por Mauro Nadvorny | 5 jan, 2021 | Crônica
Fique frio – para cada sonho que não se concretiza há um pesadelo que também não (Millôr Fernandes)
Houve tempo de um pesadelo recorrente. Eu aparecia encurralado, de costas para um muro elevado. No horizonte, começava a se formar uma imensa onda e, dentro dela, apareciam tubarões famintos. Como em qualquer pesadelo, meus movimentos estavam em câmera lenta. Impossível tentar uma saída, os tubarões se aproximavam rapidamente, como se tivessem asas. Acordei assustado várias vezes. A cena toda parece produção barata do canal SYFY, que explora o pânico que estes peixes provocam no imaginário, especialmente depois do clássico Tubarão, dos anos 70. Naquele canal, eles povoam ciclones, nuvens, têm duas ou mais cabeças e outros delírios divertidos.
O teatro do inconsciente tem aprontado novos cenários e roteiros nesta pandemia. O mais frequente me joga em alguma rua do centro do Rio, que se modifica em cada sonho. Comum a todos, o final. Acabo num beco escuro, no meio de famílias andrajosas, que me ameaçam. A muito custo, consigo fugir. Poderia imaginar o óbvio. A Covid-19 é semeadora fértil de medos. No entanto, seria uma explicação fácil demais.
A região central do Rio tem muitos significados para mim. Foi lá que meu avô materno conseguiu seu primeiro emprego, nos anos 1930. Vindo da Polônia, com escala em Buenos Aires, exerceu o ofício de alfaiate. Lembro-me do giz com que riscava tecidos e da imensa tesoura que os cortava. Imagino que não trabalhava como Samuel, pai dos Irmãos Marx. Também alfaiate, bastava olhar as confecções para identificar as obras do seu Samuel. O freguês levava camisas com mangas de comprimentos diferentes. As calças não fugiam deste destino assimétrico. Oi vei!
Da modesta alfaiataria na rua da Alfândega, Abrão migrou para a Baixada Fluminense. Comprou uma pequena loja, a Confecções Líder, em Duque de Caxias. Lembro-me das calorosas discussões familiares para escolher o nome do estabelecimento. Vingou o sonho de uma vaga liderança, mais fetiche do que realidade. Anos depois, já aposentado, voltou ao centro. Antes de parar de vez, trabalhou numa loja de aviamentos para alfaiates, ramo hoje engolido por grandes centros de distribuição de linhas, botões e outras miudezas.
A rua da Alfândega, com outras adjacentes, concentrou grande número de comerciantes judeus e árabes. Conviviam em harmonia e as discussões entre brimos acabavam em esfiha, no restaurante Cedro do Líbano ou na Padaria Bassil. Pouco sobrou daquela era. Os Abrão e Salim disseram adeus e foram embora. Se fossem uma música de carnaval, seriam o pierrô-tradição chorando pela colombina-modernidade padronizada. Como diria Noel Rosa: A colombina entrou num butiquim/bebeu,bebeu, saiu assim, assim/dizendo: pierrô cacete/vai tomar sorvete com o arlequim.
A pandemia acelerou o processo de decadência do centro do Rio, iniciado há décadas por administrações desastrosas. Talvez as ruas dos meus pesadelos sejam as de hoje, habitadas pela miséria, pelo abandono e por comércios fechados. Um dos últimos a fechar as portas existia no mesmo endereço desde 1940. Foi a Casa Alberto, chapelaria com clientela de responsa. Despediu-se junto com as leiterias, sebos, bares e restaurantes tradicionais.
Por falar em leiterias, não se trata de chorar o leite derramado. Não defendo, como um célebre personagem de novela interpretado pelo Mario Lago, o ressurgimento de lojas para mordomos. A gente está condenado a administrar o tempo. Quem fica preso no passado, corre o risco de cair na depressão. Pode não parecer, mas o passado é maleável. Ganha a forma das nossas idealizações. Ai, meus tempos, diziam nossas avós, segurando a lombar estropiada.
Só vejo uma saída. Meio irreal, mas sonhar nem sempre dá em pesadelo. Que venham prefeitos apaixonados pela cidade, capazes de mobilizar os cariocas para reconstruí-la. Quanto ao centro, tendo a concordar com o Álvaro Costa e Silva, cronista veterano, dos melhores. É preciso habitá-lo e não demoli-lo. Talvez estejamos precisando de mais bermudas e menos ternos. Nos sentidos literal e poético.
Abraço. E coragem.
por Richard Klein | 31 dez, 2020 | Brasil, Crônica
Capítulo 26
“No Farol da Barra, o encontro é pouco
A conversa é curta, tudo é tão rápido como
se furta”
Farol da Barra - Novos Baianos
A próxima parada era Salvador onde iríamos ficar na casa de uma amiga com quem tinha tido um caso em Mauá. Rochele era mignon e uma gata, seu jeito inocente e sua voz suave escondia um lado selvagem e irresistível. O tom marrom da sua pele e suas feições possivelmente árabes a faziam parecer indiana. Por estar na moda, ela realçava o look usando vestidos soltos e batas e deixava seus cabelos escuros, longos e encaracolados nas pontas fazerem o resto.
