Entre as manias que eu tenho, uma é gostar de papel velho. Muito velho de preferência. Na trilha dos Cavalcanti, mania é coisa que a gente tem mas não sabe por quê. Já tentei entender. Será por causa do cheiro de passados, sempre a catar histórias que merecem relembramento? Talvez apego às consultas em dicionários e enciclopédias impressos, que quase nunca se restringiam ao vocábulo buscado e se desdobravam em novos territórios? Sei lá. As pilhas de recortes de jornal antigo recusam-se a morrer e, obrigado a elas, me trazem inspirações.
Dia desses, esbarrei em reportagem publicada durante a pandemia sobre o ator Mario Frias, repelente secretário de Cultura do governo Bolsonaro. Ele fez parte do Esquadrão da Morte da Cultura, completado pelo goebbelsiano Roberto Alvim, Regina Pra Frente Brasil Duarte e Sérgio Salve a Escravidão Camargo, o inacreditável presidente racista da Fundação Palmares. Camargo referia-se aos militantes do movimento negro como “escória maldita”. Foi o “negro da corte”, escalado para mascarar o caráter profundamente preconceituoso da malta que lhe deu o pequeno poder.
A reportagem menciona também o comportamento apoplético do atorzinho medíocre nas dependências da secretaria. Foi flagrado várias vezes aos gritos, ofendendo funcionários. O distinto andava armado pela Esplanada, reencarnando a palavra de ordem “Viva la muerte!” dos falangistas espanhóis em sua cruzada contra intelectuais e educadores. Como muitos de seus pares, Frias encarava a cultura como matéria de trabuco e chumbo grosso.
Por que exumo esta triste memória, que hoje parece tão longínqua? No início desta década, fomos abalroados por uma pandemia e um governo troglodita, que se orgulhava em dizer que veio para destruir. Os tempos eram tão ásperos, tão melancólicos, tão traumáticos, que muita gente boa proclamou que sairíamos do buraco para viver o extremo oposto. Acreditaram, alguns “previram”, que a espécie humana seria capaz de aprender com as hecatombes e rever conceitos, modos de vida, relacionamento com as diferenças. Ledo e ivo engano, como diria o Cony.
O que temos no cardápio de hoje? Na essência, nada mudou. O capitalismo triunfante, especialmente na variante financeira, continua a ser o que sempre foi: um sistema predatório, excludente, belicoso, arrogante. A riqueza produzida por centenas de milhões concentra-se nas mãos de poucos. Pela primeira vez, fruto da impiedosa destruição ambiental, há o risco concreto de extinção da espécie humana. O poder político é cada vez mais dependente de grupos econômicos monopolistas. O trabalho é cada vez mais exaustivo e repetitivo, às vezes fantasiado de “empreendedorismo”. Cresce o número de vítimas de doenças mentais, a solidão atinge níveis epidêmicos. Desaprendemos a ouvir os silêncios. A expectativa do aprendizado pelo desastre não se sustentou.
Um dos aspectos mais perversos desta imensa trituradora é a ilusão de progresso que mascara ambição, tramoias de bastidores e indiferença. Veja, por exemplo, o programa Reviver Centro, do Rio, apresentado por marqueteiros como recuperação da zona central da cidade, esvaziada principalmente pela pandemia. Do que se trata? Dois exemplos. O tradicional edifício A Noite, na praça Mauá, que sediou a rádio Nacional da era de ouro do rádio. Esvaziado, vai se transformar num cabeça de porco gourmet, com 477 apartamentos (!). Outro caso, agora na rua do Acre, envolve 153 apartamentos. Em nenhum deles os imóveis chegam a 50 metros quadrados (o mínimo não passa de 22).
