Não faz muito, estive nas estepes da Ásia Central. Região de uzbeques, cazaques e que tais. Viagem inesquecível. Paisagens planas, intimidade respeitosa de homens com a Natureza, silêncios expressivos. O melhor é que apreciei tudo isso sem sair do lugar, apenas fechando os olhos e ouvindo o poema sinfônico de Borodin composto em 1880. Está tudo lá.
O primeiro contato com Borodin veio através de um LP dos anos 60 com canções russas (ainda o tenho, com os amarelos de idade avançada na capa). Eugene Ormandy regia a Orquestra de Filadélfia, cargo que ocupou por mais de 40 anos. Minha geração viveu a transição acelerada das formas de ouvir música. Do disco de goma-laca (78 rpm), que quebrava com irritante facilidade e fazia a festa do demagogo Flávio Cavalcanti, ao LP de vinil (33 rpm), passando depois por fitas cassete, CDs e as atuais plataformas etéreas. Num dos filmes Men in Black, um protagonista comenta que não tinha mais paciência para trocar o formato do disco branco dos Beatles. Ainda ouço CDs com frequência, os LPs de vinil voltaram espantosamente à moda, mas isso já é outra história.
A aceleração das transformações tecnológicas, que não se reduzem à música, me leva a pensar no que aguardam a nova geração e as que virão em seguida. Com filhos e netos nas vizinhanças, dá calafrios desenhar os possíveis cenários do futuro. Não caio na tentação fácil do “antigamente tudo era melhor”. Bestialidades, estupores e inseguranças vêm de muito longe. No entanto, há sinais no horizonte que anunciam tempestades.
Para começo de conversa e manifestação de tristeza, descubro que o hábito da leitura anda patinando. Pesquisa recente mostrou que, no Brasil, 53% dos entrevistados não tinham lido nenhum livro em 2024. No mesmo ano, quase 7 milhões de leitores foram perdidos em relação a 2019. Parece evidente que o vácuo está sendo preenchido por telas de todos os tamanhos e, com elas, cresce a impaciência para dedicar-se à leitura. Livro é objeto grávido de interrogações. Esconde um pacto com a surpresa e o encantamento que se revelam lentamente. Construir na imaginação personagens e histórias exige dedicação, cada vez mais escassa entre os seduzidos pela luz azul do mundo virtual. Aonde isso vai chegar? Ninguém sabe, é como no velho samba da União da Ilha: Como será o amanhã?/Responda quem puder.
A Primeira Guerra Mundial resultou em cerca de 20 milhões de mortos. Usou-se à farta armamento químico. Dizia-se que seria a guerra para acabar com todas as guerras. Vinte e um anos depois do seu final em 1918, a Alemanha nazista invadiu a Polônia, dando início ao conflito mais letal da história (cerca de 80 milhões de mortos). Hoje, os gastos militares no mundo chegam a US$ 2,7 trilhões, cifra maior do que o PIB do Brasil. O investimento na Morte não perde tração. O premiê do Reino Unido, filiado ao Partido Trabalhista (!), acaba de apresentar um plano para construir seis novas fábricas de armas e explosivos, ao custo de US$ 2 bilhões. Esta é a herança que estamos deixando para a turma que chega. Um espírito belicoso, de destruição em massa, de desumanização e ódio. A argamassa solidifica com a ascensão da extrema-direita à tripa forra.
Há duas semanas comentei a patologia chamada bebê reborn. Uma dona de boneca, por exemplo, está na Justiça pleiteando licença maternidade pela posse do plástico humanoide. Quer mais? Em Berlim, funciona um bordel high-tech que oferece aos clientes bonecas para sexo. O serviço é anunciado como alternativa para viver experiências “diferentes” sem “trair de verdade” a parceira. Parece que estamos nos encaminhando para um mundo simulado, um metaverso, o mundo bizarro sugerido nas histórias do Super-Homem. A vida transformada, no limite, em rede social.
