Peraltagens

Peraltagens

Costumamos olhar para o planeta como se ele estivesse aí apenas para nos servir. Senhores da Vida e da Morte, todas as formas de existência deveriam prestar-nos vassalagem. Até mesmo na capacidade de brincar julgamo-nos inigualáveis. Como assim brincar? Sim, esse negócio de movimentar-se com prazer, sem pressão por sobrevivência ou estresse, alegre. Nada que exista na Natureza tem disso, orgulhamo-nos.

Devagar com o andor, alertam pesquisadores potiguares. Observando grupos de símios, que não eram miquinhos amestrados, perceberam comportamentos que são claramente brincantes. Macaquinhos irmãos brincam juntos, sem qualquer intenção de domínio. Quando a fêmea dá à luz apenas um filhote, outros pequerruchos o adotam, atraindo-o para a algazarra sem compromisso, criando vínculos pelo contato lúdico. Mesmo adultos podem ser observados, por exemplo, jogando pedras ou galhos para o alto, sem buscar qualquer recompensa. Não estamos sozinhos na arte do fazer nada sem culpa.

O brincar do Menino exigia, não raro, improviso e invenção. Com recursos poucos, brinquedos eram criados a partir de restos de madeira, metal, vidro. Times inteiros de futebol de botão nasciam a partir de casca de coco, botões de armarinho e fichas de ônibus. Caixas de fósforo marca Olho recheados de chumbo transformavam-se em Poy, Gilmar, Pompeia, Castilho, Yashin e Barbosa, guarda-valas invencíveis. Partes da estrutura de cadeiras velhas renasciam como potentes Winchester a caçar búfalos e mascarados. Meias recheadas com jornal velho adentravam o campinho de pelada a espantar Maracanazos, enfeitar dribles humilhantes e vencer campeonatos épicos. Rodinhas de bilha sustentavam bólidos construídos com tábuas de caixotes velhos e engenharia delirante. Varetas de bambu, papel colorido e linha branca número 10 desovavam pipas e, com elas lá no alto, o vento fazia mágica. Sensação passarinheira de pilotar o voo elegante.

A Natureza acolhia os folguedos. Quem nunca pisou em terra molhada, tomando banho de chuva, não sabe o que perdeu. Quem nunca sentiu o aroma de capim molhado tem grave falha na biografia. Por falar em capim, carrego na perna uma cicatriz-troféu. O Menino fazia uma expedição no matagal formado por capim navalha, planta ardilosa e com fio matador. Um passo em falso e, zás!, um corte respeitável. E desrespeitoso. Não me abati. Continuei naquele teatro, mimetizando Tarzan e Jim das Selvas. Sobrou a cicatriz, troféu das boas infâncias.

Nada disso é vivido pela geração de hoje, grudada em telas planas que convidam à preguiça. Verdade que campinhos de pelada já não há, terra para manusear e pisar a cidade comeu, espaço para soltar pipa disse adeus e foi-se embora. A infância sai atordoada, com prejuízos que só serão medidos mais adiante em adultos que terão memórias pobres de emoções importantes nesta fase da vida.

Minha neta veio passar um dia conosco. Nestas ocasiões, gosta de ir comigo a um sebo aqui perto. E lá fomos. Ela queria pesquisar livros da saga Harry Potter. Encontrou três, que lhe produziram um sorriso desbragado. Perguntei-lhe se já havia assistido os filmes baseados nos livros. Todos eles, respondeu de pronto. Ué, então pra quê ler as histórias que já conhece?, levantei a bola. Ah, nos filmes fico com dúvidas sobre muitas cenas e nos livros posso esclarecer tudo, respondeu convicta. O segredo, pois, está nas letras e no estímulo à imaginação que os livros desencadeiam. Uma pré-adolescente que já sabe das coisas e não se viciou na comida pronta das telas. Lindo ponto fora da curva.

