por Richard Klein | 21 fev, 2021 | Brasil, Crônica, Livro
Capítulo 30
"Na Madalena revi teu nome
Na Boa Vista quis te encontrar
Rua do Sol, da Boa Hora
Rua da Aurora, vou caminhar."
Pelas ruas que andei. - Alceu Valença.
Não havia celulares na época, o único contato com nossas famílias era uma ligada semanal que faziamos na telefônica da cidade onde estivéssemos – se houvesse uma -, para assegurar que tudo estava bem. Como de praxe, na quinta feira antes do Carnaval, fomos na de Olinda. Quando sua vez chegou, Pedro fez duas ligações, uma para sua mãe e outra para Carla, sua namorada. Hospedada em um hotel em Fortaleza ela veio com a surpresa de que tinha alugado um apartamento em Boa Viagem, no Recife, e que estava vindo de avião no dia seguinte para passar o Carnaval com ele. O Pedro ficou nas nuvens, mas para mim a notícia de que passaria o Carnaval sozinho me deixou puto. Só que no final o resultado foi muito melhor do que podia imaginar.
Para compensar o furo, Pedro me deu o contato da Dinah, uma jornalista que havia conhecido em Porto Seguro. Sua amiga estava hospedada na casa do – nada mais nada menos – filho do prefeito de Olinda. Depois que saiu sem graça com suas tralhas do quarto, fiquei olhando para a porcaria do papelzinho com o número, pensando se ligava ou não. Só a conhecia de vista, com certeza ia me mandar pastar assim que atendesse. De qualquer forma arrisquei e fui para o orelhão da esquina, Quando atendeu, para minha surpesa, a Dinah me tratou como se fossemos amigos de longa data.
Ela ja estava sabendo “Richard! Claro que me lembro! Quer dizer que o Pedro, aquele galinha, vai passar o Carnaval no bem-bom e te deixou na mão.”
Simpaticíssima, me convidou para passar o Carnaval com ela. “Olha, o pessoal está se encontrando todo dia aqui na casa do Betinho Magalhães. O Pedro te falou quem ele é? Pois é! Por que você não aparece hoje à noite para eu te apresentar ao pessoal? Você vai adorar!”
Fiquei sem jeito de aceitar, mas na sexta feira a noite, inicio do carnaval, não dava para recusar. Anotei o endereço e mais tarde fui encontrá-la do lado de fora da propriedade VIP.
Quando cheguei, a Dinah já estava me esperando do lado de fora. Depois dos beijinhos na bochecha, foi falar com os seguranças que liberaram minha entrada. Lá dentro, pendurada no meu braço ela disse: “Já te arrumei um crachá, querido, este vai ser um Carnaval que você não vai esquecer nunca, o Pedro se deu mal!”
Dinah era uma mulata baixinha e troncuda. Não era das mais bonitas, mas pegaria tranquilo. Contudo, senti que não havia qualquer tipo de atração da parte dela e que estava fazando aquilo por ser genuinamente gente boa. Minha gratidão era imensa.
Animada, ela me deu um tour da casa antiga, imponente e bem conservada. Nos salões, nos jardins e nos corredores haviam convidados numa sofisticação incompatível com os festejos bombando nas ruas. Garçons andavam de um lado para o outro servindo bebidas e canapés. Para quem quisesse algo mais substancial, havia um buffet generoso de comidas frias e quentes com pratos e talheres de primeira linha para consumi-las. A mesa era enorme de madeira talhada e ficava numa sala colonial que parecia uma sala de museu.
Teminamos num saguão cheio de gente graúda, pessoas de fora e de estrangeiros, todos bem mais velhos, vestidos com estilo e conversando com compostura. Ninguém estava de terno por ser o Carnaval, mas estavam todos muito bem vestidos. Preocupado em não fazer a Dinah se arrepender do convite, tinha colocado uma roupa convencional, não era chique mas também não era a de hippie afrescalhado. Circulamos entre os convidados e enturmada, ela saiu me apresentando a todos. “Oi, este é um amigo do Rio, Richard. É filho de ingleses, músico, estudante de Economia e muito legal!”
As socializacões com os recém-apresentados não duravam muito, mas eram educadamente simpáticas. Ela chegou até a me apresentar ao Betinho, o dono da festa que pareceu ter ido com a minha cara.
