O Brasil já foi o país do futuro, o país do samba e do futebol, e já foi aplaudido por suas conquistas sociais. Hoje é o país do medo e da dor, um país que mete medo em nós e no mundo, pois quase um terço dos mortos diários hoje ocorre aqui. Algumas revistas internacionais de saúde revelam que há um plano de disseminação do vírus, um plano mortífero.
Diante do perigo hoje de ser contaminado pelo vírus, cada um tem reações próprias em função de sua vida. O medo é uma das seis emoções básicas descritas por Darwin, é uma reação diante de uma ameaça externa, daí esse medo também ser definido como angústia real.
As raízes do medo estão no desamparo, palavra que cresceu de importância na Psicanálise. Há quase um século, em 1926, a palavra desamparo passa a ser a origem das angústias de ameaças e perdas. O País está desamparado diante da guerra contra o vírus, a caminho de 400 mil mortos em pouco mais de um ano. Se no mundo a pandemia assusta, com mortes e doenças, aqui tudo é mais assustador devido ao governo.
O medo nasce com a gente e só termina na morte. Os terrores infantis estão vinculados aos sentimentos de desproteção, de ser vulnerável. O temor mais primitivo é perder o indispensável amor materno do qual se depende para nutrição e amor. A criança vive ameaças de ser esquecido, e às vezes isso é realidade. A criança passa por uma longa dependência, o que dificulta a conquista da liberdade. O medo da liberdade integra o ser humano através da servidão voluntária diante do autoritarismo. Também o medo da solidão, da autonomia, pode aglutinar as famílias. Outro exemplo são as massas artificiais, como a Igreja e o Exército, onde há amparo e submissão.
Nosso medo hoje é das pessoas quando se aproximam a menos de dois metros, e pior ainda se estão sem máscaras. Vivemos distantes de familiares, amigos, conhecidos, vizinhos, e no súper a gente busca ir pouco e ser rápido. Tudo porque o vírus precisa de um hospedeiro para viver, e nesse momento no mundo o vírus da Covid-19 e suas variantes já infectaram muitos milhões de pessoas e mataram alguns milhões.
Vivemos tempos traumáticos, trazer o ontem para o hoje é essencial para vislumbrar o amanhã. Hoje vivi uma dessas emoções que preciso compartir. Há vinte anos tive a honra de compartir o livro “A invenção da vida-arte e psicanálise” com os amigos de sempre, Edson Luiz André de Sousa e a Elida Tessler. Nós organizamos um livro de artistas e psicanalistas que está fazendo vinte anos. A capa é uma foto do fotógrafo esloveno Evgen Bavcar, e entre tantos ensaios, trago o de René Passeron, artista e poeta francês: “A arte é o curativo do vazio… a arte é a prática do enfermeiro do vazio”. O vazio que pode nos levar ao desespero, a um desamparo medroso, encontra nas artes um apoio essencial. Artes e parcerias na vida aliviam o vazio, dão sentido à vida e a luta, no meio do maior luto que nosso país já viveu. Luta no luto requer artes e parcerias.
Ontem foi o primeiro apagão de protesto silencioso contra as mortes e o descaso do governo. Foi uma resposta de vida para expressar nossa humanidade. O isolamento social aumentou as depressões e as angústias. Morrer de medo, viver com medo, dominar o medo. Quantas vezes a gente tem medo, e que alívio é conquistar, às vezes, um medo sereno é como conquistar o Everest. Entre todos convém aprender a ter menos medo, talvez dominar o medo, diminuir o tédio criando uma vida no meio das mortes. Arte e Psicanálise podem pouco numa guerra, mas iluminam a escuridão como vagalumes.
Olha o muro, olha a ponte, olhe o dia de ontem chegando/Que medo você tem de nós, olha aí… (Paulo Cesar Pinheiro)
É antigo o axioma “jornal velho só serve para embrulhar peixe”. Pode-se expandi-lo para notícia velha, que, num mundo cada vez mais efêmero, acaba sendo quase qualquer notícia com mais de algumas horas. As redes são viciadas em novidades. Dizem mesmo que as crônicas, material ligeiro por natureza, caducam sem passar pela adolescência.
