Lições da selva

Lições da selva

O caso das quatro crianças indígenas que sobreviveram a um acidente de avião na Colômbia, que caiu em mata densa e de difícil acesso, me mobilizou bastante. Elas vagaram por 40 dias em terreno perigoso, lamacento, escuro (lá estão as maiores árvores da região), com clima frio, insetos e muita umidade. Por lá circulam onças e cobras venenosas. Uma delas, a verrugosa, é das mais peçonhentas da América. A vegetação é, com frequência, ameaçadora. Plantas venenosas podem matar quem as consome. Existem muitos aspectos nesta pequena, e quase inacreditável, saga.

Lesly, menina de 13 anos, liderou os irmãos Soleiny (9 anos), Tien (4 anos) e Cristin (completou 1 ano na mata). Providenciou abrigos provisórios com grandes folhas e gravetos, comida (principalmente frutas), água (coletada em folhas úmidas) e, certamente, o estímulo necessário para não desistirem. Nós, urbanoides, custamos a crer que isso foi possível. Alex Rufino, indígena Ticuna especialista em cuidados da selva, nos ensina: “As crianças intuitivamente aprendem muito com seus pais. Quando vão caçar, para colher frutas. Sua observação é essencial. Eles estão aprendendo o que pode ser útil para eles e o que não é (…) Cada árvore, cada planta, cada animal indica onde estamos, o que está disponível e quais são as ameaças. E as crianças sabem interpretar isso”.

O meio ambiente para os indígenas é um organismo vivo, complexo, cujo conhecimento, acumulado por gerações e desdobrado em dimensão não apenas física, é vital para a sobrevivência. Foi isso, tenho certeza, já assimilado pelas crianças (na proporção de suas idades), que permitiu mantê-las vivas. Não encontro outra explicação num caso em que as equipes de busca, treinadas em terrenos hostis e com equipamento especializado, ficaram surpresas com o comportamento maduro de crianças tão pequenas.

Alguns afoitos disseram que o resgate foi um “milagre”. Volto ao Alex Rufino: “Os territórios indígenas sempre foram vistos com uma narrativa herdada da conquista, da religião católica, porém não falamos de milagres, mas da ligação espiritual com a natureza. Milagre é a palavra que vende, mas eu falaria mais do abraço da mãe que é a selva, da mãe que cuida de você”. Aí está, a Terra-Mãe, a Pachamama dos irmãos andinos, a mesma que estamos nós, os “civilizados”, tratando de destruir metodicamente.

Tento me imaginar em situação semelhante quando tinha 13 anos. O Menino, largado em Barros Filho, Marechal Hermes ou Sampaio, subúrbios cariocas, ficaria perdido para sempre. Num limbo assustador. Não tinha iniciativa, era totalmente dependente dos adultos e desconhecia o funcionamento dos mecanismos mais básicos do cotidiano. Entendia de futebol de botões, decorava lições para o colégio, era um lateral-esquerdo razoável. Índios? Dizia-se que gostavam de apito, na televisão o curumim era o logotipo da Tupi, Tonto não passava de serviçal do Lone Ranger. Natureza? No máximo o capim-navalha, abundante no matagal que cercava a vila de casas, e a pedreira no final da vila, com suas cavernas misteriosas. Cresci ignorante do meu planeta, achando natural ver bicho apenas no zoológico ou na gaiola de casa, orientado por asfalto e concreto.

O avô das crianças indígenas agradeceu à Mãe-Terra que as libertou. Podemos achar um tanto folclórica essa crença, mas, cá entre nós, que autoridade temos para isso? Nossa vã sabedoria produziu uma sociedade que polui águas, envenena o ar, esteriliza a terra. Uma sociedade supremacista, que exterminou 5 milhões de indígenas desde 1500, tratando-os como animais, e agora quer terminar o serviço sujo impondo o Marco Temporal. Uma sociedade arrogante, que sufoca culturas ancestrais e as condena ao ostracismo e à galhofa.

Para quem tem olhos de ver, Lesly e seus irmãos salvaram muito mais do que a si mesmos. A tradição dessas crianças, invocada apenas no lusco-fusco midiático, nos dá oportunidade de enxergar a vida no planeta de maneira diferente. Como uma unidade, sem hierarquias. A vida de uma formiga, uma borboleta ou um tubarão branco tem o mesmo valor do que a nossa, símios pelados que somos, carregando um imperador e cinco empáfias nas barrigas estufadas. Convém ouvir o que disse Ailton Krenak sobre a Terra-Mãe: “Seria como uma mãe, um dia pela manhã, reunir os filhos e ela sentir que os filhos estão dizendo: a gente não quer ficar aqui com você. A Terra está ouvindo isso da gente. Ela está sentindo isso da gente. E a maior parte desses filhos não estão nem aí. Eles estão mesmo a fim de ir para Marte”. Quem avisa, amigo é.