Estou partindo do pressuposto de que o planeta continuará existindo. Nem isso se pode garantir. A crise climática não dá trégua. De acordo com a Organização Meteorológica Mundial, há 80% de chances de que pelo menos um dos próximos cinco anos supere 2024 como o mais quente da história.
A geração anterior à minha viu surgirem as bombas atômicas e termonucleares. A minha acompanha a erupção da informática e da automação acelerada de todas as dimensões da vida. Ao mesmo tempo, o Brasil, como acentuou um colunista da Folha de S. Paulo, “está aparvalhado, de fanfarras militares, berrantes, motosserras, negacionismo, homofobia e assombrações religiosas”.
Misturem-se todos esses ingredientes e se terá uma pequena ideia da encrenca que a garotada terá pela frente. Seria bom que ela assumisse a inquietação. Não tivesse vergonha de indignar-se. Carregasse de dúvidas todas as fronteiras existenciais. Seriam os primeiros passos para não apenas estar no mundo, mas ajudar a transformá-lo. Que inclua na rotina ouvir trecho de música do Lenine (o recifense, não o barbicha revolucionário): Meu amor/O que você faria/Se só te restasse um dia?/Se o mundo fosse acabar/Me diz o que você faria. Não adianta procurar respostas no Google.
Antes de tudo, e que fique muito claro para quem começa a leitura com as certezas já afiadas como lâminas de vaidade, este texto não pretende absolver ninguém, nem condenar com a tranquilidade dos juízes bem pagos, o que se fará aqui é apenas o gesto antigo e perigoso de ligar pontos, porque os pontos existem e foram traçados não por mim, que apenas os sigo, mas pela própria história, que às vezes parece empenhada em repetir-se com variações de cenário e sangue, e se há algo que me move nesta escrita é a teimosa convicção de que o passado não passou, ele apenas aguarda uma brecha para entrar outra vez pela porta que nunca foi trancada.
O primeiro ponto se encontra na Noruega, fevereiro de 1943, sete homens deslizam montanha abaixo como sombras armadas não de glória, mas de urgência, e o nome do lugar é Vemork, fábrica de água pesada, elemento essencial para a bomba atômica que o regime nazista, assassino e delirante, sonhava construir, e que não construiu, ao menos não a tempo, porque aqueles sete decidiram que às vezes basta destruir um detalhe para salvar o mundo inteiro, não houve discursos, só o estrondo, e depois o silêncio da neve cobrindo o que restou da estrutura, e o que se ganhou com isso foi tempo, o suficiente para que a guerra seguisse seu curso sem cair de vez no abismo atômico, embora, sabemos, não demorou para que outros o inaugurassem em Hiroshima.
O segundo ponto está mais perto, mais quente, mais meu, outubro de 2023, Israel, o país que é meu e não sei mais como habitá-lo sem interrogações, foi rasgado por um ataque vindo da faixa de Gaza, sim, foram eles que dispararam, mas os que vivem aqui e não apenas visitam as manchetes sabem que aquilo não começou naquele dia, começou muito antes, nos escombros deixados onde um lar já foi, nos postos de controle que se multiplicam como fungos sobre feridas, nas décadas em que um povo foi tratado como hóspede indesejado em sua própria casa, e se o leitor espera aqui uma justificativa, engana-se de rumo, não se justifica o horror com o horror, apenas se tenta compreender o que o causou, e compreender é, muitas vezes, o verbo mais maldito que se pode conjugar em tempos de guerra.
O terceiro ponto surge em 2025, drones lançados da própria Rússia contra alvos russos, sim, leu bem, a Operação Teia de Aranha, nome que quase faz rir não fosse o que deixou debaixo dos escombros, aeronaves que transportariam, talvez, a mais grave das ameaças, destruídas por engenhocas pequenas e silenciosas, lançadas de caminhões que estavam ali havia meses, à espera, e não houve alarme, nem radar, nem satélite que visse, porque quem oprime esquece de olhar para dentro, e os ucranianos, com suas mãos calejadas e sua esperança ferida, souberam tecer a emboscada como quem aprendeu que, quando não se tem exército, resta a astúcia, e quando não se tem o direito, resta a urgência.
