Nome Emmanuel, sobrenome Macron

Nome Emmanuel, sobrenome Macron

A se acreditar nas pesquisas de opinião, o futuro presidente da República francesa tem por nome Emmanuel, sobrenome Macron. Ele está a pouco mais de 30 horas (desde que liguei o computador) de ser proclamado novamente presidente, pelos próximos cinco anos, do segundo país mais rico da Europa. Entre 12 e 15 pontos o separam da populista neofascista Marine Le Pen. As últimas horas até o final do voto poderão aumentar a vantagem de Macron, o que vem acontecendo desde o debate de quarta-feira, vencido pelo presidente, que se mostrou muito mais competente que sua adversária. Le Pen quis transmitir a imagem de uma candidata tranquila, mãe de família e amiga dos gatinhos como se autodenomina. Mas além de errar ao citar números, ao falar de imigração e segurança mostrou ser o que realmente é : uma política de extrema-direita, islamofóbica e racista até o último fio de cabelo. E nada além disso. Revelou, uma vez mais, sua total ignorância no que diz respeito à economia e desmoronou ao falar de internacional.

Marine Le Pen e seu partido, União Nacional, são devedores de um grande banco russo, que serve aos interesses do Kremlin, portanto de Vladimir Putin. Macron aproveitou a ocasião para acusá-la de falar com seu banqueiro ao se entrevistar com Putin. Xeque-mate. Paralelamente, o presidente-candidato beneficia de uma aura de estadista em meio à guerra da Rússia na Ucrânia.
As diferenças entre ambos ficaram ainda mais claras com relação à Europa. Le Pen quer transformar a União Europeia numa aliança de nações soberanas, independentes. Em outras palavras, destruir o bloco. Ele, ao contrário, quer reforçar a UE, aumentando a unidade em questões como saúde e defesa.

Os dirigentes europeus aliás, seguem as eleições franceses com o maior interesse e preocupação.
Ao publicar um artigo em grandes jornais europeus, o chanceler alemão Olaf Scholz, o primeiro-ministro espanhol Pedro Sánchez e o chefe do governo português António Costa conclamaram indiretamente os eleitores franceses a votar Macron, salientando o papel de primeiro plano desempenhado pela França na Europa durante a pandemia e a guerra.

Esta « não é uma eleição como as outras »; disseram.

« A escolha é entre um candidato que valoriza a democracia, a soberania, a liberdade e do Estado de direito e um nacionalista que se alinha a dirigentes autocratas como Vladimir Putin, que lembram os momentos sombrios da Europa. »

Costa, Sánchez e Scholz salientaram que a França “está no coração do projeto europeu” e que a escolha de domingo se dará entre um “candidato democrata, que acredita que a França é mais forte em uma União Europeia poderosa e autônoma, e uma candidata da extrema direita, que está abertamente do lado daqueles que atacam nossa liberdade e nossa democracia”.

“Precisamos da França do nosso lado”. “Uma França que defende nossos valores comuns, em uma Europa na qual nos reconhecemos, que é livre e aberta ao mundo, soberana, forte e generosa. É esta França que está também na cédula de votação de 24 de abril. Esperamos que os cidadãos da República francesa a escolham.”

Vencer a extrema-direita também é o objetivo de Lula, que declarou de maneira clara seu apoio no segundo turno a Emmanuel Macron. Nesta quinta-feira, em tuites publicados em português e francês, Lula diz que “o futuro da democracia está em jogo na Europa e no mundo” e pede união “em torno do candidato que melhor encarna os valores democráticos e humanistas”, marcando o perfil de Macron na rede.

De acordo com as pesquisas realizadas na sexta-feira, Macron lidera com 55,5% a 58% das intenções de voto contra 44,5% a 42% para Le Pen. A diferença é grande, porém muito menor que os 32% que os separaram em 2017. O que poderá pesar para o partido A República em Marcha, de Macron, nas legislativas de junho.

Uma fascista no poder

Uma fascista no poder

24 de abril de 2022, 20:00 em Paris, 3 da tarde em Brasília. Eis que surge em todos os canais informativos da televisão o rosto do presidente eleito da França, ou melhor da presidente, Marine Le Pen, a primeira mulher chefe do estado francês.
O terremoto político é sem precedentes na Europa, só comparável à invasão da Ucrânia pelas tropas de Putin.

Dentro de alguns dias, a eleita neofascista anunciará a primeira medida simbólica, de efeito muito mais nefasto que o fim do horário de verão decretado pelo capitão no primeiro dia de seu mandato. A bandeira europeia será retirada da fachada de todos os edifícios públicos.

É o início do golpe de estado contra o Estado de Direito, como bem sintetizou o constitucionalista Dominique Rousseau.
Todos os democratas choram e desesperam. Os próximos cinco anos serão marcados por ataques sistemáticos à democracia e aos Direitos Humanos.

Como todos os populistas, Le Pen vai governar por medidas provisórias e, quando não for possível, apelará para o referendo popular, que prefere à democracia representativa, diante da dificuldade em ter uma maioria suficiente no Parlamento para mudar a lei máxima.

A nova presidente usará o seu primeiro referendo para incluir na Carta Magna a discriminação dos estrangeiros, através do princípio da preferência nacional. A saber : prioridade no emprego para os franceses de sangue gaulês, « pure souche », no acesso aos benefícios sociais, às escolas e universidades, à habitação social ou ainda a determinadas profissões, como acontecia com os judeus europeus. Em bom português, a xenofobia passará a ser um princípio constitucional.

