A última volta do ponteiro

A última volta do ponteiro

Tem peixe na rede! (Valdir Amaral, locutor esportivo)

Semana passada fiz um passeio por memórias sobre o rádio, cuja primeira transmissão no Brasil completou um século. Elas, no entanto, ficam mancas se eu ignorar o papel que as transmissões esportivas tiveram no meu imaginário futebolístico.

Nasci depois do Maracanazo, embora seja suavemente obcecado pelo gol de Alcides Ghiggia e a vitória da Celeste Olímpica na Copa de 1950. Li e ouvi muito sobre o jogo.  Cheguei a procurar, e encontrei, um livro que registrasse a sensação dos uruguaios depois daquela vitória imprevista (a obra-prima Los laberintos del caracter, do jornalista Franklin Morales). Uma partida de futebol que combinou excitação, euforia, soberba, drama, decepção, depressão, surpresa, e teve em Obdulio Varela, capitão da Celeste, o grande personagem. Tragédia para uns, celebração catártica para outros.

Naquela época, a transmissão dos jogos era dividida por dois locutores, cada um deles responsável por um dos tempos. Antônio Cordeiro e Jorge Curi narraram a final da Copa na rádio Nacional, e coube a Curi descrever, no segundo tempo, o lance que terminou com o gol de Ghiggia, num chute rasteiro, meio sem ângulo, que surpreendeu o goleiro Barbosa. O arqueiro virou bode expiatório da derrota, numa condenação pública que o acompanhou por décadas. “Sou o único brasileiro condenado a prisão perpétua”, revoltava-se, melancólico, Barbosa.

Não conheci as transmissões de Antônio Cordeiro e Ary Barroso, mas não faltam histórias sobre elas. Ary, por exemplo, flamenguista fanático, tocava uma gaitinha quando narrava um gol. Dizem que inventou esse expediente porque, em seu tempo, não existia cabine com isolamento acústico. Ele ficava praticamente no meio da torcida durante a narração. Quando alguém marcava um gol, a algazarra era tamanha que os ouvintes não entendiam o que estava acontecendo. A gaitinha foi o jeito de associar som e fato. Ficou famoso pela parcialidade das transmissões. Cada vez que um jogador adversário do time rubro-negro atacava com perigo, Ary lascava: “Ih, não quero nem ver!”.

O primeiro locutor que acompanhei foi Oduvaldo Cozzi. Elegante, com vocabulário rico, culto, incapaz dos ataques histéricos dos profissionais medíocres de hoje. Não consigo imaginá-lo sem terno e gravata, comprometido que estava apenas com o respeito aos ouvintes e à narração fidedigna dos jogos.

Meu time de locutores se completa com Doalcei Bueno de Camargo, Orlando Batista (único negro destacado nessa área), Jorge Curi (de fôlego infinito) e Valdir Amaral. Valdir criou bordões inesquecíveis, um deles imagem poética do estádio em fim de jogo: “Está deserto e adormecido o gigante do Maracanã”. Quem foi ao Maracanã quando havia arquibancadas, sabe a força dessa descrição, especialmente quando seu time perdia. A noite caía triste e a solidão da derrota nos acompanhava, rascante, na volta para casa. Ao lado deles, a voz, o temperamento e a coragem do João Saldanha, comentarista sem rabo preso, grande contador de causos e conhecedor dos subterrâneos do futebol. Como fundo musical, o jingle: “Quem gosta de cerveja, bate o pé, reclama, quero Brahma, quero Brahma!”.

Nem tudo eram flores. Existiu um elemento, Mário Vianna, ex-juiz de futebol, que virou comentarista de arbitragens. Truculento, ignorante e, para adornar o bolo, racista. Duas histórias. Na Copa de 1954, na Suíça, o Brasil perdeu da Hungria, que o Nelson Rodrigues considerava a melhor seleção de todos os tempos. Houve um tremendo sururu quando o jogo terminou, envolvendo os 22 jogadores. Mário Vianna invadiu o gramado e, espumando, gritou que o juiz inglês era cúmplice de um “complô comunista” contra o Brasil. Foi Bolsonaro antes do Jair. Curiosamente, soube-se que o árbitro era realmente filiado a um partido político. Só que ao Conservador… De outra feita, ofendeu um juiz israelense, regurgitando que “além de judeu, era ladrão”. Sempre que sua imagem colérica me aparece na memória, lembro do personagem Carlos Vou Dar Porrada Maçaranduba, da turma do Casseta & Planeta.