E é quando se olha esses três momentos, tão diferentes e tão iguais, que se entende que há um padrão, uma simetria de dor e resposta, de arrogância e ruptura, e que nenhum muro, nenhuma cúpula de ferro, nenhum tratado de defesa ou tecnologia de vigilância impede aquilo que fermenta em silêncio por décadas até encontrar sua hora, e se o leitor ainda crê em segurança absoluta, que continue acreditando, mas que o faça com um olho sempre aberto, porque o outro, mais cedo ou mais tarde, será fechado pela realidade.
E agora, ao fim desta linha que não é reta mas curva, como são todas as coisas humanas, deixo o ensinamento que me veio de casa, meu pai que nunca foi homem de grandes frases, mas que dizia, sempre que ouvia falar de justiça ou vingança, que é melhor um mau acordo do que uma boa demanda, e talvez seja só isso que ainda possa salvar-nos de repetir, com nova tinta e novo sangue, as mesmas histórias que fingimos não ver.
Vai procurar alegria/Fazer moradia na luz do luar, vai vadiar (Zeca Pagodinho)
Acontece com todo o mundo. A gente anda por aí, distraído, cruza com alguém conhecido e, pimba!, não cumprimenta. Não é por mal, o pensamento está pousado na morte da bezerra, fugindo das mazelas cotidianas. De um modo geral, o rápido desencontro não resulta em ruído forte, laços não se rompem pela distração vadia.
Descobri, casualmente, que faço essa desfeita quase todos os dias. Andando pelo calçadão da avenida Atlântica, cruzo com o vulto simpático, sorriso congelado em bronze, aceno que chama jogar conversa fora sem culpa ou titubeio. Nunca parei para sorrir de volta ou imaginar dois dedos de prosa com a estátua do Dorival Caymmi. Até que…
Proseando com o compadre Miguel, livreiro da Folha Seca, ele me chamou a atenção para um diálogo gravado entre Caetano Veloso e o Dorival. A baianidade, ritmo tranquilo, girava em torno da preguiça, folclórica virtude do Dorival. Disse ao Miguel que admiro os que fogem da obrigação neurótica de estar sempre em estado de produção, das multidões que transformaram telas em novos órgãos do corpo humano. Vai daí, resolvi explorar o jeitão preguiçoso de viver.
Dorival e Jorge Amado eram grandes amigos. Suas conversas, reais e surreais, deram bons causos. Vejam esse. Estavam eles na casa de Jorge, em Salvador. Dorival recostado numa rede (ah, as redes baianas…), com os pés no chão, uma perna de cada lado da rede. Jorge, sentado numa cadeira em frente ao amigo. Depois de um silêncio gostoso, Caymmi perguntou:
– Jorge, você que está aí em frente, me diga: minha braguilha está aberta?
– Não, Dorival, tá não.
Caymmi espreguiçou-se, respirou fundo, e arrematou:
– Então eu mijo amanhã…
É bom não confundir preguiça com indolência. Dorival compôs alguns dos maiores clássicos da música brasileira. Seu tempo não era movido a turbina, sua necessidade nada tinha de mercantil. Como dizia o poeta Ferreira Gullar, a arte existe porque a vida não basta. Vida que, para Caymmi, ia muito além de compor e cantar. “Compor vou compondo devagar e sempre, tu sabes como é, música com pressa é aquela droga que tem às pampas sobrando por aí. O tempo que tenho mal chega para viver: visitar Dona Menininha, saudar Xangô, conversar com Mirabeau, me aconselhar com Celestino sobre como investir o dinheiro que não tenho e nunca terei, graças a deus, ouvir Carybé mentir, andar nas ruas, olhar o mar, não fazer nada e tantas outras obrigações que me ocupam o dia inteiro”. Em outro momento, sintetizou: “Uma certa vagabundagem faz bem. Sem essa vagabundagem, não sai”.