Há muito Marine Le Pen abandonou a fantasia de lobo para vestir a de cordeiro. Multiplicou selfies com seus gatos, a ponto de ser « carinhosamente » chamada « la femme aux chatons », a mulher dos gatinhos. – Uma gracinha, como diria Hebe Camargo.
Desistiu de tirar a França da zona do euro, nunca mais falou em Frexit (Brexit à la francesa), e em vez de defender a impopular saída da União Europeia agora propõe fórmulas mágicas para bloquear todas as decisões do bloco que não a satisfaçam. Por isso submeterá a referendo a superioridade das leis francesas sobre as europeias, pouco importa que ela, como advogada, conheça perfeitamente o princípio de direito que estabelece a supremacia da lei internacional sobre a nacional. Ela não quer apenas mudar a França, quer mudar o próprio Direito.

Le Pen acredita numa União Europeia à la carte, rejeitando os pontos que não lhe convém: os tratados de livre-comércio, a adesão de novos países, a Europa da Defesa, o espaço Schengen de livre circulação de pessoas.

É claro que a inscrição na Constituição da primazia da lei nacional sobre o direito europeu faria da França um paria dentro do bloco, a exemplo da Hungria de Viktor Orbán. O seu programa é incompatível com a União e com os tratados europeus.

Meu amigo Phillipe Bernard, editorialista do Le Monde, escreve : « A estratégia de doçura de Marine Le Pen mascara um projeto brutal de destruição das instituições e de divórcio com a União Europeia. »

Como visto, seu modelo institucional é o recurso sistemático ao referendo como forma de contornar o Parlamento. Seu desejo é generalizar o referendo de inciativa popular sobre todos os assuntos, sem exceção, inclusive para anular leis aprovadas por deputados e senadores. Esta aliás era uma das principais reivindicações dos coletes amarelos, movimento claramente infiltrado pelos dois extremos.
Porém – no caso de Le Pen há sempre um porém – para adaptar a regra aos interesses do poder ela se reserva o direito de bloquear toda proposta de referendo caso entenda que é contrária aos « interesses vitais do país ».

Além de mudar a Constituição para incluir a superioridade da lei francesa sobre a europeia, outras medidas xenofóbicas estão previstas : a mudança da lei sobre a nacionalidade e da política de imigração.

A nova regra da aquisição da nacionalidade deixará de reconhecer o direito do solo – jus solis, para adotar o jus sanguinis. Ou seja, quem nascer na França não será francês, nem terá a nacionalidade francesa quando atingir a maioridade. Só serão franceses os filhos de pais franceses. Obter a nacionalidade francesa por outra razão será um sonho impossível.

Quanto à política de imigração, as fronteiras irão se fechar, inclusive para os refugiados candidatos a asilo político. O reagrupamento familiar deixará de existir.

Marine Le Pen, versão 2022, coloca em causa a Declaração Universal dos Direitos do Homem de 1789, o preâmbulo da Constituição de 1946 (marcada pelo fim do nazismo), e a Constituição de 1958, que instituiu a Quinta República. Tudo para alegria de um tal Vladimir Putin, ditador da Rússia e credor da líder neofascista francesa, que assim obteria um raríssimo sucesso político depois da campanha militar que poderá levá-lo aos tribunais por crimes de guerra e contra a humanidade. Terá a presidente da França em suas mãos.

Felizmente, o segundo turno ainda não aconteceu, Marine Le Pen não foi e se depender dos meus orixás não será eleita. Dia 24, dentro de uma semana, o que resta da França democrática elegerá Macron, e o país sobreviverá, evitando-se assim uma crise europeia de alta intensidade e o risco de uma guerra nas instituições e nas ruas. Inchallah !

P.S. A última pesquisa, publicada sábado, 16, aponta a vitória de Emmanuel Macron, com 55,5% dos votos válidos

Putin no TPI?

Putin no TPI?

Procurador-geral do TPI vai investigar crimes de guerra russos na Ucrânia, mas não será fácil levar Putin ao Tribunal de Haia

Embora reconheça que não será fácil levar Vladimir Putin ao banco dos réus do TPI, o procurador-geral do Tribunal Penal Internacional, Karim Khan, prometeu abrir investigações “independentes e objetivas” tão rapidamente quanto possível. “Existe uma base sólida” para se acreditar que houve “crimes de guerra e crimes contra a humanidade” na Ucrânia por parte da Rússia.

O ditador russo poderá, ou melhor, deverá ser acusado pelo Tribunal de Haia por fomentar crimes de guerra e contra a humanidade na Ucrânia e não apenas pelas atrocidades cometidas desde o último 24 de fevereiro.

O TPI já havia promovido uma investigação preliminar, com base em alegações de que teriam sido cometidos esses crimes no conflito armado que, desde 2014, opõe o governo ucraniano às forças separatistas apoiadas pela Rússia na região do Donbass, no leste do país. Neste mesmo ano, as tropas moscovitas invadiram e anexaram a Crimeia. Agora, “perante a expansão do conflito no último mês”, Karim Khan quer investigar novos relatos de crimes que entrem na alçada do TPI.

39 países, incluindo a União Europeia e a União Africana, já pediram oficialmente a abertura das investigações sobre a invasão russa.

Embora nem a Rússia nem a Ucrânia tenham ratificado o Estatuto de Roma, que instituiu o Tribunal Penal Internacional em 1998 (o que em princípio colocaria os dois países fora da sua alçada), o tratado prevê que o TPI terá jurisdição caso um país que não o integre aceite a autoridade do Tribunal, apresentando uma declaração formal nesse sentido. E foi justamente isso que a Ucrânia fez em dois momentos: primeiro através de uma declaração em que aceitava a jurisdição do TPI para investigar e julgar crimes cometidos no seu território no início do conflito com as forças separatistas russas, entre novembro de 2013 e fevereiro de 2014; depois através de uma segunda declaração enviada em setembro de 2015, de “duração indefinida”, que autoriza o Tribunal de Haia a “identificar, processar e julgar os perpetradores e cúmplices de atos criminosos cometidos em território ucraniano a partir de 20 de fevereiro de 2014”.

