por Mauro Nadvorny | 24 mar, 2021 | Crônica
Relutei bastante em ler o livro O ar que me falta, do Luiz Schwarcz. A depressão do autor e suas múltiplas ramificações, tema central da obra, empilham mais peso na conjuntura em que vivemos. Não é nada fácil enfrentar o Brasil de hoje. Sair à rua é vivenciar um laboratório tóxico a céu aberto, que expande um vírus ardiloso e, não raro, letal. Como não se deprimir sabendo que é brasileiro um em cada quatro mortos por Covid-19 no mundo? Para quê, pensei, vou acrescentar a este quadro coletivo sombrio a história de um repertório de angústias pessoais?
Aos poucos, fui mudando de ideia. Resenhas de gente que respeito mostraram que havia elaborações no texto que valiam uma visita. Já estou quase na metade do livro que, confesso, me deixa meio atordoado e hipnotizado. Como dizia uma amiga, é desses livros que nos leem. Ainda tenho chão pela frente, mas quero dividir com vocês algumas impressões preliminares.
Schwarcz começa a história narrando uma experiência perturbadora. Estava no pico de uma montanha, prestes a esquiar, prática que adora. O ar puro dava-lhe uma sensação inebriante, perspectiva de prazer sem conta. De repente, o barato oxigenado transformou-se em asfixia, a falta de ar transitou para uma profunda melancolia, o presente tornou-se insuportável. Como pode a satisfação virar tão rapidamente o lado do disco e dar passagem ao seu oposto? Foi aí que identifiquei a primeira convergência.
No final dos anos 80, estava com a família num hotel em Friburgo, região serrana do Rio. Nada com que me preocupar, todo o tempo para me dedicar ao ócio sem culpa. Era véspera de Natal e o hotel serviria uma ceia portentosa. Quando nos preparávamos para o banquete, meu estômago trancou. Uma fantasia misteriosa transformou o ambiente despreocupado e faminto num teatro do absurdo, personagens ameaçadores e espectros inquiridores. O máximo que consegui comer foram torradas e, a partir daquele momento, começou uma longa jornada em busca de sentidos e explicações que, a rigor, não acabou.
Como eu, Schwarcz descende de emigrantes judeus da Europa. Rotas diferentes, mas com semelhanças. Seu pai, atormentado por um episódio trágico com o avô na Segunda Guerra, era machista juramentado. No meu caso, o pai machista pressionou a mãe a não seguir carreira profissional. Houve chantagens, discussões, certamente ameaças de separação (pecado mortal para aquela geração; desquitadas eram vistas como pouco menos do que prostitutas, mulheres “disponíveis”). A resistência da mãe, enfim vitoriosa, valeu a sobrevivência da família depois da morte do pai. Os arranjos que resultavam em casamentos infelizes fazem lembrar uma pensata sarcástica do Millôr Fernandes: “Quando vejo a maneira como certos casais conduzem suas relações, me vem logo um pensamento: Deviam ser obrigados a usar cinto de segurança”.
Colocados em posição de filhos-mostruário, perfeitinhos e condenados a alguma forma de ascensão social, eu e Schwarcz seguimos um roteiro cravejado de silêncios, olhos tristes e solidões. Não se trata de condenar os velhos, a vida de emigrante não foi fácil e era natural desejar que a prole escapasse daquele destino. No entanto, o custo de tanta e tamanha falta de diálogo foi alto. Ele jogava bola sozinho dentro de casa, chutando-a contra a parede e narrando grandes defesas aos berros, como se fosse a final de uma Copa (quando saiu para as quadras reais, libertou-se). Eu joguei futebol de botão sozinho, igualmente narrando partidas épicas, e criei um mundo paralelo, de porta fechada (literalmente) e objetivos definidos sem muito diálogo e informação. Demos um jeito na vida, a liberdade possível veio com a palavra. Como diz o ditado inglês, preparamos o pudim com os ingredientes disponíveis. Não dava para ser chef naquelas cozinhas.
Não sei se, como Schwarcz, acumulei culpas por não conseguir consertar o que havia de torto na história pessoal … dos outros. A velha culpa judaica é danada. Ele fala de uma foto antiga, ainda moleque, daquelas posadas para fotógrafo profissional. Sorriso ensaiado. Também tenho foto parecida. Sou quase capaz de lembrar quando foi tirada, numa sala um tanto decadente no centro da cidade. Sem a menor vontade de posar, sorrindo de dor. Acho que ambos saímos do padrão desejado pelos mais velhos e, contadores de histórias, acabamos inventando a nossa própria. Sem ofender a memória, mas recusando torná-la tirana.
