A sensação tátil é da areia peneirada grosseiramente. Cor branda, neutra. O saquinho continha o resíduo da cremação de minha irmã, morta ano passado. Nos últimos momentos de lucidez, ela pediu que jogássemos as cinzas num lugar a céu aberto no Rio, simulando um abraço da Natureza.
Foi o que fizemos. Nada difícil achar um local adequado. O Rio, tão pródigo em mazelas insuperáveis, é generoso em encontros de mar com montanhas. A beleza aliviou um bocadinho o peso da despedida final. É instrutivo perceber a que nos reduzimos: uma combinação inexpressiva de produtos químicos de baixa complexidade, restos de estrelas vadias e doses variáveis de arrogância, delírios e sonhos perdidos. Areia, nada além.
Chegando em casa, meu olho esquerdo reclamou. Parecia ter sido invadido por uma poeira. Seria parte daquela? Dei de ombros. Não vai ser nada, passa sozinho. Não passou. Desembarquei numa consulta de emergência ao oftalmologista. O invasor foi localizado e retirado por agulha (a visão dela se aproximando da vista não é das mais poéticas). Algum crédulo poderia jurar que minha irmã queria esticar a permanência por aqui. Se fosse o caso, teria lhe dito (desculpem, mas não escreverei ter-lhe-ia) que o que fica são memórias, poeira não combina com retina.
Minha avó materna costumava usar os olhos para dialogar com o invisível. Quando percebia alguma coisa de bom tom, que as crianças estavam se alimentando direito ou recebia uma boa notícia, dizia no idioma ancestral, em sotaque polonês: Kain ain ore! Que o mau olhado não vigore! Se a desconfiança era de que o mau agouro estava instalado, detonava um pequeno ritual. Enchia com sal um saquinho de pano, amarrava-o com barbante, fechava os olhos e fazia o saquinho circular em torno da vítima do azar, murmurando mistérios. Soprava os olhos do freguês e atirava o sal no fogo. Era tiro e queda.
Há um filme extraordinário do Woody Allen, no qual os olhos são personagem vital. É Crimes e pecados. Não vou entrar em detalhes, há uma sucessão de temas/personagens instigantes. Woody em grande forma. Fixo-me em dois deles. O primeiro é Judah Rosenthal, oftalmologista famoso envolvido com uma amante possessiva. Ele diz que escolhera a profissão por receio do “olho de deus”. De acordo com seu pai, judeu religioso, deus tudo vê, tudo avalia, tudo julga. A imagem assombrou Judah em toda a juventude e, na tentativa de controlar aquele olho tão exigente, potente e implacável, resolveu estudar e consertar os olhos humanos. Só aderindo ao cínico que carregamos dentro de nós conseguiu libertar-se do juiz viscoso.
Millôr Fernandes tinha uma pensata que resolveria, idealmente, as aflições de Judah. Disse o Irritante Guru do Meier: “Deus existe apenas porque você acredita nele. Tua única vingança, se ele te castigar, é deixar de acreditar e acabar com ele”.
O segundo é um paciente de Judah. Trata-se de um rabino com uma doença progressiva nos olhos, que acabará por cegá-lo. O personagem não se deixa abalar. Ao contrário. Quanto mais cego fica, parece ficar mais sábio. O mundo interno assume a presidência daquela vida. É uma metáfora muito forte.
Vivemos numa época onde prevalece uma cultura de vigilância extrema. O olho do Grande Irmão está espalhado por todos os cantos, não raro com a anuência dos vigiados. São voluntários do voyeurismo. Tudo vira motivo de bisbilhotice. Prato de comida em restaurante chique, fotos fofinhas dos protozoários de quatro patas, os cotidianos sempre maravilhosos. Mundo Barbie.
