Era outubro de 1938. O rádio reinava entre os veículos de comunicação. Um jovem de 23 anos ocupa o microfone e transmite, com requintes teatrais, o que parecia ser uma invasão de marcianos. Pânico em arquibancadas e gerais. Ouvintes apavorados pulando nos carros e acelerando para lugares ermos, fora do alcance dos monstrinhos imaginários. Os mais atrevidos improvisaram barricadas e, armados, esperaram pelo pior. Foi um salve-se quem puder que nem te conto.
Tudo não passava de radioteatro. O locutor-ator era Orson “Cidadão Kane” Welles, interpretando na CBS uma versão livre do clássico Guerra dos mundos, de H. G. Wells. Orson, enfant terrible de sua geração, não era calouro nas ondas do rádio. Pouco antes do célebre barata voa de ficção científica, deu voz e alma ao personagem central da série policial The Shadow, de grande sucesso. Em 1943, a rádio Nacional, a inigualável PRE-8 da minha infância, chupou a ideia e lançou O Sombra, uma espécie de teatro de mistério. Saint-Clair Lopes interpretava, com voz sinistra, o personagem central.
Ficou célebre o bordão que anunciava o programa no rádio a válvula que embalava a imaginação dos ouvintes. “Quem sabe o mal que se esconde nos corações humanos? O Sombra sabe”. Sujeito de sorte. O mal não vem com copyright no berço. É camaleônico, multimídia, surpreendente. Um que aprendeu isso no lombo, literalmente, foi o Hitchcock.
No capítulo que dedicou a ele no livro Saudades do século XX (século, aliás, pródigo em males), Ruy Castro lembra o que o genial cineasta contou sobre sua infância: “Fui educado pelos padres. Com eles aprendi o medo”. Os jesuítas, escreve Ruy, o açoitavam com uma vara de guta-percha, tivesse cometido ou não o que eles classificavam como pecado. É bom lembrar que as crianças dificilmente saberão como se define um pecado e, no início do século passado, ultrapassar certas linhas dominadas pela religião podia resultar em chicotes, palmatórias e feridas psicológicas. Desconfio que mestre Alfred teria gostado, e se divertido, se as aves rebeldes da obra-prima Os pássaros tivessem arremetido contra os que tanto mal lhe causaram. Os sádicos provariam um pouco de seu veneno perverso.
Estou lendo o livro de reminiscências de uma autora argentina vanguardista do século passado. Em Cadernos da infância, Norah Lange menciona uma de suas quatro irmãs que, quando pequena, sofria de pilhérias humilhantes das manas. Nessas ocasiões, apelava para o que de mais subversivo seria numa tradicional família da época. Sem atinar com os motivos da maldade que a magoava, punha a culpa no Além e na Magia. Murmurava baixinho, mas peremptória: Deus é mau, Deus é mau… No lugar dela, acho que eu não diria diferente. Como é que uma entidade apresentada como poderosa, sábia e onipresente permitia tantas e tamanhas maldades, tantos e tamanhos sofrimentos? Onde estava o Sombra numa hora daquelas?
Os primeiros contatos do Menino com a religião também foram assustadores. Com a morte inesperada do Grande, foi escalado para dizer a oração dos mortos duas vezes por dia, durante ano inteiro. Sem pausas. Era possível não fazê-lo? Certamente, mas quem poderia assegurar que a transgressão não resultaria em pena severa? Quem saberia o que anda pela cabeça de um justiceiro tão implacável que levou à morte todos os primogênitos egípcios no episódio do Êxodo? Honestamente, nem o Sombra saberia traduzir tanta maldade. Pelo sim, pelo não, repeti 730 vezes a tal oração, cuja tradução do hebraico ninguém fez para mim. Sons de inconformismo e brutalidade. Medo, maldade, morte. Não há rima, nem solução.
