Jeitos do jeitinho

Jeitos do jeitinho

O Antônio Fagundes foi bulir em ninho de víboras. Em suas temporadas teatrais, avisa aos navegantes que não admite atrasos. As peças começam pontualmente e os espectadores que se atrasam não são admitidos na sala de espetáculos. A regra é divulgada com antecedência e clareza, não existem exceções.

Estava o Fagundes na temporada carioca da comédia Baixa terapia. Um grupo de cerca de 50 pessoas chegou pontualmente atrasado no teatro. Foram, claro, impedidas de entrar. Como sói acontecer com cariocas da gema, habituados a ignorar horários, sentiram-se ofendidos e parte deles passou a esmurrar a porta da casa. Gente fina. Baixou dona justa no recinto e o barraco terminou.

Cartas de leitores no jornal registraram “indignação com o rigor”. Um deles não chegou propriamente a mandar o artista pastar, mas sugeriu que ele voltasse pra São Paulo. O Rio, insinuou, não é lugar pra tanta formalidade. Há nas entrelinhas das mensagens uma proposta: por que não dar uma tolerância, digamos, de uns cinco minutos? Conhecendo meu terreiro, respondo. Porque a tolerância viraria, rapidamente, casa de tolerância. Se é que me entendem. Oferecidos os cinco minutos, logo apareceriam os descansadinhos que chegariam com sete minutos de atraso. Barrados, reclamariam da rigidez. O que são dois minutos além dos cinco de tolerância? E a roleta continuaria a girar, turbinada pelo jeitinho. É a cultura do deixa pra lá, do vamos que vamos, do tudo é festa.

Suponhamos que um dos boxeurs improvisados que esmurraram a porta do teatro na zona sul do Rio estivesse em Bayreuth, na Alemanha, para o festival wagneriano anual. O que aconteceria se chegasse, digamos, 30 segundos depois da hora limite para entrada no Festspielhaus? Barrado, o que faria? Ia reclamar com o bispo? Encarar um chucrute fardado e de maus bofes? Seria diferente se, em Viena, ousasse atrasar-se para ouvir Mozart no Musikverein? Por que tem que ser diferente no nosso quintal, vulgo Casa da Mãe Joana?

Nos anos 70, um amigo de faculdade foi fazer pós-graduação no interior da Alemanha. Extasiado, mandou-me uma carta dizendo como funcionava o transporte público na cidade. Em cada ponto de ônibus, havia uma placa indicando os horários exatos em que o veículo passaria por lá. Com precisão de minutos. O resultado é que a vida andava mais suave, sem alvoroços. Cada morador programava sua rotina sem susto ou interrogação. Não tinha essa de esperar o busão em hora incerta e desconhecida. Que tédio, hein?

Dois cariocas exprimiram muito bem esse desprezo radical pelos ponteiros. Falaram genericamente, mas a carapuça cabe à perfeição no Rio. Millôr Fernandes dizia que “a pontualidade é uma grande solidão”. Sou capaz de ouvir o barquinho vai, a tardinha cai, quando leio isso. Já o Leon Eliachar, na verdade cairota com sotaque e molejo cariocas, descobriu que a pontualidade é “coincidência de duas pessoas chegarem com o mesmo atraso”.

O maestro dessa balbúrdia é o celebrado jeitinho. Fernando Sabino, mineiro devidamente acariocado, contou o que se passou com dois brasileiros numa escala no Aeroporto de Lisboa. Tinham cerca de duas horas de intervalo e resolveram dar um bordejo pela cidade. Conversaram com o funcionário local, que lhes informou os caminhos para autorizar o tour. O primeiro seria passar por uma burocracia pesada, que tomaria praticamente todo o tempo de que dispunham. O segundo seria o “processo brasileiro”. E o que seria isso?, indagaram os amigos. “Bem, o “processo brasileiro” é ir saindo como quem não quer nada, tomar um táxi, ver a cidade e depois voltar”. Como história é divertido, mostra a malandragem em ação. Quando, porém, transporto esse tipo de comportamento para a vida em sociedade, não acho tanta graça.

