Samba Perdido – Capítulo 34

Capítulo 34

“E no final das contas,
O amor que você leva
É igual ao amor que você faz.”

Beatles
Alguns amigos da antiga turma de malucos do Colégio Andrews foram acampar em Lumiar. Tal como Visconde de Mauá o  vilarejo – celebrado numa música famosa do Beto Guedes – era famoso por sua paisagem rural paradisíaca, parecida com a Européia. O pessoal que ia lá era igual, hippies light; urbanóides a fim de curtir uma paz rodeados de gente parecida e leegal. Na manhã de irem embora, resolveram se despedir do lugar dando uma nadada em uma represa antes de pegar estrada. Na chapação saideira um dos caras, Luis Fernando, viu um pequeno redemoinho que parecia lhe estar desafiando a um mergulho para experimentar ser atirado de um lado para o outro. Ele subestimou o poder de sucção da água, foi puxado pelo tubo de canalização e morreu afogado.
Nosso amigo tinha 20 anos e pertencia a uma família de diplomatas: um expoente do “Novo Brasil” no qual a gente cresceu. Ele partiu desse mundo seduzido pela quase invisível, porém imensa, força da água sendo contida por um mecanismo naquele lago artificial. Esta tragedia trazia uma alegoria à nossa saida da placenta da vida encantada da Zona Sul do Rio fomentada e protegida pelo defunto regime militar. Para nós sua morte seria o selo que encerraria uma época, ou nosso nascimento para o mundo real. Depois daquilo, cada um seguiu seu próprio caminho e o espírito que compartilhávamos nunca mais retornou. Tempos, turmas, anos dourados, todos também morrem. O corpo dele só seria resgatado depois que seus pais influentes “convenceram” as autoridades a explodir com dinamite o concreto que tinha aprisionado seu filho.
*
Minha saida daquele fim de festa foi assim: num sábado à noite quando estava de saída, o telefone tocou. Era Renée ligando de Teresópolis dizendo aflita que Rafael tinha passado mal com dores no peito e que tinha sido levado para um hospital no centro da cidade. A situação era séria e ela precisava de mim ali pois teríamos que nos revezar dormindo no seu quarto no hospital. Sarah, embrulhada num relacionamento complicado, só que agora casada, não estava falando com a família e não participou da comoção.
Quando cheguei no hospital  deparei com meu pai em um estado de confusão, cheio de tubos por todos os lados. Ele parecia envergonhado pela inconveniência que estava causando e por estar tão mal. Aquela noite era a segunda noite e era a vez de minha mãe ficar com ele. Após bater um papo com eles e dar boa noite dirigi sozinho para a sítio. Fazia séculos que não ia lá e voltar sob aquelas circunstâncias tão incertas, acendendo sozinho as luzes naquela casa no meio do nada foi muito estranho.
Na noite seguinte, era minha vez de ficar no hospital. Rafael já estava começando a perder a lucidez. Tinha delírios, acreditando que estava no barco usado para escapar dos nazistas a tantos anos atrás, perdido no Mar do Norte, quase morrendo de fome e de sede. De início, não percebeu que estava no quarto, mas após algum tempo retomou os sentidos, se acalmou, a gente conversou um pouco e trocamos um boa noite.
Fui acordado de madrugada pelos médicos apressados me pedindo para sair do quarto. Ainda meio dormindo obedeci sem entender bem o que estava acontecendo e sem saber se estava fazendo a coisa certa. Conforme os minutos foram passando e o resto da equipe medica foi entrando apressada no quarto tive a certeza de que algo grave tinha acontecido. Depois de uns cinco minuto mais ou menos, o olhar sério e frio do médico pálido e gorducho seu  disse tudo quando saiu para falar comingo. Não esperei para que tentasse transformar aquela expressão em palavras. Abri caminho para encontrar os olhos azuis de meu pai ainda abertos, mas sem vida.
Aquela visão me atingiu como uma flecha no meio da cabeça. Minha reação foi sair novamente, sentar no chão do corredor e chorar. Nosso relacionamento tinha acabado antes de sequer começar. Amava meu pai e tinha um respeito infinito por ele.  Tenho certeza de que o sentimento era recíproco, mas nós nunca conseguimos expressar aqueles sentimentos. Agora ele estava ali no leito, rígido e impenetravel como uma esfíge sem respostas, sem história e sem vida.
Rafael tinha vindo de um vilarejo judeu no interior da Polônia e o destino o tinha levado para o distante Brasil. Em vez de curar as dores do passado, perto do fim o paraíso tropical antropofagico acabou se alimentando de seus sonhos e transformando seu mundo em algo irreconhecível. O Brasil tinh dao vida a um filho igualmente enigmatico para ele. Na volta para o sitio, me senti tão impotente e distante como ele estivera de seu próprio pai quando foi morto em Auschwitz. Mesmo assim, era sua continuidade na busca por um lugar são no meio da insanidade deste mundo.

Samba Perdido – Capítulo 31 – parte 01

Capítulo 31

 

“A gente somos inútil.”
Inútil - Ultraje a Rigor

 

Voltei para casa exausto. Dois dias depois, quando me recuperei, ao invés de estar contente por ter vivido uma viagem épica e de poder me deleitar novamente nos confortos que sempre tinha considerado como dados, a sensação foi de estranhamento. Ter uma empregada para arrumar minhas coisas, um quarto só para mim e comida sempre à disposição sem que precisasse trabalhar para nada daquilo parecia errado. Apesar da mordomia, me sentia como um animal enjaulado numa existência protegida que agora parecia limitada e limitante. 

O clima estava péssimo. Renée e Rafael, ansiosos e um tanto decepcionados comigo, achavam que minhas aventuras tinham ido longe demais. estava perdendo um tempo precioso; precisava tomar um rumo na vida, fazer sentido, mudar de visual e de atitude. Para um casal já idoso e com o passado complicado deles, ver o filho largado daquela maneira era difícil . O método paterno de mostrar descontentamento foi o de sempre; passar semanas sem me dirigir uma palavra, uma postura passivo-agressiva à qual já tinha me acostumado. Do lado da materno, muita gritaria e ofensas. 

A liberdade que vivi no Nordeste era incompatível com aquela realidade. Não era só em casa; na faculdade e nos outros círculos era como se todos tivessem voltado para a sala de aula menos eu. Nada me interessava e passei a achar tudo e todos insuportáveis. Me sentia como Ícaro, caído dos céus por ter voado alto demais, ou Gulliver, imobilizado por liliputianos por não caber em seu mundinho. 