Tinha algumas ideias para concluir este encontro semanal, quando esbarrei num documentário sobre o Veríssimo (saudade das crônicas dele). Lá estava o olho do grand finale. Em nenhuma cena aparecem celulares. Seja nos encontros familiares ou nas palestras do Luis Fernando, ninguém desvia a atenção para telas ou teclas. Ninguém fotografa ao invés de interagir. Isto sim é que é um pessoal que enxerga longe. Olhos de lince, olhos nos olhos, olhos de deslumbre, tchê!
O anúncio do prêmio Nobel de Literatura de 1978 abriu todos os baús de espantos. O vencedor foi um judeu polonês radicado em New York, que escreveu toda a sua obra em ídish, idioma ancestral dos ashquenazitas, já naquela época enfrentando a crise definitiva como meio de comunicação.
Isaac Bashevis Singer foi a Estocolmo receber o prêmio das mãos do rei da Suécia e proferiu um discurso irônico e muito bem-humorado. Comentou que não se cansavam de lhe perguntar por quê insistia em escrever num idioma com cada vez menos praticantes, reduzindo tendencialmente o número de leitores. Disse que a resposta era simples. Sendo judeu religioso (ironia: era um agnóstico nada ortodoxo), acreditava na vinda do Messias (outra gozação, digo, ironia) e, com a sua chegada, ressuscitariam os judeus de todas as épocas. Ora, o que fariam muitos deles? Sacudiriam a poeira dos séculos e perguntariam onde encontrar bons textos em ídish para se atualizar. Era para eles, ex-mortos, que escrevia.
Em sua biografia, Singer conta como surgiu a ideia de contar histórias, vulgo literatura. Seu pai, rabino em uma cidadezinha polonesa, atuava como uma espécie de juiz. Dava conselhos sobre todos os assuntos. Crises existenciais e conjugais, brigas entre vizinhos, interpretações de textos sagrados, como sobreviver ao preço da cebola na feira (que andava pela hora da morte). Certa vez, Singer viu um casal estremecido quase partir pra ignorância. Trocaram insultos dignos das pragas de Scholem Aleichem. Depois de algum tempo, com a mediação do velho Pinchas, saíram de mãos dadas, sem adiar carícias. O pequeno Isaac pensou: taí uma boa história. Começou a colecioná-las e contá-las. Uma estrada que o levaria ao Nobel.
O caminho até Estocolmo foi como a vida: dores, encantos, quebra-molas, suspiros & retiros. Aprendi lendo sobre sua trajetória como é fundamental imaginar, inventar, sonhar. Mais do que tudo, Singer, egresso de um universo limitado e de poucas cores e esperanças, encaminhou algumas respostas ao mistério do prazer que sentem os que escrevem, utópicos andarilhos em busca de diálogo. Para que servem as utopias?
Chamo ao palco Eduardo Galeano. O uruguaio apaixonado por futebol e gentes costumava citar Fernando Birri, cineasta, poeta e escritor argentino, quando lhe perguntavam sobre utopias. Durante uma palestra na Colômbia, perguntaram a Berri se havia utilidade nas utopias. Respondeu que elas estavam no horizonte, sendo, portanto, inalcançáveis. Ir em sua direção é saber disso: não se chegará a elas. Qual é, então, o sentido, de buscá-las? É o da própria caminhada, suas surpresas, belezas e enigmas. Completo com o sevilhano Antonio Machado: Caminante, no hay camino/Se hace el camino al andar.
Não é nada fácil construir estas caminhadas. Tarefa de gerações. Conheci muita gente que se perdeu antes de começá-las. Cruzei com outros tantos que, desenganados, ficaram rancorosos, isolaram-se, negaram as utopias. O Grande bem que tentou, mas naufragou de sonhos ressecados. Sonhou construir prédios, terminou lidando com cáries e tártaros. Angustiou-se no terreno afetivo. Desviava-se dos buracos da estrada, criando atalhos que aliviavam o peso n’alma. Seu rosto, porém, imensamente triste, mostrava que a caminhada não iria longe. Não foi mesmo.