Artistas populares gostam de ser chamados de brincantes. Quando trabalham, dizem que estão brincando. Manoel de Barros, o grande poeta pantaneiro, considerou-se a vida inteira um menino, que fabricou seus próprios brinquedos e garantiu que o quintal de casa era maior do que o mundo. No poema “O menino que carregava água na peneira”, primor de doçura, a mãe de um garoto cheio de “despropósitos” diz-lhe: “Meu filho, você vai ser poeta. Você vai carregar água na peneira a vida toda. Você vai encher os vazios com as suas peraltagens. E algumas pessoas vão te amar por seus despropósitos”. Felizes os que conseguem carregar este espírito no mundo que confunde cara feia com seriedade. Abençoados os que brincam, improvisam, inventam, cultivam cicatrizes memoráveis, quebram bibelôs, não esquecem do chicote-queimado e consertam almas tristes.

Abraço. E coragem.

Antinomia Israel–Palestina

Antinomia, palavra grave e raramente ouvida fora dos manuais de filosofia, é o nome dado ao escândalo lógico de ver duas proposições contraditórias sustentadas por razões igualmente sólidas, e não é uma simples contradição, porque a contradição pode ser desfeita pela escolha de um lado, ao passo que a antinomia permanece insolúvel, nela tanto a tese quanto a antítese persistem como verdades legítimas, e não há raciocínio que desfaça o nó, dizia Kant quando perguntava se o universo tem um começo ou é eterno, se a matéria é divisível até o último grão ou se a divisão é infinita, e em cada resposta encontrava a força da afirmação e a mesma força na negação, como se a própria razão tivesse chegado ao limite de si mesma.

E é precisamente nesta terra que a antinomia abandona o papel e toma forma em famílias inteiras, nos corpos dos que retornaram após o extermínio, nos que nasceram sob tendas de refugiados, nos que carregam as cicatrizes das guerras, nos que herdam as memórias da expulsão. Israel existe porque o exílio e a perseguição ameaçaram extingui-lo e porque um povo precisou de chão de onde ninguém mais pudesse expulsá-lo, e essa afirmação é verdadeira; a Palestina existe porque habitou estas colinas desde tempos imemoriais, porque guarda as chaves de casas demolidas em Haifa e cultiva oliveiras plantadas por avós que não conheceram outro lugar, e essa afirmação também é verdadeira. O escândalo é que nenhuma das duas anula a outra, ambas se impõem como realidade em si, e no entanto cada uma nega a outra, e é isso que significa viver dentro de uma antinomia que não é conceito abstrato, mas destino histórico.

Eu falo deste lado da fronteira. Sou judeu, vivo em Israel, acredito no sionismo porque ele foi a resposta à ameaça de desaparecimento, às humilhações de séculos, ao extermínio que quase nos apagou e às guerras travadas aqui que nos obrigaram a defender, repetidas vezes, a nossa própria existência. Aqui está a minha vida, aqui está a minha casa, e a ideia de que este país exista é para mim questão de sobrevivência. Mas ao mesmo tempo, diante de mim, sei que há outro lado, igualmente real, igualmente vivo, igualmente marcado pela expulsão e pela perda, e não posso fingir que ele não exista. Carrego comigo o peso de reconhecer que a verdade do meu povo não apaga a verdade do povo palestino, e é justamente nessa colisão que sinto a antinomia não como conceito de livro, mas como chão de cada dia.

Aqui não se disputa apenas território ou política, aqui o que está em jogo é a impossibilidade de hierarquizar dores: como decidir se pesa mais a lápide quebrada em Varsóvia ou a chave guardada em Haifa, como medir o sangue perdido em guetos, em campos de extermínio e nas guerras de Israel diante do sangue que corre por vilas arrasadas, como atribuir maior direito a um medo de desaparecer ou a uma recusa em ser apagado. A razão, orgulhosa de suas medidas, tropeça diante de uma contabilidade impossível, e a cada tentativa de resolver o que pertence à vida com esquemas rígidos, retorna a conclusão de Kant: há limites que o pensamento não atravessa.