Na sala de espera da fisioterapeuta, puxo conversa besta com uma mulher que também esperava atendimento. Depois de desfiar um novelo de identidades (“sou socialista, leio tudo sobre natureza, sou espiritualista”), garantiu fundamento científico para almas e espíritos. Bem, aí mexeu no meu calo de estimação. Disse-lhe que o Sol está em lento processo de extinção. Pode durar uns bilhões de anos, mas nossa estrela mater vai desaparecer e, com ela, todas as formas de vida na Terra. Neste momento fúnebre, para onde irão ectoplasmas e outras invisibilidades? Ela não se perturbou. Garantiu que “encarnaremos” em outros corpos celestes. Como não estaremos aqui para presenciar a metamorfose cósmica, posso apenas fazer um desejo: que o Sombra sobreviva nas futuras encarnações e ajude a entender o mal que se esconderá nos corações estelares.
Deixa eu te dizer uma coisa. Somos pouco menos de dezesseis milhões em um mundo com mais de oito bilhões. Eu fiz a conta e ela arde: 0,2%. Quase um sussurro. Junte quinhentas e vinte pessoas numa praça e deixe alguém gritar contra judeus; talvez uma — no máximo uma — seja de fato judia. O resto julgará um rosto que nunca encontrou, uma ausência promovida a evidência, uma cadeira vazia tratada como prova.
O ódio aprende a viver do que não vê. Em 2025 ele voltou com roupa nova e o mesmo cheiro velho: paredes marcadas ao amanhecer, portas arrombadas “para dar o recado”, ameaças disfarçadas de opinião, listas de “preocupações” que soam como listas de alvos. O coro se alimenta do vazio e chama o vazio de verdade.
Eu não sou o judeu que você esboça para acertar uma conta que não é minha. Não sou curiosidade de sala de estar. Não sou personagem achatado de série que confunde roteiro com história. Não vou vestir máscara para certificar coalizões nem para enfeitar causas. Minha identidade não é um selo kasher para uso político; minha fé não bate ponto em cartório de rezas. Ser judeu, para mim, é chão e fôlego — o que firma meus passos e enche meus pulmões.
Há um absurdo com o qual tive de conviver. Sou brasileiro e judeu, e desde 1975 convivo com o voto do meu país na ONU chamando o sionismo de racismo. Carreguei essa equação torta — sionista e brasileiro ao mesmo tempo — como se a pertença viesse com um veredito anexado. Poucos anos depois, fiz dezoito e fui convocado a servir à mesma ditadura que deu aquele voto. Pedi dispensa por dois motivos simples: eu passaria um ano em Israel e não serviria a um regime de farda. O tenente leu meu nome, ergueu os olhos e perguntou, afiado como lâmina: “Se houver guerra entre o Brasil e Israel, de que lado você fica?”. Respondi na hora: “Do lado que vencer”. A única resposta que desmontava o teatro; a pergunta queria confissão, não lealdade.
Eis o paradoxo para quem fica do lado de fora da porta: mesmo com a guerra, eu me sinto mais seguro em Israel. Eu não apoio esta guerra. Eu me oponho a ela e aos excessos cometidos em meu nome; quero que termine. Mas aqui eu não caminho com um tribunal invisível nos calcanhares. Aqui eu não sou julgado por ser judeu; aqui eu sou julgado por ser de esquerda. Embora a maioria das pessoas aqui seja judia, vivemos sob o jugo de um governo de vocação fascista — e o fascismo, onde se instala, precisa de ódio para se justificar, recicla o antissemitismo antigo e fabrica inimigos novos.
Eu tenho um lado. Ter lado não me rouba a capacidade de análise; obriga-me a exercê-la. Quando critico Israel, não é por ser um país judeu; critico Israel porque hoje é governado por quem flerta com o fascismo. Meu adversário é o fascismo, onde quer que se sente.
É a outra face da mesma moeda. Do lado de fora, sou condenado por ser judeu; do lado de dentro, por ser dissidente. O metal é o mesmo; só muda o cunho: reduzir gente a emblema, converter consciência em culpa automática, rebatizar o desacordo de traição. A moeda gira e, onde quer que caia, para quem vive de rótulos eu já nasci errado.
