O CHURRASCO DO DIA (publicado originalmente em 25/7/2021)

O CHURRASCO DO DIA

O episódio da tentativa de queima da estátua do Borba Gato no bairro de Santo Amaro em São Paulo não chegou a produzir dano significativo ao objeto, e certamente os autores do “atentado” estavam cientes de que o tal do gato mal churrascado não se abalaria. Nada que um bom banho não resolva. Assim, tratar o episódio como terrorismo, ou como “destruição da história” ou mesmo como alguns analisam como sendo um ato de burrice política revela talvez uma grande incompreensão sobre o contexto e os objetivos do fato.

Se as dramáticas fotos que correram as redes atiçaram diversas correntes políticas (inclusive da esquerda) e ganharam tanto espaço na mídia, trata-se então de vitória política. Se política é ocupar espaços, o ato o fez com maestria, e sem qualquer destruição significativa. Em síntese apertada, portanto, não se pode e não se deve tratar o episódio como a “queima do Borba Gato” ou como destruição de patrimônio. Muito menos como burrice política.

Ao contrário, o que se viu (e certamente se previu) a estátua continua lá. E agora, não conta apenas uma história. Conta três. A primeira, óbvia, é a conhecida e divulgada onde o personagem é tratado como herói da formação do Brasil, tendo “desbravado” as terras Brasil adentro. A segunda, menos óbvia, é que a criatura conquistou a terra às custas de assassinatos em massa, estupro, escravização e outros crimes.

Se à época, como pretende Felipe Pondé, a vida era assim, e quem faz a crítica não passa de “bundão” que jamais sobreviveria naquela época, vale lembrar que conquistar o Brasil nunca passou de uma invasão brutal e sanguinária, necessária apenas aos que dela se locupletaram e por ela exerceram seus instintos mais brutais, algo que até onde me consta, não era algo exatamente essencial. Muitas civilizações e agrupamentos humanos existiam à época e até muito antes dela sem que para sua sobrevivência ou estabilidade necessitassem de tantos corpos, butim e sangue. E curiosamente, essa normalização pretendida por Pondé ao justificar a vida do “herói” como algo habitual e ajustado para a época, é o que permeia toda a nossa história e sociedade brasileira atual com todos esses vícios estruturais (e estruturantes, no pior sentido) que sustentam o atual governo genocida, ignorante, obscurantista e brutal.

A terceira história, é a que ficou gravada pelo significativo fato político em imagens, história, e sobretudo, significado. É a que ficou indelevelmente marcada a carvão no corpo do obtuso objeto artístico.

Resta então a compreensão de que o episódio mereceria sim uma certa comemoração e verdadeira reverência à história enquanto entidade viva e que agrega uma poderosa lógica na sua cadeia de eventos. Nada poderia ser mais simbólico e verdadeiramente dialético enquanto força de expressão de um inconsciente coletivo de chagas vivas e sangrantes dos acontecimentos do passado que tragicamente “edificaram” nossa nação, em um processo de construção que culmina no atual genocídio associado à pandemia da COVID-19.

Assim, posso dizer que o episódio me agradou. Pude testemunhar uma sociedade viva, onde por mais que restritos que sejam as pessoas que ali promoveram o ato em termos de representação da sociedade, ali fizeram história, respondendo ao contexto do tempo atual com uma precisão conceitual e simbólica que muito raramente se viu na nossa história recente, se é que se viu alguma. Não haveria melhor dia para aquele churrasco.

NELSON NISENBAUM

‘Emoções espontâneas sobre um dia especial’ ou ‘It’s over, fascist’

Breve mensagem ao Nazifascista: Volte ao covil do Ódio de onde você nunca deveria ter saído. Entrará no rol das vergonhas da história estadunidense, e todos lembrarão de você como uma figura ao mesmo tempo cruel e patética. Acabou.

A Joe Biden: Parabéns, presidente, espero que você se mostre uma grande resposta ao Neonazifascismo e seja um grande líder.

E, sobretudo: Obrigado Bernie, meu maior ídolo político, por me inspirar sempre, na vitória e na derrota. Você é incrível todos os dias.

E parabéns a todxs estadunidenses que votaram e a todxs do mundo que fizeram campanha desde o início (eu inclusive).

