1o de Maio

1o de Maio

Olaria Atlético Clube, campo de São Cristovão, Quinta da Boa Vista. A cada ano, durante a ditadura civil-militar, eu percorria a cidade para as manifestações do 1º de Maio. Era meu compromisso como sindicalista (anos 80) e interessado em política. Os sindicatos, mesmo asfixiados pela repressão, iam às ruas para lembrar os Mártires de Chicago e atualizar as reivindicações trabalhistas. Os partidos de esquerda, clandestinos, estavam presentes, reiterando seu compromisso histórico com os trabalhadores.

Lembro especialmente do 1º de maio de 1981. No dia anterior, militares terroristas tentaram explodir três bombas no Riocentro, onde se realizava um show pelo Dia Internacional dos Trabalhadores. O plano era atribuir o atentado à esquerda, bloqueando o tímido processo de abertura do regime. Uma das bombas, entretanto, explodiu dentro do carro que levava os criminosos fardados, matando um sargento e ferindo um capitão, ambos do Doi-Codi, sinistro centro operacional do terrorismo de Estado.

A ditadura logo montou uma farsa, alegando que a bomba fora arremessada por alguém para dentro do carro. João Saldanha, presente no ato do 1º de Maio, no campo de São Cristovão, ironizou. Ainda sou capaz de ouvi-lo, com a veemência gaúcha. “Devia ser, então, um craque do basquete, para acertar a janela de um Puma”. Lembremos que o Puma era carro de pequeno porte, padrão Karmann- Ghia. Grande João sem Medo!

Na origem, o 1º de maio está ligado às lutas operárias no século XIX. Era época de utilização maciça de trabalho infantil nas minas e fábricas, de jornadas laborais que chegavam a 10, às vezes 12, horas diárias, de condições fabris insalubres, de miséria e repressão. Os trabalhadores de Chicago lutavam, em 1886, por uma jornada de 8 horas e foram violentamente reprimidos. Na praça Haymarket deram-se os eventos que assinaram a certidão de nascimento do 1º de Maio. Manchada de sangue operário.

Onde anda o 1º de Maio? Ainda há manifestações, de calibre variado, em muitos países. No Brasil, há muito que está desfigurado. Vulgarizado. Transformado de jornada de memória e luta em festividade invertebrada, com sorteios e discursos chapa branca, sem mobilização popular. Apenas um ritual no metaverso, de imagens antigas embalsamadas. Aqui e ali pequenos grupos se reúnem e conservam o espírito original, mas são, infelizmente, pouco representativos. A grande massa permanece alheia.

Terá perdido sentido o Dia Internacional dos Trabalhadores? Não há mais motivos para fortalecer a consciência de classe através de grandes manifestações? Inexistem respostas simples. A lógica do capital mudou a máscara, mas permanece a mesma. A exploração do trabalho é diferente da que existia no século XIX e boa parte do século XX, mas continua sendo a coluna vertebral do capitalismo. Chamar trabalhadores de “colaboradores” não altera o caráter da mais-valia. Crescem a precarização do trabalho e o desemprego estrutural. Os 10% mais ricos do planeta concentram 52% de toda a renda. A sociedade pós-industrial, fincada em novas tecnologias poupadoras de mão-de-obra, engorda o cordão dos desempregados. As chamadas Big Techs, por exemplo, que abastecem de produtividade os principais polos dinâmicos de acumulação de capital, demitiram quase 300 mil trabalhadores entre 2020 e 2023.

A adornar o circo de horrores, a Guerra Fria 2.0. Na esteira do confronto EUA x China e dos acontecimentos na Ucrânia, o gasto militar global cresceu 3,7% em 2022, chegando a US$ 2,24 trilhões (maior do que o PIB brasileiro). Os Estados Unidos respondem por quase 40% da dinheirama. Governos fascistas germinam na esteira de nacionalismos autoritários. Aumentam os fluxos migratórios, agrava-se a destruição ambiental.

Há razões objetivas para uma reação organizada dos trabalhadores de todo o mundo. No entanto, ao contrário do que acontecia quando a produção industrial clássica era hegemônica, estão dispersos, muitas vezes em regime de trabalho doméstico. A precarização não favorece ações coletivas, não há um local comum de trabalho. Por outro lado, a crise na esquerda anticapitalista dificulta a elaboração de uma teoria que oriente e metabolize a ação política num mundo extremamente complexo e potencialmente letal.