Abraço. E coragem.

Caroço debaixo do angu

Caroço debaixo do angu

O pau anda comendo na casa de Noca. Desde que o Ministério Público mandou retirar de todas as plataformas digitais o show “Perturbador”, do comediante Leo Lins, há um debate intenso sobre os limites da liberdade de expressão. Ou melhor: haveria limites para esta liberdade?

As “piadas” de Leo, que levaram o MP a agir, não são apenas de mau gosto, mas exemplos acabados dos preconceitos mais baixos que circulam pela sociedade. Contra negros, por exemplo. O artista conta, e a plateia do teatro adora (!), que “negro não consegue arrumar emprego, mas na época da escravidão já nascia empregado e também achava ruim”. Deboches desse tipo, que ajudam a “normalizar” o racismo, têm muitas variantes. A meu ver não diferem, na essência, dos insultos que Vinícius Jr. sofreu na Espanha. São frutos da mesma árvore tóxica.

O humorista Fábio Porchat chegou a qualificar de “censura” o banimento das piadas sórdidas, alegando que Leo Lins “tem o direito de ofender”. Diante de forte reação, chegou a retratar-se, mas muita gente pensa como ele. É um pensamento insano em tempos de redes globais de comunicação. Uma ofensa divulgada pela internet ultrapassa a fronteira limitada dos espaços de stand-ups e se torna, rapidamente, bandeira agitada por milhões de fanáticos viciados em ódio. É colírio para os olhos da extrema-direita e matéria-prima cumulativa para explosões de violência, verbal ou física, que atingem mulheres, gays, nordestinos, judeus, muçulmanos e tantos outros grupos.

Olho para meu próprio umbigo. O Menino conviveu com emigrantes de várias origens. No pequeno comércio da rua tijucana trabalhavam Ramiro, o espanhol do armarinho, Joaquim, o português do bar (onde vi pela primeira vez os misteriosos e imediatamente desejados tremoços), e Vitório, o italiano da barbearia (que esculpiu minha infância à imagem do corte Príncipe Danilo). A ligá-los, a pobreza que os expulsou de suas terras. Eram “diferentes”, mas jamais os olhei com desprezo ou empáfia. Como os portugueses eram maioria nas ondas migratórias d’antanho e, de modo geral, tinham baixo nível escolar, sofriam no máximo gozações nas “piadas de português”, que passavam longe da semeadura racista de gente como Leo Lins. Fui testemunha de que preconceitos não são doenças genéticas ou dados da natureza humana. Pertencem ao ramo dos males sociais, produtos coletivos, e como tais devem ser entendidos e combatidos.

Fui espectador assíduo da Escolinha do Professor Raimundo, uma das muitas criações do Chico Anysio. Alguns alunos reproduziam estereótipos sobre minorias. O homossexual Seu Peru, interpretado pelo ótimo Orlando Sccoby Doo Drummond, era muito popular, dizem que especialmente entre as crianças. O que pensariam disso os homossexuais? Por razões óbvias, o judeu Samuel Blaustein me constrangia particularmente. Era a personificação do judeu das anedotas antissemitas. Avarento, obcecado por cifrões, physique du rôle caricato. Em que medida esse tipo de caracterização ajudava a consagrar a imagem deformada de todo um povo? Não sei.

Existirão limites à comicidade? Ruth de Aquino escreveu que “existe uma linha tênue entre humor pesado, escatológico, ruim… e o humor criminoso”. Muitas vezes não é fácil identificar esta linha. A dificuldade, no entanto, não pode justificar um solta a boiada, um liberou geral, um os incomodados que se mudem (ou desliguem a televisão, o computador e o celular). Para ficar apenas no racismo, que, de longe, é o maior problema de discriminação no Brasil, não é aceitável disseminar, como piadas, situações objetivas de humilhação, dores físicas e psíquicas, vividas sequencialmente pelo povo negro em larga escala.