No Código Penal de 1890, lia-se que vadiagem é crime. Deixava em aberto a definição de vadiagem, o que resultou, claro, na perseguição de ex-escravos que encontravam enormes dificuldades para entrar no mercado de trabalho. Na aurora do samba, músicos eram considerados vadios e, flagrados com seus instrumentos, iam em cana. João da Baiana tocava seu pandeiro quando foi preso. Solto, o instrumento permaneceu na delegacia, “apreendido”.
Num livro publicado em 2004, Lya Luft defendeu uma “reforma das nossas prioridades”. Cansou de ouvir gente dizendo não ter tempo “nem para respirar”. Sugere uma “faxina em nossos compromissos e deveres”. Claro que há algumas obrigações inegociáveis, que amarram o tempo e a vida. No entanto, há outras que, pesadas corretamente, poderiam ser adiadas ou mesmo canceladas. O objetivo da faxina seria “aliviar a vida, o coração e o pensamento”. O prazer de ficar à toa ou na presença de quem se gosta, sem cronometragem, ajuda um bocado.
Adaptando Mario de Andrade para os dias de hoje, eu diria que muito Elon Musk e pouco Dorival Caymmi os males do mundo são. E antes que me esqueça: cada vez que voltar a cruzar com a estátua do compositor de Marina, O Vento, Maracangalha e Sábado em Copacabana, em frente à colônia de pescadores, vou dar-lhe um saravá silencioso. Sem preguiça.
O governo já não fala, emite sons, palavras cortadas ao meio, promessas reduzidas a siglas, ordens que saem dos gabinetes como tosses secas, sem garganta nem destino, e ainda assim encontram ouvidos, encontram braços, encontram gente disposta a executar sem perguntar, a obedecer sem saber, a repetir sem entender, e um país assim não precisa de ideologia, basta-lhe um manual de conduta e o medo bem distribuído como pão racionado, e há tanto medo que já se confundiu com prudência, com civilidade, com responsabilidade nacional, dizem coisas como é melhor não mexer nisso agora, melhor esperar mais um pouco, melhor não confrontar por enquanto, sendo que o agora nunca é o momento certo, e o depois nunca chega, e é nessa hesitação continuamente adiada que se constrói o regime mais eficaz que já tivemos, aquele onde quase ninguém manda e quase todos se calam.
Há quem se levante todo dia com a firmeza mecânica de quem já não espera mais nada, vai trabalhar, ou ao menos tenta, come o que der para comprar com o que restou do salário, escuta o noticiário como quem observa o trânsito, não para entender, mas para confirmar que tudo continua exatamente onde estava, e se alguma mudança chega, chega para pior, e mesmo assim segue-se adiante, porque parar exige mais coragem do que continuar, e coragem é coisa que a gente já gastou como sola de sapato, dizem que o povo está cansado, talvez esteja, mas cansaço, quando vira desculpa, deixa de ser sintoma e passa a ser método, e método, disso sabemos bem, é coisa que este país sempre teve, mesmo que nunca tenhamos ousado dar-lhe esse nome.
O homem que comanda, se é que isso ainda pode ser chamado de comando, esse ofício de agarrar-se ao poder pendurado em cada nova rachadura como quem transforma o desmoronamento em escada, esse homem, portanto, não governa, administra a erosão com a habilidade de quem sabe que a terra cede devagar, e se o buraco se abre com elegância, ninguém grita, e os que andam com ele, ministros de coisa nenhuma, homens de vocabulário inchado e espinha flexível, distribuem palavras como se fossem destinadas apenas ao uso externo, porque por dentro já aprenderam a calar o que pensam, se é que pensam, e se pensam, é apenas no que perderiam caso deixassem de cumprir seu papel na engrenagem.
