Mar e Teatro

O domingo amanhecia quando comecei a caminhar na beira do mar, sem saber o que estava por acontecer. A imensidão do mar acalma, há um cheiro de liberdade, que aumenta a coragem num movimento constante. Por mais belos os rios, as planícies e as montanhas, nada se iguala as emoções do mar quando se trata de liberdade. Li relatos de presos, falei com prisioneiros que me falaram das saudades do mar. Não me canso de caminhar na praia, de ver as ondas, a imensa bondade do ir e vir da maré. O mar está sempre em movimento, e foi olhando esse ir e vir que pensei sobre as pessoas. Tem as que são meio paradas, com pouco entusiasmo, se arriscam pouco. Há os que se movimentam para trás, os saudosistas, os que adoram os tempos autoritários, com pais idealizados que autorizam um outro a tudo. Também há os que vão em busca de sonhos desejantes, vivem entre o ânimo e o desânimo, mas tendem a ter o dom do humor. Brinco na caminhada sem máscara acompanhado pelo música das ondas e o som de pássaros felizes.
Divaguei junto ao mar, observei o sol despontando no horizonte, e começo a voltar e, de repente, uma miragem, onde há muita gente de máscara. São grupos de dez que formam umas vinte fileiras distantes uma da outra, logo nem abrindo os braços era possível se tocar. Os amigos do face estão na praia e o encontro é uma festa, após tanta solidão. Todos juntos na invisibilidade, pois ninguém via, mas estávamos juntos, e logo começaram os cantos. Parecíamos fiéis que vão às praias no dia dois de fevereiro para saudar Iemanjá, rainha do mar. Grande Dorival Caymi o poeta do mar recordou uma outra vida, outro Brasil, gente humana, solidária, espirituosa. Alguém propôs que num domingo pela manhã em Porto Alegre fôssemos todos ao Jardim Botânico, e assim nos despedimos na leveza da imaginação.
Domingo reencontrei gente no mar e no sábado seguinte reencontrei o teatro. Assisti pela primeira vez no zoom um espetáculo cujo palco era o rosto do ator Pedro Osório do Rio de Janeiro. Ele apresentou o espetáculo « A Peste » baseado no livro de Albert Camus durante uns quarenta minutos, pouco mais, e após teve comentários. Foram duas horas grudado na tela do computador, não imaginava que seria possível um teatro assim. Também não imaginei no ano passado que uma análise pudesse se desenvolver via celular. Diante dos obstáculos está sendo preciso criar novos caminhos, que requerem conviver com o invisível, uma outra realidade.
A novela « Peste » é uma metáfora do nazismo que invadiu a Europa, onde os ratos são os nazistas que tanta crueldade fizeram ao mundo. Impressionante como ocorre a negação, o desprezo pela medicina e a ciência pelas lideranças políticas. A « Peste » foi publicada dois anos após o fim da Segunda Guerra Mundial, um êxito de público impressionante. Camus alerta ao final do livro que as epidemias terminam mas voltam, e aí se pode associar ao tempo atual em nosso país na pandemia está dominado pela mentalidade miliciana. Depois do espetáculo falaram Julia Alexim do Rio de Janeiro, Ângela Lângaro Becker e Edson Luiz André de Sousa da APPOA que promoveram um sábado de arte e alegria.
Reencontros com o teatro, o mar, gente querida e as palavras de Albert Camus : « A imaginação oferece às pessoas consolação pelo que não podem ser e humor pelo que efetivamente são ». Revelou em sua vida, na sua obra e nas entrevistas sua crença na humanidade, mesmo diante do absurdo. Porque hoje é sexta e amanhã é sábado um viva ao humor, às artes que aceleram a imaginação, e ainda erotizam o amanhã.