Rochele estava hospedada num apartamento perto do Farol da Barra, a Ipanema de Salvador . O bairro era bonito e tinha uma das praias mais bem frequentadas de cidade, o Porto da Barra, o posto nove de lá. Tambem tinha o Farol com vista para a lindíssima e enorme Baía de Todos os Santos. A rapaziada mais antenada sempre ia ali para curtir o pôr do sol. Em frente, havia um espaço livre e grande onde, durante o verão havia shows carnavalescos gratuitos que atraiam multidões. Aquela maravilha ficava a um quarteirão de onde a gente ia ficar.
O endereço perfeito não era o único motivo de estarmos ansiosos para chegar depois de um dia inteiro pulando de um caminhão em caminhão. Além de nos vermos livres dos mosquitos, teríamos um banheiro decente, camas de verdade e ar condicionado. Para mim, ainda havia a possibilidade de reviver o caso e passar noites em companhia feminina para aliviar a seca de Trancoso.
Só que quando batemos na porta, não foi a a Rochele quem atendeu, foi um cara com sotaque francês e jeito de almofadinha.
“Sim, posso ajudarr em alguma coisa?”
Não acreditei, tinha conferido o endereço várias vezes com ela antes de sair do Rio e nenhum francês havia sido mencionado. Por outro lado, a conhecia o suficiente bem para saber que de jeito nenhum estaria morando com um estrangeiro em Salvador.
Decepcionado respondi: “Desculpa, devo ter batido na porta errada.”
Quando o cara estava para fechar a porta, coçei a cabeça e antes de aceitar que a danada tinha me dado o endereço errado de propósito, por via das dúvidas, perguntei: “Por acaso você sabe se no prédio tem uma garota carioca com cara de indiana, baixinha? O nome dela é Rochele. Talvez seja uma vizinha.”
“Ah, a Rochelle!” Ele me corrigiu com o sotaque “certo”. “Si, ela é a irrmã da Bebelle, minha namorrada, está morrando com a gente.”
Ele abriu a porta um pouco mais, mediu a gente dos pés à cabeça e sem parecer muito impressionado, perguntou: “Quem devo anunciarr?”
Me segurando para não corrigir a pronúncia de Bebel, respondi: “Rique, um amigo do Rio, este é Pedro meu camarada de carona.”
“Um momento.”
Ele fechou a porta na nossa cara sem cerimônia. No corredor, a gente ficou olhando um para a cara do outro sem saber se caía na gargalhada ou se chorava. Nem foi preciso dizer um para o outro que a gente tinha achado o cara babaca. Digerindo o ocorrido em silêncio ouvimos o francês bater numa porta. “Rochelle!! Teim uns carras do Rio lá forra parra falarr com você.”
Demorou um pouco, a porta se abriu e a gente ouviu a Rochele responder com voz de sono: “Quem era?”
“Um deles falou que erra teu amigo, Rique.”
A gente ouviu os passos dela chegando e quando abriu porta lá estava ela com o cabelo desarrumado pela soneca me dando um sorriso amarelo. Ela perguntou para o francês, Alain, se a gente podia entrar.
“Clarro, clarro, por favorr, podeim entrrar.”
O arcondicionado na sala estava uma delícia e fazia tempo que a gente não sentava num sofá tão confortável. Depois de reparar na decoração afro-baiana de bom gosto e voltamos a prestar atenção no Alain. “A Bebel foi darr uma volta com umas amigas. Posso oferecerr uma cerrveja? Vinho?”
A cerveja não dissipou o desconforto. Deu para reparar direto que não tinha lugar para a gente ali. Era um sala e dois quartos apertadíssimo. Dava para ver que o quarto da Rochele era mínimo. Mesmo se estivesse sozinho, duvido muito que ele tivesse liberado, ainda mais que não teria motivo para tal. Assim que ficou claro o motivo da nossa visita, ele falou na hora que não dava. Ele tinha razão, o apartamento era organizadinho demais para servir de base para dois malucos. Tinha outra coisa, pelo menos eu não estava com a menor vontade de encarar a frescurada que devia rolar ali. Contudo, nosso anfitrião se revelou mais gente boa que a gente esperava quando percebeu o que a cagada da irmã da namorada.
“Se vocês quiserrem, non vejo prroblema em vocês deixarrem as coisas aqui.” Vendo a decepção ainda estampada nas nossas caras, foi mais adiante. “Podem até vir tomarr banho e cozinharr. Mas vocês eston vendo; o aparrtamento é pequeno demais parra cinco pessoas. Desculpe.”
Depois de um papo estranho no qual poupamos a Rochelle, que não parecia muito arrependida, aceitamos deixar as coisas ali e agradecemos. Depois, descemos com a barraca para ver onde a gente podia acampar ali por perto. Exploramos a área e ficou claro que a única maneira para continuar naquele lugar privilegiado, perto da moleza de ter um chuveiro, uma latrina limpa e um lugar para cozinhar, era dormir no palco.