Por tudo o que penso e sinto, sou parte desta história. Das vitórias e derrotas. Das indagações, das convergências e divergências, da fraternidade na luta. Em nome deste pertencimento, que está vivo, homenageio todos os trabalhadores e seus aliados que lutam, lutaram e continuarão lutando por sociedades que emancipem o Homem da servidão capitalista. A História, sempre caprichosa, continua.

Abraço. E coragem.

Invasão de estreptococos

Invasão de estreptococos

A imagem não parava quieta. Era um tal de ajusta horizontal pra cá, corrige vertical pra lá. Com essa ginástica involuntária e em horário “de adulto”, o pessoal grudava o olho na televisão para assistir Cidade nua, seriado policial ambientado em New York. O preto e branco dos anos 50 nos levava a um ambiente noir, Hopalong Cassidy de chapelão dando lugar ao detetive Adam Flint e sua arma de cano curto. Um salto e tanto sobre o cardápio, até ali exclusivo, da dupla William Hanna e Joseph Barbera.

Não foi no Central Park, mas no Campo de Santana, que alguém capturou um vira-lata e, por falha auditiva, batizou-o de Flinck achando que homenageava o detetive nova-iorquino. Com esse equívoco de origem o bicho chegou à minha infância. Diziam que era mistura rara de bassê com pequinês, salsicha de um, pelo do outro.

Nossa relação foi tensa. Por algum desvio da psique canina, o animal não me apreciava. E não fazia o menor esforço para esconder. Olhava-me com ar de você não perde por esperar, rosnava, mostrava dentes mal-intencionados. Oportunista, abanava o rabo quando lhe mostrava a coleira de passear. Eu catava suas pulgas fugitivas de circos imaginários, dava-lhe de comer, mas ele não se comovia. Uma rejeição que me introduziu às injustiças e aos mistérios da vida fora dos tubos de imagem.

Foi o Grande morrer para selar o destino do Flinck. Sem condições de levá-lo para o apartamento onde fomos morar, acabou desovado num lugar qualquer e abandonado. Maldade sufocada pela dor da imensa perda recém acontecida. Não deixou saudade e poderia, como efeito colateral, ter-me levado para o mundo herético dos odiadores de cães. Não foi o que aconteceu, mas ando com vontade de repensar a trégua com o mundo dos canídeos.

Durante a pandemia, ao lado da insegurança e do medo, ganhamos um pequeno e valioso presente sonoro. Com menos trânsito, o ar ficou mais limpo e as aves acusaram a novidade. As árvores da minha rua transformaram-se em anfiteatros canoros. Não sou o Tom Jobim, tenho proverbial dificuldade para identificar passarinhos. Eles não se incomodaram com a ignorância e capricharam em solos, duos, trios, grupos de câmera. Um assombro! Depois de um tempo, alguns até ousavam sair dos galhos seguros e pousavam nos parapeitos das janelas. A natureza, tão vilipendiada pela arrogância humana, fazia uma visita, mostrando, pelo contraste da beleza, nossa estupidez predatória.

Não sabíamos, mas, junto com a passarada, aumentava o número de cachorros nos apartamentos. O isolamento forçado levou muita gente a buscar companhia no mundo animal. O resultado é que hoje o número de bichos de estimação nos lares brasileiros é maior do que o número de crianças. A solidão, fenômeno multifatorial, exibe seu caráter angustiante por uma estatística: uma em cada quatro pessoas não se sente próxima de ninguém. Daí, tome de abrigar bichos de todo tipo. Uma vizinha coleciona sete – isso mesmo, sete! – cachorras, sempre confinadas para preencher o vazio existencial da dona. Está mais fácil a humana aprender a latir do que as cachorrinhas aprenderem o beabá.

Pelo que se vê nas ruas, há clara preferência por raças pigmeias, dessas que parecem estreptococos peludos, agitados, sempre à beira de um ataque de nervos. Os donos perderam a noção de regras de convivência em espaços públicos. Não se incomodam quando os animais latem sem controle. Sons dissonantes em marcha-a-Ré maior. Nos apartamentos, a cachorrada faz a festa, soltando estridências a qualquer hora e pelos motivos mais vagabundos. As sinfonias aladas recolhem-se, abafadas pelas matilhas desgovernadas e seus donos indiferentes.

