por Richard Klein | 23 jan, 2021 | Brasil, Comportamento, Crônica
Na manhã seguinte saimos rumo às praias de cartão-postal de Maceió, nas Alagoas. Águas cristalinas e uma vegetação abundante de coqueiros se estendendo ao longo da costa inteira eram uma promessa bem-vinda com depois da simplicidade cênica de Aracajú.
Seguindo uma recomendação recebida ainda no Rio, passamos direto por Maceió e fomos para a Praia do Francês, a uma meia hora e pouco da cidade. Chegamos num fim de tarde ensolarado e ficamos maravilhados de cara. O lugar era lindo e o pessoal era diferente de tudo o que tinhamos visto até entao; garotas e garotos bronzeados do “sul” saudáveis, abastados, com ares de surfistas, relaxados, todos num astral ótimo e muito diferente daquele que havia feito de Arraial d’Ajuda uma decepção.
A experiência já havia nos ensinado que a primeira coisa a se resolver era procurar um lugar para ficar. Perguntamos por ali e o dono da venda da aldeia nos falou de uma construção. “Tão construindo uma casa lá no final da praia. Os obreiros só vão voltar em março. Já tem uns cabeludos acampando lá. Acho que deve ter lugar para vocês.”
Fomos lá e gostamos. A base da obra já estava pronta, mas estava coberta só por um teto de palha mal-acabado. Conforme o dono da venda tinha dito, havia um grupo de sete ou oito caras já acampados lá e fomos falar com eles.
“Fala aê, beleza?”
“Beleza!” respondeu o mais velho deles, um cara de cabelo crespo, brinco na orelha e cavanhaque.
“Tamo chegando aqui e a gente queria saber se dava para acampar num canto.”
“Sem problemas, tchê, aqui tem lugar para muita gente. Se vocês não tiverem problemas com gaúchos podem ficar à vontade.” O sotaque e a maneira cantada de falar não podiam ser mais típicos.
Agradecemos e depois de montar a barraca fomos conversar com eles. Já era fim de tarde e, como não seria surpresa, estavam bebendo chimarrão sentados na sombra e apreciando o fim de dia vendo o mar.
“Conhecem chimarrão? Prova um pouco!” O Pedro recusou. Eu que já tinha experimentado e até gostav, aceitei.
“Isso não é para beber no frio?”
O cara deu uma risada. “A gente bebe chimarrão até debaixo d’água, tchê.”
Um outro, com uma cabeleira lisa que ia até debaixo do ombro, perguntou: “É a primeira vez de vocês aqui?”
“É, a gente está viajando a costa e tamo indo até o Ceará, pelo menos esse é o plano. E vocês?”
“Saímos de Porto Alegre há um mês e viemos de carona até aqui. Bá! É muito chão e em sete é tri-complicado.”
A maioria era loiro, todos educadíssimos apesar do visual inconformista. Naquele calor, aquele monte de cabeludo me trouxe à memória as bandas de rock do sul dos Estados Unidos. O cara que nos deu as boas-vindas foi direto ao assunto.
“Pois é, carioca, vocês fumam um, né?”
“É, somos do clube.”
“É o seguinte, a gente descobriu um plantador em Barra de São Miguel, uma cidadezinha perto daqui. A coisa é um veneno, tchê.”
Um outro emendou: “Fomos lá para experimentar, e bááá! Voltamos tri-loucos!”
Todos confirmaram que era “tri-bom”.
O primeiro continuou: “Então, tchê, nós estamos fazendo uma vaquinha para comprar um peso. Se a gente juntar trezentas pilas compramos seiscentas gramas, faltam cinquenta, cês podem entrar?”
“Sei lá. tem um pouco aí para a gente experimentar?”
O de cabelo até a cintura respondeu na hora: “Claro, tchê!”
Um deles tirou um baseado do bolso, acendeu e passou para a gente. Como qualquer do bom, depois de duas baforadas deu para sentir a qualidade. Os caras estavam certos. A parada era “tri-boa”.
Pelos calculos, íamos ficar com quase cem gramas daquele veneno por um quarto do preço que custaria no Rio, uma oportunidade imperdível num lugar perfeito. Não pensamos duas vezes; concordamos, raspamos o dinheiro escondido num compartimento secreto da mochila e entregamos a eles. Na manhã seguinte, dois deles foram buscar o bagulho. Quando voltaram por volta do meio dia, foi uma fumelhança desatinada.
Depois de um tempo, a larica bateu e caiu a ficha de que apesar do generoso estoque do bom, estávamos completamente sem grana. Os gaúchos ficaram igual. A única possibilidade da gente reabastecer os bolsos implicaria em uma ida de uma hora de ônibus até Maceió de manhã cedo para achar um caixa eletrônico – que ainda só existiam nas grandes cidades e que, por sinal, o Brasil estava inaugurando a nível mundial. Depois, a gente teria que esperar o ônibus de volta que só saía no final do dia. Praia boa e bagulho bom eram um convite à preguiça e ninguém estava disposto a perder um dia inteiro com aquilo. Do lado positivo, isso significaria um alívio para o nosso parco dinheirinho.
