Eu, que de paciência pouco me sirvo e da esperança já fiz penhor em tempos mais ingênuos, pergunto-me, e não é uma pergunta retórica dessas que se fazem apenas para enfeitar o papel, mas uma daquelas que, quando surgem, vêm com o gosto amargo do fel e o peso de uma verdade que se arrasta atrás de si como corrente mal quebrada, pergunto-me, repito, em que momento aceitamos — aceitamos, veja bem, e não finjamos que fomos apenas arrastados pela maré — que a miséria moral deixasse de ser vergonha e passasse a ser projeto de governo, que a barbárie se sentasse à mesa e ainda fosse servida primeiro, enquanto os que deveriam levantar-se em protesto preferiram ajustar a cadeira, fingir que não era com eles, olhar para o lado como quem contempla a paisagem de um abismo sem perceber que já está com um pé lá dentro.
E digo mais, porque já que começamos a caminhar sobre este fio de navalha, vamos até o fim: o nome há de ser dito, não porque mereça, mas porque escondê-lo seria fazer-lhe o favor de preservar a decência que nunca teve, Itamar Ben-Gvir, esse é o nome que já deveria causar engulho antes mesmo de ser pronunciado, mas que, no entanto, circula com a desenvoltura de um velho conhecido nos salões onde se distribuem decretos e se legisla a desgraça como quem organiza o cardápio de um banquete fúnebre.
E não me venham, peço encarecidamente, com a história de que tudo é mais complexo, de que há nuances a considerar, porque a complexidade é o álibi dos covardes, e se há algo que este sujeito jamais foi, é complexo, porque o seu caminho é uma linha reta e suja, traçada desde a juventude quando, sem o menor pudor e com a arrogância própria dos que não têm sequer a grandeza da vergonha, arrancou o emblema do carro de Yitzhak Rabin e o ergueu como troféu diante das câmeras, numa exibição pública de um ódio que, poucos dias depois, se materializaria em tiros disparados por mãos que também penduravam na parede de casa o retrato do carniceiro de Hebron, Baruch Goldstein, retrato esse que, não por coincidência, decorava a sala do próprio Ben-Gvir, uma sala que jamais conheceu o incômodo de um pensamento decente.
E eu, que de espectador já me cansei, e que de silêncio não faço profissão, pergunto-lhe diretamente, sim, a você que me lê com esse leve desconforto que tenta disfarçar sob a desculpa de uma análise equilibrada, em que ponto exatamente você decidiu que era possível ser tolerante com o intolerável, e mais ainda, que era possível manter-se neutro enquanto o chão à sua volta arde em chamas acesas não por acaso, mas por mãos sabidas e intencionais, como aquelas que, entre um ajuste ridículo de paletó e uma cuspida de intolerância bem ensaiada, entregam ao mundo a mais repulsiva das certezas: a de que ainda há quem prefira o fogo ao esforço de construir pontes.
E porque não basta apenas apontar o dedo sem colocar o espelho, pergunto-lhe sem qualquer vontade de ser ameno, você, justamente você, que talvez tenha hesitado em condenar, que se calou em reuniões de família, que preferiu mudar de assunto nas rodas de amigos, que justificou a ascensão do monstro com aquela frase miserável de que “as coisas não são bem assim”, o que pensa agora, diante desta fogueira que já lambe as paredes da sua própria casa? Acha mesmo que se salvará do calor apenas porque, até agora, limitou-se a aquecer as mãos à distância?
Não há mais espaço, e nunca houve de fato, para essa farsa piedosa da neutralidade, porque a neutralidade, quando o intolerante já ocupa o centro do palco, é apenas a forma mais covarde de tomar partido, é sentar-se entre os bárbaros e acreditar que, por não levantar a taça no brinde à destruição, já se está absolvido da culpa.
Pois saiba, e saiba bem, que a história que vier, porque sempre vem, escreverá com a frieza dos que já perderam a paciência até para a compaixão, que entre os incendiários e os que simplesmente observaram, não há distinção moral, apenas diferença no método.
E no fim, quando as cinzas assentarem, e que ninguém duvide de que elas virão, não restará sequer a sombra para protegê-lo da pergunta que ressoará em sua cabeça como um martelo final: onde você estava enquanto o intolerante incendiava tudo? E pior ainda, por que diabos você nada fez?
E esta, lamento informar-lhe, será a pergunta sem resposta. E que esse silêncio, ao menos, lhe sirva de penitência.
