Hoje as palavras soam como eufemismos covardes: açougueiros são chamados de governadores, e um massacre com 120 mortos em um só dia, de ‘operação policial’ (Sérgio Rodrigues)
Tinha muitos assuntos para comentar. Podia ser a proposta parlamentar de criação de uma bancada cristã no Congresso, mais um passo rumo ao neomedievalismo. Nada contra animar o debate sobre o suicídio de um adolescente na Flórida, fruto de relação tóxica com um chatbot. Seria também apropriado acompanhar a luta de Lô Borges contra a Morte, ele que, com uma rapaziada mineira, criou o Clube da Esquina, fonte de encantamento, Vida e inspiração. Forçado pelo surrado motivo de força maior, seguirei outro caminho.
Não posso ignorar os acontecimentos de 28 de outubro no Rio. Nasci, cresci e sempre vivi no Rio. Pertenço, de múltiplas formas, a esta cidade. Sempre foi uma relação agitada, intercalando amor e ódio. Minhas melhores relações pessoais e visuais, muitas já desaparecidas, têm digitais cariocas. O mesmo com as desafeições e frustrações. A carnificina em duas favelas, comandada pelo medíocre governador do Rio, filhote do bolsonarismo e gigolô da violência de classe, me toca de maneira particular. É o sangue da minha cidade que transborda para o luto de suas periferias abandonadas pelo poder público.
Vou deixar minha indignação comer solta. Certa vez, Rubem Braga, o Urso genial das crônicas, disse sobre o ato de escrever: “Imprudente ofício é este, viver em voz alta”. E lá vou eu beber nesta fonte. Duela a quién duela, à moda, vade retro, do Farsante das Alagoas.
Para quem tem longa quilometragem neste balneário, massacres, assassinatos hediondos, perseguições violentas, não são novidades. Alguém ainda se lembra do rio da Guarda? Era nele, nos anos 60, que policiais, dublês de juízes e membros honorários de pelotões de fuzilamento, desovavam mendigos assassinados por eles. “Limpeza” da cidade. A Scuderie Le Cocq, que atuou nas décadas de 60 a 80, foi talvez o primeiro grupo de extermínio conhecido na crônica policial. Um de seus integrantes tinha amplo espaço na televisão, cultuado como herói por uma parte da população. Um programa radiofônico sensacionalista diário dava palco, nos anos 60, à violenta Invernada de Olaria, conhecida pelo tratamento brutal que dava aos presos. Foi nas entranhas policiais corruptas que nasceram as milícias, que hoje dominam parte da cidade, tocando terror e diversificando atividades. Identificam-se, cinicamente, como grupos de “autodefesa” dos cidadãos.
Li opiniões sobre a operação policial que pariu mais de 100 cadáveres. Muitas delas tinham sangue nos caninos. É gente que não se importa com o espírito “justiceiro” da polícia, que aplica rotineiramente e sem escrúpulos a pena de morte quando os alvos são negros e pobres. A carne mais barata do mercado é a carne negra (Elza Soares). Comportam-se como súditos leais quando estão nos bairros abonados. Como disse o escritor e jornalista Sérgio Rodrigues: “Nossas elites sempre delegaram a instituições violentas, das milícias do Império às atuais polícias militares, a tarefa de lidar com a massa de despossuídos fermentada em séculos de escravidão”.
Sem política pública de segurança, sucessivos governadores do Rio organizam expedições armadas midiáticas contra as periferias da capital, sem qualquer efeito na organização e operação das facções criminosas. Basta lembrar da lista vergonhosa que antecedeu Cláudio Castro: Anthony Garotinho, Rosinha Garotinho, Sérgio Cabral, Pezão e Wilson Witzel. No feliz achado da Cora Rónai: “Isso não é lista de nomes. É maldição”. Complemento: eleitos pelos cidadãos…
Cadê a repressão à demanda de drogas que alimentam esta indústria da morte? Onde os setores de inteligência para asfixiar as fontes de recursos que financiam a compra de armas e drogas? As organizações criminosas expandiram-se para todos os estados, atuam em promiscuidade com policiais e outros agentes do Estado, participam da institucionalidade política. Tutti buona gente.