Recomendo o livro.
Um abraço. E coragem.
por Mauro Nadvorny | 20 mar, 2021 | Crônica
Brutalidade jardim é uma frase de Oswald de Andrade sobre o Brasil, no poema “Indiferença”. Essa expressão é um paradoxo, pela oposição entre as palavras brutalidade e jardim. Paradoxo é uma figura de pensamento baseada na contradição, sem nexo, mas expõe uma ideia coerente baseada numa verdade. É uma palavra de origem grega, em que “para” é contrário, oposto, e “doxa” é opinião. Paradoxo é opinião contrária, importante em psicologia, filosofia, linguística, matemática, retórica e física. Paradoxo é central na psicanálise, pois nada mais paradoxal que o inconsciente, onde os opostos, não se excluem.
Brutalidade jardim é o jardim, a leveza, flores, plantas, árvores, que contrasta com o peso da brutalidade. A palavra “bruto” tem vários sentidos, como crueldade, estupidez, o oposto da delicadeza de um jardim. Portanto, há mais de um século, o país foi definido, e agora vai sendo aprendido. Hoje há muitas perguntas perplexas diante do maior trauma de nossa História republicana. O governo não seguiu as recomendações do mundo todo contra a pandemia. Cúmplice do vírus que infecta milhões, chegará neste mês a 300 mil mortos. Os poderes e parte do povo colaboraram com aglomerações. Muito do que ocorre hoje é produto dos contágios em festas, praia e carnaval. O presidente promoveu comícios sem máscara, desprezou o covid 19 e agora se sente injustiçado ao ser condenado. Qual é mesmo a história de uma família tirânica, sem planos construtivos para o País? Os Poderes, armados ou não, estão indiferentes com a maldade sofrida pelo povo? Os hospitais estão colapsados, diminuem até os medicamentos essenciais. O Brasil vem sendo chamado no exterior de cemitério do mundo.
Brutalidade jardim foi retomada pelo poeta Torquato Neto na Tropicália com o poema “Geleia Geral”, musicado por Gilberto Gil. Os últimos quatro versos são: “Alguém que chora por mim/Um carnaval de verdade/Hospitaleira verdade/ Brutalidade jardim”. O País viveu a escravidão durante 350 anos, à ditadura militar de 1964-85. Ainda é um verdadeiro inferno a brutalidade contra os negros e os índios, e a crescente desigualdade social.
No sexto círculo do Inferno de “A Divina Comédia” Dante escreveu: “Mais que saber, me é grato duvidar”. O duvidar aqui é a expressão da pergunta simbolizada num ponto de interrogação no final da frase. Há gente que despreza a interrogação, vive da certeza, frio, sem empatia diante das mortes, ironiza os choros dos enlutados.
Brutalidade jardim é uma definição deste país, onde os poderes negacionistas atacam as ciências e são contra a melhor medicina. Até aqui não houve uma programa de saúde na pandemia que, realmente, priorizasse as vacinas. Pergunto: onde estão as forças de segurança na guerra contra o vírus, que já matou várias vezes o que todas as guerras da nossa História mataram? O Brasil elegeu um líder com impulsos destrutivos, e a crueldade anunciada no elogio à tortura e ao assassinato de trinta mil.
Brutalidade jardim poderia se transformar em um jardim do Burle Marx, quando foi o país do futuro. O país jardim é um desejo, o sonho de uma democracia social, um país que priorize a vida e a natureza. O sonho pode ser um compromisso no luto de hoje, na luta pela nossa humanidade amanhã.
por Mauro Nadvorny | 16 mar, 2021 | Crônica
Comentei recentemente uma grave distorção das chamadas questões identitárias. Uma editora holandesa se interessou em publicar no país uma coletânea da jovem poetisa negra norte-americana Amanda Gorman. Marieke Rijneveld, respeitada romancista local, vencedora do Booker Prize, foi convidada para fazer a tradução. Janice Deul, ativista antirracista, bombardeou a escolha e, usando uma alegação típica de setores equivocados do antirracismo, sugeriu trocar Marieke por uma tradutora negra. Como se a cor da pele fosse atestado de excelência literária.