A salvação alimentar foi um coqueiral imenso logo atrás do acampamento. Não era preciso nem subir nas árvores, era só sair catando os côcos caídos no chão e com isso passamos uma semana inteira nos alimentando deles. No café e como sobremesa, comíamos a carne macia dos côcos mais verdes. Côcos mais maduros tinham a polpa mais grossa, mais nutritiva e eram nosso prato principal e durante o dia. A água deles saciava nossa sede e, também nutriente, ajudava a nos manter. Usavamos um facão na obra para abri-los e tínhamos que tomar cuidado para não acertarmos nosso dedo ou atingir os outros naquela chapação generalizada.
*
A Praia do Francês é famosa por seu coral e sua vida marinha espetaculares. Isto, e a água limpa e transparente, rara no Nordeste, fazia com que um monte de gente viajasse do país inteiro para mergulhar ali. Consegui uma máscara de mergulho e um tubo emprestados de um paulista que tinha virado entusiasta da nossa compra na Barra de São Miguel. Por conta da sua generosidade, passava os dias explorando o coral e os peixes coloridos sob a influência do veneno verde, uma combinação que se provou perfeita. Embaixo d’agua me sentia como se estivesse passando horas num planeta diferente. No fim do dia, quando chegava o pôr do sol, me sentindo bem e abençoado, pegava a viola e saía em caminhadas ao longo do coqueiral curtindo a brisa do mar fazendo as árvores se balançarem de um jeito mágico. Seguia até encontrar um lugar protegido e ficava ali tentando criar música.
Enquanto o Pedro não sabia por onde começar com o banquete de beldades passando o verão ali, não demorou muito para que eu conhecesse outros músicos. O pessoal se reunia para fazer um som em frente da barraca de uns argentinos gente boa. Se não estivesse mergulhando, estava ali. Fazer experimentos musicais no Nordeste era uma experiência especial. A vibração musical da região era menos africana e mais árabe e indígena. O calor e o ar seco pareciam influenciar a gente. As levadas que inventávamos abriam mais espaço para digressões inusitadas. A qualidade do THC e a desintoxicação forçada pela dieta à base de coco me trouxeram inspiração. Quando tocavamos no calor do dia e no vento frio e seco da noite, eu e meus camaradas de som pareciamos um bando de beduínos de sunga envoltos numa magia Sufi num deserto a beira mar.
Às vezes, íamos levar um som na praia quando ficava escuro. Ali nossas sessões acabavam virando apresentações em torno das fogueiras que o pessoal acendia e davam um toque hippie às férias de todos os presentes. Com tantos músicos antenados envolvidos, a gente se recusava a tocar músicas conhecidas. Fazíamos improvisações que, pelo menos para nós, eram de altíssimo nível. Para os que estavam ouvindo provavelmente também, porque apesar do silêncio, havia respeito e um astral mágico no ar. As musicas começavam com uma levada fácil até alguém se inspirar e levar o que estavamos fazendo para um lugar mais especial. Conforme o som ia evoluindo, voltávamos à frase inicial e ficávamos nela até que outro alçasse vôo para novas alturas. A coisa fluía com ritmos e texturas provindos da redondeza. O sentimento era para lá de fantástico.
Apesar do sucesso das sessões, começamos a sentir um clima estranho naquele lugar que de início tinha parecido um paraíso. Acabamos nos dando conta de que a Praia do Francês era, na verdade, um destino turístico mais de elite do que o sul da Bahia e que nós, os outros músicos e os gaúchos do acampamento, éramos minoria. Por conta disso, nos deparamos com muita cara virada por não estarmos viajando com um carro do ano e dormindo em pousadas boas. Não pensamos muito sobre o assunto, mas talvez de maneira inconsciente isso nos tenha levado a ficar ali menos tempo do que poderíamos.
Levantamos acampamento junto com os gaúchos. Na manhã que chegamos em Maceió, a primeira coisa que fizemos foi ir à cata de um caixa eletrônico. Achamos um alojado numa cabine de vidro futurista contrastante com a arquitetura colonial ao seu redor. Novamente com dinheiro no bolso, foi um alívio ir a um pé sujo à beira da praia para desfrutar de uma refeição decente. O que pedimos foi o prato básico da região – arroz com feijão, farinha de mandioca, peixe frito e uma cerveja gelada para completar. Por mais simples que fosse, a comida caiu como uma maravilha depois de uma semana e pouco vivendo de côco.