Minha geração descobriu cedo que boa companhia esclarece o roteiro. Nosso século está fazendo questão de sabotar a via coletiva. De acordo com a Organização Mundial da Saúde, a solidão foi responsável por cerca de 871 mil mortes anuais entre 2014 e 2019. Decupando a estatística: a cada hora, cem pessoas morreram por causa do problema. Estar só atinge mais os adolescentes e jovens adultos, o que é uma tragédia. Justamente na fase de alçar voo, humanos se isolam ou são isolados. Os laços comunitários, a presença do Outro, a importância de olhar além das telas, tudo desintegra.
Infelizmente, o velho Pinchas Singer, com sua sabedoria intuitiva e sua percepção da vida, já não existe para anunciar os horizontes. Resta a esperança de que as novas gerações esbarrem nas estradas que começamos a trilhar e fracassamos em terminar. Quem sabe usam um bocadinho do que acumulamos para recomeçar a jornada.
Dias de inverno glacial para padrões cariocas. A chuvinha insistente não ajuda a espantar a preguiça macunaímica, um imobilismo de saci em patinete.
Não sei por quê, mistérios do inconsciente em estado de semi-consciência, embaixo do cobertor lembrei do Moraes Moreira. Mais especialmente da música que servia de introdução a um velho telejornal. Sabem aquele “Pombo correio, voa depressa/E essa carta leva para o meu amor/ Leva no bico que eu aqui fico esperando”?
Lembrança puxa lembrança, logo desembarquei em Preta pretinha. Dançando em círculos, o convite: “Abre a porta e a janela/E vem ver o sol nascer”. Dei uma espreguiçada olímpica e, mesmo sem o conforto solar, abri a janela. Eis o que vi.
Lá longe, além do horizonte, nos Andes chilenos, um supertelescópio com a maior câmera fotográfica do mundo está desenhando o mais completo mapa do universo. Vai inundar os astrônomos de dados e flagrar vizinhos cósmicos que só visualizamos em ficção científica. Sei não, mas suspeito que o resultado deste banquete apenas confirmará a raridade (exclusividade?) da vida como a conhecemos. Delicadeza que o Homo sapiens trata de destruir metodicamente, como se a Terra fosse provedora infinita. Como diz o ditado latino: Quos vult Deus perdere, prius dementat (A quem Deus quer perder, primeiro tira-lhe o juízo).
Ajusto a lente para perto. Há um mercado persa em permanente alvoroço. Formosuras e monstrengos, interrogações e maldições, acolhimento e caos, solidariedade e desprezo. Vendedores de ilusões disputam espaço com incansáveis pesquisadores e abelhudos persistentes. Há tanta variedade que a velha feira da rua Araújo Lima tornou-se raquítica curiosidade arqueológica.
Na barraca de frutas exóticas, percebo um produto made in Maria da Fé, Minas Gerais. É de lá que vem a técnica de aumentar a produtividade de oliveiras colocando música clássica na propriedade. Setenta caixas de som puxam o bloco. Não sei informar as preferências estilísticas das azeitonas. Pesquisa em aberto.
Logo ao lado das amantes de Schubert (ou seria Prokofiev?), cinco sorridentes nipônicos descrevem como recriaram uma viagem datada de 30 mil anos, num barco esculpido em cedro-japonês com ferramentas primitivas. Seu entusiasmo, claro, não está à venda, mas quem se importa? O que vale é a excitação e o prazer da descoberta, pois comprovaram a habilidade e o engenho de povos antigos na compreensão e domínio de correntes marinhas. Curiosidade não se precifica.