Depois das apresentações, Dinah foi conversar com um cara por quem achei que estivesse interessada. Sem querer dar uma da mala e ficar na aba dela, pedi licença e fui dar uma volta na festa. Não pude deixar de pensar que aquele lugar e aquela gente seriam o paraíso para o Pedro. Apesar da estranha espécie de justiça divina, estava mais preocupado em curtir a folia nas ruas do que me enturmar naquela festa que prometia ser chata. Na pior das hipóteses, ia comer e beber bem e de graça antes de colocar o pé na jaca. Depois de uns dez minutos, já a ponto de ir embora, fui percebendo que além da fartura de bebidas – whisky, caipirinha, gin com tônica e cerveja – quase indiscretamente, estava rolando de tudo em termos de drogas: tinha gente nos cantos oferecendo lenços com lança-perfume, rodas de cocaína em alguns quartos e o quintal estava fedendo a maconha excelente. Escutei, inclusive, alguem dizer que tinha alguém distribuindo LSD.
Curtindo mais as possibilidades, fui percebendo que motivo da aparencia formal é que depois de se chaparem, a galera mais doida saía para o Carnaval na rua. Quem ficava na casa eram os caretas e os coroas.
Continuei na minha exploração e apos descolar uns pegas numa roda, achei num dos cantos do jardim um grupo de espanhóis que pareciam ter um estilo parecido com o meu. Como eu, estavam um tanto desconfortáveis em meio àquela bizarrice sofisticada. Cheguei junto e puxei papo em um portunhol terrível com um deles que repondeu com simpatia. Conforme os garçons foram enchendo nossos copos com doses generosas de whisky, fomos ficando mais desinibidos.
“Mira, conoces el dueño de esta fiesta?”
“Mais ou menos, soy convidado de uma convidada, compreendes? e ustedes?”
“Hombre, somos nadie, dissimos que trabajamos en el consulado y nos deran permisso. Que tontos!”
Cai na gargalhada.
“Sabes quien es el dueño?” Me perguntou um outro.
“Es el filho do prefeito de Olinda, entiende? Hijo del prefecto!?”
“Ah si, hijo del alcaide! Hoder! Que loco!” O Espanhol virou para os amigos para contar o que tinha acabado de ouvir.
Ficaram espantados e acharam engraçado ao mesmo tempo. Uma garota, bonita, falou: “Puta madre! La casa ni es del alcalde, es de su hijo! Como tienen plata estos cabrones!”
Já amigos, quando nos sentimos calibrados para a folia saimos da festa e fomos nos juntar à massa nas ruas já tomadas pelos blocos. Como a maioria dos outros convidados, a gente só voltava de vez em quando para um “pit stop”.
*
A festa durava o carnaval inteiro. Tinha perdido a Dinah de vista, mas com carta branca para entrar e sair na hora que quisesse, minha rotina não poderia ser mais estranha. Acordava no quarto alugado, que apesar da localização privilegiada mais parecia o de um barraco, e ía para uma das melhores casas da cidade para tomar café e “fazer a cabeça”. Podia chegar na hora que quizesse já que buffet do café de manha ficava à disposição até as duas da tarde. Depois dele, ficava conversando com aquela turma interessante e amiga de verdade. Por volta das quatro da tarde saíamos todos para pular um dos melhores carnavais do mundo. Havia duas meninas Australianas que curtiam pintar as caras dos outros e por isso saíamos para a rua parecendo a turma do Batman.
Lá fora, nos dipersávamos, nos encontrando ocasionalmente na confusão ou quando retornávamos para fazer os reabastecimentos necessários. No carnaval, a qualquer hora do dia, as ruas ficavam abarrotadas de gente de todas as classes sociais, cores e provêniencias consumidas pela loucura coletiva do frevo. O tempo todo me esbarrava com conhecidos; gente das várias paradas no litoral, amigos do Rio, os espanhóis do casarão, enfim com todo mundo menos o Pedro, que sumiu e não estava fazendo falta nenhuma, e a Dinah que devia estar curtindo um romance cm o cara da festa. Longe dos blues existenciais de Canoa Quebrada, me perdia naquela doideira e ficava até o amanhecer para depois voltar, tal como Cinderela, ao covil miserável onde tirava algumas horas de sono.
