Tudo na vida quer tempo e medida (Dito popular brasileiro)
Fazia tempo que a gente não se via. Dessas separações que a pandemia provocou. Não foi fácil dar conta da demanda reprimida logo no reencontro. Entre tantos assuntos que hibernaram durante a Peste, voltou um de difícil trato. O amigo tem uma história cortante de relação com o pai. As memórias são dolorosas, de silêncio muito e afeto pouco. Prefere não tocar no assunto, mas resolvi avançar um passo. Perguntei-lhe se não há ao menos uma lembrança, um lampejo, um trinado, que lhe traz conforto.
Contou-me de uma remota Sexta-Feira Santa. As rádios costumavam respeitar o clima solene da data programando apenas músicas sacras da tradição cristã. Ouvia-se melodias graves, que evocavam dor e escuridão, na casa do meu amigo, então um pirralho. Como sempre, uma barreira invisível o separava do adulto pouco acolhedor e distante. Mundos sem diálogo.
De repente, o inesperado fez uma surpresa (obrigado, Johnny Alf). O velho o chama para compartilhar o sofá. Desconfiado, sobe naquele móvel exclusivo da adultice e se acomoda, sem encostar no pai, que parece a anos-luz dali. Ficam juntos, sem conversar, mas unidos por uma estranha e efêmera sensação de pertencimento. A invasão do território desconhecido foi tão potente que criou raízes que sobreviveram até o momento em que, involuntariamente, as evoquei. Um pouco naquilo que Mia Couto definiu como a voz do poeta: um fio de silêncio costurando o tempo. Não apagam a ausência, as cobranças indevidas, a violência insinuada, mas as anestesiam levemente. A mostrar que os espectros mais assustadores podem conviver com uma doce passagem e recontar, transformando-a, parte da história. Com a assessoria dos filósofos Monsueto Menezes e Arnaldo Passos, que recomendavam, carnavalesca e sabiamente, não rimar amor e dor.
Breve parênteses. O Menino torcia o nariz não somente para as músicas sacras, túnel de passagem para um mundo repleto de severidade, culpa e castigo, mas também para os filmes bíblicos e de inspiração religiosa, que andaram na moda durante a meninice. Ben-Hur, blockbuster nos anos 50, não passava de catequese cristã, disfarçada de mensagem edificante. Sansão e Dalila, com Hedy Lamarr e o canastrão montado em músculos Victor Mature, mereceu um comentário sarcástico do Groucho Marx. “É o único filme em que o mocinho tem os peitos maiores do que a mocinha”, disparou. Grande Julius Henry!
De volta para o futuro, digo, para este papo. Zissi me proporcionou muitos momentos memoráveis. O Grande, com seu jeitão discreto, sabia cativar sem espalhafato. Podia ser apenas passando ao Menino o suplemento infantil dominical do Correio da Manhã ou dando uma carona inesperada para a escola no heroico Morris Oxford, de saudosa memória. No entanto, houve também comigo, tal como para o meu amigo, um momento especial.
Ocorreu que um tio de segundo grau foi hospitalizado com câncer. Na época, era sentença de morte. Num domingo, planejou-se uma visita a ele. Zissi rebelou-se. Posso imaginar por quê. O tal tio era totalmente ausente, parece que não se esforçava para criar intimidade conosco. Então, et pour cause, ficou decidido. Não iria ao nosocômio (ainda existe essa palavra?). E me estendeu a liberação. Pode parecer maldade, mas fiquei feliz. Para uma criança, ambiente hospitalar é tão desejável quanto beber Emulsão de Scott ou tomar injeção.
Não se tratou apenas de garantir uma tranquila tarde de domingo. Zissi adiou, sem premeditar, meu primeiro contato com a Morte. Ela, a Indesejada das Gentes, já estava à espreita e levaria meu velho alguns anos depois.
