Dona Marli não voa de helicóptero

A fome contemporânea é a mais violenta da história, pois não é causada pela escassez mas pela concentração de bens (Martín Caparrós, jornalista argentino)

Ainda faltavam dois anos para Gagarin se tornar o primeiro homem a viajar pelo espaço. Sergio Murilo, mastodôntico precursor do rock brasileiro, fase estúpido cupido, sonhou com amores interplanetários em 1959 e gravou Marcianita. Com que tipo de broto marciano sonhava? Um que “não se pinte, nem fume, nem saiba sequer o que é rock and roll”. Tremendo careta, o rapaz. Nada a ver com o espírito libertário dos roqueiros, os requebros de Elvis, the pelvis, as flutuações de Chuck Berry. Marte? Só com a tia solteira tomando conta dos namorados no portão de casa. Socorro, meu santo Hendrix!

Vivíamos numa época sem controle remoto na televisão e nos brinquedos. Rádios transistores eram novidade recente. Aparelhos sem fio? Matéria de ficção científica. Celulares? Chamadas de vídeo? Só mesmo na imaginação fértil dos Jetsons.

Passados sessenta anos, um voo de trinta segundos acaba de promover uma pequena revolução. Na superfície árida de Marte, planeta cuja atmosfera tem menos de um centésimo da densidade da terrestre, o mini-helicóptero Ingenuity pairou sobre rochas e matéria mineral e, com a breca!, abriu um baú de possibilidades científicas. Meu assombro é que a geringonça de 85 milhões de dólares foi acionada a mais de 60 milhões de quilômetros de distância. No curtíssimo intervalo de seis décadas saímos da troca manual de canal, do Bat Masterson para o Repórter Esso, para uma comunicação remota que parece não ter limites.

Trinta segundos. Mas que proeza mixuruca, hein? Bem, eu não diria isso. Lembremos o voo do 14-bis, pilotado por Santos Dumont, em outubro de 1906. Foi a primeira vez que um mecanismo mais pesado do que o ar conseguiu voar com autonomia. Sabem quanto durou? Sete segundos. Percorreu sessenta metros e estava a dois metros de altura. Pouco mais de um século depois, sabemos o que significa a indústria aeronáutica.

Antes de tomar um porre celebrando mais esta prova de engenho e arte do Homem, convém dar uma olhada na dona Marli Oliveira Gama. Moradora da região de Parelheiros, extremo sul de São Paulo, ela é uma das muitas pessoas que, durante a pandemia de Covid-19, perderam a totalidade de sua renda. Passaram a garimpar restos de comida no lixo e a depender da caridade alheia. “Às vezes jogam fora feijão cru, no saquinho, eu pego. Ponho de molho, a gente cozinha”. Sem poder pagar a conta do gás, improvisa um fogão a lenha. “A gente vai vivendo como Deus permite”. A situação é tão dramática que mesmo restos de metal que se encontravam em lixões hoje escasseiam.

Dona Marli está longe de estar sozinha na miséria e na incerteza. A fome atingiu 19 milhões de brasileiros na pandemia em 2020. Cerca de 117 milhões de pessoas conviveram com algum grau de insegurança alimentar no país nos últimos meses do ano. Se ampliar o foco, há 700 milhões de pessoas passando fome crônica no mundo. Caso nada mude, chegarão a 840 milhões, equivalente a quatro Brasis, em 2030. Em contraste, 3% da população adulta são obesos.

Em meio à crise mundial generalizada, a lista de bilionários engorda. Os 2.755 ricaços planetários concentram uma fortuna equivalente a quase 10 PIB brasileiros. Enquanto dona Marli tentava sobreviver catando comida no lixo, o número de bilionários brasileiros crescia quase 50% em 2020.

Luxo e lixo. Ciência de ponta e humanos cozinhando com restos de madeira, à moda de remotos ancestrais. Ingenuity e doses monumentais de adaptação conformada. Um equilíbrio esquizofrênico. Se esta maçaroca não gerar revoluções, nosso projeto como espécie vai para o espaço. E não estou falando de voos espetaculares em Marte.

Abraço. E coragem.