…
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por Mauro Nadvorny | 18 jan, 2021 | Crônica
| Certa vez, meu filho perguntou como era o cotidiano durante a ditadura. Ele fantasiava que havia um meganha, um araponga, por trás de todas as paredes. Respondi que os mecanismos de controle eram mais sutis. Claro que o SNI e suas filiais faziam o grande trabalho sujo. No entanto, destaquei a importância do que chamo os pequenos poderes. O sargento que distribuía gritos e tabefes sem medo de retaliação, o civil que se beneficiava do clima autoritário e espalhava carteiradas e arrogâncias. Os frutos tinham, quase sempre, alcance limitado, mas afagavam os egos dos subditadores e criavam uma cultura de intimidação. O censor que proibia uma peça de teatro era o último elo da cadeia que começava num “sabe com quem está falando?” espalhado em ruas e almas.
Um dos episódios mais flagrantes da promiscuidade entre as esferas autoritárias foi o chamado Massacre de Manguinhos. Acho importante recuperar essa história, já que vivemos um período em que a ciência está sob ataque em várias partes do mundo.
No dia 1º de abril de 1970, pouco mais de um ano após a promulgação do Ato Institucional número 5, dez cientistas do Instituto Oswaldo Cruz (atual Fiocruz) tiveram seus direitos políticos cassados pela ditadura. Foram aposentados compulsoriamente e proibidos de trabalhar em todas as instituições públicas do país. Desenvolviam importantes pesquisas e tinham reconhecimento internacional. As equipes que coordenavam foram desfeitas, com enorme prejuízo para o conhecimento científico. Apesar de trabalharem no Instituto há muito tempo, foram obrigados a abandonar, sumariamente, os laboratórios e tratados como criminosos. O que havia por trás de tanta arbitrariedade?
Tudo começou com divergências sobre os objetivos do IOC. O grupo de cientistas achava que, além da produção de vacinas, o Instituto deveria dedicar-se à pesquisa básica, sem imediatismo. Um dos diretores na época, o médico Francisco de Paula da Rocha Lagoa, discordava, e se produziu um clima de animosidade. Agravado pela acusação de que Rocha Lagoa desviara verbas para combate à malária, meningite e peste bubônica. O confronto derivou em falsas acusações de “subversão” e “conspiração” contra os cientistas. Nada foi provado. No início de 1970, Rocha Lagoa foi nomeado Ministro da Saúde pelo ditador Emílio Garrastazu Médici. Aproveitou-se, de acordo com os cassados, para levar adiante uma vingança pessoal. O resultado foi a cassação a granel. O Massacre de Manguinhos. O tiranete sacou do bolso do colete seu próprio AI-5.
Entre as alegações que alavancaram o decreto de cassação, estava a de que os cientistas promoviam “feijoadas e vatapás subversivos”. Hoje, isso tem cheiro de folclore, mas na época às vezes era difícil provar que asno não produz lã.
Impossível medir o prejuízo à ciência brasileira causado pelo poder civil, disfarçado de “interesse nacional”, em aliança com a boçalidade fardada. Cálculos conservadores indicam que pelo menos 160 novos cientistas deixaram de ser formados entre 1970 e 1986.
Em agosto de 1986, os cassados foram reintegrados à já então Fiocruz. Na bela cerimônia em frente ao Pavilhão Mourisco situado no bairro de Manguinhos, Mario Lago, presidente da Comissão Nacional de Anistia, disse que todos estavam alegres, mas não felizes. Milhares de pessoas continuavam com seus direitos cassados e a luta ainda seria árdua. Darcy Ribeiro, vice-governador do Rio, foi certeiro. “A dor que me dói, a lágrima que choro, é pelas pesquisas que foram interrompidas e que nunca mais se farão (…) A ciência é o último artesanato do mundo, é a última profissão que não se aprende nos livros. É um cientista que cria outro, à sua sombra”.
Memória pode ser arma letal. Contra a ignorância, o autoritarismo, a propaganda anticiência, é importante citar os nomes dos que foram abatidos pelo Massacre de Manguinhos. Que sua perseverança na luta pelo conhecimento e pela inteligência sirva de exemplo às futuras gerações.
Sebastião José de Oliveira, Herman Lent, Moacyr Vaz de Andrade, Augusto Perissé, Domingos Arthur Machado Filho, Fernando Braga Ubatuba, Haity Moussatché, Hugo de Souza Lopes, Masao Goto e Tito Arcoverde de Albuquerque Cavalcanti: presentes!
Abraço. E coragem.
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por Mauro Nadvorny | 17 jan, 2021 | Crônica
Descobri sempre de que tenho saudades de Bassan.
Não me lembro de como o conheci. Só que, de um repente, nos tornamos amigos.
Ele, que começou a me contar sua vida, melancólico. A quem eu regressava ao seu povoado, do lado de lá, longe, onde chamamos, insistentemente, Palestina.