O que começa com uma impontualidade de aparência inocente, espalha-se, numa cadeia de eventos desrespeitosos, para todas as áreas da cidade. Desde a ocupação descontrolada das calçadas por bares e restaurantes até o despejo de lixo em espaços públicos, passando pelas filas furadas e pela barulheira a qualquer hora e em todos os lugares. A regra geral é: não há regra. E, como se dizia, em outros tempos, esculhambatus est.

Ah, antes que me esqueça. O Fagundes tá certo.

Abraço. E coragem.

Caras bactérias

Caras bactérias

Final dos anos 40. Numa casa assobradada na rua Moura Brito, Tijuca, algumas adolescentes se movimentavam para criar o primeiro fã-clube do país. O Sinatra-Farney Fan Club reuniu, durante alguns anos, um público jovem que tinha em comum o gosto não apenas por Frank Sinatra e Dick Farney (nome artístico de Farnésio Dutra, criador de um estilo intimista e aveludado de cantar, emplacador de sucessos como Copacabana e Tenderly, e irmão do Cilênio, o Cyll Farney das chanchadas), mas por várias correntes do jazz. Certos frequentadores, mal saídos dos cueiros, como Johnny Alf e João Donato, seriam, não muito tempo depois, sócios importantes de um movimento que influencia ainda hoje músicos e apreciadores da boa música. A Bossa Nova.

Naquela época, era muito difícil ter acesso a discos importados, essenciais para atualização do que se produzia no jazz e na carreira do Frank. Em grande parte, os discos ainda eram gravados em 78 rpm, em material frágil, quebrável, que dificultava o transporte sem o perigo de danificar o bolachão redondo. O jeito, ou melhor, o jeitinho, era apelar para amigos que viajavam. Apelar para as asas amigas da Varig ou da Panair do Brasil. Bom trânsito com comissários de bordo, pilotos e aeromoças renderam, ao longo do tempo, bolachas saindo do forno com o som de Miles, Gillespie, Monk, Brubeck, Mingus, Ellington, Desmond, Blakey, Coltrane, Adderley e mesmo do insuportável Dolphy.

A dificuldade de importar valorizou um ofício. A turma do high society e os donos de boates e inferninhos tinham seus contrabandistas preferidos, que encontravam caminhos desimpedidos para trazer uísques escoceses. No Centro da cidade, não era difícil encontrar camelôs gritando “ingresa, ingresa, ingresa!”. Era assim que apregoavam, antes da chegada dos rapas, as caixinhas acinzentadas com a gilete inglesa Wilkinson. Nunca descobri se eram realmente melhores do que as nossas legítimas blue blade, com as quais penei para aparar as primeiras penugens e apontar lápis. Será que alguém ainda usa lápis?

O fascínio pelo made in USA desidratou aos poucos com a multinacionalização das fábricas. Já não se encomenda pasta Crest aos que viajam para a Disney. Por isso, fiquei surpreso quando minha neta pediu à tia, que mora no Grande Irmão do Norte, um microscópio. Era, aliás, uma surpresa múltipla. Para que diabos ela queria xeretar o mundo invisível? Será que não temos por aqui um aparelhinho de boa qualidade? Na minha meninice, existia um jogo, o Polyopticon, que permitia montar pequenos binóculos, lunetas e microscópios. Era sofisticado e, oh, inacessível aos bolsos anêmicos.

Pequena pausa. Na idade dela, eu pedi um globo terrestre de metal como presente de aniversário. Os amigos caçoaram à tripa forra. Por que não uma bola Pelé (“com ela você ainda vai ser um campeão”), um jogo de futebol totó, um Banco Imobiliário (ninguém podia antecipar, àquela altura, a bolha especulativa norte-americana de 2008), um revólver de espoleta da Estrela, botões de galalite ou bolas de gude? A única resposta que tenho é que meu corpo frágil já tinha sido abduzido pela adultice.