Tenho Comigo as Lembranças do que eu Era…

“And when the broken hearted people

living in the world agree

There will be an answer, let it be

Fo r though they may be parted

There is still a chance that they will see

There Will be an answer, let it be”

Existe a vaidade necrófila, aquela de quem ostenta a árvore genealógica na parede e borda o brasão da família no pijama e nas roupas de cama. Como tudo na vida tem dois lados, existe também a narração do próprio nascimento. Igualmente ridícula. Se você não é a Sasha ou faz parte da família real britânica, isso tem zero interesse. Mas Narciso baixou e vou na onda.

Tudo que escrevo se relaciona a memórias de um tempo que fica cada vez mais distante. Dia desses, minha filha adolescente estudava sobre o processo de redemocratização do país, Tancredo Neves, eleição de 1989 e seus desdobramentos e por um momento ficou impressionada como eu sabia de tudo aquilo sem olhar o livro. Até que caiu a ficha que a mãe além de idosa e fumante, passou a ser testemunha ocular da história. O que valeu para mim a piadinha que sempre faz com os avós: ”Mãe, como era a emoção de ir para o colégio montada num pterodáctilo?”  Fecha o pano.

Desse dia que por aqui aportei, não está na minha memória, obviamente. Narro o que me foi contado. Vim ao mundo com muita pressa. Ou achava ilusoriamente que a saída do útero era pra cair na Disneylândia ou era o inconsciente trabalhando para eu não nascer sob o signo de Capricórnio. Por conta disso minha mãe passou longas 48 horas em trabalho de parto. Quando viram que a criança não dava trégua, optaram por uma cesariana. Chovia torrencialmente. Só quem viveu nos anos 60/70 no Rio de Janeiro sabe o significado disso. Em janeiro de 1967, por exemplo, Nelson Rodrigues perdeu um irmão, a cunhada, duas sobrinhas e a sogra do irmão no desabamento de um prédio em Laranjeiras. Trezentas pessoas perderam a vida por conta daquele temporal. Então nasci, bem diferente dos meus irmãos. Todos foram bebês robustos, eu pesava pouco mais de dois quilos e só tinha cabeça. Mas a vontade de estrear era tão grande, que tirei dez no apgar. Cheguei literalmente aos berros.

Quando digo que nasci em 1970, mesmo no finalzinho do ano, o comentário geral é: ”Brasil, campeão do mundo!”  A bendita Copa do Pra Frente Brasil. Copa esta que nem cheguei a assistir, estava sendo gestada. O que posso dizer sobre esse ano que inaugurou uma década  é que o Brasil vivia sob uma brutal ditadura militar, e foi com o presidente em exercício, Médici, que ela atingiu sua plenitude. Vivíamos num Estado aparelhado para torturar e matar. Curiosa, fui no acervo de O Globo para ver a notícia mais relevante desse 14 de dezembro. Um juiz do Trabalho, defensor das causas dos desfavorecidos, foi assassinado salvo engano em frente a sua casa, com vários tiros. A matéria alegava que ele fora vítima da violência urbana e que a família não queria falar sobre o assunto. Jornais escreviam ficção. O Vietnã pegava fogo, o mundo passava pela crise do petróleo, o Brasil numa puta recessão e a Câmara aprovando a censura de livros e periódicos. Médici prometia o tal “milagre econômico”  e toda e qualquer pessoa que discordasse das arbitrariedades desse governo era perseguida.

Essa curiosidade sobre “o dia em que apareci no mundo”, citando Ary Barroso, foi movida por uma postagem no facebook, em que num clipe apareciam trechos de músicas icônicas do ano que você nasceu. A minha foi Let It Be. Justamente o último álbum dos Beatles.

Nesse mesmo dia, remexendo no quarto da bagunça, achei por acaso a cópia da minha dissertação de mestrado, de 1996, intitulada: ”A Escravidão Negra em Antônio Vieira”. Detive-me em um capítulo :”O Engenho da Ilusão”. A ideia era falar sobre arquitetura, fé e sonhos. Quem me conhece sabe dos meus rolés aleatórios na escrita, mas que no fim chegam a algum lugar.  Aqui reescrevo um trecho:

“God is Dead. Estampada na capa da Times como uma manchete, em grandes letras vermelhas, nos anos sessenta, esta frase traduzia o pessimismo de toda uma geração. As flores não venceram os fuzis, a intolerância germinava nos mais variados cantos do planeta, assumindo formas diversas. Apresentava-se nas ditaduras militares da América Latina, na brutalidade da Guerra do Vietnã, nos campos de trabalho forçados da Sibéria.