Bem, está na hora de desligar o radinho Spika, que me acompanhava no cimento agregador do Maracanã. Velho hábito de geraldinos e arquibaldos, registrado pelas câmeras memoráveis do Canal 100 e que já deve estar extinto. Por artes da feitiçaria do tempo, ouço ao longe o toque de silêncio do Edifício balança mas não cai e, sob o patrocínio dos meus afetos e saudades, convido todos para a leitura da semana que vem.

Abraço. E coragem.

Senhoras e senhores ouvintes

Senhoras e senhores ouvintes

Esse programa pertence a vocês! (da música que introduzia o programa César de Alencar, na rádio Nacional)

O bloco pesado de ferro fundido, cercado de botões, pinos e um mostrador esverdeado, jazia na cômoda. Originalmente destinado a radioamadores, não era o rei da voz mas imperava naquela casa de sentimentos muitos e recursos poucos. O rádio da família acordava com válvulas que incandesciam. Sintonizar as estações era uma competição contra chiados e invasões de ondas sonoras misteriosas, o treino nos fazia ganhar sensibilidade nos dedos. Senhoras e senhores ouvintes… A primeira transmissão de rádio no Brasil acaba de completar um século e meu Halicrafters, do alto de seus oitenta e tantos anos e restaurado, é uma testemunha ocular/afetiva dessa história. Com ele, imaginei personagens, descobri músicas, ri de manducas, tancredos e trancados, marquei golaços com pernas alheias, perguntei ao João.

Rádio sempre foi, sobretudo, território da imaginação. Não à toa, as bancas de jornais dos anos 50 vendiam um semanário, a Revista do Rádio, com reportagens e fotos de cantores, atores, locutores. As vozes, então, revelavam corpos. Aqui, nessa penteadeira chipandelle, me faço bonita, dizia sorridente a cantora Favorita dos Marinheiros, aproveitando para fazer merchandising do Leite de Rosas, o preparado que dá it. A falsa rival, Favorita da Aeronáutica, exibia o sumiê onde fazia as siestas, sem deixar de lado o talco Cashmere Bouquet, perfume de prazer. E a Candinha escancarava os bastidores, mexeriqueira, hein? O jingle, cantado pela Linda Batista, ou seria pela Dircinha?, reforçava: Revista do Rádio,/ que toda semana eu espero/Revista do Rádio/Ei, jornaleiro/é essa que eu quero.

O Menino não era chegado às novelas, mas elas reverberavam forte na atmosfera da vila. Audiência maciça. Caso famoso foi O direito de nascer, dramalhão que foi ao ar durante inacreditáveis três anos. Época em que bebês sem conta acabaram registrados como Albertinho Limonta, figura central da trama. A turma da fuzarca logo apelidou a coisa como O direito de encher. Tempos ingênuos.

E os reclames? Sem os recursos visuais que a TV trouxe mais tarde, a criatividade gerou pequenas obras-primas para vender de tudo. São jingles e slogans que atravessam gerações. Se a lâmpada queimar, não adianta reclamar nem bater o pé, o que resolve é ter sempre à mão lâmpadas GE. Melhoral, Melhoral, é melhor e não faz mal. Fimatosan, melhor não tem, é o amigo que lhe convém. Colírio? Moura Brasil!! Ele era meu chefe… hoje é meu marido, eu passei a usar Cilion. A Casa Garson só vende o que é bom. Pílulas de vida do doutor Ross, fazem bem ao fígado de todos nós. Se a criança acordou, dorme, dorme, menina, tudo calmo ficou, mamãe tem Auris Cedina. Brylcreem, apenas um pouquinho, Brylcreem, você irá brilhar, Brylcreem, é o melhor caminho, para mil pequenas conquistar. Dura lex, sed Lex, no cabelo só Gumex.

