Terminada a Copa e sepultado o ufanismo histérico dos locutores. Sei que parece café requentado, mas ainda quero comentar um dos aspectos da atual geração de jogadores brasileiros. Não vou cair na tentação barata de olhar para os cabelos platinados, nem para a proteína dourada de uns quantos deslumbrados. Também não vou “focar”, ô palavrinha danada!, na hipocrisia recorrente do Neymar. Depois de se declarar “destruído psicologicamente” após a derrota para a Croácia, que ia “doer por muuuuito tempo”, caiu na farra menos de 48 horas depois. Todos queremos saber o que ele anda fumando ou bebendo para ter uma recuperação mental tão fulminante! Não, meus amigos, não entrarei nesse jogo. Meu desejo é destacar uma febre tóxica que é bem mais geral e contagiosa: a da religiosidade artificial que lobotomiza multidões de players.
A Folha de S. Paulo reuniu declarações de nove jogadores, avaliando as razões do fiasco ante os croatas. Todos atribuem ao Além, a forças sobrenaturais, tudo o que deu errado. Seleciono quatro delas.
Neymar: “O Brasil merecia vencer. Mas essa não era a vontade de deus (..) Obrigado por tudo, meu deus, me destes tudo e eu não posso reclamar de nada. Só agradecer por cuidar de mim”. Weverton: “A vontade de deus é boa, perfeita e agradável. Eu te amo, deus, e te agradeço por tudo”. Éder Militão: “Fizemos o nosso melhor dentro de campo, mas ainda não foi da vontade de deus”. Vinícius Jr.: “Os planos de deus são maiores que os nossos”. Os outros vão na mesma linha de conformismo e alienação da realidade.
Nada tenho contra a fé alheia. Neste caso, porém, farejo o uso extensivo de um artifício pueril para evitar o sofrimento e renunciar à autocrítica. Qualquer analista de botequim sabe que o início de elaboração de uma perda é reconhecê-la e procurar formas de compreendê-la. Na medida em que identificam um poder inacessível como agente do sofrimento, os jogadores se sentem aliviados. Se o juiz é implacável e seus desígnios insondáveis, ninguém além dele pode ser responsável pelos acontecimentos. Muito simples … e conveniente.
Futebol é território rico em folclore e superstições. João Saldanha dizia que “se macumba ganhasse jogo, o campeonato baiano acabaria empatado”. Pai Santana, folclórico massagista do Vasco da Gama, discordaria. Cansou de fazer “trabalhos” contra os adversários. Certa vez, foi flagrado depositando objetos suspeitos perto do campo do Flamengo. É também do Vasco a história do sapo de Arubinha, que já contei por aqui. O clube da Colina passou longo sufoco, atribuído ao anfíbio de pele rugosa.
O Flamengo, garantem os mais crentes, tem um santo protetor. É São Judas Tadeu. Entre 1944, ano em que fora tricampeão, e 1953, o rubro-negro amargou jejum de títulos. Em 1953, o pároco da Igreja de São Judas Tadeu foi até a Gávea celebrar uma missa com o time. Pediu que os jogadores acendessem uma vela e a dedicassem ao santo. Batata! O Flamengo foi campeão naquele ano e nos dois seguintes. Ninguém questionou a razão do poder do santo ter parado em 1955 (o time só voltou a ser campeão em 1963). As más línguas, não sem uma dose de razão, atribuem a conquista do campeonato de 1955 ao fato do zagueiro Tomires ter quebrado a perna do atacante Alarcon, do América, no jogo decisivo. Naquela época, não havia substituições e os diabos rubros jogaram com dez a maior parte do tempo.
Há ainda muitos causos, como a jamais subestimada alma supersticiosa dos botafoguenses (“há coisas que só acontecem com o Botafogo…”), que já depositaram no Biriba, cãozinho vira-lata, a sorte nos gramados. Entre torcedores, nem o céu é o limite. Tudo, no entanto, sempre correu num clima leve, de zoações com as hostes adversárias. Jamais institucionalizado ou apropriado por interesses comerciais.
O que acontece hoje é muito diferente. Começou com as comemorações padronizadas, dedinhos para o alto, vez por outra joelhos para o chão, numa comunicação tão circunspecta quanto falsa. Os dedinhos automáticos me lembram uma sátira do grupo uruguaio de murgas Agarrate Catalina. O narrador pergunta: se deus é onipresente, por que se olha somente para o céu quando se quer falar com ele?