Mortes

Da primeira vez que me assassinaram/Perdi um jeito de sorrir que eu tinha./Depois, de cada vez que me mataram,/Foram levando qualquer coisa minha … (Mario Quintana)

“A polícia entrou, pegou ele e rodou com ele no morro. Ele foi estraçalhado a facadas, com faca na cara. Se é operação, eles tinham que levar ele preso. Ninguém merecia isso”. “Quando meu filho foi se entregar, eles mataram ele no Beco do Caboclo. Isso não foi operação, foi assassinato. Operação não é assim. Podiam ter levado preso”. “Ele saiu para comprar pão. Os vizinhos viram ele no beco com um tiro na perna e gritando ‘ai, ai’, quando os policiais chegaram perto e atiraram nele outra vez”. Depoimentos de familiares de chacinados na comunidade do Jacarezinho por policiais civis do Rio de Janeiro. Quando invade áreas pobres, a polícia costuma ter dedos nervosos nos gatilhos. A vida miserável é barata para os agentes armados do Estado.

O vice-presidente da República, antes mesmo de saber os nomes dos mortos, chamou-os todos de “bandidos”. Não se trata apenas de fé cega numa polícia habituada a atirar primeiro para depois perguntar. Estão aí fartos antecedentes: Acari, Vigário Geral, morro da Fallet, Vila Operária em Duque de Caxias, Complexo do Alemão, morro dos Macacos. Trata-se da institucionalização da pena de morte para certas camadas da população. Sabemos que as forças policiais tratam com bastante cerimônia e têm paciência de monge com, por exemplo, os bacanas da zona sul da cidade. É com esses que o general Mourão se identifica.

De acordo com o censo de 2010, o Rio tem 790 favelas, onde moram cerca de 1,5 milhão de pessoas. São bairros superpovoados, com infraestrutura precária, alto desemprego e baixa qualidade de vida. Lá, por absoluta ausência do Estado, existe forte presença do tráfico de drogas e dos milicianos. Suspeita-se que a ação no Jacarezinho, que contou com apoio do governador bolsonarista, serviu para expulsar os traficantes e abrir caminho para o domínio da milícia. Estratégia muito bem desenhada na segunda parte do filme Tropa de elite, quando o BOPE acaba facilitando, involuntariamente, a entrada dos milicianos no bairro fictício do Tanque. Não há novidades no front da criminalidade.

O contínuo empilhamento de cadáveres anestesia o público. Especialmente quando os mortos habitam as periferias. A repetição destas tragédias, distantes do centro privilegiado da população, acaba evoluindo para meras estatísticas. Arquivo morto. Um pouco na linha do “é triste, é lamentável, mas aconteceu longe de mim, vou deletar”. Parafraseando Cazuza: Solidariedade? Não quero uma pra viver!

Vi a Morte de perto poucas vezes. Concordo com Valter Hugo Mãe, escritor que me tem fascinado: “Morrer-nos alguém são mil anos de leituras. Carregamos nossos mortos importantes como uma biblioteca de ciências cultas, uma infinidade de sabedorias que só se aprendem assim”. Completo, se me permite o gajo, dizendo que, com os mortos importantes, vão-se expectativas e interrompem-se afetos insubstituíveis. Guardo, da manhã em que o Grande se foi, uma imagem semelhante à do quadro A morte de Marat, de Jacques-Louis David. O revolucionário francês aparece numa banheira, mesmo lugar em que o coração do Grande implodiu. Ali, naquele momento, guilhotinaram minha adolescência. A dor é impossível de retratar.

Quando um policial asfixiou até a morte o negro George Floyd, em Minneapolis, os Estados Unidos estremeceram. Ondas de protesto varreram o país, anabolizou-se o movimento Black lives matter, influenciou-se uma eleição presidencial. Aqui, a polícia abate 28 pessoas, pobres, a maioria negros, e os ruídos de protesto tendem a minguar em pouco tempo. Como acontece com as crianças vítimas de balas perdidas. O tráfico de drogas e as milícias seguirão suas guerras por território, dominando populações carentes. A polícia não mudará seu papel de guardiã da tranquilidade das classes dominantes.