As rádios faziam dobradinha com as chanchadas da Atlântida quando o assunto era carnaval. Lá por dezembro, as chanchadas começavam a caitituar marchinhas, para gravar na memória dos foliões, e as rádios encaixavam tudo nos programas de auditório. Fanzoca do rádio, gravada em 1958 pelo palhaço Carequinha, desenha bem o sincretismo (com minhas escusas pela letra “inadequada” para os dias de hoje): Ela é fã da Emilinha/Não sai do César de Alencar/Grita o nome do Cauby/E depois de desmaiar/Pega a Revista do Rádio/E começa a se abanar/É uma faixa aqui, outra faixa ali/O dia inteirinho ela não faz nada/Enquanto isso na minha casa/Ninguém arranja uma empregada.

Avançando um pouco no tempo, viajo até a rádio Jornal do Brasil, que, nos anos 1970, trazia Sessenta minutos de música contemporânea. Ali, fomos apresentados aos grandes grupos do rock progressivo. Blood, Sweat and Tears e Emerson, Lake and Palmer na veia.

Ao terceiro sinal… Os veteranos lembrarão que assim começava a locução da hora certa na Rádio Relógio. Entre duas delas, algumas pílulas, digamos, culturais dignas do Almanaque Capivarol. Essa programação inspirou a criação do personagem Sandoval Quaresma, vivido pelo Brandão Filho, na Escolinha do Professor Raimundo. Sandoval vivia grudado na Rádio Relógio, decorava as gotas de cultura inútil, mas era incapaz de ir além de nomes e datas. Decoreba profissional. Brandão, para quem não lembra, fazia o Primo Pobre noutro programa antológico do rádio, o Balança mas não cai. O Primo Rico, ora vejam só, ficava por conta do Paulo Gracindo.

Não sou filho ingrato. Permaneço fiel ao rádio, embora a poucas estações FM. O dial fica estático na programação clássica e de jazz da MEC, que anda com acervo bem pobrezinho, vítima provável da firma de demolição que administra o país. Por falar nessa malta, convoco o Samuel Correia, da estridente Patrulha da Cidade na velha rádio Tupi. Quantos de nós não gostariam de, à moda do Samuca, algemar o chefe da quadrilha, fichá-lo por vadiagem e trancá-lo na gaiola insalubre da Invernada de Olaria? E corta pros nossos comerciais.

Abraço. E coragem.

Ela

Ela

A saudade é o que ficou do que nunca fomos (Mia Couto)

Ela estava ali, quase ao lado, mas não me via. Uma vez por ano, eu a percebia no jantar de Pessach, liturgia que reunia um pedaço da família em torno de aromas, sabores e memórias. Antes da comilança restauradora, formavam-se grupos separados de homens e mulheres. O Menino, com os primeiros pelos e espinhas no rosto, acompanhava conversas acaloradas dos adultos sobre futebol. Assunto “de homem”. Quarentinha, atacante de pernas finas que jogava no Botafogo, era presença obrigatória. Jamais comemorava os gols que fazia e, por isso, ficou conhecido como “o artilheiro que não sorria”. A alma rubro-negra não entendia muito bem aquela adoração alvinegra. Certo, eles tinham o Quarentinha, mas a gente tinha o Aírton Beleza…

A uma distância prudente, o adolescente em construção flagrava um quê de tristeza no olhar dela. Talvez fosse apenas projeção das expressões severas tão comuns nos adultos ao redor. Talvez, quem sabe, espelhasse uma nuvem passageira no rosto bonito. Enigma que o tempo congelou.

Na casa do Grajaú habitavam, aos empurrões, sentimentos contrastantes. Era espaço de acolhimento, quietudes e espantos sempre em busca de equilíbrio. Equilíbrio tão difícil no mundo lá fora. A mesa que celebrava uma história de liberdade sugeria, sobretudo, o abraço frugal, afetuoso, tão desejado, que a rotina negava. Havia, no entanto, ausências. E não eram poucas. Metade da família nunca estava lá. Por que?

A fratura que sobrevoava a mesa farta ficou exposta quando o coração do Grande fez uma falseta e ele saiu de cena. O abraço disse adeus e foi-se embora. Abriram-se vazios dolorosos e o Menino não tornou a encontrá-la.