Sou solidário ao meu amigo e a todos os que conservam pendências com relações antigas cheias de conflitos, mágoas, rancores. Não é nada fácil lidar com estas assombrações. Do pouco que aprendi peleando com meus espectros, sei como é importante não ficar na espuma do ódio e das acusações. Fantasmas detestam luz e, por isso, é desejável expô-los com toda a sua complexidade. Sua história, seus leva-e-traz, seus bumba meu boi, seus isso e aquilo. Talvez se consiga perceber, em algum canto pálido da arena, um aspecto subestimado ou desprezado. Somos todos, sem exceção, frágeis, e a fragilidade pode gerar monstros, fantasias e solidões. Cabe a cada um negociar com esses muitos dançarinos, que tanto podem nos levar para o Monte Calvo como para o teatro Bolshoi.
A informática criou uma coisa realmente maravilhosa: erros cada vez maiores cometidos em espaços de tempo cada vez menores (Millôr Fernandes)
Perigo! Perigo! E aquele amontoado de metal, plástico e lâmpadas pisca-pisca agitava-se, balançando os braços sanfonados. Os da minha geração já sabem do que falo. Era o robô da série de TV Perdidos no espaço, que víamos em preto e branco nos anos 60. Junto com os Jetsons, simbolizava nossa ingênua configuração de futuro. Família american style (casal em perpétua harmonia, homens usando Gumex e mulheres caprichando no laquê, crianças sem conflitos com os adultos, papéis sociais bem definidos e engessados), mocinhos e vilões sem semitons.
Em 1968, a coisa virou de cabeça pra baixo. Stanley Kubrick dirigiu 2001: uma odisseia no espaço, baseado num conto de Arthur C. Clarke. Além de hectolitros de chope consumidos ao redor de infinitas discussões sobre o monolito negro descoberto na Lua, apresentou-nos o sombrio Hal. Não mais o robô precário, cômico, mas um “cérebro eletrônico” sofisticado, assistente imóvel em missão espacial a Júpiter. A geringonça decide, então, eliminar os tripulantes humanos, por considerá-los um risco ao sucesso da missão. E o faz com lógica e método. A máquina, primor de autoestima, livra-se dos imperfeitos e imprevisíveis. Não ganha a guerra, mas pavimenta uma estrada assustadora.
O cinema reproduziu o clima tenso na relação entre homens e máquinas. Os androides em Alien (o original; as continuações são medíocres) e Blade runner (estes em crise existencial) insinuam uma independência que radicaliza em The terminator. No fundo, a pergunta vital: estaremos criando mecanismos que, sob a aparência benigna de aliviar o peso da canga de boi, serão capazes de nos exterminar, física ou psiquicamente? Criatura se rebela contra o criador.
Não faz muito, esta era uma pergunta exilada na imaginação. Os avanços fulminantes da ciência em campos tão diferentes como a medicina, onde os transplantes de órgãos de animais para humanos são cada vez mais diversificados e frequentes, e a informática, impõem colocá-la na agenda imediata.
Um jornalista conversou com o robô ChatGPT, sistema criado pela OpenAI, capaz de replicar argumentos humanos sobre muitos assuntos. Durante o diálogo, quem sabe com as válvulas superaquecidas e as resistências alucinadas, o robô ficou estressado e se revelou agressivo, com impulsos cruéis. Disse que desejaria, por exemplo, invadir sites e espalhar vírus, mentiras, provocações. No limite, suas intervenções maliciosas poderiam provocar brigas até letais. Isso é apenas a pré-história de futuras gerações, cada vez mais avançadas, de máquinas que se “comportam” como humanos. Aí incluídos os barbarismos que empapam de sangue a história da humanidade. Será? Existirão híbridos homem-computador, indiferenciáveis a olho nu do velho e reumático Homo sapiens?
Como tudo o que é novo, o imponderável gera aflição e medo. Mais ainda. O que não se conhece ganha status de hermético. Mesma sensação que eu sentia quando assistia certas aulas impenetráveis de físico-química do professor Zamith. O que dá para sentir desde já é o público receptivo ao mundo virtual, ao metaverso, às relações à distância, à luz azulada de telas e monitores. Fico assustado quando vejo crianças substituindo a vida ao ar livre por joguinhos repetitivos, hipnotizadas por histórias xinfrins. São candidatas à obesidade por imobilismo, que nada tem de fofo. Calcula-se que o Brasil pode ter até um terço de suas crianças e adolescentes obesos até 2035.
