Israel 2025

O governo já não fala, emite sons, palavras cortadas ao meio, promessas reduzidas a siglas, ordens que saem dos gabinetes como tosses secas, sem garganta nem destino, e ainda assim encontram ouvidos, encontram braços, encontram gente disposta a executar sem perguntar, a obedecer sem saber, a repetir sem entender, e um país assim não precisa de ideologia, basta-lhe um manual de conduta e o medo bem distribuído como pão racionado, e há tanto medo que já se confundiu com prudência, com civilidade, com responsabilidade nacional, dizem coisas como é melhor não mexer nisso agora, melhor esperar mais um pouco, melhor não confrontar por enquanto, sendo que o agora nunca é o momento certo, e o depois nunca chega, e é nessa hesitação continuamente adiada que se constrói o regime mais eficaz que já tivemos, aquele onde quase ninguém manda e quase todos se calam.

Há quem se levante todo dia com a firmeza mecânica de quem já não espera mais nada, vai trabalhar, ou ao menos tenta, come o que der para comprar com o que restou do salário, escuta o noticiário como quem observa o trânsito, não para entender, mas para confirmar que tudo continua exatamente onde estava, e se alguma mudança chega, chega para pior, e mesmo assim segue-se adiante, porque parar exige mais coragem do que continuar, e coragem é coisa que a gente já gastou como sola de sapato, dizem que o povo está cansado, talvez esteja, mas cansaço, quando vira desculpa, deixa de ser sintoma e passa a ser método, e método, disso sabemos bem, é coisa que este país sempre teve, mesmo que nunca tenhamos ousado dar-lhe esse nome.

O homem que comanda, se é que isso ainda pode ser chamado de comando, esse ofício de agarrar-se ao poder pendurado em cada nova rachadura como quem transforma o desmoronamento em escada, esse homem, portanto, não governa, administra a erosão com a habilidade de quem sabe que a terra cede devagar, e se o buraco se abre com elegância, ninguém grita, e os que andam com ele, ministros de coisa nenhuma, homens de vocabulário inchado e espinha flexível, distribuem palavras como se fossem destinadas apenas ao uso externo, porque por dentro já aprenderam a calar o que pensam, se é que pensam, e se pensam, é apenas no que perderiam caso deixassem de cumprir seu papel na engrenagem.

E o povo, esse mesmo que é chamado de soberano quando se precisa do seu voto e de submisso quando se anunciam cortes, observa tudo com os olhos treinados da normalização, esse hábito lento de aceitar o intolerável desde que ele venha parcelado e sem fazer muito barulho, ninguém quer escândalo, já basta o ruído do cotidiano, os preços, os turnos, os sustos, as sirenes que não dizem se vêm de fora ou de dentro, as estatísticas lidas em voz neutra por apresentadores que ainda acreditam que neutralidade é uma forma de virtude e não de omissão.

Nas escolas se aprende muito pouco e se desaprende muito depressa, e isso parece ser conveniente para todos os envolvidos, os professores que já não ousam, os pais que já não perguntam, os alunos que já nascem treinados para o pragmatismo, aqui não se educa para pensar, educa-se para obedecer, e obedecer é mais fácil quando não se conhece alternativa, por isso se conta a história aos pedaços, as datas importantes são as que servem para desfiles e cerimônias, os nomes que não têm estátua nunca existiram, e a geografia é mais mapa do que chão, um contorno cheio de linhas e zonas e ameaças, mas sem cheiro, sem poeira, sem gente, e assim se cresce num país onde o conhecimento é concessão e a dúvida, perigo, e cresce-se torto, que é o único jeito de caber dentro da estrutura.

O que se vê é um pacto, não dito, não assinado, mas firmado com cada gesto de conformidade, uma cidade cercada por câmeras, uma aldeia que desaparece antes do amanhecer e ninguém menciona no café da manhã, um velho empurrado no mercado e ninguém viu, uma criança sem escola que já aprendeu a calar, e a palavra segurança, dita com tanto fervor, tornou-se a cortina que cobre tudo o que não se quer discutir, há quem aponte o dedo para fora, porque sempre é mais confortável ter um inimigo externo do que encarar a podridão interna, e enquanto isso o país afunda sobre si mesmo, em silêncio, como uma casa construída sobre memória mal resolvida.