Antinomia, então, não é palavra para ser esquecida em tratados, é o nome desta casa rachada onde judeus e palestinos tentam, a cada manhã, acender a lâmpada, sabendo que o teto pode desabar, e ainda assim cozinham, trabalham, amam, como se fosse possível habitar um paradoxo sem perecer nele. E talvez seja justamente isso que esta terra revela ao mundo: que nem tudo se decide pelo martelo de um juiz, que nem toda disputa encontra veredicto, que há verdades que não se conciliam, mas que insistem em coexistir, que a vida, apesar de tudo, insiste em dançar sobre essa lâmina.

Mas é claro que dançar sobre lâminas cobra o preço do sangue, e é por isso que o solo desta terra está sempre manchado, ora visível nas manchetes que contam os mortos, ora invisível nos silêncios acumulados de uma geração à outra. Cada criança que nasce aqui é de imediato convocada a carregar não apenas o peso do próprio corpo, mas também a herança de um conflito que não escolheu, e a infância se torna campo de treinamento da memória: de um lado, os nomes dos guetos, as marchas forçadas, as valas comuns, as guerras que marcaram a sobrevivência de Israel; do outro, as casas demolidas, os registros de terra negados, os campos de refugiados onde crianças crescem olhando para além das cercas. O leite materno já carrega uma narrativa, e a escola apenas confirma que o destino não é folha em branco.

A antinomia não pode ser negociada em Oslo nem dissolvida em Camp David, não desaparecerá em discursos nas Nações Unidas, porque não está apenas no papel assinado ou rasgado, está no íntimo, no sangue herdado, no modo como cada um aprende a pronunciar a palavra nós e a palavra eles. E é por isso que, quando o mundo exige soluções rápidas, como se bastasse traçar linhas num mapa, a realidade responde com fracasso, porque não se trata de linhas, trata-se de identidades inteiras que se recusam a ser trocadas como peças de um tabuleiro.

E no entanto, ainda assim, a vida insiste: mercados abrem, trabalhadores atravessam postos de controle, médicos cuidam dos feridos sem perguntar sua origem, amantes se encontram em segredo como se pudessem inventar uma geografia oculta, uma pátria feita de dois corpos que se tocam. A antinomia, insolúvel, não impede que surjam pequenas interrupções de humanidade, quase clandestinas, mas reais, e talvez nelas resida a única forma de não sucumbir ao cansaço dos séculos.

Kant, diante de suas antinomias, aceitava o limite da razão como prova de que o pensamento humano não alcança o absoluto; aqui, o limite não é apenas da razão, é da política, da justiça, da fé numa reconciliação definitiva. O que se pode alcançar não é uma solução, mas a convivência com o insolúvel, e isso exige coragem maior do que a de vencer guerras, porque não há bandeira da vitória, há apenas a consciência de que ambos sobrevivem não porque se reconciliaram, mas porque nenhum conseguiu apagar o outro.

Talvez um dia a humanidade aprenda que a verdade pode ter mais de um rosto e que viver não é escolher entre eles, mas aceitar que todos permaneçam à mesa. Até lá, esta terra seguirá como o mais cruel laboratório da filosofia, lembrando-nos de que existem contradições que se resolvem e existem antinomias que apenas se suportam. E a pergunta que resta, a única que nos cabe repetir, é se seremos capazes de suportar essa ferida sem nos acostumarmos a ela, se poderemos permanecer humanos dentro daquilo que, por definição, não tem solução.

Sons mutantes da cidade

Sons mutantes da cidade

Vinícius de Moraes precisava de um pouco de solidão. Pegou o bonde e saltou numa rua de terra batida, com poucas casas e iluminação precária. Era a Ipanema dos anos 40 e o barulho do mar bailava uma valsa com a sombra trêmula e os pensamentos longínquos do poetinha.

Perto de um casarão, ouviu o som de um piano. Alguém o dedilhava com a hesitação dos principiantes. No silêncio da noite, os dó-ré-mi competiam com o canto dos grilos. O poeta sorriu e naquela paisagem quase rural vieram as primeiras palavras que comporiam A espantosa Ode a São Francisco de Assis. “Tudo é magia! Lembras-te? o silêncio fantástico das noites/E a alma bêbada de emoção? e nenhum pouso”.