E o povo, esse mesmo que é chamado de soberano quando se precisa do seu voto e de submisso quando se anunciam cortes, observa tudo com os olhos treinados da normalização, esse hábito lento de aceitar o intolerável desde que ele venha parcelado e sem fazer muito barulho, ninguém quer escândalo, já basta o ruído do cotidiano, os preços, os turnos, os sustos, as sirenes que não dizem se vêm de fora ou de dentro, as estatísticas lidas em voz neutra por apresentadores que ainda acreditam que neutralidade é uma forma de virtude e não de omissão.
Nas escolas se aprende muito pouco e se desaprende muito depressa, e isso parece ser conveniente para todos os envolvidos, os professores que já não ousam, os pais que já não perguntam, os alunos que já nascem treinados para o pragmatismo, aqui não se educa para pensar, educa-se para obedecer, e obedecer é mais fácil quando não se conhece alternativa, por isso se conta a história aos pedaços, as datas importantes são as que servem para desfiles e cerimônias, os nomes que não têm estátua nunca existiram, e a geografia é mais mapa do que chão, um contorno cheio de linhas e zonas e ameaças, mas sem cheiro, sem poeira, sem gente, e assim se cresce num país onde o conhecimento é concessão e a dúvida, perigo, e cresce-se torto, que é o único jeito de caber dentro da estrutura.
O que se vê é um pacto, não dito, não assinado, mas firmado com cada gesto de conformidade, uma cidade cercada por câmeras, uma aldeia que desaparece antes do amanhecer e ninguém menciona no café da manhã, um velho empurrado no mercado e ninguém viu, uma criança sem escola que já aprendeu a calar, e a palavra segurança, dita com tanto fervor, tornou-se a cortina que cobre tudo o que não se quer discutir, há quem aponte o dedo para fora, porque sempre é mais confortável ter um inimigo externo do que encarar a podridão interna, e enquanto isso o país afunda sobre si mesmo, em silêncio, como uma casa construída sobre memória mal resolvida.
Ainda existem os que se dizem bons, e talvez sejam, ao menos aos sábados, ou quando publicam nas redes sociais que o mundo precisa de mais amor, e quando se veem diante da injustiça dizem que é complicado, que não é tão simples, que há dois lados, que é preciso considerar o contexto, e com essas palavras constroem muros mais eficientes que o concreto, porque impedem o pensamento de andar, a compaixão de atravessar, a dúvida de pousar, e onde não se permite dúvida, não há ética, só obediência com verniz de civilidade.
E há beleza, isso não se pode negar, uma beleza que engana, que distrai, que embriaga, as pedras brilhando ao sol, os campos tremendo com o vento, os nomes antigos ainda sussurrados nas ruas velhas, mas tudo isso é superfície, e por baixo a terra treme, não por causa de terremoto, mas por uma tensão que ninguém quer nomear, e que por isso mesmo se torna mais forte, mais funda, mais permanente, como uma rachadura atravessando o centro da consciência.
Escrever, então, não é vaidade, é urgência, porque há coisas que precisam ser ditas antes que se tornem invisíveis, porque quando tudo for normal, até o absurdo será norma, e haverá formulários para a crueldade, filas para a vergonha, carimbos para o silêncio, e se ninguém falar, só restarão os arquivos, e sabemos bem que há arquivos que nunca se abrem, e outros que, quando abertos, já não servem para nada, porque não há mais ninguém vivo que se lembre do que eles significavam.
E se um dia, talvez não hoje, talvez não amanhã, alguém perguntar onde estavam os que sabiam, os que viam, os que podiam ter feito alguma coisa, talvez descubram que estavam exatamente aqui, onde estamos agora, sentados, imóveis, com os olhos abertos mas sem piscar, esperando que alguém, qualquer um, fizesse por nós aquilo que sempre soubemos que nunca faríamos por ninguém.