Ainda existem os que se dizem bons, e talvez sejam, ao menos aos sábados, ou quando publicam nas redes sociais que o mundo precisa de mais amor, e quando se veem diante da injustiça dizem que é complicado, que não é tão simples, que há dois lados, que é preciso considerar o contexto, e com essas palavras constroem muros mais eficientes que o concreto, porque impedem o pensamento de andar, a compaixão de atravessar, a dúvida de pousar, e onde não se permite dúvida, não há ética, só obediência com verniz de civilidade.

E há beleza, isso não se pode negar, uma beleza que engana, que distrai, que embriaga, as pedras brilhando ao sol, os campos tremendo com o vento, os nomes antigos ainda sussurrados nas ruas velhas, mas tudo isso é superfície, e por baixo a terra treme, não por causa de terremoto, mas por uma tensão que ninguém quer nomear, e que por isso mesmo se torna mais forte, mais funda, mais permanente, como uma rachadura atravessando o centro da consciência.

Escrever, então, não é vaidade, é urgência, porque há coisas que precisam ser ditas antes que se tornem invisíveis, porque quando tudo for normal, até o absurdo será norma, e haverá formulários para a crueldade, filas para a vergonha, carimbos para o silêncio, e se ninguém falar, só restarão os arquivos, e sabemos bem que há arquivos que nunca se abrem, e outros que, quando abertos, já não servem para nada, porque não há mais ninguém vivo que se lembre do que eles significavam.

E se um dia, talvez não hoje, talvez não amanhã, alguém perguntar onde estavam os que sabiam, os que viam, os que podiam ter feito alguma coisa, talvez descubram que estavam exatamente aqui, onde estamos agora, sentados, imóveis, com os olhos abertos mas sem piscar, esperando que alguém, qualquer um, fizesse por nós aquilo que sempre soubemos que nunca faríamos por ninguém.

O nosso ódio de cada dia

Se me perguntassem hoje como nasce o ódio, eu não saberia responder com precisão, mas arriscaria dizer que talvez ele nem nasça, talvez sempre estivesse ali, esperando apenas que alguém o despertasse com uma palavra fora do lugar, uma lembrança incômoda ou, mais comumente, com aquele silêncio que diz tudo quando não se diz nada, porque nesta terra, onde cada pedra parece guardar uma memória e cada sombra carrega um nome perdido, aprendemos a armazenar o rancor como se fosse um bem valioso, protegido com zelo antigo, transmitido de geração em geração com o mesmo cuidado de quem entrega uma herança sagrada, embora feita não de posses, mas de feridas — e dessas, temos muitas — tão profundas e tão antigas que já nem sabemos se são realmente nossas ou se apenas continuamos a sangrá-las por fidelidade à dor de quem veio antes, e talvez seja por isso que odiamos com tanto empenho, porque há nisso uma estranha forma de pertencimento, como se, ao odiar, confirmássemos que ainda estamos vivos, ainda somos daqui, ainda sabemos o que é sofrer com convicção.

E, no entanto, se alguém nos arrancasse esse ódio, se nos deixassem apenas com a carne viva da dor que fingimos não sentir, talvez fôssemos forçados a encarar aquilo que evitamos há tanto tempo: os restos emocionais de uma guerra que nunca termina, as perdas que nos recusamos a chorar, os erros que colocamos nos ombros dos outros para não admitir o peso da nossa própria mão no gesto que machucou, e é aí, justamente aí, que tudo se complica, porque odiar é mais fácil do que lembrar com amor, mais fácil do que perdoar sem esquecer, mais fácil do que reconhecer, com vergonha e espanto, que atrás de cada rosto que chamamos de inimigo pode existir apenas outro alguém igualmente assustado, igualmente ferido, igualmente apegado ao rancor como escudo contra um mundo que insiste em não fazer sentido — e, se me permitem a heresia, talvez o ódio nos una mais do que qualquer promessa de paz, não porque seja justo ou bom, mas porque é compreensível, é simples, e sobretudo é eficaz, funciona como armadura contra a vulnerabilidade — e quem, aqui, nunca desejou ser invulnerável, nem que fosse por um instante?