Em 2020, a então promotora do Tribunal, Fatou Bensouda, concluiu que havia uma base procedente para acreditar que três tipos de crimes foram cometidos: no contexto da condução das hostilidades, durante as detenções e aqueles cometidos na Crimeia pós-invasão. Agora, o atual promotor do TPI, Karim Khan, está abrindo oficialmente a investigação proposta por sua antecessora e ampliando-a para incluir a recente invasão da Ucrânia.

Khan diz ter pedido à sua equipe que aproveite todas as oportunidades para obter e preservar provas e explicou que a abertura do processo poderia ser agilizada se um país membro do TPI pedisse ao seu gabinete que averigue a situação na Ucrânia, o que a Lituânia anunciou já ter feito. A ministra lituana da Justiça, Evelina Dobrovolska, falou por telefone com o seu homólogo ucraniano, Denys Maliuska, informando-o que o seu governo estava “apelando ao procurador do Tribunal de Haia”, de acordo com o Estatuto de Roma. O que foi confirmado pela primeira-ministra lituana, Ingrida Simonyte, ao jornal norte-americano Washington Post.
A Lituânia é um país báltico, portanto vizinho da Rússia, extremamente preocupado com o risco de que Putin avance para além das fronteiras da Ucrânia.

A decisão anunciada pelo TPI é consequência de inúmeras denúncias de crimes de guerra que estariam sendo cometidos pelas forças russas nesta invasão. O embaixador ucraniano na ONU lembrou, dias atrás, que as tropas de Putin atacaram civis e que entre os seus alvos contam hospitais, ambulâncias, escolas, teatros, orfanatos e outros alvos não militares. O embaixador apelou também à punição do líder bielorrusso Alexander Lukashenko, acusando-o de ataques à Ucrânia e de ter oferecido o seu território como base para a invasão russa.
Em Bucha, nesta segunda-feira (4), o mundo viu estupefato as imagens de centenas de cadáveres nas ruas próximas de Kiev, numa região retomada pelas forças ucranianas. De acordo com as autoridades da Ucrânia, mais de 300 corpos foram enterrados em valas comuns. A Rússia contesta a autoria do massacre.

Há de se falar também dos refugiados e deslocados internos, que já somam 10 milhões (o maior número desde a Segunda Guerra), dentre os quais mais de 4 milhões de crianças, ou seja, a metade da população infantil da Ucrânia, segundo a UNICEF.

E isso sem dizer que não houve, por parte da Rússia, nem sequer uma declaração formal de guerra, nem é claro um pedido de autorização para o uso da força à ONU, como exige o Direito Internacional.

O promotor do TPI deve provar que os supostos crimes são crimes de atrocidade: genocídio, crimes contra a humanidade ou crimes de guerra. Mesmo que seja extremamente difícil provar a intenção de cometer tais crimes e designar com certeza absoluta seus autores. Tão difícil que apenas seis pessoas foram condenadas pelo TPI e cumpriram pena.

O Direito Internacional Humanitário é baseado nos princípios de humanidade, necessidade, distinção e proporcionalidade. Um crime de guerra ocorre quando os civis não são diferenciados das tropas militares, quando os danos aos civis não são minimizados e quando há destruição, sofrimento e baixas desnecessárias.

Se um dia o TPI emitir um mandado de prisão contra Putin, ele não poderá viajar para os 123 estados que fazem parte do Tribunal, pois outros Estados podem decidir entregá-lo à Justiça. Mas um mandado de prisão não é uma garantia de condenação. E é difícil, senão praticamente impossível, vincular um chefe de Estado em exercício a crimes cometidos pelas forças armadas no terreno.

Por isso, é quase certo portanto, que não veremos Putin em Haia. Muito embora o candidato a czar venha sendo acusado de violações dos direitos humanos praticamente desde que chegou ao poder, em 1999. Ainda como primeiro-ministro, liderou a repressão do separatismo checheno. Depois, em 2008, no conflito com a Geórgia em torno das províncias da Ossétia do Sul e da Abkházia, as tropas russas foram acusadas de atacar alvos civis. Em 2016, o TPI abriu uma investigação de eventuais crimes de guerra cometidos na Geórgia em 2008. E em 2020, como já dissemos, a promotora do TPI acusou Putin de três crimes cometidos na Crimeia.

De qualquer maneira, independentemente das provas de crimes que o TPI recolha no contexto desta nova invasão da Ucrânia, a possibilidade de Putin vir a sentar-se no banco dos réus em Haia é remotíssima. Primeiro porque a jurisdição do TPI só abrange crimes ocorridos no território de um país-membro ou que tenham sido cometidos por um cidadão de um desses países. Rússia e Ucrânia assinaram o tratado, mas os seus parlamentos não o ratificaram. Há duas exceções: a primeira, como falamos, se refere à possibilidade de um país que não é parte do TPI aceitar expressamente a sua autoridade (o que a Ucrânia já fez), a outra implicaria que a própria ONU levasse a questão ao Tribunal de Haia; um cenário impossível na medida em que a Rússia, juntamente com Estados Unidos, China, França e Reino Unido, é um dos cinco países membros permanentes do Conselho da Segurança com poder de veto.

No entanto, teoricamente não é impossível que Putin possa vir a ser detido e posteriormente julgado em Haia, após ter deixado o poder (se reeleito, poderá ser presidente até 2036). A procuradora-geral ucraniana, Iryna Venediktova, mostra-se confiante de que esse será o seu destino: “Cidadão Putin, habitualmente respeito a presunção de inocência, mas não no seu caso. Provaremos num julgamento justo que você é um assassino e o principal criminoso de guerra do século XXI. Eu, como procuradora-geral do Estado soberano da Ucrânia, e no interior das suas fronteiras, que não são suas, declaro-lhe isto oficialmente: virá o tempo em que lhe direi em Haia, cara a cara.”

