Pesadelos

Na madrugada do dia 26 de janeiro, pouco depois da meia-noite, tive um pesadelo. Logo tratei de memorizar a cena central para não esquecer: “A casa está repleta de gente desconhecida, muita gente, fiquei perplexo, todos sem máscara, olhei a tudo assustado, uns caminhando, outros sentados conversando como se fosse um restaurante na rua. Aliás, tudo ocorreu no pátio da casa”. Pela manhã escrevi sobre a vivência de ser invadido, como se eu não fosse mais o proprietário da casa. O primeiro que me veio à mente sobre a invasão foi a leitura no dia anterior do começo do livro essencial “Massa e Poder” de Elias Canetti. “Não existe nada que o homem mais tema do que ser tocado pelo desconhecido.” Eis uma frase na qual o estranho, o diferente, o desconhecido assusta, daí a palavra xenofobia, uma fobia ao estranho. Todo sonho tem um resto diurno que é algo ocorrido, lido, visto, que se conecta com o desejo inconsciente que se realiza no sonho. O sonho se passa no pátio, esse espaço descoberto que me leva ao quintal de uma casa da infância, o melhor lugar da casa para brincar. Até hoje sou fascinado por pátio, o ar livre, o melhor lugar para se viver é uma casa com pátios.
Muita gente no pátio dá também a sensação de estar perdido num labirinto. Esse pesadelo da invasão de gente sem máscara associo à fobia diante pessoas sem máscara na rua. Há meses tenho uma ideia recorrente: o Brasil foi invadido por forças que vivem sua festa do ódio. Festa em que o líder anda de moto, a cavalo, faz que nada, quando ocorre a pior invasão da história, pior que a dos franceses, holandeses e portugueses. Pátio é a liberdade e perdemos a liberdade, não toda, mas quase, e há um sentimento quase de impotência diante dos sem máscaras.
Os ataques desde o inconsciente são invasões, mas não são a matéria de Canetti, mas em psicanálise, nos sonhos, ou nas melancolias, os ataques expressam diferentes necessidades de castigo. Logo me perguntei sobre o pesadelo da invasão da casa, por que me castiguei. Minha origem é o velho Bom Fim de Porto Alegre, onde se bebiam as tristes histórias que os imigrantes judeus contavam.
A invasão do pesadelo associo a uma recordação infantil, ocorrida aos três, quatro anos. Meus pais saíram e disseram que iam ao cinema e fiquei só com a empregada, que me contou essa história: Um ladrão, numa madrugada, entrou, silenciosamente, numa casa e foi para baixo da cama do casal e com uma faca assassinou os dois. Meus olhos se arregalaram e seguiram assim até os onze anos, à noite, costumava olhar para baixo da cama. Depois perdi o costume e passei a achar graça, mas a invasão da casa se associou ao crime de um casal. Meus pais mortos e eu o assassino raivoso porque eles foram ao cinema e dormiam juntos. Ah, e eu e minha irmã dormíamos na mesma cama e no mesmo quarto, uma casa pequena. Agressividade e erotismo no pesadelo e se sabe que o parricídio ocorre assim como o filicídio na fantasia. Em Édipo Rei de Sófocles, Laio tentou matar seu filho Édipo, que depois o matou numa encruzilhada sem saber.
A pandemia é uma grande invasão viral que pode matar, e os sem máscara, representam ameaças à vida, a começar pelo Presidente. Estamos invadidos pelo vírus e pela indiferença de muitos poderes que são insensíveis ao sofrimento humano. Uns dizem que são sociopatas, outros os definem como canalhas. O pesadelo pessoal passou, satisfez minha necessidade de castigo.
Já o pesadelo nacional é um castigo aos mais pobres, índios e negros por um governo que desprezou o vírus e a vacina. O Presidente tem avalistas nos armados, no Congresso, no mercado, nos seduzidos pelo autoritarismo, e no silêncio das instituições médicas. Logo, só a esperança e a imaginação de muitos, servem de ânimo e potência contras as dores e desilusões da experiência.