Por ser o auge do verão, havia shows quase todas as noites ali, o que significava que teríamos que esperar até que todos fossem embora para subir no palco e passar a noite ali.
Foi isso que fizemos. Naquela primeira noite, por volta das duas da manhã subimos lá, desenrolamos os sacos de dormir no piso de madeira e , cansados da viagem, caímos no sono. Para nossa apreensão descobrimos horas mais tarde que não estávamos sós; havia uns mendigos dormindo embaixo do palco. Nunca interagimos, a não ser numa manhã quando um deles, visivelmente de ressaca, saiu para praticar a rotina de ginástica mais esdrúxula que tínhamos visto na vida.
A solução acabou sendo melhor que o esperado. O lugar se revelou seguro, retivemos as mordomias do apartamento do Alain e continuamos num dos melhores pontos da cidade. Talvez por não ter conseguido ficar zangado com a Rochelle, tivemos uma recaída e quebrei o jejum que estava me incomodando. Além disso, as pessoas achavam graça quando a gente explicava onde estava dormindo o que ajudava a quebrar o gelo nas conversas.
*
No segundo dia saímos para explorar a cidade.
No início dos anos 1980 Salvador ainda estava alguns anos atrás do Rio. Mesmo assim, os efeitos nefastos a nova década já estavam começando a aparecer. A era do trio elétrico estava ficando obsoleta e novos gêneros de músicas de carnaval estavam aparecendo. Nos bairros populares, o reggae havia tocado os ouvidos, corações e mentes da comunidade culturalmente dominante na cidade: a afrodescendente. Nela, uma nova forma nova e adaptada de se tocar o ritmo jamaicano tinha surgido misturando o samba e o reggae, o samba-reggae. Esse genero dominava a cidade e onde quer que passassemos, quiosques, vendas, carrinhos ambulantes e pessoas comuns tocavam essa música alto para que todos pudessem ouvir, seja em rádios ou em toca-fitas .
O maior expoente do gênero era o Olodum, uma banda do Pelourinho, o bairro mais antigo de todo o país e um ícone da cultura afro-brasileira. No passado, as autoridades usavam sua praça central para punir publicamente escravisados mal comportados, fugidos ou revoltosos. Existem relatos de homens recebendo mais de cem chibatadas, molhando o poste de sangue e suor e depois tendo sal esfregado em suas feridas. Ao contrario do que acontecia em outras cidades pelo mundo onde os casarões das suas partes históricas eram habitados por cidadãos abastados, agora, os descendentes daqueles mesmos escravos moravam nas casas dos antigos opressores. A Unesco tinha inclusive tombado a área como patrimônio histórico mundial em 1985. O Olodum galvanizava essa herança em forma de música com orgulho das suas raíses africanas. Seu som reverberava por toda Salvador. Mais tarde, o a banda ganharia atenção internacional ao gravar com Paul Simon e Michael Jackson.
Por outro lado havia a novidade musical das bandas mais voltadas para o público branco e bem de vida que usavam teclados eletrônicos, caminhões futurísticos, aparelhagem de ultima geração e dançarinos performáticos numa tentativa de reinventar o trio elétrico. Elas eram bregas até dizer chega, tocando uma mistura facilmente digerível de salsa, soca e outros ritmos caribenhos. Fiquei aliviado ao saber que o Trio Elétrico de Dodô e Osmar e blocos afros e de afoxé como o Ilê Aye e o Filhos de Gandhi ainda estivessem ativos. Tivemos a oportunidade de vê-los juntamente com o Olodum e outros blocos tradicionais em eventos pré-Carnavalescos. Só que nenhum deles chegava aos pés do encontro dos trios que tinha presenciado quando fui com o Maurício.
*
por Mauro Nadvorny | 28 dez, 2020 | Crônica
Espaço. Grande espera. Ninguém vem. Esta sombra. (Alejandra Pizarnik, poeta argentina)
As portas haviam fechado fazia horas. Ele se recusava a ir embora. Tantos chopes, tantas rodas de samba, tanto olho no olho, tudo agora é passado. Jazia estropiado. A fantasia de Homem-Aranha que vestia piscava para uma vassoura velha, as piaçavas gastas faziam dueto com seu olhar distante. O Vaca Atolada, boteco das antigas, se foi. Como é que deixaram acontecer? O super-herói vai ter que baixar em outra freguesia. Os caminhos da confraternização, do encontro, da paquera, do álcool sem culpa, dos tremoços, do ovo cor-de-rosa, do pastel de vento, da humanização do concreto, estão cada vez mais estreitos neste triste país.
Em meio a um impasse civilizatório, este ano flerta com o Inferno. O poeta João Cabral de Melo Neto estudou no Colégio Marista, em Recife. Sentia tédio nas aulas de religião, dizia não acreditar nem no céu, nem no purgatório. “Mas acredito no Inferno”, desconsolova-se. A espezinhar o pós-vida, a imagem de seres maliciosos, com tridentes, potes ferventes e tudo o mais, invadiu seus maiores temores e sentou acampamento pelo resto da vida. Com toda a carga de culpa em que as religiões são especialistas. Na avaliação do poeta latino Lucrécio, a coisa é um pouco diferente: “Aqueles suplícios que dizem existir no profundo Inferno estão todos aqui, nas nossas vidas.” O fechamento do Vaca Atolada e de milhares de pontos de encontro tradicionais é testemunha da perda de referências, que traz frustração, desencanto, solidão, tristeza. Quem precisa morrer para entender isso?