Você pensa que somos imbatíveis na orientação sobre o planeta? Um aglomerado na barraca vizinha mostra que arrogância não tem vez. Lá estão mariposas Bogong (Agrotis infusa), primeira espécie conhecida de invertebrados que percorre longas distâncias usando as estrelas como guia. As simpáticas Bogong também usam o campo magnético da Terra como bússola. Talvez elas não saibam, mas são parceiras de um certo poeta alegretense, o Mario Quintana: “Se as coisas são inatingíveis… ora! Não é motivo para não querê-las. Que tristes os caminhos, se não fora a mágica presença das estrelas!”.
Mais para a frente, sob penumbra, raios que os partam e som de explosões, bancas com ervas venenosas. Lá estão, acotovelados e em escala crescente, os mais de 40 milhões de refugiados que perambulam pelo planeta. Expulsos de suas memórias e referências por déspotas, apetites coloniais, fome, desesperança.
Sob o manto do auriverde pendão, vende seu peixe um cabeça de ovo. Exemplar típico da elite brasileira que despreza e ofende os condenados da Terra, sonha casar-se em bodas de US$ 50 milhões e financiar a colonização de Marte. Apoia qualquer projeto político que garanta suas regalias. Já gritou anauê, hoje ejacula aleluia.
Guarnecendo o quiosque sombrio dos ovos de serpente, uma multidão louva a promiscuidade religião-política. Ajoelham-se e celebram barraqueiros que usam mitos para explicar a realidade e vender planos de poder. Como se a vida dependesse de intervenções messiânicas e milagres inexplicáveis. Reconheço ali uns políticos de bandeiras variadas encomendando caixas do produto. É prudente tê-los em estoque. Nunca se sabe quando vai ser necessário chocá-los.
Vi o que já sabia. Somos combinação imperfeita de anjos e demônios. Voltando ao Moraes Moreira, vivemos “plantando brisa e colhendo vendaval”. Fecho a janela, busco um pouco de silêncio na friaca incomum.
Veja, ilustre passageiro, o belo tipo faceiro que você tem ao seu lado. Assim começava uma propaganda muito popular nos bondes do Rio de Janeiro, anunciando uma mezinha para resolver problemas respiratórios. O tipo faceiro resumia a imagem idílica que se tinha do carioca genérico. De bem com a vida, malandragem benigna, vacinado contra mal me queres e efeitos colaterais dos pasteis da Central do Brasil.
Quando a revista inglesa Time Out classificou uma rua de Botafogo como um dos lugares mais descolados do planeta, achei que seria prêmio pela faceirice. Ledo e ivo engano. A Arnaldo Quintela está no centro de protestos de moradores das vizinhanças pelas mesmas razões das de tantas outras ruas cariocas infectadas pela praga dos bares. É sede de uma boemia descontrolada, que inferniza milhares de moradores até alta madrugada, sete dias por semana. A diversão de alguns é o horror de muitos. Há inúmeros relatos de gente que não consegue dormir ou precisa de drogas pesadas para conciliar o sono. A circulação pelas calçadas virou esporte de risco. Poderes executivo e legislativo são cúmplices da baderna.
Bem, já que os botecos substituíram tremoços e ovos coloridos por iguarias gourmet e decibéis homicidas, quem sabe as praças, suburbanas ou não, aceitam exilados em busca de silêncio? Levantamento recente mostrou o estado deplorável da maioria delas. Bancos quebrados, brinquedos para crianças deteriorados, grama largada, lixo espalhado. Quem se anima a deixar-se levar por sinfonias da passarada em ambientes assim, tão abandonados?
Pensei que sol, mar e montanhas no horizonte poderiam recuperar a imagem benfazeja da turma faceira. Estaria salva a carioquice. Calçadões na orla da zona sul seriam um bom começo. O prefeito, este senhor tão camaleônico, decretou uma série de providências para acabar com a esculhambação geral da área. Ora viva! Teríamos menos barulho nos quiosques, retirada da camelotagem, repressão aos que, na mão grande, se apoderam de trechos da areia para fins privados. Antes mesmo de vigorar, as medidas foram canceladas. Em nome da “liberdade de empreender” e do oportunismo eleitoral, está mantida a lei da desordem. O prefeitinho, do alto do seu chapéu demagógico, já disse que “Maricá é uma merda”. Acho que ele quer expandir a fronteira fecal e transformar o Rio numa cidade “em situação de merda”. Tapete vermelho para os turistas, colchão de pregos para os locais.