Qual é a consequência destas iniciativas? Revitalizar uma região degradada? Não vejo como. A ideia é alugar os apartamentos em curtíssimas temporadas, estilo BNB. O resultado será criar não moradores, mas circunstantes, sem qualquer ligação orgânica com a área onde apenas estarão, sem ser. Moradores de verdade vivenciam o lugar onde moram, montando histórias, criando referências, fertilizando vizinhos. O centro tende a se transformar, pelo plano fantasioso, em dormitório sem personalidade, pastoso. Com grandes lucros para incorporadores, que terão sinal verde para, como contrapartida, explorar terrenos na zona sul.
Caberá às novas gerações decidir se naufraga junto com o imenso barco à deriva ou monta barricadas para resistir. Quem sabe lembrando uma bela passagem dos queridos Milton Nascimento e Ronaldo Bastos: Resistindo na boca da noite um gosto de sol.
Duas ou três vezes por ano exumo fragmentos de minhas raízes judaicas. Elas são parte de mim, que sou muitos. Prestes a começar o Ano Novo judaico, está na hora de convocar minhas memórias ligadas aos chamados Dias Terríveis, intervalo de 10 dias entre o Rosh Hashaná (início da celebração) e o IomQuipur (clímax do processo). Como judeu não praticante, elas fogem dos manuais e ritos que dão sentido religioso à passagem do tempo.
Um bom começo é a cena final da (ótima) série Shtisel. O ambiente da história é uma comunidade de judeus ultraortodoxos, que interpretam o judaísmo de forma rígida e com regras arcaicas. As mulheres, por exemplo, são periféricas naquele mundo, condenadas apenas à procriação, subservientes à tirania masculina. Não podem mostrar seus cabelos em público (usam perucas, o que lhes dá uniformidade artificial) e seu vestuário é controlado (as noções estéticas são radicalmente pudicas).
Um jovem começa uma rebelião silenciosa através do desenho. Artista talentoso, reproduz figuras humanas, o que é vedado pelos mantras religiosos. A tensão entre tradição e mudança percorre toda a narrativa.
Bem, na cena final estão sentados à mesa o jovem rebelde e seus pai e tio. A conversa corre tranquila. O pai diz que encontrou o livro de um herege, o judeu polonês Isaac Bashevis Singer (prêmio Nobel de literatura em 1978). De forma surpreendente, ele concede que Singer acertou numa passagem. O herege, enfim, podia ter razão. Que passagem era essa? Os mortos não vão a lugar nenhum. Todo mundo tem um cemitério interior e os mortos estão aqui o tempo todo. Ato contínuo, surgem em cena todos os personagens que morreram durante a história, servindo-se de pão preto, pepino azedo, arenque e outras maravilhas que me fazem levitar. Todos conversam amigavelmente. Os mortos, afinal, não estão esquecidos.
Meu fragmento judaico do Ano Novo são as memórias dos meus mortos. Muitos. Cada um deles me conta mundos, olhares sobre a vida, maltratos e estratégias de estar na família e fora dos guetos materiais e psicológicos. Alguns, e aqui seriam algumas, me servem banquetes inesquecíveis, gostos e aromas identitários. Até hoje, são insuperáveis na memória gustativa os vareniques, kreplach, borsht, yuach, guefilte fish, licor caseiro de uva preta, tsholent, kneidlach, holodets, strudel. Das cozinhas modestas saíam muito mais do que pratos de comida. Saíam afetos e a névoa calma do passado. Na mesa do Rosh Hashaná, sentia estes carinhos.
Meus mortos falavam pouco e, por serem tão econômicos nas palavras, não pude conhecê-los como mereciam. Sobraram muitas lacunas e um desejo irrealizável de preenchê-las. Maurício Rosencoff, uruguaio, tupamaro nos anos de chumbo, prisioneiro de ditadores, escreveu um pequeno livro primoroso: As cartas que não chegaram. À maneira de Rosencoff, muitas mensagens familiares não vieram. Hoje, teria perguntas que bastem a lhes fazer. Os mortos, tal como as rosas, não falam. Então, vivo a inventar respostas. A imaginação no poder.