A geração que decretava a morte de Deus não era uma geração qualquer. Era a mesma que em escala mundial desafiou a ordem estabelecida, considerada por eles caduca e reacionária. Nunca os jovens ousaram sonhar tão apaixonadamente e mais ainda, nunca acreditaram tanto no poder dos seus sonhos. Os desejos de mudança estavam nos hippies com seu ideal de paz e amor, nos estudantes franceses que arrancavam paralelepípedos do chão das ruas parisienses, para se defenderem das forças policiais, no ato extremo do jovem tcheco na Primavera de Praga, que ateou fogo ao seu próprio corpo a maneira dos monges budistas do Vietnã para protestar contra a Guerra, contra  a falta de liberdade no seu país e por toda a estupidez que ocorria num mundo governado por maiores de trinta anos. Forma de lutas diferentes, mas ideal semelhante. A reformulação do mundo. Este ideal valia mais do que a própria vida e esta era uma questão que ultrapassava as ideologias, era uma questão de fé”.

Não fosse eu mesma ter escrito, lendo hoje, duvidaria que era meu. Não pela escrita em si, mas no que nela contém. Assim que  se deu  o encontro da menina de 25 anos com a mulher de 50. Estranhamento. Hoje me pareceu um tanto quanto pueril e posso citar mil e um defeitos aí, tanto no pensamento quanto na forma. Nesse parágrafo está a admiração de uma guria por uma época que nem chegou a viver. Dividi esse momento com duas pessoas dessa geração, meu pai e o pai de um amigo, figura combativa, do mundo das artes. Copiei esse trecho com a minha letra e gravei um pequeno vídeo.

Esse reencontro da mulher com a moça de 25 anos me despertou riso, críticas (nossa, podia ter escrito melhor), mas me situou no presente. Perdi a crença. A cada volta que o mundo dá me torno mais cínica e desesperançada. Flores jamais venceriam canhões. Já não consigo ver grandeza num jovem atear fogo no próprio corpo por uma causa. O mundo não merece isso. A morte de Janis Joplin e Jimmy Hendrix, justamente em 70, não  tem nada de  romântico. Foram jovens que tinham uma carreira a frente, brilhantes no que faziam, mas que perderam completamente os limites. Ninguém merece morrer aos 27 anos. Hoje sou alguém com mais de trinta. Lá atrás, quando escrevi, nem ouviria o que a Céu de agora acha de tudo isso.

De qualquer forma, ao gravar o vídeo, agradeci a esses representantes daquela geração por influenciarem a menina de longos cabelos encaracolados que escreveu o texto. Ela era cheia de esperanças e tinha um coração cheio de ternura. Aos 25 temos licença poética para sermos ingênuos. Um dia fui assim. E isso é lindo.

Quanto ao mundo de hoje, to de folga dele… Let It Be.

