Acordei de um sonho estranho/Um gosto, vidro e corte (da música San Vicente, de Fernando Brant e Milton Nascimento)
Ressaca das boas. Depois de roçar o Apocalipse, a gente começa a curar a dor de cabeça e recuperar cordas vocais. Os olhos, no desábito da luz, tentam entender os escombros que se espalham por todo canto. Numa esquina penumbrosa, a placa trincada avisa que o terreno é minado. Há rachaduras, cianetos, miragens, cantos de sereia, miasmas, areias movediças.
Gosto amargo andar pelas ruínas. O cenário evoca Blade runner, rostos sem face, luzes trêmulas, medo em gotas. Lembra quando os encontros de amigos e familiares implodiram, em rachas metastáticos? O que muitas vezes merecia conversa e entendimento, virou aversão e ruptura. O choque de perceber que existiam algumas personas fascistas escondidas em cápsulas cordiais levou a generalizações equivocadas.
Na calçada escorregadia, apanho um recorte de jornal molhado. Um comentarista escreve sobre o apoio do Neymar ao Bolsonaro. Esculhamba, indigna-se. Compreendo a revolta, sou racionalmente solidário a ela. No entanto, vejo um outro ângulo. Com aparente déficit cognitivo, Neymar já demonstrou ser incapaz de elaborar um raciocínio complexo. É um reprodutor patético de clichês e, nessa qualidade, duvido que perceba a dimensão do bolsonarismo. Chamá-lo de fascista é inútil, ele e seus parças não fazem ideia do que é isso. Talvez achem que se trata de um videogame com vestimentas negras.
Sigo em frente, desviando-me dos estilhaços da cultura despedaçada, das cinzas da floresta consumida, dos gritos da ciência violentada. Os rachas fizeram aflorar uma tentação perigosa. A do monocromatismo. Casagrande e Felipe Mello são realidades contrastantes e, respeitado um diálogo civilizado, não merecem cancelamento. O combate vem pela saliva, não pela arminha. Tenho minha preferência, mas ela não implica banimentos. Jane Fonda, a Hanoi Jane, tinha contrapartida em John Wayne. Representavam alternativas de comportamento e posição política. Que disputassem preferências, sem guilhotinas. A gente precisa retomar o prazer da discussão, do argumento, do convencimento pelo duelo de ideias.
Fumaça negra se espalha no horizonte. São pneus queimados por alucinados que obedecem aos zurros do infame. O espectro de Saint-Saëns, irônico, vê ali a mistura azeda do Carnaval dos Animais com a Dança Macabra. Em cima de um caixote precário, Angela Machado perora contra os nordestinos, aplaudida por seu marido, presidente do Flamengo. A torcida vermelho-e-preto passa ao largo, celebrando troféus e soltando rojões indiferentes. É atropelada pelos Gaviões da Fiel e a Galoucura, que espantaram a zica, escorraçaram os quizumbeiros e mostraram como se reage aos seguidores do fascio. “Mano, que país é esse? A polícia cruza os braços, e torcida organizada que tem que resolver a parada”, Marcelo D2 dixit.
A noite no Monte Calvo parece não ter fim. Eis que ouço um som familiar. Vem de uma sobreloja acanhada, luz tímida, insegura. Chego perto e reconheço violão, cavaquinho, pandeiro, vozes emocionadas. Subo os poucos degraus e esbarro numa multidão de milhões. Reconheço vivos e mortos naquele mar agitado. Alguém me oferece a mão, a vontade e a esperança. Os versos nos envolvem numa película vital. No pequeno palco, Nelson Cavaquinho, Paulinho da Viola, Monarco, Manacéia, toda a Velha Guarda da Portela, Nelson Sargento, Cartola, Ivone Lara, Bide, Marçal, Mano Décio da Viola, Clementina de Jesus. Movimentam-se em perfeita harmonia. As palavras são as do Juízo Final, mas oferecem a Aurora Inicial. O Sol há de brilhar mais uma vez/A luz há de chegar aos corações/Do mal será queimada a semente/O amor será eterno novamente.