Bassan me contou de que já não dormia mais com a esposa e, caso se separasse, ela seria a vítima, expulsa de casa, e renegada pela comunidade. Então lhes cabia o sofrimento de viverem num teto que já não era mutuo, aparentemente por causa dos filhos.
Eu acreditava em sua visivel tristeza, e no jeito de me chamar, com seu sotaque característico. Além de eu gostar muito do nome Ana, ele era realmente feliz saindo dos lábios desse meu amigo.
Numa das homenagens mais emocionantes a qual presenciei, o tributo a memoria de Juliano Mer Kramis, levei-o comigo. Eu poderia jurar que ele não se sentiu à vontade, e até teve um certo receio. Que desculpo, pois se as proprias criancas que foram parte do Teatro da Juventude, dirigido por Juliano, não tiveram permissão do governo israelense para virem à cerimonia, porque se sentiria ele bem nesse evento.
Meu maior momento de contradição era quando o levava para casa. Eu viajava por alguns quilômetros e, subitamente, parava num posto de controle de entrada e saida de palestinos, onde me faziam minúsculas perguntas de praxe, ate desnecessárias pela presença de um carro com chapa israelense. Seguiam-se cem metros continuos com o carro e, então, meu confesso atordoamento. Ao cruzar a esquerda, quase imediatamente, havia aquela placa, em frente aos olhos, como uma certeza : ” Proibido continuar, risco de morte “.
Várias vezes, fiz o caminho de volta pensando em como seria, caso eu continuasse o trajeto. Não que Bassan não me pedisse para parar o carro antes de chegar à placa, ou que eu não seja uma alma transgressora, como o sou.
Simplesmente fiz o correto. O que não esmoreceu, em momento algum, minha indignação por aquelas palavras, escritas também, é lógico, em árabe, acessíveis à qualquer criança em idade escolar.
O quanto me senti culpada ao, simplesmente, voltar, e ter a liberdade de circundar por onde fosse, cabeça ao vento, desejo e manias. Que nenhuma barreira pudesse me impedir de transpor.
Bassan transpirava carencia, e seu povoado, provavelmente, era menor do que seu coração. Queria mais do que os segredos do Alcorão, mesmo o respeitando. E me repetiu, varias vezes, de que não havia no livro sagrado qualquer menção ao suicidio por sacrificio. No qual acreditei, não pelos ditos dele, mas pelo afeto depositado em nossa amizade.
Ana, não esquecerei. Muitas vezes me recordo dele, do qual guardei uma bonita fotografia, fiel ao homem que era.
Por onde andará Bassan ? E outros, que tem seus desejos castrados por imposições que lhes violentam a vontade ? Porque, necessariamente, o culto obscurece as boas ações individuais, e deixa individuos ordinarios em seu modo de pensar ?
Porque ha crianças privilegiadas, em boas escolas, nutridas pelos incentivos de uma sociedade que nelas investe, e outras resignadas a viverem em povoados onde, ao invés de serem benvindas, as pessoas são convidadas à morte ?
Há um principio básico que gera as guerras. A falta de generosidade para com o outro, e o não olhar para uma criança.
Não se basta levá-las a um hospital, se dele elas necessitem. A atitude é heróica, mas não contumaz.
As flores precisam de carinho, água fresca, e de se saberem seus nomes, uma após a outra. E que seu local de moradia não seja sinônimo de nao vida.
Bassan, minha sempre saudade. Torço e anseio para que o destino lhe tenha sido caridoso. Tenho certeza de que apareci em sua memoria, algumas vezes. Senão por outro motivo, porque lhe trouxe um ar fresco de mulher emancipada, com uma postura diferente frente às vicissitudes da vida.
Passaram-se anos, e é Bassan que eu gostaria de encontrar. Meu bom amigo palestino.
Fiel a si mesmo.
Shukran. Quem sabe, por ai.
por Richard Klein | 16 jan, 2021 | Brasil, Comportamento, Crônica, Livro
Capítulo27
“...Até onde a gente chegar
Numa praça
Na beira do mar
Num pedaço de qualquer lugar.”
Dia Branco, Geraldo Azevedo
A próxima parada foi Aracajú, a capital de Sergipe. Apesar do nome bonito e de uma música inspirada do Caetano exaltando a cidade, o lugar não desceu bem. Chegamos a noite e de cara pareceu uma cidadezinha de interior sem charme com ruas desertas e quase sem comércio. Sabiamos onde queriamos ir: praia da Coroa do Meio, um bairro de classe media alta com uma praia legal indicada por um amigo de Salvador. Nos sentindo como astronautas num planeta estranho, saimos perguntando como chegar lá e nos deparamos com um povo reservado que nos via como extra terrestres certamente por causa do ar largado, das roupas mal tratadas e das mochilas.