A magia das palavras

Nas origens certas palavras faziam magias, as palavras curavam, eram ensalmos, daí o “Livro dos Salmos”. As palavras aliviam, emocionam, excitam, as vezes são enganadoras e cruéis. Tem os que desejam amarrar as palavras as suas origens, não sabem que as palavras têm vida, sofrem metamorfoses, vibram, pulsam. A magia das palavras está no canto, encanto, sorrisos e prantos. As vezes são torcidas e distorcidas, já outras podem transpor o limite do papel e entrar na vida de quem lê. E assim se cria um vínculo de mistério e beleza, pois com as palavras se contam histórias, se briga e se faz as pazes.
A magia das palavras está numa simples piada, daí a piada ser o modelo das formações do inconsciente como o sonho e o sintoma. O poeta alemão Henrich Heine escreveu: “Quando for velho eu só desejo a tranquilidade de uma casinha na montanha, com um pouco de pão e manteiga, para viver a paz da natureza. Escutaria os pássaros e por uma janela gostaria de ver as árvores distantes, onde estivesse dependurado por uma corda, cada um dos meus inimigos”. O que escrevi só é uma piada para quem sorriu, Heine foi um crítico feroz do prussianismo, o que despertou o ódio dos fanáticos. Quem odiou Heine, hoje poderia odiar os cientistas, artistas, negros, índios, pobres, esquerdistas, os sonhadores de um amanhã. Aliás, uma das mais famosas frases de Heine, que antecipou o nazismo foi: “Onde se queimam livros, acabam se queimando pessoas”. Os que odeiam o conhecimento atacam a vida.
A magia das palavras é o que cada um pode encontrar; lembro o ex-sargento Steinlauf falando à Primo Levi em Auschwitz, ao vê-lo evitar o banho: “Devemos nos lavar sim, ainda que sem sabão, com essa água suja e usando o casaco como toalha. Devemos engraxar os sapatos, não porque assim reza o regulamento, e sim por dignidade e alinho. Devemos marchar eretos, sem arrastar os pés, não em homenagem à disciplina prussiana, e sim para continuarmos vivos, para não começarmos a morrer”. Já memorizei palavras essenciais para Levi viver mais de quarenta anos, após o campo de concentração, e escrever dezenas de livros como “É isso um homem?”.
A magia das palavras está hoje na discussão da palavra genocida. Já li nas redes tanto que o Presidente é genocida, como que não é. A palavra genocídio nasce em 1944 através do advogado polonês judeu Raphael Lemkin para definir o crime nazista e outros semelhantes. Em 1948 as Nações Unidas definem na “Convenção para a Prevenção e Punição de crimes de Genocídio”, ampliando seus sentidos como o ponto c): “Impor deliberadamente ao grupo condições de vida que possam causar sua destruição física total ou parcial”. Genocídio, concluem: “são atos cometidos com a intenção de destruir, total ou parcialmente, um grupo nacional, étnico, racial, ou religioso”.
Brasileiros matando brasileiros não é novidade na História, é só perguntar aos índios, negros, pobres e rebeldes. O país está comandado pelas Forças Desalmadas, é a turma do Robin Hood ao contrário: tira dos mais pobres para dar aos mais ricos. As palavras dos altos poderes perderam o crédito no mundo, não confiam mais nesse país. Entretanto, um dia será recuperado a potência da palavra entusiasmo para impedir mais destruição e a morte. Com paciência ocorre a recuperação da fértil imaginação onde a fantasia e a poesia dançam. Aí as magias voltarão, a magia do abraço, a magia do amor, a magia das conversas e os sonhos para construir o amanhã.

Lembrar para quê?

A morte de qualquer homem me diminui, porque sou parte do gênero humano. E por isso não perguntes por quem os sinos dobram; eles dobram por ti (John Donne)

Sir András Schiff dava uma masterclass na sala Pierre Boulez, em Berlim. O genial pianista comentava as Variações Goldberg, de Bach, que interpretaria em seguida. Com humor fino, perguntou à plateia (reproduzo de memória): Afinal de contas, quantas gravações novas destas Variações serão ainda possíveis? O que poderá haver de novo nelas? Notou-se um leve sorriso entre alguns presentes, já com cócegas no raciocínio. Sir Schiff não respondeu à sua provocação, mas vou expandi-la para outros departamentos.

Há 78 anos, começava o Levante do Gueto de Varsóvia. Todos os anos, esta insurreição armada, a primeira dos judeus contra os nazistas, é lembrada em círculos judaicos. Não foi a única, mas é a mais citada quando se quer falar sobre a resistência contra o genocídio promovido em escala industrial contra o povo judeu. Aqui entra uma dúvida à la Schiff. Faz sentido ficar repetindo os mesmos fatos, as mesmas estatísticas, os mesmos nomes e organizações? Não seria excessivo, enfadonho, meramente ritual?

A execução de uma peça para piano ou orquestra permite interpretações diferentes. Durante muitos anos, tive tatuada na memória musical a Abertura 1812, de Tchaikovsky, executada pela Orquestra de Philadelphia, com a regência de  Eugene Ormandy. Quando me mostraram a mesma obra tocada pela Filarmônica de Berlim sob Karajan, quase caí pra trás. Outro andamento, outras ênfases, quase outra obra. Assim como na música, a partitura da História permite muitos olhares.

O Levante, desencadeado na véspera do Pessach de 1943, me evoca uma das passagens da Agadá, a clássica narrativa da libertação do cativeiro egípcio. Nela, somos convidados a vivenciar a saída do Egito como se nós mesmos tivéssemos sido cativos. Mudam os tiranos, permanece o desejo de liberdade. Aprendizado em dó maior.