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por Mauro Nadvorny | 19 fev, 2021 | Crônica
Sempre gostei de árvores, sou dos tempos em que as crianças subiam em árvores. Era emocionante ver o mundo de cima, viver um mundo imaginário de alegria. Olhar e não ser visto, com uma visão mais ampla da rua, das casas, pessoas e cachorros. Às vezes, escutava algum chato dizer um “desce daí menino, vais cair”. Tive queda sim, mas não de árvore. Entretanto, não prestava atenção nas plantas, não era comum nas casas, a não ser na casa da madrinha. Descobri as plantas, as flores, quando comecei a trocar olhares com uma alamanda amarela, na casa de Petrópolis. As flores estavam bem na entrada, portanto, ao sair e voltar para casa, era ela quem sempre estava lá, irradiando beleza nas separações. Era um arbusto antigo, tinha um caule espesso, que floria da primavera ao inverno.
Allamanda cathartica é o nome científico da alamanda que é original do Brasil. Há diversas cores: roxa, branca, rosa, mas a mais comum é a cor amarela. A relação com as plantas, assim como com os animais, são experiências de vida, de acompanhar o crescimento, os diferentes períodos que passam. Cuidar de plantas não é difícil, requer atenção, cuidado com a água, nem muita, nem pouca, inverno e verão são diferentes, e tem os adubos, claro. Gosto de passar a mão nelas, como se fosse um carinho. Entrar numa casa com plantas, ou em outros espaços, gera boas emoções. Já vi plantas em áreas de serviço minúsculas, com floreiras de temperos que dão odores e temperam os amores.
Após uns quatro anos nessa casa meio mágica, ocorreu um desastre. Um dia teve uma forte tempestade e quebrou o tronco da velha alamanda, e vê-la no chão foi doloroso. Busquei ver se poderia nascer algo do que sobrou do arbusto, mas o tronco quebrou quase na altura da terra, tinha apodrecido. Ou sofreu algum ataque ou morreu porque era a hora mesmo. Não ter mais as flores amarelas na chegada e na saída de casa não seria agradável, e então busquei uma solução. No dia seguinte à morte da alamanda, fui numa floricultura para comprar duas mudas para plantar em dois canteiros. Imaginei que após um ou dois anos as plantas cresceriam e se uniriam. Pelas dúvidas, plantei duas, se uma tivesse problema, teria a outra, mas felizmente ambas estão firmes, fortes e florindo até hoje. Guimarães Rosa exaltou as flores e as plantas. “…esse jardim é o meu?” “Não. O seu virá, quando amar” ou “São muitos e milhões de jardins, e todos os jardins se falam”.
De todas as cores de alamanda, logo casei com a amarela, um amor à primeira vista. Muitas possibilidades, mas uma tem a ver com um estribilho aprendido de piá. “Quando eu morrer, não quero choro, nem vela, quero uma fita amarela gravada com o nome dela”. Tardei em saber que a música é a “Fita Amarela” de Noel Rosa e quem cantava era Nelson Gonçalves. Memorizei as frases sem entender, mas gostei da rima, da música em que o amor foi aclamado. Talvez quisesse saber quem seria Ela, a da fita amarela, que só o seu nome gravado na fita, daria vivacidade à um homem. Ela foi o elo de união entre a casa, a árvore, e a alamanda amarela.
por Mauro Nadvorny | 15 fev, 2021 | Crônica
O canto do galo, o mugido da vaca, a nhaca de estercos variados, todos viraram patrimônio. Acham que é piada de carnaval? Pois o Parlamento francês aprovou uma lei que protege os sons e odores do campo, chamados de “patrimônio sensorial”. Os senhores parlamentares previnem, dessa maneira, curiosas batalhas judiciais, como a que envolveu vizinhos numa ilhota na costa atlântica da França. Um deles reclamou contra o canto matutino do galo. Fico imaginando o que seria deste pobre camponês se morasse, por exemplo, na bucólica avenida Brasil, porta de entrada do Rio, com seus idílicos tiroteios, sua invencível poluição sonora, sua paciente decadência. Mon dieu!
Os sons do silêncio estão especialmente vivos neste carnaval cancelado. Esta é, tradicionalmente, uma época infernal para quem não é da fuzarca. Ficar quieto beira a heresia para os que se esbaldam por aí, fantasiados de quem não são, alegres com data de validade e por decreto monárquico. Sem os estribilhos dos bebuns, os blocos de bexigas soltas, os acordes desafinados de zé pereiras, posso sentir a brisa suave dos meus silêncios. Sem culpa. E quem são eles?