Eu espero por este dia há quatro anos. Agora, emocionado, vou celebrar e refletir sobre este momento. E vou brindar a beleza da Luta, da Resistência e da Esperança, que mantivemos mesmo durante os dias mais obscuros.

Próximo passo: libertar o Brasil. E Israel. Como sempre, ninguém solta a mão de ninguém. E o Amor vencerá o Ódio.

Jean Goldenbaum

Festival da Canção de Protesto: algumas palavras pessoais sobre este especial evento

No próximo sábado, 3/10/2020 acontecerá a primeira edição do Festival da Canção de Protesto, evento do qual tenho o prazer e a honra de fazer parte desde sua gênese. Mauro Nadvorny, também criador deste blog, é o idealizador e responsável principal pelo belíssimo projeto. A seguir divido com vocês sucintamente algumas histórias e reflexões sobre o evento.

Em abril de 2020 Mauro (lá de Israel) me procurou (aqui na Alemanha) dizendo que cultivava havia certo tempo a ideia de criar este Festival. Por eu ser músico e ele não, ele me perguntou se eu considerava que tal ideia seria realizável, ainda mais em tempos de pandemia. E me explicou a ideia central do evento: dar voz a pessoas anônimas do Brasil que tenham não somente criatividade e talento musical, mas também o ímpeto de protestar contra o governo fascista que tomou o país.

Bem, Mauro abordou a pessoa certa para tal atividade, e eu disse a ele que musicalmente a ideia era sem dúvida factível e em termos de protesto, era ideal e necessária. Prontamente aceitei seu convite para ser um dos organizadores. Confesso que se fosse somente um festival de música, sem o tema do Protesto, eu teria declinado. Quem conhece meu trabalho sabe que em minha carreira musical as questões políticas e sociais são inerentes à minha obra. Para mim não há real arte se não houver por parte do artista a intencionalidade de transformar o ser humano e as sociedades para melhor. Conscientização, reflexão, autoconhecimento são alguns dos atributos potenciais que a Arte carrega em si. Mas quem quiser saber mais sobre o assunto e sobre minha concepção enquanto artista, anuncio que em breve lançarei a 2ª edição de meu livro, que traz tudo isto detalhado. Voltemos ao Festival:

Pois bem, começamos o trabalho. Logo vimos que seria necessário agregar mais pessoas para que o projeto de fato engrenasse. Tivemos a alegria de conseguir envolver diversas pessoas que, de forma inteiramente voluntária (assim como nós), se dispuseram a trabalhar para que o evento se concretizasse. Aproveitamos para agradecer a todas e todos: Alexandre Lopes, Antônio Filho, Clarisse Goldberg, Isabella Lopes, Marco Paulo Ferreira e Raíssa Ruschel.

Assumi a presidência do Júri, formado por mais quatro pessoas além de mim: Andrea Cavalheiro, Lúcia Rodrigues, Luiz Felipe Carneiro e Thiago Suman. Obrigado, companheiras e companheiros!

E começamos a divulgar. Para nossa agradável surpresa, no fim de agosto, quando o prazo de inscrição se encerrou, tínhamos cerca de 200 canções enviadas. E assim os jurados tiveram dez dias para ouvir cada uma delas e escolher as dez finalistas, que participarão do Festival no próximo sábado. Foi uma tarefa trabalhosa, mas muito agradável. Havia muitas canções realmente boas.

Dentro deste trabalho de meses que se consagrará no dia 3 de outubro, aquilo que para mim é o mais importante é saber que há realmente muitos e muitas artistas no Brasil se expressando contra o Fascismo no país. A Arte precisa ser – como historicamente sempre foi – uma arma que dispara flores contra os monstros que estão a destruir a cultura e a sociedade brasileiras. E esperamos que estas flores tragam mais união e mais força à luta da Resistência. Como diz o ditado latino, “ars longa, vita brevis”, a arte é longa e a vida é breve. Nossos dias passarão. Mas todas as 200 canções que fazem parte deste acervo de resistência ficarão registradas como o retrato da luta política neste momento ímpar e triste no Brasil.

Assistam no dia 3/10, votem em sua canção preferida, continuem a apoiar os e as artistas que vocês forem conhecer e fiquem atentos, pois enquanto houver necessidade de protesto, estaremos protestando. E as próximas edições do Festival da Canção de Protesto serão ainda maiores e ainda mais resistentes. Abraços.