A melhor crítica à atitude de Janice veio do escritor angolano João Melo: “Uma patetice, que reforça o racismo antinegro. A polêmica é uma caricatura grotesca do antirracismo, enfraquecendo a luta contra todas e quaisquer formas de discriminação com base na cor da pele”. O caso me lembrou a obscena censura que a cantora Fabiana Cozza sofreu, em 2018, ao ser convidada para interpretar Ivone Lara numa peça de teatro. Foi “acusada”, por personalidades do movimento negro que perderam a razão, de ser “muito clara” para o papel. Curiosamente, Fabiana, grande amiga de dona Ivone, tinha condições de dar cores vivas e íntimas à personagem. Sem passar pelo teste da melanina.
A lógica estapafúrdia da preferência melanínica contamina a luta contra a discriminação racial. Como buscar alianças, se vigora o veto pela cor da pele? Será que não se aprendeu nada com a História? A emancipação dos oprimidos será, necessariamente, obra dos próprios oprimidos. É verdade. Isso, no entanto, não significa ignorar políticas de alianças. Brancos norte-americanos, com bela participação judaica, foram extremamente importantes na conquista de direitos civis para os negros nos Estados Unidos. Joe Slovo, judeu lituano, militante comunista, foi assessor de Nelson Mandela.
Na área artística, há exemplos inspiradores de superação das barreiras de cor e valorização da cultura. Paul Robeson, extraordinário cantor baixo-barítono, negro, tinha no repertório o Hino dos Partisans, cantado em ídish perfeito. Joshua Nelson, negro, acompanha o grupo Klezmatics numa inesquecível interpretação de Shnirele Perele, também em ídish. Em New York, o Pessach judaico, que lembra a libertação de escravos hebreus do Egito, é celebrado em várias comunidades por negros e judeus, integrados pelo desejo comum de liberdade. Não faz muito, o musicólogo Henry Sapoznik desenterrou uma história muito interessante, que resumo em seguida.
No período entre as duas guerras mundiais do século passado, o bairro do Harlem, em New York, começou a receber um fluxo crescente de negros, fugidos das perseguições do sul dos Estados Unidos. Originalmente judaico, o bairro passou por uma experiência de integração inédita na cidade. Este contato resultou na criação de várias sinagogas por negros. Surgiram cantores litúrgicos negros (hazanim), que cantavam não apenas as orações em hebraico mas, com o tempo, ampliaram o repertório para canções em ídish. Sem perder suas raízes culturais, incorporaram novas modalidades de vida social. Sapoznik recuperou um disco de 1923, com o cantor litúrgico negro Thomas LaRue. Conhecido como der shvartser hazan (o cantor litúrgico negro), atuava no então vibrante teatro ídish e seu sotaque era espantosamente fiel às origens europeias do idioma.
Ainda na área artística, é quase inevitável lembrar de Bruno Ganz. O grande ator alemão interpretou Hitler no filme A queda. Para entrar no personagem, estudou o sotaque da região austríaca onde nasceu Adolf. O resultado foi impressionante, sofisticado, aterrador, e entrou para a história do cinema. Ganz jamais foi nazista. Usando a mesma lógica que baniu Fabiana e Marieke, só um nazista raiz poderia interpretar o chefão nacional-socialista.
A luta contra todas as discriminações, que é também a minha, não merece alguns espiroquetas que a descaracterizam e jogam no gueto.
Abraço. E coragem.
por Richard Klein | 13 mar, 2021 | Brasil, Comportamento, Crônica
Foto: arquivo O Globo
O Asdrúbal herdou a posição de abelhas rainhas da malucada carioca que tinha pertencido antes aos Novos Baianos e depois ao revolucionário chique Fernando Gabeira. Aproveitando essa onda, o grupo resolveu virar promotor cultural e, com a ajuda da prefeitura do Rio, abriu um espaço próprio na forma de um circo de verdade no Arpoador, um minibairro entre Copacabana e Ipanema. O nome que deram foi “Circo Voador”, copiado dos Rolling Stones que tinham feito algo parecido na psicodélica Londres dos anos sessenta.