Vou enfrentar este destino cruel e conversar sobre um tema que andou nas bocas semana passada, uma eternidade: os 57 anos do golpe civil-militar de março de 1964. A ordem do dia do ministro da Defesa manteve o mesmo tom de sempre, chamando de “movimento” o que não passou de uma articulação golpista entre caserna, burguesia, setores da classe média e quase toda a mídia. Com apoio nada discreto do imperialismo americano.
Não pretendo ensinar Padre-nosso ao vigário, os que me leem são bem informados sobre o ecossistema político-social que gerou 21 anos de ditadura. Minha intenção é abordar o sentimento que nos embalou na longa noite ditatorial: o medo. Sentimento deslocado hoje para vírus e destemperos criminosos.
No Brasil e em outros países da América Latina que sofreram ditaduras nos anos 60 a 80, divergir podia significar prisão, demissão, exílio ou morte. Ter em casa o livro A capital, do Eça de Queirós, era jogar com a sorte. Algum meganha truculento podia confundi-lo com O capital, do Marx, e a cana era dura. Por precaução, muita gente jogou fora livros “subversivos”.
O clima era pesado, às vezes mesclado com o que hoje parece nonsense. E era. Em fevereiro de 1965, um burocrata de Brasília proibiu a venda de vodca “para combater o comunismo”. No mesmo ano, um time da Alemanha Oriental veio disputar alguns jogos por aqui. O Itamarati, numa antecipação de Ernesto Araújo, distribuiu nota avisando que os alemães só poderiam jogar se as partidas não tivessem “cunho político”. E o que era esse tal de “cunho político”? Tocar o hino nacional antes de cada jogo. Na estreia da peça clássica Electra, no teatro Municipal de São Paulo, agentes do DOPS vieram com um mandato de prisão para Sófocles, autor da peça, falecido em 406 a.C. Em Porto Alegre, mais ou menos na mesma época, os milicos tentaram prender Georges Feydeau, em Porto Alegre. Não conseguiram. O dramaturgo francês tinha morrido em Paris, em 1921.
Saindo do terreno folclórico, sentíamos na censura, nos ambientes de trabalho, na repressão às poucas manifestações de protesto, o medo do imponderável. Um amigo de longa data, estudante brilhante, passou em primeiro lugar no concurso para o BNDES. Foi enquadrado na “lista negra da subversão” e sua contratação vetada. Nas reuniões de pauta do jornal Movimento, que sofria censura prévia e teve uma de suas sedes vandalizada, a gente resistia, mas era evidente a apreensão por eventuais ações violentas dos cães de guarda da repressão. Calouro na Ilha do Fundão, cansei de enfrentar blizes do Exército na porta do bandejão. Os soldados, vocês podem imaginar, não se comportavam como damas. Quem não tinha documento, ia direto para o camburão. Buraco negro no auge do autoritarismo.
Um bom exemplo sobre o que acontecia nas empresas veio à luz num relatório recente. A Volkswagen colaborou, de maneira ativa e sistemática, com o terrorismo de Estado. Espionou os próprios funcionários a fim de descobrir suas opiniões políticas, e documentou a espionagem por escrito. Essa documentação era enviada ao DOPS.
Nunca esqueço o rosto de uma moça que me pediu a página de um jornal. Eu estava num ônibus, lendo as notícias locais. Com o rabo do olho, percebi que ela, ao meu lado, se interessou por uma chamada que falava de presos políticos (ou seria de sequestrados pela ditadura?). Meio hesitante, como quem comete um ato temerário, me perguntou se podia lhe dar aquela folha. Não titubeei. Dei-lhe o jornal inteiro. Em silêncio, compreendemos a importância da cumplicidade singela. Tínhamos medo, mas naquele ônibus longínquo soubemos o que fazer.
Victor Jara tem uma música em que proclama “el derecho de vivir en paz”. Acho que, olhando em retrospecto, aqueles tempos nos ensinam que alguma paz só será alcançada quando tivermos o direito de viver sem medo.