#ForaBolsonaro #ArteContraOFascismo #EleNunca

Festival da Canção de Protesto, uma realidade

Quando o mundo entrava em plena pandemia com todos entrando em quarentena e as fronteiras sendo fechadas juntamente com todo o comércio e o entretenimento, uma ideia acalentada de muito tempo veio a tona: porque não um festival de canções de protesto?

Sem nenhum patrocínio e com a ajuda de amigos de todas as horas, a ideia se tornou realidade e com mais de 160 canções de todo o Brasil inscritas, o festival entrou na fase da escolha das 10 canções que vão para a final, marcada para 3 de outubro.

São cinco juízes dedicando seu tempo para a difícil escolha entre tanta produção de altíssima qualidade. O país tem uma produção artística e cultural que me surpreendeu. Não imaginava tantos artistas interessados, tampouco fazia ideia de que no Brasil também se produz canções de protesto da mais alta qualidade.

Dia 10 de setembro teremos os finalistas, no que eu sei de antemão, será uma escolha tremendamente difícil, e que vai fazer a audiência pensar muito antes de votar na melhor canção. Sim, o festival será transmitido pelas redes sociais em uma live. Os testes já começaram neste final de semana e está tudo saindo melhor do que a encomenda.

Foram muitas dificuldades que tiveram de ser superadas. Tentamos um autofinanciamento para premiação que não recebeu o apoio desejado. Encontramos outras formas de premiar. Tivemos muito pouco apoio da mídia tradicional e nenhum da mídia de esquerda. Mesmo assim conseguimos envolver uma quantidade expressiva de compositores e intérpretes que acreditaram no projeto. Procuramos parceiros para a transmissão, mas não se interessaram. Vamos transmitir diretamente com a mesma qualidade deles, ou até melhor do que muitos.

A luta na resistência, não é o que muitos acreditam, solidariedade e fraternidade na trincheira da esquerda. A total indiferença e falta de suporte de companheiros da esquerda a este projeto é uma prova de que na esquerda, como na direita, os egos, muitas vezes, falam mais alto do que a razão. Mas também mostra como nós, da esquerda, somos insuperáveis em nossa luta por um Brasil mais justo e um mundo melhor. Mesmo com todas adversidades, vamos mostrar ao mundo pela Internet, que existe resistência e que nosso canto de protesto está aí para todos escutarem.

Eu posso dizer que apesar de tudo sou um cara sortudo. Encontrei parceiros que acreditaram no projeto e dedicaram seu tempo e seu talento para fazer acontecer. Sem a contribuição deles, teria sido muito mais complicado, senão impossível. Cada um deles a sua maneira, com a sua disposição estão dando uma contribuição inestimável que ao mesmo tempo me regozija e me comove. Nem mesmo conheço a todos pessoalmente, e não tenho palavras de agradecimento suficientes para externar o que sinto por eles terem acreditado neste idealista incurável.

O Festival da Canção de Protesto, ou o primeiro Festival da Canção de Protesto, como nós o estamos pensando vai continuar acontecendo nos próximos anos, virá o segundo, terceiro e assim por diante enquanto existirem injustiças para serem denunciadas e clamores para serem  cantados aos quatro ventos.

Do fundo do meu coração eu convido a todos, dia 03 de outubro a partir das 20:30 h, assistirem através das nossas páginas no YouTube (https://www.youtube.com/channel/UCbf8UHISaIecsnCfZ_RYiAg), no Facebook (https://www.facebook.com/FProtesto/) ou no Twiter (@Fprotest) ao Festival da Canção de Protesto (https://festivaldacancaodeprotesto.com.br/). Compartilhem muito no dia, escutem, curtam, vibrem e principalmente, votem na sua canção de protesto preferida e elejam as três melhores canções.

Até lá!

 

 

Conversando com Erich Fried sobre a Israel de hoje

Erich Fried (1921-1988) é um dos mais importantes e interessantes poetas de língua alemã de todos os tempos, e é também um artista que com frequência revisito, pois sua obra é extremamente rica e sempre me traz novas indagações e reflexões. Judeu austríaco de Viena, é um dos grandes representantes da ‘poesia política’ e foi um convicto esquerdista, sempre consciente sobre o mundo e as sociedades ao seu redor. Seu trabalho é repleto de questões identitárias e existencialistas e sua condição judaica é muito presente, seja de forma explícita ou implícita.