Por que se intensifica o desfile de carolas entre jogadores? Arrisco uma interpretação. Existem pesquisas que mostram queda na confiança dos brasileiros na ciência. Quase 30% confiam pouco ou nada nas informações de cientistas. Resumo da ópera: a razão está em baixa, o desvario e o obscurantismo dão drible da vaca. Junto disso, vai o ambiente estelar das celebridades, que obedece a padrões de moral cínica. O bom marqueteiro orienta apresentar ao público uma imagem pia, de contrição religiosa, para equilibrar as cenas frequentes de ostentação, arrogância e ambição selvagem. Nada, portanto, sugere uma prática religiosa consciente, sincera. É apenas, com possíveis exceções, simulação de gestos, com interesses bem profanos.
Saudade das comemorações espontâneas, da separação radical entre esporte e religião, da alegria sempre improvisada nas grandes conquistas. Do futebol como fenômeno lúdico e apaixonante.
Rio de Janeiro: antiga cidade brasileira, hoje desaparecida (Millôr Fernandes)
Visitei a feira anual do MST, no Largo da Carioca. Uma exposição de alimentos orgânicos, publicações e pequenos artesanatos dos assentamentos Brasil afora. Aproveitei para comprar algumas garrafas da cachaça Lula e dá-las de presente aos amigos livreiros do centro da cidade.
Flanar pelo centro do Rio, um grande prazer em várias etapas da vida, virou quase um exercício de ficção científica. A impressão é devastadora. Como se Mefisto tivesse jogado um quebranto e feito desaparecer inúmeras e longevas referências. Foram para o limbo, junto com os antigos frequentadores de botecos, que paravam nos balcões para um cafezinho amigo. Xícara tirada da água fervente, açúcar em grandes potes de vidro com tampa metálica, sem opção de adoçante. O slurp vinha com muito cuidado para não queimar a língua. Vida sem pressa.
Assombrado por escombros da memória, cheguei à livraria Folha Seca, que já vai para 25 anos. Fazia mais de três anos que não encontrava o Rodrigo Ferrari, criador do local e bravo resistente. O abraço apertado escondeu por instantes a tristeza do que se vê ao redor. Poucas vezes senti o Rodrigo tão abatido. Contou que vão colocar um piano na rua para comemorar um quarto de século, com roda de samba e tudo. No entanto, tá difícil garantir estrutura para todo mundo que vai aparecer. A Toca do Baiacu, ponto tradicional vizinho à Folha, anda borocoxô, o dono só abre quando se sente ensolarado, a fim de tomar uma cerveja com os raros frequentadores. Na despedida, saí com a sensação amarga de que um farol potente pode estar rateando. No que depender de mim, o que não é muito, continuará iluminando caminhos pela noite dos tempos.
Na terra arrasada, pirilampos. A Leiteria Mineira, mais de século no lombo, segue oferecendo mingau e canja como se as eras não houvessem passado. Rio que já foi de tantas leiterias, pretextos lácteos para encontros e desencontros. A Numismática Vieira, octogenária, Robinson Crusoé na rua do Rosário às moscas. A Confeitaria Itajaí, cuja filial em Laranjeiras abasteceu durante décadas a família Gruman com pizzas e bolas de rum. As filas dominicais, no mais puro estilo carioca, pareciam o caos das antigas Bolsas de Valores. A Casa Nair de materiais esportivos, pequena loja na hoje fantasmagórica avenida Marechal Floriano. Aqui e ali, farmácias, como tem hipocondríaco nesta cidade!, vão colonizando a outrora diversidade comercial.
Mia Couto escreveu O vendedor de passados. No livro, um angolano exerce um estranho ofício. Vende passados falsos. De um modo geral, os clientes são ex-colaboradores do regime colonial português, tentando apagar os rastros de seus numerosos malfeitos. Claro que nem tudo vai bem, a memória não é material tão plástico, cobra taxas ao ser invocada.
Pensei no Mia enquanto andava por aquela região. O que acontece quando uma cidade vê sua memória despedaçada? É possível construir uma identidade cultural e urbana destruindo sistematicamente referências visuais, olfativas, gustativas, afetivas?