Costumo brincar quando me perguntam que presente quero ganhar no aniversário. Digo que quero uma coisa bem simples. Paz de espírito. Como até hoje ninguém encontrou loja com estoque suficiente do produto, vou mudar minha ambição e a data da prenda. Como desejo de Ano Novo, quero lucidez e curiosidade para continuar o que Carlos Drummond de Andrade escreveu para o amigo Cyro dos Anjos em carta de 5 de junho de 1953: “É uma felicidade para esse momento em que nos sentimos conduzidos à criação literária”. Criar com as palavras, brincar com elas, prosear mesmo que o interlocutor não esteja presente. Presente de Ano Novo que não vou encomendar a ninguém. Eu mesmo vou providenciar.
Nesta véspera de 5786, olho para ele como a eterna peleja que sintetizo com passagens de dois grandes artistas. Belchior poetizou que “ainda somos os mesmos e vivemos como os nossos pais”. Milton Nascimento contra-atacou: “Sei que nada será como antes, amanhã”. Tradição e mudança. Inércia e ousadia. Velho e novo. Tevye e Perchik. Que cada um assuma seu papel no tablado e, à moda judaica, responda perguntas com novas e infinitas perguntas.
Em 2017, Luis Fernando Veríssimo foi entrevistado pelo Drauzio Varella. Lá pelas tantas, Veríssimo contou como foi seu início no jornalismo. Com mais de 30 anos e sem diploma universitário, não tinha a menor ideia do que fazer da vida quando foi contratado pelo jornal gaúcho Zero Hora. Lá fazia de tudo. Era copidesque (função cada vez mais exercida por máquinas), foi responsável efêmero pelo que o pessoal chamava de “editoria de frescura” (cultura, entretenimento, variedades) e, por breve tempo, assinou coluna de previsões astrológicas.
Previsões astrológicas, o Veríssimo? Pois é. Usava as generalidades típicas deste tipo de comédia, digo, leitura do céu. Com pequenas modificações entre os textos, preenchia os espacinhos dos doze signos. A rigor, todos iguais, suficientemente genéricos para vasculhar todas as probabilidades de futuro sem grandes compromissos com a realidade. Não imaginava que os devotos gostavam de ler o que diziam todos os signos. Pra quê, zabelê! Veríssimo acabou desmascarado e foi procurar sua turma em outro espaço do jornal. Deu no que deu. Ainda bem.
O gaúcho não foi o único a usar a imaginação para criar ilusões deliciosas na imprensa. Um certo Richard McPherson, jornalista, tinha o privilégio de entrevistar anualmente em dezembro Allan Richard Way, vidente indiano cego, que pressagiava os fatos mais importantes do ano seguinte. Dizia-se que previra os atentados que mataram alguns mandatários locais.
As previsões tinham suas particularidades. De acordo com Carlos Heitor Cony, Way “nunca dizia pão-pão, queijo-queijo. Ficava em alusões periféricas”. Detalhe que excitava crédulos era um aparelho chamado “siderômetro”, maravilha capaz de antecipar a data de morte de famosos e descolados de coturno variado. A revista Manchete publicou muitas páginas com as previsões do misterioso vidente cego, sempre no mês de janeiro (quando as redações morriam de tédio pela falta de assuntos retumbantes).
O detalhe, revelado por Cony muitos anos mais tarde, é que tanto McPherson como Way eram pura invenção dele. McPherson, aliás, era o nome do ponta-esquerda da seleção inglesa daquele tempo. Foi uma forma de mudar a chatice das previsões de fim de ano. Saiu do clichê “dos videntes profissionais, uns caras geralmente vestidos de branco, num cenário esotérico, alguns com um globo de luz fazendo a função da bola de cristal, outros jogando búzios, todos chutando com a seriedade de donos do futuro e das gentes”.