Sem querer, a netinha foi vanguardista. Dias depois da chegada do microscópio, um jornal noticiou que somos, os humanos, 50% bactérias. Um microbiologista afirmou que temos cerca de 23 mil genes humanos. Entretanto, nossos micróbios, os que habitam nossas fronteiras mais íntimas, podem abrigar cerca de três milhões de genes. Entre esses microorganismos, que vagam livres dentro do nosso corpo, as bactérias são o grupo mais comum. Como se não bastasse saber que a vida nasceu de acasos, caldos orgânicos acumulados em milhões de anos e poeiras estelares, agora tomamos ciência de que nada mais somos do que pilhas de matéria viva invisível a olho nu. Ser arrogante, quem há de?

O pingo de gente, cada vez menos pingo e mais nascente de inteligência aguda, vai ter acesso a esse universo em perpétuo movimento e que, à sua maneira, nos constrói e define. Penso em agendar um horário para que ela descubra mais sobre minhas entranhas. Estarão meus micróbios felizes, em crise existencial, reivindicantes? Planejarão um ataque coordenado aos meus Três Poderes ou aceitarão, democraticamente, minhas inseguranças e desrazões? Diga lá, meu querido oráculo da microscopia.

Abraço. E coragem.

Menos luz, por favor!

Menos luz, por favor!

Tenho pensado bastante no Veríssimo. O Luiz Fernando, não o Érico. Aliás, pensado e lido. A maratona de quase setecentas páginas de crônicas (Veríssimo Antológico, editora Objetiva) me fez lembrar da folclórica timidez do gaúcho suave. A produção oceânica revela, ou esconde?, o “tímido veterano”, que, num texto publicado pelo Estadão em 2018, ensina alguns truques para lidar com o terror da presença do Outro, a perspectiva de ser alvo de olhares, julgamentos e, neurose das neuroses!, punições.

Como no Veríssimo, minha timidez tem grande quilometragem. Já cheguei a admirar o tatu-bola. Ameaçado, ele se enrola e cria uma fronteira esférica com o mundo externo. Desde muito cedo, aperfeiçoei estratégias tatubolianas para atenuar a aflição das convivências. Com James Fenimore Cooper fui Uncas Hawkeye, com Robert Louis Stevenson encarnei Long John Silver, com Monteiro Lobato virei Marquês de Rabicó, com Alex Raymond me apoderei da nave do Flash Gordon e rompi barreiras galácticas, com Edgard Rice Burroughs embrenhei-me em densas e irreais florestas. As páginas, as letras e a imaginação me transformaram em muitos Eus. O tímido se diluía no caldo fervilhante de pradarias, naus, sítios, espaçonaves, selvas.

Uma pequena mudança de rotina faz qualquer tímido tremer nas bases. Precisamos, os companheiros do velho ofício do recolhimento, de muita e segura previsibilidade. É nossa sina. Certa vez, início da adolescência e tratamento ortodôntico em curso, um ônibus pôs à prova meu status de tímido on the run. E fui reprovado.

Antes de entrar na encrenca, é bom lembrar que o tratamento de protusão dentária naquela época nada tinha a ver com os caquinhos multicoloridos que se usam atualmente. Eram peças metálicas nada graciosas, que se apertavam semanalmente. Os usuários eram ridicularizados pelos amigos e ganhavam apelidos pouco generosos. O meu foi Trilho de bonde, que me acompanhou por mais de ano. Óleo de rícino para o tímido.

Voltando à cena do crime. Toda semana eu comparecia ao consultório dentário para ajustar o aparelho. A salinha ficava no Centro do Rio e o som do relógio da Mesbla, não longe dali, dava ritmo e limites à sessão. Na volta para casa, um trajeto que não durava menos de quarenta minutos, eu pegava um ônibus no Passeio Público e passava por regiões empobrecidas antes de chegar na Tijuca. Uma das referências era um antigo prostíbulo, à época chamado de zona de baixo meretrício. Pensava o que seria o alto meretrício, mistério que muitos anos depois foi desvendado. Ele existe, mora em Brasília, é negócio próspero e tem filiais.