Mas então vem a pergunta, e com ela a dúvida que me roubou o sono por tantas noites: se retirarmos o ódio, com o que ficamos? Com a dor pura, com a ausência de uma culpa alheia onde antes encontrávamos consolo, com a solidão de uma responsabilidade que não se divide, com o desconforto de saber que já não há um culpado claro e, por isso mesmo, não há redenção garantida — apenas o risco de despencar num abismo silencioso onde nem mesmo a autocompaixão consegue nos salvar — e isso, meus caros, pode ser mais cruel do que qualquer inimigo armado, porque é uma violência interna, sem nome, e ainda assim, talvez, necessária, porque só por ela talvez pudéssemos um dia encontrar algo parecido com a verdade — não uma verdade absoluta, essa pertence aos fanáticos e aos deuses — mas uma verdade pessoal, imperfeita, feita de contradições e hesitações, e que talvez por isso mesmo seja mais digna de confiança do que todas as certezas que usamos como espadas morais.

Não afirmo, vejam bem, que esse caminho seja redentor, tampouco acredito que a dor nos torne melhores, como gostam de repetir aqueles que nunca a sentiram de verdade, eu só digo que a dor, quando despida do ódio, revela o que há de mais insuportável em nós: a fragilidade essencial, a carência de sentido, o medo de não sabermos o que fazer com a liberdade de já não odiar, e talvez seja por isso que continuamos a cultivar o rancor com tanto esmero — não por vingança, mas por medo de não saber quem somos sem ele, medo de que, ao baixar o punho, descubramos a mão vazia e, o que é mais triste, incapaz de acolher.

E agora, enquanto escrevo esta última linha, hesito se devo encerrá-la com um ponto ou com uma interrogação, porque não sei se a pergunta que me faço é também aquela que vai ficar com você, leitor: será que, livres do ódio, seríamos fortes o bastante para suportar aquilo que sobra de nós?

Memória necessária

Memória necessária

O resto é silêncio (William Shakespeare)

Ontem, faria sessenta e oito anos. A Indesejada das Gentes solou o bolo de aniversário. Com Ela, não se negocia. Fez plantão no quarto despojado e não se comoveu com o cortejo de amigos que se revezavam na cabeceira do leito, inconformados com o que estava para acontecer. Caronte já preparava os remos para a travessia final. O barqueiro sombrio desconhece o sentido de concessões.

Com pedaços de lucidez que lhe restavam, desejou apenas escapar do mês de fevereiro. Em anos diferentes, fora nele que morreram pessoas queridas. Não conseguiu. Sob os cantares de mockingbirds, que estavam particularmente agitados sob o sol californiano, parou de respirar no ano passado, no último dia do mês agourento.

Habitávamos extremos opostos. Ela tinha a irrequietude de um suricato. Talvez por isso tenha colecionado frustrações afetivas. Preferiu morar longe da família, embora demonstrasse por entrelinhas que não conseguiria viver sem ela. Mudava de planos à tripa forra, parecia estar ausente mesmo quando ficava ao alcance do olho. Escorregadia como os bons dribladores. Através dos alimentos, como cozinhava bem!, cativou, encantou e agregou vizinhos. A cozinha foi, provavelmente, sua área de descarga, de alívio das tensões, do sossego que, fora dali, não se permitia. Recuperou receitas ancestrais da avó materna, pássaro de Makow Mazowiecki, e as publicou num livreto precioso.

Dei-lhe esquecimento e silêncio, que duraram décadas, uma cicatriz no joelho, crueldade adolescente, o pavor de um fantasma (lençol semovente) em noite de ausência dos pais. Criei rivalidades artificiais, rixas pueris. Afrontava sua paixão beatlemaníaca dizendo que os Rolling Stones eram os maiorais. Bobagem que servia para demarcar territórios em épocas de disputa pela atenção dos adultos.