Antonio Prata escreveu artigo antológico sobre todas essas questões. Como eu, tem muitas dúvidas sobre a melhor forma de reprimir as manifestações de ódio e preconceito sem cercear a necessária liberdade de expressão (quem viveu a ditadura civil-militar inaugurada em 1964 sabe do valor da liberdade). Disse o Antonio: “Como fazemos para que a liberdade de expressão não seja um habeas corpus para a liberdade de opressão?”. Depois de inspiradas considerações, arremata: “É preciso combater o racismo e lutar pela liberdade de expressão. Necessariamente nessa ordem”. Onde se lê racismo, dilato para todas as formas de discriminação.

Abraço. E coragem.

Vidas em jogo

Vidas em jogo

Quinta era dia de “shportivo”. Nos treze jogos da Loteca depositava sonhos delirantes. Se o Trem empatasse com o Oratório, o Andirá vencesse o Náuas e o Real Ariquemes derrotasse o União Cacoalense, três zebras cravadas, ela talvez emparelhasse com a fortuna do Dudu, milionário instantâneo em 1972. Quem sabe? Got zol elfn.

Preenchido o cartão da Loteria Esportiva, valor mínimo da aposta, voltava à rotina, no seu passo curto também rotineiro. Enquanto catava os grãos de feijão, afagava esperanças antigas. Se eu ganhar, vou poder acordar mais tarde. Não mais na madrugada escura, preparar a marmita e o café da manhã do marido. Não precisaria contar vinténs, economizar na feira, para enfim comprar passagem, pegar um ônibus e viajar para São Lourenço, fim de mundo em seu periscópio de curto alcance. Acabariam as negociações intermináveis de pendura no açougue do Moishe Shoichet e daria um pé no traseiro do Pinchas Shneider, alfaiate cego de um olho, que fazia bainhas tortas e sempre errava no comprimento das calças. A roda do infortúnio repetia-se a cada semana. Sonhos.

O marido, pequeno comerciante de confecções em Caxias, era versado na loteria zoológica, inventada pelo Barão de Drummond. Jogo do bicho para os íntimos, que corria solto por aquelas bandas. Entendia de milhar, na cabeça, essas bossas. Aqui e ali ganhava uns trocados nas apostas, que nem davam para comprar um Morris Oxford de segunda mão para diminuir a tortura de viajar diariamente três horas no ônibus lotado, ida e volta, para a Baixada Fluminense. Sonhos tinha, mas a dura realidade eram as varizes profissionais que o espezinhavam atrás do balcão. Lembro bem delas, cobertas por ataduras amareladas e suspiradas pelo oi vei ancestral.

Nos anos 50 e 60, Caxias era quase sinônimo de ocorrências policiais. A rádio Tupi transmitia um programa diário na hora do almoço, chamado Patrulha da cidade. Pioneiro do sensacionalismo barato que demoniza as classes populares. Samuel Correia, o Samuca, era o locutor e suas ênfases montavam na cabeça do Menino uma paisagem assustadora das periferias do Rio, onde Caxias e a Invernada de Olaria tinham lugar cativo. Os transgressores, não importava se batedores de carteira ou assassinos cruéis, eram “vagabundos” ou “elementos”.

Em Caxias ficava a fortaleza, literalmente, de um dos políticos mais conhecidos daquelas décadas. Mansão projetada pelo Sérgio Bernardes! Tenório Cavalcanti, alagoano, era o demagogo típico, trocando favores por votos dos pobres. E o que não faltava em Caxias era pobreza crônica, enfileirada em ruas empoeiradas cujo cheiro sou capaz de sentir ainda hoje. A poeira que subia do chão de terra batida parecia vir de um filme de faroeste, véspera de duelo num curral qualquer. Tenório circulava trajando uma capa preta, dentro da qual levava uma metralhadora apelidada de Lurdinha. Alguém falou em faroeste?

De tanto ouvir falar nos bichos, ela ficou curiosa. Numa das muitas noites vazias, salpicada de melancolia, silêncio e luz fraca, perguntou ao marido que jogo era aquele. De cabeça baixa, tomando sopa e com a má vontade de sempre, ele grunhiu meia dúzia de palavras. Foi o suficiente. Ela tinha ouvido no rádio o Moreira da Silva cantando “Etelvina! Acertei no milhar! Ganhei 500 contos, não vou mais trabalhar”. Juntou a com b e dormiu pensando nas veredas que se abriam com a bicharada.

Sonhou que voava, com o vento desarrumando o cabelo obediente. Pedaços do céu tingiam suas asas de azul. Uma sensação estranha de leveza, que desconhecia. Acordou excitada. Pediu ao marido que fizesse uma fezinha na águia.