A trilha sonora do Menino incluía poucos pianos. Famílias de classe média baixa sequer tinham espaço em casa para alojar o instrumento. Os tios paternos foram exceção. Arrumaram um jeito de acomodá-lo e deram-lhe o uso tradicional para as “moças prendadas”. Estas deveriam saber cozinhar, costurar, administrar a casa, sufocar a sexualidade e, como atração da companhia, tocar algum instrumento musical. Viravam, assim, bons partidos nos campeonatos amorosos. Minha prima aprendeu a tocá-lo e aproveitou para transgredir o destino. Certo, aprimorou o gosto musical, mas também tornou-se professora, conquistou independências.

Portátil, o acordeon sentou praça na minha casa. Não para mim, mas para a Irmã. Com método Mario Mascarenhas na veia, deu algumas sanfonadas, mas não foi muito longe com o instrumento de segunda mão comprado a duras penas. Como será que morrem os instrumentos? Não conheço criança alguma que tenha aulas de acordeon, fantasma de fole que ressuscita apenas em época de festas juninas.

Quem frequentou cinema nos anos 50 e 60 há de lembrar de Adelaide Chiozzo. Era acordeonista e atriz nas chanchadas da Atlântida. Depois da introdução com a imagem de um imenso chafariz, vinham histórias com roteiro padrão: mocinho com muita Glostora no cabelo (em geral o Cyll Farney, ótimo baterista e boa pinta profissional; seu nome real era Cilênio Dutra e Silva) flertava com mocinha virginal (Eliana Macedo como poule de dez) e abatia José Lewgoy, o vilão preferencial de sotaque agauchado e sempre ingênuo. No meio de tudo, correrias e trapalhadas de Oscarito, Grande Otelo, Ankito, Zé Trindade, os irmãos Ema e Walter D’Ávila, Dercy Gonçalves. Muitos números musicais, para os quais o Menino torcia o nariz. Com um pouco de sorte, apareciam vedetes que faziam a imaginação e certas partes da Baixa Eslobóvia estremecerem (Norma Bengell, Carmem Verônica, Íris Bruzzi, Renata Fronzi). Foram uma espécie de ensaio geral do cinema brasileiro, com grande aceitação popular. Adelaide Chiozzo e seu acordeon eram habitués da coisa toda.

Hoje, os sons das ruas cariocas podem tudo, menos inspirar poemas e respeitar solidões. Ande-se nos bairros e é quase certo que haverá invasão de latidos de cães neuróticos, praga que não para de crescer, ao lado de outros decibéis homicidas. O número destes animais, especialmente os nanicos agitados, multiplicou-se com a pandemia e os donos são indiferentes à barulheira dos totós. Às vezes desconfio que, numa brincadeira do tempo e da geografia, Mussorgsky compôs Uma Noite no Monte Calvo inspirado nos descontroles da bicharada carioca. Os mesmos que me despertam sentimentos inconfessáveis. Au, au, é uma ova!

Abraço. E coragem.

Olhos nos olhos

Olhos nos olhos

A sensação tátil é da areia peneirada grosseiramente. Cor branda, neutra. O saquinho continha o resíduo da cremação de minha irmã, morta ano passado. Nos últimos momentos de lucidez, ela pediu que jogássemos as cinzas num lugar a céu aberto no Rio, simulando um abraço da Natureza.

Foi o que fizemos. Nada difícil achar um local adequado. O Rio, tão pródigo em mazelas insuperáveis, é generoso em encontros de mar com montanhas. A beleza aliviou um bocadinho o peso da despedida final. É instrutivo perceber a que nos reduzimos: uma combinação inexpressiva de produtos químicos de baixa complexidade, restos de estrelas vadias e doses variáveis de arrogância, delírios e sonhos perdidos. Areia, nada além.

Chegando em casa, meu olho esquerdo reclamou. Parecia ter sido invadido por uma poeira. Seria parte daquela? Dei de ombros. Não vai ser nada, passa sozinho. Não passou. Desembarquei numa consulta de emergência ao oftalmologista. O invasor foi localizado e retirado por agulha (a visão dela se aproximando da vista não é das mais poéticas). Algum crédulo poderia jurar que minha irmã queria esticar a permanência por aqui. Se fosse o caso, teria lhe dito (desculpem, mas não escreverei ter-lhe-ia) que o que fica são memórias, poeira não combina com retina.