A raça humana/não consegue suportar muita realidade (T. S. Eliot)
Quem mora neste balneário metido a besta conhece bem a expressão malandragem. Embora alguns a levem na maciota, uma brincadeira com assinatura carioca, a verdade é outra. Desde pequeno a ouço com muitas variantes. Quando a cidade era cortada por trilhos, apareceu o malandro que, ardiloso, tentou vender bonde para matutos mineiros. Provavelmente deu com os burros n’água. Mineiro (o folclórico) é quieto, mas de tolo não tem nada. Outros malandros inventaram truques para vender bilhetes de loteria. Existiam os do mundo cão, hábeis na navalha e exploradores do que a crônica policial chamava de baixo meretrício.
As práticas foram se aperfeiçoando e hoje sentam praça na administração municipal do Rio. Temos, aí está!, um prefeito malandro. Adora fazer jogo de cena, fantasiado de gente boa. Na prática, a cidade que governa está entregue às traças. Montado no jogo das aparências, anda lorotando por aí que o Rio deve ser a “capital honorária” do Brasil. Mais um carimbo ilusório, fantasia rota, para quem mora e circula pela cidade, onde o direito de ir e vir em segurança foi amputado e a desordem urbana e a incivilidade reinam sem concorrência e em cada rua, em cada esquina. Não conheço estatísticas, mas suspeito que o Rio não faria feio num torneio de ansiedade, insônia e sustos paranoides.
Desconheço os critérios, mas a Unesco escolheu o Rio como Capital Mundial do Livro em 2025. Sério mesmo? Alguns dos bairros mais populosos da cidade não têm sequer uma livraria decente. A calle Corrientes, em Buenos Aires, tem muito mais livrarias do que o Rio inteiro. Não há políticas públicas de incentivo permanente à leitura e ao consumo de livros. Salvam a honra e o apetite literário dos cariocas os heroicos sebos, polos de resistência bibliófila. Não há mais livrarias como a José Olympio e a Civilização Brasileira, que, muito além da venda de livros, eram pontos de encontro de intelectuais e de convivência entre leitores e seus autores prediletos. O prefeito, claro, capitaliza a notoriedade que lhe caiu no colo. Vai assinar eventos efêmeros, brilharecos que renderão aplausos alugados e morrerão no último dia do ano. Malandragem de baixa estirpe.
Ano passado, o bairro de Copacabana foi violentado muitas vezes por eventos privados. A prefeitura alugou a areia da praia para todo tipo de furdunço. O maior deles, com uma autodenominada periguete recebida a pão-de-ló, forçou os moradores a um exílio interno, ornado por trânsito caótico, vias interditadas, montanhas de lixo, urina e resíduos impublicáveis espalhadas por todo canto. Animado com a publicidade, o Malandro do Piranhão decretou: maio será, doravante, o mês de grandes eventos. Tradução: conformem-se, cidadãos, seu direito de ir e vir estará limitado por um tempinho. Já estou abastecendo meu bunker com provisões e paciência. Daqui a alguns dias, uma certa Lady qualquer coisa (seria a Neide Aparecida, atualizando suas perucas?) vai sacudir a pança e comandar a massa. Ótimo para os que também vão sacudir panças. Nosotros, os demais, fecharemos pra balanço e aguardaremos a borrasca passar.
Se o Reizinho da Cidade Nova gosta de mobilizações, que tal seria transformar o mês de maio, por exemplo, num período de convocação da população para mutirões de conserto e manutenção das escolas municipais? Seria uma forma criativa de aproximar os cariocas da triste realidade dos equipamentos educacionais públicos desta cidade e uma alternativa não demagógica de fazer política ao lado da que João do Rio chamava “alma encantadora das ruas”. Sem plumas, paetês e figurinos exóticos, mas com verdadeiro amor pela cidade.
Ainda em Copacabana (desculpem o excesso de citações do bairro, mas é aí que moro), aconteceu uma situação que resume o espírito de porco que anda reinando por aqui. O cinema Roxy, inaugurado em 1938, fechou as portas e seus restos mortais foram transformados em Roxy Dinner Show. Trata-se de casa de espetáculos para turistas, com refeições inacessíveis ao cidadão médio.
Assim tem funcionado o botequim. Tapete vermelho e balangandãs para turistas, salve-se quem puder para os locais. Com trilha sonora eletrônica em volumes assassinos.