A responsabilidade tem endereço. Ela recai sobre o governo de Israel e sobre os políticos que escolheram a escalada. Não recai sobre os judeus espalhados pelo mundo — gente, não um monólito. Eu me oponho a quem governa o meu país quando escolhe a brutalidade, e permaneço judeu ao fazê-lo. Se você confunde pertença com obediência, bateu na porta errada. Não sou o selo da sua raiva, nem o álibi da sua consciência inquieta. Não sou o seu boneco.
O que eu guardo é a memória. A língua. Os meus mortos. E um juramento simples: não me calar. Recuso papéis distribuídos por conveniência. Não preciso que me expliquem quem eu sou. A pergunta circula pela sala, o eco fica. O resto é você — e o silêncio que decide o que fazer com isto.
O ano era 1962. Multidões saíram às ruas no Brasil para comemorar o bicampeonato mundial de futebol, no Chile. Parecia enterrado de vez o complexo de vira-lata, grudado na psique nacional com o Maracanazo. A Argélia derrotava o colonialismo francês, depois de uma guerra popular vitoriosa. O planeta estremecia com a chamada Crise dos Mísseis, episódio crítico da Guerra Fria gerado pelo inconformismo imperialista com a revolução cubana. Em Copacabana, um homem triste vê demolida a casa onde morou por 21 anos.
Carlos Drummond de Andrade, o itabirano que tinha o sentimento do mundo, comentaria mais tarde que vinte anos é um grande tempo, modela qualquer imagem. Sua casa, sua coleção de memórias e quereres, já não existia mais. Aquele pedacinho de terra na rua Joaquim Nabuco, tão seu, tão cheio de gavetas, poeiras, papeis amarrotados e fantasmas, estava para se transformar num desses prédios impessoais que desfiguram a cidade. Era a mancha do futuro distópico que se projetava.
Todos os dias encontro a estátua do poeta no vai-e-vem do calçadão atlântico. Lá está ele, no calmo bronze da eternidade, vendo as pedras portuguesas no caminho de tanta gente. Certa vez, lembrando da casa destruída, resolvi convidá-lo para prosear sobre perdas e danos, assunto pra mais de légua e meia. Dei-lhe um tapinha no ombro, ele espantou a preguiça metálica (com ar de nostalgia do ferro mineiro) e me acompanhou na caminhada rumo ao passado.
Carlos observou que nunca apreciou casas muito arrumadas. Chegou mesmo a escrever uma espécie de bula contra o excesso de zelo nos cômodos. Gostava de ver as cicatrizes do uso, marcas da vida que fluía entre assoalhos, azulejos, móveis, fogões. Lembrou-se do que escrevera: “Casa com vida é aquela que a gente arruma pra ficar com a cara da gente. Arrume sua casa todos os dias… Mas arrume de um jeito que lhe sobre tempo para viver nela… E reconhecer nela o seu lugar”.
Disse-lhe que podia compreendê-lo. Minha casa antiga não foi demolida, mas dela sobraram estilhaços de vidas sem conta. Muitas cicatrizes. Foram almoços dominicais com mameligue (angu à moda judaica, cortado com barbante) e lanches de pão com schmaltz (banha de galinha endurecida). Foi a olhada furtiva no buraco de uma fechadura, recolhida como se fora o oitavo pecado capital. Foi a travessura imperdoada, que convocou chinelo e ira. O pau comeu na casa de Noca!
A casa antiga não tinha fronteira definida. Ninguém disputava territórios, refugiados não havia. Da varanda modesta saía um glorioso campo de pelada, verdugo dos pés descalços e testemunha de craques que nunca brotaram. Do campo derivava um teatro de operações guerreiras alimentadas por índios de carnaval e soldados de chumbo. De tudo aquilo sobrou a sensação de que o tempo não foi perdido. Quase sem mover os lábios, Carlos sussurrou: O tempo perdido certamente não existe. É o casarão vazio e condenado.