Um dia, já dentro do ônibus, percebi que o motorista mudava o itinerário. Entrei em pânico. Aonde me levaria? A Maracangalha? A Jaçanã? Ao deserto da minha desesperança? Não hesitei. Menos de dois pontos depois da partida, acionei a parada. O motorista estranhou, começou a explicar que uma obra o fez desviar do trajeto de sempre, mas logo retornaria ao normal. Adiantou? Que nada. Meus ouvidos estavam selados pelo medo ao desconhecido. Saltei rapidamente e fui quase correndo à sede da União Metropolitana dos Estudantes, onde trabalhava minha mãe, ali pertinho.

Para quem não sabe, o restaurante do Calabouço, bandejão que servia refeições a preço subsidiado, ficava ao lado da UME. Lá, em 1968, foi assassinado pela polícia o estudante Edson Luís de Lima Souto. Filei a boia e voltei para casa com minha mãe. A humilhação de ficar sob a asa da adulta foi preferível para o adolescente. A timidez travou a língua do dentuço. Aceitar uma simples informação no ônibus reporia a ordem natural do universo, mas era uma hipótese inconcebível.

Escrevo por muitas razões. Uma delas é estruturante. Foi a forma que encontrei para escorrer minhas inseguranças, outro nome da timidez. Nos textos, sou faz-tudo: roteirista, cenógrafo, diretor, protagonista e, sobretudo, iluminador. Quando digito cada ponto final, tenho a impressão de que voltei no tempo, aceitei a explicação do motorista, sentei no banco e deixei a vida me levar. No fundo, e ofereço a ideia ao Veríssimo (saudades de você, irmão cronista), gostaria de fundar um movimento anti-Goethe. Para quem não sabe, o grande escritor alemão, no leito de morte, teria dito o seguinte, suas últimas palavras: “Mehr licht (mais luz)!”. A confraria de tímidos protesta com veemência. Queremos menos luz!

Abraço. E coragem.

Sombras, medos e outros babados

Sombras, medos e outros babados

(Esclarecimento: esta crônica ficou pronta dois dias antes da invasão das gangues fascistas a Brasília)

Em Londres, fazia um frio de assustar esquimó. Era o Natal de 1937 e a liga inglesa de futebol programou para aquele remoto 25 de dezembro o jogo do Chelsea contra o Charlton Athletic. Para adornar o match e honrar a memória de Conan Doyle, baixou no estádio Stamford Bridge uma neblina atrevida. A baixa visibilidade recomendava que o juiz cancelasse o prélio, mas sua senhoria o manteve.

Fim do primeiro tempo, um gol para cada lado. Na volta ao gramado, as equipes mal conseguiam enxergar a bola. Sam Bartram, goleiro do Chelsea, andava tranquilo dentro da pequena área quando perdeu de vista os companheiros. Achou que seu time estava massacrando os players adversários, sem dar chance de contra-ataques. Era uma solidão gostosa, rara na vida dos garda-valas, sempre assediados e tensionados.

A partir de certo momento, porém, Sam começou a estranhar. Tudo bem que não visse os zagueiros, mas sem barulho também? Nem um “deixa comigo”, “olha o ladrão!”, “segura o homem!”? E cadê a torcida? Tinha feito voto de silêncio coletivo? Naquele cenário fantasmagórico, não se atrevia a ir até o limite da grande área. De repente, a surpresa.

Um vulto se aproximou lentamente. Era um policial. “Que diabos você está fazendo aqui? O jogo foi interrompido há uns 15 minutos. Não há mais ninguém no estádio”. Atordoado, Sam se encaminhou lentamente ao vestiário. Lá, foi recebido por uma salva de gargalhadas dos companheiros. Tinham resolvido sair em silêncio do gramado e deixá-lo sozinho na neblina. Acho que, no final, tudo acabou num pub. Bloody football! Bloody joke, indeed.

