Dias de inverno glacial para padrões cariocas. A chuvinha insistente não ajuda a espantar a preguiça macunaímica, um imobilismo de saci em patinete.

Não sei por quê, mistérios do inconsciente em estado de semi-consciência, embaixo do cobertor lembrei do Moraes Moreira. Mais especialmente da música que servia de introdução a um velho telejornal. Sabem aquele “Pombo correio, voa depressa/E essa carta leva para o meu amor/ Leva no bico que eu aqui fico esperando”?

Lembrança puxa lembrança, logo desembarquei em Preta pretinha. Dançando em círculos, o convite: “Abre a porta e a janela/E vem ver o sol nascer”. Dei uma espreguiçada olímpica e, mesmo sem o conforto solar, abri a janela. Eis o que vi.

Lá longe, além do horizonte, nos Andes chilenos, um supertelescópio com a maior câmera fotográfica do mundo está desenhando o mais completo mapa do universo. Vai inundar os astrônomos de dados e flagrar vizinhos cósmicos que só visualizamos em ficção científica. Sei não, mas suspeito que o resultado deste banquete apenas confirmará a raridade (exclusividade?) da vida como a conhecemos. Delicadeza que o Homo sapiens trata de destruir metodicamente, como se a Terra fosse provedora infinita. Como diz o ditado latino: Quos vult Deus perdere, prius dementat (A quem Deus quer perder, primeiro tira-lhe o juízo).

Ajusto a lente para perto. Há um mercado persa em permanente alvoroço. Formosuras e monstrengos, interrogações e maldições, acolhimento e caos, solidariedade e desprezo. Vendedores de ilusões disputam espaço com incansáveis pesquisadores e abelhudos persistentes. Há tanta variedade que a velha feira da rua Araújo Lima tornou-se raquítica curiosidade arqueológica.

Na barraca de frutas exóticas, percebo um produto made in Maria da Fé, Minas Gerais. É de lá que vem a técnica de aumentar a produtividade de oliveiras colocando música clássica na propriedade. Setenta caixas de som puxam o bloco. Não sei informar as preferências estilísticas das azeitonas. Pesquisa em aberto.

Logo ao lado das amantes de Schubert (ou seria Prokofiev?), cinco sorridentes nipônicos descrevem como recriaram uma viagem datada de 30 mil anos, num barco esculpido em cedro-japonês com ferramentas primitivas. Seu entusiasmo, claro, não está à venda, mas quem se importa? O que vale é a excitação e o prazer da descoberta, pois comprovaram a habilidade e o engenho de povos antigos na compreensão e domínio de correntes marinhas. Curiosidade não se precifica.

Você pensa que somos imbatíveis na orientação sobre o planeta? Um aglomerado na barraca vizinha mostra que arrogância não tem vez. Lá estão mariposas Bogong (Agrotis infusa), primeira espécie conhecida de invertebrados que percorre longas distâncias usando as estrelas como guia. As simpáticas Bogong também usam o campo magnético da Terra como bússola. Talvez elas não saibam, mas são parceiras de um certo poeta alegretense, o Mario Quintana: “Se as coisas são inatingíveis… ora! Não é motivo para não querê-las. Que tristes os caminhos, se não fora a mágica presença das estrelas!”.

Mais para a frente, sob penumbra, raios que os partam e som de explosões, bancas com ervas venenosas. Lá estão, acotovelados e em escala crescente, os mais de 40 milhões de refugiados que perambulam pelo planeta. Expulsos de suas memórias e referências por déspotas, apetites coloniais, fome, desesperança.

Sob o manto do auriverde pendão, vende seu peixe um cabeça de ovo. Exemplar típico da elite brasileira que despreza e ofende os condenados da Terra, sonha casar-se em bodas de US$ 50 milhões e financiar a colonização de Marte. Apoia qualquer projeto político que garanta suas regalias. Já gritou anauê, hoje ejacula aleluia.

Guarnecendo o quiosque sombrio dos ovos de serpente, uma multidão louva a promiscuidade religião-política. Ajoelham-se e celebram barraqueiros que usam mitos para explicar a realidade e vender planos de poder. Como se a vida dependesse de intervenções messiânicas e milagres inexplicáveis. Reconheço ali uns políticos de bandeiras variadas encomendando caixas do produto. É prudente tê-los em estoque. Nunca se sabe quando vai ser necessário chocá-los.

Vi o que já sabia. Somos combinação imperfeita de anjos e demônios. Voltando ao Moraes Moreira, vivemos “plantando brisa e colhendo vendaval”. Fecho a janela, busco um pouco de silêncio na friaca incomum.

Um abraço. E coragem.