Enquanto isso, os cursos do Asdrúbal viraram um tremendo sucesso. Havia umas cinco ou seis turmas de cerca de trinta alunos. Quando terminavam, faziam apresentações de peças que eles mesmos tinham escrito com a ajuda de seus mentores. Todas eram boas e falavam diretamente às plateias abarrotadas de jovens. Todo mundo queria vê-las e os alunos mais dedicados continuavam de uma forma ou outra atrelados ao grupo.
Depois de montado o Circo se tornou o palco principal dessas apresentações. Só que a proposta da turma do Asdrúbal ia além do teatro; a ideia era criar um espaço alternativo para todas as formas de expressão. No tocante a música, o circo mudou tudo; com ele veio uma enxurrada de bandas de rock novas. Para a nova geração, as outras casas de shows, além de caras, só se interessavam em cabeludos esquisitos do Nordeste com os quais não se identificavam, bichos grilo, e as já antiquadas estrelas da música popular brasileira.
A piada que corria na boca do pessoal que ia ao Circo era que sob aquela tenda só tocavam dois gêneros: o “rock” e o “roll”.
As bandas que surgiram lá não tinham na a ver com as dos cabeludos viciados barra-pesada dos anos setenta. Agora elas podiam ser, e às vezes eram, de colegas da escola ou da faculdade, amigos e vizinhos. Para nós, não eram estrelas, eram conhecidos, ou conhecidos de conhecidos, eletrisando a moçada com seus instrumentos amplificados. Se o que motivava os shows nos anos setenta era passar algumas horas sem o peso da ditadura e da pressão da família, agora o que motivava essas guitarradas era dar um tempo da crise e o caos curti9ndo uma noitada com bandas sem nenhum conteúdo intelectual mas com muita energia. Aquele espírito se espalhou pelo país e definiu o rock como a expressão cultural da classe média jovem nos anos oitenta.
Olhando para aquele momento em retrospecto, o Circo Voador marcou o fim de uma época em que a Zona Sul do Rio ditava os gostos musicais e culturais para o resto do Brasil. O centro logo se mudaria para São Paulo, onde o mercado era muito maior e a indústria fonográfica era mais estruturada. Como o rock daquela época era umbilicalmente ligado ao que acontecia no Reino Unido e nos Estados Unidos com sua estética urbana, o estilo de vida paulistano tinha muito mais a ver. Brasília também era e marcou presença fornecendo um monte de bandas boas, entre elas carros chefes como a Legião Urbana e os Paralamas do Sucesso. O contato direto de filhos de funcionários públicos de alto escalão com diplomatas de fora e com estadias no exterior, e o tédio inerente à cidade certamente ajudando na formação daqueles talentos.
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Se pertencer a grupos de teatro não tinha me apetecido, o mesmo não valeu ao sonho de formar uma banda. Depois de ir a alguns shows no Circo, tive certeza que tinha condições de tocar para aquele público e decidi ir em frente. Para o desespero dos meus pais, comprei um amplificador barato e uma guitarra elétrica com o pouco dinheiro que tinha sobrado da venda do Blues Boy. Com ela, estava pronto para uma carreira na ribalta do rock.
A mudança do violão para a guitarra elétrica foi como trocar uma bicicleta por uma moto. Agora podia balançar as paredes do meu quarto com uma simples palhetada numa corda. Devido a ninguém em casa estar feliz comigo tinha que segurar o volume, mas nos finais de semana quando meus pais iam para Teresópolis, minha irmã ia para a casa do namorado e Dona Isabel ia para a casa dela, as coisas eram diferentes. Com o apartamento só para mim, me sentindo como um rei louco num castelo miserável, a fera surgia. Ligava a guitarra no apmlificador, colocava o volume no máximo e saía atazanando os ouvidos dos pobres vizinhos.
Comecei a escrever músicas. Usava momentos que aconteceram nos sons que levei durante minhas viagens e novas ideias que foram surgindo. Por um breve momento tive certeza de que esse era meu destino. Tentava misturar rock com ritmos brasileiros. Esse tipo de mistura tinha causado controvérsia nos dias dos festivais quando Caetano Veloso tocou Tropicália com uma banda de rock argentina e foi vaiado. A receita continuou a ser utilizada por artistas nordestinos como os Novos Baianos e Alceu Valença que faziam a versão roqueira das suas culturas regionais e deu certo. Agora, aqui estava eu, um garoto de Ipanema de origem judaica e britânica, trabalhando com a ritmos regionais brasileiros e tentando fazê-los soar como rock pesado. O problema foi que nos anos 1980, o rock e a música brasileira tomaram caminhos divergentes, ambos se tornando mais “puristas” e antagônicos. Bandas fazendo esse tipo de música somente conseguiriam se estabelecer uma geração mais tarde, com artistas como Chico Science e a Nação Zumbi, mas na época minhas fitas cassete com gravações caseiras foram rejeitadas por todas as gravadoras e produtores que as receberam.