Não vale a pena fazer uma lista de todas as sombras que tornaram 2020 um ano amargo. Fico em duas, que estenderão seus tentáculos por muito tempo. As queimadas na Amazônia e no Pantanal mostraram Tânatos em toda a sua exuberância. Não satisfeita em dizimar o tecido social, vitaminando o ódio, a quadrilha macabra do Planalto ajudou a devastar os biomas mais ricos do planeta. Ao lado da destruição física, consolida-se o atraso mental, igualmente nefasto.
A ocupação de espaços por denominações evangélicas ultrarreacionárias faz a engrenagem civilizatória emperrar. Conquistas sociais importantes estão sob ataque. A pastora Elizete Malafaia, esposa do Silas, deitou falação na Folha de S. Paulo. Ela lidera cultos para mulheres, nos quais repercute preconceitos desautorizados pela OMS (como a tentativa de enquadrar o homossexualismo como “distúrbio”) e defende a “mansidão” das mulheres (traduzindo: as mulheres devem abrir mão do protagonismo na vida conjugal, submetendo-se aos caprichos e desejos do homem). Quando li a matéria, me lembrei dos judeus ultraortodoxos que vi em Jerusalém. A hierarquia era visual. Na frente da família, que se dirigia à sinagoga, vinha, destacado, o homem. Em seguida, os meninos e, no final da fila indiana, as mulheres e as meninas. Não se trata apenas de repudiar a intromissão da religião no espaço público, a promiscuidade religião-Estado. É uma luta necessária no dia-a-dia, contra a superstição, o fanatismo e o atraso adornado por belas palavras.
Para não ficar muito azedo, tenho que saudar uma enorme vitória do engenho e da criatividade do Homem. Uma cápsula espacial japonesa perambulou por seis anos pelo Sistema Solar e trouxe de volta amostras do asteroide Ryugu. O corpo celeste, com 4,5 bilhões de anos bem vividos, poderá revelar, entre outras belezinhas, a origem da vida na Terra. Foram apenas 100 ml de material recolhido, que ajudarão a saciar uma curiosidade milenar. Todo o projeto é a antítese do vento medieval que surrou o planeta neste ano.
Dizem que entramos na era de Aquário. Um longo período de amabilidade, luminosidade, bondade, serenidade e outras rimas. Data venia, discrepo. Nada há no horizonte que permita otimismo. Para estimular a soldadesca, a burguesia jurou que a 1ª Guerra Mundial era a “guerra para acabar com todas as guerras”. Duas décadas depois de seu término, novo conflito resultou em dezenas de milhões de mortos. Desde então, não se passou um único dia sem que, em alguma parte do mundo, acontecesse um conflito. Em maior ou menor escala. Os tacapes estão sempre agitados, apesar das polianas. Que elas argumentem com os generais que Júpiter está alinhado com Marte e a paz reinará entre os povos.
De resto, em 2021 e depois, nos resta viver. Que é, cada vez menos, assunto para amadores.
Abraço. E coragem.
por Richard Klein | 26 dez, 2020 | Brasil, Comportamento, Crônica, Opinião
Quem passava o verão em Porto Seguro eram turistas convencionais do Brasil inteiro. A gente estava ali para se juntar à malucada de Ajuda e Trancoso, por isso dois dias depois estavamos de saida. Só que o retorno foi decepcionante. O paraíso de dois anos atrás parecia um outro lugar. Agora a principal atividade era o turismo. A temida luz elétrica já havia chegado e, com uma balsa melhor, havia carros estacionados por tudo quanto é canto. A vila estava abarrotada e tinha se tornado muito mais estruturada com bares mais elegantes, restaurantes e pousadas exclusivas. É claro que a inflação de vinte procento ao mês tinha chegado lá também e tudo estava mais caro. Cheguei a perguntar por pescadores que conhecia e descobri com tristeza que a maioria tinha deixado o vilarejo depois de vender seus barcos e suas casas a preço de banana.
Para mim, a santidade do lugar estava sendo ofendida pelo clima semi urbano e por cortes de cabelo estilo anos 1980 e a maquiagem gótica que alguns visitantes – e até mesmo alguns jovens da terra – estavam usando . Não queria ter contato com a maioria das pessoas ali e o sentimento parecia mútuo.
Para piorar as coisas, comecei a reparar que a agenda do Pedro na viagem era a de se enturmar com o pessoal mais “interessante”, leia-se mais abonado, ligado às artes, à neo-sofisticação mística-zen e em produtos alternativos. Essa turma era mais velha e com vidas estáveis. No geral estavam o mesmo circuito que a gente, só que de carro e parando em pousadas confortáveis.