Há o recolhimento plataforma, aquele amplo, generoso, que antecede uma súbita inspiração ou a conclusão de um processo criativo. Uma boa história, narrada pelo Ruy Castro, descreve bem isso. João Gilberto, na fase anterior à Bossa Nova, passou temporadas em várias cidades, polindo canções e acordes que ainda não tinham nome nem método. Sempre na pindaíba. Numa delas, em Juazeiro, sua terra natal, os pais acharam que seu comportamento reservado era “estranho”. Concluíram, bem ao gosto da época, que devia estar com algum transtorno psiquiátrico e resolveram interná-lo numa clínica de Salvador.
João aproveitou o tempo para uma pacificação interna. Um dia, olhando o horizonte, comentou com a psicóloga:
“Olha o vento descabelando as árvores …”
“Mas árvores não têm cabelo, João”, observou a doutora, querendo, talvez, pegá-lo numa encruzilhada inconsciente.
“E há pessoas que não têm poesia”, arrematou João, impiedoso.
Poucos anos depois, o “estranho” consagrou uma batida que revolucionou a música brasileira. Precisava do silêncio grávido de mudanças.
Que tal o silêncio resistência? A arte de calar, irmã da arte de escutar, pode ser arma insinuante. Quando fui dispensado de servir o Exército, os milicos marcaram uma cerimônia de juramento à bandeira, no Passeio Público. Na hora marcada, um oficial, engomado pela obediência cega, deu início ao ritual. Repitam comigo: juro isso, juro aquilo. Sem ver o menor sentido naquelas palavras, me calei. Preferi a companhia das rãs que, alheias ao burburinho, pulavam despreocupadas entre nossas pernas. Sábias batráquias.
Quem tem certa quilometragem há de lembrar do livro infantil Pinote, o fracote, e Janjão, o fortão. O garoto mandão tiranizava os amigos, impondo, com intimidação muscular, sua vontade. Era o dono da bola, dos destinos, dos risos das piadas sem graça. Até que Pinote, um magrela esperto, descobriu seu ponto fraco. O Tarzan mirim não podia controlar, muito menos dominar, o pensamento dos outros. Em silêncio, qualquer um podia criar um mundo sem opressão, onde o fortão não existia. Foi a senha para desestruturar o reino da violência. O menino de maus bofes desmontou. Não há como algemar o pensamento.
Calar não é estar só. Neste mundo de aparências, quanta gente mimetiza a música The sound of silence? Tagarela sem falar, ouve sem escutar. No surpreendente tríduo momesco esbórnia free, sinto falta dos bons interlocutores, aqueles que não se limitam ao “e aí, tudo bem?”, mas perguntam pelo calo de estimação, pela dor na alma, pela ideia genial que nunca sai do papel. Mercadoria escassa. Que fazer? Esperar o retorno da “vida ao vivo”, que permite escolher os necessários momentos de silêncio, sabendo que se pode rompê-lo sem trauma. C’est la vie.
Abraço. E coragem.
por Richard Klein | 14 fev, 2021 | Brasil, Conto, Crônica
Capítulo 29
“Não tenho medo do escuro
Mas deixe as luzes acesas agora."
Tempo Perdido - Renato Russo
Acordamos e percebemos meio sem jeito que os gaúchos tinham voltado e tinham deixado a gente ficar com o quarto. Era cedo, todos estavam dormindo, digerindo a noitada boa. Tomando cuidado para não fazer barulho, continuamos onde tínhamos parado na noite anterior.
Revitalizados, saímos em silêncio e fomos para praia curtir a manhã. Só que na luz do dia, não rolou a felicidade prometida. Quando começamos a nos comunicar por meio de palavras, descobrimos que éramos incompatíveis. Para ela, eu era um garoto mimado da Zona Sul do Rio de Janeiro, perdido no meio de um exercício de autoconhecimento. Para mim ela era uma menina desinteressante de uma cidadezinha próxima, preocupada em voltar logo para casa porque sua mãe a queria na loja da família naquela tarde. Quando nos despedimos, sabíamos que o relacionamento tinha durado apenas aquela noite. No fim de semana seguinte, a vi andando de mãos dadas com um dos gaúchos. Não me importei. O momento havia sido meu, embora a garota não fosse mais.
Por sua vez, Pedro tinha deixado de ser de muitas e tinha arrumado uma namorada. Carla era uma lourona de farmácia de trinta e muitos anos e marchand no Rio. Junto com a entusiasmo inicial havia o encantamento com a turma dela, possíveis novos companheiros de viagem, que estavam subindo a costa nordestina em caravana. Era um pessoal mais velho, descolado, que trabalhava em jornalismo, publicidade e televisão.