Chegamos ao número 81 da rua Joaquim Nabuco. Do nada, lembrei de uma velha marchinha de carnaval, marotice permitida em tempos caretas: Menina vai, com jeito vai, senão um dia a casa cai. É, aquela caiu mesmo. Para meu espanto, o poeta ressuscitou um velho desenho animado, genial criação da dupla Hanna & Barbera: Os Jetsons. O ambiente esterilizado, esteiras rolantes no lugar de calçadas, nenhum espaço comum de convivência. Era assim que sentia as sobras da cidade que lhe roubara a casa em nome de um progresso monetizado e sem poesia.
Voltamos ao banco de pedra onde Carlos assiste a eternidade. Antes de reassumir a pose perene, tem tempo de me dizer: Menino, não passamos de caracóis pretensiosos. Carregamos nossas casas nas costas e tentamos habitá-las para dar um sentido qualquer ao lusco-fusco da vida. Obrigado pela lembrança e pela conversa.
Olhei em volta. O sol, exuberância cósmica, brilhava na paisagem de Copacabana. Coagulou na memória uma velha canção dos anos 60, House of rising sun. A letra é triste, mas a melodia e o título são perfeitos para o encontro com o itabirano. Voltarei a ele, e às nossas casas, nas esquinas do tempo.
Costumamos olhar para o planeta como se ele estivesse aí apenas para nos servir. Senhores da Vida e da Morte, todas as formas de existência deveriam prestar-nos vassalagem. Até mesmo na capacidade de brincar julgamo-nos inigualáveis. Como assim brincar? Sim, esse negócio de movimentar-se com prazer, sem pressão por sobrevivência ou estresse, alegre. Nada que exista na Natureza tem disso, orgulhamo-nos.
Devagar com o andor, alertam pesquisadores potiguares. Observando grupos de símios, que não eram miquinhos amestrados, perceberam comportamentos que são claramente brincantes. Macaquinhos irmãos brincam juntos, sem qualquer intenção de domínio. Quando a fêmea dá à luz apenas um filhote, outros pequerruchos o adotam, atraindo-o para a algazarra sem compromisso, criando vínculos pelo contato lúdico. Mesmo adultos podem ser observados, por exemplo, jogando pedras ou galhos para o alto, sem buscar qualquer recompensa. Não estamos sozinhos na arte do fazer nada sem culpa.
O brincar do Menino exigia, não raro, improviso e invenção. Com recursos poucos, brinquedos eram criados a partir de restos de madeira, metal, vidro. Times inteiros de futebol de botão nasciam a partir de casca de coco, botões de armarinho e fichas de ônibus. Caixas de fósforo marca Olho recheados de chumbo transformavam-se em Poy, Gilmar, Pompeia, Castilho, Yashin e Barbosa, guarda-valas invencíveis. Partes da estrutura de cadeiras velhas renasciam como potentes Winchester a caçar búfalos e mascarados. Meias recheadas com jornal velho adentravam o campinho de pelada a espantar Maracanazos, enfeitar dribles humilhantes e vencer campeonatos épicos. Rodinhas de bilha sustentavam bólidos construídos com tábuas de caixotes velhos e engenharia delirante. Varetas de bambu, papel colorido e linha branca número 10 desovavam pipas e, com elas lá no alto, o vento fazia mágica. Sensação passarinheira de pilotar o voo elegante.
A Natureza acolhia os folguedos. Quem nunca pisou em terra molhada, tomando banho de chuva, não sabe o que perdeu. Quem nunca sentiu o aroma de capim molhado tem grave falha na biografia. Por falar em capim, carrego na perna uma cicatriz-troféu. O Menino fazia uma expedição no matagal formado por capim navalha, planta ardilosa e com fio matador. Um passo em falso e, zás!, um corte respeitável. E desrespeitoso. Não me abati. Continuei naquele teatro, mimetizando Tarzan e Jim das Selvas. Sobrou a cicatriz, troféu das boas infâncias.
Nada disso é vivido pela geração de hoje, grudada em telas planas que convidam à preguiça. Verdade que campinhos de pelada já não há, terra para manusear e pisar a cidade comeu, espaço para soltar pipa disse adeus e foi-se embora. A infância sai atordoada, com prejuízos que só serão medidos mais adiante em adultos que terão memórias pobres de emoções importantes nesta fase da vida.