Pero Vaz de Caminha, Mercadão de Madureira e Nossa Suprema Ignorância

E aquilo que nesse momento se revelará aos povos

Surpreenderá a todos não por ser exótico

Mas pelo fato de poder ter sempre estado oculto

Quando terá sido o óbvio”

 

Enquanto inicio o texto ouço Clara Nunes cantar a sua belíssima e definitiva canção o Canto das Três Raças. Não sei explicar o que sinto por completa inabilidade de transformar sentimentos em palavras. É um daqueles meus momentos da minha relação bipolar com o Brasil. Enquanto o circo de espetáculos macabros se desenrola na política nacional, dentro de mim é uma ebulição , uma emoção sem par. Música e imagem tem esse poder comigo. Sempre fui sensível a imagens, não fotos posadas de mulheres inacessíveis ou mares transparentes que o dinheiro curto me impede de visitar, mas flagrantes do mundo real. Alguns desses instantâneos foram tão fortes que permanecem na minha retina. Imagens que me impactaram, a ponto de mudar a minha perspectiva de vida, abalar meu senso de realidade. Na epígrafe do livro Ensaio Sobre a Cegueira, Saramago cita o Livro dos Conselhos de El Rei D. Duarte:” Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara”. E se deter em algo que parece novo para você é de uma potência extrema.

Foi assim em 1982.Eu era uma meninota de 11 anos, que gostava da Rita Lee (só fui entender o que significava me deixa de quatro no ato outro dia gente, sério), usava melissa fumê e meias de lamê. Achava que um dia casaria com o Fabio Junior (hoje vejo que não seria um sonho impossível) e tinha como projeto de vida adulta ser chacrete. Minha vida era escola, academia de dança, fins de semana com os avós em Valença ou na casa de primos. Gostava de ler, mas não tinha muita noção do que era bom ou ruim. Intercalava leituras de revistas de banca de jornal, Bianca, Julia, Sabrina com Agatha Christie e  George Sand. Meu pai assinava o Jornal do Brasil, do qual só me interessava as tirinhas. Mas aquele dia foi diferente…Na capa seis homens negros amarrados pelo pescoço levados por um policial. Não a toa intitulada de “Todos os Negros”, essa foto rendeu o Premio Esso ao fotógrafo Luis Morrier. E a mim rendeu um choque de realidade brutal. Sejamos sinceros, vivendo num apartheid social, com raros colegas negros e todos os negros que faziam parte do meu cotidiano sendo subalternos, ser negro ou não nunca se apresentou como um problema para mim. Até eu fixar os olhos naquela foto. O que senti foi horror do mundo. E compreendi, da pior maneira, que 500 anos não significavam nada. Aquela fotografia foi muito mais eficiente que qualquer tratado antropológico sobre o Brasil.

1996.Escrevendo uma dissertação de mestrado cujo tema era a A Escravidão Negra em Antônio Vieira. Intercalo a vida entre Dionísio e Apolo. Pudesse vivia nos braços de Baco, mas há um estoicismo que me salva. Gosto do método talvez pela ilusão que assim manipulo essa história de som e de fúria contada por um idiota, que não tem sentido nenhum, como disse lá atrás o bardo.  Então minha animada rotina de estudante era: Deixar mochila e roupa arrumadas para o dia seguinte, acordar mais cedo para desembaraçar os cabelos (dos quais me libertei),sair de casa, parar na padaria para tomar meu café sem açúcar de psicopata, ir a banca de jornal comprar O Globo, que eu ia lendo   no ônibus e assim a viagem corria mais rápido. Me detive na matéria principal. Era sobre o reencontro do fotógrafo Pedro Martinelli, que há 23 anos atrás havia participado da expedição com os Irmãos Villas-Boas, que tentavam contato com a chamada Tribo dos Índios Gigantes. Pedro se encontraria com o personagem da foto, que estava na capa, duas décadas depois. Sem nunca ter tido contato com os brancos, o que vi foi um indígena com o corpo todo pintado, altivo, com seu arco e flecha, mirando aquelas pessoas estranhas. Era a representação carnal da música do Caetano Veloso:” Um Índio Descerá de Uma Estrela Colorida Brilhante”. Aquele homem, hoje para mim um menino, de 23 anos, mesma idade do fotógrafo, sustentando o olhar para aquelas pessoas que nunca vira e muito menos sabia a procedência, era de uma altivez natural que vi em poucas pessoas. Me dirigi então a matéria, no miolo do jornal, que registrava o reencontro do fotógrafo com o fotografado. O que vi foi um homem triste, sem dentes, com uma blusa com uma inscrição em inglês, vestindo um daqueles shorts da Adidas que brilha e de Havaianas no pé. O olhar altivo era coisa do passado. Ele mirava o chão, passando a sensação de estar com muita vergonha. Lembrei de Pirrer Verger, na década de 50, querendo fotografar uma baiana paramentada vendedora de acarajé e ela se recusando, dizendo que a foto roubaria a alma dela. A sensação que me ocorreu é que haviam sim roubado a alma dele. A dignidade daquele guerreiro foi levada. E eu passei o resto da viagem chorando.