Vamos saindo aos poucos. Os escombros e a escuridão estão lá. Uma névoa macia envolve a multidão, que, abraçada, ouve Nelson Cavaquinho apontar o caminho. É o juízo final/A história do bem e do mal/Quero ter olhos pra ver/A maldade desaparecer. Bússola policromática, ninguém sabia o final do caminho. A única certeza era a fraternidade espontânea que nos movia. Uma camaradagem generosa, que já começava a varrer o entulho e aceitava adesões pela estrada.
Alguém gritou, mostrando uma pequena brecha que se abriu no horizonte nublado. E o imenso bloco de sujos reiniciou a longa jornada.
Migrar é morrer um pouco (Alejandro Iñárritu, cineasta mexicano)
Nunca é fácil. Quando a família Gruman decidiu sair da Bessarábia, no início do século passado, havia muito a perder. Raízes nutridas durante gerações seriam cortadas, relações interrompidas, memórias afetivas engessadas.
Existiam, no entanto, motivos para tanta e tamanha aventura. Iedenitz não era dos lugares mais promissores. Pobreza grudada na rotina. Preconceitos antigos que reduziam, por exemplo, o horizonte educacional (o numerus clausus, usado à larga em grandes áreas da Europa Oriental, limitava o número de judeus nos cursos superiores e, em certas áreas do conhecimento, sequer eram admitidos). Pogroms eram sempre uma possibilidade. Nas famílias, contavam-se muitas histórias sobre estes massacres. À luz de velas, sempre pareciam mais assustadoras. As crianças ficavam apavoradas quando ouviam falar sobre o cossaco Bogdan Chmielnicki, herói para os ucranianos, algoz antissemita. Durante a revolta contra os poloneses, no século XVII, centenas de pequenas comunidades judaicas foram dizimadas pelas hordas chmielnickianas. Os mortos contaram-se às dezenas de milhares. Muitos só conseguiram sobreviver à custa de conversões forçadas ao cristianismo.
Já contei um pouco da história da dispersão da minha família, não vou repeti-la. Há mais de um século, meus avós paternos e futura tia acabaram desembarcando no Brasil. Primeiro em Salvador, depois no Rio. Paisagem, cores, língua, cultura, céu, temperatura, radicalmente diferentes. Certamente nunca tinham visto negros, que muitos imigrantes da Europa Oriental associavam a cacau e chocolate. Talvez também a alguma música exótica. Personagens de todos os shteitlach ancestrais transitaram para o álbum de fotografias. Moishe Tshotshkes, o maluco beleza. Der Narisher Haim, o sapateiro. Teivl Kaputnik, o cantor litúrgico. Berl Langue Noz, o professor implacável do heder. Shulem Shpekalingumaleh, o clarinetista da banda klezmer. Itzik Schlemiel, o casamenteiro. Como eram mesmo os nomes do mohel e do shoihet?
Sem saber, escaparam da morte certa. Tivessem ficado, a asa negra do nazismo os teria alcançado.
Por que lembro justo agora destas fontes queridas? De uns tempos para cá, flagrei-me pensando na hipótese de mudar de país. Foi apenas uma imagem fugaz, inspirada na tristeza de ver o Brasil abrir as portas para o que há de mais reacionário, odioso, desumano, desalentador, obscurantista. Alimentar o pesadelo teocrático. Quando leio os noticiários, vejo pairar o espectro do general fascista espanhol Millán-Astray, que gritava para as falanges franquistas: “Abajo la inteligencia! Viva la muerte!”. Tudo indica que cerca de metade da população brasileira concorda, em algum grau, com essa bestialidade. Se não concorda, prefere virar o rosto e simular indiferença. Por oportunismo, preconceito de classe, ignorância.
Pudesse conversar com minha tia Molca, que chegou ao Rio em 1921, e meu tio Burach, cabeças lúcidas e progressistas, tenho certeza de que me diriam o que já sei. Que concordam com José Eduardo Agualusa: não existem fascistas gentis. Que a extrema-direita vai desembocar, inevitavelmente, em antissemitismo. Está em seu DNA tanto quanto todos os outros tipos de preconceito. Os judeus que dão de ombros para isso são vítimas de um grave autoengano. Que não adianta sonhar com portos “seguros” neste mundo cada vez mais seduzido não pela última flor do Lacio, inculta e bela, mas pelo velho cactus do Fascio, inculto e horrendo.
