Das muitas relações entre pessoas, a mais complexa e a mais confusa, certamente, é a relação matrimonial. Porque para todas as outras existe uma estrutura adequada ao conteúdo, mas para a relação matrimonial a estrutura está em desarmonia flagrante com o conteúdo.

 

Os laços de afetividade entre um homem e uma mulher não resistem aos trancos de uma estrutura arcaica e inadequada aos novos tempos, porque simplesmente não houve uma evolução no pensamento e nem uma tomada de consciência matrimonial. Esta relação matrimonial é regida por um conjunto de Leis que, salvo alguns avanços, continua sendo inspirado pelo princípio patriarcal, ou seja, o homem é o chefe da sociedade conjugal, apesar da discutível igualdade determinada pela Constituição Federal (do Brasil) de 1988.

 

E por que esta relação, que é tão simpática de início, que goza da reputação quase santificada, e que, constitucionalmente, é a base da sociedade, fica perdida num labirinto de angústias e aflições?

 

Tudo indica, tanto o conhecimento mítico quanto o histórico, no que respeita à base cultural do Ocidente, isto é, o mundo greco-romano, piorado muitas vezes pelos desdobramentos e obscurantismos medievais, que o homem tem um medo tenebroso da mulher, pois, desde os primórdios da humanidade ela se apresenta, aos seus olhos, como se um demônio fosse.

 

Dois são os motivos básicos de tal medo. Vejamos.

 

O primeiro refere-se àquele sentimento antigo de virilidade e potência masculinas que, obviamente, não podiam ser disfarçadas. A virilidade e a potência sexuais não podiam ser colocadas em xeque. Para os homens antigos e para tantos outros da atualidade, completamente despreparados ou mal influenciados, a situação masculina não pode ser frustrada.

 

Daí porque textos da mitologia grega e, por plágio, romana, apresentam a mulher sexualmente ativa e dominante, aquela que procura o homem e o desafia provocativamente, como inadequada, tendo que ficar em redutos “idealizados”. Não é de causar estranhamento que uma das propostas de Platão era a de constituir-se uma comunidade de mulheres que serviriam unicamente ao propósito de reprodução. Também, entre os gregos e romanos e, outra vez, entre os medievais, a mulher não poderia participar de quaisquer atividades públicas.

 

Não é à toa que o período medieval vai inspirar e influenciar em certa medida todo o movimento romântico europeu, no qual a mulher é vista como deusa ou estrela. Deusa e, assim, intocável. Estrela e, assim, inatingível. Também, não causa estranhamento que os perfis femininos são desenhados e acabados na Idade Média, de um ponto de vista apenas católico, lógico! Ou a mulher é Lilith, a sensual e ativa; ou a mulher é Eva, a pecadora; ou a mulher é Maria, a mãe. Se for uma, conforme esse pensamento medieval, não pode ser outra!

 

É neste ponto que o homem passou a controlar a vida da mulher. A mulher deve ser aquela que ele quiser, a que ele escolher e que ele procurar, pois, assim, ele jamais será frustrado sexualmente. A mulher deve, também, ser aquela a quem o homem possa acusar dos males do mundo. Por isso mesmo, a partir da rejeição mítica de Lilith, a mulher adequada ao homem é Eva: feita a partir do homem e para o homem.

 

Culpada eternamente da maldição divina com o fim da vida edênica, e, igualmente, culpada por ter gerado e dado o nome ao primeiro homicida da Terra: Caim. Como culpada, deverá submeter-se ao homem e aceitar um regime patriarcal de casamento. Deverá abandonar o seu nome e adotar o nome de seu marido (a marca do seu dono). Situação humilhante que só não será pior, porque o homem concederá a ela, do ponto de vista católico, desenvolver uma face singular: a de Maria, a mãe.

 

Obviamente, todas estas leituras acerca da mulher são equivocadas e feitas, não a partir do Tanach, especialmente, Bereshit, na Torá, mas da base grega e romana, pilares da religiosidade medieval. Pois, qualquer que se dobrar em uma leitura atenta da Torá (sem entulhos), verificará que a mulher ali nada tem a ver com os conceitos demonizadores de Lilith, enquanto aquela leitura persa; ou de Eva (a pecadora) ou, ainda, de Maria (a mãe). Esta última, de origem e desenvolvimento greco-romano e católico-protestante.

 

E nem falarei aqui do conceito da mulher muçulmana, ao menos, por agora! Ainda não há uma influência determinante islâmica nas relações jurídico-matrimoniais ocidentais!

 

O segundo motivo é o grau de sensibilidade e inteligência, que na mulher é muitas vezes superior ao do homem.

 

Normalmente, o homem é apenas força bruta e muscular, rispidez e ignorância. E para sustentar a força bruta, está condenado a levantar barras de ferro, cada vez mais pesadas e, igualmente, condenado a comer incessantemente, como um boi diante do cocho. Ao contrário, a mulher para sustentar a sensibilidade e a inteligência, em vez de musculatura, possui um tecido epitelial que capta quaisquer brisas, e, em vez de cocho, está sempre diante de uma mesa artisticamente preparada. O homem é violência pornográfica; a mulher manifestação poética!

 

Assim, considerados esses aspectos, que caracterizam o homem e a mulher, é fácil compreender os conflitos de uma relação matrimonial (que realmente é patriarcal).

 

A estrutura é para o serviço do homem, para atender ao homem, mas não suporta a redescoberta e o renascimento da mulher nestas últimas décadas.

 

Daí os conflitos constantes, inclusive para a própria mulher, posto não haver possibilidade de um diálogo com homens tradicionalmente abobalhados.

 

Isso tudo não suporta uma mulher que se descubra na releitura (não religiosa) da Torá, que perceba os valores e aspectos das  matriarcas e que exija, entre outras coisas, ser tratada como a amada de Shir HaShirim (Cântico dos Cânticos).

 

Porque mesmo aqueles que deveriam, por natureza e estudo, conhecer a natureza feminina, acabam, infelizmente, dentro de um cordão de isolamento que os faz tolos, distantes e ridículos.

 

É preciso que o homem se convença do equívoco na leitura da mulher e dos conceitos em relação a ela, assim como e, principalmente, dos preconceitos.

 

Cabe uma redescoberta criadora de ambientes propícios para o seu desenvolvimento.

 

Refiro-me à redescoberta da mulher pelo homem, não como “algo”, ou uma “coisa”, ou um “espírito”, mas uma pessoa completa. Ou, simplesmente, da descoberta de que ela é gente apenas ao seu lado.

 

 Assim, falta ao homem uma melhor leitura, sobremodo, da Torá, não com olhos greco-romanos, mas “davídicos”!

 

O ponto aqui é a própria sobrevivência do homem, e não da mulher! Porque agora é ela quem deve esperar que o homem saia de sua caverna de idiotice e mediocridade! Afinal, após milênios de patriarcalismo sufocante e religiosidade machista, o resultado é que a mulher reapareceu com todo o seu vigor poético, com toda sua sensibilidade e com toda sua inteligência determinante, e encontrou o homem contemplando e idolatrando, ainda (e por desgraça), os seus próprios órgãos.

© Pietro Nardella-Dellova, Taças quebradas à toa, ou da confusa relação matrimonial (que é patriarcal) in A Morte do Poeta nos Penhascos e Outros Monólogos. São Paulo: Editora Scortecci, 2009, pp. 112-117.

 

Imagem: Cantico delle Anime, di Roberto Ferrri, Italia