Dizer que o nome dele era José seria, talvez, cumprir uma formalidade cartorial daquelas que só servem pra manchar papéis e preencher lacunas em biografias que ninguém pediu, com a mesma indiferença com que se anota a direção do vento numa segunda-feira sem história, mas o que importa mesmo, e nisso nem vale discussão, não é o nome com que se nasce, mas o nome com que se segue vivo, ou melhor ainda, o nome com que te chamam quando já não precisam mais te distinguir dos demais, mas apenas te reconhecer, e foi assim que José virou Pepe, não por vontade própria, nem por truque de marqueteiro querendo fabricar afeto onde só há cálculo, mas porque o povo — esse bicho estranho, difuso, que não tem rosto definido mas às vezes tem razão — decidiu que aquele homem magro, de costas curvadas e fala mansa, era um dos seus, e por isso podia ser tratado como se trata um irmão velho, um amigo que já errou o bastante pra não errar mais, alguém que viveu grande demais pra caber nas pequenas biografias, e por isso mesmo merecia um apelido, porque o apelido, ao contrário do nome, não se impõe, se ganha, e quando se ganha, revela.
E foi assim que Pepe, o ex-José, virou não só um homem com nome curto, mas um homem com história longa, história que não se escreve com verbinho educado nem advérbio que pede desculpa, mas com substantivos secos, ásperos, diretos: prisão, assalto, sequestro. Porque foi isso mesmo que ele fez. E não se deve esconder, nem enfeitar, nem empacotar com eufemismo, roubou banco, sim, sequestrou embaixador, sim, enfrentou o Estado com arma na mão, sim, e por isso foi preso, e por isso foi torturado, e por isso ficou catorze anos trancado entre grades que não serviam só pra separar do mundo, mas pra tentar apagar o homem por dentro. E durante três desses anos não viu sol, não viu gente, viu só formiga — sim, formiga — essas sim fiéis, essas sim constantes, essas sim capazes de escutar sem julgar. E não enlouqueceu porque aprendeu a conversar com o que ainda estava vivo em volta, e talvez por isso, quando finalmente abriu a porta da cela e pôs os pés de novo sob o céu, já não tinha sede, já não tinha pressa, já não tinha nenhuma gana de vencer, só a firme intenção de não trair.
E assim viveu, sem trair — o que já é mais do que se pode dizer de quase todos os que sentam em trono — e governou, sim, foi deputado, foi senador, foi ministro, foi presidente, e em nenhum desses cargos trocou de casa, de roupa, de mulher, de rotina, ficou no sítio, ficou com o mesmo carro velho, ficou com Lucía, que nunca foi primeira-dama porque nunca precisou ser, que nunca fez pose porque já era grandiosa, e ali, entre cachorros e hortas, entre silêncios e reuniões, entre o absurdo do poder e o milagre da vida comum, ele mostrou que não era necessário escolher entre ser gente e ser governo, que era possível ser os dois, e ao mesmo tempo, e com coerência, e com humildade, e com humor, e com desapego.
E quando a doença chegou — e doença assim não chega como quem bate na porta pedindo licença, chega como chegam as sentenças que já se sabem definitivas — Pepe não quis prolongamento, não quis tratamento que adia sem curar, não quis sobrevida, quis só o que ainda fosse vida, e o que já não fosse, que morresse logo, e foi assim que morreu, como morre quem não tem mais conta pra pagar nem palavra por dizer, e isso, sejamos francos, é raro, raríssimo, quase pecado nos tempos de agora, e ele se foi sem grito, sem câmera, sem cortejo, deixando só o silêncio como prova de que, sim, foi possível, ainda que só uma vez, ainda que só com ele.
E o problema, o verdadeiro problema, é que quase ninguém em Israel sabe disso, ninguém ouviu, ninguém leu, ninguém ensinou, e se perguntarmos nas escolas, nas universidades, nas redações, nas filas do supermercado ou nas cadeiras do Knesset, poucos saberão quem foi Pepe Mujica, e isso não é acaso, é projeto, porque se soubessem, talvez não aceitassem que o apelido mais repetido por aqui seja outro: Bibi — nome curto também, nome fácil também, nome dito com a falsa intimidade de quem acredita que conhece, mas só consome, porque Bibi não é apelido dado pelo povo, é apelido herdado da infância e transformado em marca de campanha, é apelido que se impôs como logotipo, como escudo, como perfume caro sobre carne podre, e todo mundo repete, Bibi pra lá, Bibi pra cá, como se isso bastasse pra torná-lo próximo, humano, acessível, quando ele nunca foi nada disso, nunca andou a pé, nunca abriu mão de nada, nunca ouviu o que não quis, nunca pagou pelo que fez.