Décadas depois, a casa do Grajaú já demolida, meus caminhos deram uma pirueta e reencontrei aquelas raízes. Não falo dos espectros que sempre ocupam os espaços das ausências não desejadas. Procurei os sobreviventes da mesa seminal. Não eram muitos e, na maioria dos casos, o contato foi desapontador. O tempo comum não vivido foi implacável. Confirmou uma velha constatação. Se você chupar um picolé de abacaxi hoje, mesmo que ele tenha as mesmas marca e receita daquele que você conheceu infante, o sabor jamais será o mesmo do antigo. Faltará a ele o paladar da memória afetiva. O mais saboroso será, sempre e indiscutivelmente, o das antigas.

Ela já não vivia. Pensei que era um caso perdido, não haveria como descobrir por quais estradas transitara o quê de suave tristeza. A nuvem intuída se desfez? Entrou em campo o acaso.

Com o precioso auxílio de uma ferramenta virtual, acabei chegando ao viúvo dela. De alguma forma, inesperada, recuperamos a intimidade que hibernava numa esquina do tempo. E então descobri.

Ela se revelou desbravadora. Desafiando o padrão machista da família, saiu do rótulo “prendas domésticas” e ganhou asas. Foi jornalista, artista plástica respeitada, escreveu poesias, formou-se em psicologia. Transformou a inquietação – seria esta a nuvem que percebi numa noite remota no Grajaú? – em invenção e elaboração poética. Combinou muitas personas, que traduziu muito bem num pequeno poema: De repente/silenciei./Ou será/que este/não é o meu silêncio,/é o silêncio do Outro?

A sensação de tristeza descongela. Inventou-se o sorriso.

Faz 33 anos que se foi. Ela era Mirinha. Miriam Blanck Sambursky. Minha prima.

Abraço. E coragem.

Nadando entre piranhas

Nadando entre piranhas

Foi meu primeiro estágio pra valer. Já nos estertores do curso de engenharia química, passei por um processo seletivo light e caí de paraquedas numa firma de projetos de engenharia. Passada a excitação da novidade, veio o estranhamento. Profundo, decepcionante. A rotina lembrava cenas chaplinianas em Tempos modernos, o homem como apêndice indefeso do processo de produção. Vigiado, destituído de vontade própria, neurotizado.

O lugar todo parecia um grande aquário. Divisórias transparentes, impossibilitando qualquer privacidade. A sensação, angustiante. Um pesadelo orwelliano. Vou dar um exemplo do comportamento capataz. O intervalo para almoço começava pouco antes do meio-dia. Eu corria para um restaurante modesto, onde se comia sentado em tamboretes. O prato de resistência era o Chicken pie de frango(!). Assim mesmo no cardápio. Engolido às pressas, hora de voltar para o aquário, a tempo, achava eu, de folhear um jornal até as 13 horas. Não demorou muito e o chefe do setor me chamou. O olho do Big Brother não falhava. Faça o favor de largar o jornal às 12:45 horas, disse, é o início do expediente da tarde. Involuntariamente, eu me apropriava de um tempo que pertencia aos patrões. La vida es eterna/En cinco minutos/Suena la sirena/De vuelta al trabajo, poetou Victor Jara. Quinze minutos, três vidas. Aonde a mais-valia foi parar, seu Valdemar?

As atividades eram controladas diariamente. Cada robô, digo, trabalhador, era obrigado a fazer um relatório diário, especificando, com minúcia, o que havia feito. Em nome de uma engorda no currículo, aguentei a situação por meio ano. Ao sair do aquário pela última vez, nem olhei para trás. Sardinha não tem saudade dos tubarões. Mal sabia eu que o próximo passo seria na direção de um empresário picareta, arrogante, montado em esquemas para se apropriar de recursos públicos. Mas isso já é outra história.