Hoje, muita estrada percorrida, estou convencido de que não é possível conhecer totalmente uma pessoa. Há tantas pedras no caminho, tanto caos e insegurança pendurados, tanta contradição cotidiana, que o máximo que se consegue é uma silhueta precária. Adaptamo-nos a ela para espantar a solidão. Afinal, caetaneando, de perto ninguém é normal.

No final da década de 80, passei por uma fase difícil, que resultou em muitas reavaliações. Com o degelo, selei um tratado de mútua tolerância com ela. Reconhecemos nossas diferenças, mas tentamos, sem rigidez, criar um pouco de intimidade. Visitei-a no exterior algumas vezes, conversamos um tantinho quando ela vinha aqui. Revelou-me, certa vez, um trauma de rachar. O pai morreu de ataque cardíaco aos 41 anos. Um dia antes, ela lhe deu um sanduíche de pão francês com leite condensado. Ao saber da morte fulminante, imaginou que tinha sido a culpada. Por envenenamento! Criança com 9 anos incompletos, pode-se  calcular o tamanho do estrago psíquico.

Meses antes de morrer, demonstrou um afeto por mim que não esquecerei. Procurou um presente que teria a minha cara. Achou-o numa feira de antiguidades (sou mesmo muito antigo). Era um lindíssimo tinteiro francês, guarnecido por um leão (tara recorrente dos colonialistas europeus) e velho de séculos, que hoje enfeita minha escrivaninha. Todos os dias me saúda com mesuras imaginárias. Prova definitiva de que construímos laços, apesar de fantasmas e silêncios. Dá uma saudade estranha. Filme falado em sânscrito, sem legendas ou dublagem, que faço questão de não decifrar.

Eu estava no quarto, à cabeceira de seu leito final. Preparou-se para minha vinda com um cabeleireiro amigo, modelador de cabeleiras hollywoodianas, como se fosse receber o imperador da Abissínia. Perguntou-me sobre preferências alimentares. Esses cuidados, esses carinhos, tão imensamente significativos no momento da despedida derradeira, a Ceifadora não ia levar, não.

O sujeito oculto desta pequena, mas necessária, memória é Felicia Gruman Penido. Minha irmã.

Abraço. E coragem.

Da Impossibilidade de Pepes em Terra de Bibes

Dizer que o nome dele era José seria, talvez, cumprir uma formalidade cartorial daquelas que só servem pra manchar papéis e preencher lacunas em biografias que ninguém pediu, com a mesma indiferença com que se anota a direção do vento numa segunda-feira sem história, mas o que importa mesmo, e nisso nem vale discussão, não é o nome com que se nasce, mas o nome com que se segue vivo, ou melhor ainda, o nome com que te chamam quando já não precisam mais te distinguir dos demais, mas apenas te reconhecer, e foi assim que José virou Pepe, não por vontade própria, nem por truque de marqueteiro querendo fabricar afeto onde só há cálculo, mas porque o povo — esse bicho estranho, difuso, que não tem rosto definido mas às vezes tem razão — decidiu que aquele homem magro, de costas curvadas e fala mansa, era um dos seus, e por isso podia ser tratado como se trata um irmão velho, um amigo que já errou o bastante pra não errar mais, alguém que viveu grande demais pra caber nas pequenas biografias, e por isso mesmo merecia um apelido, porque o apelido, ao contrário do nome, não se impõe, se ganha, e quando se ganha, revela.

E foi assim que Pepe, o ex-José, virou não só um homem com nome curto, mas um homem com história longa, história que não se escreve com verbinho educado nem advérbio que pede desculpa, mas com substantivos secos, ásperos, diretos: prisão, assalto, sequestro. Porque foi isso mesmo que ele fez. E não se deve esconder, nem enfeitar, nem empacotar com eufemismo, roubou banco, sim, sequestrou embaixador, sim, enfrentou o Estado com arma na mão, sim, e por isso foi preso, e por isso foi torturado, e por isso ficou catorze anos trancado entre grades que não serviam só pra separar do mundo, mas pra tentar apagar o homem por dentro. E durante três desses anos não viu sol, não viu gente, viu só formiga — sim, formiga — essas sim fiéis, essas sim constantes, essas sim capazes de escutar sem julgar. E não enlouqueceu porque aprendeu a conversar com o que ainda estava vivo em volta, e talvez por isso, quando finalmente abriu a porta da cela e pôs os pés de novo sob o céu, já não tinha sede, já não tinha pressa, já não tinha nenhuma gana de vencer, só a firme intenção de não trair.