Lorpas e pascácios, excitados pelo vocabulário trumpista, apostam na solução por mudança de nomenclatura (sic). Sugerem chamar a bandidagem de terroristas. Pronto, eis a saída para o abacaxi. Bem, talvez seja a hora de ampliar o conceito de terrorismo. Quem subemprega, sonega impostos, paga salários obscenos, lava dinheiro em paraísos fiscais, superfatura alimentos, estaria enquadrado no rótulo. Afinal de contas, o resultado de suas ações é desespero, melancolia, dor e, no limite, morte. Um terror! Que tal avançar um pouquinho mais? Estados que patrocinam intervenções militares ou promovem guerras de extermínio, matando a rodo em ambos os casos, seriam, claramente e por motivos óbvios, terroristas. Seus representantes cairiam na mesma nomenclatura das facções criminosas. Resolvido? Pois sim…
Honestamente, não tenho esperança de reversão do quadro atual da segurança pública, ao menos no curto e médio prazos. Há tantas variáveis em jogo e tão pouca vontade política de enfrentar a encrenca que a perspectiva não é boa. Durma-se com um barulho desses. De helicópteros, gritos de dor e metralhas.
Não estava para conversa. Percebi de cara o mau humor e tentei puxar assunto. Sei que pré-adolescentes andam no fio da navalha, são início de projeto que ninguém sabe definir. Querem liberdade, mas a receiam igualmente. De qualquer forma, resolvi insistir. A neta valia o esforço.
Depois de alguma hesitação, abriu o baú. Os pais não permitiam que ela tivesse celular. Era a última da turma sem o aparelho, sentia-se discriminada e não tinha acesso a programas dos amigos que se comunicavam pelo zap. Entendi o drama. Argumentei que o assunto valia uma missa, digo, uma conversa com os pais. Avisei que conversar não garante nada a priori, mas permite conhecer os argumentos do interlocutor. Permite, também e sobretudo, quebrar gelos. De brinde, poderia perceber que adultos são dialogáveis. Não quis saber. A zanga criava uma blindagem de incomunicação.
Breque. Outro dia, estava ouvindo um comentário do Nelson Motta sobre celulares. Falou sobre o caráter hipnótico e diversionista dos aparelhos. Flagrava-se em redes sociais, deslizando o dedo indicador pela tela durante uma, duas horas. Para quê? Para porra nenhuma, bradou.
As reclamações continuaram. Queria andar sozinha pelas ruas, sem adultos na cola. Era o canto sedutor da liberdade, salve ela. Fui solidário a este desejo tão forte e humano, mas expliquei-lhe que a cidade anda perigosa, imprevisível, maliciosa, impiedosa. Disse-lhe que, na sua idade, o Menino ia sozinho para todo canto em bondes e lotações, gastava solas de Vulcabrás em direção à escola. Misturava-se, também sozinho, com multidões flamengas em domingos de Maracanã. Hoje, seriam atitudes quase temerárias. Outros tempos, outros medos.
Breque segundo. Praticamente um em cada cinco brasileiros mora em áreas com presença explícita de traficantes de drogas ou milicianos. A bandidagem está presente em todas as frestas sociais. Do clube de futebol às apostas eletrônicas, de empresas de ônibus a postos de gasolina. Não se surpreenda se o homem da carrocinha da Kibon ou o vendedor de pirulitos cônicos de açúcar queimado (ainda existem?) tiver vínculo com a barra pesada. É a realidade, que deixou de ser ficcional para ser faccional.
A neta não disse que queria mocotó, mas precisava de espaço só dela. Nuvem negra pairava naquela cabecinha em mutação. Viajei imediatamente para um quarto de porta fechada, sede da República Popular da Grumânia. Sob um pôster debochado do Robert Crumb, o Menino estava em plena fase de troca de pele. Ouvia um pouco do Schubert herdado do Grande (quase chorava com a Sinfonia Inacabada) e tremia com os solos de flauta do duende Ian Anderson no Jethro Tull. Era clássico e desvairado ao mesmo tempo, sem tendência clara. Era Woodstock, mas com terno e gravata. Sem diálogo com os da casa, comandava a orquestra em absoluta solidão, à qual parecia condenado. Tinha a impressão, qual Vinícius de Moraes nos primórdios, que estava destinado ao sofrimento. A vida tratou de, em ritmo de cágado, abrir a porta. Lá fora tinha dor, mas também algumas promessas de prazer.