Como quase impossível não significa impossível, podemos sonhar com Putin e Bolsonaro vestidos com roupas listradas, sentados lado a lado no banco dos réus do TPI, ouvindo a sentença de condenação à perpetuidade pelos crimes cometidos. Bolsonaro terá então todo o tempo livre para negociar a compra de fertilizantes enquanto Putin ensina xadrez ao “ilustre” colega.

As esquerdas divididas

As esquerdas divididas

A invasão da Ucrânia pela Rússia vai deixar feridas profundas na esquerda brasileira, que certamente demorarão a cicatrizar. Após um momento de rara unanimidade no enfrentamento ao nazifascismo bolsonarista, como houve anteriormente nas manifestações das « Diretas já », vivemos uma divisão radical das esquerdas, de grande violência. Chegou a haver manifestações de ódio entre campos adversos.
A guerra pediu posicionamentos claros e os militantes de esquerda não se esquivaram. Assim, formaram-se, grosso modo, dois grandes campos: o dos prós e o dos anti Putin.
O primeiro abandonou os valores de esquerda para se jogar de corpo e alma num antiamericanismo cego, defendendo a intervenção militar russa sob o argumento do combate ao imperialismo estadunidense. Houve aplausos estridentes a Putin, que enfim ousou desafiar a OTAN – Organização do Tratado do Atlântico Norte – e consequentemente Washington e seus aliados europeus, chamados de lacaios. O anti-imperialismo serviu de justificativa à guerra e até as atrocidades onipresentes nos conflitos armados, como a destruição de hospitais, escolas, orfanatos, padarias e sapatarias, deixando um rastro de morte.
Putin deu a este grupo de « torcedores » uma outra justificativa de peso, embora mentirosa: a desnazificação da Ucrânia. Não que se negue a existência de milícias armadas neonazistas na Ucrânia, que aliás se especializaram em formar combatentes estrangeiros. Eu mesmo publiquei em livro a história do Batalhão Azov e do Previi Sektor, duas milícias que deixaram suas marcas no grupo dos 300 liderado por Sara Winter, que acampou nas proximidades do Palácio presidencial, em Brasília, e atirou fogos de artifício contra a fachada do STF. Mas é preciso também falar dos neonazistas russos, como o Bataljon Sparta, unidade acusada de vários crimes de guerra e que luta no Donbass.
A mentira da pretensa desnazificação vem da extrapolação da acusação para a Ucrânia como um todo. O país não sendo nazista não há porque desnazificá-lo. Mas como fazia com maestria Goebbels, o ministro da Propaganda de Hitler, a mentira contada milhares de vezes torna-se verdade na cabeça daqueles que ouvem e até mesmo daqueles que a inventaram. Assim sendo, essa parcela da esquerda engoliu a fraude, mesmo sabendo que se tratava de um argumento falacioso, pois servia aos seus interesses.
A referência à desnazificação, mesmo que mentirosa, não pode ser entendida sem uma referência histórica. Quando os alemães atacaram a URSS, em 1941, o movimento nacionalista liderado por Stepan Bandera proclamou, sob a autoridade dos nazistas, a Ucrânia independente. Só que a situação atual nada tem a ver com essa história, manipulada por Vladimir Putin. A Ucrânia de hoje não é a Ucrânia da época de Bandera,aliás citado com uma insistência doentia.
O roteiro esquerdista estava escrito: a invasão era a « desculpa » tão esperada para combater os Estados Unidos e a Europa e, paralelamente, com uma pitada de saudosismo socialista soviético, criar uma Rússia « ideal », que pouco (ou nada) tem a ver com a atual. A realidade é outra, a Rússia de hoje é de extrema-direita, vive sob um regime ditatorial, em que não reina o primado do Direito, a violação dos direitos humanos é sistemática, não há liberdade de expressão, nem justiça social, nem igualdade de gênero. A palavra de ordem vem do Kremlin e de seus oligarcas. Vladimir Putin é o maior financiador dos partidos europeus de extrema-direita. Ele é nazifascista, mas isso tampouco importa, pois essa esquerda está presa à Guerra Fria e se coloca a favor do « czar » por ser ele, supostamente, antiamericano. « O inimigo do nosso inimigo é nosso amigo ». Trata-se de uma esquerda velha, que o Coordenador do Observatório da Extrema-Direita, David Magalhães, chama de « paleozoica ». É uma esquerda que não se oxigenou, que mescla nacionalismo com esquerdismo e que vê em Putin uma força para enfraquecer a posição dos Estados Unidos no mundo. E isso basta.
Pouco importa se o guru do chefe do Kremlin, Aleksander Duguin (que deu nascimento no Brasil ao movimento de extrema-direita Nova Resistência), professa a ideologia antiglobalista e o antimarxismo cultural do Olavismo, base do bolsonarismo e da Alt-Right mundial. Pouco importa se o lema do Duguismo, emprestado de Trump, é « A Rússia grande de novo ». Nada disso conta.
Para essa esquerda, diz Magalhães, tanto se lhe dá se Putin é um déspota e tem uma agenda hiper-relacionaria. O essencial está na crítica do império americano ao mesmo tempo que minimiza o império russo. Esquerdistas desta ala não hesitam em ressuscitar o termo « democracia relativa » do general-ditador Ernesto Geisel para explicar que Putin não é um autocrata nem a Rússia uma ditadura.
É uma esquerda sob a influência das teorias conspiratórias divulgadas pela mídia moscovita, a começar por Sputnik e RT, frequentemente citados na mídia independente brasileira. O antiamericanismo é o valor absoluto que serve como visão de mundo. É o modelo que explica e justifica tudo, até mesmo alianças com Jair Bolsonaro, defendidas despudoradamente. O antissemitismo é o complemento desta receita explosiva.
Essa é a esquerda brasileira representada por José Dirceu e o PCO.
Em contrapartida há, dentro do próprio PT, uma outra esquerda, a do ex-chanceler Celso Amorim, cabeça pensante de Lula em política internacional.
É uma esquerda que não hesita em condenar o expansionismo da Aliança Atlântica, mas que não cede ao conspiracionismo e defende os valores humanistas: democracia, Estado de Direito, Direitos Humanos, Justiça Social, não discriminação de minorias. Essa outra esquerda, que inclui o ex-presidente Lula, denuncia todos os imperialismos, sejam eles americanos ou russos. Em nome da defesa dos direitos humanos, não aceita fazer aliança com regimes nazifascistas, é favorável à autodeterminação dos povos, de todos os povos na Ásia como nas Américas, na Europa, no Oriente Médio e contra a invasão de um país por seu vizinho.
Essa outra esquerda, da diplomacia, não aceita o argumento russo de que o simples interesse ucraniano em ingressar na OTAN justifica uma intervenção, mesmo porque a Aliança Atlântica havia descartado a adesão nos curto e médio prazos e que Emmanuel Macron e Olaf Scholz estavam mediando o diálogo. Não havia, portanto, risco imediato que explicasse a necessidade premente da guerra. Além disso é preciso lembrar que a invasão aconteceu à revelia do Direito Internacional, já que apenas as operações militares avalizadas pela ONU são consideradas legais, salvo quando se trata de legítima defesa. E ao que se saiba a Rússia não foi atacada. A eventual legitimidade não significa legalidade. A invasão foi, nas palavras de Amorim, uma violação grave do direito internacional, um erro. Moscou não consultou a ONU em nenhum momento.
É verdade que a esquerda esteve dividida com frequência, o que sempre foi muito claro no Partido dos Trabalhadores, mas a Guerra da Ucrânia deixou as veias abertas, plagiando Eduardo Galeano. Para uns, Putin é herói, para outros não passa de um ditador sanguinário, um criminoso de guerra que deve ser julgado pelo Tribunal Penal Internacional, que não hesitou em lançar seus tanques contra uma escola em Beslam e matar 156 crianças, nem em fornecer armas químicas à Baschar el-Assad, nem por fim invadir a Ucrânia.
Isto dito, a postura anti-OTAN na América Latina e no Brasil em particular é compreensível e justificável, na medida em que há um traumatismo histórico pela influência imperialista americana na região.
O problema é que o diálogo entre as esquerdas ficou quase impossível, na medida em que a questão central envolve valores fundamentais e que os dois lados acreditam ter razão; não parecem nem um pouco dispostos a abrir mão de suas posições, nem avançar em direção do outro.
A apenas alguns dias do anúncio oficial da chapa Lula-Alckmin, momento em que o ex-presidente precisa da unidade de todas as suas forças, as esquerdas estão divididas, mais do que nunca. Que não seja de forma irremediável…