Não estou reivindicando uma volta impossível ao Rio de Marc Ferrez. Ao tlec-tlec do vendedor de casquinha e pirulito cônico de açúcar caramelizado. Tampouco um retorno triunfal dos concursos de Miss Elegante Bangu e do bonde São Januário. Sei que foram definitivamente silenciados os apitos da fábrica de tecidos Confiança, em Vila Isabel, e da cervejaria Brahma, na Tijuca. O leiteiro que deixava garrafas de leite CCPL nas portas das residências e as carrocinhas da Kibon estão irremediavelmente aposentados.
No curto prazo, a tendência é desanimadora. Nada a ver com o entusiasmo do poeta Mário Pederneiras, que, lá por mil e oitocentos e lá vai fumaça, viu o Rio como “uma explosão de espanto e pasmo”. Os espaços públicos desembarcando na cobiça dos interesses privados. A arquitetura curvilínea e as múltiplas heranças visuais, debochadas como entraves ao “progresso”. O silêncio e a introspecção encarados como taras antissociais. Há como consertar? Não tenho a menor ideia. Espero que as próximas gerações de cariocas se interessem pela história da cidade e, a partir dela, ajudem a torná-la mais amigável e digna do mito do cidadão boa praça, boa ginga, gente boa.
Colocava sal num pedaço de pano, transformando-o num saquinho amarrado com barbante. Fechava os olhos e, murmurando palavras incompreensíveis, movimentava o saquinho ao redor da cabeça do Menino. Em seguida, acendia o fogão e queimava aquilo que, pelo ritual, teria atraído todo o mau-olhado porventura lançado contra o peladeiro tímido e dentuço que eu era. As cinzas comprovavam o sucesso da mandinga e a vida, meus olhos suplicavam, torceria por mim.
A avó trouxera esta defesa sobrenatural da Polônia profunda, do shtetl que a viu nascer. Posso compreender o apego ao incompreensível. Cá pra nós: a realidade, o cotidiano nada amável, as prisões existenciais e das tradições machistas, os preconceitos ao redor, tudo conspirava a favor de respostas fantasiosas a tantos e tamanhos problemas. Naquele mundo, o delírio poderia dar num gênio que o aproveitava como arte, como Chagall, ou no meshuguene da aldeia, prisioneiro do universo paralelo.
Uma notícia recente me transportou, mal e mal, para as profundezas de sombras, charlatanismo e, por que não?, medo. Perto dela, meu querido pássaro de Makow-Mazowiecki não passava de aprendiz dos desejos impossíveis. Esta notícia reflete um estado surpreendente de inanição cognitiva, de empulhação, de ofensa a tudo o que o Homem descobriu em séculos de observação e estudo da Natureza.
Ao lê-la, vá lá otimista, cheguei a pensar numa possível onda nostálgica, dessas que marqueteiros usam para requentar velharias e ganhar uns trocados. Vontade de reeditar as histórias de Alceia e Memeia, as bruxas trapalhonas das historietas da Luluzinha? Quem sabe bateu saudade coletiva de rever Elizabeth Montgomery, no delicioso seriado A feiticeira, que a televisão exibiu nos míticos anos 60?
As razões podiam, entretanto, ser menos inocentes. Crescimento da popularidade do scratch bruxista que nos atormentou nos últimos 4 anos? Olhem só o onze das Magas Patalogicas: Cássia Kiss, Regina Duarte, Damares Alves, Carla Zambelli, Mayra Capitã Cloroquina Pinheiro, Nise Yamaguchi, Ana Paula do Volei, Janaína Paschoal, Bia Kicis, Lindora PGR Araújo e Glória Perez. Um time tresloucado, com tática peculiar: ninguém joga no setor esquerdo do campo, território, claro, dominado por comunistas. A notícia teria a ver com essa assombração?
Seria, talvez, quantificação de homenagem ao Noel Rosa e seu Feitiço da Vila? Desagravo extemporâneo à caça às bruxas no macartismo? Solidariedade aos que sofrem de bruxismo? Pânico da vassoura-de-bruxa nas plantações de cacau? Assalto revisionista às sentenças dadas às Bruxas de Salem? Reivindicação das massas por uma pós-graduação para o Aprendiz de feiticeiro, com grife Paul Dukas?