Como perguntaria Vladimir Ilitch Ulianov: o que fazer? Molca e Burach não hesitariam. Não somos religiosos, mas lembre-se, taiere quind, daquela passagem do Pessach que diz: Mekadesh hazmanim. Ou seja: Santifique os Tempos. Tempos que nos ensinaram a farejar ameaças, tempos que nos ensinaram que lutar é o melhor caminho. Como lutaram os que resistiram ao fascismo e a todas as formas de opressão.
O Mal espreitava no subsolo brasileiro. Emergindo, mostrou sua face deformada e, não tenho ilusões, vai continuar entre nós. À luta, pois.
Talvez tenham sido as histórias em quadrinhos. Os heróis eram modelos perfeitos. Quando não impenetráveis, podiam atirar com a mesma arma dezenas de vezes sem recarregá-la, entrar numa briga sem amarrotar a camisa, nem deixar o chapéu cair. Dominavam povos colonizados e nações altivas, sem que os leitores se perturbassem ou questionassem a arrogância. Bastava colocar uma pequena máscara para ficarem incógnitos. Jamais se identificava a origem da riqueza dos abonados. Um deles, sovina contumaz e parasita evidente, atribuía a fortuna a um amuleto. E a gente acreditava.
Leitor voraz dos gibis, é impossível que o Menino não tenha absorvido ao menos parte desse modo de funcionamento das coisas e pessoas. Especialmente no quesito heroísmo. Como, por exemplo, supor qualquer falha de caráter em Clark Kent? Ou intenções inconfessáveis do Mandrake? Quem é que se importava com nuances nas personalidades do Charada, do Pinguim, do Coringa, dos Irmãos Metralha, do Imperador Ming ou do Lex Luthor? Era um mundo perfeitamente dividido, imóvel, cada macaco no seu galho. Como na lenda do Fantasma, o Espírito que Anda, a estrutura era reproduzida de geração em geração. Tal qual a obscena “Guerra do Bem contra o Mal” do Brasil damarizado.
Atravessei um Rubicão zangado para turbilhonar a herança infantil. Foi com o balãozinho da exclamação – ou seria o da interrogação? – que comecei a ler um livro sobre a relação do Isaac Bashevis Singer, prêmio Nobel de Literatura em 1978, com seu filho Israel Zamir. Edição americana caprichada. Jamais poderia supor nada diferente da revelação de um pai generoso, semeador do interesse por histórias, presente e estimulante. Afinal de contas, em certa medida ele estava no meu panteão de heróis. Confundi o escritor, personagem ideal, intelectual sensível, Quixote da língua ídish, construção que fiz inconscientemente, com o homem real, que eu não conhecia. O que me contou Zamir?
Em meados dos anos 30, ainda em Varsóvia e num bairro pobre, Singer abandonou mulher, Runia, e filho, Israel Zamir, então com 5 anos, e foi morar em New York. Prometeu trazê-los assim que conquistasse estabilidade no novo país. Jamais cumpriu a promessa. Cinco anos depois, casou-se novamente, sem comunicar nada a Runia. Ela e Israel passaram por grandes privações. Fugiram da Polônia, estiveram brevemente na União Soviética e na Turquia, até se radicarem na antiga Palestina, em 1938. Pai e filho ficaram sem se ver por vinte anos. Em 1955, por iniciativa de Israel, os dois se reencontraram em New York, numa tentativa difícil de criar algum tipo de laço afetivo. Bashevis Singer era uma espécie de workaholic, considerava cuidados com filhos um embaraço para seu ofício.
Mulherengo, Singer, mesmo casado, jamais parou de colecionar casos com mulheres. Alegava ter uma espécie de alma solteira (!) e precisar das histórias narradas por elas para desenvolver seus personagens. Tinha grande poder de sedução pelas palavras e, por isso, foi considerado um dos 10 homens mais sexies dos Estados Unidos. Um Eros salivar. Me fez lembrar de Antônio Maria, que reconhecia não ter uma estampa atraente. Sua mágica vinha do verbo.