No teatro do absurdo tudo é possível

No teatro do absurdo tudo é possível

O que quer Vladimir Putin?

Nas primeiras horas do conflito, após o reconhecimento da independência do Donbass e Lugansk (oficialmente respondendo a pedido das autoridades locais), o “czar” afirmava que o objetivo da invasão das tropas russas era garantir a segurança das duas repúblicas, que, em outras palavras, passavam a integrar a zona de influência moscovita. Elevava-se desta forma de dezenove para vinte e um o número de repúblicas sob as ordens do Kremlin.

Naquela altura já estava claro, contudo, que o objetivo da guerra, fixado por Putin, não se limitava ao Donbass, Lugansk e regiões periféricas. Ele não precisava de 150 mil homens fortemente armados só para isso.

Em seguida, o ditador russo anunciou a desnazificação da Ucrânia. Outra desculpa esfarrapada, pois um nazifascista como Putin, chefe de Estado que mantém relações privilegiadas com a extrema-direita mundial e que segue os preceitos do Duguismo, correspondente ao Olavismo de Bolsonaro, não faria uma guerra para desnazificar o país vizinho. Mesmo porque o principal representante do nazismo na Ucrânia, o batalhão Azov, ultranacionalista, é contra a Rússia da mesma forma que é contra a OTAN e a União Europeia.
Aqueles que acusam o Batalhão de ser apoiado e financiado pelos Estados Unidos, fingem não saber que em outubro de 2019, membros da Câmara dos Representantes dos EUA do Partido Democrata solicitaram que o Batalhão de Azov e dois outros grupos de extrema direita fossem classificados como Organização Terrorista Estrangeira pelo Departamento de Estado dos EUA, citando atos de violência de direita, como os tiroteios na mesquita de Christchurch no início daquele ano. O pedido gerou protestos de apoiadores de Azov na Ucrânia (um dos líderes do Batalhão seria um nacionalista brasileiro chamado “Frank Horrigan »). Em 2018, a Câmara dos Representantes dos EUA também aprovou uma disposição bloqueando qualquer treinamento de membros de Azov pelas forças americanas, citando suas conexões neonazistas.

Então se a razão da guerra não era de desnazificar a Ucrânia, qual seria? Provavelmente a tomada de toda a Ucrânia, com a imposição da neutralidade, da desmilitarização e de um novo governo pró-russo.

Chegamos assim perto da verdade, mas era sem contar com a loucura de Vladimir Putin. Sim, porque aparentemente o presidente russo enlouqueceu. Dizem que é por causa do isolamento em que se encontra, o que eu não acredito, pois o problema vem de longa data.
De qualquer maneira, nas últimas horas Putin não teve toda a sua razão, com ações fora de lógica, a não ser que estivesse determinado a provocar uma guerra mundial.