Estamos, como sociedade, acometidos de moléstia grave, e não há qualquer possibilidade de sair da encrenca com soluções personalistas – chega de ídolos messiânicos! – e projetos salvacionistas de curto prazo. Será uma luta de gerações.

Abraço. E coragem.

Sobre o desconcerto do mundo, Camões,  Roberto Jefferson e mundo cão


Ao Desconcerto do Mundo

 

Os bons vi sempre passar

No Mundo graves tormentos;

E pera mais me espantar,

Os maus vi sempre nadar

Em mar de contentamentos.

Cuidando alcançar assim

O bem tão mal ordenado,

Fui mau, mas fui castigado.

Assim que, só pera mim,

Anda o Mundo concertado.

 

Das temáticas abordadas por Camões, no que se refere a sua produção lírica, a que mais me fascina é o desconcerto do mundo. Nela o artista manifesta as contradições e complexidade do século que viveu, pulsando em seus versos o sentimento de um mundo desordenado, às avessas, subvertendo a visão equivocada de que o Renascimento foi marcado pelo equilíbrio, pela harmonia, pela clareza. A Renascença foi sim uma fase de ruptura entre dois modos de pensar e agir. Não ocorreu de um dia para o outro, como se num estalo vieiriano, o homem abruptamente se percebesse como medida de todas as coisas, rejeitando veementemente as concepções e valores medievais. Foi um período de transição, e como tal, enigmático e contraditório, “em que o novo ainda não nasceu e o velho ainda não morreu”. Em um artigo para a Folha de São Paulo, Moacyr Scliar assim o define: “É a época em que Copérnico descreve o sistema heliocêntrico, Harvey estuda o sistema circulatório, tempo da invenção da imprensa e do uso bélico da pólvora, época dos grandes descobrimentos marítimos. Simultaneamente é o período de guerras e conflitos entre os Estados que emergiam do mundo feudal, uma época de pobreza e de doenças epidêmicas, depois da peste, a sífilis se dissemina”. Camões, gênio que foi, captou e traduziu esse desconforto de estar no mundo de otimismo e desesperança, de exuberância e abominável pobreza, de idealismo e corrupção.

Em que se estabeleçam as diferenças, esse sentimento de um mundo de ponta cabeça, tem tomado a minha alma. Muitas vezes tenho a sensação de estar vagando em algum limbo. No dia Primeiro de Maio isso ficou patente. Há 50 anos acompanho o Dia do Trabalho pelo mundo. Neta de Arthur, comunista, assistir nos telejornais os movimentos que ocorrem no planeta, mais que um dever é um prazer. E assim foi nos registros da França, da Alemanha, da Turquia, do Quênia. Confronto entre polícia e trabalhadores, Reinvindicações, bombas de efeito moral, nada de novo sob o sol. Aqui, porém, o impensável. Pessoas vestidas de verde e de amarelo, bandeiras do Brasil em profusão, nosso Hino Nacional sendo entoado pelas ruas das principais cidades de Pindorama…Sim, se isso não se chama usurpação de símbolos nacionais, não sei de que chamar. Carreatas e passeatas (aglomerações) pelas avenidas do Brasil. E nenhuma, repito, nenhuma delas foi contra o estado lamentável que se encontra o país. Não saíram para pedir para agilizarem a vacina para a população. Muito menos para protestar contra a taxa imensa de desemprego. Foram apoiar o presidente, com faixas pedindo o fechamento do STF, críticas as medidas de isolamento social, defesa da volta das atividades normais e a instauração do voto impresso. E foram sapateando em cima de 400.000 mortos por covid no Brasil. Claro, pró-governo, não teve bomba de efeito moral, corre corre da polícia, mas teve morador de BH preso em casa acusado de jogar ovos nos manifestantes,