Conseguimos finalmente chegar no nosso destino mais sem graça do que o esperado. A única coisa que curtimos era que dava para acampar na praia deserta. Quando armamos a barraca já era por volta das nove e meia. Olhamos em volta e vimos que apesar da discreta elegância da vizinhança tudo parecia fechado. Apesar disso, a fome nos fez esquecer o risco de deixar as tralhas ali e saimos à cata de um lugar aberto. Depois de uns dez minutos achamos um bar aberto. Ele era de frente para a praia e parecia ser movimentado durante o dia, mas parecia vazio. Subimos para a esplanada e um garçom de uniforme sujo nos recebeu e nos conduziu a uma mesa. Tlavex para nos agradar, ele nos colocou ao lado da única outra mesa ocupada, a de duas beldades que pareciam de fora. Elas sorriram e começamos a papear. Elas eram paulistas pertencentes ao “público alvo” de Pedro: trinta e poucos anos, cultas, bem de vida e interessadas em espiritualidade oriental. Depois que a comida e as cervejas vieram, tentando disfarcar a fome entre garfadas e goles de cerveja, descobrimos que uma delas levava o Rajneesh tão a sério que tinha gasto uma pequena fortuna para passar uma temporada no seu Ashram no Oregon. Contamos o que estavamos fazendo ali e conquistamos a sua simpatia Uma delas se engraçou tanto com o Pedro que depois de pagarmos a conta, partiu com ele para a barraca a fim de aprender seu “caminho para a sabedoria”. Naquela altura, já havia me acostumado a ver ele se dando bem e levava minha desgraça com bom humor.
Embora a outra também fosse atraente, não rolou química nenhuma. Isso não impediu que fossemos para um passeio pela praia onde matamos uma ponta generosa que tinha guardado. Depois de um papo desconfortavel e seco, voltamos para o bar onde ela decidiu manter seu “eu interior” para si mesma e retornou ao hotel.
Sozinho naquela noite menos que interessante de Aracajú fiquei esperando que liberassem a barraca. Do nada, como num filme surrealista, apareceu um grupo de lésbicas bêbadas que saiu debochando do garçom, falando um monte de besteiras e rindo alto na maior sarração e beijação. Certamente eram as únicas mulheres abertamente homossexuais no estado inteiro.
No meio da confusão apareceu um cara local de visual esquisito que sentou-se na mesa ao lado, colocou os pés em outra cadeira e saiu puxando conversa.
“Caralho, meu irmão! Fumei uma maconha boa pra caralho! tô viajando legal!” Ele virou para mim e perguntou. “E você? tá doidão também?”
Aquilo foi estranho. Tudo me dizia que o sujeito não estava chapado coisa nenhuma. O bigode mexicano, os sapatos brilhantes e a camisa engomada para dentro da calça me diziam que pertencíamos a tribos diferentes. “Não, tô legal aqui, curtindo a noite.”
“Porra! Eu quero ficar mais doidão ainda! Apresenta aê um do bom para a gente fumar!”
“Desculpa, mas não fumo essa coisa.” Pela reação quase hostil, deu para ver que ali tinha problema.
“Porra, cara! Senti que tu tem! Vai enrustir?” e deu uma risada forçada.
Eu já tinha desmascarado o cara, mas se era para jogar seu joguinho resolvi sacanear. “Chapado como? Tipo um ferro quente? Não estou entendendo.”
O cara insistiu. “Você é carioca, não é? Tou doido para experimentar a de lá, aperta um para a gente!”
“Sou do Espirito Santo, amigo! Apertar o quê? Tem alguma coisa frouxa nessa mesa?” Dei uma balançada nela. “Não… Ela está firme. Não estou entendendo.”
A conversa continuou até o cara resolver sair sem perder a pose. “Não vai apresentar, né brother? Tá bom, vou nessa. ” Ele tirou o pé da mesa, ajeitou o cinto, arrumou a camisa e desceu do platô piscando para mim e mandando um sinal de legal.
Depois que foi embora, o garçom veio falar comigo. “O senhor fez muito bem em não dar trela para aquele sujeito. Ele é capitão da polícia. Tava doido para morder uma grana do senhor.”
“Eu percebi na hora. Obrigado.” Deu vontade de perguntar porque ele não tinha me avisado logo. Agora era fácil. De qualquer forma continuei no bar, tentando me certificar que o policial tinha desaparecido. Lá pelas tantas, o Pedro apareceu para me dizer que ia dormir no hotel.
“Porra, Richard! Como é que tu não ficou com a outra? Tu não viu que ela tava dando mole?”
Sem saber se ele estava me sacaneando ou não, respondi: “Tu não sabe que sou uma merda nisso?”
Ele deu uma risada. “A minha falou que ela tinha gostado de você, mas que você nao fez nada. Meu irmão, tu paga para vacilar!”
