas que, entre um ajuste ridículo de paletó e uma cuspida de intolerância bem ensaiada, entregam ao mundo a mais repulsiva das certezas: a de que ainda há quem prefira o fogo ao esforço de construir pontes.
E porque não basta apenas apontar o dedo sem colocar o espelho, pergunto-lhe sem qualquer vontade de ser ameno, você, justamente você, que talvez tenha hesitado em condenar, que se calou em reuniões de família, que preferiu mudar de assunto nas rodas de amigos, que justificou a ascensão do monstro com aquela frase miserável de que “as coisas não são bem assim”, o que pensa agora, diante desta fogueira que já lambe as paredes da sua própria casa? Acha mesmo que se salvará do calor apenas porque, até agora, limitou-se a aquecer as mãos à distância?
Não há mais espaço, e nunca houve de fato, para essa farsa piedosa da neutralidade, porque a neutralidade, quando o intolerante já ocupa o centro do palco, é apenas a forma mais covarde de tomar partido, é sentar-se entre os bárbaros e acreditar que, por não levantar a taça no brinde à destruição, já se está absolvido da culpa.
Pois saiba, e saiba bem, que a história que vier, porque sempre vem, escreverá com a frieza dos que já perderam a paciência até para a compaixão, que entre os incendiários e os que simplesmente observaram, não há distinção moral, apenas diferença no método.
E no fim, quando as cinzas assentarem, e que ninguém duvide de que elas virão, não restará sequer a sombra para protegê-lo da pergunta que ressoará em sua cabeça como um martelo final: onde você estava enquanto o intolerante incendiava tudo? E pior ainda, por que diabos você nada fez?
E esta, lamento informar-lhe, será a pergunta sem resposta. E que esse silêncio, ao menos, lhe sirva de penitência.
Empatia é palavra suave para um ato árduo: sentir a dor alheia como se fosse sua. Não é fácil abrir o coração à tristeza do próximo; requer uma generosidade de alma que só floresce nas horas mais sombrias. Em Israel, no Dia do Memorial – o Yom Hazikaron – essa empatia se torna um rito coletivo. Cada israelense carrega a memória de alguém que a guerra levou. Quando a sirene toca, o país inteiro se imobiliza em dois minutos de silêncio. E não há ali desconhecidos: todos choram juntos. Confesso que essa cena, a cada ano, ainda me emociona e quase devolve minha fé na união pelo sofrimento partilhado.
Mas a realidade faz questão de testar essa fé. Na noite do Yom Hazikaron de 2025, em Ra’anana, nem mesmo a solenidade daquela data escapou à barbárie. Uma cerimônia em memória de israelenses e palestinos mortos – realizada em uma sinagoga reformista – foi atacada por um grupo de extremistas. Pedras e insultos voaram pelas janelas, estilhaçando vidraças e calando preces. Famílias inteiras tiveram de sair sob escolta da polícia, com o medo nos olhos. Houve feridos, houve pânico, houve sacrilégio naquele recinto dedicado à lembrança dos caídos. Por instantes terríveis, judeus fugiram de judeus dentro de uma sinagoga — algo impensável até que se tornou realidade.
Sim, existem pessoas más. Gente que age com intenção, método e frieza. Os agressores se julgam patriotas, mas não passam de profanadores do luto alheio. Gritaram “traidores” aos que rezavam, sem enxergar que a verdadeira traição à pátria é semear o terror entre os próprios irmãos. Não há simetria possível aqui: quem atira pedras contra compatriotas em pranto não defende valor algum — apenas conspurca a memória que a nação deveria honrar. Justificar tamanha agressão seria corromper ainda mais o sentido de decência. Nenhum pretexto, desculpa ou contexto atenua o que se viu.
Fico a pensar no significado desse abismo moral. Se nem mesmo nossos mortos conseguem mais unir os vivos, que futuro espera este país?
…e o que diz o vento?…muita coisa… -Mentira! O vento não diz nada (Alberto Caeiro, in O Guardador de Rebanhos)
Desconfio que o Renascimento, enquanto um movimento cultural e espiritual humano, ainda não ocorreu, pois nos sufocamos, por séculos, em um mundo de conceitos-frankenstein do tipo “atenas-persia-roma-meca-wittenberg”, que se tornaram preconceitos de brancos (de todas as cores), negros (de todas as tribos), orientais (com ou sem petróleo), bárbaros-convertidos (com ou sem graal), gregos (atenienses ou espartanos), romanos-germânicos (com cruz ou suástica), afro-americanos (pastores ou pugilistas), afro-brasileiros (pregadores ou predadores), hispano-americanos (generais ou sindicalistas). E hoje são, por desgraça coletiva, divulgados e impostos – via missionários, professores e loucos de todo gênero – aos quatro ventos (e mais alguns) como conceitos originais (riso, muito riso, sinal da cruz, um passe e língua estranha!!!)