A atual geração enfrenta turbulências existenciais semelhantes às da minha, mas sofre ameaças que desconhecemos lá atrás. Uma pesquisa recente mostrou que mais de 80% dos jovens entre 11 e 17 anos no mundo são insuficientemente ativos, gatilho para problemas de saúde na maturidade. Telas, altissonantes imperatrizes da modernidade, são sedutoras e induzem ao imobilismo. O Menino tinha vários campos de pelada à disposição. Da terra batida ao cimento áspero, éramos craques em movimento. Com bola de meia, plástico ou couro. Sem pagar pedágio para ninguém.
Na idade da neta, surgem encruzilhadas e demandas. Tudo fica em aberto, as aparências valem pouco. Quem vê (só) cara, não vê nada. Um célebre poema da polonesa Wislawa Szymborska refere-se a uma foto de Hitler ainda bebê. “E quem é essa gracinha de tiptop?/É o Adolfinho, filho do casal Hitler!/Será que vai se tornar um doutor em direito?/Ou um tenor da ópera de Viena?”. Depois de listar fofuras, ela conclui: “Não se ouve o ladrar dos cães nem os passos do destino”. Sabemos para onde foi aquele bebê. Não sei, ninguém sabe, aonde vão dar as escolhas da neta. Uma coisa, entretanto, posso garantir. Não economizarei saliva, nem palavras, para acompanhá-la na estrada que escolher. O que tenho de melhor para lhe oferecer está na frase final de uma música dos Beatles, Hey bulldog: “If you’re lonely, you can talk to me”.
Entre as manias que eu tenho, uma é gostar de papel velho. Muito velho de preferência. Na trilha dos Cavalcanti, mania é coisa que a gente tem mas não sabe por quê. Já tentei entender. Será por causa do cheiro de passados, sempre a catar histórias que merecem relembramento? Talvez apego às consultas em dicionários e enciclopédias impressos, que quase nunca se restringiam ao vocábulo buscado e se desdobravam em novos territórios? Sei lá. As pilhas de recortes de jornal antigo recusam-se a morrer e, obrigado a elas, me trazem inspirações.
Dia desses, esbarrei em reportagem publicada durante a pandemia sobre o ator Mario Frias, repelente secretário de Cultura do governo Bolsonaro. Ele fez parte do Esquadrão da Morte da Cultura, completado pelo goebbelsiano Roberto Alvim, Regina Pra Frente Brasil Duarte e Sérgio Salve a Escravidão Camargo, o inacreditável presidente racista da Fundação Palmares. Camargo referia-se aos militantes do movimento negro como “escória maldita”. Foi o “negro da corte”, escalado para mascarar o caráter profundamente preconceituoso da malta que lhe deu o pequeno poder.
A reportagem menciona também o comportamento apoplético do atorzinho medíocre nas dependências da secretaria. Foi flagrado várias vezes aos gritos, ofendendo funcionários. O distinto andava armado pela Esplanada, reencarnando a palavra de ordem “Viva la muerte!” dos falangistas espanhóis em sua cruzada contra intelectuais e educadores. Como muitos de seus pares, Frias encarava a cultura como matéria de trabuco e chumbo grosso.
Por que exumo esta triste memória, que hoje parece tão longínqua? No início desta década, fomos abalroados por uma pandemia e um governo troglodita, que se orgulhava em dizer que veio para destruir. Os tempos eram tão ásperos, tão melancólicos, tão traumáticos, que muita gente boa proclamou que sairíamos do buraco para viver o extremo oposto. Acreditaram, alguns “previram”, que a espécie humana seria capaz de aprender com as hecatombes e rever conceitos, modos de vida, relacionamento com as diferenças. Ledo e ivo engano, como diria o Cony.