Deu borboleta.

Abraço. E coragem.

Tempo, tempo, tempo

Tempo, tempo, tempo

O tempo não tem restituição alguma (Antônio Vieira)

Excesso de contingente. Dessa maneira escapei do serviço militar obrigatório. Um pistolão providencial e me dispensaram do que seria certamente uma perda de tempo monumental. Direita volver!, um, dois, feijão com arroz, marcha soldado cabeça de papel, sentido!, descansar!!, ordinário, marche!! No certificado, lá estou eu com o ralo bigodinho dos dezenove anos, aliviado e livre como uma centopeia.

A dispensa formal se deu numa cerimônia no Passeio Público, centro do Rio. Claro, milico não dispensa uma formalidade. Faz parte do pacote da obediência cega. Missão dada é missão cumprida. Nós, felizardos isentos da caserna, precisávamos apenas repetir as palavras inúteis que o sargento bocejante ia berrar com a convicção em farrapos. Juro isso, prometo aquilo. E começou a pantomima. Assim que percebi que ninguém seria punido se apenas fizesse mímica, foi o que fiz. Mexi os lábios como no cinema mudo, sem fundo musical. Bzzzshhhblaaa… Uns sapos pulavam na grama, ricocheteando em nós. Testemunhas anfíbias da galhofa.

Quantas vezes, ao longo da vida, a gente participa de rituais vazios, quando gostaríamos de estar em outro lugar, com outras pessoas, tomando sorvete de casquinha, rindo de bobagens ou pegando jacaré numa onda camarada? Quantas reuniões, cerimônias, solenidades, sequestraram preciosos e irrecuperáveis tempos?

Por acidente, um baiano e um argelino me fizeram lembrar a sensação de perda de tempo. Pior quando ela vem acompanhada de sentimentos de culpa. São histórias que chegaram em dois livros que li em sequência. João Ubaldo Ribeiro narra os traumas associados à primeira comunhão, abastecidos por mal digeridas definições de pecado. Há humor no texto, mas nas entrelinhas dá para perceber a aflição de um menino de 12 anos entre a cruz e a caldeirinha, entre o despertar para as promessas da carne e as proibições dogmáticas da religião. O ritual abafa a contradição, mas, como não a elimina, produz sofrimento.

Albert Camus passou por processo semelhante. Para fazer a prova de admissão no antigo curso ginasial, precisava antecipar a primeira comunhão (tinha 9 anos). A avó, mulher de maus bofes e vontade categórica, deu um jeitinho (é, na Argélia também tinha disso) e o pequeno Albert começou a frequentar aulas de catecismo. Sempre pensando nas peladas que estava perdendo. Com memória tinindo, recitava perguntas e respostas que o padre ensinava. Para tudo havia respostas definitivas… No dia em que fugiu do padrão soturno, sorrindo para um colega, levou um violento tapa na cara do padre. Passou fácil pelo ritual da primeira comunhão, cujas palavras, disse mais tarde, não lhe significavam rigorosamente nada. A roupa branca, a fita no braço, a vela comprida na mão, era sequência que só interessava aos adultos. Seu tempo de criança estava em outro lugar.

Na tradição judaica, o ritual juvenil é o bar-mitzva. Aos 13 anos, o menino passa por um processo de aprendizado que o transforma em “adulto”, isto é, apto a participar com pleno direito da liturgia religiosa. Vivi essa situação. Um especialista na área, doce homem, de quem guardo memória carinhosa, me passou todas as informações. Memorizei tudo direitinho, fui aprovado e satisfiz a vontade dos adultos. Mudou minha vida? Tive iluminações de sabedoria? Nem um pouco. Os grandes mistérios não se perturbaram, os dogmas não aliviaram a carga existencial.

Religiões adoram cláusulas pétreas. Dúvida (em gestos e pensamentos) e pecado são rima rica para elas. Para o tempo de crianças e adolescentes, perguntadores inseguros, seria melhor que elas prestassem atenção num certo Padre Ezequiel, personagem do poeta Manoel de Barros n’O livro das ignorãças. Fala, querido pantaneiro: “Descobri aos treze anos que o que me dava prazer nas leituras não era a beleza das frases, mas a doença delas. Comuniquei ao Padre Ezequiel, um meu Preceptor, esse gosto esquisito (…) Gostar de fazer defeitos na frase é muito saudável, o Padre me disse. Ele fez um limpamento nos meus receios. O Padre falou ainda: Manoel, isso não é doença, pode muito que você carregue para o resto da vida um certo gosto por nadas… E se riu”. Quanto tempo afetivo ganhariam crianças e adolescentes se, ao invés da severidade adulta, do gesso ritualístico e dos infernos religiosos, tivessem acolhimento para suas dúvidas e carências! Tempo de diálogo ao invés de tempo de enquadramento e rigidez.