Se me perguntassem hoje como nasce o ódio, eu não saberia responder com precisão, mas arriscaria dizer que talvez ele nem nasça, talvez sempre estivesse ali, esperando apenas que alguém o despertasse com uma palavra fora do lugar, uma lembrança incômoda ou, mais comumente, com aquele silêncio que diz tudo quando não se diz nada, porque nesta terra, onde cada pedra parece guardar uma memória e cada sombra carrega um nome perdido, aprendemos a armazenar o rancor como se fosse um bem valioso, protegido com zelo antigo, transmitido de geração em geração com o mesmo cuidado de quem entrega uma herança sagrada, embora feita não de posses, mas de feridas — e dessas, temos muitas — tão profundas e tão antigas que já nem sabemos se são realmente nossas ou se apenas continuamos a sangrá-las por fidelidade à dor de quem veio antes, e talvez seja por isso que odiamos com tanto empenho, porque há nisso uma estranha forma de pertencimento, como se, ao odiar, confirmássemos que ainda estamos vivos, ainda somos daqui, ainda sabemos o que é sofrer com convicção.
E, no entanto, se alguém nos arrancasse esse ódio, se nos deixassem apenas com a carne viva da dor que fingimos não sentir, talvez fôssemos forçados a encarar aquilo que evitamos há tanto tempo: os restos emocionais de uma guerra que nunca termina, as perdas que nos recusamos a chorar, os erros que colocamos nos ombros dos outros para não admitir o peso da nossa própria mão no gesto que machucou, e é aí, justamente aí, que tudo se complica, porque odiar é mais fácil do que lembrar com amor, mais fácil do que perdoar sem esquecer, mais fácil do que reconhecer, com vergonha e espanto, que atrás de cada rosto que chamamos de inimigo pode existir apenas outro alguém igualmente assustado, igualmente ferido, igualmente apegado ao rancor como escudo contra um mundo que insiste em não fazer sentido — e, se me permitem a heresia, talvez o ódio nos una mais do que qualquer promessa de paz, não porque seja justo ou bom, mas porque é compreensível, é simples, e sobretudo é eficaz, funciona como armadura contra a vulnerabilidade — e quem, aqui, nunca desejou ser invulnerável, nem que fosse por um instante?
Mas então vem a pergunta, e com ela a dúvida que me roubou o sono por tantas noites: se retirarmos o ódio, com o que ficamos? Com a dor pura, com a ausência de uma culpa alheia onde antes encontrávamos consolo, com a solidão de uma responsabilidade que não se divide, com o desconforto de saber que já não há um culpado claro e, por isso mesmo, não há redenção garantida — apenas o risco de despencar num abismo silencioso onde nem mesmo a autocompaixão consegue nos salvar — e isso, meus caros, pode ser mais cruel do que qualquer inimigo armado, porque é uma violência interna, sem nome, e ainda assim, talvez, necessária, porque só por ela talvez pudéssemos um dia encontrar algo parecido com a verdade — não uma verdade absoluta, essa pertence aos fanáticos e aos deuses — mas uma verdade pessoal, imperfeita, feita de contradições e hesitações, e que talvez por isso mesmo seja mais digna de confiança do que todas as certezas que usamos como espadas morais.
Não afirmo, vejam bem, que esse caminho seja redentor, tampouco acredito que a dor nos torne melhores, como gostam de repetir aqueles que nunca a sentiram de verdade, eu só digo que a dor, quando despida do ódio, revela o que há de mais insuportável em nós: a fragilidade essencial, a carência de sentido, o medo de não sabermos o que fazer com a liberdade de já não odiar, e talvez seja por isso que continuamos a cultivar o rancor com tanto esmero — não por vingança, mas por medo de não saber quem somos sem ele, medo de que, ao baixar o punho, descubramos a mão vazia e, o que é mais triste, incapaz de acolher.
E agora, enquanto escrevo esta última linha, hesito se devo encerrá-la com um ponto ou com uma interrogação, porque não sei se a pergunta que me faço é também aquela que vai ficar com você, leitor: será que, livres do ódio, seríamos fortes o bastante para suportar aquilo que sobra de nós?