A jornada singular de Sam Bartram me ofereceu, de bandeja, a metáfora que procurava para a conversa de hoje. A sensação de que estamos envolvidos por uma neblina, cercados por figuras catatônicas, é desconfortável. Durante anos, ao menos desde 1985, alimentamos a ilusão de que o país entrara num período virtuoso e irreversível de aperfeiçoamento civilizatório. Com todos os enormes desequilíbrios estruturais, e a meu ver insolúveis, inerentes ao capitalismo. Nos últimos 4 anos, caímos na real. Emergiu um portentoso exército zumbi, negacionista, rancoroso, autoritário, supremacista. Eles não desembarcaram de uma nave espacial, sempre estiveram entre nós, e representam, hoje, cerca de um quarto de toda a população. Esse fato desconcertante mereceu uma pergunta-chave do presidente chileno, Gabriel Boric: “Uma pergunta que temos que nos fazer como esquerda é por que, em que momento, a ideia de rebeldia foi apropriada pela direita no mundo. E como podemos voltar a falar para as grandes maiorias, e não apenas para nichos separados”.

A sensação de orfandade política destes miasmas é patética. Não conseguem acreditar que seu projeto totalitário foi, ao menos provisoriamente, derrotado. Na terra do Mickey, acompanhando seu guru aloprado, sofrem alucinações. Um deles, chegou a suspeitar que as imagens da posse do Lula foram “montagens da mídia”. Como os medievais que, até hoje, duvidam que o homem foi à Lua. Outro, abraçado aos escombros do líder deprimido, dizia não acreditar que o Lula “estivesse subindo a rampa”. Continuam sonhando com um anjo justiceiro, vestido de verde-oliva, que virá para “restaurar a ordem”. Um pai-tirano que dê algum sentido às suas vidas miseráveis.

O filme 3 Cristos, com ótimos atores, retrata uma história real. Nos anos 50, o psiquiatra Alan Stone chega a uma instituição que interna esquizofrênicos, disposto a experimentar métodos mais humanos de tratamento. Depois de muitas frustrações e uma tragédia, ele diz se sentir “culpado por subestimar o enigma que é a mente humana”. Foi no doutor Stone que pensei ao acompanhar os desatinos dos micróbios que acampam nas portas de quartéis. Tenho sérias dúvidas de que são recuperáveis. É uma doença coletiva com muitas origens e persistência siderúrgica.

Há monstros prestes a estrear e encorpar a névoa. No dia 1 de fevereiro, tomam posse deputados e senadores eleitos em outubro passado. Muitos deles com agendas ultrarreacionárias. Não bastará um governo bem-intencionado, que olhe para as camadas mais exploradas da população. Sem mobilização popular, sem participação política ampliada, sem um projeto de ultrapassagem do modelo especializado em produzir neblinas, continuaremos a desovar noites e sombras, pesadelos e aberrações. Monstros com sete vidas e muitas mortes.

Abraço. E coragem.

O “c” da questão

O “c” da questão

Pode soletrar, por favor? Era a senha para começar a confusão. Não adiantava eu dizer que era Jacques com c antes do q. Quase invariavelmente, e por mistérios jamais desvendados, o q era grafado como k. Milagre da multiplicação de nomes. Estou habituado com isso desde que usava Vulcabrás com meias brancas, assistia Jim das Selvas na TV e não perdia as matinês do Metro Tijuca. Já me chamaram de Jackson, e sou frustrado por nunca ter tocado pandeiro; Jack, homenagem involuntária ao Nocaute ídem, antigo e simpático massagista da seleção brasileira; Jax, como sugestão para um novo detergente na praça. Jakes, Jackes, Jaks, a lista é gorda e nela sempre cabe mais um. Jamais caí na tentação de acrescentar letras no nome para desenrolar a vida, conforme sugerem certos tradutores do Além. Já imaginaram o furdunço de um Jahcques ou Jhacques?