Ainda não terminei o livro, mas deu kryptonita no herói. Nada que mexa na minha admiração por livros inesquecíveis, como “No tribunal do meu pai”. O modelo, entretanto, caiu na real. É possível acampar na mesma barraca o criador admirável e o pai indiferente, o prêmio Nobel e o companheiro duvidoso, de “alma solteira” e descompromisso com relacionamentos formais.
A gente constrói uma imagem romântica da figura paterna, muito comum em tradições religiosas (os deuses como Pais eternos, misericordiosos, protetores). Aos poucos, vemos que essa muleta só servia quando nossas maiores preocupações eram conseguir o bambu ideal para fazer uma pipa, o dinheiro para comprar o pulôver de ban-lon, o gumex para não fazer feio no arrasta-pé, o telefone da ruivinha sardenta. Passada a fase e deposto o xerife que resolvia os problemas mais cabeludos, descobrimos que não dá para terceirizar a vida, nem transferir responsabilidades. É aí que, invertendo a história, o Super-Homem se transforma em Clark Kent, que precisa trabalhar, descobrir desejos, dar mamadeira para o bebê, criar sentidos para a vida. O homem comum, com suas sombras e lusco-fuscos, é o verdadeiro herói.
Ao Carlos Telles, amigo e camarada, que, vivo fosse, estaria na mesma trincheira do que eu, lutando por um mundo mais justo e fraterno.
Uma vez descartada a hipótese do suicídio, só nos resta o otimismo. (Albert Camus)
Desde segunda-feira passada ando meio descadeirado. Todos os assuntos fora da eleição presidencial parecem pigmeus sonolentos e isso me empurra a escrever novamente sobre ela. Serei inevitavelmente um tanto repetitivo, mas considero relevante fazer perguntas incômodas e lembrar fatos idem. É um momento opaco, de transição para o que não se sabe e, como disse sabiamente Gramsci, “o velho mundo agoniza, um novo mundo tarda a nascer, e, nesse claro-escuro, irrompem os monstros”. O que pode ser o novo? Que monstros nos assombram e assombrarão?
A paixão política, ao lado de um saudável envolvimento com desejos coletivos, traz nas entranhas um adversário formidável. Durante décadas participei ativamente de uma instituição judaica progressista no Rio. Experiência fértil, formadora, reconstituinte. Sou muito grato pela oportunidade que tive. Na sala de reuniões da diretoria, ficava uma galeria com fotos de ex-diretores e ativistas. Uma delas era de uma mulher com olhar triste. Ou seria desiludido? Os mais antigos diziam que ela havia se suicidado após as revelações sobre os crimes e desvios stalinistas, no XX Congresso do Partido Comunista da União Soviética, em 1956. Idolatria, excesso de poder individual, substituição da política como prática transformadora pela “genialidade inatacável” do líder. Livrar-nos destes espectros, hoje como então, é um processo de educação cultural e política, que esperamos continuar desenvolvendo sem a ameaça do garrote fascista.
Estou convencido de que a extrema-direita veio para ficar. Não apenas como força legislativa, mas com potencial para se transformar em movimento de massa, competindo com a esquerda pela conquista dos espaços extra-parlamentares. Esquerda, aliás, que, na oportuna expressão de Florestan Fernandes, tem mimetizado com frequência os partidos da ordem. É cada vez mais claro que, mesmo Bolsonaro perdendo a eleição, sua herança repelente, desagregadora, mentirosa, belicosa e negacionista continuará abraçada por dezenas de milhões de brasileiros. Alienar-se ou ridicularizar esta realidade será o primeiro passo para o desastre.
Para tentar vencer, Lula aderna cada vez mais para o centro. No limite, ficará com uma identidade esponjosa. Guilherme Boulos assegurou, por exemplo, que a revogação da reforma trabalhista e a taxação de grandes fortunas serão implementadas. Pelo andar da carruagem e o formato do ornitorrinco, não sou tão otimista. Assumindo compromissos com forças heterogêneas, o companheiro ex-metalúrgico terá que dançar no óleo quente para não se engessar geral. Ganhando, usará seu capital político para mobilizar a população em torno de um programa mínimo de reformas? Tenho minhas suspeitas, mas, como disse o Camus aí em cima, resta, oi vei!, o otimismo.