De que notícia, afinal, estou falando? Um economista americano, analisando dados de 95 países, descobriu que cerca de 40% da população global acredita em bruxaria. O Brasil, oh meu mulato inzoneiro, ficou acima desta média, cravando 51%. Trocando em miúdos. Mais de metade do Brasilzão, o nunca demasiadamente louvado país do futuro, estacionou na Idade Média. Ciência? Quem precisa disso, se uma boa simpatia resolve qualquer abacaxi? Um em cada dois brazucas tende a acreditar mais em bruxas e suas mezinhas diabólicas do que nos cientistas que, por exemplo, fotografaram um buraco negro no meio da Via Láctea, a 27.000 anos-luz de distância da Terra (1 ano-luz equivale quase 10 trilhões de quilômetros). Sem apelo à mágica, usando conhecimento acumulado por milhares de pesquisadores de todas as épocas. Trabalho árduo, sem abracadabra. É isso mesmo?
No mesmo dia em que a imprensa publicou essa notícia espantosa, e desanimadora, uma certa senhora que mantém coluna fixa em jornal de grande circulação divulgou, finalmente, a grande panaceia universal. Se todos dedicarmos um minuto diariamente para “colocar o amor a serviço do mundo”, enviando energias positivas (sic) sabe-se lá pra onde, tudo será possível. Assim mesmo: tudo! Detalhe: há que se fazer isso pontualmente ao meio-dia. Taí, bruxaria moderna não se faz com a varinha da Alceia, mas com clichês patéticos. Tudo ao gosto do imediatismo esterilizador que empobrece neurônios e culturas.
Não à toa fica difícil trabalhar com a ideia de que só o povo construirá sua própria história, que o poder vem de sua organização e disposição para o combate. Trabalho árduo, demorado, sem garantia de que o coelho sairá da cartola. É mais fácil levantar os dedinhos para o céu, evocar a força de todas as superstições e clamar “pelos poderes de Grayskull!”.
Se as coisas são inatingíveis… ora!/Não é motivo para não querê-las…/Que tristes os caminhos, se não fora/A presença distante das estrelas! (Mário Quintana)
Revi Inferno no Pacífico, filme de 1968, dirigido por John Boorman e magnificamente interpretado por Lee Marvin e Toshiro Mifune. Dois atores então no auge da maturidade artística. É um filme rico em detalhes, que ultrapassa tempo e circunstâncias da história que conta. Vou usá-lo como referência para refletir sobre uma questão, digamos, trivial: os limites da ação do indivíduo nas correntezas da História. Fácil, não? Para isso, acrescentarei na receita do bolo um querido personagem de histórias em quadrinhos. Vamos ver no que dá.
Breve reconstituição do roteiro. Durante a Segunda Guerra Mundial, um avião militar americano é abatido e o piloto acaba dando numa pequena ilha do Pacífico. Ali já estava um oficial da marinha japonesa, igualmente sobrevivente de batalha. No primeiro momento, desempenham o papel que suas sociedades lhes delegaram: eram inimigos e, como tal, deviam aniquilar-se. Partem para o tudo ou nada, mesmo não havendo, na praia paradisíaca, qualquer base material para tanto ódio. Eram prisioneiros da História, dos sentimentos, interesses e posturas sociais de terceiros.
Passado algum tempo, e apesar da incomunicabilidade verbal, vão percebendo que a sobrevivência era a grande prioridade. Comer, acumular água de chuva em reservatório improvisado, fazer fogo, escapar da ilha. Encontram formas de colaboração. Fabricam uma jangada rudimentar e aventuram-se pelo mar. A cooperação, acima dos espectros do Imperador e do Presidente, vencera o primeiro round.
Chegam a um pequeno conjunto de ilhas, onde encontram os escombros de uma base militar abandonada. Não se sabe se americana ou japonesa. Numa cena arrepiante, cortam suas barbas e se enxergam sem a marca física do isolamento. São apenas homens, de cara limpa, felizes por estarem vivos. Confraternizam com uma garrafa de saquê descoberta num velho armário. Riem, descontraídos. Sem máscaras.