Olha bem no dicionário e reflita: não há nenhuma palavra com um significado só (Millôr Fernandes)
Colecionador e pesquisador precisam de sorte. Num porão semiabandonado, o filatelista sonha esbarrar no Olho de Boi. Num sebo, soterrado por livros e revistas empoeirados, o pesquisador atento, e bem-aventurado, descobrirá a edição original do Almanhaque 1949, autografada pelo Barão de Itararé. Dentro de uma lata enferrujada, amassada e descartada de Balas Balsâmicas Silva Araújo, o numismata pode encontrar a pataca há muito desejada. Pé de pato, mangalô, três vezes. Salve o pé de coelho!
Imaginem então a excitação do jornalista, escritor e pesquisador Thiago Uberreich quando descobriu o conteúdo de um lote de áudios que ganhou de um desconhecido. Eram registros sonoros de transmissões pela TV dos jogos da seleção brasileira na Copa de 70. Estavam no acervo da falecida TV Tupi (canal 6, no Rio de Janeiro) e, há muito, dados como perdidos. A transmissão naquela Copa foi feita por um pool de emissoras, com imagem e locução unificadas. Ali, ao alcance dos tímpanos de Thiago, ressuscitavam Fernando Solera, Geraldo José de Almeida, Walter Abrahão e Oduvaldo Cozzi. Equipe de lordes da voz, antíteses dos esgoeladores sem noção que dominam as narrações de hoje.
A ascensão dos locutores estridentes não é gratuita. Ela se dá no exato momento em que tudo no tecido social parece demandar algazarra e som nas alturas. Desde a praga dos bares aos shows megatônicos nas praias, dos “debates” tóxicos nas redes sociais à prática política. O silêncio, a introspecção, o murmúrio, o papo calmo, viraram esquisitices. Coisa de gente chata.
Com o excesso de ruído, perde-se o espetáculo das vozes ao redor. Drummond conversava com a amendoeira que coloria seu olhar na janela do apartamento em Copacabana. Quantas poesias nasceram desta troca silenciosa? Numa das cenas mais belas da história do cinema, com enorme carga dramática, não há palavras. No final de Eles não usam black tie, os personagens de Gianfrancesco Guarnieri e Fernanda Montenegro catam em silêncio as pedrinhas que vinham misturadas com os grãos de feijão. Tinham acabado de passar por experiências difíceis, traumáticas. Suas expressões mostram cada nervo rompido, cada angústia, cada afirmação de solidariedade. Quem precisava de palavras? The sounds of silence.
Certa vez, perguntaram ao José Saramago o que achava da morte de palavras, aquelas que desaparecem pelo desuso. Respondeu lamentando-se e projetando um futuro em que nos comunicaremos por monossílabos. O empobrecimento vocabular acentua-se com a linguagem telegráfica das mensagens eletrônicas e o tombo na leitura de livros. Este tipo de silêncio destrói conteúdos.
Há vozes sufocadas, muitos pedidos de socorro que caem no vazio. As populações periféricas nas grandes cidades não conseguem interlocução para agregar vozes à luta permanente contra violências identificadas e toleradas. Moradora do Complexo da Maré, conjunto de favelas na Zona Norte do Rio, descreve sua infância com trilha sonora de tiros e gritos. “Cresci achando que o mundo era assim. Que era normal ter tiro toda hora. Aqui na Maré a gente conhece a maldade cedo”. E vai seguindo a procissão, a cidade barulhenta, surda às vozes de seus filhos persistentes.
Como Thiago, eu gostaria de recuperar vozes do passado. Melhor dizendo, uma voz. No Bar Mitzva, o Menino discursou por cercaintimidade de 15 minutos. Texto decorado depois de meses de ensaios. Escrito em ídish, idioma com o qual tinha pouca . O Grande, enfatiotado e cabelo reco fazendo dupla com o Menino, segurou o microfone e lascou: “Manda brasa!”. A coisa foi toda gravada, mas a expressão robertocarlista acabou cortada na edição final. Tantos anos depois, eu queria ouvir novamente o Zissinho sair do sério por breves segundos e me animar daquele jeito. Se pudesse, eu pediria que, depois, ele largasse o microfone e me abraçasse. Em silêncio cúmplice. Faria muita diferença.