Crente que minha árvore genealógica tinha um galho comment allez vous, frère Jacques, descobri que a geografia era mais a leste. Meu bisavô materno, vivente em Mlawa, na Polônia, se chamava Jacob. A parentada se inspirou nele, colocou as letras mlawianas no caldeirão reconstituinte da Emília e de lá saiu minha certidão de nascimento, respingando a falsos Brel, Tati, Loussier e Rivette.

Tenho uma foto, anciã de quase um século, deste bisavô. Era um tipo austero, usava óculos professorais, com olhos indagadores (ou seriam apenas cansados?) e uma barba portentosa, da qual sempre tive inveja. No verso da foto, há um pequeno texto em ídish, com letras firmes mas de leitura quase impossível. Certa vez, pedi ajuda de uma pessoa familiarizada com o idioma para decifrar o texto. Espreme daqui, conecta dali, o máximo que se extraiu foi uma breve saudação de ano novo ao filho Abraham e uma ordem a ele: não se esqueça de colocar os tefilin (filactérios, que os judeus religiosos colocam diariamente no alto da cabeça e no braço esquerdo, durante as orações matinais).

Não faço ideia do destino de Jacob. Seu filho saiu da Polônia nos anos 20, fugindo de uma crônica crise econômica. Foi para a Argentina e lá construiu uma vida estável como mascate. Ganhou cidadania hermana, voltou para a Polônia para casar com Brucha, minha avó, e, ao invés de retornar para Buenos Aires, fez bate-pronto na capital portenha e desembarcou no Rio de Janeiro em 1930. Por que não ficou na Argentina, onde tinha amigos e documentação legalizada? Denso mistério. Não tenho pistas para entender e, por isso e aceitando a sugestão de um amigo, invento uma história. Abraham teria conhecido uma dançarina de tango numa milonga. Tiveram um caso caliente e a moça engravidou. Daí, engrenou um adiós muchachos compañeros de mi vida e se mandou para terras do Zé Carioca. Voltasse para Buenos Aires, não teria bandoneon que segurasse a fúria da señorita. Como diriam os italianos: se non è vero (e conhecendo a pouca disposição aventureira do meu avô, pé de chumbo na certa, passa longe de vero), è ben trovato (pelo menos para contar uma boa história).

Com um roteiro torto, os nomes múltiplos acertaram num alvo: eu sou muitos. A gente vai aprendendo aos poucos que a vida de um homem se define em muitos verbetes, que precisam de atualizações frequentes. De todo jeito, melhor Jacob, Jacques ou Jackson. Já imaginaram se meus pais tivessem resolvido homenagear os Irmãos Grimm? Hoje, eu poderia ser o Rumpelstiltskin (que conheci no Tesouro da Juventude). Que amolação, hein?

Abraço. E coragem.

Jacques (com c antes do q)

Incas Venusianos no planeta Brasil

Incas Venusianos no planeta Brasil

Parecia ter nascido com pijama e chinelo. Rosto esculpido em tristeza, vagava sozinho pelo cimento fecundo da vila. Às vezes, dava as caras sua mulher, gêmea da Mãe Chucruts (quem leu Sobrinhos do Capitão sabe de quem estou falando),  sempre de avental, cabeça baixa, sorriso raro. O filho, recruta do exército, igualmente silencioso e triste, usava o corte de cabelo reco que todos replicávamos à força. A família do seu Gama, de rotina opaca e destino penoso, acompanhou palmo a palmo minha meninice. Era assim que as coisas deveriam ser?