Essas lembranças quase apagadas, gravadas em preto e branco, vieram à tona depois da divulgação de matéria do New York Times, sobre monitoramento de trabalhadores (colaboradores é o cacete!) em escritórios. Logo na introdução, o jornalista observa que “desde o surgimento dos escritórios modernos, os trabalhadores orquestram suas ações observando o relógio. Agora, cada vez mais, o relógio os observa”. Bem, não se trata exatamente do relógio. Em número crescente, funcionários, em trabalho remoto ou ao vivo, estão sujeitos a rastreadores. Quem o dispositivo flagrar desconectado do computador está sujeito a corte de salário ou, no limite, a perda do emprego.

Trabalhadora de uma grande multinacional contou que “enquanto o rastreador estava ligado, não podíamos escolher o momento de ir ao banheiro ou tomar um café”. Se o funcionário estiver apenas pensando (apenas?) no momento em que é monitorado, isso é interpretado como tempo ocioso e descontado do salário.

Na transição histórica entre trabalho artesanal e produção industrial, o trabalhador perdeu o controle não apenas dos meios de produção, mas do tempo dedicado ao processo produtivo. Sua habilidade manual foi transferida para as tarefas repetitivas das máquinas, seu tempo passava a pertencer ao capitalista. Com o aperfeiçoamento das máquinas e a sofisticação do mundo digital, os controles estão cada vez mais severos. O grau de liberdade de quem trabalha desidrata. O sonho de consumo do capital é tornar o homem-trabalhador obsoleto, substituído por geringonças que controlam cada detalhe da vida e não reclamam de sobrecargas variadas.

Sem surpresa, começam a aparecer os primeiros sinais de que máquinas podem aprender, isto é, ganhar “personalidade”, expressar desejos, criar com autonomia. Já existe um programa de computador que aprendeu a jogar Go, um jogo chinês de aparência simples, mas de desenvolvimento complexo. Não só ficou imbatível, como transitou para o xadrez e outros jogos, nos quais vence qualquer humano. Existem algoritmos que compõem músicas adaptadas a estilos diferentes. Não sei a qualidade destas composições, mas a perspectiva é de que elas ganhem sonoridades e soluções técnicas cada vez mais indistinguíveis das elaboradas pelo Homo sapiens. O horizonte de tudo isso, inclusive com a fusão de biologia e máquinas, corpo e mecanismos, é improjetável.

O aquário onde nadei aflito na alvorada profissional é um pequeno Éden comparado ao que vem por aí.

Abraço. E coragem.

Ainda o espectro liberal

Ainda o espectro liberal

Grande parte das dificuldades pelas quais passa o mundo tem uma explicação: os ignorantes são taxativos e os inteligentes, cheios de dúvidas (Bertrand Russell)

Parece que os liberais andam perturbando meu sono. Semana passada, num esforço de reportagem, dialoguei nesse espaço com um ilustre membro brasileiro da tribo dos que falam em liberdades abstratas e mercados livres, leves, soltos e agenciadores do que seria o melhor em organização social. Hoje, confesso que levemente entediado, volto ao tema.

Mario Vargas Llosa não é qualquer um. Ganhador de um prêmio Nobel de literatura, o peruano tem vasto cartel de livros publicados. Não tenho como avaliar-lhe a obra, da qual conheço pouquíssimo. Outro Mario, o Benedetti, uruguaio que admiro e respeito, considerava Llosa um bom escritor e merece ser lido. Acompanho o relator. O caldo engrossa, no entanto, quando o peruano sai da ficção e cacareja sobre política e seus personagens.

Ao longo dos anos, Llosa, atracado no credo liberal, derramou elogios a Reagan, Thatcher e, recentemente, José Antonio Kast, candidato pinochetista à presidência do Chile. A ele jamais importou o caráter autoritário/ditatorial de um dirigente, desde que não mexesse na liberdade de movimento do capital e nas leis sagradas da propriedade privada dos meios de produção. Até aí, acompanhávamos, nauseados mas à distância, os maus rumos de um intelectual. Não mexia no nosso quintal. Até que…

Em meados deste mês, a Folha de S. Paulo publicou extensa entrevista com Llosa. Provocado pelo entrevistador, ele falou sobre conjuntura política brasileira. Concedendo apenas que não tem simpatia por Bolsonaro e criticando a postura negacionista do presidente sobre vacinas, não deixa dúvidas de que votaria na Peste se o adversário fosse Lula. “Tem uma certa vocação para palhaçada”, “É um palhaço no fundo”, “Não é muito sério”, comentou sobre o Salnorabo, como se as “palhaçadas” não tivessem consequências, como se elas fossem meras irreverências juvenis, inofensivas e, no limite, perdoáveis e dignas de simpatia. Quase um maluco beleza, garoto levado mas adorável.

