A sensação tátil é da areia peneirada grosseiramente. Cor branda, neutra. O saquinho continha o resíduo da cremação de minha irmã, morta ano passado. Nos últimos momentos de lucidez, ela pediu que jogássemos as cinzas num lugar a céu aberto no Rio, simulando um abraço da Natureza.
Foi o que fizemos. Nada difícil achar um local adequado. O Rio, tão pródigo em mazelas insuperáveis, é generoso em encontros de mar com montanhas. A beleza aliviou um bocadinho o peso da despedida final. É instrutivo perceber a que nos reduzimos: uma combinação inexpressiva de produtos químicos de baixa complexidade, restos de estrelas vadias e doses variáveis de arrogância, delírios e sonhos perdidos. Areia, nada além.
Chegando em casa, meu olho esquerdo reclamou. Parecia ter sido invadido por uma poeira. Seria parte daquela? Dei de ombros. Não vai ser nada, passa sozinho. Não passou. Desembarquei numa consulta de emergência ao oftalmologista. O invasor foi localizado e retirado por agulha (a visão dela se aproximando da vista não é das mais poéticas). Algum crédulo poderia jurar que minha irmã queria esticar a permanência por aqui. Se fosse o caso, teria lhe dito (desculpem, mas não escreverei ter-lhe-ia) que o que fica são memórias, poeira não combina com retina.
Minha avó materna costumava usar os olhos para dialogar com o invisível. Quando percebia alguma coisa de bom tom, que as crianças estavam se alimentando direito ou recebia uma boa notícia, dizia no idioma ancestral, em sotaque polonês: Kain ain ore! Que o mau olhado não vigore! Se a desconfiança era de que o mau agouro estava instalado, detonava um pequeno ritual. Enchia com sal um saquinho de pano, amarrava-o com barbante, fechava os olhos e fazia o saquinho circular em torno da vítima do azar, murmurando mistérios. Soprava os olhos do freguês e atirava o sal no fogo. Era tiro e queda.
Há um filme extraordinário do Woody Allen, no qual os olhos são personagem vital. É Crimes e pecados. Não vou entrar em detalhes, há uma sucessão de temas/personagens instigantes. Woody em grande forma. Fixo-me em dois deles. O primeiro é Judah Rosenthal, oftalmologista famoso envolvido com uma amante possessiva. Ele diz que escolhera a profissão por receio do “olho de deus”. De acordo com seu pai, judeu religioso, deus tudo vê, tudo avalia, tudo julga. A imagem assombrou Judah em toda a juventude e, na tentativa de controlar aquele olho tão exigente, potente e implacável, resolveu estudar e consertar os olhos humanos. Só aderindo ao cínico que carregamos dentro de nós conseguiu libertar-se do juiz viscoso.
Millôr Fernandes tinha uma pensata que resolveria, idealmente, as aflições de Judah. Disse o Irritante Guru do Meier: “Deus existe apenas porque você acredita nele. Tua única vingança, se ele te castigar, é deixar de acreditar e acabar com ele”.
O segundo é um paciente de Judah. Trata-se de um rabino com uma doença progressiva nos olhos, que acabará por cegá-lo. O personagem não se deixa abalar. Ao contrário. Quanto mais cego fica, parece ficar mais sábio. O mundo interno assume a presidência daquela vida. É uma metáfora muito forte.
Vivemos numa época onde prevalece uma cultura de vigilância extrema. O olho do Grande Irmão está espalhado por todos os cantos, não raro com a anuência dos vigiados. São voluntários do voyeurismo. Tudo vira motivo de bisbilhotice. Prato de comida em restaurante chique, fotos fofinhas dos protozoários de quatro patas, os cotidianos sempre maravilhosos. Mundo Barbie.
Tinha algumas ideias para concluir este encontro semanal, quando esbarrei num documentário sobre o Veríssimo (saudade das crônicas dele). Lá estava o olho do grand finale. Em nenhuma cena aparecem celulares. Seja nos encontros familiares ou nas palestras do Luis Fernando, ninguém desvia a atenção para telas ou teclas. Ninguém fotografa ao invés de interagir. Isto sim é que é um pessoal que enxerga longe. Olhos de lince, olhos nos olhos, olhos de deslumbre, tchê!
Abraço. E coragem.