Podem achar que é ranzinzice provocada pelo trauma Flinck. Não nego o resíduo de amargura, mas me dou bem com labradores, golden retrievers, beagles, boxers, buldogues ingleses e outras raças que prezam o silêncio e se manifestam sem abrir as portas do inferno sonoro. Quanto aos donos e as neuroses que descarregam nos quadrúpedes, cito um filósofo conservador: a verdade é que o Brasil é um país em que a vergonha na cara se tornou um ativo raríssimo.

Au, au, procês.

Abraço. E coragem.

E Varsóvia resistiu

E Varsóvia resistiu

Lutamos por vossa e nossa liberdade, por vossa e nossa honra humana, social e nacional… Viva a fraternidade do sangue e das armas da Polônia em luta. Viva a liberdade! (documento da ZOB – Organização Combatente Judaica, distribuído no gueto de Varsóvia em abril de 1943)

Oitenta anos depois de amanhã. Era o início do Pessach, 19 de abril de 1943. Começava a insurreição dos judeus remanescentes do gueto de Varsóvia contra o extermínio final executado pelos nazistas. Nasci poucos anos depois do fim da Segunda Guerra Mundial e o impacto da Solução Final, nome fantasia que os nazistas alemães deram ao plano de aniquilar os judeus europeus, ainda era enorme. Era raro encontrar uma família de emigrantes judeus que não tivesse algum parente ou amigo assassinado durante a guerra. Foi uma hecatombe sem precedentes, planejada e executada com frieza burocrática, eficiência tecnocrática e crueldade hedionda. Ao final dela, cerca de um terço de todo o povo judeu havia sido eliminado.

O gueto de Varsóvia, para o qual foi escorraçada toda a população judaica da capital polonesa e de alguns arredores (cerca de 450 mil indivíduos), formou-se em outubro de 1940. Área superlotada, com densidade habitacional média de 7 pessoas por quarto, onde grassavam fome sistêmica e epidemias letais. As rações de comida foram reduzidas a 10% do que seria o normal. Antes da guerra, a taxa de mortalidade dos judeus em Varsóvia era de 500 mensais. No gueto, esse número decuplicou.

Por trás da asfixia, havia uma complexa rede de diversionismo e mediações ilusórias. Os nazistas instituíram a Judenrat, administração formada por judeus e que mediava os contatos com os alemães. Na prática, seu poder era quase nenhum. Mesmo com boa fé e na expectativa de diminuir o sofrimento dos prisioneiros do gueto, a Judenrat serviu apenas para dar uma sensação ilusória de normalidade. Também foi criada uma polícia judaica, cujos integrantes, em nome da autossobrevivência, reprimiam todo tipo de contrabando para dentro do gueto (comida, por exemplo) e colaboraram ativamente quando começou o processo de deportação em massa para os campos de extermínio. Eram odiados pelos prisioneiros.

Em julho de 1942, os nazistas iniciaram, em ritmo acelerado, o esvaziamento do gueto, deportando os judeus remanescentes para campos de extermínio. Em cerca de 8 semanas, foram 300 mil deportados. A partir desse momento, consolidou-se a sensação do genocídio iminente, que, até então, vinha sendo praticado em doses “moderadas”. Grupos que tinham militância política antes da guerra (comunistas, socialistas, sionistas de esquerda) começam entendimentos para unificar um programa de ação, na perspectiva de uma reação armada contra os nazistas. Isso conduziu à formação, em outubro de 1942, da ZOB – Organização Combatente Judaica.

Com a ajuda vital da resistência polonesa não-judaica de fora do gueto, algumas armas chegaram à ZOB. A direção do grupo refletiu uma unidade impossível na realidade comunitária judaica do pré-guerra. Comunistas ligados ao partido polonês e socialistas do Bund, antissionistas estruturais, trabalharam com as organizações juvenis sionistas, quase todas de orientação à esquerda.

No dia 19 de abril de 1943, iniciou-se a revolta, com uma emboscada contra um destacamento nazista. O desequilíbrio de forças era esmagador. Contra uma máquina de guerra poderosa e bem treinada, cerca de 600 combatentes (algumas fontes citam 750) sem qualquer experiência militar e mal armados (2 carabinas automáticas,100 rifles comuns, centenas de pistolas e revólveres, um número indefinido de coquetéis molotov).