Das minhas mais arraigadas lembranças, não sei precisar que idade eu tinha, duas estão incrustadas na minha memória. Uma é o meu quarto de criança. Havia uma porta de passagem do meu quarto para o dos meus pais. E lá ia eu, que sempre fui chata para dormir, deitar na minha caminha a contragosto. Numa casa cercada por árvores, era natural que os animais notívagos emitissem seus sons. Morcegos, corujas, grilos, sapos e sabe-se mais o que. Minha imaginação inventava milhares de coisas, mas eu segurava, até dormir. Mas aí o problema eram os pesadelos. Até hoje quando falo que algo é muito ruim, chamo de pesadelo infantil. Porque você não sabe delimitar o que é real do que é onírico, no pior sentido. Eu acabava acordando assustada, batendo loucamente na porta do quarto dos meus pais, ate que a abrissem e eu pudesse dormir com eles, onde me sentia segura Esse sentimento ruim, que me tomava por inteiro, tinha um nome: Medo. Foi assim que descobri a palavra. Minha mãe então teve longas conversas comigo, começou a deixar o abajur aceso e dizia que eu não podia deixar esse sentimento me tomar. Deve ter dado certo, porque odeio tanto essa sensação, com tanta força, que raramente fui acometida por ela. A outra lembrança é a do meu pai comigo na janela gradeada do quarto, eu com as pernas para fora e ele me mostrando as estrelas. Foi a primeira vez que ouvi a palavra signo. Ele me explicou que nasci sob o sol de Sagitário, um ser mitológico metade cavalo, metade gente. Como junguiano que é, me contou a história de Quíron. Filho de um deus e uma ninfa, o pai, o titã Chronos, se metamorfoseou em centauro e a ninfa acabou por ter um filho e pela sua forma, se envergonhou dele. Acabou por ser abandonado, mas foi educado por Apolo, o deus do sol, que passou a ensinar a ele poesia, música, ciência (e filosofia, eu não sabia o que era , estou aqui narrando do mesmo jeito que a história me foi contada). O fato é que Quíron cresceu e tornou-se um sábio, especialmente em medicina, transmitindo seus saberes a quem quisesse aprender. Por um acidente, foi flechado no flanco e sua ferida nunca cicatrizava. Ainda assim ele continuava a ensinar, mesmo sentindo muita dor. Segundo o que meu pai me contou, foi Quíron que ensinou a Asclépio , o deus da medicina, a cura para todas as doenças. E foi esse mesmo deus quem perguntou: Mas porque você que sabe a cura de tudo, não sara sua própria doença? Quíron respondeu que para sentir a dor do outro, é preciso que você tenha a própria dor. No fim, eu já triste com o centauro doente, quis saber o que aconteceu. E meu pai me respondeu: Zeus quis acabar com a dor dele e transformou-o numa constelação. A constelação de Sagitário. Quando você nasceu, era ela que pairava no céu, por isso que é seu signo. Daí eu tirei, mesmo sem saber nomificar, que para respeitar a dor do outro, é preciso que você sinta a dor. Só muito mais tarde fui entender que a palavra para isso é compaixão, do latim compassione, que é sentir com. E que não basta apenas sentir, é preciso de algum jeito aliviar o sofrimento de outrem.
Essa rememoração da garotinha que eu fui, bateu forte em mim. Mais de 40 anos se passaram, mas esse sentimento do qual sempre tentei me desvencilhar, pesa sobre a Terra. Deimos e Fobos são agora mais do que as luas do Planeta Marte. Gêmeos , nascidos da união de Ares e Afrodite, Fobos simboliza o terror e acompanha Ares, seu pai, o deus da guerra, para os campos de batalha. Sua função é injetar a covardia e o medo no coração dos inimigos, para que eles fujam. Deimos, que representa o pânico, acompanhava-os e sua missão era fazer as tropas abandonarem a formação e fugirem desordenadamente. Séculos se passaram, mas continuamos recorrendo aos gregos para tentar racionalizar aquilo que não damos conta. ”A emoção mais antiga e mais forte da humanidade e o tipo de pavor mais antigo e mais poderoso é o medo do desconhecido” .