Ainda Boulos: “Acho que nossa campanha vai ter que dialogar com eleitores que apostaram na terceira via”. É bom que uma liderança de importante movimento popular tenha dito isso. Não foi o que ouvimos de muitos companheiros durante a campanha do primeiro turno. Quantas vezes li e ouvi, vozes e letras carregadas de ódio, que todos os que não votavam em Lula eram fascistas? Uma visão sectária, descolada da realidade, perigosa para o pragmatismo eleitoral.
Por fim, a promiscuidade religião-Estado-política. Em determinados momentos da campanha, parecia que tínhamos desembarcado num feudo medieval, dominado por senhores da terra e seus aliados clericais. Era espanta diabo pra cá, guerra do Bem contra o Mal pra lá, glória a deus pracolá. A fé popular, muito explorada por velhacos, precisa ser respeitada. Ao invés de desprezá-la ou querer apropriar-se dela de forma oportunista/eleitoral, a militância progressista deve aproximar-se dela para compreender sua visão do mundo e informá-la de seus direitos cidadãos, que não dependem de sacripantas travestidos de profetas. Ficar à distância, menosprezando a vivência de tantos brasileiros, é arrogância. Aqui, mais uma vez, deve entrar o trabalho político, a intervenção no cotidiano, rica tradição da esquerda revolucionária e de setores esclarecidos de segmentos religiosos.
Dia 30, claro, vou de Lula para exorcizar o fantasma do Monstro do Lago Paranoá. Já é tarefa de bom tamanho. Antes de encerrar, uma notícia, e uma lição, do Uruguai, país porreta que não me canso de admirar. Dois ex-presidentes orientales, de espectros ideológicos antagônicos, se reuniram para um papo que durou mais de dez horas. José Pepe Mujica, do Movimento de Participação Popular, e Julio Maria Sanguinetti, do Partido Colorado, conversaram sobre democracia, capitalismo, socialismo, economia de mercado, arte e ciência, tecnologia, esportes, drogas, família, amor, vida e morte. Convergiram, divergiram, sobretudo dialogaram. O resultado vai virar livro em breve. Mujica resumiu assim o encontro: “Não quero um Uruguai que dê um espetáculo de política partida. Tem gente que se confunde, que acha que em política é preciso andar aos murros.” Quem sabe um dia o Brasil cresça e apareça, como seu vizinho ao sul?
O mérito da derrota consiste em isentar o derrotado de qualquer responsabilidade de vitória. (Carlos Drummond de Andrade)
“Lula tem 50%; Bolsonaro, 36%”. Acordei ontem com essa manchete da Folha de São Paulo. Como nos dias anteriores, vi-me cercado nas redes sociais por previsões ufanistas de amigos e integrantes da bolha em que transitamos. Eram favas contadas, só faltava sacramentar uma espécie de mandato divino pelos dedos sábios do povo brasileiro. Mera formalidade. O resultado foi uma das mais brutais quedas de cavalo que assisti na vida.
Não sou, nunca fui, repórter. Por isso, o exercício político que farei agora, no calor da hora e sem edição de imagens, está sujeito às intempéries da paixão e da crença numa experiência de vida que pode não ser boa conselheira. Minha intenção é colocar a bola em jogo.
Antes de tudo, o óbvio. Os institutos de pesquisa falharam grosseiramente ao não captar uma avassaladora onda conservadora, que se movia no subterrâneo das ilusões coletivas e consolida a tendência de 2018. Bolsonaro teve mais de 50 milhões de votos, muito mais do que projetavam as pesquisas. No Rio de Janeiro e em São Paulo, bolsonaristas nadaram de braçada. Vi o meu Rio eleger de goleada mais um governador medíocre, uma bancada federal com o general Pazuello e o “bispo” Marcelo Crivella. Com a centro-esquerda rachada, Romário marcou um fácil gol de letra. Paulistas continuam levando para Brasília luminares medievais, como Carla Zambelli, Eduardo Bolsonaro, Ricardo Salles e o parasita astronauta Marcos Pontes. No Rio Grande do Sul, cuja capital foi governada pelo PT por 16 anos consecutivos, o inacreditável general Hamilton Mourão elegeu-se para o Senado, derrotando Olívio Dutra, um dos quadros históricos do PT.