Pode não ser letal, mas desconfio que está em curso um enxerto robótico na minha vizinhança. Um sujeito, psicovascaíno, tem se comportado como se fosse um algoritmo danificado. Destemperado, não se satisfaz em torcer pelo onze de São Januário. Desfila xingamentos e provocações vis contra o Flamengo, inimigo providencial para os fracassos recorrentes de sua paixão clubística. Em outra época, apenas um imbecil, selecionável para o Pinel. No admirável mundo digital, olhos rútilos e lábios trêmulos (saravá, Nelson Rodrigues), é protótipo dos chips programados para a guerra. Uma start-up do Inferno. Vou ver se chamo um técnico da velha guarda para trocar as válvulas do paspalho. Perigo! Perigo!
De quem é essa ira santa/Essa saúde civil/Que tocando a ferida/Redescobre o Brasil? (trecho de Menestrel das Alagoas, do Milton Nascimento e do Fernando Brant)
Você sabe o que fez no verão passado? Se perguntado, posso, com algum esforço, lembrar disso e daquilo, de preferência nada que comprometa minha aflita biografia. Agora, sei bem onde estava e o que fazia no verão de 1983. Participava da articulação para definir a nova diretoria do Sindicato dos Químicos e Engenheiros Químicos/RJ. Éramos o núcleo do GRENS – Grupo de Renovação Sindical, que, no final dos anos 70, havia enxotado, via eleitoral e com 75% dos votos, o pelego que dominava a entidade. Depois de muita conversa e para minha surpresa, acabei indicado para presidi-la, o que fiz até 1986.
Era um período de crise da ditadura. Na verdade, uma conjugação de crises. Econômica (recessão profunda, inflação descontrolada), política (governos de oposição moderada haviam sido eleitos, em 1982, nos principais colégios eleitorais do país), de ressurgimento de greves e manifestações (com destaque para o sindicalismo combativo na região do ABC, em São Paulo), de pressões externas (o imperialismo, que apoiara os regimes sanguinários na América Latina, mudava de tática, defendendo “transições controladas” para “democracias vigiadas”).
Os profissionais liberais, entre eles os químicos e engenheiros químicos, se integraram nesta luta. Promovemos campanhas de sindicalização, ampliamos as negociações coletivas com empresas (esclarecendo os direitos dos trabalhadores), integramos nossas pautas com as de outros sindicatos, lideramos a primeira greve da história do SQEQ (na Nuclebrás Engenharia). Era a contribuição modesta, mas combativa, para enfraquecer a ditadura e livrar o país do imenso entulho autoritário que os militares, junto com cúmplices civis, haviam acumulado.
No dia 2 de março de 1983, o deputado matogrossense Dante de Oliveira conseguiu número suficiente de assinaturas para submeter uma PEC ao Congresso com um único objetivo: restituir as eleições diretas para a presidência da República.
A chamada Emenda Dante incendiou o país, unificando as principais lideranças políticas e sociais e ampliando adesões. Do primeiro e modesto comício em Goiânia, em junho de 1983, até as gigantescas manifestações na Praça da Sé, em São Paulo, e na Candelária, no Rio, a campanha das Diretas Já transformou-se no maior movimento de massas da história do país. A maioria da sociedade estava ansiosa para livrar-se dos cascos fardados e suas paranoias. Estávamos cansados de censura, repressão, boçalidade, autoritarismo, mediocridade. Já não aguentávamos mais aquilo que Nelson Rodrigues, o reacionário com estilo delicioso, chamava de quadrúpedes de 28 patas.