Os analistas dizem que o mundo não atravessa uma crise desse porte, em dimensões planetárias, desde a Segunda Guerra Mundial. É com isso que nos deparamos. Nossa única certeza é que o mundo que conhecíamos não existe mais. O que vem daí, é uma incógnita. Estamos num momento de ruptura, esqueçam a vida que levávamos até março de 2020.
O que me exaspera é que estamos vivendo esse pavor universal no pior lugar para se estar no momento. É como se a história tivesse percorrido um movimento pendular e tivéssemos parado na Idade Moderna. A obra de Bosch, a Nau dos Loucos, exemplificou bem a vertente pessimista do Renascimento e as formulações de um mundo às avessas. Transposta para esse país porém ganhou ares de atemporalidade. O quadro retrata duas freiras, que se divertem com um grupo de camponeses num barco de forma estranhíssima. O seu mastro é constituído por uma árvore com folhas e um ramo partido serve de leme. O mais impressionante nessa obra é a figura de um louco, sentado no cordame, trajando um barrete adornado por orelhas de burro e segurando uma vara (ah a pescaria!), bebendo com sofreguidão. O quadro de Bosch revela a sensação de um mundo em desconcerto, mas se fizermos uma leitura atual com o líder de Pindorama ilustrado, só consigo captar o vertiginoso desatino do mundo medíocre e o ridículo dos homens. Do próprio e de quem ainda o acompanha.
Iniciei o texto falando de rememorações. Hoje os barulhos da mata não mais me causam medo, mas quase quatro mil pessoas morrendo todos os dias, me apavora. E os pesadelos continuam, diários, recorrentes, sem variações: Sonho que estou num lugar repleto de gente, sem máscara. E não compreendo o porque daquilo, fico desesperada pela minha impossibilidade de voltar para casa. Equivale aqueles pesadelos de que você está nu na rua e não entende o motivo . A diferença é que quando criança eu me sentia aliviada ao acordar. Hoje, abro os olhos, lembro que é mais um dia mergulhada nesse lodo e tenho vontade de voltar para o sonho. Se ainda tenho o mínimo de esperança é que esse povo desembestado não tenha que, como Quíron, ter uma ferida aberta no flanco pra entender com todas as letras o que significa compaixão. Porém, diante do que tenho assistido, só me resta roubar o pessimismo de Dostoievski : “Eu penso que se o Diabo não existe, foi simplesmente criado pelo homem, e este o fez a sua imagem e semelhança ”. Sim, dias de amargura.
Pesquisas revelam que cachorros e gatos estão mais valorizados na pandemia. A vida caseira e a falta da convivência humana fizeram as pessoas buscarem a companhia nos animais. Um amigo tinha duas gatas e agora comprou um cachorro, e conta sobre as aproximações e tensões entre os três, que, aos poucos, convivem melhor, e ele se diverte. Nesse clima de pandemia e animais, tenho lembrado do Benjão, o cachorro que veio de outro planeta.
Benjão era de uma coragem invejável, amava a casa, a família, mas gostava das odisseias da rua. Tinha astúcia para escapar, sua alegria estava nas aventuras da rua. Oswald de Andrade escreveu que a alegria é a prova dos nove, e nessa prova Benjão passou fácil.
Benjão herdou a sabedoria de Argos, o cachorro de Ulisses, que, após vinte anos separado de seu dono, já muito velho, o reconhece e só então pôde morrer. Ulisses percebeu seu rosto umedecido por uma grossa lágrima porque esse reconhecimento, no seu disfarce de velho empobrecido, só seu fiel cão poderia perceber. Argos em grego é o que tem luz, e esse encontro emocionante está no canto XVII da “Odisseia”. A quem deseja ler indico a tradução do amigo Donaldo Schüler.
Benjão integra a família dos caninos, e o cão foi o primeiro animal que o homem roubou da vida selvagem e domesticou nas cavernas. A humanidade na relação do homem com o animal que tem um amor irrestrito, amplo, de uma só valência, quando nós humanos somos ambivalentes, amamos e odiamos. Emmanuel Levinas descreveu como um cachorro no campo de concentração em que esteve foi uma expressão inesquecível de humanidade.