Em Ajuda havia agora uma hierarquia ditando que aquele grupo era melhor que o resto. Eles alimentavam esta percepção se isolando em pousadas exclusivas e em praias afastadas, igual ao que o Gabeira tinha feito a dois verões passados. Para Pedro, seu público alvo era uma porta de entrada para um mundo de conforto financeiro e de sucesso profissional. Não que tivesse qualquer coisa contra aquelas pessoas, mas amizades por interesse não tinham nada a ver com o que estava fazendo ali.
À noite, com todos relaxados pelos dias mágicos daquelas praias, as pessoas se juntavam em rodas de violão num espírito mais comunal. Afinal de contas, esse sentimento era o motivo pelo qual todos tinham viajado de tão longe. Nessas horas, ficava claro que todos estavam atrás de uma experiência parcida com a que eu tinha tido na primeira vez, só que para mim aquela energia já tinha alçado voo.
Contudo, a magia eterna da música continuava viva e com esforço e sinceridade dava para fazê-la presente de novo. Naquele segundo verão em Ajuda, já tocava faziam cinco anos. Tinha melhorado a técnica e tinha incluído um monte de músicas e estilos novos no repertório. Também estava começando a dominar as manhas de cativar o público, algo aprendido em rodas e festinhas da escola e agora da faculdade. Quando um pequeno público se juntava a volta, era com o maior prazer que tocava noite à fora. Com alguns bares agora pagando músicos amplificados, as sessões aconteciam na praia onde a luz elétrica ainda não tinha chegado. Era comum encontrar um ou outro cara com um instrumento. A gente saía tocando e o pessoal ia se chegando. Se rolasse o clima certo, saía cantando.
Começava com músicas mais intimistas e psicodélicas como Terra, de Caetano Veloso, Caravana, de Geraldo Azevedo e Chão de Giz, de Zé Ramalho. Conforme a atenção ia aumentando, tocava algumas do Milton Nascimento, do Beto Guedes, dos Secos e Molhados, do Fagner e do Belchior. Depois de estabelecer o clima, introduzia uns clássicos da bossa nova como Wave e Garota de Ipanema. Do início suave, engrenava numa parte mais ritmada: músicas dos Novos Baianos e do Djavan, forrós de Luiz Gonzaga, algum rock nacional da Rita Lee e do Raul Seixas. Animado e cantando junto, o pessoal estava pronto para sucessos mais ritmados do Gilberto Gil e do Caetano Veloso. Com todos em ritmo de festa, mandava canções carnavalescas de Alceu Valença e de Moraes Moreira e para fechar a noite recorria ao Jorge Ben.
Havia vários músicos na area. Às vezes, não era eu no volante e quando isso ocorria fazia o mehor para adicionar lenha à fogueira música para que a magia acontecesse e que Ajuda voltasse a ser Ajuda. Era uma alegria sentir as pessoas serem maiores do que a aura negativa tomando conta do pais, voltando a ser elas mesmas e curtindo junto sob o céu estrelado.
Nem todos apreciavam a este experiência. Ficar ouvindo um violeiro acústico era considerado ultrapassado por muitos, principalmente pelos mochileiros heavy metal acampados no mesmo terreno baldio onde outrora tinha dividido a cabana com as brasilienses. Durante o dia, o clima era horrível: a praia vivia lotada e barulhenta. Gente das cidades vizinhas chegava de carro e, para se mostrar, ligavam o som nas alturas colocando música para lá de brega. Na vila, havia muita gente agressiva, ninguém se conhecia direito e o pessoal da terra estava antipático e dinheirista. O Arraial d’Ajuda estava estragado e queria ir embora. Trocar Ipanema por aquilo não fazia sentido.
Não era possível que Trancoso fosse dar tanta decepção. A eletricidade ainda não tinha chegado lá e o acesso continuava difícil. Mesmo se esbaldando em encostar no monte de gente “interessante” passando o verão em Ajuda – que eram as pessoas que mais gostavam do que eu tocava – Pedro também estava de saco cheio de ser tratado como um turista. Foi fácil convencê-lo de que se trocassemos de vila, a experiência seria mais autêntica, mais em conta e haveria um número igual ou talvez maior de pessoas “interessantes” para conhecer.
*
Dessa vez não foi necessário cruzar rios profundos no meio do nada e no escuro, afinal tínhamos uma barraca que montamos num canto do quadrado assim que chegamos. Contudo, as coisas haviam mudado em Trancoso também. Não encontrei ninguém conhecido e até o dono do bar havia mudado: Seu Manuel tinha sido substituído por um sujeito sizudo e antipático de Eunápolis.
Em nossa primeira noite tivemos uma introdução à nova realidade. Estava dormindo e o Pedro me cutucou: “Aê, Rique, tu ouviu isso? ”
Confuso e meio puto por ter sido acordado perguntei: “O que?”
Ele sussurrou: “Tem alguém mexendo com as nossas paradas lá fora.” Fiquei alerta na hora. “Shhh, abre a barraca quietinho e vamos pegar esse merda agora.”