A resistência armada em Varsóvia só foi possível porque as várias correntes políticas representadas no gueto aceitaram unir-se. Comunistas, socialistas, bundistas, sionistas de esquerda, construíram a ZOB – Organização Combatente Judaica em 1942. A influência da esquerda foi decisiva em vários sentidos. Conheciam a prática da ação coletiva e não alimentavam ilusões sobre o caráter genocida do inimigo. Além disso, tinham militantes com alguma experiência armada. Elia Moses, que lutou nas Brigadas Internacionalistas na Espanha, foi instrutor militar dos insurretos. A estratégia de enfrentamento armado derrotou a visão burocrática da Judenrat, a administração judaica do gueto, que mediava contatos com os nazistas e acreditou, até o último instante, numa “salvação negociada”.

Unidade na luta: herança valiosa da revolta. Enfrentavam uma espécie de mal absoluto, que Marcelo Coelho definiu como “alegria no desamor, embriaguez de morticínio, preferência sistemática pela treva e pela estupidez”. Saberemos assimilar a sabedoria da unidade entre diferentes, quando temos pela frente um inimigo comum que, à sua maneira e no seu tempo, cultiva valores semelhantes aos do totalitarismo nazista? Os rebeldes de Varsóvia, e as gerações futuras, cobram uma resposta.

Emanuel Ringelblum criou um arquivo, o Oineg Shabes, que preservou documentos sobre o cotidiano do gueto de Varsóvia. Socialista, sua intenção não era legar apenas uma memória acadêmica, congelada. Ofereceu matéria para novas perguntas. Como faremos para evitar que a história se repita? Que meios usaremos para abortar novas aventuras totalitárias? Lembrar o Levante do Gueto de Varsóvia não é só prestar uma justa homenagem aos combatentes, mas avançar na construção de um mundo sem muros, sem exploradores, sem predadores da Natureza, sem tiranos.

Abraço. E coragem.

Samba Perdido – Capítulo 33 – parte 03

Foto: Eduardo Molinar

*

A entrada de  Felipe, ex-colega do Colégio Andrews e frequentador do Posto Nove, no Arrepio mudou muita coisa. Ligado ao teatro desde sempre, após deixar a escola tinha se tornado ator profissional e tinha impressionado a todos com um papel de destaque na peça Os doze Trabalhos de Hércules, de onde surgiriam muitas carreiras de sucesso no teatro brasileiro. Foi num papo de praia que arrisquei o convite para ser vocalista da banda. A gente se dava bem mas mesmo assim fiquei surpreso com seu interesse instantâneo. Talvez, como todos, estava morrendo de vontade de deixar sua marca no rock. Convocamos um ensaio de introdução que correu às mil maravilhas; ele curtiu nossas músicas de cara, sua voz era boa, sua presença de palco soberba e a química foi perfeita. Agora, com um novo vocalista de primeira, e com seus contatos, sentíamos que a banda era uma séria candidata à fama e à fortuna.

O show de estreia da nova formação foi num bar em Ipanema. O local era especializado em bossa nova, mas a mãe do Felipe, antiga frequentadora, tinha convencido o gerente a nos acolher. Não havia estrutura para bandas ali.  Por isso, além dos instrumentos,  fomos obrigados a pegar emprestado microfones e o equipamento poderoso cedido pelo Charles. Contudo, parecia bom demais para ser verdade e no dia fomos lá empolgados, sentindo que aquilo era o início de uma era de ouro. Enquanto subiamos e desciamos as escadas com aplificadores e partes da baterias e montávamos o equipamento no terraço, ficou óbvio que os funcionários, acostumados com músicos recatados de bossa nova, nos viam como invasores bárbaros ameaçadores e inusitados.

Com tudo montado veio a hora de passar o som. Não tínhamos engenheiro de som e mal sabiamos como manejar aquela parafernalia. Mesmo assim, depois de tocarmos duas ou três músicas e de ficarmos relativamente contentes com o que estavamos ouvindo demos uma parada. Quando estavamos nos preparamos para dar uma volta. o gerente, um cara elegante, baixinho e de cabelo engomado, subiu no terraço para falar conosco e manifestar sua preocupação com o volume.