Contra todas as expectativas, o levante durou quase um mês. Ao final, poucos rebeldes sobreviveram, escapando pela rede de esgotos varsovianos. Seguindo ordens de Himmler, o gueto foi completamente destruído, transformando toda a área numa montanha de ruínas. A intenção era varrer da memória a existência daquele lugar e da luta antinazista.

O Levante do Gueto de Varsóvia fertilizou revoltas em outros guetos e campos de extermínio. Rebelaram-se Sobibor, Bialistok, Auschwitz, Treblinka, entre outros, em maior ou menor escala e em condições objetivas inimagináveis.

Creio que todas as perguntas sobre a resistência armada judaica contra o extermínio sistemático já foram feitas. Há muitas tentativas de resposta, nenhuma delas definitiva. Emerge sempre uma certa indignação quando se lembra a demora em reagir contra o genocídio. Como disse, há muitas possíveis respostas, mas, tal como acontece com presos políticos torturados que não resistem ao suplício e delatam companheiros, gosto de lembrar uma observação da escritora norte-americana Marie Syrkin: “Aqueles que nunca foram submetidos a teste similar deveriam se abster de julgamentos morais”.

Não faz muito sentido continuar homenageando apenas ritualmente os que preferiram morrer com honra, de armas na mão, do que se submeter ao jugo de carrascos implacáveis. É preciso aprender, ao menos, algumas lições básicas e atemporais. Cito apenas duas.

Enquanto houver alguém escravizado, explorado, discriminado e oprimido, não importa em que meridiano, será necessário resistir. Cada grupo, em cada época e dadas as condições objetivas e subjetivas, encontrará a forma mais adequada de resistência. Os revoltosos do gueto mostraram os limites da convivência e da conciliação com o opressor. Valeu há oitenta anos, continua valendo hoje.

Tomo emprestada de Primo Levi a segunda lição. Disse o químico turinês, partisan que sobreviveu a Auschwitz: “Há Auschwitz, portanto não pode haver Deus”. O conformismo religioso foi, certamente, um dos obstáculos ao enfrentamento do nazismo e fonte de imobilismo séculos afora. Muitos religiosos, fincados no sobrenatural, diziam que, embora inexplicável, aquela era a vontade de Deus. Por “aquela” entenda-se o assassinato em escala industrial, incluindo crianças e gestantes que sequer tinham tido “oportunidade de pecar”. Um Deus cruel, omisso e, portanto, cúmplice de atrocidades. Há herdeiros dessa estupidez, que preferem repetir indignidades a fazer uma reflexão honesta sobre crenças insensatas. A promiscuidade entre religião, campo do irreal e da fé, e o jogo real da vida, com suas explicações complexas e suas interrogações intermináveis, deve-se combater sempre.

Aos que tiveram a coragem de enfrentar a morte com dignidade e percepção de futuro, dedico esta passagem da lindíssima canção Sentinela, composta por Milton Nascimento e Fernando Brant: Longe, longe, ouço essa voz/Morte, vela, sentinela sou do corpo/Desse meu irmão que já se foi/Revejo nessa hora tudo que aprendi/Memória não morrerá.

Abraço. E coragem.

Onde moro?

Onde moro?

Quem quer morar num lugar onde tem tiro todos os dias? (lojista da Praça Seca, região da Grande Jacarepaguá, no Rio de Janeiro)

A pergunta podia parecer uma bobagem. Como fui eu mesmo que a fiz, não visto a carapuça. Onde será que eu moro? De verdade, não apenas pelo carimbo do CEP. Desde minha entrada triunfal, na falecida maternidade Arnaldo de Moraes, até meus passos hesitantes de hoje, jamais morei em outra cidade que não fosse o Rio de Janeiro. Passei por bairros das zonas norte e sul, em alguns com longas permanências. No entanto, volto a perguntar: onde eu moro? O que significa pertencer a uma cidade? Não me refiro apenas às coleções nostálgicas que enfeitam nossas raízes mais antigas.

João Cabral de Melo Neto, no intervalo entre uma aspirina e outra, era um andarilho. Nas cidades onde serviu como diplomata, gostava de andar livremente. Em Sevilha, que adorava e à qual dedicou inspirados poemas, podia caminhar horas entre as ruas, tirando o delicado véu que escondia a identidade mais profunda do lugar. Flanar livremente. É assim na cidade onde caminho? Ainda existirão andarilhos como o João do Rio e o Nássara, que encarnavam um tipo de carioca que, suspeito, está em fase avançada de extinção?