Lá fora a situação também estava pesada. Por conta da crise econômica, o instinto de gado era rei e todos estavam mais caretas do que nunca. Para manter minha identidade e meus princípios vivos, tinha que nadar contra uma corrente de medo e de conformismo. Visto de fora, parecia que havia perdido o contato com o que se considerava a realidade do dia a dia; um cidadão de segunda classe a ser evitado.

Foi difícil voltar às aulas. O curso estava se aprofundando em teorias micro e macroeconômicas, cálculo e outras matérias exigentes. Completamente fora de sintonia, não tinha nem a concentração nem a vontade para continuar. A necessidade de digerir o que estava acontecendo, meu sonho antigo de ser diretor de cinema, a descoberta da música, a falta de pessoas com quem me identificasse, a distância da minha família e dos amigos, a falta de um relacionamento amoroso para ajudar a amenizar o caos; tudo era difícil. 

Precisava de tempo e espaço para refocar. Pedi a meus pais para que me deixassem passar um ano trabalhando em um kibutz, um tipo de comunidade agrícola anarquista em Israel, mas a resposta foi um sonoro não. Para eles, o tempo de diversão e divagações tinha se esgotado. Agora era hora de virar homem e trabalhar duro para construir um futuro. É claro que os argumentos faziam sentido mas não encontrava nem forças, nem razão para pairar acima daquele mar de confusão e capitular.

Para complicar as coisas, um dia Rafael, já nos seus 80 anos, passou mal ao sair para almoçar no escritório, desmaiou no elevador e seus funcionários, assustados, o levaram depressa a um hospital. Quando fomos vê-lo no CTI, os médicos disseram que seu coração estava fraco. Ainda que em retrospecto isso fosse previsível dado ao stress que estava passando, o episódia e a notícia pegaram a família de surpresa. 

Meu velho estava enfrentando o caos econômico aos trancos e barrancos. Continuava com suas andadas solitárias de madrugada na praia de Ipanema durante a semana e nos fins de semana repousava na tranquilidade de Teresópolis. Isso, e uma dieta saudável o tinham levado a uma idade avançada com saúde e lucidez, mas estava difícil. O paraíso tropical onde havia desembarcado trinta anos atrás estava irreconhecível. Após tantas conquistas, o Brasil parecia agora estar reclamando tudo que lhe havia dado. Com uma inflação mensal beirando os trinta por cento ao mês e uma estagnação econômica devorando o país, tudo parecia de cabeça para baixo. 

Como tantos outros, o negócio dele estava em dificuldades. Do seu ponto de vista, a família estava em frangalhos; eu tinha enlouquecido e, apesar da Sarah – ainda a sua grande esperança – estar indo bem em sua carreira de dentista, tinha entrado em um relacionamento tóxico e não estava falando com nenhum de nós. O sítio em Teresópolis, que deveria ser o lugar onde aproveitaria sua aposentadoria, tinha se tornado um problema de manutenção sem fim, um ralo financeiro e mais uma pedra no seu sapato.

Apesar das recomendações do médico, meu velho não se permitia descansar. Se parasse de trabalhar o estilo de vida da família desapareceria. Viciados que estávamos no seu esforço, a gente achava ele estaria ali para sempre provendo o nosso sustento e nao davamos valor ao seu martírio. Quanto a mim, estava absorvido demais comigo mesmo para oferecer qualquer tipo de ajuda e, de qualquer forma, ele descartava de cara qualquer sugestão que eu desse – como a de vender o negócio e a casa para que pudesse aproveitar seus últimos anos em paz.

Embora pensasse muito a respeito, sair de casa e mandar tudo para “aquele lugar” não era uma opção. Naquele tempo, jovens de classe média no Brasil só saíam de casa quando achavam um bom trabalho ou quando se casavam. Na Zona Sul carioca, ninguém jamais consideraria dividir um apartamento com amigos ou alugar um quarto na casa de estranhos. Mesmo se tivesse resolvido, pesquisando os classificados nos jornais descobri que os poucos empregos disponíveis para gente sem qualificação e sem experiência pagavam menos que a minha mesada. 

A tensão em casa foi escalando até chegar a um patamar insano. Quando ficou insuportável, conseguimos chegar a um acordo. Eu abandonaria meu curso de Economia para seguir meu plano original de estudar cinema. Para mim, essa escolha me colocaria minimamente de volta nos trilhos, para eles a opção era melhor do que eu largar tudo e ficar em casa de vagabundagem. O plano era tentar uma vaga em uma faculdade de cinema em São Paulo.

*

Alheia aos dramas familiares, meus e os de muitos outros, a intensidade da vida no Rio seguiu em frente. havia novidades e a estrela da hora era o grupo de teatro Asdrúbal Trouxe o Trombone. De várias maneiras, eram o que a nova geração estava precisando: uma voz própria. Sua inovação é que eram “gente como a gente”, meninos e meninas de classe média aprendendo a viver e a lidar com as dificuldades dentro e fora de casa. Diferente do que rolou em gerações passadas e o que ainda rolava nas universidades, eram totalmente apolíticos. 

Esse grupo era icônico para as mudanças que estavam acontecendo na cena cultural carioca e, consequentemente, na de todo o Brasil. Influenciados por Monty Python e pela contracultura em geral, o Asdrúbal era uma versão mais inteligente, inclusiva e bem humorada dos surfistas e dos roqueiros. A trupe, em sua maioria era formada por atores e diretores amadores da Zona Sul carioca, se lançou com a peça “Trate-me Leão”. Por sua postura atrevida e engraçada, tocando em assuntos fáceis de se identificar, a peça foi um tremendo sucesso e viajou pelo Brasil afora.

O Asdrubal entrou – ou melhor, não entrou – na minha vida da seguinte maneira:

Estava em casa já de calção preparando para ir ao Nove num glorioso sábado de praia. Meus pais tinham ido para Teresópolis e estava batendo papo com Dona Isabel na cozinha almoçando o meu habitual bife acebolado com arroz e feijão. A televisão estava ligada e, de relance, vi alguns dos atores do já famoso Asdrúbal dando uma entrevista. No final, anunciaram que estavam oferecendo aulas de teatro grátis e pedindo a todos que  participassem.