Benjão, há vinte anos, partiu contra sua vontade, e hoje o trago em forma de palavras, pois foi o irmão menor que sonhei na infância. Todo cachorro especial é um ser de outro planeta, como disse um amigo sobre seu cão policial Ernst. Benjão um dia desapareceu por dois dias e duas noites e foi uma tristeza geral, mas na terceira noite ele voltou com um pedaço de corda no pescoço na qual tinha sido preso. Foi uma noite de muita festa. Finalmente, fui obrigado a me separar do Benjão, pois nos mudamos de casa para um apartamento e ele não poderia ficar preso. Hoje não teria feito a mudança, porque sempre senti falta do cachorro mais alegre que conheci. Quando me via, ele vinha e deitava sua cabeça no chão e oferecia sua face para que eu passasse levemente meu pé no seu rosto. Era assim que ele recebia seu carinho todos os dias, uma cena que deveria ter sido fotografada. Benjão foi para uma outra casa e lá viveu anos, mas conseguiu cavar um buraco por baixo da cerca e saía todos os dias para passear. Uma vez saiu e não voltou, me contaram, pois alguém vendo ele na rua o levou para sua casa. Como já se passaram vinte anos, ele saiu daqui direto ao paraíso.
Benjão é inesquecível, para todos que o conheceram, tinha tudo que precisamos na vida: amor, coragem e liberdade. Marcou a todos que conviveram com ele. Recordo seu rosto e fico mais calmo, mato as saudades de seu entusiasmo por viver. Enthousiasmos, que em grego é “ser inspirado por um Deus”, e Benjão foi um entusiasmado pela vida.
Benjão sorriso, nunca o vi triste, a não ser quando foi embora em cima de um pequeno caminhão. Não estava triste, mas seu rosto, lembro bem, se inquietou, como perguntando o que tinha feito para ter que ir embora. Benjão está vivo nos corações dos que o conheceram.
Desci no ponto final, na Praça da Sé. Perdido no labirinto das ruas do centro, saí perguntando e consegui encontrar um ônibus que ia para o campus. Àquela altura, tudo o que queria era descolar uma cama para passar a noite e tirar um cochilo. Contudo, quando as coisas estão fadadas a dar errado, elas só pioram. Quando cheguei na cidade universitária, me deparei com um confronto entre os estudantes e a polícia justamente por causa do dormitório onde estava planejando passar os próximos meses. As autoridades do campus tinham intervido e os estudantes queriam o controle do seu espaço de volta. Na confusão fiquei sabendo que por conta daquele atrito não estavam podendo aceitar gente que não estudava ali. Sem saber o que fazer, me dirigi à administração da universidade para explicar minha situação e pedir ajuda. Só que meu ar de playboy e meu sotaque carioca não conseguiram convencer ninguém de que estava em apuros.
Sem outra opção, voltei para o diretório dos estudantes para ver se conseguia arranjar um lugar para ficar, mesmo se fosse para dormir no chão por algumas noites. Quando caiu a noite, a sorte sorriu para mim. Em meio à uma assembleia, cruzei com o Carlinhos, um maluco que conheci em Canoa Quebrada, a paradisíaca aldeia de pescadores no Ceará. Expliquei minha situação e depois de alguns telefonemas, ele me convidou para ficar na casa dele.
Agradeci de coração e depois que as coisas acalmaram pegamos um ônibus e fomos lá. A família morava bem, num apartamento amplo perto da Avenida Paulista com vista de cima para a teia de telhados de São Paulo. A acolhida não podia ter sido melhor, todos eram muito gente boa e a hospitalidade acabou sendo impecável a ponto de ser embaraçosa. Me trataram como se fosse da família: tinha um quarto só para mim, comiamos juntos e depois iamos para a sala de estar para ficar coversando ou assistindo televisão até tarde. Quando saia com o Carlinhos ele me apresentava para seus amigos como um herói. Além disso, tinha a irmã mais velha do Carlinhos, Alice, uma gata, que também tinha conhecido no Nordeste. Ela ficou contente – achei que até demais – em me ver, mas a última coisa que precisava era pôr tudo a perder tentando alguma coisa com ela.