Aqui paro para me deter numa figura específica. Que conheço de priscas eras e estava em cima de um trio elétrico incitando a multidão em São Paulo a gritar por todas as medidas antidemocráticas que estão na cartilha dos ruminantes. Roberto Jefferson…Minha lembrança mais nítida desse senhor, é do início da década de 90, quando ele pesava uns 200 quilos (antes da bariátrica). Horário Eleitoral Gratuito, casa da minha avó Lucila, esquerdista claro. Vovó tinha um dos cachorrinhos mais feios do universo, um gremlim que se alimentou depois da meia-noite, o Dico, conhecido também pela alcunha de Pornô-Cão. Não importava sexo ou idade do visitante, uma coisa era certa, sua perna seria devidamente serrada pelo pet. Sentada na sua cadeira de balança, com o Dico no colo, minha avó se balançava e repetia: “Esse homem é uma besta, minha filha”. Minha avó morreu, Dico também, mas Bob Jeff continua aí. Sendo uma besta,

Petropolitano, Roberto é filho de um professor aposentado com veleidades artísticas. Durante três décadas seu pai presidiu a União Brasileira dos Trovadores. Cometia versos. Parnasianos. Espelhava-se no autor de Via Láctea. Li alguns. Só tenho a dizer que ainda bem que Olavo Bilac não está mais entre nós. Roberto, na Revista Piauí, diz ter crescido entre as trovas do pai e as lições de vida do avô. Aqui ele narra um momento inesquecível: Estavam os dois caminhando, chuviscava e se depararam com um homem regando plantas: “O que você vê meu neto?” “Um homem regando uma planta”. “E o que cai do céu?”. “Chuva”. “Então dirija seus olhos para a Catedral de Petrópolis e dê graças a Deus. A vida é uma competição, e um homem que rega plantas em dias de chuva jamais será seu adversário. Um a menos” Vovô sendo didático. Tenho que confessar que acreditei que ele fosse falar algo poético para o neto, no fim só dando spoiler de livro de autoajuda competitivo como Oportunidades Exponenciais. Bom, tanto o pai quanto o avô de Bob Jeff foram vereadores.

E como essa pessoa veio parar nas nossas vidas? Agora surge um nome carregado de dubiedades para mim. Wilton Franco. Esse diretor, apresentador, nada mais é que o criador dos Trapalhões. Desculpem, meu carinho é enorme. Minha infância não existe sem as aventuras do quarteto, as risadas com os primos na sala da vó, meus amores eram o Mussum e o Zacarias. No entanto, esse mesmo ser, pelo qual nutro esse afeto, foi o mesmo que convidou Roberto Jefferson para apresentar o programa O Povo na TV.” A mão que afaga é a mesma que apedreja”. Era o ano de 1981.Wilton Franco era o apresentador e diretor desse programa vespertino na recém inaugurada TVS (depois SBT) e escalou um elenco digno de figurar um ministério do Bozo: Cristina Rocha, Sergio Mallandro, Roberto Jefferson, Zenóbio Costa e Silva e a ainda impúbere Eliemary (deliciosa junção de Eliezer e Marileide).Para quem não sabe Wagner Montes é o nome artístico de Zenóbio e Eliemary foi rebatizada por Silvio Santos de Mara Maravilha. Realizaram? Roberto Jeferson, Wagner Montes, Sergio Malandro, Cristina Rocha e Mara Maravilha como repórter mirim dividindo o mesmo palco. Mas pera, aqui é Brasil. Então rolava também um curandeiro no meio desse mafuá todo: Professor Lemgruber.

Tentarei ser sucinta: O programa consistia num mergulho profundo no Mundo Cão. Datena é desenho da Disney perto daquilo. Era vendido como um programa de utilidade pública, onde reportagens policiais eram intercaladas por pessoas que iam ao palco, de classes populares, que precisavam desde ajuda domiciliar até hospitalar. Claro que o sofrimento era a moeda de troca. Essas pessoas tinham suas histórias narradas pelo apresentador, era um festival de desgraças. Autointitulado “a procuradoria geral do povo” o programa exibia conflitos familiares e, a parte mais esperada, eram as brigas entre compradores insatisfeitos com vendedores que iam até o programa. E sim, a porrada comia.