Minha neta veio passar um dia conosco. Nestas ocasiões, gosta de ir comigo a um sebo aqui perto. E lá fomos. Ela queria pesquisar livros da saga Harry Potter. Encontrou três, que lhe produziram um sorriso desbragado. Perguntei-lhe se já havia assistido os filmes baseados nos livros. Todos eles, respondeu de pronto. Ué, então pra quê ler as histórias que já conhece?, levantei a bola. Ah, nos filmes fico com dúvidas sobre muitas cenas e nos livros posso esclarecer tudo, respondeu convicta. O segredo, pois, está nas letras e no estímulo à imaginação que os livros desencadeiam. Uma pré-adolescente que já sabe das coisas e não se viciou na comida pronta das telas. Lindo ponto fora da curva.
Artistas populares gostam de ser chamados de brincantes. Quando trabalham, dizem que estão brincando. Manoel de Barros, o grande poeta pantaneiro, considerou-se a vida inteira um menino, que fabricou seus próprios brinquedos e garantiu que o quintal de casa era maior do que o mundo. No poema “O menino que carregava água na peneira”, primor de doçura, a mãe de um garoto cheio de “despropósitos” diz-lhe: “Meu filho, você vai ser poeta. Você vai carregar água na peneira a vida toda. Você vai encher os vazios com as suas peraltagens. E algumas pessoas vão te amar por seus despropósitos”. Felizes os que conseguem carregar este espírito no mundo que confunde cara feia com seriedade. Abençoados os que brincam, improvisam, inventam, cultivam cicatrizes memoráveis, quebram bibelôs, não esquecem do chicote-queimado e consertam almas tristes.
Antinomia, palavra grave e raramente ouvida fora dos manuais de filosofia, é o nome dado ao escândalo lógico de ver duas proposições contraditórias sustentadas por razões igualmente sólidas, e não é uma simples contradição, porque a contradição pode ser desfeita pela escolha de um lado, ao passo que a antinomia permanece insolúvel, nela tanto a tese quanto a antítese persistem como verdades legítimas, e não há raciocínio que desfaça o nó, dizia Kant quando perguntava se o universo tem um começo ou é eterno, se a matéria é divisível até o último grão ou se a divisão é infinita, e em cada resposta encontrava a força da afirmação e a mesma força na negação, como se a própria razão tivesse chegado ao limite de si mesma.
E é precisamente nesta terra que a antinomia abandona o papel e toma forma em famílias inteiras, nos corpos dos que retornaram após o extermínio, nos que nasceram sob tendas de refugiados, nos que carregam as cicatrizes das guerras, nos que herdam as memórias da expulsão. Israel existe porque o exílio e a perseguição ameaçaram extingui-lo e porque um povo precisou de chão de onde ninguém mais pudesse expulsá-lo, e essa afirmação é verdadeira; a Palestina existe porque habitou estas colinas desde tempos imemoriais, porque guarda as chaves de casas demolidas em Haifa e cultiva oliveiras plantadas por avós que não conheceram outro lugar, e essa afirmação também é verdadeira. O escândalo é que nenhuma das duas anula a outra, ambas se impõem como realidade em si, e no entanto cada uma nega a outra, e é isso que significa viver dentro de uma antinomia que não é conceito abstrato, mas destino histórico.
Eu falo deste lado da fronteira. Sou judeu, vivo em Israel, acredito no sionismo porque ele foi a resposta à ameaça de desaparecimento, às humilhações de séculos, ao extermínio que quase nos apagou e às guerras travadas aqui que nos obrigaram a defender, repetidas vezes, a nossa própria existência. Aqui está a minha vida, aqui está a minha casa, e a ideia de que este país exista é para mim questão de sobrevivência. Mas ao mesmo tempo, diante de mim, sei que há outro lado, igualmente real, igualmente vivo, igualmente marcado pela expulsão e pela perda, e não posso fingir que ele não exista. Carrego comigo o peso de reconhecer que a verdade do meu povo não apaga a verdade do povo palestino, e é justamente nessa colisão que sinto a antinomia não como conceito de livro, mas como chão de cada dia.