Ailton Krenak, no documentário Além Mar, que foi feito em comemoração aos 500 anos do Brasil, narrado lindamente pela deusa Bethânia, ao discutir a questão de identidade disse: “os negros ficaram com uma geografia em relação a casa grande, que era a senzala. Mas naquela geografia que Gilberto Freyre faz para a casa grande, não há lugar para índio. Sabe onde o índio está? Espreitando a casa Grande. É o estranho. É o gentio”. Essa fala foi importante para eu ter ideia do tamanho da minha ignorância. O que eu sei dos povos originários? O mais próximo que cheguei foi através das histórias que meu pai contava, quando tinha 17 anos , recém aprovado no vestibular, de sua viagem com S. Wanderley, sertanista amigo do meu avô e ficou em Xavantina, quando os Xavantes estavam sendo “pacificados”. Mas o que me impressionava mesmo era ele falando das imensas sucuris que atravessavam o Rio das Mortes.

E tinha meu tio-avô Luiz que merecia uma crônica só para ele. Tio Luiz estudava tartarugas e até descobriu uma espécime na Amazônia, que carrega nosso sobrenome. Era um homem alto, de voz potente , ir a casa dele era a suprema aventura. Éramos recebidos por ele com um papagaio pendurado no ombro e com seu inseparável tapa-olho. Durante um bom tempo corria uma lenda entre as crianças que ele perdeu o olho numa pesca submarina, até que um adulto inconveniente contou a verdade. Tio Luiz era péssimo motorista, bateu num carro e ainda teve o topete de sair com o olho vazado para discutir com o infeliz que estava no outro veículo. E sim, o outro motorista estava com  a razão. Só sei dizer que ir a casa dele era um programão. Eles nos mostrava animais diferentes, explicava calmamente o que era cada um e claro, havia um tanque imenso cheio de tartarugas, dos mais variados tamanhos. Ele também colecionava artefatos indígenas, e jamais esquecerei o dia que ele pegou um objeto de madeira maciça, vermelho escuro , bem polido e perguntou se eu aguentava segurar. Claro que não, pesado demais para a menina franzina. Ele me explicou que aquela era uma arma indígena, chamada borduna, disse a que tribo pertencia e explicou sua serventia com apenas uma palavra: DEFESA. Perguntei então se os indígenas metiam aquilo na cabeça das pessoas e recebi uma resposta que só por ela percebe-se que não fui adotada: ”Ninguém que não tivesse merecido”.

Cresci na época da ditadura, o que aprendia na escola sobre os povos originários era que viviam em ocas, pescavam, plantavam e contribuíram para a nossa culinária. Não havia uma preocupação em distingui-los: tem penacho, tem cocar, é indígena. Houve um apagamento deliberado desses povos e de sua história. Que se iniciava na capa dos cadernos escolares, quando não era Pedro I declarando a Independência , ou a imagem do “bravo Duque de Caxias”, patrono do exercito, era a imagem da primeira missa. Homens com roupas de cavalaria medieval, imponentes, uma cruz e os índios de saiotes de penas como coadjuvantes, reverenciando a cruz e os colonizadores. O outro momento que éramos lembrados da existência deles era   no temível dia 19 de abril, quando se comemorava o dia do índio. Aqui explico: Mães da década de setenta pareciam estar numa infindável viagem lisérgica, não há como esquecer meu irmão com penas em degradê do rosa choque ao roxo caixão, com um cocar que poderia servir como destaque para a Cacique de Ramos e muitas, muitas miçangas. Clovis Bornay aprovaria. Essa foto rolou por  um tempo aqui em casa, mas alguém disse que ia mandar para aquele blog criança viada e meu irmão desapareceu com ela. Então era basicamente isso: aulas superficiais, imagem da Primeira Missa e fantasias montadas no Mercadão de Madureira para nos envergonhar para o resto da vida.

E foi com essa linha de pensamento que fui refletindo sobre esse encontro índio-europeu. O fato é que com a chegada da esquadra de Cabral, em 1500, através de diferentes perspectivas um novo mundo abria-se ambos. Para os portugueses velhas certezas foram desmentidas, o mundo geográfico se revelando. A nova terra empurrou para adiante os limites do mundo desbravado pelos navegadores em décadas anteriores. Já para os povos autóctones a perda do domínio sobre o espaço que viviam e sobre outra dimensão: o tempo. Era a história modernizadora que vinha com as caravelas, para se confrontar com o tempo mítico vivido pelos indígenas.