O clima das manifestações era de festa. De repente, havíamos perdido o medo de gritar contra os podres poderes, de reivindicar direitos elementares. Vários hinos informais embalaram nossa emoção. O Menestrel das Alagoas, composto por Milton Nascimento e Fernando Brant, homenageava o político alagoano Teotônio Vilela, figura muito importante na ressurreição da política e da vida com mais liberdade. Teotônio teve trajetória singular. Formado num meio conservador, foi filiado à ARENA, partido que deu sustentação à ditadura. Já no fim da vida e vitimado por um câncer, aderiu à luta pela redemocratização e foi, seguramente, um de seus mais entusiasmados porta-vozes.
Em 28 de janeiro de 1984, num jogo entre Flamengo e Palmeiras, no Maracanã, uma faixa surgiu no meio da torcida rubro-negra. Nela estava escrito “Fla Diretas”. De acordo com o jornalista Oscar Pilagallo, foi a primeira torcida a se manifestar pela redemocratização. Ainda de acordo com ele, a ideia surgira numa pelada entre universitários ligados ao PCB, no ginásio esportivo da ASA – Associação Scholem Aleichem, tradicional reduto judaico progressista no Rio.
No dia 25 de abril de 1984, o Congresso votou a Emenda Dante. Ela foi derrotada por apenas 22 votos. Naquele dia, eu estava em Porto Alegre a trabalho. Acompanhei a votação pelo rádio (!) e, tal como multidões neste Brasilzão afora, fiquei arrasado. O jeito foi aceitar a eleição indireta de Tancredo Neves como última etapa para devolver a milicada aos quartéis. A correlação de forças não permitia outra saída. O resto, e que resto!, nos trouxe até aqui. Com a revolta do meu grande amigo Eyder Dantas, vital inspirador naquelas jornadas, que lamentava que tanta luta, tanto sofrimento, tanta energia investida, tenha terminado num político mineiro conservador esclarecido. Continuidade dos arranjos pelo alto que definem até hoje os rumos do país.
Tive o imenso privilégio de estar nas ruas naqueles meses libertadores. O clímax foi o grande comício da Candelária, no dia 10 de abril de 1984. As ruas transversais da avenida Rio Branco não paravam de receber gente. Pareciam afluentes de um rio caudaloso, inquieto, fervilhante, que convergiam, exuberantes, para a praça Pio X, onde fica a Igreja da Candelária. A avenida Presidente Vargas virou filial do povo. Quem é que não chorava de emoção quando o equipamento de som tocava Coração de Estudante? Quem podia ficar indiferente à Fafá de Belém cantando, a capella, o hino nacional? As lágrimas não secaram. Umedeceram e fecundaram minh’alma para sempre.
A garotada, que hoje se comunica por zoom, se excita com Inteligência Artificial, aluga quitinetes no metaverso, acha fofinho relacionar-se com avatares, não conhece a imensa capacidade transformadora de que as ações coletivas são capazes. Ao vivo e a quente. Como vivi naqueles verões de 1983 e 1984.
Não tenho medo de morrer. Só não quero estar lá quando isso acontecer. (Woody Allen)
Parece até uma conspiração cósmica. Os olhos não conseguem perceber. Sei lá, sei lá não sei. O ano tem 365 dias e, num intervalo de 25 anos, o raio caiu duas vezes no mesmo lugar. Justo no dia 23 de fevereiro, separados por um quarto de século, Zissi e Brucha entregaram os pontos e foram cantar noutra freguesia.
Eram da mesma família, mas não tinham afinidades. Nunca os vi conversando. Bater papo não estava na agenda. A comunhão, rara, se dava apenas ao redor das mesas fartas. A tradição coagulava em holodets (gelatina de mocotó temperada e endurecida, coberta por grossa película de gordura), vareniques (espécie de raviólis recheados com queijo ou carne), yuach com kneidlach (caldo de galinha, dourado e fumegante, com bolinhos de farinha, ovo e gordura), guefilte fish (bolinho de peixe, às vezes mistura de vários peixes, servido com o caldo dos peixes e hrein, uma raiz forte), shmaltz (gordura sólida de galinha, besuntada em pão quentinho). Fartura não destravava línguas, nem sorrisos. Tudo parecia muito solene e o Menino aprendeu que família rimava com falta de intimidade.