O país que emergiu das urnas contrariou uma certa imagem idealizada do povo brasileiro, alimentada pela despolitização das campanhas de centro-esquerda, que jamais falaram de conflitos de interesses e se preocuparam apenas em consolidar bunkers de apoiadores. Ouvi atentamente os discursos e intervenções dos ditos centro-esquerdistas (a esquerda aparece aí como um penduricalho decorativo). Em nenhum deles se falava em luta de classes, disputa de espaços de poder fora das negociações por cima, organização popular para pressionar as torres defendidas da classe dominante. Como se tudo se resumisse a trocas de favores acertados em salas confortáveis. É a perdigoto-política.
O país real que emergiu das urnas foi tratado a golpes de memes, xingamentos e ironias variadas, sem qualquer aprofundamento dos modos e razões que levaram um fascistoide, candidato a tirano, medíocre e ignorante ex-capitão a tornar-se presidente. Que não me venham com a falácia de que, hoje, o país acordou descobrindo que tem mais de 50 milhões de fascistas. Essa gororoba pueril pode servir para aplacar a frustração, a depressão e a sensação de impotência, mas não avança um milímetro na direção do entendimento indispensável para reverter o quadro.
Falta à esquerda uma análise consistente de, ao menos, dois fenômenos relativamente recentes. O primeiro são as novas tecnologias digitais e seus efeitos na formação de opinião e de (des)organização social. O outro é a ascensão dos evangélicos no espaço da política. Reproduzo trecho de artigo da jornalista Anna Virgínia Balloussier: “Evangélicos triplicaram de tamanho na população, mas a esquerda ainda não aprendeu a falar a língua deles, diz o sociólogo Paul Freston, referência nos estudos sobre o neopentecostalismo nacional”. Por enquanto, há escassas tentativas de diálogo com esse segmento, rotulado (e cada um de nós certamente já ouviu muito isso) como manada de seguidores de pastores inescrupulosos.
Parece muito claro que a extrema-direita, com seus corvos de penugens levemente variáveis, veio para ficar. Não mais como fenômeno exótico, mas como protagonista da vida política e social. Ainda não tem um partido de massas, nem uma liderança que vá além do histrionismo e da vulgaridade de um Bolsonaro. No entanto, e a História ensina tragicamente, as condições objetivas da luta de classes podem fazê-los surgir. Não adianta espernear e praguejar. É preciso preparar-se para um combate difícil e de longa duração.
No terreno das relações pessoais, o estrago é enorme. Desde 2018, muitos afetos foram destruídos pelo clima político. Compreendo a impossibilidade de conciliação com arroubos fascistas, mas vi e ouvi falar de rupturas que partiram de suposições, sem dar chance a uma conversa, a uma troca de divergências, a uma convivência mantidas diferenças importantes. Houve uma chuva de bile, que fertilizou rancores originados em outras paragens.
Na eleição presidencial, nada está perdido. Há um segundo turno, que, seguramente, será precedido por uma campanha violenta, agressiva. Mesmo que vença, o companheiro ex-metalúrgico terá pela frente um governo travado por uma oposição parlamentar hostil. Terá coragem de convocar a população para ir às ruas pressionar congressistas? Não acredito, está no DNA do Lula a conciliação, a acomodação de interesses, que, no caso do Brasil, são ditados pela burguesia. Teremos mais do mesmo, com a diferença importante de revalorização da cultura, da defesa do meio ambiente, da civilidade no espaço público.
Mais do que nunca, sinto falta de uma esquerda forte. Não dessa esquerda que o velho Gregório Bezerra chamava de “esquerda flor-de-laranjeira”, mas da que aponta para um outro tipo de organização social, emancipando o homem da escravidão do capital.