Abraço. E coragem.

Gestos

Gestos

A boca aberta não era por espanto ou susto. Menos ainda preparo para levá-la ao trombone. O som ambiente, do motorzinho velho conhecido, acendia sinais amarelos e medos antigos, mas o dentista tinha seus truques. Balançava minha bochecha antes de aplicar a anestesia salvadora e falava de nossa paixão comum: a música clássica. Foi assim, quase na horizontal, que, pela primeira vez, ouvi falar de Jacqueline du Pré.

Violoncelista extraordinária, Jacqueline construiu uma carreira sólida nos anos 60 e 70. Músicos e regentes admiravam sua enorme sensibilidade musical, que ganhou dimensão notável no Concerto para Violoncelo, de Elgar. Empunhando um de seus Stradivarius, ela conseguia a rara façanha de dialogar, simultaneamente, com o instrumento e o ouvinte. Tinha grande prazer no que fazia, o que ganhava forma em seu frequente sorriso (não por acaso, Smiley era seu apelido). De repente, a tragédia.

Com menos de 30 anos, sentiu que perdia a sensibilidade nos dedos. O diagnóstico de esclerose múltipla foi a sentença de morte na carreira. Enfrentou bravamente a doença, que acabou matando-a em 1987, aos 42 anos. Vendo suas performances nas imagens que deixou dá um nish guit, um mal-estar, pelo que se perdeu. Não há qualquer justiça no vale de lágrimas e, por que não?, prazeres que nos coube atravessar.

Esta semana, um amigo me enviou um pequeno documentário sobre Jacqueline. Há depoimentos de gente como Zubin Mehta, Pinchas Zukerman e Daniel Barenboim (com quem ela foi casada), que confirmam a importância da violoncelista na cena clássica. Foi desses presentes inesperados, que me acendeu memórias e desejo de reencontrar Jacqueline (neste momento, ouço-a no Concerto de Elgar; o violoncelo parece a voz potente, melancólica e expressiva de algum conhecido ou, melhor dizendo, uma multidão de viventes). Os presentes inesperados são os melhores. Os gestos espontâneos são os mais valiosos. O poeta Manoel de Barros disse que é no ínfimo que se vê a exuberância.

Lá atrás, terá sido em 1970?, um pequeno grupo de amigos da faculdade fez uma surpresa no meu aniversário. Eu já estava na idade em que não assoprava mais velinhas, nem tomava guaraná com brigadeiros. Coisa de criança, onde já se viu. Estava sozinho em casa, no silêncio dos meus anos, quando tocou a campainha. Eram eles, vinham em missão de quebrar a solidão. Nas mãos, um presente que guardo até hoje. Um LP da banda norte-americana Blood, Sweat and Tears, que fazia ricas combinações de jazz, blues, rock e música clássica. Pelo vozeirão de David Clayton-Thomas conheci God bless the child, e através desta canção cheguei a Billie Holiday. Das variações instrumentais sofisticadas sobre as Gymnopedies cheguei a Erik Satie. Devo ter gasto alguns sulcos do vinil de tanto ouvi-los, mas o mais importante tinha sido o gesto afetuoso. Não há prateleira suficientemente espaçosa onde possa acomodá-lo.

Daqueles amigos de faculdade tenho vagas notícias. O dentista que me abriu veredas de Jacqueline (e, por tabela, de Barenboim) está aposentado. Todos ajudaram a criar sentidos e vivências onde antes havia aridez. Não foi pouco.

Abraço. E coragem.

Tiros nos pés

Tiros nos pés

Você aí, consegue imaginar o Drummond sendo tachado de fascista, colonialista, capacitista e misógino? Por favor, não caia da cadeira, mas esse foi o quadro pintado numa crônica recente do Antonio Prata. Calma, não foi ele quem cometeu o disparate. No texto, simula uma aula em que a professora se propõe a analisar o Poema de Sete Faces, aquele do “quando eu nasci, um anjo torto…”. Os alunos vão “problematizando” agressivamente cada palavra, cada expressão, ignorando completamente a persona lírica do itabirano. Metáforas? Nem pensar. Ao final, desencantada, a professora percebe que ninguém ali estava disposto a conversar. Todos já tinham a cartilha pronta, sectarismo na ponta da língua. E tome de ofensas histéricas ao Drummond.