O álcool vai destravando línguas. O japonês folheia uma edição da revista Life jogada num canto. Horroriza-se com fotos de conterrâneos humilhados e massacrados pelo inimigo ianque. O americano solta uma parte dos preconceitos que o treinamento militar e a pedagogia colonialista lhe passaram. É verdade que vocês não acreditam em deus, Jesus Cristo?, pergunta, já meio agressivo. Como falam línguas diferentes, o diálogo é impossível. Entendem apenas o tom violento das palavras. A delicada relação, construída em solavancos, se rompe, substituída pelo silêncio, pela desconfiança, pela sombra da Morte. Sem se despedirem, vão para lados opostos. O ódio aprendido vence o segundo round. Nocaute.
Estaremos condenados à desintegração, à prevalência do egoísmo e da solução violenta para os conflitos? O ser histórico não pode superar a maldição do que herda de tempos passados? Chamo para a pista o simpático Shmoo, criado por Al Capp no final dos anos 1940, coadjuvante em histórias do Li’l Abner (Ferdinando Buscapé).
O Shmoo era um bichinho fofo, que tinha duas características: reproduzia-se rapidamente e tinha prazer em se imolar para atender os desejos das pessoas. Transformava-se, por exemplo, num imenso pernil se um faminto cruzasse seu caminho. Seus olhos podiam prover de botões a camisa velha de um pobre. Sua pele servia para calçar os descalços. Ferdinando e a namorada Violeta encontram uma família de shmoos num vale remoto e a trazem para Brejo Seco (Dogpatch no original), lugarejo miserável, onde o dono do armazém explorava a pobreza vendendo alimentos com preços extorsivos.
Em pouco tempo, os shmoos são milhares e a fome é eliminada, as necessidades básicas do povo atendidas, sem qualquer custo. O comerciante, desesperado pela falência iminente, recorre às autoridades federais, que enviam a Brejo Seco um esquadrão de mercenários para eliminar a ameaça “comunista”. Os bichinhos são fuzilados sem piedade. A paz da miséria e da infelicidade volta a reinar, o comerciante ganancioso está radiante.
Quando tudo parece se encaminhar para um final melancólico, vemos Ferdinando e Violeta caminharem furtivamente nos arredores do lugarejo, com um saco de pano nas mãos. Tinham salvo do massacre um casal de shmoos. Ferdinando os devolve para o vale de onde tinham saído e arremata, com o sotaque caipira que Al Capp reproduzia genialmente nos balõezinhos: “Ainda não estamos preparados para conviver com os shmoos. Na verdade, eles são o nosso próprio planeta, que, se for bem tratado, fornecerá em abundância tudo o que precisamos”. Um ecologista avant la lettre.
Filtrando a maçaroca. Não há um destino manifesto quando nascemos. Certo, em cada época há uma estrutura social, relações sociais e de produção da vida material determinadas por um trajeto histórico que impõe limites imediatos. No entanto, isso é apenas o pequeno quadro de um longa-metragem que está em movimento. Para ficar no exemplo mais elementar, as nações são produto da História, não existiram desde sempre e já dá para perceber os indícios de que, em algum momento, desaparecerão. Os nacionalismos, que geraram guerras e supremacias falaciosas, não são perpétuos.
Como indivíduos, isolados e conformados, não seremos agentes de transformações. Quem transforma a História é o agente coletivo. As guerras particulares entre o japonês e o americano e as desventuras do Shmoo-planeta são possíveis em sociedades que produzem e reproduzem valores egoístas, sovinas, exclusivistas, belicosos, predatórios, sem os quais elas entrariam em colapso. É na luta por mudança estrutural dessas sociedades, com a invenção de novos valores, generosos e fraternos, que se encontra a intervenção possível de cada um de nós. Que cada um encontre o seu espaço e navegue nele, sem pretensões imediatistas. A História, disse Galeano, é uma senhora caprichosa, não aceita aceleração dos tempos. Nesse barco estou desde a adolescência e vou nele até o fim.
Em época de Copa do Mundo, Eduardo Galeano pendurava uma placa na entrada de sua casa, em Montevidéu: “Fechada por motivo de futebol”. Era tão apaixonado por futebol que assistia mesmo as partidas mais irrelevantes do torneio. A ele interessavam não as bandeiras, mas as surpresas, os caprichos, os lances bizarros, os pequenos e grandes dramas que se desenrolam mesmo nas peladas de várzea. Se autodefinia como “pata de palo”, o perna de pau clássico, que só seria o último escolhido no par ou ímpar peladeiro. Foi um romântico, revoltado contra a indústria que mercantiliza todos os esportes, mas fiel à memória distante, afetuosa, bela, dos Obdulios, Zizinhos, Maspolis, Pelés, Garrinchas.