Olha bem no dicionário e reflita: não há nenhuma palavra com um significado só (Millôr Fernandes)
Colecionador e pesquisador precisam de sorte. Num porão semiabandonado, o filatelista sonha esbarrar no Olho de Boi. Num sebo, soterrado por livros e revistas empoeirados, o pesquisador atento, e bem-aventurado, descobrirá a edição original do Almanhaque 1949, autografada pelo Barão de Itararé. Dentro de uma lata enferrujada, amassada e descartada de Balas Balsâmicas Silva Araújo, o numismata pode encontrar a pataca há muito desejada. Pé de pato, mangalô, três vezes. Salve o pé de coelho!
Imaginem então a excitação do jornalista, escritor e pesquisador Thiago Uberreich quando descobriu o conteúdo de um lote de áudios que ganhou de um desconhecido. Eram registros sonoros de transmissões pela TV dos jogos da seleção brasileira na Copa de 70. Estavam no acervo da falecida TV Tupi (canal 6, no Rio de Janeiro) e, há muito, dados como perdidos. A transmissão naquela Copa foi feita por um pool de emissoras, com imagem e locução unificadas. Ali, ao alcance dos tímpanos de Thiago, ressuscitavam Fernando Solera, Geraldo José de Almeida, Walter Abrahão e Oduvaldo Cozzi. Equipe de lordes da voz, antíteses dos esgoeladores sem noção que dominam as narrações de hoje.
A ascensão dos locutores estridentes não é gratuita. Ela se dá no exato momento em que tudo no tecido social parece demandar algazarra e som nas alturas. Desde a praga dos bares aos shows megatônicos nas praias, dos “debates” tóxicos nas redes sociais à prática política. O silêncio, a introspecção, o murmúrio, o papo calmo, viraram esquisitices. Coisa de gente chata.
Com o excesso de ruído, perde-se o espetáculo das vozes ao redor. Drummond conversava com a amendoeira que coloria seu olhar na janela do apartamento em Copacabana. Quantas poesias nasceram desta troca silenciosa? Numa das cenas mais belas da história do cinema, com enorme carga dramática, não há palavras. No final de Eles não usam black tie, os personagens de Gianfrancesco Guarnieri e Fernanda Montenegro catam em silêncio as pedrinhas que vinham misturadas com os grãos de feijão. Tinham acabado de passar por experiências difíceis, traumáticas. Suas expressões mostram cada nervo rompido, cada angústia, cada afirmação de solidariedade. Quem precisava de palavras? The sounds of silence.
Certa vez, perguntaram ao José Saramago o que achava da morte de palavras, aquelas que desaparecem pelo desuso. Respondeu lamentando-se e projetando um futuro em que nos comunicaremos por monossílabos. O empobrecimento vocabular acentua-se com a linguagem telegráfica das mensagens eletrônicas e o tombo na leitura de livros. Este tipo de silêncio destrói conteúdos.
Há vozes sufocadas, muitos pedidos de socorro que caem no vazio. As populações periféricas nas grandes cidades não conseguem interlocução para agregar vozes à luta permanente contra violências identificadas e toleradas. Moradora do Complexo da Maré, conjunto de favelas na Zona Norte do Rio, descreve sua infância com trilha sonora de tiros e gritos. “Cresci achando que o mundo era assim. Que era normal ter tiro toda hora. Aqui na Maré a gente conhece a maldade cedo”. E vai seguindo a procissão, a cidade barulhenta, surda às vozes de seus filhos persistentes.
Como Thiago, eu gostaria de recuperar vozes do passado. Melhor dizendo, uma voz. No Bar Mitzva, o Menino discursou por cercaintimidade de 15 minutos. Texto decorado depois de meses de ensaios. Escrito em ídish, idioma com o qual tinha pouca . O Grande, enfatiotado e cabelo reco fazendo dupla com o Menino, segurou o microfone e lascou: “Manda brasa!”. A coisa foi toda gravada, mas a expressão robertocarlista acabou cortada na edição final. Tantos anos depois, eu queria ouvir novamente o Zissinho sair do sério por breves segundos e me animar daquele jeito. Se pudesse, eu pediria que, depois, ele largasse o microfone e me abraçasse. Em silêncio cúmplice. Faria muita diferença.
Assisti recentemente os dois primeiros episódios do documentário Folha Corrida, que tem na direção e equipe de pesquisa/apoio os queridos irmãos Chaim e Rachmiel Litewski. O tema é a colaboração do Grupo Folha com a repressão durante a ditadura civil-militar instalada em 1964. O Ministério Público Federal abriu inquérito que analisará a responsabilização do grupo em violações dos direitos humanos cometidas no período 1964-1985.