Aquilo chamou minha atenção e fiquei tentado. Enquanto fui andando descalço para a praia fiquei pesando os prós e os contras de participar do curso ou não. Aquilo poderia ser uma oportunidade para conhecer gente parecida comigo e, quem sabe, uma chance para me aproximar do objetivo de fazer cinema. Porém, no fim das contas, meu instinto de rato de praia falou mais alto, dizendo que aquilo era coisa de usuário de fio dental e de caretinha tirador de onda do tipo que queria evitar. Além do mais não dava para ator, com e sem trocadilho.

Aquele homofobismo juvenil foi um dos maiores erros da minha vida. Muitos dos maiores atores e roqueiros cariocas da minha geração, como a banda Blitz, o cantor Cazuza, comediantes como Luís Fernando Guimarães, a atriz e apresentadora Regina Casé, entre outros, surgiram daquele curso ou eram os professores lá.

A resposta foi forte e com tantos alunos inscritos separaram a galera em grupos. Bruno, um amigo meu, entrou para um deles. Ainda que não fosse um ator nato, tinha uma câmera de vídeo e talento para filmar e editar. Para o Asdrúbal, os dois atributos foram um presente dos deuses e começaram a lhe pedir que filmasse as peças e outros eventos. O Asdrúbal cresceu e o Bruno cresceu junto. Uma década mais tarde, Bruno tinha ganho vários prêmios como melhor diretor de vídeo musical na MTV Brasil e é hoje um dos maiores produtores do país.

*

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Início

 

 


 

Cárcere

Fui preso em um sábado de outubro, era tarde, quase noite.

Os primeiros cinco dias, fui mantido em uma solitária, cela sem janelas, não se via nada. Mesmo agarrado aos tubulões da grade, uma  porta,  o mundo lá fora era escuro.

O espaço era  espremido, havia  um colchão, solitário, no canto  direito.

Cheiro de rato. Mantive minhas mãos  sobre as grades,  grudadas.   Dormi um tanto, eu acho, em pé, com fome e cansado.

Ouvi gritos, fortes. Tortura! um preso, talvez em cela próxima. Vou ser o próximo

Tortura, tortura e morte! Durante todos os dias da minha prisão, fui tomado por essa ideia, de ser torturado até a morte.  Seria torturado, fortemente torturado  e depois,  morto. Ou morreria  nas sessões  de tortura.

Havia poucos exemplos assim, dos relatos das prisões da ditadura. Todos,  no dia da prisão, quase todos, eram bastante  torturados,   apenas o começo da história.

Ouvi passos, entre quase saudar a volta á vida e alimentar o medo.

Pouco antes, imerso no longo tempo da noite, longa noite,  fechei os olhos  e tentei recompor as horas da manhã do sábado, acho que ainda era a mesma jornada.

Eu estava no Centro Técnico  da Aeronáutica, Vale do Paraíba.  Lembro da aula de computação, ás nove, a  de sempre, umas duas ou três horas  depois de um café.

Imaginei o mundo mais longe, minha mãe, sempre tão terna, falava baixo.  Desejei que ela não soubesse .

Rodando o filme,  tela da memória;  as três irmãs, cada uma na sua foto,  bonitas, alinhadas, como a  mãe dizia. Vi a namorada, linda, carinhosa. Saudade e tristeza. Depois, parentes e amigos, o povo dos meus caminhos.

 Tanta gente, nesse mundo. Nunca mais vou ver ninguém

 Lembrei da Celinha que sempre me dizia, o tom da advertência: cuidado, não se deixe ser preso. Se te pegarem, vão esmagar teus bagos, com alicate.

A porta se abriu, lenta. Dois homens   se postavam na soleira.  De repente, estava caminhando no meio dos dois

Longos corredores escuros,  que leva à tortura e depois à morte.  Por fim, a luz, um pouco de claridade.   Consegui entender o significado da dupla.

O que ia atrás, estava fardado, soldado  da aeronáutica, segurava uma arma, parecia pronto para atirar e era o mandado.  O outro, o da  frente, ao contrário da ordem convencional, era o que mandava, até ali.  Descobri, muito tempo depois que era sargento, sargento Martins.

Final de todos os corredores. Uma porta, aqui chego ao fim do meu destino, minha passagem;

Sargento bateu, pediu licença e entrou.

Sentado em uma cadeira, quase poltrona e com mesa de escritório, imaginei meu algoz, um  Major. Deste,  nunca soube o nome.

Disse que eu eu sentasse. Sobre a mesa um sanduiche, meio desembrulhado, ainda com os aromas de coisa nova

Eu estava com muita fome. Fome, cansaço e medo.

Ele me ofereceu. Fome? Pode pegar;

Responde que não, segurando angustia.

Obrigado, eu estou sem fome.

Foi meu primeiro ato de resistência, em  tantos que precisei ter nos muitos dias  da prisão e depois, na minha vida lá fora.

 