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São Paulo era muito mais sofisticada que o Rio. Em todas as áreas e camadas sociais, os paulistas eram mais profissionais e mais polidos. Para um carioca, tudo era limpo, organizado e funcionava bem: ônibus, sinais de trânsito, metrô, lojas, padarias. Havia mais formalidade e o nível intelectual em geral parecia padrão de Primeiro Mundo. Os jovens não eram os ratos de praia da Zona Sul se achando a aristocracia da cidade, na paulicéia nao havia tempo para aquele tipo de hedonismo arrogante e de pretensão. Seu estilo urbano, descolado porém de pé no chão, se aproximava ao que a gente via da juventude londrina através de revistas e de video clips. O punk e o estilo gótico caiam bem, ali os anos oitenta faziam sentido.
Após uma semana com a família do Carlinhos veio a hora de ligar para casa. Falei com minha mãe, expliquei que estava tudo bem e onde estava com a intenção de acalmá-la. Contudo, como era de se esperar, a reação da Renée foi a de pânico. Minutos depois da gente se despedir e de dar o telefone da casa no caso de uma urgencia, um amigo que estava morando em São Paulo me telefonou perguntando porque não o havia procurado. Larry era um americano com uma história parecida com a minha. A diferença era que tinha um lar nem mais usual que o meu , a família não estava sofrendo com a crise e por ter uma personalidade menos curiosa e aventureira nunca tinha se atrevido a sair dos padrões esperados da sua situação social. O conhecia o das aulas de Bar Mitzvá e da Escola Americana. Pra falar a verdade, tinha seu telefone mas não o havia procurado porque era caretíssimo e um tanto chato. Quando éramos crianças a amizade só existiu por causa da insistência da dona Renée, maravilhada com a posição do pai dele, CEO da filial brasileira de um importante banco americano.
Larry tinha acabado de voltar de Miami. Apesar de seus dois irmãos mais velhos terem se estabelecido por lá, ele não havia gostado e agora queria fazer faculdade no Brasil. Assim que soube que estava em São Paulo, ficou louco para que ficasse com ele pois na sua cabeça eu representava o Rio da sua adolescência surfista. Quanto a seus pais – acreditem se quiser – me viam como uma boa influência pois era bom aluno quando estudávamos juntos.
Tive que aceitar o convite, pois não queria abusar da hospitalidade da família do Carlinhos. Além do mais, Larry também tinha que se preparar para o vestibular da FUVEST e com a ajuda de meus pais, nos matriculamos juntos no famoso curso Objetivo da Avenida Paulista, perto das sedes da maioria dos bancos e das grandes companhias e do enorme apartamento da família do Larry . Materialmente, minha situação ficou excelente: fiquei com um quarto e com comida por conta e com duas empregadas e um motorista à disposicao, não tinha que mover um dedo. Apesar do vazio que sentia e da frustração de ter caído de volta na teia da família, volta e meio me animava a acompanhar o Larry para azarar paulistinhas usando nosso jeito de carioca. Neste quesito o sucesso foi surpreendente.
No dia da prova, não havia praia para nadar na véspera nem o bom presságio de um desconhecido parecido com meu avô me olhando da calçada. Não estava nervoso, mas assim que abri o folheto e comecei a ler as questões, me dei conta de que o vestibular de São Paulo também era um nível acima do Rio. Primeiro, havia um teste de múltipla escolha onde fui bem, mas uma semana depois, teve uma prova específica da área escolhida envolvendo respostas dissertativas e uma redação. Havia matérias que não faziam parte do currículo do Rio e quando confrontado por quatro ou cinco questões dissertativas sobre literatura portuguesa, que nunca havia estudado, não deu para enrolar e tive a certeza de que era o fim da linha para mim.
Essa foi a primeira derrota após uma longa fase de vitórias. Pensei em ficar em São Paulo num quarto alugado por mais um ano para tentar novamente, mas no auge da depressão econômica, até eu conseguia entender que aquela não era uma opção viável. Além disso, as coisas tinham piorado em casa; Rafael tinha sofrido outra parada cardíaca. Senti que era hora de voltar para o Rio para ser um bom filho pelo menos uma vez na vida.