Estamos completamente minados de falsas idéias, de espasmos educacionais, de loucuras programáticas, de um tosco senso de superioridade bacharelada e, temo em afirmar, que os homens das cavernas estavam bem melhor, pois, ao menos, não estavam enganados quantos aos verdadeiros obstáculos e as lutas cotidianas por sobrevivência. Saíam para enfrentar o tigre e caçar a gazela. Defendiam o fogo como se fora sua própria essência (e era…). Não sofriam de depressão, solidão, inveja, consumismo, não visitavam a caverna do vizinho, não faziam culto ao mercado, não comiam isopor e plástico, não arrastavam cruzes na Via Dutra nem se explodiam para ganhar virgens celestiais, não entregavam “lições bíblicas” nas rochas e, sobretudo, não faziam cursinhos preparatórios. Além disso, não faziam sexo virtual nem desenhavam mulheres nuas em uma rocha qualquer! De fato, eles não freqüentavam lojas de “adultos” (gargalhadas!!!)
E por que lutam ou vivem as pessoas hoje? Por nada. As pessoas não lutam, elas vão acordando, a muito custo, para mais um dia (que precisa logo terminar), na cópia insana de seres abstratos, de personagens insípidas, chorando o choro desconhecido, o choro oriundo da oscilação psicológica. É um sofrimento pobre (que causa risos e gargalhadas), e que passa quando termina o capítulo, o funeral e o efeito de vinhos feitos em laboratório, pois faltam os ursos, os tigres, os leões levando crianças. Estamos em uma sociedade pobre, que ama estar no vazio. As estruturas educacionais, culturais, econômicas, políticas e jurídicas (e por que não dizer as miseráveis estruturas religiosas) primam pelo absolutamente idiota e idiotizante!
Há uma necessidade mecanicamente visceral de meios artificiais de prazer ou de percepção de mundo. Há uma glória, incontrolável e orgásmica, por exemplo, em saber lidar com os variados recursos de um celular (aplausos). O cheiro é artificial. O que se vê é virtual. O que se saboreia é um misto de “alguma” coisa com “alguma” coisa. O que se ouve é eletrônico. E o toque é o encontro da mão de espuma com a superfície de concreto…(cara de choro…)
Experimentar um “renascimento” humano, deveria começar pela defesa da caverna e do fogo. É preciso voltar a reconhecer o cheiro natural (será que alguém sabe qual é o cheiro do encontro entre um homem e uma mulher?). É preciso quebrar todos os celulares e recuperar o grito, o urro e o gemido, verdadeiramente orgásmicos, que afastavam ursos, leões e hienas…e ecoavam pelos espaços na terra…É preciso revisitar a nossa própria humanidade sem a imagem artificial, e voltar a comer coisas que tenham o seu gosto, morder a fruta e a carne sem componentes cancerígenos e transgênicos. E, sobretudo, desligar os aparelhos que produzem o som retardado, e tentar ouvir a voz, a vibração, o timbre, até que o cantante desmaie e faça desmaiar…É preciso reaprender a tocar, com o dedo, com a língua, com o tecido epitelial, como fazem os animais e sentir que aquilo que se toca é aquilo mesmo!
Mas, sobretudo, é preciso “fuzilar” (ou melhor, mandar para o espaço) todos os educadores que vivem fazendo comércio da Educação, todos os artistas acometidos de nulidades absolutas, todos os economistas que não puderam resolver o problema básico do pão (infelizmente francês), e todos os juristas (formados até aqui), sejam advogados, delegados, sejam promotores, sejam juízes ou qualquer outro aventureiro, pois não conseguiram fazer o povo acreditar na Justiça (aliás, contribuíram com a inércia, superficialidade e mercenarismo, para o estado de “medo e desconfiança”). Afinal, as pessoas têm medo de advogados, delegados, promotores e juízes e, por culpa deles, não sabem distinguir o que é justo e injusto, o que é verdade e o que é mentira, o que é autoridade e o que é violência. Por culpa deles, o Direito virou ração de porcos! (aplausos!!!)