O que temos no cardápio de hoje? Na essência, nada mudou. O capitalismo triunfante, especialmente na variante financeira, continua a ser o que sempre foi: um sistema predatório, excludente, belicoso, arrogante. A riqueza produzida por centenas de milhões concentra-se nas mãos de poucos. Pela primeira vez, fruto da impiedosa destruição ambiental, há o risco concreto de extinção da espécie humana. O poder político é cada vez mais dependente de grupos econômicos monopolistas. O trabalho é cada vez mais exaustivo e repetitivo, às vezes fantasiado de “empreendedorismo”. Cresce o número de vítimas de doenças mentais, a solidão atinge níveis epidêmicos. Desaprendemos a ouvir os silêncios. A expectativa do aprendizado pelo desastre não se sustentou.
Um dos aspectos mais perversos desta imensa trituradora é a ilusão de progresso que mascara ambição, tramoias de bastidores e indiferença. Veja, por exemplo, o programa Reviver Centro, do Rio, apresentado por marqueteiros como recuperação da zona central da cidade, esvaziada principalmente pela pandemia. Do que se trata? Dois exemplos. O tradicional edifício A Noite, na praça Mauá, que sediou a rádio Nacional da era de ouro do rádio. Esvaziado, vai se transformar num cabeça de porco gourmet, com 477 apartamentos (!). Outro caso, agora na rua do Acre, envolve 153 apartamentos. Em nenhum deles os imóveis chegam a 50 metros quadrados (o mínimo não passa de 22).
Qual é a consequência destas iniciativas? Revitalizar uma região degradada? Não vejo como. A ideia é alugar os apartamentos em curtíssimas temporadas, estilo BNB. O resultado será criar não moradores, mas circunstantes, sem qualquer ligação orgânica com a área onde apenas estarão, sem ser. Moradores de verdade vivenciam o lugar onde moram, montando histórias, criando referências, fertilizando vizinhos. O centro tende a se transformar, pelo plano fantasioso, em dormitório sem personalidade, pastoso. Com grandes lucros para incorporadores, que terão sinal verde para, como contrapartida, explorar terrenos na zona sul.
Caberá às novas gerações decidir se naufraga junto com o imenso barco à deriva ou monta barricadas para resistir. Quem sabe lembrando uma bela passagem dos queridos Milton Nascimento e Ronaldo Bastos: Resistindo na boca da noite um gosto de sol.
Duas ou três vezes por ano exumo fragmentos de minhas raízes judaicas. Elas são parte de mim, que sou muitos. Prestes a começar o Ano Novo judaico, está na hora de convocar minhas memórias ligadas aos chamados Dias Terríveis, intervalo de 10 dias entre o Rosh Hashaná (início da celebração) e o IomQuipur (clímax do processo). Como judeu não praticante, elas fogem dos manuais e ritos que dão sentido religioso à passagem do tempo.
Um bom começo é a cena final da (ótima) série Shtisel. O ambiente da história é uma comunidade de judeus ultraortodoxos, que interpretam o judaísmo de forma rígida e com regras arcaicas. As mulheres, por exemplo, são periféricas naquele mundo, condenadas apenas à procriação, subservientes à tirania masculina. Não podem mostrar seus cabelos em público (usam perucas, o que lhes dá uniformidade artificial) e seu vestuário é controlado (as noções estéticas são radicalmente pudicas).
Um jovem começa uma rebelião silenciosa através do desenho. Artista talentoso, reproduz figuras humanas, o que é vedado pelos mantras religiosos. A tensão entre tradição e mudança percorre toda a narrativa.
Bem, na cena final estão sentados à mesa o jovem rebelde e seus pai e tio. A conversa corre tranquila. O pai diz que encontrou o livro de um herege, o judeu polonês Isaac Bashevis Singer (prêmio Nobel de literatura em 1978). De forma surpreendente, ele concede que Singer acertou numa passagem. O herege, enfim, podia ter razão. Que passagem era essa? Os mortos não vão a lugar nenhum. Todo mundo tem um cemitério interior e os mortos estão aqui o tempo todo. Ato contínuo, surgem em cena todos os personagens que morreram durante a história, servindo-se de pão preto, pepino azedo, arenque e outras maravilhas que me fazem levitar. Todos conversam amigavelmente. Os mortos, afinal, não estão esquecidos.