Minha avó materna costumava usar os olhos para dialogar com o invisível. Quando percebia alguma coisa de bom tom, que as crianças estavam se alimentando direito ou recebia uma boa notícia, dizia no idioma ancestral, em sotaque polonês: Kain ain ore! Que o mau olhado não vigore! Se a desconfiança era de que o mau agouro estava instalado, detonava um pequeno ritual. Enchia com sal um saquinho de pano, amarrava-o com barbante, fechava os olhos e fazia o saquinho circular em torno da vítima do azar, murmurando mistérios. Soprava os olhos do freguês e atirava o sal no fogo.   Era tiro e queda.

Há um filme extraordinário do Woody Allen, no qual os olhos são personagem vital. É Crimes e pecados. Não vou entrar em detalhes, há uma sucessão de temas/personagens instigantes. Woody em grande forma. Fixo-me em dois deles. O primeiro é Judah Rosenthal, oftalmologista famoso envolvido com uma amante possessiva. Ele diz que escolhera a profissão por receio do “olho de deus”. De acordo com seu pai, judeu religioso, deus tudo vê, tudo avalia, tudo julga. A imagem assombrou Judah em toda a juventude e, na tentativa de controlar aquele olho tão exigente, potente e implacável, resolveu estudar e consertar os olhos humanos. Só aderindo ao cínico que carregamos dentro de nós conseguiu libertar-se do juiz viscoso.

Millôr Fernandes tinha uma pensata que resolveria, idealmente, as aflições de Judah. Disse o Irritante Guru do Meier: “Deus existe apenas porque você acredita nele. Tua única vingança, se ele te castigar, é deixar de acreditar e acabar com ele”.

O segundo é um paciente de Judah. Trata-se de um rabino com uma doença progressiva nos olhos, que acabará por cegá-lo. O personagem não se deixa abalar. Ao contrário. Quanto mais cego fica, parece ficar mais sábio. O mundo interno assume a presidência daquela vida. É uma metáfora muito forte.

Vivemos numa época onde prevalece uma cultura de vigilância extrema. O olho do Grande Irmão está espalhado por todos os cantos, não raro com a anuência dos vigiados. São voluntários do voyeurismo. Tudo vira motivo de bisbilhotice. Prato de comida em restaurante chique, fotos fofinhas dos protozoários de quatro patas, os cotidianos sempre maravilhosos. Mundo Barbie.

Tinha algumas ideias para concluir este encontro semanal, quando esbarrei num documentário sobre o Veríssimo (saudade das crônicas dele). Lá estava o olho do grand finale. Em nenhuma cena aparecem celulares. Seja nos encontros familiares ou nas palestras do Luis Fernando, ninguém desvia a atenção para telas ou teclas. Ninguém fotografa ao invés de interagir. Isto sim é que é um pessoal que enxerga longe. Olhos de lince, olhos nos olhos, olhos de deslumbre, tchê!

Abraço. E coragem.

Caminhos

Caminhos

O anúncio do prêmio Nobel de Literatura de 1978 abriu todos os baús de espantos. O vencedor foi um judeu polonês radicado em New York, que escreveu toda a sua obra em ídish, idioma ancestral dos ashquenazitas, já naquela época enfrentando a crise definitiva como meio de comunicação.

Isaac Bashevis Singer foi a Estocolmo receber o prêmio das mãos do rei da Suécia e proferiu um discurso irônico e muito bem-humorado. Comentou que não se cansavam de lhe perguntar por quê insistia em escrever num idioma com cada vez menos praticantes, reduzindo tendencialmente o número de leitores. Disse que a resposta era simples. Sendo judeu religioso (ironia: era um agnóstico nada ortodoxo), acreditava na vinda do Messias (outra gozação, digo, ironia) e, com a sua chegada, ressuscitariam os judeus de todas as épocas. Ora, o que fariam muitos deles? Sacudiriam a poeira dos séculos e perguntariam onde encontrar bons textos em ídish para se atualizar. Era para eles, ex-mortos, que escrevia.