Nunca se esqueça

Uma luz pareceu brotar da penumbra, no fundo do quarto. Reconheci o meu irmão. Eu estava na parte clara da casa, uma pequena sala. Ele estampava um olhar radiante e sorria para mim. De repente, vi que a luz saia do seu rosto, que estava lindo, corado e tão bem delineado que parecia uma imagem saída de uma pintura. Pensei que ele veio para me redimir, aplacar minha culpa, porque não havia nenhum sinal, nenhuma cicatriz, na sua face, marca daquele passado triste e miserável.
Mas logo ele alcançou a parte clara da casa e o rosto foi se transformando e revelando o profundo talho, que começava rente ao olho direito e escorria torto até o queixo ; lembrança da madrugada terrível, que eu nunca poderia esquecer.
Acordei assustada! Não havia ninguém no quarto. Por uns minutos chamei por ele , mas a casa estava silenciosa e vazia. Eu sabia, a cena era sempre a mesma. O sonho se desfaz e trás de volta o filme de uma infância distante que me atormenta e que me acompanha sempre, todos os dias da minha vida! Rápido, liguei para a casa dele! Como sempre fazia “Fique tranquila” , ele me disse “fique sempre com Deus! está tudo bem e assim vai continuar. Está tudo bem!” “E nunca se esqueça, minha irmãzinha, eu gosto muito de você!”
Da janela do carro eu ouvia o burburinho alegre daquela cidade clara e encantadora, distante em tudo da pequena Maribela da minha infância . O sol iluminava as flores dos jardins, era um bonito dia do início da primavera a caminho do hospital eu pensava a minha agenda, as consultas, uma pequena cirurgia, um pouco da rotina de sempre. “Vai ser um dia bom”, pensei, mirando sonolenta, a claridade daquela linda manhã.
Eu gostava de cuidar das pessoas, da saúde e da alma, como minha mãe sempre me desejou, e eram muitas, e eram pobres e quase sempre preferiam falar seus medos e suas esperanças, pelos língua eloquente dos olhos. Dentro do carro parado, me dei conta dos quinze minutos de cochilo que o relógio me doava.
Fechei os olhos e projetei as horas doces do fim da tarde e por fim a noite tranquila e até divertida, ao lado do meu homem, “aquele que cicatriza minhas feridas e me faz gostar da vida e do prazer de amar”, eu me repeti, gostosamente ! E me regozijava, imaginando a gente se abraçando, passeando pelas ruas, olhando as vitrines e as pessoas e, por fim, indo para a minha casa, que era onde curtíamos as nossas mais ternas cumplicidades.
“Maribela nunca mais”, eu pensei, quase gritando, abafando as imagens do terror com aquelas confortáveis lembranças de agora. Mas o filme de imagens tristes e de miséria, continua vivo na minha mente e me machuca forte, uma ferida de porta escancarada.
 MARIBELA, INFÂNCIA
Era uma casa de chão batido, e o teto era de sapé, Minha irmã, com nove anos, eu com oito e o irmão, que tinha completado seis , éramos as únicas pessoas dentro do casebre, fazia três semanas! Foram dias de muita fome e desolação. Chegamos a passar dois dias inteiros sem comer.
No terceiro dia apelamos para o vizinho.
Era um homem que nos assustava, rude, calado, bravo. Ganhamos, cada um, uma caneca de café com um pedaço de pão. A Generosidade veio com uma cobrança; tínhamos que preparar as paredes da sua latrina, com bambu cortado do fundo do terreno, que era para a que ele pudesse usar sua fossa onde fazia as necessidades, – defecava e urinava, escondido do olhar do mundo.
Meu irmão, nos seus seis curtos anos, já tinha feito aquele serviço algumas vezes. A primeira , ele sempre lembrava, mas não por palavras, era porque a lágrima sempre vinha e a raiva fazia ele cerrar os punhos. Nossa vó. mãe da mãe, obrigou que ele cortasse os bambus e construísse a latrina, a privada, e como não gostou do serviço , exigiu que ele derrubasse tudo e fizesse uma nova. Suas mãos sangravam  e ela, brava com o choro, aplicou-lhe uma surra. Depois, pediu que ele lavasse as mãos, colocou uma folha arrancada do mato que ela dizia que era para fechar as feridas e enrolou cada uma das suas mãos em panos sujos, que disse que era para estancar o sangue.
Rápido, os outros vizinhos se deram conta de que podiam usar nossas habilidades para também construírem as paredes das suas privadas. Assim, por muitos dias conseguimos garantir nosso café acompanhado do pão, para aplacar a fome, que doía fundo Era o único recurso que os moradores tinham na época, para terem uma privada, uma fossa e mais as paredes de bambu; e para nós, passou a ser a garantia daquela ração da manhã, café e pão, saudada pelos nossos raquíticos corpos.
 A gente pensava na mãe, com muita saudade, chorava de lembrar dela “Ela foi atrás do macho”, dizia o vizinho bravo , explicando que esse macho era oque ela chamava de namorado e que até andou passeando com ela pelas ruas da nossa vila. Um dia até nos levou junto.
“A mãe disse que foi procurar ajuda, comida e emprego em uma cidade grande”, Minha irmâ ficou brava com os comentários do velho . Ela se percebia como a nova dona da casa, meio mãe meio irmã “Lá ela tem muito amigo de verdade”, ela disse, “e até gente da nossa família”. olhando para o homem, severa e zangada, cuidando da imagem da mãe de quem ela gostava muito E todo dia a gente sonhava com ela, a nossa mãe que tinha ido embora, e sonhava que ela ia aparecer com sacolas cheias de comida e até, quem sabe , doces e balas, e que ia nos abraçar muito e que ia por a gente eu seu colo, passar a mão em nossos cabelos, alisar carinhosamente nossos rostos, como às vezes lembrava de fazer; eram momentos em que a gente esquecia a vida miserável e se deixava embalar por esses afagos, que nos faziam sonhar e dormir.
A mãe garantiu que voltava logo, mas os dias passavam, formavam semanas e a gente continuava sozinho. Todo fim de tarde meu irmão ficava na frente do casebre, mirando o por do sol quase com febre de imaginar que ela ia apontar lá longe.
Para cortar e recolher os bambus , nós tínhamos que atravessar um pequeno córrego que passava no fundo das casas . Era um mutirão de trabalho árduo. Meu irmão, que mal se avistava, corpo franzino no meio do bambuzal , cortava um a um, e passava para a minha irmã, que ficava com o corpo no meio do córrego, com a roupa molhada e com os pés mergulhados na lama Depois ela passava pra mim,: “Segura logo” ela falava sofrido, meio que chorando do desconforto da roupa molhada e dos pés mergulhados na lama.  Eu catava os bambus cortados e começava a raspar e a preparar, depois ia juntando em feixes .No final do serviço, a fome voltava a bater forte e o estômago reclamava barulhento. Restava dormir logo e sonhar com a manhã do outro dia! Ah! O dia começava sempre, e já fazia muitos dias, com a caneca de café e com um pedaço de pão! As canecas eram todas iguais, de latão, amassadas, velhas e sem asas , feitas pelos homens das casas da vila, que sempre tinham uma pequena oficina no fundo daqueles casebres.
Dois dias de muita chuva, em que não aparecia ninguém para pedir o nosso serviço. Voltamos ao estado da fome que só não foi completo porque a vó resolveu praticar uma bondade –foi isso que ela disse- e nos deu a ração da manhã, de todos os dias, que também servia de almoço e janta, a caneca de café e o pão.
Preocupados porque ninguém batia em nossa porta, saímos para buscar trabalho e comida, e demos conta de que ninguém precisava mais da gente. Todas as casas da vila já tinham suas fossas com as paredes de bambu. Passamos a pedir outros serviços: limpar a casa , cortar o mato, carregar tijolo.
As pessoas começaram a olhar feio. De repente, pedimos que nos dessem alguma comida. Elas se irritaram e passaram a nos xingar e até ameaçar bater, empulhando vassouras. Foi então que voltamos pra casa chorando, de fome, de raiva e de muita tristeza! “Cadê a mãe?” Perguntou o irmão, meu irmãozinho de seis anos, com um olhar molhado. “Eu quero a mãe” ele dizia chorando e apertando o próprio rosto. “Ela abandonou a gente” disse a minha irmã, com ar de muita raiva e sem olhar para ele De repente, ele pareceu indiferente e resignado. Deitou-se no colchão de palha estendido no chão, espaço que a gente dividia para dormir, folear revistas velhas e até para comer , quando havia o que. Ele fechou os olhos, encostou a barriga na parede e pareceu dormir. Nós duas também deitamos
A noite passava e eu, de olhos fechados, não consegui dormir! Percebi que um dos dois se movimentava forte: Com um dos olhos meio aberto, notei que o irmão se apoiava na parede e tentava se levantar, com muito cuidado, para que a gente não acordasse.
Seu corpinho era assustadoramente magro e, por uns poucos segundos, eu fiquei como muita pena, pensando o duro trabalho que tantas vezes ele fazia em seu seis anos de vida. A pena foi trocada pela curiosidade e a fome me bateu forte: vi que ele se levantou e caminhou, com muito cuidado, na direção do armário velho, o único que tinha na casa para guardar comida.
Puxou uma cadeira, subiu em seu assento e tratou de alcançar uma lata posta sobre o armário, que minha mãe usava para guardar farinha.  Lembrei do medo que ele tinha de apanhar da minha irmã e também de mim, por nos desobedecer. E mais uma vez, o sentimento de pena foi esquecido. Escondida e silenciosa vi ele abrir a lata e retirar de lá, dois pedaços de pão, duros e envelhecidos.
 Avancei sobre a cadeira e fiz ele descer, muito assustado. Retirei um pão de dentro da boca dele e outro da mão. A fome fez ele esquecer o medo; reagiu, tentando tomar de volta! Surpresa com a reação, eu cravei minha unha no rosto dele, muito forte e fiz minha mão descer sobre seu rosto. O sangue correu forte sobre o rosto e depois alcançou o pescoço Minha irmã apareceu na nossa frente e, vendo o sangue começou a chorar, desesperada!
Dois pedações de pão, resto, única coisa que minha mãe tinha deixado e uma profunda cicatriz no rosto daquele menininho, meu irmão de seis anos! Madrugada para não esquecer . E se quisesse, não ia dar, que a porta do coração ficou aberta . escancarada, impossível de ser fechada. E doía, sempre. Era a minha cicatriz: a culpa que se misturava com as dores daqueles anos, tristes memorias da nossa infância, em Maribella!
Acordo assustada, os braços espalhados sobre o banco do carro. Ao meu lado, encostado à porta do veículo, o vigia do estacionamento, meio sorridente, meio sem jeito de ter me acordado: “Doutora, a senhora me desculpe, ouvi seu grito e percebi que estava dormindo, acho que teve um pesadelo! Abri a porta, agradeci e caminhei para a recepção do Hospital
Pronto, eu estava de volta para a parte confortável da minha vida O celular tocou, era o meu irmão, que morava com sua esposa a bons quilômetros da minha cidade
 “ Um sentimento forte, que bateu agora, me fez te ligar!”, ele disse.
 E repetiu a sua santa terapia de sempre, que me recompunha por algumas boas horas “Fique tranquila” , fique sempre com Deus” “está tudo bem e assim vai continuar. Está tudo bem! “E nunca se esqueça, que eu gosto muito de você!”