Meu fragmento judaico do Ano Novo são as memórias dos meus mortos. Muitos. Cada um deles me conta mundos, olhares sobre a vida, maltratos e estratégias de estar na família e fora dos guetos materiais e psicológicos. Alguns, e aqui seriam algumas, me servem banquetes inesquecíveis, gostos e aromas identitários. Até hoje, são insuperáveis na memória gustativa os vareniques, kreplach, borsht, yuach, guefilte fish, licor caseiro de uva preta, tsholent, kneidlach, holodets, strudel. Das cozinhas modestas saíam muito mais do que pratos de comida. Saíam afetos e a névoa calma do passado. Na mesa do Rosh Hashaná, sentia estes carinhos.
Meus mortos falavam pouco e, por serem tão econômicos nas palavras, não pude conhecê-los como mereciam. Sobraram muitas lacunas e um desejo irrealizável de preenchê-las. Maurício Rosencoff, uruguaio, tupamaro nos anos de chumbo, prisioneiro de ditadores, escreveu um pequeno livro primoroso: As cartas que não chegaram. À maneira de Rosencoff, muitas mensagens familiares não vieram. Hoje, teria perguntas que bastem a lhes fazer. Os mortos, tal como as rosas, não falam. Então, vivo a inventar respostas. A imaginação no poder.
Costumo brincar quando me perguntam que presente quero ganhar no aniversário. Digo que quero uma coisa bem simples. Paz de espírito. Como até hoje ninguém encontrou loja com estoque suficiente do produto, vou mudar minha ambição e a data da prenda. Como desejo de Ano Novo, quero lucidez e curiosidade para continuar o que Carlos Drummond de Andrade escreveu para o amigo Cyro dos Anjos em carta de 5 de junho de 1953: “É uma felicidade para esse momento em que nos sentimos conduzidos à criação literária”. Criar com as palavras, brincar com elas, prosear mesmo que o interlocutor não esteja presente. Presente de Ano Novo que não vou encomendar a ninguém. Eu mesmo vou providenciar.
Nesta véspera de 5786, olho para ele como a eterna peleja que sintetizo com passagens de dois grandes artistas. Belchior poetizou que “ainda somos os mesmos e vivemos como os nossos pais”. Milton Nascimento contra-atacou: “Sei que nada será como antes, amanhã”. Tradição e mudança. Inércia e ousadia. Velho e novo. Tevye e Perchik. Que cada um assuma seu papel no tablado e, à moda judaica, responda perguntas com novas e infinitas perguntas.
Em 2017, Luis Fernando Veríssimo foi entrevistado pelo Drauzio Varella. Lá pelas tantas, Veríssimo contou como foi seu início no jornalismo. Com mais de 30 anos e sem diploma universitário, não tinha a menor ideia do que fazer da vida quando foi contratado pelo jornal gaúcho Zero Hora. Lá fazia de tudo. Era copidesque (função cada vez mais exercida por máquinas), foi responsável efêmero pelo que o pessoal chamava de “editoria de frescura” (cultura, entretenimento, variedades) e, por breve tempo, assinou coluna de previsões astrológicas.
Previsões astrológicas, o Veríssimo? Pois é. Usava as generalidades típicas deste tipo de comédia, digo, leitura do céu. Com pequenas modificações entre os textos, preenchia os espacinhos dos doze signos. A rigor, todos iguais, suficientemente genéricos para vasculhar todas as probabilidades de futuro sem grandes compromissos com a realidade. Não imaginava que os devotos gostavam de ler o que diziam todos os signos. Pra quê, zabelê! Veríssimo acabou desmascarado e foi procurar sua turma em outro espaço do jornal. Deu no que deu. Ainda bem.
O gaúcho não foi o único a usar a imaginação para criar ilusões deliciosas na imprensa. Um certo Richard McPherson, jornalista, tinha o privilégio de entrevistar anualmente em dezembro Allan Richard Way, vidente indiano cego, que pressagiava os fatos mais importantes do ano seguinte. Dizia-se que previra os atentados que mataram alguns mandatários locais.