Restava uma esperança derradeira. Qual é o lugar onde as pessoas estão mais vulneráveis e carentes de conforto, solidariedade e acompanhamento sensível? O hospital. Estaria nele, abrigada em jaleco, a sobrevivência do carioca mítico? Descubro que o janota metido a sambista sancionou uma lei que obriga hospitais, clínicas de planejamento familiar e unidades de saúde a exibir, pasmem!, cartazes com frases como “o nascituro é descartado como lixo hospitalar”. Sim, é o discurso reacionário de correntes religiosas antiaborto, imparáveis em sua jornada rumo à Idade Média. Mulheres vítimas de estupro, com gravidez de alto risco e fetos anencéfalos são submetidas à doutrinação em momento de grande fragilidade. Como disse a jornalista Mariliz Pereira Jorge: “O hospital, que deveria ser espaço de proteção, virou confessionário forçado. Não há escuta, há condenação”.
Parece que, junto com os bondes, desapareceu a leveza de uma cidade que profissionalizou a desordem e maltrata quem nela vive. Pior. Brotou uma indiferença, um imobilismo, um conformismo, que tomam como destino aquilo que é obra de humanos/desumanos interesses. Para onde foi a rebeldia que levou, há 57 anos (completados no dia 26 de junho), cem mil manifestantes contra a ditadura, no centro da cidade? Para onde foi a indignação, a capacidade de mobilização das associações de moradores, hoje sombras do passado não tão remoto? Onde os faceiros que tomaram praças e avenidas para pedir anistia e exigir eleições diretas? Rhum Creosotado não dá conta de responder. A cidade, desconsolada, chora.
Sentar em cima de barril de pólvora. Expressão já antiga, do tempo dos corsários e da aniquilação de populações autóctones pelas potências coloniais. Aquelas que minha geração ouviu dizer encarnarem a “civilização”. Significava flertar com o perigo, brincar com fogo (sem fazer xixi na cama). Caiu em desuso por uma razão tão banal quanto lamentável: pólvora deixou de simbolizar o maior perigo de todos.
O composto negro dos traques juninos, granadas e munição de guerra, inventado pelos chineses, foi substituído, no imaginário do Grande Medo, pelo arsenal nuclear. Desde o lançamento das bombas atômicas em Hiroshima e Nagasaki, alvos civis, abriu-se a Caixa de Pandora. Multiplicaram-se armas capazes de levar à extinção da vida no planeta. Nada do delírio de 1914, quando jovens soldados foram em festa às trincheiras, iludidos com a propaganda de que aquela seria a “guerra para acabar todas as guerras”. Se o arsenal nuclear for acionado hoje pelo oligopólio da Morte (9 países têm armamento nuclear, num total de 12.500 ogivas), não sobrará ser vivo para contar a história.
Desde 1945, houve ao menos um momento em que o Apocalipse fez uma mesura e quase descolou sua entrada triunfal. No início dos anos 60, depois que os Estados Unidos organizaram a fracassada invasão da Baía dos Porcos, em Cuba, na tentativa de liquidar a revolução socialista da ilha caribenha, a União Soviética enviou para lá ogivas nucleares. Dissuasão de novas aventuras contrarrevolucionárias. Descoberto o arsenal, faltou pouco para um conflito nuclear. Na era atômica, qualquer erro de avaliação, por menor que seja, sinalizará o The End para a esfera enlouquecida que habitamos.