E assim viveu, sem trair — o que já é mais do que se pode dizer de quase todos os que sentam em trono — e governou, sim, foi deputado, foi senador, foi ministro, foi presidente, e em nenhum desses cargos trocou de casa, de roupa, de mulher, de rotina, ficou no sítio, ficou com o mesmo carro velho, ficou com Lucía, que nunca foi primeira-dama porque nunca precisou ser, que nunca fez pose porque já era grandiosa, e ali, entre cachorros e hortas, entre silêncios e reuniões, entre o absurdo do poder e o milagre da vida comum, ele mostrou que não era necessário escolher entre ser gente e ser governo, que era possível ser os dois, e ao mesmo tempo, e com coerência, e com humildade, e com humor, e com desapego.

E quando a doença chegou — e doença assim não chega como quem bate na porta pedindo licença, chega como chegam as sentenças que já se sabem definitivas — Pepe não quis prolongamento, não quis tratamento que adia sem curar, não quis sobrevida, quis só o que ainda fosse vida, e o que já não fosse, que morresse logo, e foi assim que morreu, como morre quem não tem mais conta pra pagar nem palavra por dizer, e isso, sejamos francos, é raro, raríssimo, quase pecado nos tempos de agora, e ele se foi sem grito, sem câmera, sem cortejo, deixando só o silêncio como prova de que, sim, foi possível, ainda que só uma vez, ainda que só com ele.

E o problema, o verdadeiro problema, é que quase ninguém em Israel sabe disso, ninguém ouviu, ninguém leu, ninguém ensinou, e se perguntarmos nas escolas, nas universidades, nas redações, nas filas do supermercado ou nas cadeiras do Knesset, poucos saberão quem foi Pepe Mujica, e isso não é acaso, é projeto, porque se soubessem, talvez não aceitassem que o apelido mais repetido por aqui seja outro: Bibi — nome curto também, nome fácil também, nome dito com a falsa intimidade de quem acredita que conhece, mas só consome, porque Bibi não é apelido dado pelo povo, é apelido herdado da infância e transformado em marca de campanha, é apelido que se impôs como logotipo, como escudo, como perfume caro sobre carne podre, e todo mundo repete, Bibi pra lá, Bibi pra cá, como se isso bastasse pra torná-lo próximo, humano, acessível, quando ele nunca foi nada disso, nunca andou a pé, nunca abriu mão de nada, nunca ouviu o que não quis, nunca pagou pelo que fez.

E é aqui que a comparação se torna insuportável, porque de um lado temos Pepe — o homem que roubou e pagou, que matou e pensou, que lutou e depois se calou, que caiu e voltou sem rancor — e do outro temos Bibi — o homem que sempre teve tudo e ainda quer mais, que não se contenta em ter, precisa manter, precisa impedir que os outros tenham, que os outros sonhem, que os outros respirem. E o povo, esse mesmo povo que deu a Pepe um apelido com afeto, se deixou enganar por um apelido herdado, como se o som curto bastasse pra esconder o abismo longo, e ainda o chamam assim, Bibi, como se ele ainda fosse menino, como se ainda merecesse o colo que já traiu mil vezes, como se ainda fosse dos nossos, quando nunca foi, e nunca será.