E é aqui que a comparação se torna insuportável, porque de um lado temos Pepe — o homem que roubou e pagou, que matou e pensou, que lutou e depois se calou, que caiu e voltou sem rancor — e do outro temos Bibi — o homem que sempre teve tudo e ainda quer mais, que não se contenta em ter, precisa manter, precisa impedir que os outros tenham, que os outros sonhem, que os outros respirem. E o povo, esse mesmo povo que deu a Pepe um apelido com afeto, se deixou enganar por um apelido herdado, como se o som curto bastasse pra esconder o abismo longo, e ainda o chamam assim, Bibi, como se ele ainda fosse menino, como se ainda merecesse o colo que já traiu mil vezes, como se ainda fosse dos nossos, quando nunca foi, e nunca será.
E eu, que pertenço aos dois mundos, o daqui e o de lá, o das sirenes e o dos silêncios, digo com a dor de quem perdeu em dobro, que Israel nunca teve um Pepe, mas teve e tem um Bibi, e isso diz mais sobre o que somos do que qualquer guerra, qualquer lei, qualquer eleição, e por isso peço, não que o odeiem, nem que o derrubem, nem que o esqueçam, só que o chamem pelo nome que merece, Benjamin, porque Bibi não é mais dele, não tem direito, não tem afeto, não tem povo, não tem verdade, e se um dia teve, já perdeu.
Talvez o melhor seja começar logo por aqui, por essa ideia incômoda, difícil de engolir, mas tão verdadeira quanto qualquer susto diante do espelho: a de que a gente não é exatamente quem acha que é. O homem bom — esse que acorda cedo, leva o lixo, alimenta o cachorro, paga os boletos em dia e evita parar na vaga de deficiente — esse mesmo é capaz de arrancar a língua de outro se alguém soprar no ouvido certo as palavras “pátria”, “honra” ou “família”. E não sou eu quem inventa, é a história que grita pelos ossos deixados pra trás nos becos do mundo, ossos empilhados, embranquecidos, catalogados, às vezes até exibidos em museu, como se a gente dissesse com orgulho: olhem como fomos eficientes até na matança.
E não me venham com essa conversa simplista de separar os bons dos maus, como se o mundo fosse um teatro de bonecos em que alguns mexem os fios da maldade e outros só dançam a musiquinha da virtude. Porque, se tem uma coisa que já deu tempo de aprender, mesmo a contragosto, é que ser bom depende muito das circunstâncias — e ser cruel também. O mesmo sujeito que hoje abraça o vizinho, amanhã pode mirar nele, se o mapa mudar, se a bandeira trocar de cor ou se alguém gritar que é isso ou morrer — e nem falo da morte do corpo, mas daquela outra, a que nos arranca da tribo, que nos expulsa do grupo, e que, convenhamos, é a que mais mete medo.
Dizem que somos civilizados, modernos, que aprendemos com os erros do passado. Mas basta uma crise, um colapso no mercado, uma eleição mal digerida, um inimigo fabricado na prensa da propaganda, e lá estamos nós outra vez, com a tocha na mão e a convicção inflada no peito, prontos pra fazer justiça do nosso jeito — como se a justiça algum dia tivesse tido mãos que não fossem as nossas. E se me perguntarem onde estão os maus, eu digo: em todo lugar onde os bons acham que têm razão demais pra ouvir.
Ah, os bons. Essa turma tão cheia de certeza, tão limpinha, tão moralmente alinhada. Nunca hesitam, nunca tropeçam, nunca suam. Só apontam, denunciam, corrigem. Como se tivessem recebido um crachá de pureza e agora fossem os únicos autorizados a decidir quem merece o chão e quem merece o buraco.
E os maus? Ora, os maus são uma delícia. São úteis, funcionais. Eles explicam tudo: a decadência, a violência, a bagunça, o trânsito. Com eles, a gente dorme tranquilo — porque o mal tá sempre lá fora. Nunca dentro. Nunca na gente. Nunca no jeito que a gente ama, teme, decide ou se cala. E assim seguimos, com a consciência lavada e o sangue nas mãos dos outros.