Samba Perdido – Capítulo 30 – parte 02

Aquela rotina foi demais para o sistema. No último dia de Carnaval estava totalmente acabado. Numa rajada de sanidade, resolvi dar uma volta pela cidade para desintoxicar. Eram umas onze da manhã, e fui curtir o sossego das vias coloniais mais afastadas, longe do carnaval. De short e sem camisa, saí explorando a cidade até chegar a uma rua que terminava na subida do viaduto que ligava Olinda a Recife. Não dava para continuar dali, não havia passagem para pedestres. Vendo aquilo como um desafio, alguma força maluca me levou a arriscar uma travessia pela amurada desprotegida.

Sem ter nada em que pudesse segurar, segui pelo concreto estreito que chegava a ficar a uns vinte metros de altura sobre uma avenida movimentada. Qualquer tropeço seria fatal. Nunca tive um bom senso de equilíbrio mas na hora isso não pareceu importar. Olhei em frente e, como um equilibrista numa corda bamba, cheguei ao outro lado. Não estava sob o efeito de nada e nunca consegui entender o que me levou a correr aquele risco. Seriam tendências suicidas? Estava tentando provar alguma coisa a mim mesmo? Excesso de autoconfiança? Ou simplesmente não estava nem aí? Devia havet moleques que faziam isso todo dia.

Cruzei o viaduto sem problemas e desci numa rua calma, também colonial. Na primeira janela aberta, deparei com uma mãe ajudando seu filho com o dever de casa, os dois alheios à minha confusão mental e ao barulho ensurdecedor do trânsito. Meio atonito, parei para olhar, os dois me viram, demos uma encarada intensa, eles talvez com medo do maluco parado na janela e eu tentando entender como aquela cena pacata e racional era possível. Segui em frente me perguntando se havia uma mensagem do universo naquela cena.

Voltei para Olinda de ônibus e assim que desci de volta aos braços do Carnaval que já estava pegando fogo. Fiz uma parada na casa VIP onde as pessoas estavam se preparando para sair num bloco famoso. Como era a saidera, a Australiana ruiva caprichou na tatuagem de verão e meu rosto ficou fantasiado do que estava sentindo. Todos prontos e calibrados, saímos para rua parecendo personagens surrealistas. A maioria foi para o bloco mas prefiri me aventurar sozinho. Não demorou muito para agarrar uma gostosa local e a levar para o parque onde os casais iam. Tinha tido varias, nenhuma tinha a magia quase inocente da Gê, mas deu para matar a saudade.

Quando caiu a noite, fui com ela a um bar encontrar seus amigos que acabei achando caretas demais. Depois que se foram, comecei a conversar com uns caras meio barra pesada da mesa do lado. O papo se tornou bizarro e os dois acabaram me convidando para viajar de graça de navio para Europa levando cocaína. Sentindo aquilo pesado demais, saí fora e voltei para a confusão das ruas onde cruzei com um colega de sala da faculdade. Felizes com a coincidência, saímos abraçados atrás de um bloco. Ficamos na farra até às quatro da manhã. Com as ruas esvaziando, fomos para um bar deserto onde ficamos batendo papo até ele ir embora.

Naquela altura, o céu já estava ameaçando clarear. Era a hora de dar por encerrado o carnaval. No caminho, cruzei com o Betinho, o filho do prefeito, acompanhado de amigos, subindo a ladeira que estava descendo.