Porém, aos políticos e líderes religiosos (os piores de todos), deve ser reservada a prisão perpétua e, perpetuamente devem ser obrigados, diuturnamente, de modo incessante, continuado e impiedoso, a ouvir seus próprios discursos, suas loucuras, suas blasfêmias, suas mentiras, suas interpretações loucas de textos antigos. É preciso que saibam, com exatidão, que criaram para o povo alucinações das quais mil anos será pouco, para a devida purificação…(muitos aplausos!!!)
E, por fim, quebrar as correntes do Prometeu (matando-o ou libertando-o) e espantar os abutres que lhe comeram o fígado esses séculos todos. Não há razão para sofrer quando se transfere o conhecimento, quando a luz é entregue, quando o amor reina e quando o homem descobre o seu caminho…(correria, risos e aplausos!!!)
Roma (Isola Sacra Fiumicino), Itália, 20 de Sivan, 5768 (23/6/2008)
Por onde andam os sentidos efetivos e as experiências epiteliais? Por onde andam os risos de doer o abdômen? Por onde andam os debates em que se olha no olho e a exposição não escapa aos limites do encontro, da dialética e da comunhão? Por onde andam os gostos de fazer escorrer suco pelo queixo e mel pelos cantos da boca? E por onde andam as oscilações naturais dos humores e das percepções espontâneas? Por onde andam mulheres e homens reais na era da virtualização?
Trocaram-se os bancos pelas cadeiras sofisticadas (duas vezes sofisticadas em seu sentido etimológico) e os seres humanos se apresentam diante de imagens montadas em qualquer canto. As imagens de criação multifacetada – e sem limites, substituíram a pele e a lágrima, o sorriso e as nuances faciais.
Presos, então, ao computer e conectados diuturnamente, homens e mulheres perderam a relação de humanidade e, agora, não têm a capacidade de processar os encontros e suas variáveis, não enxergam e não veem. Sobretudo, não percebem e não atuam.
As imagens se oferecem aos milhares, fakes escondem abismos inimagináveis e noctívagos perdem o sono e desmaiam no espasmo, cada vez mais afastados de parte de sua salvação: o “eu”! Exatamente isto: o “eu” é uma parte da salvação – o “tu”, a outra!
E porque se perdeu o “eu”, perdeu-se, também, o “tu”: eis o deserto da solidão! As pessoas (reais) estão ficando solitárias, demasiadamente solitárias, e imagens sem dor nem sabor, sem amor nem ódio, vão se reproduzindo aos milhares.
O mundo virtual tornou-se o modelo, o exemplo, a aparência de verniz e, atualmente, define um modo, um “ethos”, ou seja, o “modo virtual” de viver. Os virtuais (ou fakes) juram amor uns pelos outros nos vários meios e sites de relacionamento, mas, sabem mesmo o que é o amar? Sabem transitar sobre a pele do “tu”, sabem quais são as reações plurais de cada poro e o arrepio da penugem? Sabem as diferenças entre um gosto e outro, entre um perfume e outro? Sabem mesmo o que significam pupilas e lábios dilatados? Sabem lidar com as diferentes temperaturas emocionais do outro – este não “tu” – e processar a diferença em termos reais? Chega, então, um tempo de saudade do outro – o inferno de Sartre, que embora não fosse um “tu” realizava a grande obra das diferenças, das tensões evolutivas, da dialética produtiva e reprodutiva – o outro fazia avançar!
Agora, nem o “outro” dialético, a quem se podia matar ou diante de quem se morria ou, simplesmente, com quem se construía uma coexistência social e juridicamente suportável, nem o “tu” dialógico, a quem se podia levar para a cama ou à mesa, com quem se construía uma convivência poeticamente substancial. Nem o “outro” nem o “tu”, apenas o virtualmente deletável – o fakerizado! Mais que isso, ainda, o modo virtual determina uma falsa percepção – a fakerização que resulta, por sua vez, em ações unilateralmente virtuais – o estado de tristeza e esvaziamento!
O esvaziamento da mente fakerizada de quem, conectado durante o dia (e a noite) vai se transformando em nada e perdendo a sensibilidade com o mundo em redor, imaginando projetos absurdamente inexequíveis, preparando discursos e aulas de cocô com talquinho perfumado do PowerPoint, buscando respostas inseridas no kaos virtual, jurando paixões à tela e gemendo noite adentro. Tudo isso conduz, invariavelmente, a um comportamento vazio de sentido. Não a um comportamento mau ou bom, por princípio, mas a um comportamento que, vazio ou esvaziado de sentido, resulta em algo apenas mau – o mau, então, por resultado!