Depois que sairam felizes da vida fui para dar uma volta na beira do mar e fiquei pensando naquilo. Quando desencanei, talvez por estar relaxado de novo, a chapação voltou com o vento noturno. Depois de um tempo, tomei corajem e voltei para a barraca ainda receoso que o cara do bar fosse lá me acordar no meio da noite para me levar. Quando entrei, deitei deixei a porta da barraca aberta para ficar apreciando a noite gostosa la fora. Com a visão das ondas quebrando no escuro, seu barulho e a tranquilidade em volta, bateu uma paz ímpar. Talvez se não existessem humanos naquele lugar e aquelas casas sem-graça, Aracajú seria um lugar gostoso. Fiquei pensando na paulista, se ela tinha me dado mole ou não, e quando e se curtiria transar com uma mulher mais velha. Com aquilo rodando na cabeça acabei pegando no sono e dormi bem.
No dia seguinte, o Pedro veio me acordar cedo. Apesar do dia sem uma nuvem no céu, o sofrimento continuou: a praia era terrível, as pessoas eram feias e a comida incomível. Era hora de voltar para a estrada.
*
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por Mauro Nadvorny | 11 jan, 2021 | Crônica
Nada é mais terrível do que uma ignorância ativa (Goethe)
Era para ser apenas mais uma cerimônia de formatura. Os formandos do Instituto Rio Branco escolheram João Cabral de Melo Neto como patrono da turma de 2020. Foi o suficiente para o chanceler Ernesto Araújo azedar o clima, desqualificando o grande poeta pernambucano, que foi diplomata de carreira. No discurso protocolar, acusou-o de ter ido para “o lado errado do marxismo e da esquerda”. Não teve sequer a dignidade de lembrar a perseguição sórdida que João sofreu no Itamaraty, nos anos 1950, por ser antifascista numa época de caça às bruxas. Como esta é uma história pouco conhecida, resolvi contá-la. As informações estão na bela biografia do poeta escrita por João Castello.
Em 1952, João Cabral era segundo-secretário da embaixada brasileira em Londres. Enviou uma carta ao também diplomata Paulo Cotrim Rodrigues Pereira, lotado em Hamburgo, na Alemanha, encomendando um artigo para um periódico ligado ao Partido Trabalhista inglês. A carta foi interceptada pelo diplomata Mário Mussolini Calabria, que a encaminhou ao estado-maior do Exército. Anexou um bilhete, denunciando infiltração comunista no Itamaraty. A coisa passaria em branco, se não fosse Carlos Lacerda, que também recebeu uma cópia da carta. Fazendo jus ao apelido de Corvo e apelando para uma proverbial desonestidade, Lacerda usou o espaço do jornal Tribuna da Imprensa para criar um escândalo.
Com tanto ruído, João é chamado de volta ao Brasil e, sem apelação, colocado em disponibilidade, sem vencimentos. A acusação é familiar a todos os que sofremos a ditadura civil-militar inaugurada em 1964: ligação com o comunismo. Foram igualmente punidos mais quatro diplomatas, entre eles Antônio Houaiss. Getúlio Vargas, que era o presidente, posterga a decisão sobre o caso com firulas legais. Durante a pendência, João Cabral é convocado para depor na polícia, no famigerado prédio da rua da Relação. Mesmo com a solidariedade de amigos, o estado de espírito do poeta fica abalado.
Um dos que intercederam por João foi dom Hélder Câmara. Mais de uma vez foi ao Itamaraty falar com o ministro Raul Fernandes, que o recebia invariavelmente com ironia: “Já sei, veio de novo interceder pelo seu comunistazinho …” Com a entrada de José Carlos de Macedo Soares no lugar de Raul Fernandes, abre-se uma fresta para dom Hélder. Católico, Macedo Soares o convida para rezar a missa de posse. Na ocasião, o prelado chama sua atenção para a injustiça que cometem contra João Cabral. A partir daí, os procedimentos se aceleram e, em 1954, com a chancela do STF, o poeta é finalmente reintegrado e pode retomar a carreira interrompida.
A inteligência, o imperativo de pensar, o compromisso com a dúvida, a capacidade de se indignar, a interrogação poética, sempre assustaram os medíocres. Assim foi durante a ditadura civil-militar, com a perseguição sistemática de artistas, intelectuais, divergentes de todas as cepas. Assim continua sendo na gestão do filotorturador, do mensageiro da morte, do vulgar exterminador de neurônios que nega a ciência, sabota a cultura e ameaça com um retrocesso civilizatório.
Do obscurantismo que atingiu João Cabral de Melo Neto nos anos 1950, sobrou uma certeza. Os nomes das mediocridades que acusaram o poeta e diplomata foram jogados na sarjeta da História. Lugar para onde seguirão, em breve, Ernesto Araújo e suas fantasias esquizoides. João, que completaria 101 anos anteontem, continua sendo lido, admirado, homenageado.