Sem ter como me aproximar deles, sem muito saco para as gauchices dos gaúchos e cansado dos joguetes do Pedro, passei a andar com os músicos e a malucada do artesanato. Mas logo que percebi, tinha entrado num lugar estranho. Por conta de um elitismo que rolava mesmo entre os mochileiros, aquele grupo era tido como o letárgico “clube dos hippies perdedores”. Se tornar parte dele era como ser transferido para a área dos detentos difíceis num sistema penitenciário invisível.
A verdade é que quanto melhor conhecia a galera do circuito de mochileiros no Nordeste, mais percebia que ali não tinha nada de alternativo. Fora os discípulos teleguiados do Rajneesh, ninguém tinha nada a dizer. O negócio era tirar onda. A única diferença entre eles e os caretas de sempre, era a sua crença de que seus cortes de cabelo diferentes e suas roupas transadas os faziam melhores e mais legais do que o resto. Esses eram os anos oitenta, o início da era do individualismo exacerbado.
De repente isolado num território estranho, mesmo que maravilhoso, me vi inundado por um senso de estranhamento. Havia a contradição de que era para estar contente, aproveitando os melhores dias de minha vida talvez no melhor país do mundo para isso. Do lado de fora havia sol e curtição, mas do lado de dentro a coisa era muito diferente. A tempestade econômica, a carência afetiva, o isolamento, o beco existencial sem saída e o egoísmo como a matéria prima do tecido social faziam chover e às vezes trovejar.
Numa tarde, Pedro e eu nos sentamos na praia para conversar. Ele contou que a coisa estava indo bem entre ele e a Carla mas que não tinha lugar para ele na caravana. Sabiamos que cada um estava procurando coisas diferentes naquela viagem, mas chegamos à conclusão de que apesar daquilo estávamos juntos e seguiríamos com o plano original. Eu iria ter que aturar um hippie de araque se esforçando para parecer descolado para conseguir o que queria, enquanto ele iria ter que engolir com um cara que se julgava um hippie de verdade, mas que havia perdido a noção da realidade.
Dando sequência à aventura, depois de Canoa Quebrada iríamos começar a descer de volta para casa. O Carnaval estava chegando e íamos passá-lo em Olinda. A conversa fez a amizade voltar e depois das brincadeiras de sempre ficamos sem poder esperar pela hora de pular o frevo nas ruas coloniais.
*
Antes de voltar para a terra do melhor carnaval da minha vida, resolvemos parar por alguns dias em Natal. Três dias depois, lá estávamos nós na estrada de novo, mais bronzeados que nunca e de alma lavada depois de um mês e meio sob o sol do Nordeste. Foi muito bom sentir mais uma vez o vento e a liberdade dos caminhões na rodovia.
Natal se mostrou tranquila e maravilhosa. Sendo o ponto mais próximo entre a África e a América do Sul, sua localização era estratégica. A cidade tinha servido como base para navios e aviões americanos durante a segunda Guerra Mundial e ainda havia uma forte presença militar. Talvez por isso foi a cidade mais ordeira que visitamos. O albergue para estudantes foi também o melhor em que ficamos, com quartos modernos, limpos e amplos. Com suas ruas calmas, Natal mostrava o que o Brasil poderia ter sido caso “Ordem e Progresso”, o lema positivista da bandeira brasileira, tivesse sido seguido.
Após duas noites na Casa dos Estudantes fomos acampar na praia da Redinha, na época um lugar quase selvagem do outro lado do rio Potenji, que bordeia a cidade. A areia branca e fina de suas dunas enormes mais tarde faria de lá um dos melhores lugares do mundo para a prática do kitesurf e um cenário ideal para a gravação de vários comerciais de praia, nacionais e internacionais. Por ficar no ponto onde o continente Sul Americano se curva para o oeste, o vento na região era forte e as ondas eram de longe as melhores que vimos na costa nordestina. O problema era que a água era infestada de caravelas, um tipo de água-viva cujos tentáculos causavam uma ardência de dar febre; daí apesar de estarmos doidos para pegar jacaré preferimos ficar na praia bebendo cerveja.
Por causa de sua aura militar, Natal não era bem cotada no circuito mochileiro. Este porém ficou evidente na praia da Redinha onde fora os pescadores nativos e algumas famílias da capital que tinham casas de veraneio ali, não tinha mais ninguém. Apesar de lindíssimo, o agito do lugar era inexistente. De qualquer forma, a experiência deu uma ideia de como deve ter sido explorar a costa Nordestina em gerações anteriores.