Porque, no fundo, todo mundo está pronto. É só aparecer a causa certa. E se não aparecer, a gente inventa. Ou então pega emprestada de alguém mais convicto, mais barulhento. Não faltam bandeiras, slogans, hinos, líderes carismáticos e frases de efeito. E então o homem bom marcha, o homem bom grita, o homem bom aperta o gatilho. E quando tudo passa, ele diz que não sabia, que só cumpria ordens, que era pelo bem maior. Depois volta pra casa, dá ração pro cachorro, paga os boletos e segue se achando bom. Talvez até melhor. Mais consciente, mais patriota, mais cidadão.
E é aí que mora o perigo. Não no grito selvagem, mas no silêncio limpo. Não no monstro escancarado, mas no sujeito comum cheio de certezas. E se me pedirem um jeito de distinguir o bem do mal, eu respondo: não sei. Talvez nem tenha como. Talvez o mais sensato seja desconfiar — não do outro, mas de si mesmo. Porque quem confia demais na própria bússola moral corre sempre o risco de bater palma pro horror, desde que ele venha bem justificado.
E aqui, diante da tela acesa onde se escrevem hoje as velhas confissões do mundo, eu deixo essa dúvida como quem planta não um fruto, mas uma faísca:
se todo mundo é capaz de tudo, quem é que vai nos salvar das nossas causas?
O diagramador do jornal não deve ter percebido. Colocou em páginas consecutivas, uma ao lado da outra, dois assuntos aparentemente isolados, mas organicamente ligados. Na primeira, verdadeira revelação de horror, somos informados de que quase um terço dos adultos brasileiros (entre 15 e 64 anos) são analfabetos funcionais. Estamos estagnados aí desde 2018. Este mundão de gente não consegue interpretar frases elementares e tem enorme dificuldade para ler com um mínimo de fluência.
Os números aterradores mostram a indigência do sistema educacional básico, amputando o exercício pleno da cidadania. Além da falta crônica dos investimentos necessários, há situações que transformam as escolas em locais perigosos para alunos e professores. De acordo com levantamento do MEC, oito em cada dez professores de escolas públicas já presenciaram atos de bullying em sala de aula. São cada vez mais frequentes, também, os casos de agressões a professores.
A essas barreiras estruturais juntam-se os vícios das onipresentes telas. Conta uma jornalista, hoje professora da graduação, numa crônica recente do Ruy Castro: “É uma luta para fazer com que os alunos leiam um livro inteiro. Eles vivem grudados no TikTok ou no Instagram e não têm concentração. Outro dia, ao ver que todos estavam ao celular, parei a aula. Perguntei a alguns o que estavam vendo – e muitos não se lembravam. Não se lembravam do que tinham acabado de ver 15 segundos atrás!”.
No mundo digitalizado e dinamizado por tecnologias que se renovam rapidamente, o analfabetismo não é diferente de uma prisão. O analfabeto funcional exclui-se não apenas de amplos mercados de trabalho, mas do maravilhamento com as novidades que afirmam a criatividade humana. Não tomará conhecimento, por exemplo, da mais recente descoberta do telescópio James Webb. Analisando imagens do exoplaneta K2-18b, detectou moléculas que podem indicar a presença de formas de vida. Isso a 120 anos-luz de distância da Terra (cada ano-luz representa cerca de 9,5 trilhões de quilômetros)!
Bem, o que aparecia na página ao lado? Um adolescente de 15 anos, tratado como “missionário” e “profeta mirim”, diz ser capaz de curar o câncer. Faz pregações usando gestual e vocabulário de adultos. Simula ataques epilépticos como sinal de contato com transcendências. Já ultrapassou 1 milhão de seguidores em redes sociais. Cada vez que ouço falar neste tipo de charlatanismo, sou tomado por um misto de indignação e compaixão. Charlatães aproveitam-se de carências várias e prometem o impossível. Vejam vocês. Se alguém, qualquer alguém, fosse mesmo capaz de curar o câncer, melhor seria fechar todas as clínicas oncológicas, sucatear os equipamentos terapêuticos e incinerar os medicamentos usados em quimioterapia. Convocava-se o milagreiro, organizar-se-iam (desculpem o modo Jânio Quadros) filas de atendimento e a doença seria banida. Claro que isso jamais acontecerá e as multidões de crédulos, tomadas por dor e desespero, continuarão a idolatrar os mistificadores. Angústia nunca foi boa conselheira.