Eu poderia falar por horas sobre Fried – me identifico bastante com ele enquanto “judeu de língua alemã” – mas o intuito deste artigo é específico: quero trazer um de seus mais vigorosos e claros poemas (e que o coloca também em um rol de polêmica). Trata-se de ‘Höre, Israel’ (‘Ouça, Israel’), de 1967, que consiste em forte crítica às políticas israelenses frente os árabes. Este faz parte de um ciclo de poemas, todos com temática política, e foi publicado no ano em que foi escrito no tradicional jornal esquerdista alemão ‘Konkret’, que existe até hoje. Em 1974 o ciclo foi transformado em um livro, também intitulado ‘Ouça, Israel’.

Eu não era vivo em 1967, e não posso avaliar exatamente o quão realista era este poema naquela época. Mas sei que hoje, na Era Netanyahu, ele é infelizmente mais real e atual do que nunca. O verdadeiro artista muitas vezes antevê o futuro da sociedade, e acredito que Fried – caso tenha “exagerado” na época (como clamam alguns que o criticam) –, certamente (e de maneira quase profética) não criou nenhum exagero no que diz respeito aos dias de hoje.

Vamos ao poema. (Eu mesmo o traduzi e não sei se há outra tradução para o português, mas aproveito para dizer que não acredito em tradução de poesia. Como amante desta arte, penso que só se pode assimilar e compreender um poema plenamente em seu idioma original. Mas acredito que esta tradução funciona suficientemente bem para veicular ao leitor o conteúdo, que é o que mais nos interessa aqui.)

Ouça, Israel

Quando fomos perseguidos
Eu fui um de vocês.
Como posso continuar a ser
quando vocês se tornam perseguidores?

O anseio de vocês era
serem como os outros povos
quem os assassinaram.
Então agora vocês são como eles.

Vocês sobreviveram
àqueles que lhes foram cruéis.
A crueldade deles
permanece viva agora em vocês?

Vocês ordenaram aos vencidos:
“Tirem os seus sapatos”
Assim como o bode expiatório vocês
os lançaram no deserto

na grande mesquita da morte
onde sandálias são areia
mas eles não assumiram o pecado
que vocês quiseram lhes impor

A impressão dos pés descalços
na areia do deserto
sobrevive às marcas
de suas bombas e tanques.

O poema foi escrito em ocasião à Guerra dos Seis Dias. Em sua publicação Fried adicionou uma nota de rodapé que explica que na quarta estrofe ele se refere a um desagradável episódio ocorrido no fim do conflito: os egípcios capturados na guerra, ao serem libertados, teriam sido obrigados pelos israelenses a tirarem suas sandálias, tendo então de caminhar de volta às suas casas descalços sobre a quente areia do deserto.

Pois bem, com exceção desta quarta estrofe, que é muita específica sobre a guerra de 1967, todas as outras caberiam perfeitamente hoje no contexto do conflito israelense-palestino. Como escrevi acima, não vivi aquela época e não sei dizer se o poema era adequado (talvez alguém que viveu, possa dizê-lo). Mas vivo a época de agora, e infelizmente Fried descreve perfeitamente grande parte dos judeus de hoje (sejam de Israel ou da diáspora), quando afirma que “agora vocês são como eles (os agressores)” e quando lhes pergunta se “a crueldade deles (agressores) permanece viva agora em vocês (judeus)”.

Termino esta breve reflexão lembrando o(a) leitor(a) – seja ele(a) judeu/judia ou não –, que somente parte do povo judeu apoia a opressão israelense aos palestinos. Outra parte luta dia e noite contra ela e espera que ‘Shema Israel’ (‘Ouça, Israel’) possa um dia ser somente um clamor por Deus e não um grito angustiado de um poeta diante do terror causado por parte do seu povo.

Grande Fried, onde quer que sua alma esteja agora, minha resposta à sua pergunta “Como posso continuar a ser (parte do povo) quando vocês se tornam perseguidores?” é: Você pode sempre pôde e pode continuar sendo um de nós. É um dos que nos orgulham e não um dos que nos envergonham. Sua poesia permanece viva e sendo arma de resistência para ser recitada por nós nas batalhas de hoje. Obrigado, poeta companheiro. Es lebe der Widerstand! (Viva a Resistência!)