Deus não morreu. Está apenas escondido da polícia. (Millôr Fernandes)
No filme mais recente do Woody Allen, Festival do amor, há cenas memoráveis. Uma delas, e cito sujeito às armadilhas da memória, relata um sonho do protagonista, Morty Rifkin. Depois de morto, ele chega ao céu e encontra deus, que tenta um diálogo. Morty rechaça a tentativa e diz: “Não tenho nada a conversar contigo. Fale com meu advogado, ele tem procuração para te processar”. Bem, as palavras podem não ser exatamente essas, mas garanto que reproduzi o espírito da coisa.
Hoje é o primeiro dia do Rosh Hashaná, Ano Novo judaico. De acordo com a tradição, a celebração se estende por dez dias. São os chamados Iamim Noraim, Dias Terríveis. O grand finale é o Iom Quipur, quando os observantes fazem um jejum completo por 24 horas e tentam obter o perdão divino para seus supostos pecados. O castigo em caso de condenação, num tribunal que não admite apelação ou argumentações racionais, pode ser a morte. O clima nas sinagogas é solene e, na época em que as frequentei, sempre me impressionavam as expressões tensas dos religiosos. A imagem de reverência temerosa a uma entidade invisível e com poder absoluto sobre tantas vidas atravessou minha infância e parte da fase adulta. Punição, culpa, vigilância obsessiva. Folcloricamente, ou não, ligadas ao ethos judaico.
Eu repetia mecanicamente a longa sequência de orações em hebraico, sem lhes entender o conteúdo. Uma delas, particularmente envolvente, menciona 53 tipos de infrações para as quais se implora perdão. Não imaginava que os homens podiam transgredir tanto, e aquilo causava medo. Um medo difuso, nem por isso mais ameno. O sentimento de pertencer à comunidade de frequentadores me fazia continuar, ano após ano, renovando os pedidos de clemência, sem questionar a necessidade do ritual.
O fim da infância e de certas ilusões primitivas veio junto com o imperativo de perguntar. De duvidar. Por que um burgomestre cósmico, cujas voz e aparência são inacessíveis, cuja sabedoria tem raízes desconhecidas e autocongratulatórias, de cuja existência a lógica mais elementar sugere duvidar, determina os destinos de milhões de pessoas? Por que o balanço anual das ações humanas não tem a contrapartida, o julgamento do juiz? O escritor Isaac Bashevis Singer, prêmio Nobel de literatura, adorava seu irmão mais velho, I. J. Singer. Quando este morreu subitamente, Isaac ficou devastado. “Foi como se deus tivesse me esbofeteado. Mas o que eu podia fazer? Revidar? Como?”. A impossibilidade do revide fez parte da minha coleção de dúvidas.
Pois neste início de 5783, proponho um jogo menos injusto. Você, impenetrável julgador, vai viver seu momento de réu. Por vaidade tamanha que não admite falhas e é implacável nas suas avaliações. Por insensibilidade cúmplice à fome, à miséria, aos sofrimentos de todos os tipos, às guerras, aos genocídios, às imposturas. Lavando as mãos, olímpico, você não é diferente dos que ferem, matam, torturam, machucam. De suas mãos jorra o sangue de milhões. Por inacessibilidade, negando a Palavra a quem é solitário, escondendo o ombro de quem pede consolo, banindo o abraço e o afeto. Por ser vingativo e vaidoso, como fez quando exigiu que Abraão matasse seu filho Isac, apenas para provar que você é poderoso e ninguém ousa desafiá-lo. Como julgar essas ações, que acumulam oceanos de dor, sofrimento, angústia, morte?
De minha parte, vou me associar ao advogado de Morty Rifkin na peça acusatória. Você, ao contrário de suas vítimas, terá direito de defesa. Para que conste nos autos, admito uma atenuante. Se, mesmo longinquamente, você foi capaz de inspirar quem compôs a melodia do Kol Nidrei, talvez lhe reste um pouco de humanidade, a mesma que por tantas ações e omissões você já provou abominar. Só não lhe convido para comer um rollmops e um pepino azedo à moda de Makow Mazowiecki. Não gosto de falar sozinho enquanto saboreio meus petiscos favoritos. Porque você, definitiva e eternamente, não existe.
Aos amigos que ainda conservam intactas as esperanças de mudanças, que dependerão de gestos concretos e envolvimento, meu desejo de que tenham um ótimo 5783. A gut ior! Shaná tová! Anyada buena i dulse!