Assinante da Folha de São Paulo há mais de trinta anos, resolvi aproveitar o gancho para refletir sobre o papel geral da imprensa na implantação e consolidação da ditadura. Como cauda do cometa, dou uma espiada nas reiteradas acusações de golpismo que determinados setores lançam sobre a Folha. Como a acusação é genérica, suponho que este golpismo refira-se aos dias que correm.
Parto de uma premissa: abandonem-se as ilusões sobre a imprensa na sociedade capitalista. Sem duvidar da integridade e da competência de muitos jornalistas aqui e alhures, que têm minha admiração e respeito, os objetivos de jornais e grupos de comunicação não são diferentes dos de qualquer empresa privada. Os proprietários visam o lucro, vivem da exploração de mais-valia e defendem, com estratégias mutantes e linguagem adaptável, os interesses da classe dominante. Noves fora, este é o resumo da ópera.
Isto posto, vejamos o que disse a mídia impressa na alvorada da ditadura. O Globo, entre 2 e 4 de abril de 1964: “Ressurge a democracia! Vive a nação dias gloriosos”, “Salvos da comunização que celeremente se preparava, os brasileiros devem agradecer aos bravos militares que os protegeram de seus inimigos”, “Fugiu Goulart e a democracia está sendo restaurada, atendendo aos anseios nacionais de paz, tranquilidade e progresso”. Correio da Manhã, 31 de março e 1 de abril: “Basta! Fora! Só há uma coisa a dizer ao senhor João Goulart: saia!”. Tribuna da Imprensa, 2 de abril: “Escorraçado, amordaçado e acovardado, deixou o poder como imperativo de legítima vontade popular o Sr João Belchior Marques Goulart, infame líder dos comuno-carreiristas-negocistas-sindicalistas”. Jornal do Brasil, 1 de abril: “Desde ontem se instalou no País a verdadeira legalidade”.
O que pensava O Estado de São Paulo, jornal que representava as elites quatrocentonas da pauliceia desvairada? Júlio de Mesquita Filho, dono do jornal, propôs a dissolução do Poder Legislativo em todos os níveis, a anulação dos mandatos dos governadores e prefeitos e a suspensão do habeas corpus. Perfil e sombra dos “democratas” dantanho. Mesquita, Marinho, Nascimento Brito e outros “empresários da notícia” afinados aos interesses burgueses ameaçados pelas tímidas reformas do governo João Goulart.
Indo para a Folha de São Paulo. Eu a leio desde os anos 70, quando o regime exercia draconiano poder de censura e coerção. Ao longo de todos estes anos, o jornal não foi uma linha reta. Fez coberturas importantes no assassinato do jornalista Vladimir Herzog (quadro do PCB, morto sob tortura nas dependências do DOI-CODI), na campanha pelas Diretas e no atentado do Riocentro. Acho que a direção percebeu, nestes dois últimos casos, o aroma de mudanças no ambiente político. A ditadura dava sinais de esgotamento, a linha do jornal acompanhou esta percepção, em benefício dos que lutávamos pelo fim do regime.
É importante lembrar alguns dos jornalistas/colaboradores que passaram pela Folha e lhe deram uma personalidade sem equivalente na imprensa brasileira. Alberto Dines, Claudio Abramo, Newton Rodrigues, Jânio de Freitas, Carlos Heitor Cony, Otto Lara Resende, Isac Akcelrud, Lourenço Diaféria, Ricardo Kotscho, Florestan Fernandes, Marcelo Coelho, Aloysio Biondi, Vladimir Safatle: globetrotters do ofício. Como registro adicional, lembro de uma série de matérias que o Eduardo Suplicy escreveu sobre a China, numa época em que isso podia resultar numa visitinha noturna de agentes do DOPS.