Aflito com o que anda acontecendo no mundo, a sucessão interminável de dejetos e ameaças, resolvi mergulhar nas origens da era nuclear. Encarei a monumental biografia (mais de 600 páginas) de J. Robert Oppenheimer, o cientista que liderou a equipe que viabilizou o primeiro artefato atômico da história. Já havia visto o filme dirigido por Christopher Nolan, mas senti necessidade de aprofundar as muitas questões (éticas, militares, políticas) desencadeadas pelo Projeto Manhattan. Não dá para abordá-las todas neste espaço limitado, mas vou destacar algumas que considero muito importantes.
Talvez a principal conclusão, perturbadora e revoltante, seja a de que, no útero, a bomba atômica era militarmente desnecessária. Kai Bird e Martin J. Sherwin, autores da biografia, provam com riqueza de detalhes que os nazistas estavam muito longe de desenvolver armamento nuclear. Assinaram a rendição em maio de 1945. Além disso, no primeiro semestre de 1945 o Japão estava militarmente derrotado. Bombardeios selvagens com bombas incendiárias reduziram mais de metade de Tóquio a um monte de escombros fumegantes. Isso em uma noite! Entre 50 e 90% das populações de 67 cidades japonesas foram mortas em bombardeios semelhantes, antes de Hiroshima e Nagasaki. O alto escalão nipônico já discutia os termos da rendição. Por que, então, aniquilar covardemente duas cidades que não tinham qualquer relevância militar?
A resposta foi dada em Los Alamos pelo general Leslie Groves, coordenador geral do Projeto Manhattan. Em março de 1944, numa conversa na presença do físico polonês Joseph Rotblat, o general disse que “o principal objetivo deste projeto é dominar os russos”. Rotblat, em choque, achava que o trabalho fosse para impedir a vitória nazista e não que “a arma que estávamos construindo seria dirigida contra o povo que estava fazendo sacrifícios extremos para esse objetivo”. Naquele mesmo ano, Rotblat desligou-se do projeto. Pode-se dizer que a bomba atômica foi o primeiro lance da Guerra Fria.
É importante registrar que cientistas de renome tornaram pública sua desaprovação às armas atômicas. Denunciaram a intenção de usá-las contra populações civis e defenderam um freio na produção dos artefatos. Isidor Rabi, físico detentor do Prêmio Nobel em 1944 e amigo próximo de Oppenheimer, havia se recusado a participar do Projeto Manhattan com um argumento poderoso: “Não quero que 300 anos de evolução da Física resultem na produção de uma bomba”.
Não há qualquer perspectiva de desativação do arsenal nuclear mundial. O fechado clube militar atômico mantém a capacidade de nos devolver à idade da pedra. Estamos à mercê do imponderável, de indivíduos e interesses que podem tornar macabra realidade o que o premiê soviético Nikita Kruschev disse ao presidente norte-americano John Kennedy durante a crise dos mísseis em Cuba: “Podemos chegar ao tempo em que os sobreviventes invejarão os mortos”.
No início dos anos 70, assisti no extinto cinema Madri o antológico “Planeta dos macacos”. Na cena final, Charlton Heston caminha por uma praia deserta, quando se depara com o que sobrara da Estátua da Liberdade. Descobre, assombrado, que o lugar onde estava, habitado por símios, era a Terra pós-apocalipse nuclear. Em desespero, ajoelha-se e desabafa: “Vocês explodiram tudo. Malditos sejam! Deus os mande para o Inferno”. Profecia? Quem avisa amigo é?
Até há pouco tempo, era para mim um completo desconhecido. De repente, uma enxurrada de comentários sobre um certo Léo Lins me chamou a atenção. Seria mais um desses casos de notoriedade instantânea tão comuns nas redes sociais?
Consta que o cidadão apresentou-se num teatro e cometeu uma longa fieira de piadas preconceituosas. Foi processado e condenado a oito anos de prisão pelo conteúdo ofensivo delas contra vários grupos. A sentença reacendeu vários debates importantes, que merecem atenção. Há limites para a liberdade de expressão? Há limites para o que se considera humor?