Nesta quarta-feira, dia 2 de março, dois aviões caça Sukhoi Su-25 e outros dois Sukhoi SU-27 da Força Aérea Russa violaram o espaço aéreo sueco. Putin, ao contrário da prática corrente entre dois países, não se desculpou, nem entrou em contato com as autoridades suecas para explicar que houve um engano (desculpa de praxe). Isso leva a crer, portanto, que a violação do espaço aéreo foi proposital, uma advertência que reforça as palavras ameaçadoras do presidente russo, segundo as quais se a Suécia e a Finlândia abandonarem a neutralidade para ingressar na OTAN, terão a mesma sorte da Ucrânia.

Na madrugada de 3 para 4 de março, as forças russas atacaram a central nuclear de Zaporizhzhia, a maior da Europa com seis reatores, causando um incêndio no prédio da administração da usina e provocando pânico na população ucraniana e também europeia. Segundo Putin, a operação militar russa segue de acordo com aquilo que havia sido determinado, o que nos leva à conclusão de que ele não abre mão do terror nuclear. E que está disposto a correr o risco de um acidente nuclear, sem falar da eventual entrada do poderio atômico russo na guerra.

Com a ocupação da central de Zaporizhzhia, Putin tem entre suas mãos a produção de energia da Ucrânia, situação que deixa as grandes cidades sem eletricidade, sem aquecimento, sem água, além de controlar as vias de acesso e fornecimento de alimentos. Segundo estrategistas ocidentais, Putin cercou as cidades e negociou a abertura de corredores humanitários para a fuga da população civil, o que o deixará com as mãos livres para realizar uma tempestade de bombas, matar o máximo de pessoas e obrigar Zelenski à demissão. Emmanuel Macron, após uma discussão de 1h30 com Putin por telefone, anunciou que o pior está por vir.
O massacre será terrível.

Apesar da avassaladora superioridade militar de Moscou, Putin não se preparou para um conflito longo.

No plano interno, a Douma, a Câmara baixa do Parlamento russo, votou uma lei que não deixa a menor fresta para a verdade. Toda notícia considerada falsa pelo alto comando das forças armadas será sancionada com 15 anos de prisão. E o que é notícia falsa? Toda e qualquer informação não confirmada ou não emanada das forças russas. A mera utilização da palavra guerra ou invasão entra nessa definição, já que o Kremlin considera que se trata de uma simples « operação especial ».
Ao agir dessa forma, Vladimir Putin quer deixar claro que é o único capitão a bordo e que o futuro da guerra, da Ucrânia e talvez até do mundo, depende dele, e exclusivamente dele.

Os russos, ou provavelmente grande parte deles, estão convencidos de que a invasão da Ucrânia foi necessária e urgente para salvar a Rússia. Sim, porque vários mísseis de grande poder destruidor, inclusive com ogivas nucleares, instalados na Ucrânia, estavam prestes a ser lançados contra Moscou e as principais cidades russas. O ataque era iminente. Essa versão foi contada por cidadãos russos, convencidos de que Putin os salvou. Eles não se perguntam por que as tropas russas não encontraram nenhum míssil voltado para a Rússia, nem por que essas armas não foram disparadas.
Estranho, não é mesmo?

No mundo das fake news aliás, é preciso salientar que apenas a extrema-direita e parte da extrema-esquerda saudosista apoiam o agressor russo. Dentre eles, alguns grupos que aceitam tudo, absolutamente tudo o que for contra os Estados Unidos, culpados pelo mal do mundo, por todo o mal do mundo. A palavra de ordem destes é « o inimigo do meu inimigo é meu amigo ». Washington representa o que de pior existe desde o fim da Segunda Guerra, mas desta vez não foram os Gis que invadiram a Ucrânia. Mesmo assim, os extremistas não hesitam em abrir espaço na imprensa independente ao discurso da extrema-direita próxima do neonazismo, em nome da defesa de Putin. O que nos leva à situação surreal em que os neonazistas estão mão na mão com os stalinistas. É um dos ensinamentos absurdos deste teatro à la Ionesco.

Somos judeus de esquerda

Somos judeus de esquerda

Por Jean Goldenbaum, Mauro Nadvorny, Michel Gherman, Milton Blay, Nelson Nisembaum e Pietro Nardella Dellova

Palestinos nos veem como inimigos, judeus de direita, que defendem incondicionalmente os governos israelenses conservadores, nos acusam de traição, e os nossos próprios irmãos de esquerda  têm dificuldade em nos entender. Em nome do antissionismo, por vezes escorregam para o antissemitismo. E isso é o mais doloroso.

Dói ver grupos de um partido de esquerda queimarem a bandeira de Israel em nome do socialismo, um chargista comparar os palestinos aos judeus gazeados de Auschwitz, um colega jornalista escrever que não existe “solução para a crise no Oriente Médio que não inclua o fim do Estado de Israel”, a mídia progressista abrir espaço para pessoas que vomitam seu ódio aos judeus. Dói ver nossas lideranças condenando o bombardeio de Gaza por solidariedade aos familiares das vítimas palestinas, sem uma palavra sequer sobre as famílias israelenses, sobre o necessário reconhecimento de Israel e de uma paz justa, com dois Estados dentro de fronteiras seguras.

Somos judeus progressistas.