E esse resultado mau, criado na virtualização do mundo, evolui para um ethos de perversidade e timidez. Ou seja, diante da imagem e da idéia criada e mantida pelos meios virtuais, do esvaziamento de sentidos e perda das relações efetivas, escreve-se o que se quer, produz-se o que se quer, transmite-se o que se quer, diz-se o que se quer, faz-se o que se quer. Mas, no encontro direto e pessoal, o que se escreve não encarna, o que se produz não se concretiza, o que se transmite é irreal e dissociado da experiência humana, o que se diz não se confirma e, por desgraça, o que se faz não se expressa no corpo presente!
É o momento da completa idiotização e cansaço ou, em outras palavras, o momento do esvaziamento ou da fakerização do mundo, e por mais que se venda outra coisa com aparência de bom, ainda assim, é uma coisa vazia, em um ciclo fake-faker-fake: o falso, o falsificador e esse mesmo, o falso!
Va bene, eu desço, avanço e explico um pouco mais!
A relação fake-faker-fake desenvolveu um comportamento feudal de opressão e domínio, com intensa perversidade religiosa, seja pelo desdobramento do pensamento agostiniano ou das variáveis luteranas (no conjunto, uns e outros são a mesma coisa, criada em Nicéia!). É um modo fakerizado de ver o mundo, ou seja, dualista, maniqueísta e eclesial, cujo atraso e desvirtuamentos exigem dez mil anos de purificação! O “deus” e o “diabo” medievais, bem como, anjos e demônios, santos e santinhas, virgens grávidas e deuses encarnados, resultam do fake-faker-fake! Até aí, nada de mais, exceto pelas mulheres e homens que foram mortos no óleo fervente ou em fogueiras juninas, e pelos seres humanos cortados ao meio, arrastados exemplarmente pelas vias públicas ou, simplesmente, condenados e esquecidos em buracos sob igrejas e castelos. E, mais efetivamente, pela construção nos púlpitos e preces católicas e protestantes, dos fornos que destruíram dez milhões de pessoas sob os coturnos nazistas em campos de concentração, e outros quarenta milhões no front, mas, sempre, com as bênçãos de um grupamento insano!
A relação fake-faker-fake criou, também, o comportamento stalinista (bem distante de suas bases marxistas) desnudado pela Perestróika e, finalmente, implodido. Criou, ainda, e com perversidade excludente, o mundo econômico cocacolizado da bolha financeira – explodido pouco tempo faz, cujo pesado efeito perdurará por décadas.
Assim como nos exemplos expressivos da Idade Média, da Inquisição (ou Inquisições), dos Juízos de “deus” (e do diabo), do Holocausto – situações criadas e desenvolvidas pela visão falsificada de mundo (fake), bem como, do status econômico e financeiro, stalinista e americano, atualmente, vê-se o esvaziamento por conta do mesmo processo de fakerização agravado com o poder da virtualização. Pior que um inimigo real é um inimigo fake! Pois, o inimigo real é mantido a uma relativa distância, mas o inimigo fake não, e, pior, a relação virtual que alimenta milhares de fakes é incontrolavelmente imperceptível.
Enquanto isso, o mundo vai se transformando em uma grande privada não virtual, em uma lixeira não virtual, em um depósito de seres humanos não virtuais cansados e aflitos, esgotados, e em um gemido não virtual – tudo em um processo centrífugo em que nada escapa, a não ser que se escute um grito, que se faça um corte e que se acorde depois dessa noite, dessa longa noite!
Lamentavelmente, a história está repleta de ironias e reviravoltas surpreendentes. Um desses paradoxos que suscita reflexão é a conexão entre a criação dos princípios da ideologia de esquerda por intelectuais judeus e a posterior perseguição enfrentada por nós, judeus sionistas de esquerda por parte da própria esquerda.
No final do século XIX e início do século XX, muitos dos ideais de justiça social, igualdade e movimentos trabalhistas surgiram com significativa contribuição de pensadores judeus. Figuras proeminentes como Karl Marx, Rosa Luxemburgo e muitos outros, todos judeus, moldaram os fundamentos da esquerda moderna. Suas ideias propuseram uma sociedade mais igualitária, com ênfase na distribuição justa de riqueza e poder.
No entanto, ao longo do tempo, vários movimentos e regimes de esquerda começaram a tomar rumos preocupantes, nos quais o antissemitismo emergiu de maneira inesperada. Isso se tornou evidente, por exemplo, durante a Revolução Russa, quando alguns líderes bolcheviques adotaram políticas discriminatórias em relação aos judeus. O mesmo fenômeno ocorreu em outros contextos políticos, onde a esquerda começou a demonstrar sinais de hostilidade em relação aos judeus, muitas vezes associando-os à burguesia ou a outras formas de opressão.