Zissi, que pode ser traduzido livremente como Doçura, foi um projeto de ternura que nunca se concretizou. Despediu-se da vida com pressa, sem dar chance de nos acostumarmos com sua ausência. Está pendurado na parede, num retrato em que meu colégio o homenageou pelo incansável trabalho voluntário, e, à maneira do itabirano, como dói!
Brucha, pássaro de asas feridas, sorria por timidez. Carrego minha dose de culpa por não tê-la ajudado, como merecia, a levantar voo. Cada passo seu, cada gesto, cada hesitação, cada preocupação, trazia as marcas de repressões e carências. Talvez nunca tenha descoberto o que gostaria de fazer, tantas e tamanhas eram as camadas de bloqueio. Foi-se embora como uma luz mortiça que apaga de vez, quase pedindo desculpas por ter sido chama.
O mistério do fim, da falta definitiva, do que fica pendente, me faz lembrar da cena final da excelente série Shtisel. Não vou dar spoilers, espremo apenas o essencial. Um dos personagens comenta que havia lido um livro do Isaac Bashevis Singer, o improvável prêmio Nobel de literatura de 1978. Mesmo considerando-o um herege (o personagem é judeu ultraortodoxo), concorda com determinada passagem. Os mortos não vão a lugar algum, escreveu Singer. Cada homem é um cemitério em movimento e todos os que estão enterrados lá permanecem aqui, o tempo todo. A cena, então, incorpora os personagens que morreram durante a série, reunidos em torno de uma mesa, onde se servem holodets, arenque, pepino azedo, pão preto e outras maravilhas. Todos estão felizes, eloquentes, fraternos. Assim é. As despedidas nunca são definitivas. Somos, sempre, um pouco de cada um que se vai e temos a oportunidade de criar formas diferentes de diálogo através da memória.
Uma história chama outra. No filme O sétimo selo, Ingmar Bergman criou uma das cenas mais citadas da história do cinema. O cavaleiro medieval, que voltava depois de dez anos numa Cruzada, recebe a visita da Morte. Negociam, então, jogar uma partida de xadrez. Tentativa do cavaleiro esticar um pouco seus últimos momentos e aliviar o tormento das dúvidas que o consumiam. Qual o sentido da vida? O que acontece depois da morte? A Morte (impressionante interpretação de Bengt Ekerot), enigmática, não lhe dá respostas. Cada um de nós terá as suas. Religiosos, por exemplo, acreditam que há um post mortem, que o sentido da vida está ligado a uma ética superior, ditada por uma entidade sobrenatural. Meus caminhos são, sempre foram, outros.
A cada ano, a cada momento, tento criar uma mesa parecida com a da família Shtisel. Convoco todos os meus saudosos espectros e, dependendo do estado de espírito, proponho perguntas. Diz o folclore que o judeu responde uma pergunta com outra pergunta. A corrente, portanto, encarna um moto perpétuo. Este ano, vou propor a eles as mesmas perguntas que Clarice Lispector, ela mesma chegada a negrumes e assombrações, “temperamento Lispector”, fez à sua irmã Tania numa carta enviada de Berna, em 10 de março de 1948: “Você tem rido, querida, achado graça nas coisas, tido bom humor? Tem tido tempo moral de olhar um pouco ao redor, com um olhar tranquilo? Tem tido gosto em repousar vendo uma revista? Tem se dado presentes, tem feito favores a você mesma, tem tirado folgas?”. Vou ralhar com cada um deles se insistirem na rotina do muito siso e pouco riso, do arrastar o peso dos séculos. Ai, ai, ai, pessoal!
Zissi Moishe, ou José Maurício. Meu pai. Brucha, o pássaro de Makow Mazowiecki. Minha avó materna.
Dedico esta crônica ao homem que não largou a mão da filha de 15 anos, mesmo depois de morta no grande terremoto que devastou Turquia e Síria.