“Gostei do som, animado, né?” Soou meio falso, mas, fazer o quê? “O problema é que aqui é uma área residencial e às vezes os vizinhos reclamam do barulho, sabe como é?”

“A gente conhece esse problema bem até demais.” A galera concordou com sorrisos.

“Pois é, se vocês entendem, melhor ainda. Eu queria pedir para vocês tocarem mais baixo. Seria possível?”

“Olha, já estamos tocando o mais baixo possível. O problema é a bateria. Ela não está amplificada. Tá vendo? Não tem microfone nenhum nela.” Estava na cara que o cara não estava entendendo nada, mas continuei tentando. “Se a gente tocar mais baixo, só vai dar para ouvir a bateria. Os instrumentos vão soar baixo. A bateria vai continuar no mesmo volume. Ou seja, não vai fazer diferença nenhuma, mas a banda vai soar mal.”

“Mas não dá para a bateria tocar mais baixo também?”

Querendo ser o mais prestativo possível virei para o Mauro: “Fala aê, Mauro? Dá para tu tocar mais baixo?”

A resposta não ajudou muito. “Cara, dá para bater mais fraco, mas o som sai nessa altura mesmo.”

O gerente não se deu por vencido. “Então tá combinado, hoje à noite vocês tocam mais baixo!”

Ele desceu e nos deixou ali, um olhando para cara do outro.

Mauro levantou de trás da bateria e falou: “Foda-se, vamos beber uma cerveja.”

À noite, os convidados começaram a chegar. O Felipe estava fazendo uma ponta em uma novela da TV Globo e por isso havia alguns rostos famosos bem como várias aspirantes a estrelas e umas beldades inacreditáveis entre os convidados. Talvez ciente disso, o gerente tinha mudado o visual do lugar. Tinham coberto o terraço com panos e colocado luz de velas. Tudo estava muito bonito. Quando o terraço encheu a gente ficou esperando o Felipe fazer a social dele. Quando ele veio dizer que estava pronto, pegamos os instrumento, o pessoal do restaurante apagou as luzes e deixou só as onde estavamos acesas, Felipe apresentou a banda de maneira teatral e começamos. A coisa foi bem. Dava para ver que tinha gente curtindo de verdade. No meio da segunda música, ouvi um barulho no meu ouvido. Quando olhei para trás vi que era o gerente gritando que estávamos tocando alto demais.

“Tá alto demais, baixa isso!!”

Tentando não perder a concentração respondi: “Não dá para tocar mais baixo por causa da bateria! ”

Ele sumiu e continuamos. Depois de uns outros dois números, o gerente voltou a bater no meu ombro no meio de uma música.

“Tem alguém querendo falar contigo lá embaixo!”

“Fala que não dá para eu descer agora!”

A próxima coisa que vimos foram seis policiais subindo as escadas. Entraram e foram direto nas tomadas e puxaram os fios dos equipamentos. O som e o clima bom morreram na hora, o show acabo. Todos ficaram boquiabertos vendo os caras descerem sem dizer nem boa noite.

Os dias com o Felipe foram poucos. Pouco depois daquele incidente ele assinou um contrato para um papel importante numa série de televisão e abandonou a carreira musical. Retornei aos vocais, mas discussões começaram a pipocar. Havia conflitos de egos, principalmente entre Eduardo e eu. Tinha o problema que o resto da banda estava preocupada em desenvolver suas habilidades enquanto eu confiava demais nas minhas. O Mauro e o Eduardo ainda estavam pegando aulas particulares – o que para mim era incompatível com o rock. Eles me pressionavam para fazer o mesmo e não conseguiam entender que não podia por causa de grana. Por outro lado, levava o negócio mais a sério que eles, acreditando que se conseguíssemos encontrar o nosso som, poderíamos ter sucesso. Os demais viam a banda mais como uma atividade divertida para os finais de semana. Continuamos, tentamos outros vocalistas, mas depois de um tempo, com a banda indo para lugar nenhum, acabamos enchendo o saco daquilo.