Laura de Mello Cardoso, em seu livro O Diabo e a Terra de Santa Cruz, diz que o Brasil foi uma utopia desde antes de ser descoberto. Para os teólogos medievais, o Éden não era uma representação simbólica, e sim uma realidade concreta e acessível. Ao mito das ilhas Afortunadas sucedeu o da Terra dos Papagaios, que deveria conter o paraíso terrestre. Desta ilusão religiosa se deduziram  versões mais laicas, afinal estavam no Paraíso e não existe pecado do lado de baixo do Equador. É interessante observarmos a forma como os europeus viam esse novo mundo, tão longa quanto a história do Brasil é a história das narrativas de viagem que figura o Brasil. Desde que os europeus aportaram nessa estranha terra, ela foi abundantemente descritas por eles e se alastrava pela Europa com o auxílio nada desprezível da imprensa. Viajantes como Thevet e Levy, podem ser considerados os iniciadores das fake news no nosso solo pátrio. Pululam em seus escritos absurdos como gigantes de dezesseis palmos, selvagens com os pés ás avessas e por aí vai.

Contrapondo-se porém a visão edenizadora, mais que nuvens e insetos , calor intenso e cobras gigantescas, a imagem do Brasil como um inferno vai estar presente nos nativos da terra. Sobretudo quando passam a ser um obstáculo para a sua ocupação. E de todas as diferenças entre os europeus e os indígenas, nenhuma causou mais espanto que a antropofagia. Causa, aliás, de grandes discussões filosófo-religiosas acerca da verdadeira índole dos bárbaros: descendentes de Adão para alguns, mas pouco mais que bestas  feras para outros- o que era um pretexto bem conveniente para escravizá-los. Seria necessário, que em 1537, uma bula papal reconhecesse explicitamente a natureza humana dos americanos. Assim, desta terra , segundo o escrivão da esquadra: ”O melhor fruto que se pode tirar, me parece que seria salvar esta gente. E esta deve ser a Principal semente que Vossa Alteza em ela deve lançar”. A esta gente, indecifrável aos olhos dos europeus, eles não viriam apenas salvar a alma. Mas aliciar, dominar, exterminar, subjugar, escravizar, conforme seus interesses específicos. Toda vez que nos desesperarmos com esse desgoverno que fomos metidos, lembremos do sábio Ailton Krenak: ”O que são quatro anos? Nós estamos resistindo há quinhentos!”

Diabo a quatro

O programa domingueiro parecia inocente. Um casal de vizinhos, pais de um colega peladeiro, o convidou para um cineminha na Praça Saens Peña. Tudo correu bem, até que os distintos aprontaram uma falseta. Depois do filme, o Menino foi forçado a entrar numa igreja para a missa das seis. Nunca tinha frequentado aquele ambiente, que lhe pareceu pouco acolhedor, mais asfixiante do que austero.

Antes de mais nada, sentiu-se desrespeitado. Os adultos sabiam que a família do Menino era judia, sem vínculo com a tradição religiosa católica. Criança, não tinha condições de reagir àquela agressão, tão inesperada quanto covarde. O jeito foi mimetizar. Observou que as pessoas se ajoelhavam numa espécie de tábua comprida e estreita, juntavam as mãos, fechavam os olhos e pareciam cantar palavras incompreensíveis. Sem entender o que as movia, fez os mesmos gestos. Talvez tenha apertado os olhos com força, para tentar se transportar para fora dali. Não deu certo, o ambiente continuou opressivo, triste, os adultos ignoravam seu mal-estar.

Estava tomado por sentimentos angustiantes. Sabia que aquele não era seu lugar, que aquelas não eram suas palavras. Seria castigado por pisar naquele “outro” sagrado? Que tipo de traição estaria cometendo? Valia a pena, ou melhor, teria coragem de delatar o que estava acontecendo para seus pais, que certamente tomariam providências de gente mais velha, consequências em aberto? Turbilhão na cabeça de uma criança que tinha saído de casa querendo apenas se divertir um pouco.

Não me lembro do que aconteceu depois. Daquela tarde amarga sobraram aflições e muitas, muitas, perguntas. Influenciado pelo livro Deus: um delírio, do cientista Richard Dawkins, queniano criado na Inglaterra, resolvi repatriar algumas delas. É o caminho necessário das sombras inconscientes para o terreno da razão e do esclarecimento.