Olho em volta e não percebo clima de Copa. Onde as bandeiras, as discussões sobre a escalação da seleção brasileira, o já ganhou ou já perdeu? Posso estar enganado e o interesse vir a galope assim que os jogos começarem à vera. No entanto, há fatores que justificariam o desapego. Eles não são novos. Já não há praticamente titulares que joguem nos clubes brasileiros. A seleção, e ela não está sozinha nisso, se transformou num combinado de clubes europeus, o que une os jogadores é um acidente geográfico-linguístico: nasceram no Brasil e falam português. A cultura futebolística está multinacionalizada, não há um jeito brasileiro de jogar. A execução dos hinos deixou de fazer sentido faz tempo, ou melhor, atende a exaltações nacionalistas anacrônicas. Há mais amor ao esporte numa pelada no Aterro do que na indústria administrada pelo senhor Infantino.
Uma de minhas primeiras lembranças de Copas do Mundo é a do Chile, em 1962. Ainda moleque, misturava a rubro-negrice com o manto canarinho. A delegação da CBD, futura CBF, costumava se concentrar em alguma estação de águas mineira. A paixão clubística criava o cimento que sustentava a seleção e era tamanha que até os treinos eram transmitidos pelo rádio. Eu podia torcer pelo time reserva se este fosse escalado com jogadores do Flamengo. Nesses vaivéns se fecundavam identidades. Tudo isso desapareceu. Ou será que alguém torce pelo Totenham, pelo PSG, Liverpool, Real Madrid?
Não me venham com razões políticas para a aparente indiferença que cerca a atual Copa. Ah, mas o Catar é um país que discrimina mulheres e gays, morreram mais de 6 mil trabalhadores estrangeiros na preparação da infraestrutura para o torneio, não há direitos trabalhistas para os estrangeiros. Verdade, mas desde quando política ficou de fora de estádios e quadras? A Olimpíada de 1936 foi cancelada na Alemanha nazista? E a de 1972, no mesmo país, foi paralisada depois do massacre de atletas israelenses por palestinos? Os Estados Unidos foram punidos pela prática institucionalizada de racismo durante décadas? De volta a seu país, Jesse Owens, negro, ganhador de 4 medalhas de ouro na Olimpíada de 1936, teve que entrar pela porta dos fundos do hotel onde seria homenageado. A Copa de 1978, em plena ditadura argentina, foi cancelada? O chefão da FIFA, João Havelange, discursou, dizendo que “o mundo pode ver a verdadeira imagem da Argentina”. A poucas quadras do estádio do River Plate funcionava um dos piores centros de tortura do regime. Em suma: política é rameira velha no território esportivo. Não explica apatia.
Como em qualquer paixão, incontrolável por definição, há nuances. São conhecidos os casos de presos políticos no Brasil que, em 1970, apoiaram o selecionado mesmo sob o risco de inflar a propaganda do regime, e dos presos políticos uruguaios que, em 1980, acabaram torcendo pela Celeste no Mundialito. Tenho dúvidas se hoje repetiriam o gesto. Não pelas razões da época, mas por esgarçamento do vínculo. Dariam vivas a Neymar e seus blue caps? Trocariam o vamos todos cantar de coração, o sou tricolor de coração, o uma vez Flamengo sempre Flamengo, pelo virundu descaracterizado, fantasia esvaziada da unidade nacional?
Acho difícil ignorar o que vai acontecer nos gramados do Catar nas próximas semanas. Provavelmente assistirei pelo menos as primeiras partidas. Empolgado? Roendo unhas? Gritando gol nas janelas da vida? Não creio. Sou um tipo antiquado, seguidor da seita Reinações nos Campinhos, que não admite profanar o prazer lúdico das chuteiras improvisadas e do drible irreverente pelo exército da bola. Para azedar o cenário, ainda terei que aturar os pachecos radiofônicos e televisivos, sua mediocridade ufanista e sua histeria profissionalizada. Caramba!
À Clara Goldfarb, cujos sonhos foram muitas vezes os meus.