As previsões tinham suas particularidades. De acordo com Carlos Heitor Cony, Way “nunca dizia pão-pão, queijo-queijo. Ficava em alusões periféricas”. Detalhe que excitava crédulos era um aparelho chamado “siderômetro”, maravilha capaz de antecipar a data de morte de famosos e descolados de coturno variado. A revista Manchete publicou muitas páginas com as previsões do misterioso vidente cego, sempre no mês de janeiro (quando as redações morriam de tédio pela falta de assuntos retumbantes).
O detalhe, revelado por Cony muitos anos mais tarde, é que tanto McPherson como Way eram pura invenção dele. McPherson, aliás, era o nome do ponta-esquerda da seleção inglesa daquele tempo. Foi uma forma de mudar a chatice das previsões de fim de ano. Saiu do clichê “dos videntes profissionais, uns caras geralmente vestidos de branco, num cenário esotérico, alguns com um globo de luz fazendo a função da bola de cristal, outros jogando búzios, todos chutando com a seriedade de donos do futuro e das gentes”.
Ficando nos pampas gaúchos. Sou leitor bissexto da cronista Martha Medeiros. Tem boas ideias (embora descambe às vezes para a autoajuda), ajuda-me no ofício de caçador de palavras e de mim mesmo. Bati os olhos no texto da semana passada. Martha elogia a suposta função analgésica dos horóscopos (“só sendo muito cético e carrancudo para afirmar que essas informações não servem para nada”), defende que o índice de precisão das adivinhações é o de menos (“o que importa é que nunca trazem dor”) e destaca a necessidade de viver com ilusões (“estas informações despertam fantasias necessárias, que funcionam como antídoto contra nosso pessimismo”). Ai, meus sais! Quase caí da cadeira.
Ora, ora, vou ter que desaposentar minha coleção das amadas Historinhas Semanais, embalsamadas nos idos de 50. Nelas, confundia romanticamente realidade com magia. Aos sete anos de idade, era sadio, recomendável mesmo. Hoje, isso teria certamente outro nome, nada prestigioso.
Não quero aborrecê-los com meu ceticismo inoxidável, mas convido-os a um simples exercício. Morrem 180 mil pessoas por dia no mundo, 7.500 por hora, 125 por minuto. Vai tudo no pacote causal: febre terçã, tísica, espinhela caída, mal de amor, mau olhado, dispneia, bombardeio. Mortos, suponho, aderidos ao zodíaco, isto é, com destinos legíveis. Em algum horóscopo ou similar advertiu-se aquarianos e taurinos para a Morte iminente? Recomendou-se a capricornianos e arianos, numa semana específica, cautela com espinhas e sapos (engoli-los nunca fez bem à saúde)?
Pelo sim, pelo não, dei uma espiada na seção Horóscopo de hoje. Meu signo diz que “o verdadeiro carinho se reconhece nos detalhes do cotidiano e não nas promessas de eternidade”. Eu preferia que fosse “é no riso que mora o afeto mais sincero”. Melhor ainda “emoções surgirão como um véu entre você e o que lhe cerca”. Homessa! Não sei se dá para pedir à gerência que misture as platitudes ou, pelo menos, me permita interpor um embargo declaratório. Fiquei com uma dúvida: será que baixou no jornal o ectoplasma do Veríssimo foca e a coisa toda não passa de brinquedo maroto do Luis Fernando?
Era outubro de 1938. O rádio reinava entre os veículos de comunicação. Um jovem de 23 anos ocupa o microfone e transmite, com requintes teatrais, o que parecia ser uma invasão de marcianos. Pânico em arquibancadas e gerais. Ouvintes apavorados pulando nos carros e acelerando para lugares ermos, fora do alcance dos monstrinhos imaginários. Os mais atrevidos improvisaram barricadas e, armados, esperaram pelo pior. Foi um salve-se quem puder que nem te conto.