Qual é o direito que os adultos têm de determinar o que é certo e errado, passando uma mensagem absolutista para as crianças? Dawkins destaca uma observação do psicólogo Nicholas Humphrey: “As crianças têm o direito humano de não ter a cabeça aleijada pela exposição às péssimas ideias de outras pessoas”. A consequência imediata seria, por exemplo, deslegitimar a pretensão, absolutamente corriqueira, de pais injetarem sua religião nos filhos desde a mais tenra infância. Se alguém afirmar, como pondera Dawkins, que uma criança de quatro anos é keynesiana ou marxista, será tachado de tolo ou lunático. Como é que com tão pouca idade se pode dominar os fundamentos destas escolas de pensamento? Interessante é que ninguém se surpreende se a mesma criança for rotulada de cristã, muçulmana ou judia. Parece natural, dado o peso que a religião assumiu nas sociedades, mas é igualmente absurdo. Cada um deve ter o direito de construir sua identidade, quando tiver condições de elaboração intelectual-afetiva e em qualquer terreno que seja. Isso evitaria traumas e demônios desnecessários.

Arrisco generalizar: religiões são território de culpas e castigos. O inferno, com suas câmaras de tortura perpétuas, é uma das imagens mais aterrorizantes que conheço. Igrejas barrocas e neoclássicas de Salvador foram construídas graças a doações de ricos colonizadores, que esperavam purgar culpas e escapar das manhas de Belzebu. Dizem que na igreja de São Francisco, no Pelourinho, foram usados cerca de mil quilos de ouro em pó. O preço da salvação é caro. Tentar seduzir um juiz que não se vê e cujas sentenças são irrecorríveis transforma multidões em aflitos profissionais.

Quando este tipo de assunto vaza para o espaço público, a maionese desanda de vez. O ministro da Educação, um dos terrivelmente evangélicos, está sendo processado por homofobia. Afirmou ao Estadão que a homossexualidade não é “normal” e atribuiu sua ocorrência a “famílias desajustadas”. Confunde sua leitura da Bíblia com o imperativo da Constituição. É uma variante do determinismo tóxico que já abordei.

Quem precisa de infernos imaginados no nunca provado pós-vida? Já temos, aqui e agora, nossos demônios, nossas inseguranças, nossos tombos, nossas neuras. Não será com ameaças piromaníacas que aprenderemos a lidar com eles. Antônio Maria tratava a encrenca à sua maneira. Numa velha crônica, descreveu as jangadas no mar de Fortaleza. Ansiava por voltar a andar de jangada “ouvindo histórias de coragem no mar, sentado no banco da proa, com o rosto molhado, a mente curada e o peito livre do peso da angústias”. Reconhecia seus diabinhos internos, mas preferia navegar com eles ao estilo de Caymmi ao invés de pedir carona ao barco de Caronte.

Abraço. E coragem.

Samba Perdido – Capítulo 28 – parte 01

Capitulo 28

Todo dia o sol levanta
E a gente canta
Ao sol de todo dia.
Caetano Veloso - Canto Para o Povo de um Lugar

 

A próxima parada era João Pessoa, a capital da Paraíba. Dessa vez deixamos as caronas de lado e resolvemos ir de trem. Era quase de graça e a linha se afastava da costa e entrava pelo sertão à dentro. Dada a escassez de ferrovias no Brasil isso prometia uma viagem única e imperdível. Ela nos permitiria conhecer, mesmo que de relance, essa região tornada famosa em verso, prosa e música. Depois de saciar a fome, beber umas cervejas e dar uma volta pela belíssma Maceió, fomos para a estação. Na entrada, encontramos com os gaúchos da Praia do Francês que tinham gostado da ideia e tinham resolvido se juntar.

Assim que pusemos os pés dentro do terminal,  ​causamos uma comoção. Para os passageiros locais, ver aquela galera estranha era como presenciar a entrada da versão moderna da gangue de Pat Garrett e Billy the Kid ou de uma banda de rock recém-saída do inferno. Só faltava a camera lenta e a musica de filmes de faroeste. Sob olhares constantes e mal disfarçados, compramos passagens para o próximo trem que partiria dentro de uma hora. Sem mais nada para fazer, ficamos vagando pela estação achando graça do pessoal boquiaberto.

Depois que o trem partiu, tomamos posse de um vagão vazio. Pela janela, ficamos curtindo ver o verde litorâneo ficando para trás e paisagem se tornando muito diferente da que tínhamos visto pelo nordeste afora até então. Primeiro, veio o cerrado com sua vegetação densa porém seca e espinhosa e uns vinte minutos depos entramos na aridez do sertão.