*

Nossa música não era exatamente na moda. Aquela era a época dos góticos, novos românticos, punks e outras criaturas afins. O templo deles era uma boate em Copacabana chamada Crepúsculo de Cubatão. O nome era uma homenagem a Cubatão, uma cidade industrial no estado de São Paulo, famosa por ser o lugar mais poluído da América Latina. Um dos donos do clube era Ronald Biggs, o famoso ladrão de trem inglês, que fugiu de Londres para o Rio de Janeiro em 1970. O local parecia em outra cidade, senão em outro mundo. Sua decoração neoclássica exuberante misturava elementos clássicos com elementos futuristas e tudo o que se poderia esperar de uma casa noturna dos anos 1980.  Os frequentadores eram diferentes de tudo o que se via nas ruas e se vestiam como vampiros, usavam maquiagem pesada e provavelmente nunca haviam tocado num baseado em suas vidas.

A música que saia do seu excelente sistema de som era de bandas praticamente desconhecidas e intencionalmente deprimentes como Joy Division, New Order, Echo and the Bunnymen e Bauhaus, todas ignorando as guitarras e abusando dos teclados, um sacrilégio para qualquer roqueiro raiz criado nos anos setenta. Com relação à paquera, para fazerem sucesso, os caras lá dentro tinham que parecer afeminados. Para alguem de fora, parecia não haver qualquer chance de sexo heterossexual. A entrada era controlada por uma gótica minúscula e invocada, protegida por dois seguranças nada fashion e apropriadamente gigantescos. Sempre havia uma aglomeração de esquisitos na porta implorando para entrar. Quem decidia o acesso era ela apontando o dedo e acenando a cabeça. Para os rejeitados ficava a sentença de morte quando virava para os seguranças e dizendo: “ela/ele parece gente boa”.

Pessoas estranhas passaram a surgir em festas e outros eventos sociais dando declarações sobre o pós-modernismo ou Nietzsche sem entender muito do que estavam falando. Londres era a nova Jerusalém daquela galera e as revistas inglesas iD e The Face, as novas bíblias. Naquele meio, tudo era uma mistura de pose com uma boa dose de arrogância social. A superficialidade ditava que os papos girassem em torno de tendências da moda nas revistas importadas ou nas bandas e artistas que melhor tinham abandonado a estética e a temática das décadas passadas.

Para muitos, pegar um bronze na praia era coisa de neanderthal e pouquíssimos aproveitavam as maravilhas naturais do Rio de Janeiro. Havia um absurdo elementar naquele movimento, se é que poderia se chamar disso. A beleza exuberante da cidade e o seu cenário natural eram perfeitos para a grandiosidade dos delírios tropicalistas de fusão cultural, de experimentação existencial e de gozo dos prazeres da vida inerentes aos anos setenta. O cenário carioca não tinha nada a ver com a temática urbana importada da cinzenta e distante Londres.

A ironia sobre a obsessão com Londres era que, considerando que era inglês de nascença, poderia ter aproveitado a oportunidade para me dar bem. Se não tivesse mergulhado tão a fundo no Brasil, teria.  Ao invés disso, me apeguei a a noção de que era um revolucionário derrotado que se recusava a se entregar. Aquilo representavam o oposto do que eu amava e do que queria no meu mundo. De uma perspectiva cômica, era impressionante ver góticos e punks em jaquetas de couro pretas e botas saíndo de madrugada das festas num calor de 40 graus e desfilando em frente dos banhistas em biquínis e shorts de banho. Pareciam vampiros procurando caixões para se esconder até a noite, quando podiam sair das sombras para invadir a cidade.

Os punks de classe média então eram de um absurdo especial. As roupas que vestiam e os lugares que frequentavam não tinham nada a ver com o que os punks dos Sex Pistols e do Clash, inglêses da classe operária, queriam dizer ao gritarem “não há futuro”. Os punks ingleses ridicularisariam aqueles filhinhos de papai tirando onda usando sua rebeldia, enquanto a maioria dos “punks” da zona sul ficaria horrorizada se parasse para tentar compreendesr o conteúdo de protesto social do movimento. Se entendessem saberiam que, aqueles que tentavam personificar eram contra elitistas metidos a besta. A verdade é que as pessoas apinhadas nos ônibus da periferia industrial de São Paulo ou mesmo as que como eu etavam sendo esmagadas por um choque econômico ceifador de sonhos – eram muito mais próximas ao movimento punk. Caso tivésse alguma ideia sobre o que o movimento punk realmente representava teria aderido, provavelmente adicionando uma pitada tropical, mas para a a galera do rock carioca aquilo era apenas música ruim feita por gente estranha e negativa. Por causa da minha criação e da situação de estar aprendendo a viver num país em formação fez com que a expressão cultural mais importante da minha geração passase ao largo.