*
Não aguentamos a calmaria e voltamos no dia seguinte. O bom daquela pausa foi que caiu como uma férias das férias. Quase não tínhamos se visto em Canoa Quebrada e aproveitamos para colocar as coisas em dia. Entre outros assuntos falamos sobre dinheiro e, para nossa surpresa, descobrimos que havíamos gastado bem menos do que o previsto. Como prêmio pela frugalidade, resolvemos nos dar de presente uma passagem de ônibus até o Recife.
Na manhã seguinte, num raro dia nublado acordei cedo e me ofereci para ir à rodoviária comprar as passagens. Como viajaríamos naquela mesma noite, levei a mochila para já deixá-la no guarda-volumes.
Saí pelas ruas semi desertas achando graça da sensação que causava pelo visual. Na rodoviária, na hora de pagar as passagens a atendente disse que não dava para comprar o bilhete do Pedro porque não estava com sua identidade. Irritado, insisti e ela acabou me aconselhando a tentar pegar uma autorização na delegacia de polícia da estação. Fui lá mas a porta estava trancada. Sem ter nada programado para aquele dia, fiquei esperando alguém chegar. Eram umas onze da manhã e por volta das onze e meia um homem magricelo, de barba por fazer e cabelos grisalhos de uns cinquenta e poucos anos apareceu.
Enquanto tirava as chaves do bolso, perguntei: “O senhor é o delegado da estação?”
O cara me olhou de cima a baixo e respondeu meio seco e estranho. “Sou sim, mas se o senhor quiser falar comigo vai ter que ser lá dentro.”
Pelo bafo dava para sentir que estava bêbado, a ponto de se esforçar para colocar a chave na fechadura. Depois de alguns segundos embaraçosos, finalmente conseguimos entrar. Antes que começasse a explicar o motivo de estar ali, ele me mandou colocar minha mochila na mesa e abrir.
“Abre esta merda agora.”
Sem acreditar no que ouvi e querendo sair logo com a autorização do Pedro concordei.
Enquanto o cara foi jogando as coisas no chão falei serenamente: “Depois que o senhor acabar a revista, posso pedir uma autorização de viagem para o meu amigo? Estou sem a carteira de identidade dele. Por isso vim aqui.”
“Autorização é o caralho, maconheiro!” O cara me empurrou de lado e começou a tirar as coisas, claro sem encontrar nada. Infelizmente – mas felizmente para a ocasião – o veneno de Maceió tinha acabado em Canoa Quebrada. Frustado e com um monte de roupa suja espalhada na mesa e no chão, o cara não desistiu.
“Cadê a porra da maconha?!”
“Eu não fumo isso. Pode procurar à vontade, o senhor não vai achar nada.”
“Ah, e isso daqui?” Ele tirou duas conchas enormes que tinha achado na praia e que ia dar de presente para minha mãe e para a Dona Isabel.
“Isso aí são conchas.” Já me segurando para não ridicularizar o cara.
Ele deu uma sacudida para ver se caia alguma coisa de dentro delas, mas nem um barulhinho.
“Agora a gente pode falar sobre a autorização de viagem?”
“Aqui não tem autorização de viagem nenhuma.” Ele me deu um olhar torto e desafiador. “Essas conchas estão apreendidas. Vão ficar aqui comigo!”
“Como assim? Aprendidas porquê? O senhor tirou elas da minha mochila, elas são minhas!”
O cara não gostou e começou a tremer de raiva. Aflito, abriu a gaveta para pegar uma coisa. Pensei que fosse minha a autorização, mas não, ele tirou um martelo e colocou a parte de metal próxima à minha orelha.
“Tu é um veado frouxo, ouviu? Eu falei que essas duas conchas são minhas. São ou não são !? ”
Com a adrenalina já jorrando, levantei o tom: “Meu irmão, se acontecer alguma coisa comigo nessa merda, tu tá fodido, meu pai é jornalista da Globo, já ouviu falar? Ele fode você e a polícia inteira dessa rodoviária. E tu vai preso ou no olho da rua! Abaixa essa porra agora e me devolve as conchas, entendeu?”
O cara comprou meu blefe e engolindo a raiva, colocou o martelo de volta na gaveta.