Há outros minipastores sapateando no rico mercado da fé. Tenho pena desta gente miúda. Encurtam a infância, sacrificada por interesses adultos. Por outro lado, quem consultaria uma criança ou adolescente em busca de orientação de qualquer tipo? É gente imatura, que está em formação, inocente do impiedoso vale de lágrimas, submetida a uma sólida corrente de inseguranças. Podem vestir-se como adultos, mas menores continuam sendo.
Duas páginas de jornal, dois aspectos que nos ajudam a compreender – e temer – o ornitorrinco Brasil.
Eu, que de paciência pouco me sirvo e da esperança já fiz penhor em tempos mais ingênuos, pergunto-me, e não é uma pergunta retórica dessas que se fazem apenas para enfeitar o papel, mas uma daquelas que, quando surgem, vêm com o gosto amargo do fel e o peso de uma verdade que se arrasta atrás de si como corrente mal quebrada, pergunto-me, repito, em que momento aceitamos — aceitamos, veja bem, e não finjamos que fomos apenas arrastados pela maré — que a miséria moral deixasse de ser vergonha e passasse a ser projeto de governo, que a barbárie se sentasse à mesa e ainda fosse servida primeiro, enquanto os que deveriam levantar-se em protesto preferiram ajustar a cadeira, fingir que não era com eles, olhar para o lado como quem contempla a paisagem de um abismo sem perceber que já está com um pé lá dentro.
E digo mais, porque já que começamos a caminhar sobre este fio de navalha, vamos até o fim: o nome há de ser dito, não porque mereça, mas porque escondê-lo seria fazer-lhe o favor de preservar a decência que nunca teve, Itamar Ben-Gvir, esse é o nome que já deveria causar engulho antes mesmo de ser pronunciado, mas que, no entanto, circula com a desenvoltura de um velho conhecido nos salões onde se distribuem decretos e se legisla a desgraça como quem organiza o cardápio de um banquete fúnebre.
E não me venham, peço encarecidamente, com a história de que tudo é mais complexo, de que há nuances a considerar, porque a complexidade é o álibi dos covardes, e se há algo que este sujeito jamais foi, é complexo, porque o seu caminho é uma linha reta e suja, traçada desde a juventude quando, sem o menor pudor e com a arrogância própria dos que não têm sequer a grandeza da vergonha, arrancou o emblema do carro de Yitzhak Rabin e o ergueu como troféu diante das câmeras, numa exibição pública de um ódio que, poucos dias depois, se materializaria em tiros disparados por mãos que também penduravam na parede de casa o retrato do carniceiro de Hebron, Baruch Goldstein, retrato esse que, não por coincidência, decorava a sala do próprio Ben-Gvir, uma sala que jamais conheceu o incômodo de um pensamento decente.
E eu, que de espectador já me cansei, e que de silêncio não faço profissão, pergunto-lhe diretamente, sim, a você que me lê com esse leve desconforto que tenta disfarçar sob a desculpa de uma análise equilibrada, em que ponto exatamente você decidiu que era possível ser tolerante com o intolerável, e mais ainda, que era possível manter-se neutro enquanto o chão à sua volta arde em chamas acesas não por acaso, mas por mãos sabidas e intencionais, como aquelas que, entre um ajuste ridículo de paletó e uma cuspida de intolerância bem ensaiada, entregam ao mundo a mais repulsiva das certezas: a de que ainda há quem prefira o fogo ao esforço de construir pontes.
E porque não basta apenas apontar o dedo sem colocar o espelho, pergunto-lhe sem qualquer vontade de ser ameno, você, justamente você, que talvez tenha hesitado em condenar, que se calou em reuniões de família, que preferiu mudar de assunto nas rodas de amigos, que justificou a ascensão do monstro com aquela frase miserável de que “as coisas não são bem assim”, o que pensa agora, diante desta fogueira que já lambe as paredes da sua própria casa? Acha mesmo que se salvará do calor apenas porque, até agora, limitou-se a aquecer as mãos à distância?
Não há mais espaço, e nunca houve de fato, para essa farsa piedosa da neutralidade, porque a neutralidade, quando o intolerante já ocupa o centro do palco, é apenas a forma mais covarde de tomar partido, é sentar-se entre os bárbaros e acreditar que, por não levantar a taça no brinde à destruição, já se está absolvido da culpa.
Pois saiba, e saiba bem, que a história que vier, porque sempre vem, escreverá com a frieza dos que já perderam a paciência até para a compaixão, que entre os incendiários e os que simplesmente observaram, não há distinção moral, apenas diferença no método.