E eu, que pertenço aos dois mundos, o daqui e o de lá, o das sirenes e o dos silêncios, digo com a dor de quem perdeu em dobro, que Israel nunca teve um Pepe, mas teve e tem um Bibi, e isso diz mais sobre o que somos do que qualquer guerra, qualquer lei, qualquer eleição, e por isso peço, não que o odeiem, nem que o derrubem, nem que o esqueçam, só que o chamem pelo nome que merece, Benjamin, porque Bibi não é mais dele, não tem direito, não tem afeto, não tem povo, não tem verdade, e se um dia teve, já perdeu.

Os Bons, os Maus e os Outros Animais

Talvez o melhor seja começar logo por aqui, por essa ideia incômoda, difícil de engolir, mas tão verdadeira quanto qualquer susto diante do espelho: a de que a gente não é exatamente quem acha que é. O homem bom — esse que acorda cedo, leva o lixo, alimenta o cachorro, paga os boletos em dia e evita parar na vaga de deficiente — esse mesmo é capaz de arrancar a língua de outro se alguém soprar no ouvido certo as palavras “pátria”, “honra” ou “família”. E não sou eu quem inventa, é a história que grita pelos ossos deixados pra trás nos becos do mundo, ossos empilhados, embranquecidos, catalogados, às vezes até exibidos em museu, como se a gente dissesse com orgulho: olhem como fomos eficientes até na matança.

E não me venham com essa conversa simplista de separar os bons dos maus, como se o mundo fosse um teatro de bonecos em que alguns mexem os fios da maldade e outros só dançam a musiquinha da virtude. Porque, se tem uma coisa que já deu tempo de aprender, mesmo a contragosto, é que ser bom depende muito das circunstâncias — e ser cruel também. O mesmo sujeito que hoje abraça o vizinho, amanhã pode mirar nele, se o mapa mudar, se a bandeira trocar de cor ou se alguém gritar que é isso ou morrer — e nem falo da morte do corpo, mas daquela outra, a que nos arranca da tribo, que nos expulsa do grupo, e que, convenhamos, é a que mais mete medo.

Dizem que somos civilizados, modernos, que aprendemos com os erros do passado. Mas basta uma crise, um colapso no mercado, uma eleição mal digerida, um inimigo fabricado na prensa da propaganda, e lá estamos nós outra vez, com a tocha na mão e a convicção inflada no peito, prontos pra fazer justiça do nosso jeito — como se a justiça algum dia tivesse tido mãos que não fossem as nossas. E se me perguntarem onde estão os maus, eu digo: em todo lugar onde os bons acham que têm razão demais pra ouvir.

Ah, os bons. Essa turma tão cheia de certeza, tão limpinha, tão moralmente alinhada. Nunca hesitam, nunca tropeçam, nunca suam. Só apontam, denunciam, corrigem. Como se tivessem recebido um crachá de pureza e agora fossem os únicos autorizados a decidir quem merece o chão e quem merece o buraco.

E os maus? Ora, os maus são uma delícia. São úteis, funcionais. Eles explicam tudo: a decadência, a violência, a bagunça, o trânsito. Com eles, a gente dorme tranquilo — porque o mal tá sempre lá fora. Nunca dentro. Nunca na gente. Nunca no jeito que a gente ama, teme, decide ou se cala. E assim seguimos, com a consciência lavada e o sangue nas mãos dos outros.

Porque, no fundo, todo mundo está pronto. É só aparecer a causa certa. E se não aparecer, a gente inventa. Ou então pega emprestada de alguém mais convicto, mais barulhento. Não faltam bandeiras, slogans, hinos, líderes carismáticos e frases de efeito. E então o homem bom marcha, o homem bom grita, o homem bom aperta o gatilho. E quando tudo passa, ele diz que não sabia, que só cumpria ordens, que era pelo bem maior. Depois volta pra casa, dá ração pro cachorro, paga os boletos e segue se achando bom. Talvez até melhor. Mais consciente, mais patriota, mais cidadão.

E é aí que mora o perigo. Não no grito selvagem, mas no silêncio limpo. Não no monstro escancarado, mas no sujeito comum cheio de certezas. E se me pedirem um jeito de distinguir o bem do mal, eu respondo: não sei. Talvez nem tenha como. Talvez o mais sensato seja desconfiar — não do outro, mas de si mesmo. Porque quem confia demais na própria bússola moral corre sempre o risco de bater palma pro horror, desde que ele venha bem justificado.