Wagner Montes, ator de fotonovelas Sétimo Céu, galã, era o repórter criminal. Dizia-se afilhado de Mariel Mariscot, O Homem de Ouro do Esquadrão da Morte, falava abertamente a favor do linchamento, da execução sumária e em alguns momentos ele silenciava e a câmera captava o símbolo do Esquadrão, uma caveira sobreposta a duas tíbias cruzadas. O papel de Jefferson era o “rábula”, sempre nervoso, socando a mesa, dispunha a resolver os problemas das pessoas desassistidas, a maior parte extremamente pobre. O curandeiro Professor Lemgruber, ia a caráter. Vestia uma roupa negra, um medalhão no peito, dizia possuir virtudes curativas únicas. Sua força era o pensamento, fez imenso sucesso. Começou a comercializar medalhões, sem formação alguma, foi preso por estelionato, enganando principalmente famílias de alcoólatras e drogados, que lhe davam dinheiro acreditando em seus passes curativos.

Esse programa, cruzamento de Ratinho com Marcia Goldschmidt, deu num dos episódios mais tétricos da história da Televisão Brasileira. No dia 14/12/1982 uma bebê de apenas nove meses, com um tumor em um dos olhos, depois da mãe recorrer a produção porque não encontrava atendimento em hospitais públicos, ao invés de tentarem hospitalizá-la ela foi exibida no programa já agonizante. A criança MORREU AO VIVO. E sim, Bob Jeff lá estava. Não sei por que quando ele fez aquele post antissemita falando que judeus sacrificavam crianças a Baal, deidade satânica, ninguém lembrou que ele participou de um sacrifício de criança em frente às câmeras. O Povo na TV durou até 1985, mas graças a visibilidade que Roberto Jefferson adquiriu naquele pântano foi um dos deputados federais mais votados em 1983, o seu primeiro mandato.

Bem, Bob Jeff vai a sabor do poder. Já colou com FHC, Dilma, Bolsonaro é só mais um. O gado que não tá ligado. O fato é que tivemos uma semana pra lá de difícil. CPI da Covid, bebês assassinados a facão, chacina no Jacarezinho…Quando Aldir Blanc morreu há um ano, uma amiga comentou que a esperança (equilibrista) tinha desistido do Brasil. No mesmo dia do aniversário de morte do artista, morre Paulo Gustavo, precocemente. Novamente ela falou: A comoção em torno da morte do PG, para quem o rir é um ato de resistência, fez parecer pra mim que o riso, tão característico nosso, também desistiu da gente. Eu quero dizer a ela, e a vocês, que assim como iniciei esse texto trazendo o tema do desconcerto do mundo, Camões é atemporal, lembrem que o vate lusitano, usando como figura retórica (ou não) fala muito da Fortuna. Sim, uma deusa ordinária. Meretriz, vulgar, caprichosa, sempre a enxergo, com a faixa do Zodíaco como uma Miss Chacrete. Numa mão a cornucópia, na outra a roda que faz girar. Roda, roda, roda e avisa…Uma hora será nossa. Nosso riso eles não tiram.