Tudo não passava de radioteatro. O locutor-ator era Orson “Cidadão Kane” Welles, interpretando na CBS uma versão livre do clássico Guerra dos mundos, de H. G. Wells. Orson, enfant terrible de sua geração, não era calouro nas ondas do rádio. Pouco antes do célebre barata voa de ficção científica, deu voz e alma ao personagem central da série policial The Shadow, de grande sucesso. Em 1943, a rádio Nacional, a inigualável PRE-8 da minha infância, chupou a ideia e lançou O Sombra, uma espécie de teatro de mistério. Saint-Clair Lopes interpretava, com voz sinistra, o personagem central.
Ficou célebre o bordão que anunciava o programa no rádio a válvula que embalava a imaginação dos ouvintes. “Quem sabe o mal que se esconde nos corações humanos? O Sombra sabe”. Sujeito de sorte. O mal não vem com copyright no berço. É camaleônico, multimídia, surpreendente. Um que aprendeu isso no lombo, literalmente, foi o Hitchcock.
No capítulo que dedicou a ele no livro Saudades do século XX (século, aliás, pródigo em males), Ruy Castro lembra o que o genial cineasta contou sobre sua infância: “Fui educado pelos padres. Com eles aprendi o medo”. Os jesuítas, escreve Ruy, o açoitavam com uma vara de guta-percha, tivesse cometido ou não o que eles classificavam como pecado. É bom lembrar que as crianças dificilmente saberão como se define um pecado e, no início do século passado, ultrapassar certas linhas dominadas pela religião podia resultar em chicotes, palmatórias e feridas psicológicas. Desconfio que mestre Alfred teria gostado, e se divertido, se as aves rebeldes da obra-prima Os pássaros tivessem arremetido contra os que tanto mal lhe causaram. Os sádicos provariam um pouco de seu veneno perverso.
Estou lendo o livro de reminiscências de uma autora argentina vanguardista do século passado. Em Cadernos da infância, Norah Lange menciona uma de suas quatro irmãs que, quando pequena, sofria de pilhérias humilhantes das manas. Nessas ocasiões, apelava para o que de mais subversivo seria numa tradicional família da época. Sem atinar com os motivos da maldade que a magoava, punha a culpa no Além e na Magia. Murmurava baixinho, mas peremptória: Deus é mau, Deus é mau… No lugar dela, acho que eu não diria diferente. Como é que uma entidade apresentada como poderosa, sábia e onipresente permitia tantas e tamanhas maldades, tantos e tamanhos sofrimentos? Onde estava o Sombra numa hora daquelas?
Os primeiros contatos do Menino com a religião também foram assustadores. Com a morte inesperada do Grande, foi escalado para dizer a oração dos mortos duas vezes por dia, durante ano inteiro. Sem pausas. Era possível não fazê-lo? Certamente, mas quem poderia assegurar que a transgressão não resultaria em pena severa? Quem saberia o que anda pela cabeça de um justiceiro tão implacável que levou à morte todos os primogênitos egípcios no episódio do Êxodo? Honestamente, nem o Sombra saberia traduzir tanta maldade. Pelo sim, pelo não, repeti 730 vezes a tal oração, cuja tradução do hebraico ninguém fez para mim. Sons de inconformismo e brutalidade. Medo, maldade, morte. Não há rima, nem solução.
Na sala de espera da fisioterapeuta, puxo conversa besta com uma mulher que também esperava atendimento. Depois de desfiar um novelo de identidades (“sou socialista, leio tudo sobre natureza, sou espiritualista”), garantiu fundamento científico para almas e espíritos. Bem, aí mexeu no meu calo de estimação. Disse-lhe que o Sol está em lento processo de extinção. Pode durar uns bilhões de anos, mas nossa estrela mater vai desaparecer e, com ela, todas as formas de vida na Terra. Neste momento fúnebre, para onde irão ectoplasmas e outras invisibilidades? Ela não se perturbou. Garantiu que “encarnaremos” em outros corpos celestes. Como não estaremos aqui para presenciar a metamorfose cósmica, posso apenas fazer um desejo: que o Sombra sobreviva nas futuras encarnações e ajude a entender o mal que se esconderá nos corações estelares.