Fiquei surpreso quando ele me chamou do outro lado da rua: “Fala carioca! Tu não é o amigo da Dinah?”

“Sou, e aí? Beleza?”

“Tu tinha um nome gringo, não é mesmo? Richard?”

Me aproximei. “Isso mesmo. E aí? Resolveu sair?”

“Pois é, meu irmão, ser anfitrião é um saco!” Deu para sentir que os amigos estavam a fim de me dispensar, mas para contrariar, ele me convidou “E aí? Bora fumar a saideira do Carnaval ali em cima no parque?”

Não ia perder a oportunidade. “Opa! Vambora!”

Pata irritar seus amigos, ele continuou conversando comigo. “E então, carioca, curtiste a festa? Gostaste do Carnaval de Olinda?”

O cansaço não tinha roubado o bom humor. “A parte que me lembro foi demais, a parte que não me lembro deve ter sido melhor ainda.”

Ele deu um sorriso. “Pois é rapaz, todo ano fazemos uma dessas. A gente abre a casa para os outros se divertirem e se diverte com eles.”

Um dos amigos emendou: “Essa festa é uma tradição do Carnaval de Olinda. Merecia entrar no calendário oficial!”

O Betinho, visivelmente cansado da bajulação, voltou a falar comigo. “Carioca, te garanto que tu vai fechar o Carnaval com chave de ouro.” Ele tirou do bolso uma muda ressacada. “Isto aqui é o famoso Manga-rosa. Tirado do pé faz nem uma semana. Meu primo ali me trouxe direto de Cabrobró. Já ouviste falar?”

“Caralho! Manga-rosa! Nunca pensei que fosse experimentar isso na vida!”

Ele passou para eu dar uma olhada. Um outro amigo falou: “Chega até a ser bonito. Dá uma cheirada para sentir. Não existe melhor!”

O cheiro era fortíssimo. “Isso cheira a bagulho bom!”

“E é! Made in Pernambuco!”

Chegamos no topo do parque e nos sentamos numa escadaria de pedra para esperar o sol nascer.

O primo quebrou o silêncio. “Passa aqui pra eu apertar.”

O cara era um artista, saiu perfeito. “Isso também é uma tradição. O Betinho sempre guarda um para agora.”

“É verdade, a gente faz isso desde moleque. Sempre fechamos o Carnaval com um desses para depois sair no Galo da Madrugada.” Tinha ouvido falar no bloco, era o último do Carnaval.

O primo do Betinho passou o baseado para ele acender. Quando chegou em mim, deu uma onda quase tão forte quanto os cogumelos alucinógenos de Mauá e – como toda boa maconha – dois pegas bastavam.

Ficamos ali, sozinhos com a cidade só para nós. Em pouco tempo o horizonte foi alaranjando até o sol aparecer como um círculo brilhante. Ele foi subindo iluminando de leve a natureza à nossa volta. As cores magníficas, o silêncio e a temperatura amena fizeram aquele momento ser perfeito. Relaxando depois de sorver tanta vida, não só no Carnaval mas no verão inteiro, fiquei em estado de graça.

Estávamos em transe quando, do nada, dois estranhos chegaram e se juntaram a nós. Eram mais velhos, nos seus trinta e poucos, um era louro, grande, de cabelos compridos e com ar de surfista e o outro era musculoso, de camiseta de malhador apertada e com um corte de cabelo estilo escovinha.

O cabeludo puxou conversa: “Barbaridade, que visual incrível!”

Estava na cara que ele era gaúcho só que ninguém estava a fim de papo. Ignoramos, mas eles insistiram.

O outro falou em um inglês com sotaque americano, meio agressivo “Diz para eles que a gente sabe que eles estão chapados, mas que estamos muito mais chapados que eles.”

O gaúcho traduziu e depois explicou: “Esse maluco é americano, não fala uma palavra de português.”

Depois de uma pausa, um dos amigos do Betinho respondeu.

“Não existe esta de estar mais ou menos chapado, estamos aqui curtindo a paz do visual.” E completou em inglês. “Aqui todo mundo aqui fala inglês, relaxa.”

O gaúcho continuou em português “Este americano é tri-louco, grudou em mim e agora que tomamos um ácido ele está mais louco ainda.”

Quando o gaúcho mencionou ácido olhamos em sincronia para os dois, mas a vontade de ficar em silêncio continuou. Talvez por se sentir na obrigação de fazer turistas se sentirem bem-vindos na sua cidade, Betinho se tornou nosso porta-voz.

O cara era um político nato. “Curtiram o Carnaval? Did you enjoy the Carnival of Olinda?”

Quem respondeu foi o Gaúcho “Eu venho todo ano passar o Carnaval com a minha irmã que mora em Recife. O Mark aqui está estacionado em uma base militar no Caribe e veio passar as férias.”

O americano ainda nao tinha entendido que todo mundo ali – talvez com a excessão do gaúcho – falava inglês. A palavra Caribe tinha pescado sua atenção ainda que continuasse a achar que não entendíamos o que estava dizendo.

“Caribbean yeah, Guantánamo! ” Bateu nos braços fortes “Sou um Marine, entende?! Adoro armas, combate e mulheres brasileiras. Fala para eles que eu estive no Vietnã! ”

A palavra Guantánamo tinha deixado todo mundo de orelha em pé. Mesmo assim, a presença deles e o papo eram tão fora de contexto que ficou difícil distinguir se aquilo era verdade ou alucinação. De qualquer forma ninguém estava a fim de rebater o cara em inglês naquela altura. Eu é que não ia me meter.

O gaúcho, sem perceber as nuances da situação continuou no papel de intérprete lisérgico: “Não estou dizendo que este americano é doido?! Agora ele inventou que lutou no Vietnã. ”

Pela idade era impossível, como também era muito pouco provável que estivesse estacionado em Guantánamo. Por outro lado, o físico, a atitude e o corte de cabelo pareciam confirmar que se tratasse de um Marine. Novamente, ninguém falou nada torcendo que eles descessem da nossa nuvem o mais rápido possível.

O americano continuou a nos desafiar, acenou com a cabeça, colocou dois dedos para cima e falou num português fraquíssimo: “Sim, dois anos, eu in Vietnam. ”

O gaúcho estava hiperativo. “Liga não, ele é maluco assim mesmo, faz cara feia, inventa histórias e volta e meia se mete em confusão. No fundo é gente boa, mas o melhor é ignorar a figura.”