Do luto à luta

Do luto à luta é uma ponte de travessia lenta. O luto é por mais de quatrocentos mil mortos, entre os quais o humorista Paulo Gustavo, que mobilizou o País. Mais um que poderia estar vivo e morreu pelo atraso na vacina. Sua morte aumenta o mau humor que se vive em tempos de medo gerados pela pandemia e o desgoverno. Luto também da idealização de um país que veio progredindo desde o final do século passado, com admiração crescente no mundo. Estamos de luto da imagem de um Brasil alegre, que tinha diminuído as injustiças sociais, abrindo as portas da universidade para negros, índios e pobres. O país do futuro se transformou no país da morte com uma classe dirigente que é um Robin Hood ao revés: tira dos mais pobres, da cultura, da natureza, para dar aos mais ricos. O luto é uma sombra dos mortos que traumatiza a gente e pesa, pesa muito, e já se anuncia um inverno ameaçador com aumento de mortes. Lágrimas secas não lavam a alma, há uma seca de ideias, de movimentos, há perplexidade.
Luta é um leque que começa a se abrir, mas ainda é incerto. A palavra luta tem muitos sentidos ao longo dos tempos, e lutar é também manter o ânimo contra as tendências depressivas. Lutar agora pode ser um aumento de conhecimentos, que cada um se pergunte que país é esse chamado Brasil. Pensei nisso agora, pois nesta semana escutei um conhecido dizendo que não têm interesse em saber mais sobre este país. Disse que gostaria de saber sobre a China, mas não o nosso passado. Questionei os porquês, disse que ser brasileiro faz parte da identidade de cada um, pois integra as nossas identificações. Um historiador me disse que o Brasil não deu certo, nem dará, na sua visão cética. Tento, aos poucos, ler e conhecer nossas raízes, e entre os livros que me ajudam está o “Sobre o autoritarismo brasileiro”, de Lilia Moritz Schwarcz, onde a autora destaca que o país não é tolerante e pacífico na sua História. E tem revistas como a “Carta Capital”, a “Cult”, e a conversa semanal do cientista Miguel Nicolelis no “El País”. As transformações passam tanto pelo conhecimento como também por iniciativas de como a gente pode imaginar um outro amanhã.
Do luto à luta passa pelas lágrimas que lavam a alma, por isso chorar alivia, os choros começam cedo na vida. Os sorrisos também lavam a alma, assim como os risos e ambos faz bem à saúde. Lágrima e sorriso convivem, tanto que um dia a lágrima se encontrou com o sorriso e disse: “Eu te invejo porque vives sempre feliz”. O sorriso respondeu: “Engana-te, pois muitas vezes sou apenas o disfarce da tua dor”. Pode parecer um paradoxo a convivência do sorriso e da lágrima, mas uma das definições do humor é ser um sorriso entre lágrimas. O humor é um paradoxo em que convivem alegria e tristeza, criando uma forma de ver o mundo entre o trágico e o cômico.
A luta passa por acreditar na dignidade, na fraternidade, amar a vida, as artes que tocam a alma e a elevam. Do luto à luta é uma ponte que precisa de paciência e persistência, pois o País vive um autoritarismo com máscara democrática. Os poderes têm liberdade para matar (chacina do Jacarezinho), vender remédios ineficazes, desprezar as vacinas e o distanciamento. Do luto à luta é o amanhã que vai sendo construído, lentamente, com conhecimento e coragem. Do luto à luta caminhamos.

Garrafas ao mar

Tomei a segunda dose da Coronavac. Idealizei que meus tímpanos vibrariam, eufóricos, com Händel ou Pixinguinha, soltando fogos e celebrando o um a zero. A coisa foi mais murcha. Percebi que a liberdade conquistada era pela metade. Como se, nos prisioneiros de antigamente, fosse retirada apenas uma das esferas de ferro acorrentadas nos dois pés. O peso do isolamento, dos silêncios indesejáveis, das ausências sangradas, não se remove estalando os dedos.

Voltando para casa, bateu uma nostalgia do tempo em que se jogavam garrafas ao mar, passando mensagens sem destinatário conhecido. Sem urgência, como uma respiração pausada. O que eu colocaria numa dessas garrafas para descrever meu tempo pandêmico?