Dando um salto para o presente, o jornal desidratou e perdeu muito do peso que tinha, especialmente nas seções de economia e política. Apesar disso, mantém uma equipe respeitável, que, como leitor e atento observador de coisas e loisas, não posso prescindir. Ruy Castro, Alvaro Costa e Silva, Mariliz Pereira Jorge, Drauzio Varella, Mario Sergio Conti, Thiago Amparo, Vera Iaconelli, Antonio Prata, Muniz Sodré, Juca Kfouri, Tostão, Conrado Hübner Mendes, Laerte, Jean Galvão e Bennett (cartunistas), ensaios do caderno Ilustríssima. Fora esses e alguns colaboradores eventuais, há o João Pereira Coutinho, um liberal inteligente, com quem mantenho diálogo silencioso em torno de muitas divergências. Sobre ele, que não apela para ofensas, usa bons argumentos e tem muito bom-humor, vai uma observação. Acho mutilante ler apenas os que, a priori, pensam como nós. É a tal da bolha, que, no fundo, funciona como espelho narcísico e ignora a mais rica das tradições da esquerda: o diálogo com os contrários. Marx debatia com Bruno Bauer, Engels enriqueceu seu tempo contestando Dühring, Leandro Konder propôs conversa com Mário Henrique Simonsen.
Não leio “a” Folha, mas artigos, reportagens e colunas da Folha. Como acredito que fazem todos os leitores de qualquer jornal. E aqui chego à acusação recorrente que mencionei no início. Seria o jornal da família Frias um órgão a favor do golpismo (assim mesmo, genérico, atemporal, que é como aparece nos dedos apontados)? Estaria ombreado, por exemplo, à estrutura recém desarticulada que tentou impedir a posse de Lula em 2023 e implantar uma nova ditadura? A alegação dos acusadores é de que isso fica claro nos editoriais e, adicionalmente, numa cobertura enviesada por supostos apoios velados ao bolsonarismo (as entrevistas com o JMB e Carla Zambelli o “demonstrariam”).
Confesso, mea maxima culpa, que não costumo ler os editoriais da Folha. No entanto, aqueles que li mostram uma oposição antipetista, que se manifesta em críticas a programas econômicos e escolhas políticas, mas não estimula, promove ou defende golpe para derrubar governo (como no caso clássico, já mencionado, do Correio da Manhã, em março/abril de 64). Alguma surpresa? Só para ingênuos.
Por outro lado, o jornal publica uma imensa diversidade de opiniões sobre a conjuntura político-econômica nacional. Dezenas delas claramente antigolpistas e com chamada de capa. Cito, pela contundência, o artigo Biblioteca oficial do crime bolsonarista, do dia 3 de abril passado, assinado por Conrado Hübner Mendes (professor da USP, doutor em direito e ciência política e membro da SBPC). Esta diversidade, longe de ser tóxica, é estimulante. Ler não é aderir, pensar não é concordar. Em tempo: achei ótima a ideia de entrevistar JMB e a Zambelli. Com perguntas pertinentes, o jornal desnudou com elegância estes personagens pérfidos. Quando se quer matar um vampiro, joga-se luz sobre ele.
Há um outro detalhe, nada irrelevante. Qual seria a atitude de jornalistas experientes e nada conservadores se percebessem que o jornal colabora para derrubar governo? Fariam voto de silêncio? Participariam, “vendidos” e na calada da noite, da conspiração para quebra da legalidade? Imagino a cena surrealista de gente como Mario Sergio Conti e Alvaro Costa e Silva, iluminados por lampiões trêmulos, esfregando as mãos e passando o pano para bacanais golpistas. A coisa é tão verossímil quanto acreditar que Eurico Miranda não passava de um rubro-negro infiltrado nas hostes vascaínas.
Acho que a ditadura deixou um rastro de intolerância no convívio com as diferenças. Isso é agravado com a lógica das redes sociais. Vejo em setores da esquerda uma reação pavloviana quando esbarra em posições/opiniões divergentes. Atira-se de imediato e sem delongas, com evidente fragilidade conceitual, os rótulos de “golpismo” e “fascismo”. A generalização, como sempre, esvazia o sentido destas palavras. Claro que existem fascistas e golpistas, o combate a eles deve ser implacável. É preciso, entretanto, identificá-los e diferenciá-los dos adversários conservadores. Sob pena de se montar uma estratégia equivocada para enfrentá-los.
Hoje é um dia de coincidências desconfortáveis. Em 31 de março de 1685, nascia em Eisenach, Alemanha, um dos maiores gênios de todos os tempos. Johann Sebastian Bach atravessa os séculos desconcertando, surpreendendo, convocando. Certa vez, um confrade ateu disse que, se deus existisse, sua voz seria uma melodia de Bach. Vou mais longe. O grande mestre escreveu muitas peças com temas religiosos, de inspiração cristã. Pois ouvi-las e incorporá-las independe das convicções religiosas/ateias do ouvinte. Experimente ouvir a ária Erbarme dich meinGott, da Paixão Segundo São Mateus. O diálogo voz humana – violino que lá aparece atinge uma dimensão sublime, difícil de rotular, difícil de desgrudar. Dá algum sentido ao tempo de viver.