Ouvia falar de futuros pela voz autorizada do astrólogo Omar Cardoso, oráculo dos sem futuro. O bordão “todos os dias, sob todos os pontos de vista, vou cada vez melhor” não combinava com o que o Menino via. Seu Gama e sua tribo melancólica, “tia” Marília, sempre à espera de uma relação amorosa que nunca vinha, o demitido pela fábrica de margarina, desempregado crônico, a mãe solteira que consolava o filho com gravações de um pai ausente. Cada vez melhor? Seria uma conspiração cósmica dos astros contra as interpretações do Cardoso? Andaria embaçada a lupa premonitória do feiticeiro?

Nunca apelei para simpatias, leitura de mãos, cartas, búzios, borra de café, ervas milagrosas, vidas passadas. Não sei se já repararam, mas o léxico dos futurólogos é uma declaração de crença incondicional, e tola, na natureza humana. As “previsões”, recentemente rebatizadas como “tendências”, não nos enxergam como seres complexos, portadores de sentimentos antagônicos em luta permanente. Seríamos o adiamento cotidiano e necessário de virtudes que precisam apenas ser liberadas. Onde é que já se viu um horóscopo antevendo, por exemplo, que os fulanos do signo tal vão, em massa, aproveitar uma oportunidade e esganar o vizinho barulhento e inconveniente? Ou incinerar o cãozinho pigmeu, ameba quadrúpede, que não para de latir? Ou ainda retaliar demissões injustas jogando pó-de-mico em cadeiras patronais? Quem sabe, numa homenagem póstuma ao Carlos Heitor Cony, darão a pista para, finalmente, se descobrir os ossos da Dana de Teffé?

Omar Cardoso, Zora Yonara, a turma que enfeita os postes dando garantia de que “traz seu amor de volta em três dias”, são românticos contadores de histórias perto dos pretensiosos que, hoje, dão verniz “científico” às previsões. Há de tudo, a cada minuto, homessa!, nasce um otário.

Fiz um pequeno teste. Sei que nasci numa sexta-feira. Certa senhora que assina coluna semanal em jornal de grande tiragem, falando sobre “espiritualidade”, fez uma lista de características comuns a pessoas que nascem em cada um dos sete dias da semana. O que coube a mim e aos milhões de sexta-feirinos neste latifúndio astral? Primeiro, a grande revelação. Somos de Vênus. O que isso quer dizer? Que sou uma parte extraviada, Auíca!, dos Incas Venusianos? Ou uma vastidão inóspita, imprópria para respirar, vazia de impulsos vitais? Adiante. Minhas cores indicadas são verde e rosa. Protesto! Sou portelense. Lá também diz que adoro festas, tenho bom humor imbatível, só me engajo nas melhores ações. Para tanto acacianismo, tenho uma coisa a declarar: errou de A a Z.

A Terra já tem 8 bilhões de habitantes. Só posso atribuir à insegurança, a mesma dos nossos ancestrais nas cavernas, a crença em patacoadas astrológicas. É duro não saber de onde viemos e para onde vamos. Vejam vocês, entre os 8 bilhões de terráqueos, há cerca de 1 bilhão vivendo em favelas. Pois nossos valorosos adivinhadores/intérpretes garantem que, por terem nascido em determinado dia e horário, o favelado do Buraco Quente tem a mesma perspectiva existencial do burguês da Vieira Souto. Influência das condições materiais, das condições históricas de exploração do trabalho humano, das alternâncias na política? Para com isso, ô materialista antipático. Deixa a gente se iludir um pouquinho. Só um pouquinho…

Pensando bem, pelo menos uma das características reveladas pela, como direi, espiritualista, faz algum sentido. Em certas e mui especiais ocasiões, tenho bom humor. Por isso, encerro citando Millôr Fernandes, profissional do ramo (não do espiritualismo, mas do humor e da fina ironia): “Quando eu era criança, o futuro ia ser radioso, o futuro ia ser limpo, o futuro ia ser feliz, o futuro ia ter televisão, que seria uma maravilha. Agora o futuro é a ameaça da bomba, a ameaça da fome, a ameaça da superpopulação e da poluição. Não se faz mais futuros como antigamente”.

Abraço. E coragem.