Havia muitas razões para estar zangado: o sistema que havia prometido um futuro brilhante para nós estava nos dando um pé na bunda. Mesmo assim, entre muitos havia o papo reacionário de que o momento era para a sobrevivência dos mais fortes. Para eles, só os fracos estavam se dando mal. Apesar do discurso, na prática, o que estava rolando era a sobrevivência daqueles com os pais mais ricos.

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O invisível mudou o mundo

O Deus invisível foi uma revolução no mundo, que originou o Povo Judeu, e o monoteísmo ético. Já na Grécia Homero é um poeta cego, pois a poesia é auditiva, é a música das palavras. O poeta Rainer Maria Rilke escreveu sobre a dependência humana do visível, mas reconheceu no invisível um grau mais elevado da realidade. O invisível reinou na infância no bairro Bom Fim, o Todo-poderoso estava presente nas casas e sinagogas. Convivi com as histórias bíblicas e aprendi a mensagem dos Profetas na adolescência e passei a integrar o sonho por justiça social. Daí atravessei pontes para saber quem era, quase me encontrei, em metamorfoses surpreendentes.
Dos amores de uma vida à guerra contra o vírus invisível que aqui encontrou aliados. Há um ano as crianças não convivem com seus pares, e o mesmo acontece com os adolescentes e nós todos. Essa brusca mudança na socialização, a falta de convivência, os amigos, as parcerias, tudo isso está fazendo falta. Muitos são os que buscam a realidade virtual, as conversas pelo celular ocorrem como forma de escutar e ver o outro. Assim podem rir, divertir, construir conexões com seus pares. Os que não conseguem estão tristes, angustiados precisam de ajuda e apoio.
Há um esforço de adaptação aos novos tempos, como ocorre na Psicanálise. Ela vai se reinventando com uma flexibilidade surpreendente. O enquadre repleto de rituais precisou passar para os celulares, a realidade virtual, desenvolvendo uma clínica interessante. O invisível foi um progresso na espiritualidade, como sustentou Freud em seu “Moisés” ao final de sua vida. Além do que, a realidade psíquica e as formações do inconsciente são invisíveis, mas geram efeitos, pois são a essência da personalidade. O ontem está presente no hoje e no amanhã, o inconsciente é atemporal no tempo e no espaço. As palavras são essenciais e substituem a visibilidade dos objetos na comunicação. As palavras escritas que vão e voltam nos comentários, estamos sem nos ver e sem conversar, mas nossos laços se fortalecem.
O cotidiano agora é de outro invisível, que não vem da fé, da música ou da psicanálise, é o vírus. O vírus tem entre 50nm a 200nm, e a sigla nm é o nanômetro, uma unidade de medida em que em um centímetro poderia haver dez milhões de nanômetros. O mundo sabe que o combate à pandemia depende do distanciamento, do uso da máscara e de vacinas.
Os escritores captam a complexidade do ser humano antes que as ciências. Assim, imaginam, criam histórias, como o escritor italiano Italo Calvino no seu livro, “As cidades invisíveis”. Marco Polo narra para Kublai Khan sobre as cidades do seu imenso império mongol. A última cidade invisível do livro é sobre a cidade Berenice, que ora é justa, ora injusta, gerando o ceticismo do velho Khan. Entretanto, Polo mantém a esperança e conclui o livro assim: “O inferno dos vivos não é algo que será; se existe, é aquele que já está aqui, o inferno no qual vivemos todos os dias, que formamos estando juntos. Existem duas maneiras de não sofrer. A primeira é fácil para a maioria das pessoas: aceitar o inferno e tornar-se parte deste até o ponto de deixar de percebê-lo. A segunda é arriscada e exige atenção e aprendizagem contínuas: tentar saber reconhecer quem e o que, no meio do inferno, não é inferno, e preservá-lo, e abrir espaço”. Aqui, na invisibilidade da rede social, geramos espaços de não inferno, com nossa imaginação.