Duzentos e setenta e nove anos depois do nascimento de Bach, no mesmo 31 de março, uma conspiração vitoriosa iniciou no Brasil uma ditadura que durou 21 anos. Classe média reacionária, burguesia e imprensa golpistas, e militares que vomitaram sobre suas atribuições constitucionais depuseram o governo democrático de João Goulart e submeteram o país a toda sorte de arbítrio: censura, perseguição política, assassinato de dissidentes, cancelamento de eleições, extinção de partidos políticos, vigilância policial em sindicatos e organizações populares, intimidação nos meios acadêmicos.
Ainda hoje, tem gente ignorante ou de má-fé que fala em “contrarrevolução” e aponta o dedo-duro para Jango, chamando-o de “comunista”. Logo ele, próspero estancieiro gaúcho, quadro histórico do PTB, partido reformista criado por Getúlio para minar a influência da esquerda revolucionária sobre as massas. A verdade é que defender, como Jango o fez, a reforma agrária (democratizando o acesso à terra), a reforma eleitoral (dando direito de voto aos analfabetos) e a democratização do sistema educacional, era tabu para a classe dominante brasileira, cujo atraso jamais deve ser subestimado. Com providencial apoio material e logístico do imperialismo norte-americano, fartamente documentado, o golpe civil-militar jogou o Brasil nas trevas da ditadura.
Certa vez, meu filho perguntou como era o cotidiano sob o regime dos generais. Senti que ele tinha uma imagem sombria muito abrangente, como se debaixo de cada marquise e tapete, dentro cada latão de lixo e sacola de supermercado, atrás do trio elétrico, tivesse um tira, um milico, um araponga, de tocaia, pronto para distribuir coices e ejacular “teje preso!”. Não era bem assim. A repressão tinha múltiplas faces. Das mais violentas, como a que dizimou, com apetite assassino e sob torturas medievais, a resistência armada antiditatorial, às que se manifestavam sem derramar sangue, como a censura a todos os tipos de manifestação cultural e a perseguição nos locais de trabalho (tenho um amigo que passou em primeiro lugar no concurso para o BNDES e foi descartado por ter “ficha suja” para o padrão brucutu dos meganhas). No entanto, não bastava sair à rua para ser algemado. Os tentáculos do Estado autoritário eram assustadores porque, muitas vezes, invisíveis, e sempre irrecorríveis.
Comecei a faculdade na Ilha do Fundão poucos meses depois da promulgação do infame Ato Institucional número 5, em 13 de dezembro de 1968, que fechou de vez o regime. No primeiro semestre de 1969, a ilha era frequentemente invadida por militares, que cercavam o Bandejão, formavam o chamado corredor polonês e exigiam documentos de nós, frangotes aterrorizados pelos covardes armados. Os que, por azar, não dispunham de documentação, eram sumariamente levados para camburões. Este foi o clima que vigorou por bastante tempo naquele espaço criado para celebrar a ciência e o conhecimento. Palavras vazias para as nulidades fardadas.
Sessenta e um anos depois do golpe, ainda somos assombrados pelos herdeiros assumidos da aventura protofascista. Descobrimos que nossa luta para derrotar a ditadura não terminou. Usando as palavras do jornalista Bernardo Mello Franco, “a extrema-direita fincou raízes, cresceu e se tornou hegemônica no campo conservador”. O país que imaginávamos construir, mais solidário e menos injusto, ainda é uma miragem remota, cercada por resistências ferozes e nostálgicos de cadeiras do dragão.
Lembrar do que aconteceu em 1964 é importante como polimento da memória histórica e alerta para a geração que está chegando. Hoje, no entanto, vou dar-me o direito de viajar para 1685, olhar para o outro 31 de março, e celebrar o gênio que nos torna mais humanos. Vou ouvir o CD (!) com as Variações Goldberg, interpretadas pelo pianista chileno Claudio Arrau, fechar os olhos e imaginar que este mundo ainda tem jeito. Serei, por breves momentos, aquele sobre o qual disse Maiakovski: “Dizem que, em algum lugar, parece que no Brasil, existe um homem feliz”.