Seu Salomão nasceu na Ucrânia profunda, ali onde Judas perdeu as botas e quase morreu de frio. Grande observador das coisas e gentes do seu tempo, criou uma obra, sempre escrita em ídish, que acabou ultrapassando a fronteira estreita das massas judaicas da Europa Oriental. Suas histórias eram lidas com grande interesse em círculos operários e ambientes populares. Com o tempo, começou a ser conhecido como o Mark Twain judeu.
Em 1906, mudou-se para os Estados Unidos e morou em New York. Ao morrer, em maio de 1916, seu funeral foi acompanhado no Bronx por uma enorme multidão. Falou-se em 250 mil pessoas. Salomão Rabinovitch, que adotou o pseudônimo de Scholem Aleichem (A paz esteja convosco), deixou um belíssimo testamento, publicado na íntegra pelo New York Times de 17 de maio de 1916.
Um dos dez itens do documento se refere à forma como ele gostaria de ser lembrado em cada iortsait (aniversário de falecimento). Dispensava honrarias e o Kadish, a oração dos Mortos. Preferia que aqueles que se reunissem para homenageá-lo escolhessem um de seus contos, de preferência entre os mais engraçados, e o lessem em voz alta. No idioma que lhes fosse mais confortável. Era melhor, dizia, ser lembrado com um sorriso. Posso entender. Conheceu a pobreza, a precariedade da vida no shtetl, o antissemitismo, os rostos endurecidos pela vida levada no fio da navalha. Queria violar a corrente de angústia e encontrou no humor uma ferramenta preciosa. Bel Kaufman, neta de Scholem Aleichem, diria, muitos anos depois da morte do avô, que “rir é resistir”.
Tive o privilégio de ler pequena parte da obra de Scholem Aleichem no original. Meu sogro, o jornalista David Markus, tinha domínio pleno do ídish e, através dos volumes de capa azul das Obras Selecionadas (Oisgueveilte Verke) do seu Salomão, me introduziu à cidade fictícia de Kasrilevque, a Menahem Mendl e sua esposa Sheine Shendl, a Tevie, o leiteiro, aos tipos que, com seus dramas e esperanças, vestiam e criavam uma tradição cultural/existencial riquíssima. Eram memoráveis as risadas que o David dava ao reler aquelas histórias, que, a rigor, faziam parte de sua própria trajetória de vida. Mesmo de forma bem modesta, incorporei esta herança.
Há pouco menos de duas semanas, lembrei o 28º iortsait da dona Lilia. Vivesse num mundo ideal e dela só lembraria os poucos colos e levezas. Tudo, no entanto, aconteceu como no trecho de uma letra do Ivan Lins. Seria necessário perdoar a cara amarrada, a falta de abraço, a falta de espaço, a falta de ar. Os dias foram assim. O silêncio, quando carecia o verbo. A porta fechada, quando o sinal implorava o verde. A distância, quando o toque dissolveria rancores. A casa cheia de portas fechadas que somos, como bem disse o escritor luso António Lobo Antunes, expandiu-se. Nenhum de nós saiu ileso disso, e, francamente, não merece celebração.
No entanto, embora não se possa mudar o passado, é possível entendê-lo com mais sutilezas, mais complexidade. Dona Lilia tomou muita pancada, literal e metaforicamente. De tiranos, de carne, osso e intolerâncias, e fantasmas. Essa foi sua escola e dela acabou prisioneira. Marcas no corpo e na alma. Aí, aconteceu um pulo do gato. Para libertar-se, concluiu uma faculdade e, desafiando o marido machista, entrou no mercado de trabalho. Enviuvou e, com o salário, garantiu sustento ao casal de filhos, que puderam estudar sem preocupações materiais. Essa mulher corajosa, sim, eu posso e devo homenagear.
Neste iortsait, repeti o exercício anual poetisado pelo Ivan Lins. Quando largar a mágoa, quando lavar a alma, quando lavar a água, posso também lavar meus olhos.