E no fim, quando as cinzas assentarem, e que ninguém duvide de que elas virão, não restará sequer a sombra para protegê-lo da pergunta que ressoará em sua cabeça como um martelo final: onde você estava enquanto o intolerante incendiava tudo? E pior ainda, por que diabos você nada fez?
E esta, lamento informar-lhe, será a pergunta sem resposta. E que esse silêncio, ao menos, lhe sirva de penitência.
A raça humana/não consegue suportar muita realidade (T. S. Eliot)
Quem mora neste balneário metido a besta conhece bem a expressão malandragem. Embora alguns a levem na maciota, uma brincadeira com assinatura carioca, a verdade é outra. Desde pequeno a ouço com muitas variantes. Quando a cidade era cortada por trilhos, apareceu o malandro que, ardiloso, tentou vender bonde para matutos mineiros. Provavelmente deu com os burros n’água. Mineiro (o folclórico) é quieto, mas de tolo não tem nada. Outros malandros inventaram truques para vender bilhetes de loteria. Existiam os do mundo cão, hábeis na navalha e exploradores do que a crônica policial chamava de baixo meretrício.
As práticas foram se aperfeiçoando e hoje sentam praça na administração municipal do Rio. Temos, aí está!, um prefeito malandro. Adora fazer jogo de cena, fantasiado de gente boa. Na prática, a cidade que governa está entregue às traças. Montado no jogo das aparências, anda lorotando por aí que o Rio deve ser a “capital honorária” do Brasil. Mais um carimbo ilusório, fantasia rota, para quem mora e circula pela cidade, onde o direito de ir e vir em segurança foi amputado e a desordem urbana e a incivilidade reinam sem concorrência e em cada rua, em cada esquina. Não conheço estatísticas, mas suspeito que o Rio não faria feio num torneio de ansiedade, insônia e sustos paranoides.
Desconheço os critérios, mas a Unesco escolheu o Rio como Capital Mundial do Livro em 2025. Sério mesmo? Alguns dos bairros mais populosos da cidade não têm sequer uma livraria decente. A calle Corrientes, em Buenos Aires, tem muito mais livrarias do que o Rio inteiro. Não há políticas públicas de incentivo permanente à leitura e ao consumo de livros. Salvam a honra e o apetite literário dos cariocas os heroicos sebos, polos de resistência bibliófila. Não há mais livrarias como a José Olympio e a Civilização Brasileira, que, muito além da venda de livros, eram pontos de encontro de intelectuais e de convivência entre leitores e seus autores prediletos. O prefeito, claro, capitaliza a notoriedade que lhe caiu no colo. Vai assinar eventos efêmeros, brilharecos que renderão aplausos alugados e morrerão no último dia do ano. Malandragem de baixa estirpe.
Ano passado, o bairro de Copacabana foi violentado muitas vezes por eventos privados. A prefeitura alugou a areia da praia para todo tipo de furdunço. O maior deles, com uma autodenominada periguete recebida a pão-de-ló, forçou os moradores a um exílio interno, ornado por trânsito caótico, vias interditadas, montanhas de lixo, urina e resíduos impublicáveis espalhadas por todo canto. Animado com a publicidade, o Malandro do Piranhão decretou: maio será, doravante, o mês de grandes eventos. Tradução: conformem-se, cidadãos, seu direito de ir e vir estará limitado por um tempinho. Já estou abastecendo meu bunker com provisões e paciência. Daqui a alguns dias, uma certa Lady qualquer coisa (seria a Neide Aparecida, atualizando suas perucas?) vai sacudir a pança e comandar a massa. Ótimo para os que também vão sacudir panças. Nosotros, os demais, fecharemos pra balanço e aguardaremos a borrasca passar.
Se o Reizinho da Cidade Nova gosta de mobilizações, que tal seria transformar o mês de maio, por exemplo, num período de convocação da população para mutirões de conserto e manutenção das escolas municipais? Seria uma forma criativa de aproximar os cariocas da triste realidade dos equipamentos educacionais públicos desta cidade e uma alternativa não demagógica de fazer política ao lado da que João do Rio chamava “alma encantadora das ruas”. Sem plumas, paetês e figurinos exóticos, mas com verdadeiro amor pela cidade.
Ainda em Copacabana (desculpem o excesso de citações do bairro, mas é aí que moro), aconteceu uma situação que resume o espírito de porco que anda reinando por aqui. O cinema Roxy, inaugurado em 1938, fechou as portas e seus restos mortais foram transformados em Roxy Dinner Show. Trata-se de casa de espetáculos para turistas, com refeições inacessíveis ao cidadão médio.