Em sua biografia, Singer conta como surgiu a ideia de contar histórias, vulgo literatura. Seu pai, rabino em uma cidadezinha polonesa, atuava como uma espécie de juiz. Dava conselhos sobre todos os assuntos. Crises existenciais e conjugais, brigas entre vizinhos, interpretações de textos sagrados, como sobreviver ao preço da cebola na feira (que andava pela hora da morte). Certa vez, Singer viu um casal estremecido quase partir pra ignorância. Trocaram insultos dignos das pragas de Scholem Aleichem. Depois de algum tempo, com a mediação do velho Pinchas, saíram de mãos dadas, sem adiar carícias. O pequeno Isaac pensou: taí uma boa história. Começou a colecioná-las e contá-las. Uma estrada que o levaria ao Nobel.

O caminho até Estocolmo foi como a vida: dores, encantos, quebra-molas, suspiros & retiros. Aprendi lendo sobre sua trajetória como é fundamental imaginar, inventar, sonhar. Mais do que tudo, Singer, egresso de um universo limitado e de poucas cores e esperanças, encaminhou algumas respostas ao mistério do prazer que sentem os que escrevem, utópicos andarilhos em busca de diálogo. Para que servem as utopias?

Chamo ao palco Eduardo Galeano. O uruguaio apaixonado por futebol e gentes costumava citar Fernando Birri, cineasta, poeta e escritor argentino, quando lhe perguntavam sobre utopias. Durante uma palestra na Colômbia, perguntaram a Berri se havia utilidade nas utopias. Respondeu que elas estavam no horizonte, sendo, portanto, inalcançáveis. Ir em sua direção é saber disso: não se chegará a elas. Qual é, então, o sentido, de buscá-las? É o da própria caminhada, suas surpresas, belezas e enigmas. Completo com o sevilhano Antonio Machado: Caminante, no hay camino/Se hace el camino al andar.

Não é nada fácil construir estas caminhadas. Tarefa de gerações. Conheci muita gente que se perdeu antes de começá-las. Cruzei com outros tantos que, desenganados, ficaram rancorosos, isolaram-se, negaram as utopias. O Grande bem que tentou, mas naufragou de sonhos ressecados. Sonhou construir prédios, terminou lidando com cáries e tártaros. Angustiou-se no terreno afetivo. Desviava-se dos buracos da estrada, criando atalhos que aliviavam o peso n’alma. Seu rosto, porém, imensamente triste, mostrava que a caminhada não iria longe. Não foi mesmo.

Minha geração descobriu cedo que boa companhia esclarece o roteiro. Nosso século está fazendo questão de sabotar a via coletiva. De acordo com a Organização Mundial da Saúde, a solidão foi responsável por cerca de 871 mil mortes anuais entre 2014 e 2019. Decupando a estatística: a cada hora, cem pessoas morreram por causa do problema. Estar só atinge mais os adolescentes e jovens adultos, o que é uma tragédia. Justamente na fase de alçar voo, humanos se isolam ou são isolados. Os laços comunitários, a presença do Outro, a importância de olhar além das telas, tudo desintegra.

Infelizmente, o velho Pinchas Singer, com sua sabedoria intuitiva e sua percepção da vida, já não existe para anunciar os horizontes. Resta a esperança de que as novas gerações esbarrem nas estradas que começamos a trilhar e fracassamos em terminar. Quem sabe usam um bocadinho do que acumulamos para recomeçar a jornada.

Abraço. Coragem e perseverança.

Abrindo a janela

Abrindo a janela

Dias de inverno glacial para padrões cariocas. A chuvinha insistente não ajuda a espantar a preguiça macunaímica, um imobilismo de saci em patinete.

Não sei por quê, mistérios do inconsciente em estado de semi-consciência, embaixo do cobertor lembrei do Moraes Moreira. Mais especialmente da música que servia de introdução a um velho telejornal. Sabem aquele “Pombo correio, voa depressa/E essa carta leva para o meu amor/ Leva no bico que eu aqui fico esperando”?