Ficando nos pampas gaúchos. Sou leitor bissexto da cronista Martha Medeiros. Tem boas ideias (embora descambe às vezes para a autoajuda), ajuda-me no ofício de caçador de palavras e de mim mesmo. Bati os olhos no texto da semana passada. Martha elogia a suposta função analgésica dos horóscopos (“só sendo muito cético e carrancudo para afirmar que essas informações não servem para nada”), defende que o índice de precisão das adivinhações é o de menos (“o que importa é que nunca trazem dor”) e destaca a necessidade de viver com ilusões (“estas informações despertam fantasias necessárias, que funcionam como antídoto contra nosso pessimismo”). Ai, meus sais! Quase caí da cadeira.
Ora, ora, vou ter que desaposentar minha coleção das amadas Historinhas Semanais, embalsamadas nos idos de 50. Nelas, confundia romanticamente realidade com magia. Aos sete anos de idade, era sadio, recomendável mesmo. Hoje, isso teria certamente outro nome, nada prestigioso.
Não quero aborrecê-los com meu ceticismo inoxidável, mas convido-os a um simples exercício. Morrem 180 mil pessoas por dia no mundo, 7.500 por hora, 125 por minuto. Vai tudo no pacote causal: febre terçã, tísica, espinhela caída, mal de amor, mau olhado, dispneia, bombardeio. Mortos, suponho, aderidos ao zodíaco, isto é, com destinos legíveis. Em algum horóscopo ou similar advertiu-se aquarianos e taurinos para a Morte iminente? Recomendou-se a capricornianos e arianos, numa semana específica, cautela com espinhas e sapos (engoli-los nunca fez bem à saúde)?
Pelo sim, pelo não, dei uma espiada na seção Horóscopo de hoje. Meu signo diz que “o verdadeiro carinho se reconhece nos detalhes do cotidiano e não nas promessas de eternidade”. Eu preferia que fosse “é no riso que mora o afeto mais sincero”. Melhor ainda “emoções surgirão como um véu entre você e o que lhe cerca”. Homessa! Não sei se dá para pedir à gerência que misture as platitudes ou, pelo menos, me permita interpor um embargo declaratório. Fiquei com uma dúvida: será que baixou no jornal o ectoplasma do Veríssimo foca e a coisa toda não passa de brinquedo maroto do Luis Fernando?
Era outubro de 1938. O rádio reinava entre os veículos de comunicação. Um jovem de 23 anos ocupa o microfone e transmite, com requintes teatrais, o que parecia ser uma invasão de marcianos. Pânico em arquibancadas e gerais. Ouvintes apavorados pulando nos carros e acelerando para lugares ermos, fora do alcance dos monstrinhos imaginários. Os mais atrevidos improvisaram barricadas e, armados, esperaram pelo pior. Foi um salve-se quem puder que nem te conto.
Tudo não passava de radioteatro. O locutor-ator era Orson “Cidadão Kane” Welles, interpretando na CBS uma versão livre do clássico Guerra dos mundos, de H. G. Wells. Orson, enfant terrible de sua geração, não era calouro nas ondas do rádio. Pouco antes do célebre barata voa de ficção científica, deu voz e alma ao personagem central da série policial The Shadow, de grande sucesso. Em 1943, a rádio Nacional, a inigualável PRE-8 da minha infância, chupou a ideia e lançou O Sombra, uma espécie de teatro de mistério. Saint-Clair Lopes interpretava, com voz sinistra, o personagem central.
Ficou célebre o bordão que anunciava o programa no rádio a válvula que embalava a imaginação dos ouvintes. “Quem sabe o mal que se esconde nos corações humanos? O Sombra sabe”. Sujeito de sorte. O mal não vem com copyright no berço. É camaleônico, multimídia, surpreendente. Um que aprendeu isso no lombo, literalmente, foi o Hitchcock.