… Quantos livros tem o mundo/e não saciam meu apetite profundo:/quantos consumi e ainda morro de jejum (Tommaso Campanella)
Pule de dez. Os assuntos preferidos de qualquer roda de bar, nos remotos anos 70, eram Marshall McLuhan e filmes impenetráveis da Nouvelle Vague. O canadense nos inundava com novidades como “o meio é a mensagem” e “aldeia global”. Não havia manual de marxismo convencional que desse conta desses conceitos, que, olhando em retrospecto, anteciparam a era da internet. Hectolitros de chope foram consumidos sem que se chegasse a grandes conclusões. Hoje, só mesmo em circuitos acadêmicos McLuhan deve ser lembrado.
Pois foi nele que pensei quando li matéria sobre o cenário atual dos livros. Antes de qualquer comentário, faço um registro para os autos. Sou fascinado por livros em seu formato impresso. Tenho a necessidade tátil, a história precisa ser tocada, e não apenas pela imaginação. O papel, seus aroma e textura, complementam meu diálogo com o escritor. Quantas vezes me surpreendi ao comprar um livro usado, com dedicatória, que desdobro em cenários e novos protagonistas! Nessas horas, fecho os olhos e acaricio as páginas, pele generosa que me abraça.
Bem, de volta à cena do crime. Cai-me o queixo ao saber que o livro físico (detesto essa expressão) virou fetiche. Não por conteúdos revolucionários ou incensos reveladores. Nada a ver com o que disse Saramago sobre seu ofício: “Vivo desassossegado, escrevo para desassossegar”. É uma razão um tanto mcluhaniana. Ao invés de portador do conhecimento e da sensibilidade, meio de humanização, a mensagem corrompida do livro-meio passa a ser a da vulgaridade hedonista e da parlapatice vaidosa. As editoras mencionam o “fator selfie”, ou seja, tirar fotos com um livro, mesmo que o indivíduo não tenha lido uma linha sequer, multiplica likes. Cerca de 15% dos adultos (!) compram livros pelas capas. Neste território medíocre, elas precisam ser instagramáveis. É a forma virtual de sair na rua com uma abóbora pendurada no pescoço.
Uma senhora francesa, com milhões de seguidores no Instagram, recomendou que pessoas comprassem livros falsos para compor cenários de fotos. Por um terço do preço das edições reais, há apenas capas, sem texto dentro. É a atualização de um velho conhecido: o comprador de livros a metro, que simulava ser intelectual.
Nessa triste inversão de valores, vale tudo. Já há livros para armazenar perfume, outros com efeitos holográficos. Um consultor de marketing fez o lance definitivo. Disse que, para despertar interesse, o livro precisa ser sexy. Viajo até um antigo filme do Woody Allen, dividido em episódios. Num deles, o ótimo Gene Wilder descobre estar apaixonado por uma ovelha e leva a paixão às últimas consequências. Conseguem imaginar um casal formado por um livro sexy e seu consumidor, em lua de mel numa cabana charmosa? O romance só não pode ficar tórrido, sob pena de um dos cônjuges virar cinza.
Há resistência a esse mundo de aparências. Minha neta querida se habituou a frequentar livrarias desde cedo. Adora o ambiente. Perguntei o que desperta sua curiosidade num livro. Ela respondeu que vê, sim, a capa, mas já sabe que um pequeno resumo da história está na contracapa. Não se deixa subornar por um design sedutor. Mais esperança nos teus passos do que tristeza nos meus ombros, copio de Cora Coralina.
Se assim continuar caminhando a Humanidade, em que buraco vamos nos meter? Uma empresa de telecomunicações desenvolveu uma simulação do que pode se tornar o ser humano no próximo milênio. Claro que uma projeção tão ambiciosa está sujeita a alvoroços e solavancos, mas os resultados não parecem inverossímeis. Quais seriam as características deste homo tecnologicus? Radicalizando tendências já visíveis, nosso descendente seria quase corcunda (pelo uso constante de computadores), com pescoço grosso (para suportar o esforço permanente de olhar para monitores de todos os tamanhos) e mãos em forma de garra (a mesma que já observamos para segurar celulares). O aumento de exposição à luz artificial poderá tornar o crânio mais grosso e o cérebro menor. Não vi nesse exercício futurológico a possibilidade da mão espalmada, que segura, ampara, ressalta, acaricia o livro. Sem a companhia deste condensador de sensibilidades, os homens, além de corcundas, pescoções e mãos-de-garra, terão uma alma amputada.