Levantei, coloquei minhas tralhas e as conchas de volta e saí sem nem perguntar como que aquilo ia ficar. Voltei para o guiche para perguntar e a moça era outra. Acabou que a polícia não podia dar a autorização que eu precisava, a primeira menina tinha mentido.
Comprei a minha passagem, voltei para o albergue e deixei que Pedro resolvesse o problema de sua passagem sozinho. Viajamos na mesma noite e chegamos em Recife dois dias antes do Carnaval. Quando descemos do ônibus, do nada encontramos o Mineiro, um amigo de Salvador. Foi uma feliz coincidência porque não tínhamos lugar para ficar e ele estava doido atrás de alguém para rachar o quarto que tinha conseguido em Olinda, algo que todo mundo dizia que era impossível durante aquela época do ano. Quando chegamos, percebemos o tamanho da sorte que demos; nosso quartel general seria a duas quadras da Praça do Carmo, o centro nevrálgico da folia.
…
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por Mauro Nadvorny | 12 fev, 2021 | Crônica
Pensei em pôr uma palavra ao lado de solidão no título, para diminuir sua solidão, e a minha. Entretanto, percebi que a palavra desejava ficar só, a solidão é a essência da condição humana. Em tempos de pandemia cresceram as solidões –há diferentes formas de solidão–, caminhamos por novos labirintos com encruzilhadas desconhecidas. Um exemplo, entre tantos, é a psicanálise pelo celular, impossível imaginar essa possibilidade antes da pandemia. A vida está sofrendo uma metamorfose, enfrentando novos desafios. Estamos com medo de nos aproximar, o isolamento é recomendado e as relações humanas se ressentem. Saudades das conversas presenciais, dos abraços e beijos, de se encontrar no teatro ou no cinema.
A solidão tem história, e o livro “História da solidão e dos solitários”, de George Minois, começa nos primórdios da humanidade. Não havia solidão, pois todos viviam em grupos, tribos, para se defender dos perigos da vida selvagem. Depois o homem antigo ficou preso a uma rede fechada de instituições sem espaço para o isolamento. Assim ocorreu na civilização greco-romana, e foi Sêneca um dos primeiros a valorizar a solidão. Já nas artes tem personagens solitários como Odisseu, Édipo, Electra. Entretanto, foi Francisco Petrarca em 1346 quem se isolou para escrever poesias, cartas e seu famoso tratado sobre a solidão. Depois Montaigne, nos “Ensaios”, tem um capítulo para elogiar o solitário, como ele foi, mas também escreveu que a melhor arte era a de conversar.
O livro de Minois segue até o século XX, o século da multidão, também foi definido como o da multidão solitária. Em “Mal estar na Cultura” Freud faz referência ao eremita, que se isola do mundo, a solidão narcisista. Também há a fobia social, as reações paranoides, em todas há certo recuo narcísico diante de uma angústia ameaçadora. Tem a capacidade de estar só sem sentir-se desamparado, ou a possibilidade da ausência, como segurança da presença, na brincadeira do ausente/presente, do Fort/Da.
O sentimento agudo de solidão pode desencadear situações de raiva, abatimento, com saídas agressivas. Há uma tensão entre a solidão e a reconciliação com os vínculos amorosos. Assim como há muitos solitários que sofrem, há os solitários que aprendem a conviver consigo mesmos, e assim se transformam. Há uma outra forma de solidão na História, vivida por um povo ou uma raça vítimas do preconceito e do racismo. Ocorreu na escravidão e ocorre ainda aqui com os negros, índios e pobres. O escritor Garcia Márquez, ao receber o Nobel da literatura falou do “Nó da nossa solidão”, como a solidão social, porque há governos que atacam os mais fracos.
Agora atacam a vacina como se torcessem pela morte, é a política da morte, é quando forças com diferentes armas desprezam a guerra contra o vírus. Os efeitos da solidão podem se estender ninguém sairá ileso da pandemia, o alívio é o caminho da poesia e a busca da reconciliação. Em “A dupla chama: amor e erotismo”, Octavio Paz escreveu: “O amor não é grande nem pequeno, não é o tempo do calendário, e dos relógios, é a percepção de todos os tempos num só, de todas as vidas num instante. É a reconciliação com a totalidade que é o mundo, um estado que nos reconcilia com o exílio do paraíso”. Hoje o País vive um dos seus piores infernos, e ainda assim, a gente busca a reconciliação com a nossa frágil humanidade.