No capítulo que dedicou a ele no livro Saudades do século XX (século, aliás, pródigo em males), Ruy Castro lembra o que o genial cineasta contou sobre sua infância: “Fui educado pelos padres. Com eles aprendi o medo”. Os jesuítas, escreve Ruy, o açoitavam com uma vara de guta-percha, tivesse cometido ou não o que eles classificavam como pecado. É bom lembrar que as crianças dificilmente saberão como se define um pecado e, no início do século passado, ultrapassar certas linhas dominadas pela religião podia resultar em chicotes, palmatórias e feridas psicológicas. Desconfio que mestre Alfred teria gostado, e se divertido, se as aves rebeldes da obra-prima Os pássaros tivessem arremetido contra os que tanto mal lhe causaram. Os sádicos provariam um pouco de seu veneno perverso.
Estou lendo o livro de reminiscências de uma autora argentina vanguardista do século passado. Em Cadernos da infância, Norah Lange menciona uma de suas quatro irmãs que, quando pequena, sofria de pilhérias humilhantes das manas. Nessas ocasiões, apelava para o que de mais subversivo seria numa tradicional família da época. Sem atinar com os motivos da maldade que a magoava, punha a culpa no Além e na Magia. Murmurava baixinho, mas peremptória: Deus é mau, Deus é mau… No lugar dela, acho que eu não diria diferente. Como é que uma entidade apresentada como poderosa, sábia e onipresente permitia tantas e tamanhas maldades, tantos e tamanhos sofrimentos? Onde estava o Sombra numa hora daquelas?
Os primeiros contatos do Menino com a religião também foram assustadores. Com a morte inesperada do Grande, foi escalado para dizer a oração dos mortos duas vezes por dia, durante ano inteiro. Sem pausas. Era possível não fazê-lo? Certamente, mas quem poderia assegurar que a transgressão não resultaria em pena severa? Quem saberia o que anda pela cabeça de um justiceiro tão implacável que levou à morte todos os primogênitos egípcios no episódio do Êxodo? Honestamente, nem o Sombra saberia traduzir tanta maldade. Pelo sim, pelo não, repeti 730 vezes a tal oração, cuja tradução do hebraico ninguém fez para mim. Sons de inconformismo e brutalidade. Medo, maldade, morte. Não há rima, nem solução.
Na sala de espera da fisioterapeuta, puxo conversa besta com uma mulher que também esperava atendimento. Depois de desfiar um novelo de identidades (“sou socialista, leio tudo sobre natureza, sou espiritualista”), garantiu fundamento científico para almas e espíritos. Bem, aí mexeu no meu calo de estimação. Disse-lhe que o Sol está em lento processo de extinção. Pode durar uns bilhões de anos, mas nossa estrela mater vai desaparecer e, com ela, todas as formas de vida na Terra. Neste momento fúnebre, para onde irão ectoplasmas e outras invisibilidades? Ela não se perturbou. Garantiu que “encarnaremos” em outros corpos celestes. Como não estaremos aqui para presenciar a metamorfose cósmica, posso apenas fazer um desejo: que o Sombra sobreviva nas futuras encarnações e ajude a entender o mal que se esconderá nos corações estelares.
Deixa eu te dizer uma coisa. Somos pouco menos de dezesseis milhões em um mundo com mais de oito bilhões. Eu fiz a conta e ela arde: 0,2%. Quase um sussurro. Junte quinhentas e vinte pessoas numa praça e deixe alguém gritar contra judeus; talvez uma — no máximo uma — seja de fato judia. O resto julgará um rosto que nunca encontrou, uma ausência promovida a evidência, uma cadeira vazia tratada como prova.
O ódio aprende a viver do que não vê. Em 2025 ele voltou com roupa nova e o mesmo cheiro velho: paredes marcadas ao amanhecer, portas arrombadas “para dar o recado”, ameaças disfarçadas de opinião, listas de “preocupações” que soam como listas de alvos. O coro se alimenta do vazio e chama o vazio de verdade.