Nosso posicionamento é transparente, não hesitamos quando se trata de combater o presidente brasileiro e seus asseclas nazifascistas, de denunciar as consequências nefastas do neoliberalismo, de denunciar o extremismo de direita que se espalha pelo mundo, de defender a justiça social, a democracia e os direitos humanos. Não há discussão possível, somos límpidos e pensamos merecer ser tratados como tal. No entanto, a cada vez que o assunto é Israel, o olhar dos outros muda. De repente somos apontados, dedo acusatório em riste, por enxergarmos no conflito médio-oriental uma situação muito mais complexa do que a dicotomia fácil que coloca o carrasco, Israel, contra a vítima, palestinos, maus de um lado, bons do outro. Isto é maniqueísmo.

Não somos torcida uniformizada. Somos todos, ou quase, a favor de uma solução de dois Estados, vivendo lado a lado em paz e segurança, conforme o estabelecido pela ONU em 14 de maio de 1948, em sessão presidida por Osvaldo Aranha. Nenhum de nós quer o extermínio do povo palestino. Ao contrário, queremos ver os seus direitos a uma terra, a uma nação, reconhecidos.

Amos Oz, o escritor pacifista israelense, descreveu este processo como sendo um divórcio contencioso, penoso porém necessário.

É verdade que hoje a solução de dois Estados parece um sonho quase impossível, tanto assim que alguns defendem a criação de um Estado binacional. Na prática talvez ainda mais impossível. Na Cisjordânia vivem cerca de 430 mil colonos israelenses em 132 assentamentos. Mesmo assim, vale citar André Malraux, para quem em política só a utopia é verdadeiramente interessante. É ela que deve guiar nossas ações.

Essas colônias são ilegais pela lei internacional. Em pelo menos sete ocasiões, desde 1979, o Conselho de Segurança da ONU reafirmou que elas são “uma violação flagrante do direito internacional”.

Não é possível continuar indefinidamente como está.

Os judeus de esquerda militam pela paz, muitos fazem ou fizeram parte do movimento Paz Agora, pela coexistência, por um lar para uns e outros. Quando uma bomba explode num ônibus escolar israelense, choram as crianças mortas, da mesma forma como choram as crianças de Gaza, vítimas dos bombardeios de Tsahal. Para qualquer mãe a morte de um filho é uma perda irreparável, seja ela israelense ou palestina. A dor no peito é a mesma.

Nos meios progressistas, frequentemente Israel é chamado de Estado genocida. O que os governos israelenses efetivamente não são.  Não se pode comparar o que acontece na região com o genocídio tutsi em Ruanda, o armênio pelos turcos, o de Samudaripe, no Camboja, o massacre de Srebrenica, o extermínio dos índios, nem sequer com as vítimas da “imunidade de rebanho” arquitetada pelo governo federal.

Israel não é um Estado genocida, mas isso não impede que seja um país colonizador de terras que não lhe pertencem pelo direito internacional, um pais expansionista, em nome de um pseudo destino bíblico .

Com Ariel Sharon, Israel deu o passo que faltava para privilegiar a segurança em detrimento da paz. As negociações foram quase abandonadas e a solução de dois Estados arquivada. Foram implantadas colônias populosas na Cisjordânia, para onde seguiram milhares de fundamentalistas religiosos e extremistas de direita, tornando impossível a imprescindível continuidade territorial palestina.

Israel é responsável e culpado. Sua atitude, indefensável. As colônias têm de cessar e as negociações precisam ser retomadas. Só que aqui entra uma questão fundamental: quem seriam os interlocutores ? Os palestinos estão divididos, o Fatah, que controla a Cisjordânia e a Autoridade Palestina, não dialoga com o Hamas, que tem o poder em Gaza. O Fatah reconhece o direito de Israel à existência, enquanto o Hamas, em seus estatutos, jura combater Israel até o seu desaparecimento do mapa. Do lado israelense, a população se  acomodou com a situação relativamente estável, com conflitos episódicos que os sucessivos governos de direita consideram administráveis. É sintomático o fato ocorrido durante um recente confronto com o Hamas. Enquanto os aviões israelenses bombardeavam o prédio ocupado pela imprensa internacional, em Gaza, os habitantes de Tel Aviv estavam nas ruas festejando a vitória no concurso Eurovision,  como se a população israelense estivesse vacinada contra a guerra.

Durante mais de dez anos, o status quo foi conveniente tanto para Ismael Haniyeh quanto para Benyamin Netanyahu e agora o é para Naftali Bennet (que tem se mostrado ainda mais à direita que seu predecessor).

Então surge alguém dizendo que se Israel é colonizador é porque seu lugar não é ali, no Oriente Médio. E assim entramos na intrigante questão do ovo e da galinha. Quem nasceu primeiro? Quem estava lá antes?

Os judeus foram expulsos daquela região? Sim, ali foi escrita parte da história de seu povo, fato que justifica amplamente o retorno e a decisão da comunidade internacional, de consciência pesada por ter fingido que não via o holocausto. Na Antiguidade Oriental (Oriente Médio), os hebreus, também chamados judeus ou israelitas, habitavam Canaã (território do atual Estado de Israel). As raízes do judaísmo estão ali, fincadas naquele solo. Isso ninguém pode negar.

No entanto, os palestinos ali estavam nos séculos XIX e XX, tendo sido expulsos de suas casas, de suas terras, famílias foram separadas, muitos tornaram-se refugiados. Originalmente, os palestinos se estabeleceram em uma área entre a Jordânia e o atual Estado de Israel. A dominação deste território, que no fim do século XIX contava com cerca de 500 mil habitantes, remete à crise do Império Otomano, que anteriormente controlava a região.

As colônias agrícolas de palestinos começaram a ser fundadas no ano de 1862.

Isso tampouco se pode negar.