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Talvez devido à sua experiência no Nordeste, Pedro também havia abandonado a Economia e resolveu seguir o seu chamado para ser artista plástico. Para tal, se inscreveu no curso de artes do Parque Laje. Foi uma boa decisão. O curso era excelente. As turmas eram pequenas o que permitia uma atenção especial dos professores. Além disso, depois do Circo, esse era o lugar mais badalado da Zona Sul do Rio de Janeiro. A sede do parque, onde davam o curso, era uma mansão enorme em estilo italiano clássico que parecia surreal nos seus arredores tropicais. O palacete tinha sido construído por um milionário no século 19 e era tão bem conservado que atrás dele ainda havia as ruínas de uma senzala, agora transformada numa gruta com camas de pedra cobertas de musgos que causavam calafrios em quem entrasse.
As aulas eram no pátio interno da mansão. Famoso, ele tinha aparecido em alguns dos mais importantes filmes do Cinema Novo, como a obra-prima de Glauber Rocha, Terra em Transe e em Macunaíma, de Joaquim Pedro de Andrade. Nos anos 1970, também havia sido palco de shows e de peças de teatro memoráveis mas por causa da reclamação de vizinhos, tinha fechado. Só que agora, depois de alguns anos de silêncio, o local foi reaberto mais uma vez como um lugar para shows. Nos finais de semana, ele passou a competir com o Circo Voador para atrair os maiores talentos e os melhores corações e mentes daquela geração de cariocas. Na minha adolescência tinha visto shows excelentes ali: Alceu Valença, Zé Ramalho, a Barca do Sol, Egberto Gismonti, Hermeto Pascoal, o Terço, entre vários outros. Nos anos 1980 iria ver Ultraje a Rigor, Ira, Legião Urbana, Camisa de Vênus, Cazuza, Lobão e muitos outros. Por ser da casa, a Blitz só se apresentava no Circo.
Uma das apresentações mais marcantes que aconteceu no Parque Lage, unindo as duas gerações do rock, foi uma do Raul Seixas. Junto com a Rita Lee, Raul era o padrinho musical da nova geração. Os seus temas libertários conferiam aos seus shows uma aura anárquica, quase satânica. Naquela noite, a casa estava lotada. Seu público era especial; havia muitas figuras estranhas que pareciam ter saído do passado, mais a ver com os hippies de Mauá do que com a galera bronzeada do Posto Nove.
Quando Raul subiu no palco uma hora atrasado todos foram ao delírio com a lenda viva. Só que depois das primeiras músicas ficou patente que a idade e as coisas que tinha tomado haviam tido um efeito negativo. Ele estava esquecendo as letras no meio das músicas e parecia meio letárgico. Mesmo assim, o teatro quase veio abaixo quando tocou clássicos como Mosca na Sopa e Gita. O show terminou com a canção Sociedade Alternativa. Como de costume, no final da música Raul recitou as leis que regeriam a tal sociedade alternativa, todas muito legais e cabeça aberta. A última lei, no entanto, foi para causar efeito.
“Na sociedade alternativa o homem terá o direito de matar aquele que o incomode.”
Após mandar a bomba, saiu do palco. A banda parou de tocar logo depois e também foi para os camarins. Aquela frase continuou no ar de uma forma meio incômoda. Um cara com ar de ativista político universitário subiu ao palco e, inconformado com o que o Raul tinha dito, pegou no microfone ainda ligado e protestou.
“Companheiros, descordo do que o Raul disse. Não estamos aqui para cultuar o assassinato, deveríamos estar celebrando a vida numa noite maravilhosa dessas!”
Aquele minidiscurso caiu mal com o público do Raul e veio vaia de tudo quanto é lado.
“Sai daí, seu veado!”