Segurei no zíper da barraca e abri o mais rápido e mais silencioso possível, só que o cara ouviu, tomou um susto e saiu correndo. Quando conseguimos sair da barraca já era tarde demais. O louro falso de cabelos encaracolados e de shorts já estava longe, correndo protegido pela luz da lua.
O Pedro ainda gritou: “Volta aqui, ladrão filho da puta!”
A gente tinha dormido com nossas carteiras dentro da barraca por precaução. De qualquer forma, fomos checar as mochilas e foi um alívio ver que ainda estava tudo lá. No dia seguinte, vimos o ladrãozinho na praia todo enturmado jogando vôlei com a moçada. Como não podíamos provar nada, a única coisa ao nosso alcance foi ficar encarando ele com a cara fechada, o que ele fingiu ignorar.
Tomar cuidado para não roubarem minhas coisas não foi a única coisa que aprendi naquela noite. Quando começou a clarear me dei conta que os mosquitos de Trancoso usavam as barracas dos campistas como centros de convenções. A claridade revelou um tapete deles cobrindo as paredes de nylon. Da outra vez, não tinha sido assim no barraco no meio do mato, devia ser o abafado quente que os atraía. Depois de ver aquilo não dava mais para dormir ali dentro. A única maneira de conseguir algum alívio foi sair com o saco de dormir, se deitar na sombra de uma casa e deixar que o vento os levasse.
*
Ao contrário de mim, um vara pau desengonçado em quem se podia contar as costelas e com cara de viajandão, Pedro tinha o corpo de um jogador de polo aquático. Com olhos pequenos e maliciosos, voz grave, pele cor de caramelo e cabelos encaracolados meio louros, ele fazia sucesso com o sexo oposto. Com um talento natural para aquilo, era supertranquilo, ia direto ao ponto e sabia as palavras certas e a hora certa de dizê-las.
Depois de uma semana e pouco no Sul da Bahia, os insetos e os ladrões não eram as únicas coisas me incomodando: minha falta de sucesso com as mulheres comparada com os triunfos dele estava difícil de digerir.
À noite, enquanto ele se dava bem, quando não estava tocando e todos estavam se divertindo perto de fogueiras, ocasionalmente a seriedade da minha situação fora dali tomava conta de meus pensamentos. Como seria o futuro naquela faculdade que não era para mim? O que aconteceria com a crise econômica cada vez pior e com a idade do meu pai avançando? Onde estava a namorada que se importava comigo e que gostava das mesmas coisas que eu? O quanto as coisas teriam que piorar até que elas começassem a melhorar?
Me sentia como se tivesse alcançado o topo de uma montanha em meio a uma linda paisagem para descobrir que do outro lado havia um depósito de lixo. Aqueles problemas eram como a parede de mosquitos na barraca: podia espantá-los temporariamente, mas eles voltariam não importa o que eu fizesse.
Muitas pessoas estavam na mesma situação: essa era uma geração de classe média órfa da prosperidade e da ideologia libertária e igualitária dos anos 70.Agora estava desprotegida da crise econômica e despreparada para lidar com ela. Alguns nos viam como um nicho de mercado. Um dos exploradores era Rajneesh, atualmente Osho, um guru indiano radicado nos Estados Unidos. Em Trancoso, só se falava dele. Baseando-se na psicologia ocidental e em filosofias orientais, ele pregava que o caminho para a iluminação espiritual era através da aniquilação do ego por meio da exaustão da libido. Criador de uma seita mundial em torno dessas teorias, suas terapias tinham forte conotação sexual, algo que duvidava ser autêntico na sociedade tradicional hindú. Naquele verão havia inclusive vários iniciados e iniciadas usando camisa/uniformes laranjas e carregando um colar de contas com a sua foto. Cheguei a ler alguns do seus livros; eram tão bem escritos que cheguei a ficar tentado a participar – muitas gostosas estavam fazendo isso – mas o preço exorbitante dos encontros e estadias nos seus Ashrams me convenceu a ficar de fora.
Havia paralelos entre a filosofia do mestre indiano com o discurso do Gabeira. Os dois pregavam mudanças pelo uso do corpo. A diferença era que o ex-exilado estava interessado em se promover como autor e como político enquanto a seita era voltada para tirar dinheiro dos seguidores. Encontramos pessoas que tinham chegado a conhecer Rajneesh, ou o Bagwan, pessoalmente no seu centro gigantesco no estado do Oregon, nos Estados Unidos, um caro privilégio. Elas falavam em cair aos prantos ao ver seu olhar “penetrante e amoroso” que havia “libertado suas almas”.