Eu não sou o judeu que você esboça para acertar uma conta que não é minha. Não sou curiosidade de sala de estar. Não sou personagem achatado de série que confunde roteiro com história. Não vou vestir máscara para certificar coalizões nem para enfeitar causas. Minha identidade não é um selo kasher para uso político; minha fé não bate ponto em cartório de rezas. Ser judeu, para mim, é chão e fôlego — o que firma meus passos e enche meus pulmões.
Há um absurdo com o qual tive de conviver. Sou brasileiro e judeu, e desde 1975 convivo com o voto do meu país na ONU chamando o sionismo de racismo. Carreguei essa equação torta — sionista e brasileiro ao mesmo tempo — como se a pertença viesse com um veredito anexado. Poucos anos depois, fiz dezoito e fui convocado a servir à mesma ditadura que deu aquele voto. Pedi dispensa por dois motivos simples: eu passaria um ano em Israel e não serviria a um regime de farda. O tenente leu meu nome, ergueu os olhos e perguntou, afiado como lâmina: “Se houver guerra entre o Brasil e Israel, de que lado você fica?”. Respondi na hora: “Do lado que vencer”. A única resposta que desmontava o teatro; a pergunta queria confissão, não lealdade.
Eis o paradoxo para quem fica do lado de fora da porta: mesmo com a guerra, eu me sinto mais seguro em Israel. Eu não apoio esta guerra. Eu me oponho a ela e aos excessos cometidos em meu nome; quero que termine. Mas aqui eu não caminho com um tribunal invisível nos calcanhares. Aqui eu não sou julgado por ser judeu; aqui eu sou julgado por ser de esquerda. Embora a maioria das pessoas aqui seja judia, vivemos sob o jugo de um governo de vocação fascista — e o fascismo, onde se instala, precisa de ódio para se justificar, recicla o antissemitismo antigo e fabrica inimigos novos.
Eu tenho um lado. Ter lado não me rouba a capacidade de análise; obriga-me a exercê-la. Quando critico Israel, não é por ser um país judeu; critico Israel porque hoje é governado por quem flerta com o fascismo. Meu adversário é o fascismo, onde quer que se sente.
É a outra face da mesma moeda. Do lado de fora, sou condenado por ser judeu; do lado de dentro, por ser dissidente. O metal é o mesmo; só muda o cunho: reduzir gente a emblema, converter consciência em culpa automática, rebatizar o desacordo de traição. A moeda gira e, onde quer que caia, para quem vive de rótulos eu já nasci errado.
A responsabilidade tem endereço. Ela recai sobre o governo de Israel e sobre os políticos que escolheram a escalada. Não recai sobre os judeus espalhados pelo mundo — gente, não um monólito. Eu me oponho a quem governa o meu país quando escolhe a brutalidade, e permaneço judeu ao fazê-lo. Se você confunde pertença com obediência, bateu na porta errada. Não sou o selo da sua raiva, nem o álibi da sua consciência inquieta. Não sou o seu boneco.
O que eu guardo é a memória. A língua. Os meus mortos. E um juramento simples: não me calar. Recuso papéis distribuídos por conveniência. Não preciso que me expliquem quem eu sou. A pergunta circula pela sala, o eco fica. O resto é você — e o silêncio que decide o que fazer com isto.
O ano era 1962. Multidões saíram às ruas no Brasil para comemorar o bicampeonato mundial de futebol, no Chile. Parecia enterrado de vez o complexo de vira-lata, grudado na psique nacional com o Maracanazo. A Argélia derrotava o colonialismo francês, depois de uma guerra popular vitoriosa. O planeta estremecia com a chamada Crise dos Mísseis, episódio crítico da Guerra Fria gerado pelo inconformismo imperialista com a revolução cubana. Em Copacabana, um homem triste vê demolida a casa onde morou por 21 anos.