Aquilo de absurdo virou chato. Deu vontade de ter um controle de televisão para trocar de canal ou uma tecla para baixar o volume ou fazer os dois desaparecerem. O americano finalmente se deu conta de que a gente não estava na mesma onda e disse ao gaúcho: “Hey buddy! Let’s go! ”

O gaúcho traduziu: “Moçada, a gente vai nessa.”

Os dois partiram da mesma maneira que chegaram e aliviaram o ambiente. Ficamos uns quinze minutos sem falar nada. Alguem acendeu o baseado de novo e quando chegou na vez do Betinho, ele interrompeu o silêncio. “Galera, daqui a pouco o Galo da Madrugada vai sair, vamos lá?”

Todo mundo foi, mas resolvi ficar, minha quota de Carnaval já estava pra lá de preenchida. Agradeci e a gente se despediu. Fiquei ali sozinho, apreciando a beleza de Olinda até a lombra passar. Aquelas loucas primeiras horas da manhã em uma cidade histórica no Nordeste brasileiro marcou a minha despedida de uma época especial; um período de minha vida do qual sempre sentirei saudades.

O Pedro, com quem cruzei apenas uma vez durante o Carnaval, tinha conseguido carona na caravana dos amigos da Carla e ia voltar com eles para o Rio. Voltei sozinho e tive sorte de pegar caronas longas. Quando cheguei em Campos, no Estado do Rio, me dei conta de que tinha gasto todo a grana. Como precisava chegar em casa a tempo do início das aulas, pela única vez na vida, pedi dinheiro a estranhos para completar o dinheiro da passagem de ônibus e para comer alguma coisa; uma situação bem distinta da que tinha rolado na casa do Betinho e uma lição importante de humildade.

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Samba Perdido – Capítulo 29

Capítulo 29

 

“Não tenho medo do escuro
Mas deixe as luzes acesas agora."

Tempo Perdido - Renato Russo


Acordamos e percebemos meio sem jeito que os gaúchos tinham voltado e tinham deixado a gente ficar com o quarto. Era cedo, todos estavam dormindo, digerindo a noitada boa. Tomando cuidado para não fazer barulho, continuamos onde tínhamos parado na noite anterior.

Revitalizados, saímos em silêncio e fomos para praia curtir a manhã. Só que na luz do dia, não rolou a felicidade prometida. Quando começamos a nos comunicar por meio de palavras,  descobrimos que éramos incompatíveis. Para ela, eu era um garoto mimado da Zona Sul do Rio de Janeiro, perdido no meio de um exercício de autoconhecimento. Para mim ela era uma menina desinteressante de uma cidadezinha próxima, preocupada em voltar logo para casa porque sua mãe a queria na loja da família naquela tarde. Quando nos despedimos, sabíamos que o relacionamento tinha durado apenas aquela noite. No fim de semana seguinte, a vi andando de mãos dadas com um dos gaúchos. Não me importei. O momento havia sido meu, embora a garota não fosse mais.

Por sua vez, Pedro tinha deixado de ser de muitas e tinha arrumado uma namorada. Carla era uma lourona de farmácia de trinta e muitos anos e marchand no Rio. Junto com a entusiasmo inicial havia o encantamento com a turma dela, possíveis novos companheiros de viagem, que estavam subindo a costa nordestina em caravana. Era um pessoal mais velho, descolado, que trabalhava em jornalismo, publicidade e televisão.

Sem ter como me aproximar deles, sem muito saco para as gauchices dos gaúchos e cansado dos joguetes do Pedro, passei a andar com os músicos e a malucada do artesanato. Mas logo que percebi, tinha entrado num lugar estranho. Por conta de um elitismo que rolava mesmo entre os mochileiros, aquele grupo era tido como o letárgico “clube dos hippies perdedores”. Se tornar parte dele era como ser transferido para a área dos detentos difíceis num sistema penitenciário invisível.

A verdade é que quanto melhor conhecia a galera do circuito de mochileiros no Nordeste, mais percebia que ali não tinha nada de alternativo. Fora os discípulos teleguiados do Rajneesh, ninguém tinha nada a dizer. O negócio era tirar onda. A única diferença entre eles e os caretas de sempre, era a sua crença de que seus cortes de cabelo diferentes e suas roupas transadas os faziam melhores e mais legais do que o resto. Esses eram os  anos oitenta, o início da era do individualismo exacerbado.

De repente isolado num território estranho, mesmo que maravilhoso, me vi inundado por um senso de estranhamento. Havia a contradição de que era para estar contente, aproveitando os melhores dias de minha vida talvez no melhor país do mundo para isso. Do lado de fora havia sol e curtição, mas do lado de dentro a coisa era muito diferente. A tempestade econômica, a carência afetiva, o isolamento, o beco existencial sem saída e o egoísmo como a matéria prima do tecido social faziam chover e às vezes trovejar.

Numa tarde, Pedro e eu nos sentamos na praia para conversar. Ele contou que a coisa estava indo bem entre ele e a Carla mas que não tinha lugar para ele na caravana. Sabiamos que cada um estava procurando coisas diferentes naquela viagem, mas chegamos à conclusão de que apesar daquilo estávamos juntos e seguiríamos com o plano original. Eu iria ter que aturar um hippie de araque se esforçando para parecer descolado para conseguir o que queria, enquanto ele iria ter que engolir com um cara que se julgava um hippie de verdade, mas que havia perdido a noção da realidade.

Dando sequência à aventura, depois de Canoa Quebrada iríamos começar a descer de volta para casa. O Carnaval estava chegando e íamos passá-lo em Olinda. A conversa fez a amizade voltar e depois das brincadeiras de sempre ficamos sem poder esperar pela hora de pular o frevo nas ruas coloniais.

*

Antes de voltar para a terra do melhor carnaval da minha vida, resolvemos parar por alguns dias em Natal. Três dias depois, lá estávamos nós na estrada de novo, mais bronzeados que nunca e de alma lavada depois de um mês e meio sob o sol do Nordeste. Foi muito bom sentir mais uma vez o vento e a liberdade dos caminhões na rodovia.

Natal se mostrou tranquila e maravilhosa. Sendo o ponto mais próximo entre a África e a América do Sul, sua localização era estratégica. A cidade tinha servido como base para navios e aviões americanos durante a segunda Guerra Mundial e ainda havia uma forte presença militar. Talvez por isso foi a cidade mais ordeira que visitamos. O albergue para estudantes foi também o melhor em que ficamos, com quartos modernos, limpos e amplos. Com suas ruas calmas, Natal mostrava o que o Brasil poderia ter sido caso “Ordem e Progresso”, o lema positivista da bandeira brasileira, tivesse sido seguido.