Como posso dizer que moro no Rio se, em boa parte dele, sequer posso pisar, sob pena de ser abatido por bala perdida, ou pior, desaparecer para sempre, como num episódio do Além da Imaginação? Vou contar um pequeno caso. Pouco antes da pandemia, descobri o endereço onde funcionou o consultório dentário do Grande, em Vigário Geral. Constava de um velho Diário Oficial, registrando multa por falta de autorização para pendurar placa externa do consultório.

Guardo viva a memória do local, pequeno sobrado na lateral de uma pracinha, à qual se tinha acesso por uma rua de terra batida. De posse do endereço, pesquisei imagens atuais das redondezas. Lá estava a pracinha, com grama maltratada, e o sobrado. Bateu uma vontade irresistível de botar os pés naquele território congelado em lembranças ternas. Quem sabe, fotografar algum fantasma desgarrado, esquecido da tarefa de assombrar?

Consultei um taxista conhecido, Vigário Geral lhe era familiar. Desaconselhou-me o passeio. A área é hoje dominada por bandos criminosos, e uma pessoa estranha, flagrada tirando fotos, podia ser confundida com um batedor de bandos rivais da gangue dominante. Eu estaria frito. Lembrou-me do que havia acontecido em agosto de 1993. Dezenas de policiais encapuzados invadiram a favela local e trucidaram 21 moradores, uma das piores chacinas da história da cidade. Ação de vingança pela morte de 4 policiais por traficantes da região. Ali, em suma, é parte da cidade em guerra permanente, da qual só tenho notícias longínquas, através do jornal e da mídia virtual.

O Rio tem quase 800 favelas, onde vivem, de acordo com o Censo de 2010, 1,4 milhão de pessoas. Junto com um grande amigo, visitei uma delas, a Ladeira dos Tabajaras, em meados dos anos 70. Era quase uma vila rural, muito pobre, com molequinhos batendo bola e Marias com lata d’água na cabeça. Sobe o morro e não se cansa, pelas mãos leva a criança… Uma visão meio romântica, à la Orfeu do carnaval (filme chatíssimo, mas com imagens preciosas da cidade nos anos 50). Hoje, não me atreveria. Não sou candidato a Tim Lopes. Pra resumir a encrenca: meu acesso está vetado, de cara, a um quarto da população da cidade.

A zona oeste não tem roteiro diferente. Cerca de meio milhão de moradores da Grande Jacarepaguá estão no meio do fogo cruzado entre traficantes, milicianos e policiais. Como num país ocupado por exército estrangeiro, lá vigora toque de recolher, portões e janelas não podem ser trancados (os criminosos alegam que não podem ter obstáculos no caso de confrontos).

Aqui e ali vejo jipes especiais levando turistas para os Favelas tours(!). O que será que procuram? Cabrochas se esgueirando pelas vielas com samba nos pés? O exotismo de uma pobreza idealizada? “Histórias de superação e empreendedorismo”? Não sei. O que posso garantir é que não conhecerão nada do cotidiano tenso, limitante, violento, segregador, das periferias do Rio. Será, provavelmente, um passeio pela “cidade cenográfica” dos agentes.

Com tantos e aflitivos impedimentos, o máximo que posso dizer é que moro numa pequena porção da cidade, na zona sul. Sou, por assim dizer, um zonasulrioca. Com batismo entre os tijucariocas. O Rio, com suas histórias, seus personagens, seus quintais, seus mistérios, é um projeto de vida. Que, infelizmente e à minha revelia, acho que não conseguirei realizar.

Abraço. E coragem.

Edson e Lilia fizeram uma mitsvá

Edson e Lilia fizeram uma mitsvá

A liberdade, como a vida, só a merece/quem deve conquistá-la a cada dia! (J. W. Goethe)

No caminho para a entrevista, ele olhou, deslumbrado, para aqueles marcos urbanos tão diferentes da sua Belém. Do obelisco na avenida Rio Branco, onde a gauchada amarrou seus cavalos em 1930, ao relógio da Mesbla, no lindo edifício Art Déco, passando pela elegância do edifício Serrador e a imponência eclética do Palácio Monroe. Tudo abraçado pelo mar que ajudava a azular a paisagem.