Aqui não se disputa apenas território ou política, aqui o que está em jogo é a impossibilidade de hierarquizar dores: como decidir se pesa mais a lápide quebrada em Varsóvia ou a chave guardada em Haifa, como medir o sangue perdido em guetos, em campos de extermínio e nas guerras de Israel diante do sangue que corre por vilas arrasadas, como atribuir maior direito a um medo de desaparecer ou a uma recusa em ser apagado. A razão, orgulhosa de suas medidas, tropeça diante de uma contabilidade impossível, e a cada tentativa de resolver o que pertence à vida com esquemas rígidos, retorna a conclusão de Kant: há limites que o pensamento não atravessa.
Antinomia, então, não é palavra para ser esquecida em tratados, é o nome desta casa rachada onde judeus e palestinos tentam, a cada manhã, acender a lâmpada, sabendo que o teto pode desabar, e ainda assim cozinham, trabalham, amam, como se fosse possível habitar um paradoxo sem perecer nele. E talvez seja justamente isso que esta terra revela ao mundo: que nem tudo se decide pelo martelo de um juiz, que nem toda disputa encontra veredicto, que há verdades que não se conciliam, mas que insistem em coexistir, que a vida, apesar de tudo, insiste em dançar sobre essa lâmina.
Mas é claro que dançar sobre lâminas cobra o preço do sangue, e é por isso que o solo desta terra está sempre manchado, ora visível nas manchetes que contam os mortos, ora invisível nos silêncios acumulados de uma geração à outra. Cada criança que nasce aqui é de imediato convocada a carregar não apenas o peso do próprio corpo, mas também a herança de um conflito que não escolheu, e a infância se torna campo de treinamento da memória: de um lado, os nomes dos guetos, as marchas forçadas, as valas comuns, as guerras que marcaram a sobrevivência de Israel; do outro, as casas demolidas, os registros de terra negados, os campos de refugiados onde crianças crescem olhando para além das cercas. O leite materno já carrega uma narrativa, e a escola apenas confirma que o destino não é folha em branco.
A antinomia não pode ser negociada em Oslo nem dissolvida em Camp David, não desaparecerá em discursos nas Nações Unidas, porque não está apenas no papel assinado ou rasgado, está no íntimo, no sangue herdado, no modo como cada um aprende a pronunciar a palavra nós e a palavra eles. E é por isso que, quando o mundo exige soluções rápidas, como se bastasse traçar linhas num mapa, a realidade responde com fracasso, porque não se trata de linhas, trata-se de identidades inteiras que se recusam a ser trocadas como peças de um tabuleiro.
E no entanto, ainda assim, a vida insiste: mercados abrem, trabalhadores atravessam postos de controle, médicos cuidam dos feridos sem perguntar sua origem, amantes se encontram em segredo como se pudessem inventar uma geografia oculta, uma pátria feita de dois corpos que se tocam. A antinomia, insolúvel, não impede que surjam pequenas interrupções de humanidade, quase clandestinas, mas reais, e talvez nelas resida a única forma de não sucumbir ao cansaço dos séculos.
Kant, diante de suas antinomias, aceitava o limite da razão como prova de que o pensamento humano não alcança o absoluto; aqui, o limite não é apenas da razão, é da política, da justiça, da fé numa reconciliação definitiva. O que se pode alcançar não é uma solução, mas a convivência com o insolúvel, e isso exige coragem maior do que a de vencer guerras, porque não há bandeira da vitória, há apenas a consciência de que ambos sobrevivem não porque se reconciliaram, mas porque nenhum conseguiu apagar o outro.