Abraço. E coragem.
por Mauro Nadvorny | 11 jan, 2021 | Crônica
Nelson Rodrigues entrou na minha vida de forma pra lá de sorrateira. Primeiro assistindo um teleteatro que passava na TVE.Não faço idéia de quantos anos eu tinha, é uma daquelas memórias tão incrustadas na minha alma, que arrisco dizer que foi antes da alfabetização. Minha estranheza e interesse veio do cenário ter dois andares. Ou seja, foi um fascínio mais pela forma do que pelo conteúdo, do qual não devo ter entendido absolutamente nada. Só mais tarde fui saber que a peça era Vestido de Noiva e a marcação era pra distinguir num plano o que era alucinação, no outro realidade. Não se espantem, meus pais não eram adeptos a filtros. Talvez por conta da idade permitida pela censura, aquele documento onipresente que antecedia toda a programação, se sentiam subversivos. Mais tarde, meu avô assinava uma revista (salvo engano a Manchete) e eu, maiorzinha, uns oito anos talvez, pegava a publicação com a desculpa de olhar as fotografias. Minha real intenção era ler a coluna do Nelson, nos moldes da Vida Como Ela é. Uma das suas histórias me impressionou mais do que todas. A narrativa se iniciava com duas meninas jogando amarelinha numa vila suburbana e passava por elas um vizinho homem feito, arrumado e perfumado. Uma das garotas sussurrou para outra: ”Ele deve ter amantes”. O tempo passou, a menina que ouviu o comentário cresceu e caiu nas garras do sedutor. O desfecho: A esposa do D. Juan de Aldeia Campista descobria o caso e jogava ácido na cara da moça, deixando-a desfigurada. O final me pegou de surpresa. Mas surpresa maior tiveram os adultos, quando na mesa de jantar perguntei do nada: ”O que é amante?” Foi assim que descobriram meu real interesse na revista e cortaram definitivamente meu acesso a ela.
Nelson foi e sempre será polêmico. Apesar de todo seu reacionarismo, temos que admitir que metia o dedo na ferida como ninguém. Saltam em seus textos tudo aquilo que sabemos do Brasil, mas temos pudores de falar. A hipocrisia, principalmente. Escancarada. Em O Óbvio Ululante, coletânea de crônicas selecionadas por Ruy Castro, no Jornal O Globo, em 1968, há uma em especial que diz muito sobre o Brasil de hoje. Ou, talvez, do Brasil de sempre. Essa crônica narra a visita de Sartre ao Brasil e uma reunião num apartamento chique a qual ele , Nelson, foi convidado. Sartre discorria sobre o marxismo, comendo jabuticabas que a dona da casa providenciara numa tigela, da forma mais blasé possível. Eis que ele olhou o público presente e perguntou:
““E os negros? Onde estão os negros?””.
“O gênio não vira, nas suas conferências, um mísero crioulo. Só louro,
só olho azul e, na melhor das hipóteses, moreno de praia. Eis Sartre posto
diante do óbvio. Repetia, depois de cuspir o caroço da jabuticaba: — ““Onde
estão os negros?””. Na janela um brasileiro cochichou para outro brasileiro:
— “Estão por aí assaltando algum chauffeur”.
“Onde estão os negros?” — eis a pergunta que os brasileiros deviam
se fazer uns aos outros, sem lhe achar a resposta. Não há como responder ao
francês. Em verdade, não sabemos onde estão os negros. E há qualquer coisa
de sinistro no descaro com que estamos sempre dispostos a proclamar: —
“Somos uma democracia racial”. Desde garoto, porém, eu sentia a solidão
negra.”
Sim, a solidão negra. Nos colégios tradicionais que estudei, os alunos negros eram contados nos dedos das mãos. Na universidade frequentada pela elite da Zona Sul do Rio de Janeiro, no fim dos anos oitenta, a mesma situação. Isso no plano social. Quanto ao educacional, ao menos na época que eu frequentava os bancos escolares, muito se falava sobre o pesar e o sofrimento a que os negros eram submetidos. No entanto os movimentos de resistência, que percorrem toda a história brasileira, desde o início da colonização, eram explanados de forma pra lá de superficial. Os negros fizeram muito mais do que sofrer. Arquitetaram alianças, armaram combates, utilizaram táticas de guerrilha, inspiraram-se em suas nações para instaurar modelos governamentais. Zumbi, Ganga Zumba, Ajahi, Zacimba Gaba, entre muitos outros. Essa última merece uma menção especial. Vinda de Cabinda, em 1690, dona de um espírito indomável, foi mandada para uma fazenda no Espírito Santo. Lá foi castigada, violentada pelo senhor, mas curiosamente este a manteve dentro da Casa Grande. Ela então planejou o envenenamento do seu “proprietário com o chamado “pó de amansa sinhô”. Esse veneno era dado aos poucos, para não atrair suspeitas. Envenenamento a longo prazo, feito de “pó de preguiça”, extraído da jararaca. E assim ele matava lentamente. Quando o senhor finalmente partiu dessa para melhor, Zacinda liderou uma fuga em grupo, formando um quilombo às margens do Riacho Doce. Seu trabalho incansável foi construir canoas e organizar ataques a aldeia de São Mateus, libertando os negros recém-chegados, tantos quanto fosse possível.
