No livro de Juízes, capítulo 14, versículo 14, está escrito: “מֵהָאֹכֵל יָצָא מַאֲכָל וּמֵעַז יָצָא מָתוֹק” – Do alimento saiu comida, e do amargo saiu doce.
O massacre realizado pelo Hamas em 07/10/2023 não teve como objetivo a libertação da Palestina, mas sim o genocídio do povo israelense – judeus, muçulmanos, cristãos e drusos. O Hamas acreditava que o Irã, junto com seus proxies Hizbollah, Houthis e falanges iraquianas, atacaria Israel e assim realizaria seu objetivo, descrito em seu manifesto ideológico: a destruição de Israel e a limpeza étnica.
Mas o que isso gerou foi o despertar do trauma do Holocausto no povo judeu em Israel – desde a extrema-direita, o sionismo messiânico, o fundamentalismo judaico e até mesmo o centro-esquerda. Havia consensos em Israel de “Nunca mais”. No dia 08/10/2023 deu-se início à Guerra “Espadas de Ferro”, com o objetivo de libertar os reféns e destruir toda a infraestrutura militar e civil do Hamas.
Mas essa guerra tinha outro objetivo para Bibi Netanyahu, Smotrich (líder do partido Sionismo Religioso Messiânico) e Ben Gvir (líder do partido Otzma Yehudit – Kach). Bibi queria se livrar de sua sentença e garantir sua sobrevivência pessoal e política. Smotrich e Ben Gvir tinham como objetivo o “Transfer” – a limpeza étnica, a anexação de Gaza e da Cisjordânia.
Com a saída do partido de centro Hamachane Hamamlachti (Gantz), Bibi ficou ainda mais dependente de Smotrich e Ben Gvir, levando o governo à extrema-direita messiânica e fundamentalista.
Já em março de 2024 poderíamos ter chegado a um cessar-fogo com o Hamas e à devolução dos reféns. Ben Gvir se orgulha publicamente de ter torpedeado esse acordo. Isso se repetiu em junho e setembro de 2024.
Após a guerra contra o Irã, tínhamos uma possibilidade não só de chegar a um cessar-fogo com o Hamas, mas também de reestruturar todo o Oriente Médio, ampliando os Acordos de Abraão com outros países árabes. Isso implicaria em finalizar a guerra, libertar os reféns, reconstruir Gaza sob domínio da Autoridade Palestina e de outros países árabes, e reconhecer os direitos legítimos do povo palestino a um Estado ao lado do Estado de Israel. Esse processo teria o apoio internacional dos EUA, Europa e países árabes.
Por pressão de Smotrich e Ben Gvir, Bibi reabriu o ataque a Gaza, impediu a ajuda humanitária, levando Gaza à catástrofe final. A fome, as condições de moradia (cidades de barracas), as condições sanitárias e médico-hospitalares levaram à subnutrição e à fome, até o momento sem dados numéricos.
A pressão internacional sobre Israel está levando a Europa à decisão de reconhecer o Estado da Palestina. Macron foi o primeiro, e no momento a Inglaterra ameaçou Israel com esse reconhecimento, principalmente se Israel decidir anexar a Cisjordânia e parte de Gaza.
Os acordos de paz são sempre realizados entre inimigos que, em sua maioria, se odeiam. Sem ir muito longe – Irlanda, Bósnia-Sérvia e muitas outras guerras intra e internacionais terminaram depois de catástrofes e mortes sem fim.
Quero ser otimista e dizer que a catástrofe do massacre de 07/10/2023 e a guerra em Gaza são o cume do conflito entre Israel e Palestina. Em 100 anos de conflito, morreram 50 mil palestinos. Em apenas 2 anos, morreram número igual. Na Guerra de Yom Kipur morreram 2.656 israelenses, 7.251 ficaram feridos e houve 294 reféns, numa guerra contra Egito e Síria. No massacre de 07/10 morreram 1.182 pessoas (779 civis), e outros 890 soldados morreram na Guerra de Gaza, com mais de 6.000 feridos e 251 reféns. Os dois povos estão em trauma – sem comparar quem mais e quem menos. Do lado palestino, 2 milhões foram deslocados de suas casas destruídas. Do lado de Israel, mais de 300 mil pessoas foram deslocadas de suas casas no sul e no norte do país.
Quero ser otimista e acreditar que chegamos ao fundo do poço. 74% do povo em Israel quer o fim da guerra e a libertação dos reféns. Não temos dados estatísticos do lado palestino. Mas, de acordo com as manifestações em Gaza, levo a crer que a população deseja o fim do Hamas e uma nova ordem.
A pergunta não é se vai haver um Estado da Palestina. A pergunta é quando, e que Estado será este?
No dia 09/07/2025, reuniram-se em Beit Jala, Palestina, os 50 membros da Direção Geral de Land for All – 2 States One Homeland, para planejar a estratégia do “dia seguinte”. A Direção Geral é formada por membros da Direção Palestina e da Direção Israelense. O avanço frente à Europa e aos EUA nos últimos dois anos é marcante. A proposta é vista como a alternativa definitiva aos Acordos de Oslo e à proposta tradicional de dois Estados. Anexo todas as conversações que tivemos com governos europeus e americanos.
Ainda não conseguimos entrar no eixo BRICS e na Liga Árabe, o que seria de suma importância para que sejamos uma das possibilidades reais de solução do conflito.
No encontro, me pediram para tentar entrar em contato com o governo brasileiro, que poderia abrir as portas para o BRICS. Comentei sobre a situação difícil em que nos encontramos com as últimas declarações do Presidente Lula. Por outro lado, sigo pensando que o diálogo se faz com aqueles que pensam diferente de nós – mesmo que acreditemos que estejam assumindo uma postura antissemita. Por isso, em minha estadia no Brasil, me reuni com Tenório e com Walid. Me chamaram de “capanga do sionismo”. Posso dizer que, do lado da própria comunidade judaica – da qual fui shaliach e educador, criando marcos educacionais que vingam até hoje em POA – fui chamado de “pior que nazista”. Mas isso não me assusta. Continuarei procurando o caminho do diálogo.
No momento, paraliso todas as minhas atividades para me dedicar a esse chamado do Land for All. Buscar um meio de chegar ao governo do Brasil – e, se possível, ao Lula. Trazer o mais rápido possível as lideranças do movimento para expor ao Presidente e ao Senado a proposta para o fim do conflito.
Para isso, preciso da ajuda de todos aqueles que tenham algum contato com o Itamaraty, com a Casa Civil ou com algum político que possa nos levar ao nosso objetivo.
Para isso, em primeiro lugar, fecharei todos os meus grupos de WhatsApp sobre o conflito e deixarei apenas um: Land for All – Standing Together BR. Não será um grupo de discussão nem de notícias ou opiniões. Será um grupo operativo, cujo objetivo é chegar ao Itamaraty, ao Senado e ao Presidente Lula.