Essa região semi desértica era a mais pobre e atrasada do Brasil, a ponto de ser considerada por estudiosos como a região mais semelhante à Europa medieval no mundo. Nela, o povo profundamente católico e supersticioso tinha um relacionamento semifeudal com os donos da terra. A cultura era machista ao extremo e havia um altíssimo grau de analfabetismo. Mesmo sabendo que não interagiriamos com essa população, só o fato de estar ali mudou o clima no trem. Continuamos em silêncio cruzando a vegetação rala no ar quente e depois de um tempo começamos a atravessar e a parar em cidades.

As estações dilapidadas pareciam remanescentes de uma era quando havia uma promessa nunca cumprida de prosperidade. Quando o trem parava, uma pequena multidão chegava às nossas janelas para nos vender todo tipo de coisa, desde garrafas d’água de plástico até animais silvestres. Em todo vilarejo, o trem era o maior evento do dia e nós – os cabeludos estranhos – os destaques. O povo se amontoava em nossas janelas apontando para nós e rindo como se fossemos uma banda de rock de gays drogados.

Algumas vezes faziam piadas sobre nós.“O sulista! Isso aí é cabelo de homem?” A meninada ria.

“Por que, bonitão? Quer que o teu macho fique gato como eu?” A meninada ria mais ainda, mas alguns não gostavam e ameaçavam jogar coisas.

Atrás das estações, mercados mambembes alojavam lojas de roupas baratas, botequins, açougues mal cheirosos e lojas de discos que tocavam alto músicas que davam arrepios de tão brega que eram. Homens andavam a cavalo nas ruas de terra batida entre carros enferrujados, jumentos sonolentos e cães magrelos. Por todo lado crianças descalças corriam sob o sol escaldante.

Quando o trem saía das cidadezinhas, voltava àquela paisagem árida e desolada que lembrava as de faroestes italianos. A população, porém, não era de camponeses mexicanos, mas uma mistura de descendentes de índios, brancos e africanos vivendo em casebres de barro com cobertura de palha. Os pequenos lotes de terra nela, lutavam para parecer fazendas naquele calor insuportável. As plantações eram mínimas e o gado era tão magro que dava para contar as costelas.

Os vagões e sua locomotiva azuis e antigos estavam nas últimas e pareciam em harmonia com o que nos cercava. Por conta do horror dos outros passageiros em compartilhar seus assentos com gente “do demo”, acabamos ficando sozinhos em nosso vagão durante a viagem inteira. Vez por outra, funcionários do trem entravam para conferir o que estávamos fazendo e geravam um silêncio hostil. Apesar da extrema pobreza passando do lado de fora e do clima tenso do lado de dentro, todos concordamos que o passeio estava sendo uma “viagem”. Claro, apesar da vigilância apertada, conseguimos fumar nosso veneno com as cabeças para fora das janelas.

*

No Rio, “paraíba” era o termo pejorativo dado aos membros do seu enorme contingente de nordestinos, sem distinção de onde vinham. Eles preenchiam o papel que mexicanos exercem nos Estados Unidos, árabes na França e paquistaneses no Reino Unido. Igual aos preconceituosos dos países ricos, muitos cariocas tinham sentimentos contraditórios com relação ao Nordestinos. Junto com o fascínio pela sua cultura e da admiração pela suas belezas naturais vinha a rejeição de imigrantes pobres vindos de lá com legados diferentes.

Quando o trem chegou em João Pessoa, a capital da Paraíba,  assim que comecamos a circular pela cidade, descobrimos que, pelo contrário, a cidade tinha – pelo menos a nível arquitetônico – uma sofisticação clássica que comparava bem com a do Rio. Suas construções bem conservadas do século 19 e suas avenidas elegantes delimitadas por árvores exuberantes com postes de luz de estilo antigo faziam a cidade muito charmosa.

Porém, o principal motivo de estar contente por estar ali era que uma amiga da faculdade, Francesca, estava passando as férias com sua família Paraibana. Como muitos outros membros da elite local, eram descendentes de italianos. Loura de olhos azuis, era deslumbrante a ponto de uma revista carioca a ter eleito como a musa daquele verão. Apesar disto, o seu atributo mais atraente era seu espírito de moleque e a gente se dava muito bem.