*
As praias de Trancoso continuavam maravilhosas, bem mais tranquilas do que as de Ajuda. Igual ao que tinha acontecido na minha ida anterior, todos frequentavam de dia. Ficávamos sentados – a maioria brancos de centros urbanos – conversando, olhando para o horizonte azul claro e curtindo a brisa suave nos refrescando enquanto balançava as árvores e o verde logo atrás. Num flagrante contraste com minha primeira visita, ao invés de falar das maravilhas do aqui e agora, o assunto principal eram os livros daquele guru estrangeiro, velho e barbudo e as suas terapias tântricas para alcançar a iluminação espiritual. Nas cabeças daquelas pessoas ele era o único que, por uma quantia fixa, podia deixá-los em um estado de paz semelhante ao que tinha sentido apenas por estar sentado ali há dois verões atrás. Para começar um quebra-pau ou se tornar impopular com a galera, era só lembrar que ele estava desfrutando o seu sucesso em outro país, sendo conduzido de Rolls Royce no seu Ashram dando tchauzinho para seus seguidores que pagavam uma pequena fortuna para estar ali.
Eu ficava na minha, pensando que esse era “o” produto que todos queriam: se desligar da realidade num orgasmo infinito. Isso não era novidade. Vender uma ficção reconfortante como um refugio de uma realidade hostil já era – e ainda é – feito pelas grandes religiões há séculos. Já tinha problemas suficientes com a minha para brigar com os outros por causa disso.
Era compreensível que em um lugar com Trancoso, ninguém quisesse falar sobre suas angústias naqueles tempos sombrios, mas para que ficar falando o tempo todo sobre o Rajneesh? Meu instinto me dizia que as infelicidades, como as daquele momento, estavam além do nosso controle, da mesma forma que as bênçãos que havíamos recebidos nos bons tempos. Tínhamos o poder de decidir como reagir aos contratempos, mas nenhum guru ou pílula mágica poderia abrandar o que o destino tinha guardado para nós. Podíamos tentar transformar a realidade. Deixar a realidade nos transformar? Para mim, nunca!
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por Mauro Nadvorny | 25 dez, 2020 | Crônica
A construção de sentido é contrária ao vazio de sentido, que expressa o tédio, melancolia. O vazio é um estado passivo, tristonho, já a construção de sentido é o oposto, é a coragem, o entusiasmo de viver. Toda construção requer bons alicerces, e são dois os alicerces essenciais: as relações amorosas e o trabalho. A criança quando nasce é um antigo futuro sujeito, antigo porque cada um de seus pais tem já histórias que envolvem também os antepassados. Já o futuro da criança está por ser vivido, construído, a partir do nome próprio, no qual estão presentes os desejos inconscientes dos progenitores. Portanto, o bebê já nasce dividido, pois seu nome é posto por outros que não ele. Sua vida é totalmente dependente, não há assim o indivíduo – o não dividido –, mas sim um sujeito marcado pela divisão, pois convive o bebê entre a alienação e a separação. O amor, seja qual for, é sempre ambivalente, portanto convive com o ódio, as relações amorosas são conflitivas. Importante é que uma criança tenha uma base nas quais possa se apoiar, relação suficientemente boa, que ampare diante do desamparo.
A criança cresce e um dia enfrenta o desafio do trabalho. Uma vida independente envolve a construção de uma profissão, que permita sua autonomia. Essa decisão requer muito esforço, não é fácil para ninguém, e a confiança de um caminho é uma longa história, mas os pais, e outros, influenciam através dos seus desejos. Tem sido frequente tentar uma, duas ou três possibilidades de trabalho até o jovem se encontrar e sentir alegria e gratidão. Um exemplo é o que disse Winnicott sobre ser psicanalista: “Agradeço aos pacientes que pagam para me ensinar”. Viver é aprender, a gente está sempre aprendendo, e pobres são os que pensam saber tudo.
A construção de sentido são aventuras, odisseias que acompanham a cada um do nascimento à morte. Quantas vitórias e derrotas, ilusões e desilusões, sucessos e fracassos. São os labirintos surpreendentes, onde se entra num, se sai e já se está em outro. Ocorrem tristezas, até depressões, um vazio de sentido é vivido, tudo perde a cor, o sabor, e a dor toma conta do ser. Uma desconstrução, um pânico de não ser nada ou quase nada, uma perda de norte, de rumo, a gente se assusta.
Uma forma de ter um sentido de ser é se alienar em líderes religiosos ou não e seguir o que eles mandam. Vivem tensões, conflitos, mas buscam seguir os trilhos já abertos pelos familiares ou os mais variados pastores que regem seus rebanhos. São os que perdem a liberdade pela segurança prometida. Construir o sentido é um caminho de incertezas, e conta o quanto cada um foi amado, valorizado, nos primeiros anos de vida. Um dos obstáculos na construção é a compulsão à repetição, a necessidade de castigo através do masoquismo moral.