“Vai falar merda pra tua mãe!!!”
“Desce daí, seu filho da puta!”
O cara, um sujeito franzino de óculos e com cabelo black power, continuou: “Podem vaiar, vocês ouviram bem o que o Raul disse? Isso é coisa de animal!”
As vaias aumentaram e alguém jogou uma lata de cerveja nele.
“Isso mesmo, podem jogar lata, mostrem que vocês são um monte de ignorantes.”
Depois do convite, latas, garrafas e tudo mais em que o público conseguiu pôr às mãos literalmente choveram no palco. O teatro era a céu aberto e quando olhava para cima parecia que tinha uma mangueira jorrando projéteis. O cara desceu correndo, o Raul não voltou para dar o bis, mas, mesmo assim, a galera ficou gritando o seu nome como num ritual primitivo.
“Raul! Raul! Raul!”
*
Apesar da cena dantesca, a Escola de Artes Visuais do Parque Laje (EAV) era uma das melhores da cidade. O reconhecimento aconteceu quando o curso que Pedro estava fazendo decidiu juntar forças com a faculdade de Belas Artes da Universidade Federal e com alguns pintores já consolidados, para pintar os muros de concreto do parque. Todos contribuíram com criações incríveis. Aquele exercício ganhou uma cobertura ampla na imprensa e acabaria definindo quem seria quem na “Geração 80”, o movimento mais importante da década nas artes plásticas. O muro do Parque Lage foi a porta de entrada para muitos artistas se estabelecerem como profissionais. Para os convidados já estabelecidos em gerações anteriores, o evento os colocaria sob a égide daquele movimento.
O Pedro pintou um dos pedaços do muro e com isso se tornou um membro oficial da “Geração 80”. Aquilo abriu as portas para que circulasse de cabeça erguida entre as “pessoas interessantes” com as quais sempre desejou se relacionar. Com o seu novo status, agora era o Pedro quem passou a me introduzir a círculos sociais que eram de fato interessantes. Nunca consegui curtir, nem respeitar, muito menos usar cortes de cabelos chamativos e artificiais e roupas vanguardistas. A despeito disso, com o preconceito fora da equação, descobri muita criatividade e contestação por trás das máscaras, apesar da superficialidade das comitivas. Dessa forma, me tornei um participante periférico da nata da estética dos anos oitenta que me haviam estragado o Nordeste.
…
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por Mauro Nadvorny | 13 mar, 2021 | Crônica
Nas águas de março há lágrimas pelos mortos na pandemia. Para cada morto tocam sinos silenciosos, ainda assim os frios, indiferentes, não se tocam. A nova guerra que o país e o mundo enfrentam é contra os vírus e a vitória vai tardar, mas chegará. Tem países que avançaram mais, vacinaram cedo, já outros seguem lentos, com pouca vacinação, poucas medidas profiláticas. O ser humano leva tempo para confiar nas ciências, muitos a negam, desprezam o conhecimento. Há um sentimento de apatia diante da crueldade, uma das dimensões da pulsão de morte. Outro aspecto da poderosa pulsão são as mortificações, expressa em lamentos, são os perseguidos pelos sofrimentos. Também há os que negam a morte, festejam e depois morrem por covid como contou uma mãe sobre a morte do seu filho.
O conhecido cientista Miguel Nicolelis disse à “El País” no dia 04/03/21: “O país está entrando numa guerra explícita e podemos ter a maior catástrofe humanitária do século XXI”. Faz a previsão que podem morrer de duas a três mil pessoas por dia e isso porque em 2020 o governo brasileiro não comprou uma só vacina! Já o fundador da Anvisa, Dr. Gonzalo Vecina Neto, médico sanitarista e ex-secretário Nacional de Vigilância Sanitária, afirmou que se o Brasil tivesse vacina, o Sistema Único de Saúde poderia imunizar até 60 milhões de pessoas por mês. Entretanto, nada disso ocorre, o sistema de saúde do país colapsou.
No meio da brutalidade brasileira, ainda se abrem tempos de delicadeza. Os trabalhadores da saúde hoje arriscam suas vidas para salvar vidas, são os novos heróis, eles estão na linha de frente. Não é preciso mais tanques, metralhadoras, aviões/portaviões. Os inimigos hoje são os vírus e contra eles o país precisa de vacinas já. Tem outras armas essenciais para se evitar as mortes, que os médicos competentes do mundo defendem: máscaras, distanciamento, higiene das mãos. Essas são as recomendações de todos infectologistas, e epidemiologistas. O país durante um ano de pandemia quase não seguiu as ciências, ao contrário.