Um velho plantava, calmamente, uma árvore, quando um arrogante passou e ironizou o velho. Disse que ele era um tolo, nunca veria a árvore crescer, pois estava próximo a morte. O homem seguiu plantando, calmamente, e disse, sem levantar os olhos: “Quando vim ao mundo já havia muitas árvores plantadas aqui, e essa que planto ficará para os que vão nascer”.
por Mauro Nadvorny | 8 fev, 2021 | Crônica
Numa dessas zapeadas vadias, tão comuns em tempos de pandemia, tive o prazer de rever Eles não usam black-tie, obra-prima de Gianfrancesco Guarnieri. Conforme a história evoluía, eu a associava a outro texto primoroso: Rasga coração, do Oduvaldo Vianna Filho. Em ambos, organicamente politizados, há uma ruptura familiar, ou melhor, o rompimento do pai com o filho. No caso do primeiro, cuja ação se passa em torno de uma pequena metalúrgica em São Paulo, o pai é um militante sindical que não admite a ação fura-greve do filho. Depois de ásperas discussões, o filho é expulso de casa e, de quebra, rejeitado pela namorada, grávida dele. A fronteira de um respeito inegociável tinha sido violada.
Em Rasga coração, o protagonista Manguari Pistolão, também um militante e espécie de alter ego do Vianninha, tenta dialogar com o filho Luca, versão radicalizada da geração hippie. Em vão. Luca rejeita, com vizinhanças de deboche, a forma como o pai se inseria no seu tempo. Cria seu próprio mundo, paralelo, onde o “novo” já estaria instalado. As posições colidem dramaticamente até o diálogo final, quando Vianninha, pela voz de Manguari, diz que “nem tudo o que é novo é revolucionário”, que revolucionário é ele, sem pirotecnia, que mergulha na realidade para ter condições de transformá-la. A ruptura é inevitável, Luca é expulso de casa.
Pode parecer que esta associação tenha vindo por conta das muitas guerras familiares que emergiram em 2018. Relações afetuosas que se dissolveram ou enfraqueceram, identidades que implodiram, diálogos interditados, adultos renunciando a histórias de vida e trocando de mal. É possível, o inconsciente é soberano. No entanto, o sujeito oculto está lá atrás, nos anos 1950.
Naquela época, foi muito popular o seriado de TV Papai sabe tudo (Father knows best). Pequenas histórias ingênuas, centradas numa típica família norte-americana de classe média. O pai bonachão, provedor do sustento de todos. A mãe, sempre muito feliz, acomodada no papel de administradora da casa. As crianças, sorriso Kolynos engessado no rosto, jamais entravam em conflito com os adultos. Um universo edulcorado, cada macaco no seu galho e satisfeito com as bananas disponíveis. E a gente vivendo uma realidade que não combinava com aquilo.
Há um conto da Clarice Lispector, Feliz aniversário, que desenha com tintas rascantes um encontro familiar. Acho que ninguém sai ileso duma leitura dessas. As diferenças, escondidas atrás de convenções, arrombam a porta e se mostram por inteiro. O resultado não é nada agradável. No fundo, penso que Clarice reforça a visão de que relações verdadeiras não devem se prender a aparências.
Minha geração, e não só ela, cresceu sob o espectro do seriado americano. Violência, especialmente a psicológica, nunca foi uma questão conversável. Afetos estavam enquadrados na imagem idealizada dos núcleos familiares. Fugir daquilo provocava culpa e desorientação. Como na vez em que o Menino se recusou a visitar um tio doente, com o qual quase não tinha contato. Foi apenas sincero. Rasgou o manual de boa conduta. Ainda lembro das discussões dos Grandes quando a Mãe decidiu “trabalhar fora”, ou seja, deixar de ser apenas uma retaguarda e ter voz ativa. Na época, isso podia dar demissão por justa causa. A família sempre foi um organismo em movimento, carregado de contradições e, não raro, à beira de ataques de nervos. O marketing anunciava um produto – a harmonia perpétua – que não existia.
Não há amor automático. Razão tinha Gentil Cardoso: “Quem se desloca recebe, quem pede tem preferência”. Em qualquer relação saudável, o movimento é vital. Pais e filhos, por exemplo, passam por muitas fases e é natural que haja desencantos. Se for possível, e isso depende de um afeto primordial, elas levam a novas relações, como se cada um precisasse se redescobrir de tempos em tempos. Quando não é possível, bem, aí entram Guarnieri e Vianninha.
Abraço. E coragem.