Terminada a leitura, suspirei meio desanimado. Lá estava a mesma sensação de cerco dos revisionistas do passado, das patrulhas linguísticas, da cultura do cancelamento, de empobrecimento da inteligência. Não adianta, por exemplo, o Mário Lago ter explicado que a letra do Ai, que saudades da Amélia não tem nada de misoginia, que fala da mulher companheira, que compartilha com o parceiro momentos difíceis, sem protestar. Amor tem dessas coisas, né? Mário, militante do PCB, sabia do que falava. Foi preso várias vezes por motivos políticos e sua companheira o apoiou sempre. Amélia entrou de gaiata no navio e no índex, Mário foi condenado no tribunal sumário dos xerifes dos “bons costumes”.

Sérgio Rodrigues, escritor, jornalista e apaixonado pela língua portuguesa, é meu guru para questões gramaticais e linguísticas. Como eu, ele acompanha, apreensivo, o clima de guerra cultural que arma patrulhas vocabulares com argumentos frequentemente falaciosos. Um dos exemplos recentes, não riam!, é a palavra “ovulário”. Diga aí Sérgio: “A palavra ovulário, termo de nicho (…), é um neologismo que certos setores do feminismo acadêmico abraçaram como substituto de seminário”. O motivo? Semen, no latim, pode ser semente ou germe e é a matriz de sêmen, esperma. Seminário, no entanto, vem do latim seminarium, que era o lugar onde se plantavam sementes, viveiro de plantas. Por extensão, também de ideias, estudos, estudantes. Militância tosca dá nisso. Tiro no pé.

Há muitos exemplos de bobagens semelhantes. O verbo esclarecer não tem nada de racista. Refere-se à claridade, real ou metafórica, para uma visualização melhor de ideias, argumentos, objetos. Nada a ver com a cor da pele. A expressão “fazer nas coxas”, um clássico das acusações de racismo, não veio da fabricação de telhas com forma de coxas escravas. Isto seria contraproducente em termos anatômicos, funcionais e econômicos. E por aí vai. A lista, como o cordão dos puxa-sacos, cada vez aumenta mais.

O latim foi banido das escolas há muitas décadas. Não cheguei a ter aulas sobre essa que é a base do nosso português. Nosso idioma não herdou do latim o gênero neutro. Por isso, a tradição recomenda que a concordância, por razões fonéticas e não sexuais, acompanhe o gênero masculino. Não há “machismo ancestral” na parada. Não uso amigues, amigxs, prezades, todes, companheires e por aí vai. O masculino, em todos esses casos e nada a ver com supremacismo machista, condensa melhor e sem povoamentos desnecessários os coletivos a quem me dirijo. Sem ofender, ignorar ou desqualificar ninguém.

Há palavras de dois gêneros, invariáveis na origem, que também estão sob ataque. Não se trata de condenar quem prefira, por exemplo, reforçar a nuance feminista e inventar a palavra presidenta. Da minha parte, voto com o Sérgio Rodrigues. Presidente, gênero invariável desde sempre, tem, além do mais, sonoridade melhor. Se perturbarmos a regra tradicional, teremos uma chuva torrencial de gerentas, atendentas, adolescentas, displiscentas, conscientas, decadentas, ardentas, gentas, serpentas, valentas, efervescentas, uma lista inclementa. Oxenta!

Sei perfeitamente que há racismo estrutural, as mulheres são discriminadas e as palavras exprimem o estado de espírito da sociedade (sem esquecer sua historicidade; caso contrário, validaremos a censura infame de textos antigos, “politicamente incorretos”). Quando, no entanto, se ultrapassa a fronteira do ridículo e se lança mão de falácias para defender causas justas, as vítimas principais são essas causas e seus defensores. O descrédito resultante será sempre usado pelos racistas e misóginos, na tocaia para aproveitar uma boa oportunidade. Por outro lado, cabe perguntar se a principal frente de luta está mesmo nas mudanças vocabulares. Chamar mendigo de pessoa em situação de rua vai mudar o quê? Ou, convocando Millôr Fernandes para o palco, albino de hipopigmentado, gago de loquaz intermitente, desemprego de lazer não solicitado? As matrizes da discriminação são mais complexas e os nomes têm importância, mas são apenas a crosta que cobre a superfície e ilude a distinta plateia.

Abraço. E coragem.