O Presidente e seguidores não usaram máscaras, desprezaram as vacinas e se aglomeraram. São os aliados do vírus porque estimularam sua propagação, com condutas de descaso dos conhecimentos mundiais de combate ao vírus. Foi uma política de morte que multiplicou as mortes.
O governo devia ter comprado setenta milhões de vacinas no ano passado, mas desprezou a pandemia, e essa atitude é definida, pelos especialistas, como sendo fatal. O Presidente várias vezes a debochou dos que choram por seus mortos chamando de maricas, de até quando vamos chorar? Já as poderosas Forças de Segurança silenciaram diante da nova guerra, assim como as associações da saúde. O Brasil, segundo a Organização Mundial da Saúde, vive uma tragédia que nessa última semana chegou a onze mil novecentos e trinta e cinco mortos. É o país que hoje mais morre gente por covid e assim podemos chegar a trezentos mil mortos em menos de três semanas.
Para preservar a humanidade, os mortos precisam ser lembrados, os sinos silenciosos devem tocar. Os heróis hoje na guerra, não são os militares, os heróis são os trabalhadores da saúde. E convém expressar gratidão aos que praticam o amor e não o ódio.
P.S. O manifesto “Vida acima de tudo” CARTA ABERTA À HUMANIDADE é assinado por: Chico Buarque de Holanda, Dom Mauro Morelli, Leonardo Boff e muitos milhares mais, escreveram que o Brasil é hoje uma câmara de gás a céu aberto.
por Mauro Nadvorny | 12 mar, 2021 | Crônica
Francisco (16/04/1918 – 11/06/2000)
In memória
“Pegue o primeiro avião porque teu pai quer te ver antes de morrer”
Sala de aula lotada, 150 alunos se preparando para o vestibular. Aula de literatura. Ela estava analisando a obra de Milton Hatoum – “Um relato de um certo Oriente.” O coordenador chega e pede para falar em particular. Ela pede um pouco de tempo para finalizar os comentários de um personagem e seus dramas, os metarrelatos. Pede licença aos alunos e vai à sala da coordenação. Todos estavam solícitos e quando ela vê, em uma cadeira, o rapaz que trouxe a noticia, suas mãos tremeram. Jamais alguém viria ao cursinho se não fosse para algo muito sério. Ela sentou abruptamente, e foi logo perguntando, papai? Não houve resposta imediata. O rapaz apenas falou que o voo já havia sido marcado. Ela teria algumas horas para organizar os filhos, cachorros, gatos e a mochila de viagem. Com um olhar e alguns gestos falou, vou e quando voltar continuarei a aula. Foi para casa, fez várias ligações, colocou coisas na mochila sem muita ordenação e um livro… Pegou um jeans surrado, pois era assim que ela usava em dias sem exigências da carreira, camisetas, uma boina, que havia comprado em uma de suas viagens, abriu o guarda vestidos e tocou em todos, havia saudades… Ela sabia que os irmãos não aceitariam sem um bom traje para cerimônia, escolheu o vestido de veludo preto com rendas e detalhes de seda laranja e preta, presente da mãe. Ela amava este vestido, usava-o em poucas ocasiões, como se fosse para eternidade… Falou para os filhos as devidas obrigações, alimentação, escola e horário do dentista, natação. Acariciou os animais e beijou cada filho com muita ternura e falou, a mamãe volta breve. O vovô precisa ver mamãe. Após tantas horas de voos e conexões, a introspecção foi formando e ordenando as mais doces lembranças do pai e sua infância com tantas aventuras e lendas contadas. Lembrou-se de uma que a fez chorar por muitas vezes: “A menina que nasceu no oco do pau.” Essa menina era ela. O pai criava toda a imagética do nascimento, a menina acreditava e chorava… Queria ser filha da mãe e dele. Lembrou-se das primeiras espigas de milho que o pai trazia para ela e sua irmã, transformando-as em bonecas. As vestia com os retalhos das costuras da mãe. Como ele sabia dar-lhe alegrias… No aeroporto de Manaus, que ficou exatamente 6 horas de espera para o próximo voo, ela percebeu um jovenzinho que se aproximou e parecia querer algo, parecia um