Carlos Drummond de Andrade, o itabirano que tinha o sentimento do mundo, comentaria mais tarde que vinte anos é um grande tempo, modela qualquer imagem. Sua casa, sua coleção de memórias e quereres, já não existia mais. Aquele pedacinho de terra na rua Joaquim Nabuco, tão seu, tão cheio de gavetas, poeiras, papeis amarrotados e fantasmas, estava para se transformar num desses prédios impessoais que desfiguram a cidade. Era a mancha do futuro distópico que se projetava.
Todos os dias encontro a estátua do poeta no vai-e-vem do calçadão atlântico. Lá está ele, no calmo bronze da eternidade, vendo as pedras portuguesas no caminho de tanta gente. Certa vez, lembrando da casa destruída, resolvi convidá-lo para prosear sobre perdas e danos, assunto pra mais de légua e meia. Dei-lhe um tapinha no ombro, ele espantou a preguiça metálica (com ar de nostalgia do ferro mineiro) e me acompanhou na caminhada rumo ao passado.
Carlos observou que nunca apreciou casas muito arrumadas. Chegou mesmo a escrever uma espécie de bula contra o excesso de zelo nos cômodos. Gostava de ver as cicatrizes do uso, marcas da vida que fluía entre assoalhos, azulejos, móveis, fogões. Lembrou-se do que escrevera: “Casa com vida é aquela que a gente arruma pra ficar com a cara da gente. Arrume sua casa todos os dias… Mas arrume de um jeito que lhe sobre tempo para viver nela… E reconhecer nela o seu lugar”.
Disse-lhe que podia compreendê-lo. Minha casa antiga não foi demolida, mas dela sobraram estilhaços de vidas sem conta. Muitas cicatrizes. Foram almoços dominicais com mameligue (angu à moda judaica, cortado com barbante) e lanches de pão com schmaltz (banha de galinha endurecida). Foi a olhada furtiva no buraco de uma fechadura, recolhida como se fora o oitavo pecado capital. Foi a travessura imperdoada, que convocou chinelo e ira. O pau comeu na casa de Noca!
A casa antiga não tinha fronteira definida. Ninguém disputava territórios, refugiados não havia. Da varanda modesta saía um glorioso campo de pelada, verdugo dos pés descalços e testemunha de craques que nunca brotaram. Do campo derivava um teatro de operações guerreiras alimentadas por índios de carnaval e soldados de chumbo. De tudo aquilo sobrou a sensação de que o tempo não foi perdido. Quase sem mover os lábios, Carlos sussurrou: O tempo perdido certamente não existe. É o casarão vazio e condenado.
Chegamos ao número 81 da rua Joaquim Nabuco. Do nada, lembrei de uma velha marchinha de carnaval, marotice permitida em tempos caretas: Menina vai, com jeito vai, senão um dia a casa cai. É, aquela caiu mesmo. Para meu espanto, o poeta ressuscitou um velho desenho animado, genial criação da dupla Hanna & Barbera: Os Jetsons. O ambiente esterilizado, esteiras rolantes no lugar de calçadas, nenhum espaço comum de convivência. Era assim que sentia as sobras da cidade que lhe roubara a casa em nome de um progresso monetizado e sem poesia.
Voltamos ao banco de pedra onde Carlos assiste a eternidade. Antes de reassumir a pose perene, tem tempo de me dizer: Menino, não passamos de caracóis pretensiosos. Carregamos nossas casas nas costas e tentamos habitá-las para dar um sentido qualquer ao lusco-fusco da vida. Obrigado pela lembrança e pela conversa.
Olhei em volta. O sol, exuberância cósmica, brilhava na paisagem de Copacabana. Coagulou na memória uma velha canção dos anos 60, House of rising sun. A letra é triste, mas a melodia e o título são perfeitos para o encontro com o itabirano. Voltarei a ele, e às nossas casas, nas esquinas do tempo.