E aqui, diante da tela acesa onde se escrevem hoje as velhas confissões do mundo, eu deixo essa dúvida como quem planta não um fruto, mas uma faísca:

se todo mundo é capaz de tudo, quem é que vai nos salvar das nossas causas?

Duas páginas

Duas páginas

O diagramador do jornal não deve ter percebido. Colocou em páginas consecutivas, uma ao lado da outra, dois assuntos aparentemente isolados, mas organicamente ligados. Na primeira, verdadeira revelação de horror, somos informados de que quase um terço dos adultos brasileiros (entre 15 e 64 anos) são analfabetos funcionais. Estamos estagnados aí desde 2018. Este mundão de gente não consegue interpretar frases elementares e tem enorme dificuldade para ler com um mínimo de fluência.

Os números aterradores mostram a indigência do sistema educacional básico, amputando o exercício pleno da cidadania. Além da falta crônica dos investimentos necessários, há situações que transformam as escolas em locais perigosos para alunos e professores. De acordo com levantamento do MEC, oito em cada dez professores de escolas públicas já presenciaram atos de bullying em sala de aula. São cada vez mais frequentes, também, os casos de agressões a professores.

A essas barreiras estruturais juntam-se os vícios das onipresentes telas. Conta uma jornalista, hoje professora da graduação, numa crônica recente do Ruy Castro: “É uma luta para fazer com que os alunos leiam um livro inteiro. Eles vivem grudados no TikTok ou no Instagram e não têm concentração. Outro dia, ao ver que todos estavam ao celular, parei a aula. Perguntei a alguns o que estavam vendo – e muitos não se lembravam. Não se lembravam do que tinham acabado de ver 15 segundos atrás!”.

No mundo digitalizado e dinamizado por tecnologias que se renovam rapidamente, o analfabetismo não é diferente de uma prisão. O analfabeto funcional exclui-se não apenas de amplos mercados de trabalho, mas do maravilhamento com as novidades que afirmam a criatividade humana. Não tomará conhecimento, por exemplo, da mais recente descoberta do telescópio James Webb. Analisando imagens do exoplaneta K2-18b, detectou moléculas que podem indicar a presença de formas de vida. Isso a 120 anos-luz de distância da Terra (cada ano-luz representa cerca de 9,5 trilhões de quilômetros)!

Bem, o que aparecia na página ao lado? Um adolescente de 15 anos, tratado como “missionário” e “profeta mirim”, diz ser capaz de curar o câncer. Faz pregações usando gestual e vocabulário de adultos. Simula ataques epilépticos como sinal de contato com transcendências. Já ultrapassou 1 milhão de seguidores em redes sociais. Cada vez que ouço falar neste tipo de charlatanismo, sou tomado por um misto de indignação e compaixão. Charlatães aproveitam-se de carências várias e prometem o impossível. Vejam vocês. Se alguém, qualquer alguém, fosse mesmo capaz de curar o câncer, melhor seria fechar todas as clínicas oncológicas, sucatear os equipamentos terapêuticos e incinerar os medicamentos usados em quimioterapia. Convocava-se o milagreiro, organizar-se-iam (desculpem o modo Jânio Quadros) filas de atendimento e a doença seria banida. Claro que isso jamais acontecerá e as multidões de crédulos, tomadas por dor e desespero, continuarão a idolatrar os mistificadores. Angústia nunca foi boa conselheira.

Há outros minipastores sapateando no rico mercado da fé. Tenho pena desta gente miúda. Encurtam a infância, sacrificada por interesses adultos. Por outro lado, quem consultaria uma criança ou adolescente em busca de orientação de qualquer tipo? É gente imatura, que está em formação, inocente do impiedoso vale de lágrimas, submetida a uma sólida corrente de inseguranças. Podem vestir-se como adultos, mas menores continuam sendo.

Duas páginas de jornal, dois aspectos que nos ajudam a compreender – e temer – o ornitorrinco Brasil.

Abraço. E coragem.