Ontem, faria sessenta e oito anos. A Indesejada das Gentes solou o bolo de aniversário. Com Ela, não se negocia. Fez plantão no quarto despojado e não se comoveu com o cortejo de amigos que se revezavam na cabeceira do leito, inconformados com o que estava para acontecer. Caronte já preparava os remos para a travessia final. O barqueiro sombrio desconhece o sentido de concessões.
Com pedaços de lucidez que lhe restavam, desejou apenas escapar do mês de fevereiro. Em anos diferentes, fora nele que morreram pessoas queridas. Não conseguiu. Sob os cantares de mockingbirds, que estavam particularmente agitados sob o sol californiano, parou de respirar no ano passado, no último dia do mês agourento.
Habitávamos extremos opostos. Ela tinha a irrequietude de um suricato. Talvez por isso tenha colecionado frustrações afetivas. Preferiu morar longe da família, embora demonstrasse por entrelinhas que não conseguiria viver sem ela. Mudava de planos à tripa forra, parecia estar ausente mesmo quando ficava ao alcance do olho. Escorregadia como os bons dribladores. Através dos alimentos, como cozinhava bem!, cativou, encantou e agregou vizinhos. A cozinha foi, provavelmente, sua área de descarga, de alívio das tensões, do sossego que, fora dali, não se permitia. Recuperou receitas ancestrais da avó materna, pássaro de Makow Mazowiecki, e as publicou num livreto precioso.
Dei-lhe esquecimento e silêncio, que duraram décadas, uma cicatriz no joelho, crueldade adolescente, o pavor de um fantasma (lençol semovente) em noite de ausência dos pais. Criei rivalidades artificiais, rixas pueris. Afrontava sua paixão beatlemaníaca dizendo que os Rolling Stones eram os maiorais. Bobagem que servia para demarcar territórios em épocas de disputa pela atenção dos adultos.
Hoje, muita estrada percorrida, estou convencido de que não é possível conhecer totalmente uma pessoa. Há tantas pedras no caminho, tanto caos e insegurança pendurados, tanta contradição cotidiana, que o máximo que se consegue é uma silhueta precária. Adaptamo-nos a ela para espantar a solidão. Afinal, caetaneando, de perto ninguém é normal.
No final da década de 80, passei por uma fase difícil, que resultou em muitas reavaliações. Com o degelo, selei um tratado de mútua tolerância com ela. Reconhecemos nossas diferenças, mas tentamos, sem rigidez, criar um pouco de intimidade. Visitei-a no exterior algumas vezes, conversamos um tantinho quando ela vinha aqui. Revelou-me, certa vez, um trauma de rachar. O pai morreu de ataque cardíaco aos 41 anos. Um dia antes, ela lhe deu um sanduíche de pão francês com leite condensado. Ao saber da morte fulminante, imaginou que tinha sido a culpada. Por envenenamento! Criança com 9 anos incompletos, pode-se calcular o tamanho do estrago psíquico.
Meses antes de morrer, demonstrou um afeto por mim que não esquecerei. Procurou um presente que teria a minha cara. Achou-o numa feira de antiguidades (sou mesmo muito antigo). Era um lindíssimo tinteiro francês, guarnecido por um leão (tara recorrente dos colonialistas europeus) e velho de séculos, que hoje enfeita minha escrivaninha. Todos os dias me saúda com mesuras imaginárias. Prova definitiva de que construímos laços, apesar de fantasmas e silêncios. Dá uma saudade estranha. Filme falado em sânscrito, sem legendas ou dublagem, que faço questão de não decifrar.
Eu estava no quarto, à cabeceira de seu leito final. Preparou-se para minha vinda com um cabeleireiro amigo, modelador de cabeleiras hollywoodianas, como se fosse receber o imperador da Abissínia. Perguntou-me sobre preferências alimentares. Esses cuidados, esses carinhos, tão imensamente significativos no momento da despedida derradeira, a Ceifadora não ia levar, não.
O sujeito oculto desta pequena, mas necessária, memória é Felicia Gruman Penido. Minha irmã.