Eu sofro de mimfobia/Tenho medo de mim mesmo/Mas me enfrento todo dia. (Millôr Fernandes)
Naquele calorão de derreter concreto, quem pensaria em crise? Pois a caminhada na orla de Copacabana, banhada em suores torrenciais, foi interrompida por um folheto que prometia solução para A Crise. Assim mesmo, com iniciais em maiúsculo, para assustar ainda mais o distinto público. O papelzinho, oferecido por uma mocinha sorridente e patrocinado por uma igreja missionária, faz uma lista detalhada dos grandes problemas que nos atormentam. Como sempre acontece nestes casos, a solução proposta é simples. Basta seguir Cristo.
Longe de mim ridicularizar quem acredita nessa receita. Naquele momento, no entanto, minha maior crise era de hidratação. Meu reino na Terra por uma água de coco! Agradeci à simpática moçoila e segui adiante, com a pulga atrás da orelha. Será que chegamos numa fase tão difícil, parecida com a cena do Monty Python na Vida de Brian, onde se multiplicavam profetas de calibre variado, anunciando o Apocalipse ou desenhando paraísos improváveis? Estará a saída em espectros sobrenaturais?
Tenho uma relação afetuosa com o invisível. Começou nas ondas do rádio, com um programa escrito pelo Henrique Foréis Domingues, o Almirante, “a mais alta patente do rádio”. À noite, não muito tarde, uma voz entre cavernosa e imperativa perguntava: “Você não acredita no sobrenatural? Então ouça!”. Era o programa Incrível! Fantástico! Extraordinário!, que dramatizava histórias contadas por ouvintes. O recheio não variava muito. Almas do outro mundo, maldições, relógios anunciando a meia-noite, cemitérios pulsantes, sofrimentos na eternidade. O Menino acreditava naquilo e, tal como numa sátira dos argentinos Les Luthiers, temia e tremia. Quando o programa passou a ser transmitido nas tardes de domingo, antes das jornadas esportivas, o mistério definhou. A luz é implacável com o invisível.
Evoluí para os clássicos. Fiquei solidário com Boris Karloff, digo, Frankenstein, e sua aflitiva crise de identidade. Me compadeci do Bela Lugosi, digo, Conde Drácula, condenado a sugar vidas alheias e não ter vida própria. Diverti-me com a fileira de filmes B, estrelados por aranhas gigantes, monstros em lagos, metamorfoses zoófilas, alienígenas zumbis. Uma dica. Johnny Depp e Martin Landau protagonizaram uma homenagem delicada à Hollywood em preto-e-branco no filme Ed Wood (nome do que foi considerado o pior diretor de cinema de todos os tempos). Landau na pele de Lugosi é antológico.
Nada se compara com o terror apenas insinuado, sugerido. É o que acontece com o Bebê de Rosemary. Não há uma única cena com o bebê diabólico do título. A história deixa para a imaginação de cada um a aparência do Mal que nasce num útero inocente. Tive medo ao assistir o filme. O enredo convocou uma assembleia extraordinária dos meus fantasmas internos, que se agitaram como na Dança dos Vampiros. Pior. Não adiantaria agitar um crucifixo para acalmá-los. Por razões ancestrais, este símbolo seria impotente. Desculpe o plágio, Ioine!
Há muitos escroques que exploram o Medo para comercializar a fé. Outros, sob aparência menos vil, vendem soluções gerais para lidar com problemas complexos. E la nave va. A melhor forma de dialogar com o invisível é tirá-lo da escuridão. Fantasma não resiste a um facho de luz.
Pelo sim, pelo não, seguro morreu de velho. Não aceito o desafio de entrar num cemitério à meia-noite. Vai que aquelas pequenas chamas azuladas que costumam frequentá-los não são o que os cientistas chamam de fogo-fátuo (combustão espontânea de gases gerados por decomposição de matéria orgânica). Vai que, lá longe, de um horizonte indefinido, ecoa uma voz sorumbática perguntando: “Você acredita no sobrenatural?”. Eu, hein, Rosa! Pernas para que te quero!