Quem se lembra de uma antiga comédia de Blake Edwards, Um convidado bem trapalhão, protagonizada pelo Peter Sellers? Tivemos, não convidados bufões, mas intrusos de todos os tipos e feitios quando nos trancamos em casa. A Morte, disfarçada ou explícita, nos lembrou que não é apenas um acidente. A boçalidade dos negacionistas é sua aliada. As piras funerárias a céu aberto na Índia, sua exuberante representação. O contraste com a Vida sequestrada me fez lembrar de um quadrinho da Mafalda. Como quem não quer nada, a menininha filosofou, com evidente ironia: se viver é durar, prefiro um Lp dos Beatles a um dos Boston Pops. Não, viver não é durar, embora muitas vezes o imobilismo do isolamento tenha provocado essa confusão. Uma das tarefas de quem tira o mofo acumulado em mais de um ano e pisa, assustado, na calçada, é reconstruir objetivos, caminhos e relações, para, aí sim, inventar sentidos para a vida.

Não perdi gente próxima para o vírus, mas meu prazer de acompanhar o crescimento dos netos foi amputado. Um ano é demasiado no processo de descobertas e espantos de uma criança. Já nem falo da falta que faz o cafuné ao vivo. Certa vez, minha neta me acompanhou, devidamente mascarada, a uma consulta médica. Na volta, sentada na cadeirinha dentro do carro, foi se despedir. Quando acarinhei sua linda cabeleira, segurou com força o meu braço e não queria soltá-lo. Noutro dia, meu neto menor fez enorme banzé, exigindo que a mãe o trouxesse para minha casa. Já tinha passado da hora de suspirar pelos avós isolados. Perdas e danos.

Crianças falam mesmo quando estão em silêncio. O que diriam as 5,1 milhões de crianças e adolescentes que estão sem aulas (quase 14% do total em idade escolar), se pudessem exprimir seus sentimentos? Muitas delas acabarão abandonando os estudos e o país pode retroceder 20 anos no acesso à educação. A falta de interação com os amigos está acumulando um prejuízo emocional que continuará por muitos anos. Muitos gritos de socorro, silenciosos ou não, serão jogados ao mar em garrafas aflitas.

Há desvarios no festim da Morte. Algumas companhias aéreas estão vendendo passagens de voos para … lugar nenhum. Existem duas opções para o delírio. Na primeira, o avião levanta voo de verdade, fica no ar por algumas horas e volta para o ponto de onde partiu. Na segunda, apenas uma simulação. O distinto passageiro entra numa carcaça de avião, depois de escolher um “destino”. Lá dentro, um telão reproduz imagens do “destino” em alta definição. Aeromoças de sorriso plastificado oferecem comida “típica”. Deve existir uma definição técnica para o gosto pela ilusão.

A mensagem já vai grande, periga a garrafa afundar. Termino, mas antes um breve comentário sobre texto do jornalista João Batista Natali. Ele ficou 21 dias internado por causa da Covid, “sobrevivendo como um enorme repolho inerte e intubado na UTI do hospital”. Ao sair da sedação, um dos primeiros sons que ouviu foi a Paixão segundo São Mateus, de Bach. Chorou compulsivamente. Estava, ainda grogue, redescobrindo a beleza de simplesmente existir. Conheço a composição que ele ouviu. No meio dela, há uma ária, Erbarme dich, mein Gott, cuja beleza faz o mais siderúrgico pessimista acreditar na humanidade. Mesmo que por alguns minutos. Vale a pena viver para saborear os pequenos gestos desprendidos, as grandes músicas, os poemas que acendem exclamações, os encontros que nos fazem parte de projetos e paixões, as relações que atenuam a burocracia do cotidiano, as memórias que nos edificaram. Como disse o Valter Hugo Mãe, “com seu inesperado e tanto susto, a vida é a oportunidade da maravilha”. Vamos correr atrás disso.

Abraço. E coragem.