Dessa vez íamos ficar na casa do estudante universitário e assim que chegamos, ligamos para ela. “Richard! Pedro! Seus malucos!!! Como que vocês chegaram até aqui!!?? De que?! De carona de caminhão?? Pegaram o trem pelo sertão?! Hahahaha! Vocês são muito loucos!”

Depois das piadas e de contar alguns “causos”, fui à pergunta inevitável: “E aí, Francesca? Vamos se encontrar?”

“Claro!!” Daí ela cochichou baixinho: “Mas nada de pãpãpã porque o pessoal daqui é caretasso!!”

“Beleza, claro que não, só que você vai perder o veneno que trouxemos de Maceió.”

Ela deu uma risada. “Vocês tão aonde?”

“Na casa do estudante universitário, conhece?”

“Claro! Daqui a pouco tô passando aí!”

Receando que fossemos conhecer alguém da sua família endinheirada, nos vestimos da melhor maneira possível. Na falta de outra opção, colocamos umas roupas hipongas metidas a chique compradas em Salvador. Não demorou muito e ela chegou com dois primos, ambos educadíssimos e com um visual super conservador, com certeza membros eminentes da elite local. Após as apresentações, levaram Pedro e eu num carro elegantíssimo com ar-condicionado para conhecer João Pessoa. Depois, nos convidaram para jantar num restaurante elegante. Foi um convite desconfortável, mas aceitamos por causa da insistência da Francesca.

Eles acabaram fazendo questão de pagar a conta da peixada maravilhosa. Mas diferente do jantar bizarro com dupla de mergulhadores em Vitória e suas “amigas”, não havia nenhum interesse escuso. Porém, descobririamos mais tarde entre risadas que nos confundiram com um casal gay. Não era para menos: nossas roupas neo-hippies, batas e calças floridas e soltas jamais poderiam ser classificadas como roupas para macho em qualquer cidade do mundo em qualquer tempo da história.

Na realidade, mesmo com a má impressão que causamos, tinha esperanças de, quem sabe, engatar uma aventura de verão com a Francesca. Apesar de ter um namorado no Rio, nas matadas de aula nos jardins da faculdade rolava um clima forte. Entretanto, com a família dela por perto – e eu parecendo um extraterrestre para eles – as chances de que algo acontecesse eram zero.

Além da inacessibilidade da Francesca e da elegante arquitetura de João Pessoa, não havia muito o que nos atraísse ou nos prendesse lá. Decepcionados, depois de tres dias ali seguimos rumo ao norte, para Fortaleza, a capital do estado do Ceará, onde ficaríamos com um tio de Pedro.

*

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UM CORPO DE MULHER ( DESEJO QUE NÃO CALA )

Foi quando me vi olhando para o perfil do corpo daquela mulher, que se movimentava à minha frente.
Saboreei suas curvas e cintura fina emoldurada por um training preto, que a vazão da performance não escondia.
E sorri, acompanhando as nuances de um corpo fresco, trajes negros, a se movimentar.
Sua escultura me serviu de deleite a prescrutar, em minha imaginação, quais olhos serviriam à majestade daquele corpo esguio.  E não lhes imaginei, até o momento em que os cruzei, ziguezazeando-nos pelos desfiladeiros de um supermercado.
Pego-me, ainda, relembrando minha busca por um corpo feminino, pernas, deslize no andar, e minha descoberta, ainda que tardia, do aflorescer de um desejo inconteste.
Clausulo em fantasia, abro-me à medida em que meus sentidos não traiam, e meus afetos sejam, apenas, o desfrutar do prazer, sem enganos.
Minhas definições esbarram no medo da entrega, não menos a caricia do que poderá o contumaz trazer.  Um receio doce, por vezes aflitivo, em me descobrir meio ao avassalador que virá, ou não, trazendo o terno enlevo dos afetos cometidos.
Não mais pretendo desvendar o óbvio, fruto do desejo.  Mulheres são fonte de prazer e, nisso, sendo seu preço.
Ela resvala, límpida, no seu andar descompromissado ao que a cerca.   Eu a devoro em suas curvas, sem um rosto que me defina, mais ou menos, a atração.
Olho um corpo que se me destaca, e ele me sussura prazer.  Dele exalo, e me completo, assim sendo, desejando, em todo, uma mulher.  Aberta a essa confissão, destino do que, talvez, me aguarde.
Entrego-me ao fortuito de minha descoberta, sem mais pensar, acatando-me à realidade do que me pulse, nova descoberta.
Na verdade que existe em mim, extraio um casulo de esperança.  Quem sabe conhecerei o amor, ou o deliciar de momentos de enlevo.
Perguntas sem respostas, num principio em que não ha cartas marcadas.  O proprio desenrolar da vida dando sequencia a estorias, talvez acabadas, ou não.  Força em que se acredita, e sabe o melhor.
Vou rumando em meus dias, cultivando a sapiencia da esperança.  Do cultivar, em sonhos que voem a terra plana, não distantes do seu prumo.
No equilibrio entre a volupia e o terno, na busca da serenidade, onde há paixão.  No desejo mudo, em vida.  Sabe-se lá a que caminhos me levarão.