Além disso, em tempos mais recentes, movimentos de esquerda que apoiam certas causas políticas, como o movimento BDS (Boicote, Desinvestimento e Sanções) contra Israel, levantaram questões sobre até que ponto a crítica política pode se transformar em antissemitismo, afetando negativamente a comunidade judaica em todo o mundo.
Essa ironia histórica traz à tona debates complexos sobre como ideias e movimentos políticos podem se distanciar de suas origens e evoluir para algo que contradiz seus princípios iniciais. A perseguição sofrida pelos judeus por parte de grupos ou movimentos que, em teoria, lutam por igualdade e justiça social, destaca uma contradição alarmante e um desafio ético.
O fenômeno do antissionismo também está intrinsecamente conectado à discussão sobre a relação dos judeus com movimentos de esquerda e as ironias históricas associadas a ela. O antissionismo refere-se à oposição à ideia ou ao movimento de sionismo, que defende o direito à autodeterminação do povo judeu e o estabelecimento de um Estado judeu, Israel, em sua terra histórica.
É importante observar que nem todo antissionismo é necessariamente antissemita, pois criticar políticas do Estado de Israel não implica automaticamente hostilidade contra os judeus como povo. No entanto, a linha entre antissionismo legítimo e antissemitismo muitas vezes se torna tênue, especialmente quando certas críticas ou ações se desviam para o território do preconceito.
Muitas vezes, movimentos de esquerda e grupos que se autodenominam antissionistas acabam por adotar posições e práticas que ultrapassam a crítica política legítima e entram em terreno antissemita. O antissionismo pode, em alguns casos, tornar-se um disfarce para a manifestação de preconceitos contra judeus, negando o direito à existência do Estado de Israel ou usando retóricas que alimentam estereótipos e ódio contra a comunidade judaica.
Esta intersecção entre antissionismo e antissemitismo complica ainda mais a relação entre judeus e certos movimentos de esquerda. Enquanto muitos judeus historicamente estiveram envolvidos na esquerda e em movimentos progressistas, o crescimento do antissionismo em alguns desses grupos levanta preocupações sobre a inclusão e o tratamento da comunidade judaica.
Assim, a ironia persiste: judeus, que estiveram envolvidos na fundação de ideias de esquerda, frequentemente enfrentam hostilidade e discriminação dentro de alguns círculos dessa mesma esfera política, especialmente quando se trata de questões relacionadas a Israel e ao sionismo.
Nos dias atuais temos o contradição de a esquerda apoiar o Hamas. Trata-se de uma manifestação clara da intersecção entre antissionismo e antissemitismo. O Hamas é uma organização terrorista que se dedica à destruição do Estado de Israel e à morte de judeus. Seus objetivos são diametralmente opostos aos da esquerda, que defende a igualdade, a justiça social e a paz.
No entanto, há uma parcela da esquerda que, por motivos ideológicos ou políticos, apoia o Hamas. Esses grupos argumentam que o Hamas é uma organização legítima que representa o povo palestino e que sua luta é justa. No entanto, essas alegações são infundadas. O Hamas é uma organização terrorista que não representa o povo palestino como um todo. Suas ações são responsáveis pela morte de milhares de civis, em sua maioria palestinos.
O apoio da esquerda ao Hamas é uma forma de antissemitismo disfarçado. É uma forma de negar o direito à existência do Estado de Israel e de apoiar a violência contra os judeus.
A compreensão desse paradoxo é fundamental para promover a luta contra o antissemitismo. É importante que a esquerda esteja ciente da ameaça que o Hamas representa e que se oponha a ele de forma inequívoca.
A compreensão dessa complexa dinâmica entre antissionismo, antissemitismo e a relação dos judeus com a esquerda é fundamental para promover diálogos construtivos, evitar generalizações injustas e garantir que as lutas por justiça social sejam conduzidas de maneira inclusiva e livre de preconceitos.
Em última análise, essa ironia histórica serve como um lembrete poderoso da necessidade contínua de vigilância contra todas as formas de preconceito e discriminação. Revela que, independentemente das origens de ideias políticas ou sociais, é vital permanecer vigilante contra quaisquer manifestações de intolerância, garantindo que as lutas por igualdade e justiça sejam verdadeiramente inclusivas e não perpetuem os males que procuram combater.