A história do Brasil sempre foi contada sob o ponto de vista institucional. Independência, República, Abolição, vieram de cima. Ainda que haja algum esforço no sentido de dar voz aos que foram apagados, nos falta uma história de fazeres coletivos, que revele aos brasileiros o seu papel diante dos acontecimentos. Antes que me acusem de estar metendo o bedelho numa história que teoricamente não pertence ao meu lugar de fala, digo que essas digressões nasceram do impacto provocado em mim pelo documentário AmarElo, do Emicida. Diante da arapuca em que fomos metidos em todos os sentidos no finado (espero) 2020, fomos confrontados com uma face nada bonita dessa Pindorama. Bolsonaro foi eleito pelo voto democrático, 57 milhões se sentiram representados por ele. Um país conservador, punitivista, e que o ódio ao diferente se mostra em todo seu terrível esplendor. E por favor, não se digam surpresos. Lembrem que somos o quinto país do mundo que mais mata mulheres, o primeiro em assassinato de lgbts no planeta, a cada três pessoas assassinadas, não por acaso, duas são negras. E isso porque não chegamos nos povos originários, é preciso um texto só para dar a ideia da dimensão da tragédia.
E no meio desse festival de barbárie, concretizado por uma pilha de duzentos mil mortos, surge esse rapaz , nascido nas quebradas da maior cidade da América Latina, não escamoteando a realidade, mas nos lembrando de uma face que já havíamos esquecido. Um Brasil inteligente, criativo, original, antropofágico, tropicalista, trazendo para o presente todas as contribuições dos negros na formação da sociedade brasileira, no campo da música, da intelectualidade, sem perder de vista a crítica e, sobretudo, a RESISTÊNCIA.
Tudo fica mais rico quando se tem conhecimento que os versos de Belchior da música Sujeito de Sorte, que Emicida sampleia em AmarElo: ”Tenho sangrado demais, tenho chorado pra cachorro/Ano passado eu morri, mas esse ano eu não morro” é uma paráfrase de um repente de Zé Limeira, um negro, analfabeto, nascido em Tauá, sertão do Ceará, no fim do século XIX. Era conhecido como o “Poeta do Absurdo”, uma história riquíssima para ser contada em poucas linhas.
E foi assim, navegando nas histórias da intelectualidade negra e da Resistência, que me detive em Oswaldo de Camargo, um dos maiores intelectuais negros vivo, escritor, poeta e ativista de peso. Nascido no interior de São Paulo, filho de lavradores, foi para um seminário onde adquiriu vasta cultura, além de formação musical (toca piano). Numa das entrevistas ele fala sobre o sentimento que permeia sua obra: A solidão. Sentimento definitivamente marcado por ser o único negro na adolescência em meio a 35 alunos. Voltamos a Nelson Rodrigues.
Oswaldo conheceu vários integrantes da Imprensa Negra dos anos 20 e 30 e é um dos estudiosos desse momento. Eram jornais escritos por negros, para negros, reivindicando um melhor posicionamento na sociedade. Entre esses jornais está o Getulino, o Paladino dos Homens Pretos, de 1923, que era publicado em Campinas, interior de São Paulo.
Como eu sempre digo, a vida é uma novela. Para quem não sabe, esse homem que enfrenta o racismo há décadas sem nunca se calar ou baixar a cabeça vem a ser o pai do Sergio Camargo, sim, o da Fundação Palmares. Aquele que diz que não existe racismo no Brasil e que o movimento negro é vitimista. O que vocês não contavam é com essa informação, que foi o fio condutor para que eu soubesse da história da imprensa negra do interior de São Paulo: vocês se lembram do bisavô alemão do Bozo, que ele insiste em falar que lutou ao lado do Hitler, mesmo com as datas não batendo? Eis a verdade dos fatos. O Sr. Carl Hintze, natural de Hamburgo, estabelecido em Campinas, era vendedor de anúncios e assinaturas, possivelmente simpatizante da causa da luta contra o racismo, pelo que pude apurar, do Jornal O Getulino. Taí a prova de que nem sempre o fruto cai perto da árvore. E de que D’us é um roteirista que capricha no plot twist.