Barrado no baile

Bem que o horóscopo avisou. Aquele seria um dia de Saturno colérico, de Plutão com os ovos virados, de engarrafamento na Via Láctea, do espectro de Manolete massacrando Touro. Uma vizinha, versada nos mistérios magnéticos, confirmou que o pêndulo zodiacal tinha feito um movimento estranho. O universo, portanto, conspirava: nada de atrevimentos!

O universo, ora, o que é ele frente à vontade de um adolescente, projeto não se sabe de quê, turbilhão hormonal enfeitado por um jardim de espinhas? O primeiro mandamento para o quase ex-Menino era enfrentar a autoridade. Qualquer uma, fosse ela doméstica ou cósmica. As armas para a batalha estavam prontas: calça boca de sino, cinto largo, fivela de cowboy, camisa apertada e, sobretudo, uma caderneta de estudante com idade falsa. Pronto. Um pouquinho de Minâncora para disfarçar as espinhas e o figurino do malandro dava para encarar a censura dos 18 anos no cinema.

Antes de continuar, um breque. Nos anos 1940, 1950, circulava pelo Rio o delegado Deraldo Padilha. Quando punha a mão num suspeito de malandragem, diz a lenda que fazia um teste. Pegava uma laranja e jogava dentro da calça do elemento. Se ela saísse embaixo, tava liberado. Ficasse presa na perna, cana. Os malandros costumavam andar com calças de bocas apertadas. Moreira da Silva chegou a gravar um samba, “Olha o Padilha”, que satirizava as táticas do meganha. “E jogou uma melancia, pela minha calça adentro e se enganchou no funil/Eu bambeei, ele sorriu/Apanhou uma tesoura e o resultado dessa operação é que a calça virou calção”. O delegado Padilha foi pré-boca de sino …

Voltando à vaca fria. O cinema Comodoro, estalando de novo, estreava Bonnie & Clyde (que os gênios da titulagem nacional chamaram de Uma rajada de balas). Censura: 18 anos, é claro. A perspectiva de ver Faye Dunaway em plena forma produzia uma estranha salivação, um abre-te, sésamo, de sensações inéditas. A transição para não sei o quê tinha reações incontroláveis, sexualidade em erupção. Bem, o desafio era grande, o fiscal do cinema não costumava dar refresco, mas o prêmio era tentador. Abrir a cortina do mundo pós-dezoito anos, com seus prazeres proibidos, valia o risco.

Chegou antes da hora, passos inseguros. A bilheteira, entediada, vendeu o ingresso sem desconfiar da tensão quase sólida no ar. Meio caminho andado. Entregou o papelzinho para o sujeito que dava acesso à sala. Carteira, exigiu. Mostrou o documento grosseiramente falsificado. Percebeu um sorriso irônico do fiscal, antes do xeque-mate: mostra a identidade. Nada mais havia a fazer. Calça, cinto, fivela, Minâncora, não resistiram ao bafo inegociável da autoridade. Barrado no baile. Dezessete não é dezoito.

Saiu andando pela rua Haddock Lobo, sem bússola. Travo amargo na boca, solidão gritando. Ali perto ficava o bar Divino, onde costumavam se encontrar Roberto e Erasmo Carlos, Jorge Ben, engatinhando na Jovem Guarda. Naquela noite vazia, o bar lhe transmitiu silêncio e desolação. Teve a impressão de que todos o observavam, ridicularizando a tentativa fracassada de violar os segredos dos adultos. A volta para casa teve trilha sonora imaginada. A voz da Maysa disparando meu mundo caiu, me fez ficar assim.

Muitos anos depois, assistiu Bonnie & Clyde. O que havia de tão sinistro ou perigoso na saga de dois assaltantes apaixonados, barbarizando na América profunda? Talvez a moral hipócrita que não admitia o mau exemplo da glamourização da violência. E não, Faye Dunaway não ficava pelada.

Bem que o horóscopo avisou.

Abraço. E coragem.