Na hora marcada, ainda mexido por tanta novidade, foi chamado pela entrevistadora. Não, senhora, não sou daqui do Rio. Vim do Pará, tenho poucos recursos para terminar meus estudos. Comer no Calabouço é um preço que posso pagar, vai ajudar muito. Ela olhou para o adolescente, que não disfarçava a timidez, e não pôde evitar uma lembrança antiga, final dos anos 40, quando tinha a mesma idade do rapazinho e ouvia sempre a rádio Nacional. Em silêncio, cantarolou Caymmi: Peguei um ita no norte, pra vim pro Rio morar, adeus meu pai, minha mãe, adeus Belém do Pará. A memória radiofônica criou uma comunhão instantânea. A autorização para frequentar o restaurante do Calabouço foi dada.

Edson, então, juntou-se às centenas de estudantes que frequentavam o bandejão honesto todos os dias. Gente de algures, alhures e nenhures, que vinha morar no antigo Distrito Federal para fazer e refazer vidas. Ali, naquele canto penumbroso do refeitório, o cearense José Tarcísio sonhava com artes plásticas. Mais adiante, Carlos Celso, do Acre profundo, tinha todas as marcas do choque com a cidade grande.

O país amordaçado por uma ditadura buscava espaços de resistência. Edson começou a participar do movimento estudantil. Lutava pela melhoria da qualidade do Calabouço e sua consciência política evoluía rapidamente. No dia 28 de março de 1968, mal completados dezoito anos, ele jantava ali, junto com 300 estudantes. A Polícia Militar do Rio de Janeiro invadiu o local e atirou covardemente. Edson, atingido no peito, morreu instantaneamente. A morte estúpida provocou grande comoção e uma multidão acompanhou o féretro pelas ruas da cidade. Edson Luis de Lima Souto se somou a uma das muitas veredas por onde andou o movimento estudantil na luta contra a ditadura. Três meses após seu assassinato, sua figura pairou na avenida Rio Branco, a mesma que o deslumbrara, durante a Passeata dos Cem Mil.

Como terá recebido a notícia da morte de Edson a assistente social que o entrevistara? Não sei. Ela própria havia enfrentado o autoritarismo, só que no terreno doméstico. Vinha de uma geração em que o machismo era a regra. Onde já se viu mulher “trabalhar fora”, ou seja, ter uma carreira, fugir da máquina Singer, do pano de prato, da enceradeira, da gordura de coco Carioca, dos bobes e laquês? Trabalhar para a União Metropolitana dos Estudantes, que administrava o Calabouço, foi um gesto libertário. Lilia Gruman enfrentou os demônios de seu tempo com as armas possíveis. Do seu jeito, bateu asas e voou.

Estamos às vésperas do Pessach, quando os judeus lembram o fim de seu cativeiro no Egito dos faraós. Sempre me perguntei para quê repetir todos os anos o mesmo ritual, por mais forte que seja a mensagem original. No caso, a importância da liberdade. Há muitas respostas possíveis. Duas, no entanto, estão dentro da própria Agadá, o roteiro tradicional que descreve o processo de libertação. A primeira diz que, em cada geração, cada um de nós deve sentir como se tivesse, pessoalmente, saído do Egito. É uma forma de dizer que somos herdeiros de uma vontade coletiva, de um projeto que não admite a servidão como natural. Edson e Lilia rechaçaram os decretos autoritários dos faraós contemporâneos e se fizeram ex-cativos.

A segunda reconhece que a versão oficial do Pessach (desacreditada, em muitos aspectos, por arqueólogos, antropólogos, historiadores e estudiosos da Bíblia) pode ser modificada. Autoriza-se, e isso é um fato espantoso em assuntos da tradição religiosa, complementá-la, atualizá-la. Aliás, é mais do que isso. Fazer essa atualização seria uma mitsvá, ou seja, uma boa ação, implementada para aprimorar o Homem.

Edson e Lilia enfrentaram faraós poderosos. Construíram, pelo pensamento e pela ação, o caminho de sua liberdade. Não precisaram de forças sobrenaturais, nem de mitológicas lideranças fortes. Escreveram uma Agadá dos tempos modernos, onde a liberdade é matéria cada vez mais necessária. Cumpriram, sem sabê-lo, uma linda mitsvá.