Na primeira leitura, associei “palhaçadas” com doces personagens do Menino. Carequinha, Arrelia e, numa expansão do conceito, Oscarito. Imagens que rapidamente se dissiparam, substituídas por Pennywise, sinistro palhaço de It, e o Coringa psicopata, interpretado pelo Heath Ledger. Destes, só se pode esperar violência extrema, desprezo absoluto por regras elementares de convivência, pesadelos mórbidos.

Sabemos muito bem, e não pela boca de um intelectual fundamentalista, o que significa o Palhaço Vociferante de Brasília. Numa América Latina manchada pelo sangue dos povos originários, herdeira de colonos genocidas, o governo brasileiro favorece a ação ilegal de garimpeiros em terras indígenas. Uma antropóloga relata o clima de tensão nas áreas onde vivem os indígenas: “A violência relembra os períodos em que os índios eram caçados por bugreiros, bandeirantes e escravagistas”. Na cultura e na educação, no respeito às opções sexuais, no direito a não morrer de fome e de desalento, no armamento descontrolado de setores da população, tudo é de uma devastação estarrecedora. A República afunda num mar de vulgaridades, mentira e cinismo, o prêmio Nobel só consegue enxergar gargalhadas.

As sandices de Llosa vêm de longe. Já na década de 1980, ele acusou os intelectuais de Terceiro Mundo (expressão hoje em desuso, mas comum na época) e sobretudo da América Latina de serem “elementos fundamentais do subdesenvolvimento (…) Propagadores de estereótipos, obstruem qualquer possibilidade de criação de novas formas de libertação”. Mereceu uma resposta irônica do seu xará Benedetti: “Sabemos agora que o subdesenvolvimento não é uma consequência do imperialismo, nem das intocáveis multinacionais, nem do analfabetismo generalizado, mas dos alfabetizados e malignos intelectuais (…) Neruda e Carpentier são mais culpados pelas nossas desgraças do que a United Fruit ou a Anaconda Copper Mining”.

Tudo isso reivindica um velho debate. É possível separar o homem, com suas opiniões e circunstâncias, do artista, do criador? Um exemplo clássico é Richard Wagner. Foi um antissemita abjeto, mas sua obra musical e suas concepções cenográficas para a ópera representaram uma revolução, que não pode, nem deve, ser ignorada. O mesmo vale para Vargas Llosa. No campo literário, parece que é como Paris: vale uma missa. Nas concepções políticas, representa o que há de mais atrasado, retrógrado. Contra elas, não sugiro golpe abaixo da cintura ou botinada na canela. Melhor apresentar nossas ideias e argumentos. É assim que se educa e se avança.

Abraço. E coragem

Carta a um liberal brasileiro

Carta a um liberal brasileiro

Prezado Helio Beltrão,

Costumo ler esporadicamente seus artigos semanais na Folha de S. Paulo. Faço questão de conhecer as opiniões de quem divirjo e seus textos são um banquete para isso. Você é presidente do Instituto Mises Brasil, incubadora do pensamento dito liberal, que defende “o livre mercado e uma sociedade livre”. Não faço a menor ideia do que seja “livre mercado” na era do capitalismo globalizado e tenho dificuldade em visualizar quem é livre nas sociedades que admitem como naturais desigualdades socioeconômicas obscenas.

Li seu artigo Uma carta eleitoreira, publicada no dia 3 de agosto. Nele, você acusa de oportunista/eleitoreiro o documento gerado na Faculdade de Direito da USP, que defende o Estado Democrático de Direito em reação às agressões continuadas do presidente Bolsonaro às urnas eletrônicas. O documento já conta com mais de 1 milhão de adesões, vindas de todos os cantos do país, representando múltiplos segmentos da sociedade. Uma rara unidade em ambiente notoriamente polarizado.