Muitos judeus europeus, influenciados por pensadores do final do século XIX, começo do XX, pensaram em se assimilar, inspirados nos valores da Revolução Francesa, que pregava a igualdade de direitos para todos. Até mesmo o jovem Theodore Herzl (antes de se tornar o pai do sionismo político) chegou a defender a conversão ao cristianismo, antes de se dar conta, ao cobrir o caso do capitão Dreyfus, acusado de espionagem por ser judeu, que o antissemitismo não tinha sido abolido na “pátria” dos direitos humanos.

O jornalista israelense Ari Shavit, em Minha Terra Prometida, descreve magistralmente esse nó que está no cerne do conflito israelo-palestino. Os dois povos têm razão e, assim sendo, não há solução satisfatória. Por isso, as concessões precisam ser imensas, mexendo em sentimentos profundos de injustiça. Porém, assim deve ser.

Os palestinos sofrem ainda mais por verem seus ex-amigos árabes lhes virarem as costas. Hoje, os habitantes, sobretudo de Gaza, só podem contar com os apoios do Qatar e do Irã xiita, este interessado em se impor como líder regional em contraposição à Arábia Saudita wahabita. Teerã financia o Hezbollah, no Líbano, o Hamas e a Jihad Islâmica, movimentos armados que nunca aceitaram a partilha da região nem a existência de Israel.

A tragédia palestina também é político-religiosa, na medida em que o Hamas tentou impor a sharia, a lei islâmica estrita, em que meninas e meninos não podem frequentar as mesmas escolas, as mulheres não têm seus direitos nem sua segurança reconhecidos, são vítimas da violência doméstica, o desemprego entre as mulheres chega a 71 %, muitas meninas são obrigadas a se casar ao chegar à puberdade, homossexuais são presos.

Os moradores de Gaza são miseráveis, têm eletricidade duas horas por dia, o desemprego atinge metade da população, só 10 % têm acesso à água potável e, para piorar ainda mais, o Hamas acusa a Autoridade Palestina de se aliar à Israel e Egito no bloqueio à Faixa.

Muitas doações da União Europeia para obras de infraestrutura são desviadas para outros fins.

Israel é responsável pela situação em Gaza? Claro que é, mesmo se os seus soldados saíram de lá em 2005. Mas não é o único. Uma análise objetiva (na medida que isso é possível) deve responsabilizar todos os integrantes do puzzle, inclusive lideranças palestinas, algumas das quais acumularam fortunas de origem nem sempre transparente.

Israel é um país segregacionista? Sim, os árabes não têm os mesmos direitos dos judeus, mesmo se um partido árabe israelense, muçulmano, hoje faça parte da coalisão governamental. Há de se reconhecer que existe uma espécie de apartheid em Israel.  Prova, como se necessário fosse, que Israel não é para amadores e não deva ser visto com olhos apaixonados da arquibancada de um Fla X Flu.

Somos judeus de esquerda. Talvez seja difícil para quem não o é entender por que Israel é fundamental para nós, e ainda por cima somos majoritariamente pouco religiosos, ateus ou agnósticos, cem por cento laicos (conceito diverso de ateu, e que significa dizer: somos a favor do Direito, e não da Religião, organizando a política e a estrutura do Estado, aliás, do Direito dando a todos, religiosos e irreligiosos, a faculdade de viver em pluralismo e diversidade), muitos casados com não judeus.

Israel é criticável e criticado. Porém, que o seja “só” por seus erros, que não são poucos.

Israel é o nosso seguro de vida. Estamos intimamente convencidos de que se Israel desaparecer, como querem os antissionistas, nós também desapareceremos, mais cedo ou mais tarde. Por quê? Porque sempre foi assim; a história nos ensina. Todos conhecem a Shoá e seus 6 milhões de judeus assassinados. O que alguns talvez não saibam – ou finjam não saber, é que a perseguição aos judeus é muito, muito anterior a Hitler. Historicamente, o judeu é o «outro», o bode expiatório, que deve ser discriminado, varrido do mapa.

Os judeus fazem questão de ter seu próprio país porque passaram milênios ameaçados de extermínio.

Israel não nasceu da necessidade de celebrar ser judeu, mas do direito de existir sem perseguição.

Nunca os judeus foram tão assimilados quanto no primeiro terço do século XX, na Alemanha; deu no que deu.

Somos ao todo 14 milhões de judeus, representando 0,2% da população mundial. O mínimo que se pode dizer é que o barulho é desproporcional ao que representamos. E isso tem nome: antissemitismo.  Com certeza, cada um de nós tem histórias a contar sobre atos de discriminação sofridos durante a vida, relembrando que somos todos, sem exceção, filhos, netos, bisnetos de refugiados, de perseguidos, de expulsos.

Muitos migraram da Europa central e do leste para o Brasil, após a Primeira Guerra, vítimas dos pogroms na Europa.

“Meus avós”, conta o Blay, “migraram da Polônia e Bessarabia para o Brasil, após a Primeira Guerra, vítimas dos pogroms na Europa. Paula, minha avó, quase moribunda, num gesto de derradeira vontade fez questão de se naturalizar brasileira, pois não queria ir embora polonesa, como filha de um país antissemita. Uma de suas irmãs, que queria muito estudar, negou-se a partir de Cracóvia, obteve no mercado negro uma carteira de identidade como prostituta e assim pode prosseguir os estudos, o que lhe era negado como judia. Acabou morrendo em Auschwitz, a poucos quilômetros da escola, antes da existência de Israel.”

Casos como este pontuam a nossa história.

Nosso papel, como progressistas, é tentar restabelecer a verdade e a justiça.  Sem concessões, reconhecer os direitos, deveres e sofrimentos de todos – judeus e muçulmanos, palestinos e israelenses. Sem exceção. Em nome de nossa integridade, temos o direito de ser reconhecidos dessa maneira, antes de mais nada pelos companheiros com quem dividimos valores e para quem a fístula do antissemitismo ainda é – infelizmente – um abcesso a ser extraído.