Lembrança puxa lembrança, logo desembarquei em Preta pretinha. Dançando em círculos, o convite: “Abre a porta e a janela/E vem ver o sol nascer”. Dei uma espreguiçada olímpica e, mesmo sem o conforto solar, abri a janela. Eis o que vi.

Lá longe, além do horizonte, nos Andes chilenos, um supertelescópio com a maior câmera fotográfica do mundo está desenhando o mais completo mapa do universo. Vai inundar os astrônomos de dados e flagrar vizinhos cósmicos que só visualizamos em ficção científica. Sei não, mas suspeito que o resultado deste banquete apenas confirmará a raridade (exclusividade?) da vida como a conhecemos. Delicadeza que o Homo sapiens trata de destruir metodicamente, como se a Terra fosse provedora infinita. Como diz o ditado latino: Quos vult Deus perdere, prius dementat (A quem Deus quer perder, primeiro tira-lhe o juízo).

Ajusto a lente para perto. Há um mercado persa em permanente alvoroço. Formosuras e monstrengos, interrogações e maldições, acolhimento e caos, solidariedade e desprezo. Vendedores de ilusões disputam espaço com incansáveis pesquisadores e abelhudos persistentes. Há tanta variedade que a velha feira da rua Araújo Lima tornou-se raquítica curiosidade arqueológica.

Na barraca de frutas exóticas, percebo um produto made in Maria da Fé, Minas Gerais. É de lá que vem a técnica de aumentar a produtividade de oliveiras colocando música clássica na propriedade. Setenta caixas de som puxam o bloco. Não sei informar as preferências estilísticas das azeitonas. Pesquisa em aberto.

Logo ao lado das amantes de Schubert (ou seria Prokofiev?), cinco sorridentes nipônicos descrevem como recriaram uma viagem datada de 30 mil anos, num barco esculpido em cedro-japonês com ferramentas primitivas. Seu entusiasmo, claro, não está à venda, mas quem se importa? O que vale é a excitação e o prazer da descoberta, pois comprovaram a habilidade e o engenho de povos antigos na compreensão e domínio de correntes marinhas. Curiosidade não se precifica.

Você pensa que somos imbatíveis na orientação sobre o planeta? Um aglomerado na barraca vizinha mostra que arrogância não tem vez. Lá estão mariposas Bogong (Agrotis infusa), primeira espécie conhecida de invertebrados que percorre longas distâncias usando as estrelas como guia. As simpáticas Bogong também usam o campo magnético da Terra como bússola. Talvez elas não saibam, mas são parceiras de um certo poeta alegretense, o Mario Quintana: “Se as coisas são inatingíveis… ora! Não é motivo para não querê-las. Que tristes os caminhos, se não fora a mágica presença das estrelas!”.

Mais para a frente, sob penumbra, raios que os partam e som de explosões, bancas com ervas venenosas. Lá estão, acotovelados e em escala crescente, os mais de 40 milhões de refugiados que perambulam pelo planeta. Expulsos de suas memórias e referências por déspotas, apetites coloniais, fome, desesperança.

Sob o manto do auriverde pendão, vende seu peixe um cabeça de ovo. Exemplar típico da elite brasileira que despreza e ofende os condenados da Terra, sonha casar-se em bodas de US$ 50 milhões e financiar a colonização de Marte. Apoia qualquer projeto político que garanta suas regalias. Já gritou anauê, hoje ejacula aleluia.

Guarnecendo o quiosque sombrio dos ovos de serpente, uma multidão louva a promiscuidade religião-política. Ajoelham-se e celebram barraqueiros que usam mitos para explicar a realidade e vender planos de poder. Como se a vida dependesse de intervenções messiânicas e milagres inexplicáveis. Reconheço ali uns políticos de bandeiras variadas encomendando caixas do produto. É prudente tê-los em estoque. Nunca se sabe quando vai ser necessário chocá-los.

Vi o que já sabia. Somos combinação imperfeita de anjos e demônios. Voltando ao Moraes Moreira, vivemos “plantando brisa e colhendo vendaval”. Fecho a janela, busco um pouco de silêncio na friaca incomum.

Um abraço. E coragem.