Hag Pessach Sameach!

Abraço.E coragem.

Silêncios

Silêncios

Aqui eu exerço o meu silêncio (Manoel de Barros)

Quem leu O grande mentecapto, do Fernando Sabino, talvez lembre. Geraldo Viramundo, peregrino delirante nas Minas Gerais, foi parar num hospício. Feliz como um menino, Viramundo sentiu-se em casa. Rodopiou, riu, sapateou, conversou com aquela gente interessante. “Criaturas de minha refinada estirpe”, pensou.

Num canto do pátio, viu um camarada com o ouvido colado à parede. Shhh, disse-lhe o sujeito, com o dedo entre os lábios. Em seguida, convidou o novo companheiro: Quer ouvir também? Viramundo encostou o ouvido na parede. Nada, silêncio total. Ainda ficou um tempo ali, aguardando um sonzinho que fosse.

Finalmente, desistiu. Não estou ouvindo nada, avisou ao outro. Sem tirar o ouvido da parede, este, com olhar malandro, sorriu de boca fechada e arrematou: Eu também não. E está assim há mais de doze horas!

Por razão que desconheço, esta passagem me transportou para uma cena antiga e recorrente numa sinagoga. O condutor das orações, incomodado com a algazarra do público, batia duro no púlpito central e clamava a bom som: Shtil, idn, shtil! Silêncio, judeus, silêncio! Com um pouco de sorte, as vozes aquietavam e a necessária introspecção se instalava. Silêncio.

Seria o silêncio apenas a ausência de ruído? O nada? Quem deitou no divã ou encarou sentado o terapeuta sabe que o sumiço temporário das palavras pode ser perturbador. Lembra as histórias em quadrinhos, quando o personagem ficava aflito e de sua cabeça voavam pingos de suor. Raramente, no entanto, significa o vácuo. É uma pausa necessária para polir sentimentos ou fazer contato com o que Clarice Lispector chamava de “o delicado abismo da desordem”. Em qualquer caso, carrega sementes potencializadoras de diálogo.

Um dos momentos mais comoventes da história do cinema apareceu no filme A noite que durou 12 anos. Na cena, presos políticos uruguaios eram transferidos de cárcere tendo ao fundo a música The sound of silence. Cantada por Silvia Pérez Cruz, creio que a cappella. Faço aqui uma confissão pública. Chorei, solucei, verti abundantes gotinhas salgadas. Meio acabrunhado, criado que fui sob a máxima menino não chora. E o que diz a letra da música? Pessoas que ouvem sem escutar. De longe a pior forma de silêncio. Popularmente conhecida como indiferença.

O que dizer do silêncio dos invisíveis, dos oprimidos, dos descartáveis? O Talquei Imbecil se referia aos quilombolas com desprezo e violência. Para ele, era uma não-gente, que só servia para perturbar a paz dos cemitérios que tanto lhe agradava. Pois há mais de 6 mil quilombos no Brasil, onde vivem quase 400 mil quilombolas. Descendentes das comunidades negras que resistiram ao colono português, que estuprava, amputava, castigava, desumanizava. Hoje, fazem parte da luta por regularização da posse da terra e do acesso a equipamentos básicos de saúde e educação. São praticamente invisíveis para a maioria da população. Sua voz é abafada, sua cultura de resistência é ignorada. Silêncio.

Os meus silêncios sempre beliscaram a alma. Muitas conversas desejadas jamais chegaram. Outras, por insensibilidade e alguma arrogância, não ofereci. Certa vez, num fim de tarde pré-histórico, eu estava reunido com um grupo que se encontrava aos sábados. O cenário, a área externa do Museu de Arte Moderna. O convidado era um jovem psicanalista de São Paulo. Estávamos sentados e ele em pé. Alguém pediu que ele definisse(!) o que via em cada um de nós. Chegada a minha vez, o ilustre paulistano ficou uns segundos em silêncio e, ainda em silêncio, abaixou-se até ficar de cócoras na minha frente. Nossos olhos na mesma altura. Não houve palavras, apenas um olhar solidário. Talvez tenha sido a mensagem mais eloquente que recebi na vida, enviada num momento de incertezas e unhas roídas.

E eis que chego aqui, quebrando pedras, digo, silêncios…

Abraço. E coragem.