Quatrocentas mil histórias

Todo morto tem uma história de vida, tem um grupo familiar, tem vizinhos, tem nome e sobrenome. Portanto, um morto não é um número, como os números que tatuavam nos braços de judeus nos campos de concentração nazista. Reduzir uma pessoa morta a um número é a forma de nos distanciar do morto, desumanizar, ser indiferente à morte. Por isso, não serão esquecidas as frases do taxista carioca Marcio Antônio do Nascimento Silva sobre os mortos pela Covid-19: “Não são números. São pessoas queridas e íntimas”. Essas palavras de dor e de protesto foram ditas no dia 11/6/2020 no Rio de Janeiro. Uma pessoa começou a tirar as cruzes fincadas nas areias da praia de Copacabana e o taxista Marcio foi recolocando uma a uma das cruzes. Tinha perdido seu filho de 25 anos, Hugo Dutra do Nascimento Silva, no dia 18 de abril do ano passado. Estava caminhando na praia quando viu a retirada das cruzes como um desrespeito ao seu filho que morrera. Disse em alto e bom som que iria recolocar as cruzes quantas vezes fossem necessárias.
Foi um ato de protesto do taxista pelo desrespeito aos mortos no qual estava seu filho querido, pai de seu neto Arthur de cinco anos e parceiro de danças. O ato agressivo de tirar as cruzes da homenagem feita por um simpatizante do presidente foi aplaudido por algumas pessoas. Os aplausos ao atacante da homenagem aos mortos foram coerentes com o governo brasileiro, que ignorou os mortos e desprezou a gravidade da pandemia. O taxista Marcio ainda disse: “Meu filho morreu com 25 anos. Ele era saudável. Vocês têm que respeitar a dor das pessoas. O mesmo direito que ele tem de tirar eu tenho de botar” – disse, ao recolocar os objetos. – Tem que respeitar”. Naquele dia, 11/6/2020, eram 41.058 mortos cujas histórias foram interrompidas pela pandemia. Passados dez meses e meio, mais ou menos, o País está com mais de quatrocentas mil vidas interrompidas, quatrocentas mil histórias.
Em agosto do ano passado tínhamos cem mil histórias, em 9/1/2021, duzentas mil histórias, e em 24 de março, trezentas mil. Hoje, dia 29 de abril, às 12h41, o consórcio de veículos de imprensa informa que são quatrocentas mil e vinte e uma pessoas mortas em pouco mais de treze meses. Não devia escrever tantos números, mas eles são assombrosos, e muito mais assombroso é o descaso do Executivo que atacou as vacinas durante todo o ano passado. Espantoso como até hoje o governo federal estimula as aglomerações e despreza as máscaras e é indiferente aos mortos.
Perguntas: as Forças Armadas têm como função a Segurança Nacional, a defesa do povo brasileiro, logo, o que fez diante da maior guerra já enfrentada pelo País? O quanto esse silêncio diante de um governo que ajuda o vírus está coerente com suas funções? E a grande mídia irá um dia pedir desculpas por não ter feito uma real oposição ao presidente? E o Poder Legislativo? E o Judiciário? E nós, e cada um de nós, não estamos todos assustados e devagar? Não tenho hoje respostas, mas tenho perguntas.
Na adolescência comecei a ler sobre a Segunda Guerra Mundial e os campos de extermínio. Perguntava então sobre o que faria naquela época, se lutaria contra o nazismo ou ficaria em silêncio diante o genocídio. E agora é ou não é um genocídio quando não se tomaram as medidas defendidas por infectologistas, cientistas daqui e de todo o mundo contra o vírus? Sobram perguntas, mas por dever de memória é preciso lembrar cada família que teve um ente querido perdido em pouco mais de um ano. Sinto que nosso coração brasileiro está frio, distante da tragédia que ocorre diante dos nossos olhos. Deveria escrever palavras esperançosas, palavras otimistas, mas hoje só consigo perguntar. Talvez esteja me desculpando, mas: até quando só ler e escrever?