Não vou comentar aspectos legais, embora me pareça que a juíza seguiu estritamente a legislação em vigor sobre crimes de injúria racial e afins. Na sentença, a magistrada citou várias das piadas, todas abomináveis, horrendas, desprezíveis. O que me interessa é evitar os tiroteios lacrativos tão comuns no espaço virtual e pensar sobre “fenômenos” como Léo Lins, que tem 3 milhões de seguidores no Instagram e atrai grandes plateias para suas apresentações.
Nada de conclusões categóricas. Prefiro expor minhas dúvidas. Léo Lins e sua obra podre não surgiram no vácuo. Somos uma sociedade profundamente racista, o preconceito rotineiro se manifesta em escolas, shoppings, campos de futebol, relações sociais, locais de trabalho e moradia. Estamos habituados ao “ponha-se no seu lugar”, “quem você pensa que é?”, ao que Roberto DaMatta definiu como “resto abominável de uma sociedade escravocrata, aristocrática e patrimonialista”. Fomos educados para normalizar a inferiorização racial e o desprezo por grupos de diferentes.
Há os que criticam a punição a Léo Lins alegando que ele, pendurado num crachá de comediante, falou apenas para um público limitado, que pagou para vê-lo. Na era digital este é um argumento tolo. O que ele fala é imediatamente reproduzido para milhões de frequentadores de redes sociais, que replicam som e imagem para outros tantos milhões. Qual é a consequência desta cadeia de acontecimentos na consolidação de estereótipos e preconceitos? Serão apenas piadas “desagradáveis”, insultos restritos, ou ferramenta útil para, em terreno adubado por históricas discriminações, reproduzir o lixo desinformativo e separatista?
Para não passar em branco, fecho as narinas, tomo um Engov e mostro algumas das pérolas de Léo Lins. “Pra adotar criança, vai na África que tem plantação. Escolhe pelo pé, se for escurinho vai dar like no insta, traz para o Bruno Gagliasso”. “Negro reclama de não arrumar emprego, mas, na época da escravidão, já nascia empregado e também achava ruim, aí é difícil ajudar”. “Cachorro é como se fosse um filho com leucemia. É um compromisso para 15 anos”. “Tem ser humano que não é 100% humano. O nordestino do avião? 72%”. “Como vou emagrecer? Pegando AIDS! Você não adora comer de tudo? Sai comendo gay sem camisinha!”. Quem é capaz de rir disso, está a um passo de assistir com prazer uma sessão do documentário nazista Der ewige jude (O judeu eterno), de 1940, encomendado por Goebbels e baseado na vasta mitologia antissemita acumulada por séculos.
Há opiniões variadas e respeitáveis sobre a melhor forma de tratar casos como o de piadas hediondas. O assunto não é nada novo. Quem assistia a Escolinha do Professor Raymundo há de lembrar personagens/caricaturas como o judeu sovina, a portuguesa ignorante, o caipira bronco, o homossexual escrachado. Tudo parecia muito inocente, chancelado por Chico Anysio, artista talentoso. Serão mesmo sátiras inofensivas, apenas humor “desafiante declarado da hegemonia progressista” (como afirmou, em linguagem característica, um acadêmico da UFBa), ou casos graves de racismo recreativo?
Por falar em sátira, lembro do comportamento de Getúlio Vargas, ditador no Estado Novo. Dizia-se que frequentava os espetáculos de teatro de revista na praça Tiradentes, que o satirizavam em sketches e músicas. Divertia-se muito com as zombarias. De quebra, não tirava os olhos das vedetes, especialmente da Virgínia Lane, que acabou habitué do Palácio do Catete. Caso típico de piada que não mata, nem derruba governo. Quase um século depois, há muitos ruídos no território da comicidade, que podem não matar de imediato, mas causam estragos de consequências imprevisíveis que a sociedade precisa avaliar.