indiano pelas características físicas. Ela não entendia bem o que ele queria, mas percebeu o frio da madrugada no aeroporto quase deserto. Tirou a echarpe e o cobriu para aquecê-lo, os olhos do garoto ficaram com gratidão e um sorriso pálido apontou em seus lábios. Ela o aconchegou e disse, espere que vou comprar algo quente para você. Ela cruzou o saguão e foi até um dos quiosques. Pediu café e algo para alimentar o garoto. Quando entregou o lanche nas mãos do menino, ela percebeu sua solidão, mas não podia se envolver mais que o possível. Apenas observava-o, mastigava com delicadeza o alimento, como se fosse um ritual. Talvez estivesse viajando ao encontro do pai, não sabia… Lembrou-se da aula pela metade, dos personagens e seus dramas, as dificuldades da convivência familiar, nos segredos tão bem guardados, o afogamento de Emir… Olhou novamente para o menino, que acabara de mastigar o último pedaço do sanduiche e com olhos marejados em lembranças antigas, pensou na dor de sua mãe quando perdera o primeiro filho afogado, que levava o nome do pai. Assunto proibido. Dor quase não tocada por ninguém. Só ouviu sobre a morte tão precoce, muitos anos depois, entre um suspiro da mãe e sua tia, que lhes segurava as mãos. Ficou por muito tempo sentindo saudades do irmão que não conhecia. Criava sempre uma história para este rosto que se transformava. Observando com mais atenção o menino, percebeu uma palidez tocante, quantas histórias poderia ter vivido, quantas marcas poderia ter sofrido… Chegou a pensar que ele poderia ser uma mula (transportando drogas), coisa comum nesse tempo sem lei, afastou o pensamento com as mãos em um gesto desesperado. Ela cogitou várias possibilidades, mas não perguntou nada. Pegaram o mesmo voo para Brasília, ao chegar cada um foi para suas salas de embarque. Ela apenas olhou em seus olhos e disse, tudo pode ficar bem, não sei, mas pode. Tocou em seus cabelos negros e disse adeus. Em Brasília, havia uma movimentação maior no aeroporto, homens de ternos, senhoras elegantes, rostos indiferentes, talvez, a dor alheia. Ela voltou aos seus pensamentos, o pai que estava morrendo, a aflição da mãe e dos irmãos. O pai era o porto seguro. Era o silêncio, a cantoria, as boas rizadas, a fantasia. Era o norte de todos por sua capacidade de ensinar os filhos à importância da liberdade. Ele a chamava de”Vinvim”, comparava-a a este pássaro pela delicadeza de ambos, pequenos, miúdos e tristes. Lembrou-se das prendas que o pai sempre trazia ao voltar das roças, uma pedrinha, uma pena de pássaro, coisas de tesouros de pai para filha. Era assim o amor. Suspira profundamente e as brincadeiras todas chegam a um fluxo de saudades antigas. A conexão demoraria apenas duas horas até Fortaleza, e em questão de pouco tempo Recife, palco de outras histórias juvenis. Chega à cidade em que o pai estava. Olharam-se tão generosamente, os anos distantes, as brigas por telefone, o perdão, o abraço único e forte. Mesmo na cama, as mãos e os braços estavam vigorosos. Não precisou de palavras. Havia a certeza da partida e do bem e do mal que cada um fez ao outo. Os irmãos, na sala ao lado, falavam baixinho para espantar as tristezas, contavam suas histórias, suas conquistas. Eles eram assim. Envelheceram e cada um com seus males da idade e suas receitas prescritas. Ela só sabia que o amor da família era maior que qualquer intriga que um dia os separaram. Ela os amava com suas durezas e certezas. Tudo se encerrou na madrugada. Ele amava alegria e o humor era a característica mais presente em sua vida. No velório, um bêbado veio fazer a festa e o riso tomou conta do lugar e o choro foi se dissipando. De repente, todos falavam sobre as aventuras de Francisco. E Antonino, cantiga de dor e tristeza, que tanto ele cantava, foi lembrada por todos. Ela voltou com a certeza de que Francisco ensinou os sonhos dos carneirinhos no céu aos segredos da floresta. O Norte a esperava.