Assim tem funcionado o botequim. Tapete vermelho e balangandãs para turistas, salve-se quem puder para os locais. Com trilha sonora eletrônica em volumes assassinos.
Olha bem no dicionário e reflita: não há nenhuma palavra com um significado só (Millôr Fernandes)
Colecionador e pesquisador precisam de sorte. Num porão semiabandonado, o filatelista sonha esbarrar no Olho de Boi. Num sebo, soterrado por livros e revistas empoeirados, o pesquisador atento, e bem-aventurado, descobrirá a edição original do Almanhaque 1949, autografada pelo Barão de Itararé. Dentro de uma lata enferrujada, amassada e descartada de Balas Balsâmicas Silva Araújo, o numismata pode encontrar a pataca há muito desejada. Pé de pato, mangalô, três vezes. Salve o pé de coelho!
Imaginem então a excitação do jornalista, escritor e pesquisador Thiago Uberreich quando descobriu o conteúdo de um lote de áudios que ganhou de um desconhecido. Eram registros sonoros de transmissões pela TV dos jogos da seleção brasileira na Copa de 70. Estavam no acervo da falecida TV Tupi (canal 6, no Rio de Janeiro) e, há muito, dados como perdidos. A transmissão naquela Copa foi feita por um pool de emissoras, com imagem e locução unificadas. Ali, ao alcance dos tímpanos de Thiago, ressuscitavam Fernando Solera, Geraldo José de Almeida, Walter Abrahão e Oduvaldo Cozzi. Equipe de lordes da voz, antíteses dos esgoeladores sem noção que dominam as narrações de hoje.
A ascensão dos locutores estridentes não é gratuita. Ela se dá no exato momento em que tudo no tecido social parece demandar algazarra e som nas alturas. Desde a praga dos bares aos shows megatônicos nas praias, dos “debates” tóxicos nas redes sociais à prática política. O silêncio, a introspecção, o murmúrio, o papo calmo, viraram esquisitices. Coisa de gente chata.
Com o excesso de ruído, perde-se o espetáculo das vozes ao redor. Drummond conversava com a amendoeira que coloria seu olhar na janela do apartamento em Copacabana. Quantas poesias nasceram desta troca silenciosa? Numa das cenas mais belas da história do cinema, com enorme carga dramática, não há palavras. No final de Eles não usam black tie, os personagens de Gianfrancesco Guarnieri e Fernanda Montenegro catam em silêncio as pedrinhas que vinham misturadas com os grãos de feijão. Tinham acabado de passar por experiências difíceis, traumáticas. Suas expressões mostram cada nervo rompido, cada angústia, cada afirmação de solidariedade. Quem precisava de palavras? The sounds of silence.
Certa vez, perguntaram ao José Saramago o que achava da morte de palavras, aquelas que desaparecem pelo desuso. Respondeu lamentando-se e projetando um futuro em que nos comunicaremos por monossílabos. O empobrecimento vocabular acentua-se com a linguagem telegráfica das mensagens eletrônicas e o tombo na leitura de livros. Este tipo de silêncio destrói conteúdos.
Há vozes sufocadas, muitos pedidos de socorro que caem no vazio. As populações periféricas nas grandes cidades não conseguem interlocução para agregar vozes à luta permanente contra violências identificadas e toleradas. Moradora do Complexo da Maré, conjunto de favelas na Zona Norte do Rio, descreve sua infância com trilha sonora de tiros e gritos. “Cresci achando que o mundo era assim. Que era normal ter tiro toda hora. Aqui na Maré a gente conhece a maldade cedo”. E vai seguindo a procissão, a cidade barulhenta, surda às vozes de seus filhos persistentes.
Como Thiago, eu gostaria de recuperar vozes do passado. Melhor dizendo, uma voz. No Bar Mitzva, o Menino discursou por cercaintimidade de 15 minutos. Texto decorado depois de meses de ensaios. Escrito em ídish, idioma com o qual tinha pouca . O Grande, enfatiotado e cabelo reco fazendo dupla com o Menino, segurou o microfone e lascou: “Manda brasa!”. A coisa foi toda gravada, mas a expressão robertocarlista acabou cortada na edição final. Tantos anos depois, eu queria ouvir novamente o Zissinho sair do sério por breves segundos e me animar daquele jeito. Se pudesse, eu pediria que, depois, ele largasse o microfone e me abraçasse. Em silêncio cúmplice. Faria muita diferença.