Talvez um dia a humanidade aprenda que a verdade pode ter mais de um rosto e que viver não é escolher entre eles, mas aceitar que todos permaneçam à mesa. Até lá, esta terra seguirá como o mais cruel laboratório da filosofia, lembrando-nos de que existem contradições que se resolvem e existem antinomias que apenas se suportam. E a pergunta que resta, a única que nos cabe repetir, é se seremos capazes de suportar essa ferida sem nos acostumarmos a ela, se poderemos permanecer humanos dentro daquilo que, por definição, não tem solução.
Vinícius de Moraes precisava de um pouco de solidão. Pegou o bonde e saltou numa rua de terra batida, com poucas casas e iluminação precária. Era a Ipanema dos anos 40 e o barulho do mar bailava uma valsa com a sombra trêmula e os pensamentos longínquos do poetinha.
Perto de um casarão, ouviu o som de um piano. Alguém o dedilhava com a hesitação dos principiantes. No silêncio da noite, os dó-ré-mi competiam com o canto dos grilos. O poeta sorriu e naquela paisagem quase rural vieram as primeiras palavras que comporiam A espantosa Ode a São Francisco de Assis. “Tudo é magia! Lembras-te? o silêncio fantástico das noites/E a alma bêbada de emoção? e nenhum pouso”.
A trilha sonora do Menino incluía poucos pianos. Famílias de classe média baixa sequer tinham espaço em casa para alojar o instrumento. Os tios paternos foram exceção. Arrumaram um jeito de acomodá-lo e deram-lhe o uso tradicional para as “moças prendadas”. Estas deveriam saber cozinhar, costurar, administrar a casa, sufocar a sexualidade e, como atração da companhia, tocar algum instrumento musical. Viravam, assim, bons partidos nos campeonatos amorosos. Minha prima aprendeu a tocá-lo e aproveitou para transgredir o destino. Certo, aprimorou o gosto musical, mas também tornou-se professora, conquistou independências.
Portátil, o acordeon sentou praça na minha casa. Não para mim, mas para a Irmã. Com método Mario Mascarenhas na veia, deu algumas sanfonadas, mas não foi muito longe com o instrumento de segunda mão comprado a duras penas. Como será que morrem os instrumentos? Não conheço criança alguma que tenha aulas de acordeon, fantasma de fole que ressuscita apenas em época de festas juninas.
Quem frequentou cinema nos anos 50 e 60 há de lembrar de Adelaide Chiozzo. Era acordeonista e atriz nas chanchadas da Atlântida. Depois da introdução com a imagem de um imenso chafariz, vinham histórias com roteiro padrão: mocinho com muita Glostora no cabelo (em geral o Cyll Farney, ótimo baterista e boa pinta profissional; seu nome real era Cilênio Dutra e Silva) flertava com mocinha virginal (Eliana Macedo como poule de dez) e abatia José Lewgoy, o vilão preferencial de sotaque agauchado e sempre ingênuo. No meio de tudo, correrias e trapalhadas de Oscarito, Grande Otelo, Ankito, Zé Trindade, os irmãos Ema e Walter D’Ávila, Dercy Gonçalves. Muitos números musicais, para os quais o Menino torcia o nariz. Com um pouco de sorte, apareciam vedetes que faziam a imaginação e certas partes da Baixa Eslobóvia estremecerem (Norma Bengell, Carmem Verônica, Íris Bruzzi, Renata Fronzi). Foram uma espécie de ensaio geral do cinema brasileiro, com grande aceitação popular. Adelaide Chiozzo e seu acordeon eram habitués da coisa toda.
Hoje, os sons das ruas cariocas podem tudo, menos inspirar poemas e respeitar solidões. Ande-se nos bairros e é quase certo que haverá invasão de latidos de cães neuróticos, praga que não para de crescer, ao lado de outros decibéis homicidas. O número destes animais, especialmente os nanicos agitados, multiplicou-se com a pandemia e os donos são indiferentes à barulheira dos totós. Às vezes desconfio que, numa brincadeira do tempo e da geografia, Mussorgsky compôs Uma Noite no Monte Calvo inspirado nos descontroles da bicharada carioca. Os mesmos que me despertam sentimentos inconfessáveis. Au, au, é uma ova!