Estava sentado à mesa com um menino de dez anos, talvez onze, no distante ano de 1967. Num momento Antônio captura uma mosca que estava em cima da mesa num gesto veloz. Fico impactado diante da surpresa, e ele permanece com o punho fechado, abre um pouquinho a mão e com a outra faz algo que não vejo. Tudo em fração de segundos, e então joga a mosca em cima da mesa com uma só asa, pois a outra ele cortara. A mosca se debate na nossa frente, e eu, atônito, pergunto ao menino por que tinha feito aquilo. Aí vem a resposta calma e sorridente: “Gosto de ver a mosca se debatendo”.
A condição humana é marcada pela agressividade desde Caim e Abel, o Coliseu, as intermináveis guerras. A luta pelo poder é central, logo a barbárie integra a civilização, como ocorreu na tragédia da Primeira Guerra Mundial, a grande guerra. Foi a partir dela que Freud mudou algumas de suas teorias. Em especial, propôs a pulsão de morte, pensada já no começo de 1919, que nasce das neuroses de guerra, e a compulsão a repetição. Conceito controverso entre psicanalistas, mas baseado em quem esteve na guerra como colegas e os filhos de Freud. Então escreve uma nova teoria pulsional: Eros e Tanatos, Vida e Morte, sexualidade e hostilidade são essenciais. A pulsão de morte não é sinônimo de maldade, o problema ocorre quando ela é separada da pulsão de vida, em uma desfusão. Nessa situação ela se transforma em idealização, projeção e narcisismo das pequenas diferenças, através de violências dirigidas contra si ou ao mundo exterior.
O menino da mosca é um exemplo individual de agressividade para mostrar seu poder e me assustar. A nível social é assustador quando o terrorismo de Estado passa a governar para destruir a vida. É a pulsão de destruição, também chamada de pulsão agressiva, contra o mundo e os seres vivos. Há um amor ao ódio que encontra os irmãos do ódio que sonham com a destruição dos inimigos: raciais, religiosos, políticos. Freud escreveu então sobre a psicologia das massas, o mal-estar na cultura, dedicando-se a pensar não só a realidade psíquica, mas também a vida em sociedade.
O Brasil elegeu um presidente em 2018 que baseou sua campanha no ódio, na guerra que empolgou boa parte dos brasileiros. Na pandemia essa agressividade cresceu no negacionismo delirante, ignorando a boa medicina e as ciências nas suas orientações: distanciamento, máscaras, higiene, e vacinas para todos. O presidente ironizou a covid com piadinhas sádicas, sem graça, a não ser por seu público trabalhou para o vírus e a morte sem ser molestado pelos poderes armados ou não. É uma política da morte, com cúmplices nos mais variados poderes e profissões. O Bolsonarismo não tem solidariedade, empatia, humanidade com os mortos, seus familiares e despreza a maioria do povo brasileiro.
A pulsão de destruição é mencionada no livro de Freud “O Eu e o Isso”. No início do IV capítulo ele escreveu: “…a musculatura e a pulsão de morte se exteriorizam agora – provavelmente só em parte – como pulsão de destruição dirigida ao mundo exterior e a outros seres vivos”. Essa pulsão é a expressão da crueldade que pode irromper em pessoas mais sádicas. As pulsões podem ser sublimadas, transformadas em artes, conhecimentos, amor, diálogos, política. O atual governo não tem uma política de saúde que una o Brasil, ao contrário. O presidente não tem partido, é do partido das armas, da guerra com os governadores, visando a próxima eleição na base da brutalidade sedutora (mimimi, maricas, chorões) e tem gente que ri.
O Brasil é dominado por um governo sádico igual ou pior que a Casa Grande da escravidão. O menino Antônio da história, cortava a asa da mosca, importante é que as asas da imaginação não sejam cortadas pelo apatia, o desânimo, pois o desafio é aprender a caminhar nos perigosos labirintos. Caminhar e construir a esperança contra a destruição e o minotauro brasileiro. Cabe a cada um e a todos nós seguir tecendo o fio de Ariadne.