Sua argumentação é, para dizer o mínimo, inusitada. Diria mesmo que sugere um bolsonarismo que não se assume como tal. Para quem não te leu, divido os argumentos em duas partes.

Na primeira, você duvida das más intenções da Besta em relação às urnas eletrônicas. Textualmente: “Discursos supostamente subversivos do presidente Jair Bolsonaro sobre as urnas eletrônicas, bem como especulações de que incitará a turba e aplicará um golpe de Estado caso perca as eleições”. Supostamente? Especulações sobre golpe? Não passa dia sem que o Desprezível deixe de afirmar, sem nunca ter apresentado prova ou sequer evidência, que as urnas eletrônicas são vulneráveis à fraude. Para ficar em dois exemplos. Ele disse que é na sala-cofre do Tribunal Superior Eleitoral, maliciosamente chamada de “secreta”, que se decide quem vai ganhar as eleições. Prova disso? Pelo menos um indício sugestivo? Neca de pitibiribas. No 7 de setembro do ano passado, num palanque histérico, ele berrou que só sairia da presidência por vontade de Deus, morto ou preso. Ou seja: reconhecia publicamente que voto não seria meio legítimo para tirá-lo do Planalto.

Na segunda, Trump aparece como vítima de uma acusação da esquerda americana (!) de que teria tentado um golpe. Inacreditável que ainda haja alguém que, apesar da profusão de sons e imagens da invasão do Capitólio e da fartura de evidências coletadas pela comissão que investiga a invasão, duvide do que pretendia Trump. É bom lembrar que o ex-presidente americano também começou a atacar o processo eleitoral muito antes dele acontecer. Bolsonaro já deu a senha faz tempo: o Topete Laranja é seu modelo. Para a quebra da institucionalidade tenta arrastar as Forças Armadas, parte das quais ouviu o canto da sereia.

Você não dedica uma única linha para criticar a ruína do país na gestão bolsonarista, liderada por um mentiroso compulsivo, defensor de tortura, homofóbico assumido, machista juramentado, promíscuo violador da separação religião-Estado e medíocre “analista” do país. Em contrapartida, dedica-se a atacar o que considera ameaças à democracia durante os governos do PT. Tenho muitos reparos a fazer à companheirada. Todos, no entanto, por um olhar de esquerda, sem o moralismo udenista tão caro ao “mercado” e seus barões. Em nenhum momento, e até os liberais honestos reconhecem, houve o clima de terrorismo cultural, ataques sistemáticos a jornalistas, divulgação patológica de informações falsas, desrespeito à independência dos poderes, que viraram, desde 2019, nosso feijão-com-arroz cotidiano.

Finalmente, tenho curiosidade em saber o que pensa um legítimo misesiano sobre que tipo de liberdade concreta há num país que tem 20% da população consumindo sobras de carne, quase 20 milhões de pobres nas metrópoles, 33 milhões de famintos, mais de 150 milhões de pessoas em situação de fragilidade alimentar. Será que o “livre mercado”, o que quer que seja isso, resolve estas aberrações? Será que os “libertários do mercado” concordam com o livre trânsito do vandalismo ambiental, que destruiu, em 2021, 18 árvores por segundo na Amazônia? De que forma justificam seu silêncio frente ao armamento acelerado da população, aos cortes megatônicos dos orçamentos do ensino público e das instituições de pesquisa, às tentativas de asfixiar o pluralismo das manifestações culturais e religiosas?

Talvez, quem sabe, você tenha razão e a carta que veio da USP e se espalhou pelo país seja mesmo eleitoreira. Ela foi eleita por todos os que não ficaram cegos, surdos e mudos frente ao esquadrão celerado que tenta, a olho nu, continuar, através de um golpe, a obra nefasta de destruir o país. Sua falsa neutralidade, senhor Beltrão, tem pernas curtas. Ao dar crédito ao Sete Peles, você avaliza um projeto que dilata, sim, os mercados, mas da miséria, da censura, das arbitrariedades, dos privilégios de classe, da violência. Será este, afinal, o “livre mercado” defendido pelo instituto que você preside?