Após duas noites na Casa dos Estudantes fomos acampar na praia da Redinha, na época um lugar quase selvagem do outro lado do rio Potenji, que bordeia a cidade. A areia branca e fina de suas dunas enormes mais tarde faria de lá um dos melhores lugares do mundo para a prática do kitesurf e um cenário ideal para a gravação de vários comerciais de praia, nacionais e internacionais. Por ficar no ponto onde o continente Sul Americano se curva para o oeste, o vento na região era forte e as ondas eram de longe as melhores que vimos na costa nordestina. O problema era que a água era infestada de caravelas, um tipo de água-viva cujos tentáculos causavam uma ardência de dar febre; daí apesar de estarmos doidos para pegar jacaré preferimos ficar na praia bebendo cerveja.

Por causa de sua aura militar, Natal não era bem cotada no circuito mochileiro. Este porém ficou evidente na praia da Redinha onde fora os pescadores nativos e algumas famílias da capital que tinham casas de veraneio ali, não tinha mais ninguém. Apesar de lindíssimo, o agito do lugar era inexistente. De qualquer forma, a experiência deu uma ideia de como deve ter sido explorar a costa Nordestina em gerações anteriores.

*

Não aguentamos a calmaria e voltamos no dia seguinte. O bom daquela pausa foi que caiu como uma férias das férias. Quase não tínhamos se visto em Canoa Quebrada e aproveitamos para colocar as coisas em dia. Entre outros assuntos falamos sobre dinheiro e, para nossa surpresa, descobrimos que havíamos gastado bem menos do que o previsto. Como prêmio pela frugalidade, resolvemos nos dar de presente uma passagem de ônibus até o Recife.

Na manhã seguinte, num raro dia nublado acordei cedo e me ofereci para ir à rodoviária comprar as passagens. Como viajaríamos naquela mesma noite, levei a mochila para já deixá-la no guarda-volumes.

Saí pelas ruas semi desertas achando graça da sensação que causava pelo visual. Na rodoviária, na hora de pagar as passagens a atendente disse que não dava para comprar o bilhete do Pedro porque não estava com sua identidade. Irritado, insisti e ela acabou me aconselhando a tentar pegar uma autorização na delegacia de polícia da estação. Fui lá mas a porta estava trancada. Sem ter nada programado para aquele dia, fiquei esperando alguém chegar. Eram umas onze da manhã e por volta das onze e meia um homem magricelo, de barba por fazer e cabelos grisalhos de uns cinquenta e poucos anos apareceu.

Enquanto tirava as chaves do bolso, perguntei: “O senhor é o delegado da estação?”

O cara me olhou de cima a baixo e respondeu meio seco e estranho. “Sou sim, mas se o senhor quiser falar comigo vai ter que ser lá dentro.”

Pelo bafo dava para sentir que estava bêbado, a ponto de se esforçar para colocar a chave na fechadura. Depois de alguns segundos embaraçosos, finalmente conseguimos entrar. Antes que começasse a explicar o motivo de estar ali, ele me mandou colocar minha mochila na mesa e abrir.

“Abre esta merda agora.”

Sem acreditar no que ouvi e querendo sair logo com a autorização do Pedro concordei.

Enquanto o cara foi jogando as coisas no chão falei serenamente: “Depois que o senhor acabar a revista, posso pedir uma autorização de viagem para o meu amigo? Estou sem a carteira de identidade dele. Por isso vim aqui.”

“Autorização é o caralho, maconheiro!” O cara me empurrou de lado e começou a tirar as coisas, claro sem encontrar nada. Infelizmente – mas felizmente para a ocasião – o veneno de Maceió tinha acabado em Canoa Quebrada. Frustado e com um monte de roupa suja espalhada na mesa e no chão, o cara não desistiu.

“Cadê a porra da maconha?!”

“Eu não fumo isso. Pode procurar à vontade, o senhor não vai achar nada.”

“Ah, e isso daqui?” Ele tirou duas conchas enormes que tinha achado na praia e que ia dar de presente  para minha mãe e para a Dona Isabel.

“Isso aí são conchas.” Já me segurando para não ridicularizar o cara.

Ele deu uma sacudida para ver se caia alguma coisa de dentro delas, mas nem um barulhinho.

“Agora a gente pode falar sobre a autorização de viagem?”

“Aqui não tem autorização de viagem nenhuma.” Ele me deu um olhar torto e desafiador. “Essas conchas estão apreendidas. Vão ficar aqui comigo!”

“Como assim? Aprendidas porquê? O senhor tirou elas da minha mochila, elas são minhas!”

O cara não gostou e começou a tremer de raiva. Aflito, abriu a gaveta para pegar uma coisa. Pensei que fosse minha a autorização, mas não, ele tirou um martelo e colocou a parte de metal próxima à minha orelha.

“Tu é um veado frouxo, ouviu? Eu falei que essas duas conchas são minhas. São ou não são !? ”

Com a adrenalina já jorrando, levantei o tom: “Meu irmão, se acontecer alguma coisa comigo nessa merda, tu tá fodido, meu pai é jornalista da Globo, já ouviu falar? Ele fode você e a polícia inteira dessa rodoviária. E tu vai preso ou no olho da rua! Abaixa essa porra agora e me devolve as conchas, entendeu?”

O cara comprou meu blefe e engolindo a raiva, colocou o martelo de volta na gaveta.

Levantei, coloquei minhas tralhas e as conchas de volta e saí sem nem perguntar como que aquilo ia ficar. Voltei para o guiche para perguntar e a moça era outra. Acabou que a polícia não podia dar a autorização que eu precisava, a primeira menina tinha mentido.

Comprei a minha passagem, voltei para o albergue e deixei que Pedro resolvesse o problema de sua passagem sozinho. Viajamos na mesma noite e chegamos em Recife dois dias antes do Carnaval. Quando descemos do ônibus, do nada encontramos o Mineiro, um amigo de Salvador. Foi uma feliz coincidência porque não tínhamos lugar para ficar e ele estava doido atrás de alguém para rachar o quarto que tinha conseguido em Olinda, algo que todo mundo dizia que era impossível durante aquela época do ano. Quando chegamos, percebemos o tamanho da sorte que demos; nosso quartel general seria a duas quadras da Praça do Carmo, o centro nevrálgico da folia.

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