A construção do sentido de vida depende das parcerias como afirma um ditado zulu: “Uma pessoa é uma pessoa através de outras pessoas”. Quem recorda, quem pode ser grato, é capaz de aprender e construir seus próprios trilhos. No meio do desânimo pela pandemia, ou pelo desgoverno que escreveu na bandeira desordem e retrocesso, três dicas: o documentário “Os olhos abertos”, de Charlotte Dafol, sobre a comunidade do jornal “Boca de Rua” e “Terapia em Vertigem”, do grupo Porta dos Fundos. Finalmente para ver e rever Emicida: “AmarElo – É tudo pra ontem”. Não recebem a primeira página dos jornais mas fazem a história do que não estava no retrato. Construir é compartilhar partilhar, par, parcerias que entusiasmam e, assim diminuem o peso de ser. A leveza permite voar, abraçar e ser abraçado na beleza da imaginação
P.S.: Nos meses de janeiro e fevereiro darei uma folga para nós, mais que justa, e volto na primeira sexta-feira de março. Resistiremos.
por Mauro Nadvorny | 21 dez, 2020 | Crônica
Hora de liberar o Marquês de Sade que cochila dentro de mim. Vou pisar nas estrelas, ou melhor, nos pilantras que divulgam previsões baseadas em astros. Sei que o charlatanismo tem mercado. Como disse P. T. Barnum, salafrário das antigas: “A cada minuto nasce um otário.” Nos Estados Unidos, Meca de todo tipo de quinquilharia e modismo, 30% da população acreditam em astrologia. A mistificação movimentou, ano passado, US$ 2,2 bilhões.
Cada um que lide com suas inseguranças e ansiedades como quiser. Há, no entanto, um limite para isso. Quando se compara a herança de Omar Cardoso com ciência, pulo nas tamancas. Acreditar que os movimentos no cosmos determinam cotidianos e destinos, desenham personalidades e impulsos, faz tanto sentido quanto apostar no terraplanismo, na existência de homenzinhos verdes em Marte e nas previsões do Paulo Guedes. Acham que exagero?
Entre os famosos que morreram em 2020, estão Paulinho (cantor do Roupa Nova), Aldir Blanc, Sean Connery, Flávio Migliaccio, Kobe Bryant e Vanuza. Deviam ter traços comuns, mas um deles era o de serem do signo de Virgem. Em 31 de dezembro de 2019, o que previu para eles, e todos os virginianos (é assim que a parolagem funciona), Adriana Kastrup, celebridade no departamento de adivinhações para trouxas? “Saia de casa, saçarique à vontade, veja os amigos, porque sua senha é: divirta-se! O Sol voltou a brilhar para você. A leveza vai dar as caras e as coisas irão fluir sem tanto esforço.” Leveza, diversão, saçarico. Sei.
Astros, borra de café, búzios, bola de cristal, cartas, tripas de galinha. Não importa a ferramenta. Nenhum dos sábios do ramo conseguiu antecipar, mesmo que por mensagens cifradas, o que ia nos acontecer em 2020. Qual deles sugeriu que um vírus devastador paralisaria o planeta? Quantos dos que morreram infectados pelo coronavírus tinham previsão de leveza, diversão e saçarico? Talvez o universo tenha conspirado para desacreditar os que tentam desvendar-lhe os mistérios. Uma das características das previsões, e me baseio nos textos de madame Kastrup, é o otimismo subliminar. Pachequismo existencial. Sempre, caro passageiro e o tipo faceiro que está ao seu lado, vocês estarão bem. Ou muito próximos de estar.
No caso do Brasil, o ilusionismo barato não antecipou o agravamento da demência nos altos escalões da República. Onde estavam os astros que não nos avisaram que o sociopata assassino desdenharia dos milhares de mortos por Covid? Que o ministro da Saúde não entenderia como a população pode estar ansiosa e angustiada? Que a ministra dos Direitos Humanos não se envergonharia de divulgar documento fraudulento? Que o chanceler se orientaria pelas esquisitices de um vidente esquizofrênico? Que o facínora-mor tentaria isentar armas do imposto de importação, mantendo a taxa, por exemplo, para livros e alimentos da cesta básica?
Para não dizer que é tudo ouro de tolo, houve previsões que certamente se confirmaram. O autor da façanha foi Rabelais, no século XVI. O documento completo, muito bem-humorado e que divulgarei em breve, é “Prognóstico Pantagruelino, certo, verdadeiro e infalível, para o ano de 1533.” Para saciar a curiosidade dos leitores, eis alguns excertos:
“Neste ano, os cegos verão muito pouco, os surdos ouvirão mal, os mudos não dirão nada, os ricos passarão um pouco melhor dos que os pobres, e os sãos, melhor do que os doentes. Vários carneiros, bois, porcos, passarinhos, frangos e patos morrerão, e não será tão cruel a mortalidade dos macacos e dos dromedários. Os que tiverem diarreia irão muitas vezes à privada, as doenças dos olhos farão muito mal à vista.”
“Neste ano haverá tantos eclipses do Sol e da Lua que temo (não sem razão) que nossos bolsos sofrerão de inanição, e nossos sentidos, de perturbação. Saturno será retrógrado, Vênus direta, Mercúrio inconstante. E vários outros planetas não obedecerão ao nosso comando.”
Encerro convocando Ambrose Bierce. Jornalista, publicou, em 1906, O vocabulário do cínico. Dicionário com verbetes sarcásticos, ganhou, cinco anos mais tarde, a versão acabada, então com o nome de Dicionário do Diabo. Dele, extraio a palavra adivinhação (divination): “A arte de farejar o oculto. Há tantos tipos de adivinhação quanto há variedades frutíferas do palerma vicejante e do néscio precoce.”
Abraço. E coragem.